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sábado, 22 de março de 2008

Literatura africana de resistência ao colonialismo português

Imagem: Jan Nederveen Pieterse, Estereotipos corroborados por estudos científicos


* Domingos Lobo
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A esperança e a revolta


A nossa missão civilizadora em África e o modo como os negros das colónias sentiam essa dádiva civilizacional, está ficcionada de maneira expressiva e brutal no romance Autópsia de Um Mar de Ruínas, de João de Melo, na forma como uma mulher negra reage contra os colonizadores ao imaginar a independência sonhada: Quando vier o dia da independência, o sol vai ser branco ainda, é certo; mas não terá de esconder a cara, não vai mais estremecer no chão com vergonha dos pontapés e dos chicotes destes brancos: será de certeza um outro sol de verdade na hora da nossa libertação. Os brancos virão a rastejar p’las covas, sô Valentim, esse polícia sacana, terá de fugir muito, muito, muito, mas fugir para onde, se não tem mais terra nem lugar no mundo para ele? No mesmo registo de esperança redentora sem, no entanto, conter a componente da vingança (que de resto só existe no imaginário auto flagelador de certos autores portugueses comportando-se estes, em virulência de propósitos – felizmente que só nas palavras – como audazes justiceiros) encontra-se no poema Sonho da Mãe Negra, do poeta moçambicano Kalungano (pseudónimo literário de Marcelino dos Santos, um dos chefes políticos da Frelimo) – Mãe negra/Embala o seu filho/E esquece/que o milho já a terra secou/Que o amendoim ontem acabou/Ela sonha sonhos maravilhosos/Onde o seu filho iria à escola/À escola onde estudam os homens/Mãe negra/Embala o seu filho/E escutando/A voz que vem de longe/Trazida pelos ventos/Ela sonha mundos maravilhosos/Onde o seu filho poderá viver.
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As raízes da revolta nas colónias, traduzida nas vozes de poetas angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos (divulgada, sobretudo, através das edições policopiadas da Casa dos Estudantes do Império), não se esgotam, naturalmente, nas três colónias onde a guerra eclodiu. Noutras colónias, consideradas paraísos tropicais de paz e harmonia interétnica, igualmente a nossa marca civilizadora não deixou de se manifestar acutilante, contrariando a tese de que as estruturas repressivas do salazarismo, versão colonial, seriam mais intimidantes do que activas.
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Sobre S. Tomé penso que pouco se escreveu. São raros os autores do arquipélago, a guerra de libertação foi inexistente, as raras manifestações de descontentamento dos autóctones foram prontamente reprimidas pela máquina colonial. Sobre a inventona de Batepá, aparte alguns textos saídos na revista História, da autoria de Gerhard Seiberg e no Diário de Notícias, da autoria de Carlos Pacheco, quase nada se sabe. A mitologia colonial conseguiu criar uma espécie de utopia negativa que ainda hoje persiste (e as diversas intervenções verificadas nos dois Congressos Sobre a Guerra Colonial já realizados, têm provado que a mistificação e branqueamento da nossa administração colonial continuam activas) e serve de tampão ideológico utilizado, subtilmente, pelas forças conservadoras, objectivamente impedindo que a verdade seja divulgada em toda a sua dimensão, encobrindo os culpados, nomes e condutas assassinas de alguns dos mais altos serventuários do Estado Novo.
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Da poesia e ficção produzida por autores nascidos em S. Tomé, no período que medeia entre 1953 e a descolonização, conhecemos A Ilha de Porto Santo, de Francisco José Tenreiro, poemas de Alda do Espírito Santo – que justamente testemunham os massacres de Batepá – alguns poemas transcritos na antologia de poesia africana de expressão portuguesa organizada por Mário de Andrade, e pouco mais. Não queria deixar de referir um dos textos mais belos e singulares da literatura portuguesa contemporânea, romance premonitório pelo qual perpassam alguns dos traços principais da nossa má consciência colonial – refiro-me ao A Nau de Quixibá, de Alexandre Pinheiro Torres, autor que aí viveu o período breve de umas férias durante a adolescência. Nesse texto o autor anuncia já, apesar da acção se passar em 1939, os sintomas de mal estar social, a revolta surda que haveriam de conduzir à génese da inventona de Batepá, ou de Mata, Pá!, na versão feliz do escritor Sum Marky.
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Claro que falar das atrocidades do colonialismo português quando algumas forças conservadoras tentam, com cínico impudor, manipular a trocados as consciências de alguns dos nossos forçados combatentes que participaram, ao longo de 13 anos, nas três frentes de guerra (também eles vítimas desamparadas e descartáveis do colonialismo) e quando os tempos parecem de feição ao retorno de práticas maccartistas, dilatórias e opressoras que estiveram na origem das mesmas, ainda deixa marcas nas invisíveis feridas que o processo abriu.

