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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um poeta do neo-realismo: Veiga Leitão


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Um poeta do neo-realismo: Veiga Leitão

Jorge Gonçalves Guimarães
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Veiga Leitao

Fernando Guimarães (à esquerda), Veiga Leitão (ao centro) e Albano Martins (à direita) - 1985


Os anos vinte e trinta do século XX europeu foram marcados pelos regimes fascistas: o italiano, com Mussolini, desde 1923; o português, anunciado com a ditadura militar instaurada em 1926; o alemão que foi sem dúvida o que maiores marcas deixou; finalmente, depois da Guerra Civil de Espanha, o de Franco. Ora, se aceitarmos a ideia de que as vivências humanas e a forma do Homem ver o Mundo informam, inevitavelmente, os modos de representação e produção artística, compreende-se facilmente que aquele contexto político, sem dúvida adverso, ao qual poderiam ainda acrescentar-se os efeitos da crise económica de 1929, tenha influenciado a produção literária.
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Centre-se pois a atenção no Portugal da terceira década. Com a Constituição de 1933, e toda a legislação superveniente, foram proibidos os partidos políticos; os sindicatos ou qualquer forma de associação batiam no escolho da organização corporativa, ela própria, em nome do centralismo estatal, cerceada até ao final da década de cinquenta. Mas nem a censura, a polícia política , as prisões e o degredo abafaram uma parte da classe intelectual que, associando-se às classes mais desfavorecidas, sobretudo às rurais, teceu, de uma ou outra forma, sérias críticas aos poderosos círculos do capital bancário, agrícola, industrial e colonial. Na literatura, o autor - sem dúvida marcado por referências ideológicas mais ou menos próximas do marxismo e do materialismo histórico - sintonizado com os problemas e realidades económicas, sociais e políticas do seu tempo, ultrapassa o plano da criação estética e procura denunciar o desfavorecimento de uma classe social face à decadência e corrupção dos estratos dominantes. Ilustrativo desta ideia é a afirmação de Alves Redol em Gaibéus: «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documento humano fixado no Ribatejo. Depois disso será o que os outros entenderem.»
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Desta forma, a literatura apresenta-se preenchida por um envolvimento histórico e social, inserido numa cultura de oposição que, no início da década de quarenta, vem a público com o aparecimento de duas colecções de livros: o Novo Cancioneiro, orientado para a poesia, a os Novos Prosadores, dedicado à ficção. Surge assim a chamada corrente neo-realista.
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Mas novo em relação a quê? Novo em relação às correntes anteriores, sobretudo o Realismo do século XIX. Novo também porque é a transposição para a arte de uma nova forma de conhecer e se posicionar perante o Mundo. No entanto, a utilização do prefixo “neo” não significa que tenha havido um corte tão radical quanto poderia parecer à primeira vista; relativamente à Geração de 70, a novidade diz essencialmente respeito à postura ideológica. Com efeito, nem o neo-realismo convoca qualquer aproximação ao socialismo utópico, nem as vítimas aparecem envoltas numa auréola de glória. Agora, o Homem, autor ou personagem, assume um papel determinante e uma capacidade de intervir numa sociedade que se considera decadente, ou seja, o conhecimento do mundo exterior faz-se acompanhar de uma compreensão transformadora. Note-se que a Geração de 70, não encontrando soluções adoptou uma atitude de resignação.
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Nos dois realismos existe a intenção de representação do real; o que muda é o alicerce ideológico, aspecto que, inevitavelmente, como qualquer obra literária comprometida ideologicamente e, por isso, interventora, informa as opções temáticas de um e de outro. Assim, se no realismo encontramos temas como o adultério, a ambição, a crítica de tipos sociais burgueses, etc., no neo-realismo as preocupações estão mais ligadas ao proletariado e à sua condição económica, à consciência de classe, à opressão económica ou política, etc.
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A literatura, mesmo como fenómeno de criação estética, pode ser categorizada como forma de conhecimento, ainda que os seus processos de designar ou apreender o real sejam diferentes dos da ciência; mais, pode mesmo afirmar-se que, recorrendo a formas de expressão simbólicas correspondentes também a uma posição de conhecimento, procura ou tem por objecto uma realidade que a ciência não toca ou, pelo menos, não esgota.
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É esta realidade que encontramos nos textos de meados do século do poeta Luís Veiga Leitão, notoriamente influenciados pelo neo-realismo de intervenção política.
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Pseudónimo de Luís Maria Leitão, Veiga Leitão, nasceu em Moimenta da Beira em 1915. Concluído o curso dos liceus, dedicou-se, depois de ter sido demitido de escriturário da Federação dos Vinicultores da Região do Douro, por ser contra o regime, à actividade comercial no ramo dos produtos farmacêuticos. Dois anos depois de publicar o seu primeiro livro de poesia (1950), Latitude, é preso por motivos políticos em Caxias onde escreve os textos aqui antologiados que viriam a ser publicados em 1955 sob o título Noite de Pedra. Em 1967, para como muitos outros evitar nova prisão, exila-se no Brasil de onde regressará, para viver no Porto, em 1976.
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Nos textos que frequentam Noite de Pedra podemos encontrar elementos descritivos de uma situação vivida pelo poeta numa situação concreta: a prisão em Caxias. Mas de um universo fechado e hostil, inscrito em «Noite de Pedra», a escrita, no texto «A uma Bicicleta Desenhada na Cela», encaminha-se para outras realidades que, por afirmação de uma vida interior, convocam a liberdade.
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Luis Veiga LeitaoNOITE DE PEDRA1
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Noite de pedra
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Cerração de muros
arames farpados
grades de ferro
cruzes de ferro
nas campas rasas
duma luz morta
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E a lua os cornos da lua
uma baioneta calada
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Noite de pedra noite forjada
- para que o silêncio esmague
o coração dos homens
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A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA2
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Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.
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Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...
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Bem haja a mão que te criou!
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Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

