Mostrar mensagens com a etiqueta Paul Signac. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paul Signac. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Paul Signac

Signac.jpg
.
dia ideal para combater moinhos de vento
.

Devias estar aqui

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
.
Eugénio de Andrade
.

10 de janeiro de 2010

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
.
Bertold Brecht
.

09 de janeiro de 2010

Faz-me o favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
.
Mário Cesariny
.

Albert Lynch

Lynch%20Albert%2C%20Young%20Woman%20Holding%20Flower.jpg
.
antevisão da primavera distante
.

Melodia

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.
.
José Agostinho Baptista
.

08 de janeiro de 2010

Hoje

lgbt.jpg
.
porque é um dia especial
.
Por Ana Roque às 17:49 de 08 de janeiro de 2010 |
.
.

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Modus vivendi


Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
.
Miguel Torga
.

Esta manhã encontrei o teu nome

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
.
Maria do Rosário Pedreira
.

07 de janeiro de 2010

Paul Signac

signac-paul-03.JPG
.
amanhã, o sol
.

A vila

A vila
o canto longínquo do tempo
deixa-me para sempre. É pouco.
nas dunas crescem as flores novas.
.
João Miguel Fernandes Jorge
.

Vem, serenidade!

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
.
Raul de Carvalho
.

Joos de Momper II

Joos%20de%20Momper%20II.jpg
.
inverno, ainda...

06 de janeiro de 2010

Ausência

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
.
Vinicius de Moraes
.

Ghirlandaio

Ghirlandaio%20D-2_jpg.jpg
.
a real adoração
.

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Modus vivendi

"Werde der du bist."
Goethe



05 de janeiro de 2010

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.
.
Jorge de Sena
.

John Singer Sargent

MissesVickers1884%20J.S.%20Sargent.jpg
.
The Misses Vickers, ou o encanto familiar


Era o último amor

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.
Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?
Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.
Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.
.
Luís Filipe Castro Mendes
.

04 de janeiro de 2010

Cinco sentidos

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?
.
David Mourão-Ferreira
.

Paul Signac

signac.port-st-tropez.jpg
.
Porto de St. Tropez, ou inspiração para esquecer o inverno
.

Por muito tempo

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
.
Carlos Drummond de Andrade
.

03 de janeiro de 2010

ressoou um beijo

Sobre o regaço tinha
o livro bem aberto;
tocavam em meu rosto
seus caracóis negros.
Não víamos as letras
nem um nem outro, creio;
mas guardávamos ambos
fundo silêncio.
Por quanto tempo? Nem então
pude sabê-lo.
Sei só que não se ouvia mais que o alento,
que apressado escapava
dos lábios secos.
Só sei que nos voltámos
os dois ao mesmo tempo,
os olhos encontraram-se
e ressoou um beijo.
.
Gustavo Adolfo Bécquer
.

Magritte

6magritte.jpg
.
enigma quase esfíngico
.

um dia puro

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
.
Sophia de Mello Breyner Andresen
.
Por Ana Roque às 09:43 de 03 de janeiro de 2010 |

sábado, 2 de janeiro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

 01 de janeiro de 2010

Julius LeBlanc Stewart

Julius%20LeBlanc%20Stewart.jpg
.
projecto para um belo fim de semana
.

Beijo de Rodin

.
não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença e
leves contradições sem alarme e gafanhotos.

não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.

.

Sylvia Beirute
.

Julius LeBlanc Stewart

Stewart_Julius_LeBlanc.jpg
.
o dia seguinte
.

Da literatura

"Há uma literatura para quando se está aborrecido. Abunda. Há uma literatura para quando se está calmo. Esta é a melhor literatura, acho eu. Também há uma literatura para quando se está triste. E há uma literatura para quando se está alegre. Há uma literatura para quando se está ávido de conhecimento. E há uma literatura para quando se está desesperado."
Roberto Bolaño, in Os Detectives Selvagens, trad. Miranda das Neves
.

31 de dezembro de 2009

A Criação

(gentileza de Amélia Pais)
.

Felizes estes homens que podiam escrever da Criação,
confiadamente compor-por mais dores que sofressem
enquanto humanos e como seres viventes-
tão jubilantes cânticos do criar do Mundo.

Era belo, era bom, era perfeito o Mundo.
É certo que o cantavam quando apenas criado,
e o par humano pisava sem pecado
o jardim paradisíaco.

Nós nem mesmo em momentos únicos,
raríssimos, epifânicos
-e não só por não crermos no pecado-,
não podemos.

