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sábado, 15 de março de 2014

Vinícius Olivo - Dança da Morte, de August Strindberg


* Vinícius Olivo

Para começar a abordagem dessa peça, tenho que antes fazer uma pequena introduçãoao autor, para que o entendimento seja maior depois.
 August Strindberg é o precursor de toda modernidade do teatro de hoje em dia. Filho de um burguês com uma criada, desenvolveu desde pequeno um complexo de inferioridade que mais tarde se expressaria no seu primeiro romance: "O Filho da Criada". Suas obras tem um traço revolucionista, não contra o sistema, mas contra os comportamentos do homem em relação a sua família, religião, crença... Strindberg teve uma história um tanto quanto derradeira em relação as mulheres e a sua vida pessoal, tendo por fim uma crise de paranóia e expressando um misogenismo extremo. Suas obras tem um tom naturalista e expressionista.
 Com base nisso podemos começar a nossa abordagem a peça.

 A peça é tensa, tem um clima denso do qual um minuto perdido pode significar a perda de todo um conflito. Nos mostra o convívio gasto de um capitão de artilharia e uma ex-atriz que culpam um ao outro por ter perdido suas vidas e suas ambições em nome do casal, vivendo há 25 anos numa torre de guarda em uma ilha, isolados do mundo e das outras pessoas. Todo desenrolar da peça segue esse conceito base, o comportamento dos personagens e todos conflitos derivam desse tema e não se desgrudam do mesmo um minuto. Por se tratar de Strindberg já é de se esperar que a mulher não seja uma flor, e realmente ela não é, conforme a peça avança vemos a mulher cada vez mais venenosa, geniosa e diabólica enquanto o homem cresce num misto de avareza e consciência caótica inigualável. 

 A crise do casal vem a tona e explode com a entrada de um terceiro personagem que fora quem os casou há tempos atrás, fazendo com que os dois criem uma força gigantesca, mas em função de rivalidade e destruição de um ao outro, fato que tem uma pausa após um infarto de Edgar, o capitão, que muda um pouco seu ver da vida, pois não o mata, e nos dá fatores atuais como o medo da morte, o arrependimento. Daí em diante vemos uma trama pra lá de diabólica acontecer entre o casal sempre com o terceiro personagem como ponto de equilíbrio, horas pendendo mais para um lado, horas para o outro, até que a história tome seu devido fim.

 Strindberg levanta uma série de questionamentos, seja eles o porque da existência, a vida de casal, a violência doméstica e até mesmo a incrível disputa de poderes entre homem e mulher - a briga mais antiga da história - e nos faz pensar sobre a peça, sobre nossas relações, como abordamos nossas prioridades, de modo que gera uma série de questionamentos saudáveis e suas devidas conclusões, tal como o filme anticristo.

 Indico para quem tenha tempo de lê-lo e interpretá-lo, uma simples leitura deixa passar muitos fatores em branco, deixando depois uma série de incógnitas sobre a peça. Agora que conheci sua obra pretendo todas outras, nota 10!

sexta-feira, 14 de março de 2014

O amor redime mas aqui não há amor

O amor redime mas aqui não há amor

24.10.2012 - Ana Dias Cordeiro
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A vida interior das personagens de A Dança da Morte tem mais de um século, mas parece dos dias de hoje. Marco Martins mostra como no São Luiz
A última casa onde August Strindberg (1849-1912) viveu em Estocolmo não tinha cozinha. As refeições eram-lhe servidas por um restaurante próximo. Na sala, tocava-se piano, Beethoven, para enganar o vazio das horas sem fim em noites sem nada para fazer - as mesmas de que o escritor sueco fala longamente nos seus diários. Era de dia que o dramaturgo escrevia. E o que escrevia era de tal maneira virado para o íntimo das personagens e para a claustrofobia do casal que podia ter sido escrito hoje.