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1 Luís Veiga Leitão, Longo Caminho Breve. Poesias Escolhidas. 1943-1983, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985, p. 47.
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2 Op cit., p. 70.

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http://www.revista.brasil-europa.eu/105/Veiga-Leitao.htm - Revista Brasil-Europa
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Poemas de Luís Veiga Leitão

Ler, escrever e contar

 

quarta-feira, 25 de abril de 2007


25 de abril! Poemas de Luís Veiga Leitão

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Para lembrar o aniversário da Revolução dos Cravos que, em 25 de abril de 1974, libertou Portugal da ditadura salazarista, propomos a você, rara ou raro leitor, a leitura destes poemas de Luís Veiga Leitão, nascido em Moimenta da Beira (Portugal) a 27 de maio de 1912. Estes versos se referem ao período em que o autor esteve encarcerado como preso político.
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Incomunicabilidade
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Caneta, lápis, papel
e lâmina de ponta de lua
um autômato do bolso me tirava...
Depois a minha mão ficou nua
da vestimenta que usava.
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Mas deram-me uma tinta preta
(nuvem negra dum fogo posto)
e meteram-me no tinteiro...
Na tinta, afogo as mãos, o rosto,
o meu corpo inteiro:
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A força, o canto, a voz que encerra,
ninguém, ninguém pode afogar
– como as raízes da terra
e o fundo do mar.
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Carta
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Lanço as palavras ao papel
como pescador calmo
lança os barcos ao rio.
Só no fundo, no fundo inviolado,
contraio e espalmo
as minhas mãos, mãos de afogado
morrendo à sede.
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– Meu amor estou bem –
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Quanto te escrevo,
ponho os olhos no teu retrato
pendurado nos ferros da minha cama
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para que as palavras tenham o sabor exacto
de quem me ouve,
de quem me fala,
de quem me chama.
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– Meu amor estou bem –
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Ontem vi a Primavera
numa flor cortada dos jardins.
Hoje, tenho nos ombros uma pedra
e um punhal nos rins.
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– Meu amor estou bem –
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Se a morte vier, querida amiga,
à minha beira, sem ninguém,
hei-de pedir-lhe que te diga:
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– Meu amor estou bem –
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A uma bicicleta desenhada na cela
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Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.
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Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...
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Bem haja a mão que te criou!
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Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.
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In Latitude, 1950, com poemas da prisão, incluído em Obra completa, organizada por Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, publicada em bela edição, ilustrada com desenhos do autor, por Campo das Letras, Porto, Portugal, em 1997. A edição de 1950 teve sua circulação proibida então em Portugal.
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Em 1967 Luís Veiga Leitão transferiu-se para o Brasil, talvez, principalmente, para que o filho Luís não fosse convocado à guerra colonial. Após viver alguns anos em Niterói – onde chegou a participar das atividades da Livraria Diálogo – retornou a Portugal no calor da hora do retorno à democracia. Anos depois, quando estava no Brasil para lançamento de sua antologia poética Biografia pétrea, publicada pela Thesaurus www.thesaurus.com.br , de Victor Alegria, faleceu subitamente (em 9 de outubro de 1987) na cidade fluminense que o acolheu e onde fez muitos amigos, como o signatário destas linhas.
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Postado por Aníbal Bragança às 12:49
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Luís Veiga Leitão