.

Jorge de Sena
.

30 de dezembro de 2009

Magritte

magritte3.JPG
.
da profundidade
.

Parábola de la inconstante

Antes cuando me hablaba de mí misma, decía:
Si yo soy lo que soy
Y dejo que en mi cuerpo, que en mis años
Suceda ese proceso
Que la semilla le permite al árbol
Y la piedra a la estatua, seré la plenitud.

Y acaso era verdad. Una verdad.
Pero, ay, amanecía dócil como la hiedra
A asirme a una pared como el enamorado
Se ase del otro con sus juramentos.

Y luego yo esparcía a mi alrededor, erguida
En solidez de roble,
La rumorosa soledad, la sombra
Hospitalaria y daba al caminante
- a su cuchillo agudo de memoria -
el testimonio fiel de mi corteza.

Mi actitud era a veces el reposo
Y otras el arrebato,
La gracia o el furor, siempre los dos contrarios
Prontos a aniquilarse
Y a emerger de las ruinas del vencido.

Cada hora suplantaba a alguno; cada hora
Me iba de algún mesón desmantelado
En el que no encontré ni una mala bujía
Y en el que no me fue posible dejar nada.

Usurpaba los nombres, me coronaba de ellos
Para arrojar después, lejos de mi, el despojo.

Heme aquí, ya al final, y todavía
No sé qué cara le daré a la muerte.

.

Rosario Castellanos
.

29 de dezembro de 2009

Paul Signac

Signac_BoulClichy86.jpg
.
outro inverno, outra cidade
.

Da melancolia

O namoro durava o que dura um Verão,
tanto e tão pouco, quase nada.
Era um sopro, uma embriaguez,
um êxtase, com o mar ao fundo
a trazer para o areal algas e conchas,
restos de comida, garrafas vazias,
objectos náufragos, nomes de sereias.
O Verão, às vezes, durava uma vida.
Outras vezes durava uma noite.
Havia uma canção que marcava a cadência
da paixão volátil: Smoke Gets in Your Eyes.
Como seria ridículo dizer isto em português.
Depois havia as cartas e os retratos
com dedicatórias lembrando aquele Agosto,
aquele passeio de barco, aquela
madrugada no Palm Beach
ao som de Yesterday. Era tão veloz
esse tempo que parecíamos envelhecer
uma vida em cada semana.
Se morria um amigo, era como
se morresse para sempre a magia do Verão.
E nunca mais houve amores
como esses, primordiais e inocentes. Totais.
Voltar a eles é tão impossível
como voltar ao aconchego do ventre materno.
O namoro durava apenas um Verão,
mas é sempre a ele que voltamos
quando a palavra amor nos queima os lábios.

.

José Jorge Letria
.

 
.

28 de dezembro de 2009

Paul Cesar Helleu

Peggy_Letellier%20PCHelleu.jpg
.
Peggy Letellier preparada para o inverno
.

Nem sempre foi assim

(gentileza de Amélia Pais)
.

Nem sempre foi assim
quando tudo entre nós ficava branco
tu passavas o tempo nas minhas mãos

a contar os barcos que saíam para o mar
e gostavas de imaginar outros horizontes
a vida está sempre a mudar, dizias-me,
e eu sabia que nada mais te poderia dar
além do quarto alugado onde dormíamos.

.

Alexandre de Castro
.

27 de dezembro de 2009

O Livro Infindável VI

O livro: capa, apresentação, dedicatória,
prólogo, sobrecapa, texto.
O primeiro capítulo: a letra decora
o início do texto. A sobrecarga
de tinta sobre a palavra dita
em mágica retórica.

Iniciado, o livro se demonstra infindável
em vicissitudes e tragédias. O riso esplendoroso
dos adjetivos e a aspereza das palavras
em cantos dedilhados como músicas.

Permanece o infindável assunto:
remete o leitor à profundeza
grandeza
altivez
ao alto espaço
percorrido
na civilização
incorporada
como texto.

Fecho o livro, apago minhas marcas
sobre o insucesso da leitura. Destaco
em riscos o ranger dos dentes.

O livro permanece infindável na estante
onde repousa o instante inicial do personagem.
.
Pedro Du Bois

.

 
.

26 de dezembro de 2009

Paul Cesar Helleu

Mademoiselle_VaughanPC%20HElleu.jpg
.
Mademoiselle Vaughan
.

O Livro Infindável V

Infindável livro: melancólico
em tristezas disfarçadas; saudoso
no sono e o sonho de páginas percorridas
com a ponta do dedo molhado no virar
a página seguinte e seguinte e seguidamente
destituída do caminho.