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Bibliografia: "A Guerra e a Literatura", de Rui de Azevedo Teixeira –Veja
- "Resistência África" - Antologia poética - Org. Serafim Ferreira – Diabril
- Revista História
- Documentos da Fundação Portugal-África - Un. De Aveiro
- Autópsia de um Mar de Ruínas, de João de Melo - Círculo de Leitores



in Avante 2003.o3.20
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domingo, 6 de janeiro de 2008

Ir no contrato - os primeiros textos




A primeira vez que tomei conhecimento com o termo contrato, ir no contrato, foi ao ler a peça Canto do Papão Lusitano, de Peter Weiss. Foi, igualmente, o meu primeiro conhecimento da questão colonial. A leitura do texto de Peter Weiss contribuiria, de forma determinante, para a minha posição crítica e distanciadora face à propaganda do regime quanto à nossa postura administrativa nas províncias do ultramar e a ausência de racismo nas relações entre europeus e africanos. O Canto do Papão Lusitano teve uma importância tão determinante no nosso olhar a baça realidade circundante, que o meu círculo de amigos, com o cenógrafo Ferreira d’Almeida e o actor Carlos Mourato à cabeça, resolvera, num imparável gesto de paixão cega, aos gritos surdos de revolução, já! na nossa banca de tertúlia infante do VáVá, lançar-se à tradução da versão francesa que nos chegara por diligente mão clandestina e dar-lhe forma teatral num palcozinho improvisado em armazém que ficava nas traseiras da Avenida dos Estados Unidos da América: não há gesto, por mais subversivo que se imagine que, ironicamente, não esbarre com os símbolos, mesmo os da toponímia mais geral, tendentes à destruição desses alicerces de lava. Valeu-nos, na irresponsabilidade ingénua mas generosa desta acção demolidora, os avisos fundamentados de um amigo, mais conhecedor dos processos inquisitoriais do regime contra veleidades do género, alertando-nos para o carácter suicidário do projecto. Os nossos 17/18 anos amainaram de ímpetos heróicos, a nossa cultura pequeno-burguesa retiniu em dó sustenido forte (andávamos, por esse tempo, embrulhados nas margens confusas de uma pseudo-esquerda festiva) e ficámo-nos pelo Á Espera de Godot, de Samuel Beckett, versão soft, convencidos que, também desse modo, beliscávamos sem piedade o edifício repressor do salazarismo. Ninguém deu por nós, felizmente.
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No entanto, o texto de Weiss, na clara secura da denúncia, despertou-nos para a tomada de consciência crítica sobre as questões da guerra levando-nos a reflectir sobre as razões da rebelião armada nas colónias – então, com meia dúzia de anos no activo, estando nós, jovens adolescentes, convencidos que a guerra terminaria antes de para lá nos levarem aos tombos de mala de porão e bornal seboso, desamparados e incrédulos, perdidos pelos corredores brumosos do Vera Cruz. Não terminou a tempo, como dolorosamente e na pele o haveríamos de sentir.

Denúncia do colonialismo

A denúncia do colonialismo português em África, através da poesia escrita por jovens poetas das colónias, de uma forma mais interventiva, consciente e politizada, teve início em 1953, com a publicação de uma «antologia de poesia negra de expressão portuguesa», dirigida por Francisco José Tenreiro e publicada pelo «Centro de Estudos Africanos», na qual colaboraram, entre outros, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Mário de Andrade. É igualmente nesse ano de 1953 que Alda do Espírito Santo denuncia de forma corajosa, em poemas eivados de raiva e de revolta, os trágicos Massacres de Bateja (ou de Batepá), que tiveram lugar em S. Tomé, em Fevereiro desse mesmo ano.
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Em finais da década de 50, início de 60 do século XX, a «Casa dos Estudantes do Império» começava a divulgar, de forma tímida e vigiada, os poetas e contistas africanos de expressão portuguesa mais relevantes, através de edições policopiadas. O núcleo que se congregava em torno da editora Imbondeiro, em Sá da Bandeira, dirigida por Garibaldo de Andrade, retoma em Angola o esforço divulgador iniciado pela «Casa dos Estudantes do Império», cuja acção cultural foi fortemente reprimida e suspensa pelo regime fascista, a partir de 1962.
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De grande significado político e cultural, para uma global tomada de consciência das raízes profundas da revolta contra o colonialismo, sobretudo entre os jovens intelectuais africanos, foi a publicação, em 1962, do ensaio Tomada de Posição na Literatura de Cabo Verde, de Onésimo da Silveira (nascido em S. Vicente, em 1935), no qual o autor afirma que «a literatura dos seus predecessores não poderia conduzir a uma tomada de consciência das realidades sociais de Cabo Verde». Neste texto, Onésimo da Silveira denuncia algumas posições conformistas dos intelectuais ligados à revista Claridade, entre os quais Jorge Barbosa (nascido em S. Tiago, em 1902), que recebeu em 1956 o prémio de Poesia da Agência Geral do Ultramar.
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Em 1965 é atribuído pela Sociedade Portuguesa de Escritores, ao livro Luuanda, de Luandino Vieira, o Grande Prémio de Novelística. Esse facto levou o governo fascista a destruir e ilegalizar, de forma brutal, aquela instituição de escritores.
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Em 1969, Mário de Andrade publica em Paris, nas Edições de Pierre Jean-Oswald, a antologia La Poésie Africaine d'Expression Portugaise, acompanhada de um prefácio que enquadrava essa poesia no contexto da luta pela independência dos povos das colónias.

Bibliografia: O Canto do Papão Lusitano, de Peter Weiss
– Resistência Africana - antologia poética – Org. de Serafim Ferreira (Diabril/1975)
Documentos da Fundação Portugal-África – Univ. de Aveiro
A Guerra Colonial e o Romance Português, de Rui de Azevedo Teixeira – Ed. Notícias
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in Avante 2008.01.03