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Acompanhamento Lírico
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Desceu a nuvem.  E de vale em vale 
     a manhã ficou pálida suspensa 
     Árvores lama fronte de quem pensa 
     vestem de branco um branco glacial 
     Como flecha de lume no vitral 
     também minha alma que brilhou intensa 
     novamente afogou sua presença 
     no fundo de uma túnica irreal
     E levo-a
     pelo mar fora pelo mar da névoa 
     sob o silêncio úmido profundo
     em cujas mãos de lágrimas deponho 
     o mutilado corpo do teu sonho 
     corpo sem asas de voar no mundo


 .
Jornal de Poesia - http://www.revista.agulha.nom.br/lvg01.html
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Luís Veiga Leitão




Não
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Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
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Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...

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..

http://www.revista.agulha.nom.br/lvg05.html - Jornal de Poesia

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Acompanhamento Lírico
Resistência
Manhã
Corredor
Não

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http://www.astormentas.com/poemas.aspx?tp=&id=Lu%C3%ADs%20Veiga%20Leit%C3%A3o

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       DOMINGO  
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               Luís Veiga Leitão 
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                                      Hoje é domingo? Não e sim, 
                                      Para ser dia que se vive 
                                      mergulho as mãos em mim 
                                      e tiro os domingos que tive. 

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. http://www.palavrarte.com/poesia_mundo/poepelomun_portugal_contemporanea.htm#poeta1
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Luís Veiga Leitão Um poeta militante




Anselmo
Dias


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Luís Veiga Leitão
Um poeta militante
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«Vi de perto. Vi e respirei; a fome do Alentejo nos camponeses que pelas masmorras de Caxias comigo partilharam as grades e o negrume dos dias. Estou a vê-los ainda, nitidez que resiste, debruçados e sôfregos, rentes ao prato de alumínio, colheres batendo apressadas no fundo... Único ruído (proibidas falas e olhos levantados) do silêncio carregado e tenso de nós todos, centenas ao tempo. Refeitório cercado por metralhadoras da GNR prontas a varrer e, lá dentro, vigilância canina de funcionários, braçadeira de serviço, pistola rabo de fora e bala na câmara».
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O texto acima retrata o ambiente prisional vivido por quem, em 30/3/1952, foi, pela PIDE, privado da liberdade.
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Foi julgado em 22/12/1953 e libertado em 1955.
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Falamos de Luís Maria Veiga Leitão, poeta, militante do PCP e figura importante do movimento neo-realista, a quem, nestas páginas do jornal Avante! queremos, singelamente, recordar no sexagésimo aniversário da publicação do seu primeiro livro, saído da tipografia no ano de 1950.
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Nesse livro, que condensa a sua produção poética produzida na década de quarenta, está já assinalado o preço que o autor havia de pagar pelo seu empenhamento cívico e intelectual.
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Basta ler o poema que, na altura, se intitulava «Marcha», posteriormente mudado para «Passo Compacto», para se perceber que, mais tarde ou mais cedo, haveria contas a ajustar com a PIDE. Vale a pena, pois, passados 60 anos, recordar esse poema, cuja estética e cujo conteúdo tipificam, exemplarmente, a essência do movimento neo-realista (o sublinhado é da nossa responsabilidade).
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MARCHA