A mesma página reduz dramas
em comédias. A tradução em introdução.
O remédio entre duas e três
palavras ditas em repetições.

A dimensão inexata: leio e releio a página atual
e busco ao molhar o dedo a folha seguinte.

Infindável parábola metaforicamente
recolhida ao dia. O rubor da face diante
do desconhecimento do elenco formatado
na recontagem da história.

Leio o título e tateio o livro:
sobram espaços vazios de leituras
não iniciadas. A infindável vida
desregrada aos óbices
e o sexo permissível
aos homens de vontade
insubmissa à criação
literária

.
Pedro Du Bois
.

Paul Cesar Helleu

helleu.jpg
.
dia de preguiça, a recuperar das festas
.

25 de dezembro de 2009

O Livro Infindável IV

.
Ao contrário do prometido
o mundo se revela ingrato ao leitor
amigo: esmigalhado entre
conceitos e a concepção da história.

O livro infindável confia
ao homem a leitura do tempo
em espaços intercalados.

Dimensão: sonho a continuação
da história em palcos, em cinemas
desfeitos em estacionamentos.

A infindável história destruída
no silêncio dos automóveis estacionados.

O som da buzina, o ranger dos freios,
o personagem atropelado sobre o friso
central do palco: a rampa leva o carro
ao centro e o desfaz em capítulos.

.

Pedro Du Bois
.

Domenico Ghirlandaio

Ghirlandaio%20D-3_jpg.jpg
.
um natal vindo do século XV
.

O Livro Infindável III

.
Uma vez estive aqui penso
como leitor
e folheio a página infindável
do livro. Pela lombada calculo
a quantidade de folhas e a multiplicidade
das páginas.

Não imagino o peso entreolhado no vértice
do conto, do romance; no hemistíquio
do poema declamado.

Infindável o corpo se junta ao livro
e sonham finais infelizes, finais
acalorados em beijos. Finais
inexistentes.

.

Pedro Du Bois
.



sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Arte e Poesia em Modus Vivendi

17 de dezembro de 2009

A pele e o vento

Quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a pele em poesia desabrocha
dizendo nua os versos de
arrepios.

E se o Vento sopra sussurrante
como uma brisa morna estremecendo
os pêlos
a Pele, que é poesia,
mergulha em desvarios
e canta para a lua seus versos
de delírios
e espera suplicante o toque
redentor.

(até que o vento, em sopros
de amor
se deita sobre a Pele
e suas mãos segura.)

então a Pele, agora em loucura
sente os cabelos longos do Vento
lhe fazerem cócegas; ouve os
sussurros do Vento em suas costas
sente sobre si o peso do desejo

e cândida, rende-se;
lânguida, deita-se;
ávida, molha-se;

sente nas costas o peso
do Vento
e treme;
agita-se;
inunda-se;
e sonha;

tem dentro de si o corpo
do Vento
e tranca-se;
e move-se;
e geme;
e goza
(grávida, imensa, grata, plena);

quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a Pele em poesia desabrocha
e a vida inteira fica
diferente.

.

Nálu Nogueira
.

16 de dezembro de 2009

Paul Signac

59_signac.jpg
.
memória do verão
.

Poema da Amante

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente. 

.

Adalgisa Nery 
.

15 de dezembro de 2009

The Love Song of J. Alfred Prufrock

(excerto)
It is perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin? 

.

T. S. Eliot 
.

Louis-Edouard Dubufe

dubufe_.jpg
.
duas irmãs, tão diferentes como gotas de água
.

A Água

Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.

.

Paulo Bomfim 
.

Arte e Poesia em Modus Vivendi

25 de dezembro de 2009


Fra Bartolommeo

Fra%20Bartolommeo-2_jpg.jpg
.
o renascimento bem presente
.

24 de dezembro de 2009

O Livro Infindável II

O livro infindável traz
a perda de tempo. O tremor
da terra devastada.

Nenhuma vírgula acrescentada
ou diminuída. Nenhum ponto de vista
encontrado ou escondido.

Na infindável história em capítulos
e subtítulos o livro se depara com a vontade
férrea do leitor. O livro nas mãos.
Em qualquer cidade, na espera, na angústia
da ante-sala do hospital. A aproximação do clímax
e a antecipação da vida repetida.

.

Pedro Du Bois
.

Domenico Veneziano

Domenico%20Veneziano_jpg.jpg
.
um presépio quatrocentista
.