Foi essa intemporalidade que levou Marco Martins a escolher encenar A Dança da Morte (1900) - a peça, que junta Miguel Guilherme (Edgar, o capitão), Isabel Abreu (Alice) e Sérgio Praia (Kurt) estreou-se ontem no São Luiz, em Lisboa, onde estará até 17 de Novembro. Por ser um clássico que prescindia de qualquer "recontextualização", foi uma escolha natural para o cineasta e encenador, que pegou nestas três "personagens sem salvação", como muitas outras do universo de Strindberg, esquecendo-se de que foram escritas há mais de um século. Depois, colocou-as frente a frente num huis-clos inspirado no próprio mundo de Strindberg: os seus diários, a casa onde morou, os cafés que frequentou e as ruas por onde andou em Estocolmo, que Marco Martins visitou. Numa frase: toda a matéria que envolveu em vida o escritor e que ficou, como pedra, para além da sua morte

O dito e o não-dito

É também dessa matéria que vive a encenação desta peça com contornos vagamente autobiográficos. Não que A Dança da Morte seja um reflexo do(s) casamento(s) falhados do escritor; é antes um reflexo do casamento da sua irmã com um capitão. Na peça, a ilha em que a irmã de Strindberg viveu com o marido é metafórica; como o é também a quarentena que traz Kurt de volta a este lugar sem nome e à casa de Edgar, um oficial que nunca chegou a major por ser "um tirano com alma de escravo", como diz Alice. Também ela remói um passado que podia ter sido e não foi: casou, deixou a promissora carreira de actriz e agora é tarde de mais para voltar.

Strindberg não era um homem só. Ou pelo menos não aparentava sê-lo. Foi casado três vezes, sempre com actrizes, e a diferença de idades aumentava à medida que ia envelhecendo. Na vida real, o escritor não terá deixado o ódio instalar-se no casamento da forma como ele se instala na peça. Ou talvez sim.

O capitão Edgar de A Dança de Morte também é casado. Mas revela-se ao espectador como um homem amargurado e só. É dele a frase: "Se tivermos paciência, quando vier a morte talvez a vida comece." Di-la a Alice, cínica e manipuladora, e ao mesmo tempo uma mulher dedicada e uma excelente mãe. É como uma zona de sombra sob a forma de personagem. Como aliás Edgar e Kurt, "num texto que vive muito do que não é dito", diz Marco Martins ao Ípsilon. A peça assenta nos diálogos. Mas neste "dizer muita coisa" também há muita coisa sobre o passado que não se diz. "A construção da biografia das personagens tem de ser feita por nós", continua. E sendo esta "uma peça de actores, de personagens e de personagens muito complexas", o encenador só avançou quando tinha os actores certos.

Teatro íntimo

Em A Dança da Morte, a possibilidade de divórcio em fundo reflecte a sociedade sueca da viragem do século XIX para o século XX, época em que as mulheres viviam com grande liberdade. "Este é um lado extremamente actual, que nos liberta da ideia de estarmos a fazer um clássico", sublinha Marco Martins. A complexidade das personagens também atraiu o encenador. Estas peças permitem "um trabalho íntimo com os actores" que lhe agrada.

Mas no princípio de tudo, e invertendo raciocínios, houve a vontade de trabalhar com Miguel Guilherme. Como se só depois do sim do actor o resto fizesse sentido e as outras escolhas também fossem naturais: Isabel Abreu para Alice e Sérgio Praia para Kurt. Um triângulo claustrofóbico que o encenador transpõe para o palco como uma sala com grades onde normalmente estão paredes, e onde o único meio de comunicação para o exterior é um telégrafo e não um telefone, para impedir que outros escutem as conversas. É neste ambiente de desconfiança e paranóia que se desenrola o diálogo entre as três personagens, que só raramente estão juntas em palco. O triângulo só se fecha porque a relação se revela nos diálogos a dois. E a sua revelação é a sua destruição.

O casal vive numa torre isolada, um forte que foi em tempos prisão - também aqui metáfora do tormento conjugal. Edgar e Alice são duas metades que se revêem num espelho de frustrações acumuladas que exibem "a maneira como sempre projectamos as nossas frustrações no outro quando vivemos em casal": "Este futuro que vai sendo sempre adiado, este clima de frustrações constantes sempre presente e de projecção no outro dos nossos falhanços" é um clássico contemporâneo, admite o encenador.

Para Marco Martins, que conhecemos sobretudo do cinema, como realizador de Alice (2005) e de outros filmes, não é difícil traçar paralelos com o mundo actual e a falta de perspectivas - "Nós identificamo-nos, espelhamo-nos nas obras que vemos, vemo-nos onde queremos" -, da mesma maneira que é natural imaginar esta peça como um filme. "Estamos a trabalhar, muitas vezes, dentro de uma linguagem muito cinematográfica, porque é muito virada para dentro, nada histriónica, e muito pouco teatral."

Os actores estão ligeiramente amplificados "para não destruir a psicologia das personagens". É como um grande plano sobre a capacidade de Edgar, Alice e Kurt esquecerem a sua humanidade.