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A manhã gatinhava e descia
do telhado à rua deserta.
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Homens de passo compacto,
a boina à banda, a camisa aberta,
seguem, batendo o rumo exacto
das fábricas uivando à luz do dia.
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E os homens na rua amanhecida
vão de camisa aberta e rumo exacto
remando o corpo, remando a vida,
ao passo compacto.
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E de fábricas o casario
e de chaminés as silhuetas,
são cascos e mastros de navio
arvorando bandeiras pretas.
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Duma esquina o longo friso
é florete afiado à luz.
Um bêbado surge e desperta,
e o passo bambo, o passo indeciso
morre, traçando uma cruz,
no caminho do passo compacto
dos homens de camisa aberta
e rumo exacto.
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E de fábricas o casario
e de chaminés as silhuetas,
lembram cascos e mastros de navio
arvorando bandeiras pretas.
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À gente fútil e vã,
à gente de noite perdida,
parece mais cedo a manhã
ao ouvir o passo compacto
dos homens de rumo exacto
remando o corpo, remando a vida.
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E de fábricas o casario
e de chaminés as silhuetas,
lembram cascos e mastros de navio
arvorando bandeiras pretas.
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O teatro da rua é onda a crescer.
Mas há comédias,
mas há tragédias,
cenas, intervalos e actos
que apenas se podem ver
ao coro dos passos compactos.
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E desfeitas as silhuetas
e atingido o rumo exacto,
os homens de passo compacto
mudaram as bandeiras pretas.

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O Poeta não disse, mas qualquer um de nós compreende que «os homens de passo compacto», tendo atingido «o rumo exacto» mudaram as bandeiras negras da fome para as bandeiras vermelhas da revolução, ou seja, o escritor, utilizando a forma e o conteúdo neo-realista, deu-nos, através de uma marcha, ilustrada por uma linguagem extremamente cinematográfica, o retrato do proletariado como classe ascendente, aquela que, organizadamente, desfeito aquilo que há a desfazer, há-de transformar o mundo, um mundo que seja um não-lugar para as bandeiras negras da opressão.
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Luís Veiga Leitão, escritor maldito por ter engrossado o maldito movimento neo-realista, isto segundo as ideias dominantes das classes dominantes, Luís Veiga Leitão, dizíamos nós, viveu a violência da prisão durante cerca de três anos, tendo, dessa amarga experiência, produzido, em 1955, um segundo livro, «Noite de Pedra», que foi proibido pela PIDE e cujo conteúdo constitui, por um lado, um corajoso libelo acusatório ao regime fascista e, por outro, um hino à firmeza ideológica de quem estando privado da liberdade não se vergou aos esbirros da polícia política e aos algozes dos Tribunais Plenários.
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Jorge de Sena, a propósito dos poemas deste livro, considerou que os mesmos «...transcende todo o literalismo apaixonado em que muito neo-realismo se perdeu, são do melhor e mais válido que essa poesia tem produzido entre nós»
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Trata-se, pois, de um livro antológico do qual salientamos o seguinte poema:
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COLUNA
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Levanta a fronte, levanta!
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Que toda a gente saiba de quem é
Não faças dela a cinza duma chama
nem planta nua dum pé
abrindo covas na lama.
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Levanta a fronte, levanta!
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Não faças dela espelho a descoberto
onde o quebrado corpo se despoja,
nem chão intérmino e deserto
em que a dor se roja.
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Levanta a fronte, levanta!
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Para quê essas sombras que te inundam,
sombras roxas e lôbregas de becos?
Para quê essas rugas que se afundam
como leitos de rios secos?
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Levanta a fronte, levanta!
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Foi a cela que te anoiteceu
com charcos de medo e gelo?
Quem trouxe um sonho como o teu,
jamais deve perdê-lo.
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Levanta a fronte, levanta!
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Quem ergue a fronte, levanta a voz,
levanta o sonho num facho a arder:
Ele é maior que tu e todos nós
- um mundo por nascer