O Livro Infindável I

Folheio o livro
infindável
em temas
e termos
e resumos
e resenhas
e cálculos
e artifícios
e artilharia
pesada

releio o texto
e desconcerto
palavras em letras
indispostas
aos olhos
fechados

o livro infindável
multiplicado
em páginas
repete passagens
de errados personagens:

os mortos
os amortecidos
as mortalhas
a sensação indecifrável
do mistério na página
seguinte.

Absorvo o tema e o contemplo
em escala: a janela
do mundo transportada
à página anterior.

.

Pedro Du Bois
.

23 de dezembro de 2009

Paul Signac

signac_sunday.jpg
.
à espera da família...
.

Come into the Garden, Maud

.
Come into the garden, Maud,
For the black bat, night, has flown,
Come into the garden, Maud,
I am here at the gate alone;
And the woodbine spices are wafted abroad,
And the musk of the rose is blown.

For a breeze of morning moves,
And the planet of Love is on high,
Beginning to faint in the light that she loves
On a bed of daffodil sky,
To faint in the light of the sun she loves,
To faint in his light, and to die.

All night have the roses heard
The flute, violin, bassoon;
All night has the casement jessamine stirr’d
To the dancers dancing in tune;
Till silence fell with the waking bird,
And a hush with the setting moon.

I said to the lily, “There is but one
With whom she has heart to be gay.
When will the dancers leave her alone?
She is weary of dance and play.”
Now half to the setting moon are gone,
And half to the rising day;
Low on the sand and loud on the stone
The last wheel echoes away.

I said to the rose, “The brief night goes
In babble and revel and wine.
O young lord-lover, what sighs are those,
For one that will never be thine?
But mine, but mine,” I sware to the rose,
“For ever and ever, mine.”

And the soul of the rose went into my blood,
As the music clash’d in the hall:
And long by the garden lake I stood,
For I heard your rivulet fall
From the lake to the meadow and on to the wood,
Our wood, that is dearer than all;

From the meadow your walks have left so sweet
That whenever a March-wind sighs
He sets the jewel-print of your feet
In violets blue as your eyes,
To the woody hollows in which we meet
And the valleys of Paradise.

The slender acacia would not shake
One long milk-bloom on the tree;
The white lake-blossom fell into the lake
As the pimpernel doz’d on the lea;
But the rose was awake all night for your sake,
Knowing your promise to me;
The lilies and roses were all awake,
They sigh’d for the dawn and thee.

Queen rose of the rosebud garden of girls,
Come hither, the dances are done,
In gloss of satin and glimmer of pearls,
Queen lily and rose in one;
Shine out, little head, sunning over with curls,
To the flowers, and be their sun.

There has fallen a splendid tear
From the passion-flower at the gate.
She is coming, my dove, my dear;
She is coming, my life, my fate;
The red rose cries, “She is near, she is near;”
And the white rose weeps, “She is late;”
The larkspur listens, “I hear, I hear;”
And the lily whispers, “I wait.”
.
She is coming, my own, my sweet;
Were it ever so airy a tread,
My heart would hear her and beat,
Were it earth in an earthy bed;
My dust would hear her and beat,
Had I lain for a century dead;
Would start and tremble under her feet,
And blossom in purple and red.


Alfred Tennyson
.

22 de dezembro de 2009

John William Waterhouse

John%20William%20Waterhouse.jpg
.
a rosa
.

Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

.

Sophia de Mello Breyner Andresen
.

21 de dezembro de 2009

Júlio Pomar

pomarj.jpg
.
cores a desafiar o cinzento do dia
.

sílaba por sílaba

O Piano sílaba por sílaba
Viaja através do silêncio
Transpõe um por um
Os múltiplos murais do silêncio
Entre luz e penumbra joga
E de terra em terra persegue
A nostalgia até ao seu último reduto

.

Sophia de Mello Breyner Andresen
.

Solstício de Inverno

Em 2009, o Solstício de Inverno ocorre no dia 21 de Dezembro às 17h47m. Este instante marca o início do Inverno no Hemisfério Norte, a estação mais fria do ano, que se prolonga por 88,99 dias. A Primavera chegará com o próximo Equinócio, no dia 20 de Março de 2010 às 17h32m.
.
Os solstícios (em Junho e Dezembro) são os pontos da eclíptica em que o Sol atinge as posições máxima e mínima de altura em relação ao equador, isto é, pontos em que a declinação do Sol atinge extremos: máxima no solstício de Verão e mínima no solstício de Inverno.