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quinta-feira, 18 de março de 2021

Para falar de sidónio muralha: o poeta e baptista bastos


SIDÓNIO MURALHA (1920-1982)

* Ordem do Dia

* Pequenos deuses caseiros

* Soneto imperfeito da caminhada perfeita

* Para vós o meu canto

* Roteiro

* Poema de Abril

* A Paz

 

**Para falar de Sidónio Muralha, por Baptista Bastos (o artigo transcreve o poema "Natal")

 

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 Ordem do Dia

 

 

Homens novos temperados pela guerra,

das fábricas enormes e cinzentas

- rasgai poemas na terra

com as vossas ferramentas!

 

Homens das oficinas e dos cais,

dos campos e da faina sobre o mar

- porque não ensinais

os poetas a cantar?

 

Algemados - não importa por que leis -

seja qual for a vossa raça e a vossa casta,

vinde dizer o que sabeis!

- Por agora é quanto basta.

 

Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,

vergados da descarga do carvão!

Vinde! Porque chegou enfim o dia

de apressar a tarefa inconcluída!

 

- E a poesia, esta poesia,

é um facho que vai de mão em mão

pelos caminhos da vida.

 

 

In "Companheira dos Homens"

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PEQUENOS DEUSES CASEIROS

 

Pequenos deuses caseiros que brincais aos temporais,

passam-se os dias, as semanas, os meses e os anos

e vós jogais, jogais

o jogo dos tiranos.

 

Pequenos deuses caseiros, cantai cantigas macias,

tomai vossa morfina, perdulai vossos dinheiros,

derramai a vossa raiva, gozai vossas tiranias,

pequenos deuses caseiros.

 

Erguei vossos castelos, elegei vossos senhores,

espancai vossos criados, violai vossas criadas,

e bebei, bebei o vinho dos traidores

servido em taças roubadas.

 

Dormi em colchões de penas, dançai dias inteiros,

comprai os que se vendem, e alteai vossas janelas,

e trancai vossas portas, pequenos deuses caseiros,

e reforçai, reforçai as sentinelas.

 

Que é sempre um dia a menos este dia que passa,

e cada dia a mais aumenta o preço da traição,

e cada dia a mais aumenta o preço da desgraça,

e a nossa moeda não é piedade nem perdão

porque foi temperada com todas as lágrimas da raça.

Não, pequenos deuses caseiros, não!

 

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Soneto imperfeito da caminhada perfeita

 

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,

que possam perturbar a nossa caminhada,

em que os poetas são os próprios versos dos poemas

e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

 

Ninguém fala em parar ou regressar.

Ninguém teme as mordaças ou algemas.

- O braço que bater há-de cansar

e os poetas são os próprios versos dos poemas.

 

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.

Eu já não me pertenço: Sou da hora.

E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

 

que possam perturbar a nossa caminhada,

onde cada poema é uma bandeira desfraldada

e os poetas são os próprios versos dos poemas.

 

"A Argamassa dos Poemas"

 

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PARA VÓS O MEU CANTO...

 

Para vós o meu canto, companheiros da vida!

Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;

vós, para quem não existe batalha perdida,

nem desmedida amargura,

nem aridez nos desertos;

vós, que modificais o leito de um rio;

 

- nos dias difíceis sem literatura,

penso em vós: e confio;

penso em mim: e confio;

 

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

 

Se canto os búzios, que falam dos clamores,

das pragas imensas lançadas ao mar

e da fome dos pescadores,

- penso em vós, companheiros,

que trazeis outros búzios pra cantar...

 

Acuso as falas e os gestos inúteis;

aponto as ruas tristes da cidade

e crivo de bocejos as meninas fúteis...

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,

que trazeis ruas com outra claridade

e outro calor no apertar das mãos.

 

E vou convosco. - Definido e preciso,

erguido ao alto como um grito de guerra,

à espera do Dia do Juízo...

 

Que o Dia do Juízo

não é no Céu... é na Terra!

 

(«Passagem de Nível» - 1942)

 

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Roteiro

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Parar. Parar não paro.

Esquecer. Esquecer não esqueço.

Se carácter custa caro

pago o preço.

.

Pago embora seja raro.

Mas homem não tem avesso

e o peso da pedra eu comparo

à força do arremesso.

.

Um rio, só se fôr claro.

Correr, sim, mas sem tropeço.

Mas se tropeçar não paro

- não paro nem mereço.

.

E que ninguém me dê amparo

nem me pergunte se padeço.

Não sou nem serei avaro

- se carácter custa caro

pago o preço.

.

  "Poemas" Editorial Inova, Porto

 

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POEMA DE ABRIL

 

A farda dos homens

voltou a ser pele

(porque a vocação

de tudo o que é vivo

é voltar às fontes).

Foi este o prodígio

do povo ultrajado,

do povo banido

que trouxe das trevas

pedaços de sol.

 

Foi este o prodígio

de um dia de Abril,

que fez das mordaças

bandeiras ao alto,

arrancou as grades,

libertou os pulsos,

e mostrou aos presos

que graças a eles

a farda dos homens

voltou a ser pele.

 

Ficou a herança

de erros e buracos

nas árduas ladeiras

a serem subidas

com os pés descalços,

mas no sofrimento

a farda dos homens

voltou a ser pele

e das baionetas

irromperam flores.

 

Minha pátria linda

de cabelos soltos

correndo no vento,

sinto um arrepio

de areia e de mar

ao ver-te feliz.