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Não é preciso ser especialista para se perceber que o Poeta, no 1.º poema «Marcha» estava a descrever uma realidade que não era nem passadista nem estática mas, antes, dinâmica, ou seja, através da expressão artística, neste caso através da poesia, estava a descrever algo em movimento, projectado no futuro, cujo desfecho não poderia ser outro que não fosse, pela acção, o fim da exploração do homem pelo homem.
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Também não é preciso ser especialista para se perceber que o Poeta, no 2.º poema, «Coluna» não obstante a prisão, assumia de corpo inteiro, sem se vergar aos efeitos da clausura, um projecto de sociedade, por ele referido de «um mundo por nascer».
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Daqui decorre que, como bem refere Carlos Reis, na sua obra «Textos Teóricos do Neo-Realismo», este movimento literário «valoriza a dimensão ideológica da criação literária, bem como a sua capacidade de intervenção sociopolítica, à luz dos princípios fundamentais do materialismo histórico».
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Todavia, como também muito bem refere Urbano Tavares Rodrigues, «Não podemos, contudo, afirmar que todos os escritores geralmente arrumados no neo-realismo projectem em suas obras a visão marxista com o mesmo rigor e empenhamento. O que, efectivamente, os aparente é a denúncia da miséria e a explicitação da luta de classes...», embora, em nossa opinião, em várias obras neo-realistas o que sobressai não é «... a explicitação da luta de classes...» mas, apenas, «... a denúncia da miséria...».
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Estamos, pois, em cambiantes diversas, perante um movimento literário que não sendo um património exclusivo dos comunistas é, pela amplitude dos seus intervenientes, pela sua estética, pelo seu conteúdo, pela obra produzida e pela natureza da respectiva criação artística, um património colectivo que dignifica a cultura portuguesa e que muito nos deve orgulhar.
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Uma pequena biografia do poeta
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Luís Veiga Leitão nasceu em Moimenta da Beira a 27 de Maio de 1912, tendo, durante uma visita ao Brasil, falecido a 9 de Outubro de 1987.
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Entre uma data e outra, enquanto estudante, fez parte de um movimento que visada a criação de uma universidade livre, realização impedida, obviamente, pelo Governo de Salazar.
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Por ter sido antifascista foi demitido de escriturário da 7.ª brigada cadastral da Federação dos Vinicultores da Região do Douro e, com já atrás referimos, foi preso pela PIDE.
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Em termos profissionais, em Portugal, esteve ligado à propaganda médica.
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Em meados de 1967 radicou-se no Brasil, tendo, neste país exercido várias actividades como sejam redactor, pesquisador iconográfico, bibliotecário, desenhador, leitor profissional, autor e locutor de programa de televisão.
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Publicou vários livros de poesias, sobre os quais, posteriormente, a confirmar a sua qualidade literária, foram publicadas várias antologias.
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Juntamente com Egito Gonçalves e Papiniano Carlos publicou Sonhar a Terra Livre e Insubmissa....
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Eis, em termos sumários, a figura de um Poeta Militante, um militante comunista, cuja poesia, inserida no movimento neo-realista, corresponde, integralmente, ao que Mário Dionísio havia proclamado no seu livro «Poemas», editado em 1941:
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A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases
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A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos

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A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.


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Fontes:
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Latitude, 1.ª edição, 1950
Noite de Pedra, 1.ª edição, 1955
Obra Completa de Luís Veiga Leitão, Campo das Letras, 1997
Líricas Portuguesa, Antologia organizada por Jorge de Sena, Portugália Editora, 1958
Há uma estética Neo-Realista?, Mário Sacramento, Publicações Dom Quixote, 1968
Textos Teóricos do Neo-Realismo, Carlos Reis, Seara Nova, 1981
Um novo olhar sobre o Neo-Realismo, Urbano Tavares Rodrigues, Moraes Editores, 1981

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Avante 1884 - 2010.01.07
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