Com as mãos vazias

vamos trabalhar,

a farda dos homens

voltou a ser pele.

 


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Para falar de Sidónio Muralha

16 Dezembro 2011, 12:03 por Baptista Bastos

Durante o Natal, os jornais de então publicavam festas e festarolas promovidas por empresas e companhias. O grande formato do "Diário de Notícias" e de "O Século", em Lisboa, e de "O Primeiro de Janeiro", "O Comércio do Porto" e "Jornal de Notícias" permitia a inclusão de imensas fotos com textos apropriados. A maioria dessas notícias era paga pelas empresas, mas havia outras que funcionavam como compensação a favores e a jogos de interesses entre as administrações daqueles jornais e as das empresas. Muitas vezes, eram jornalistas destacados para esses serviços. Não havia recalcitrantes: as coisas eram assim mesmo, e nem passa pela cabeça dos jovens profissionais os vexames por que passavam os velhos jornalistas encarregados daquelas e de outras tarefas semelhantes.

As lutas surdas, as resistências morais fazem parte de um honroso historial, que permanece oculto, dissimulado ou esquecido das gerações mais novas. Eu sei que, como em todos os sectores da sociedade portuguesa, os fenómenos de regressão estão a caminho e chegam a ultrapassar, em indignidade, o que, outrora, os patrões obrigavam os jornalistas a fazer. A obrigatoriedade não estava à vista, bem entendido: era a ordem rotineira das coisas que determinava a infâmia. A resistência, porém, existia; e, não raro, os conflitos de consciência ética atingiam fases extremamente conflituosas. . Conheci profissionais de Imprensa altamente qualificados porém esmagados pelas circunstâncias políticas sob as quais viviam e exerciam as suas funções. O fascismo não só prendeu, assassinou, homiziou, atirou para o degredo e para a morte centenas, certamente milhares de portugueses - o fascismo liquidou a capacidade de realização profissional e criadora de jornalistas, professores, cientistas, escritores, artistas, cineastas. A Universidade foi varrida por uma onda de violência e discriminação, quando dezenas de professores (do melhor de que Portugal dispunha) assinaram um documento de crítica ao "Estado Novo." Um desses professores, Mário Silva, de Coimbra (pai do pintor do mesmo nome), foi obrigado, para ganhar a vida, a vender enciclopédias de porta a porta. Mas as histórias de dificuldades a que o fascismo coagiu portugueses de diferentes orientações, mas todos amantes da liberdade e da democracia, são inúmeras e, por igual, indignificantes e pavorosas. Os instrumentos de coacção, repressão e constrangimento de que Salazar se serviu, para dominar um povo, foram, de facto, eficazes; mas não conseguiram liquidar a ânsia de liberdade e a coragem inaudita de quem se lhe opôs. A Imprensa censurada e vigiada, a literatura e a cultura em geral amordaçadas, perseguidas e manietadas existiram num quase milagre de persistência e de honra. Lembrei-me, agora, nesta quadra de um belíssimo poema de resistência, composto por Sidónio Muralha (1920-1986), um dos grandes nomes do neorealismo, cuja vida é um percurso fascinante e uma procura tenaz da liberdade e do sonho. O poema foi um grito de protesto a andou, de mão em mão, foi lido em associações e clubes de bairro, e estava naturalmente envolvido na luta mais geral em que os melhores de nós se comprometeram. Ei-lo: Hoje é dia de Natal E o jornal fala dos pobres Em letras grandes e pretas Traz versos, historietas, E traz retratos também Dos bodos, bodos e bodos Em casas de gente bem. Hoje é dia de Natal Mas quando será de todos? É uma poesia de combate, instrumental e destinada a obter efeitos imediatos. Era a voz indomável de um poeta hoje lamentavelmente esquecido, cuja vida foi uma entrega absoluta aos outros e à batalha contra o fascismo. Sidónio Muralha, filho do jornalista socialista Pedro Muralha, e irmão do actor Fernando Muralha, foi uma das figuras mais decentes e íntegras que conheci. Depois de Abril, conversei-o várias vezes e entrevistei-o para o semanário "o ponto", de que fui fundador. Muralha tinha publicado vários livros de literatura infantil, tivera de fugir de Portugal, com o seu amigo de sempre, o escritor Alexandre Cabral, instalara-se no Congo Belga até que se fixara no Brasil, onde casara com uma senhora que se lhe devotara. . Estas memórias afectuosas apenas desejam homenagear, em Sidónio Muralha, todos aqueles que enfrentaram, com a valentia das convicções, na luta directa, na militância partidária, ou através das palavras, a brutalidade de um tempo que alguns desejam fazer esquecer.


http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/para_falar_de_sidoacutenio_muralha.html


quarta-feira, 8 de março de 2017

Manuel da Fonseca - um grande escritor



Para Manuel da Fonseca, a literatura era um sonho de viver. 

Por Baptista-Bastos|00:30

Recordo muitas vezes o meu amigo, o seu sorriso triste, a palavra rápida, a percepção imediata das coisas, a coragem inaudita; e, também, a sua abalada ternura pelos companheiros, as melancólica confissões. Manuel da Fonseca, um dos maiores escritores de sempre da literatura portuguesa, o mais felino dos sarcastas e o mais generoso dos amigos. 

Havia, nele, a placidez dos grandes sonhos e a nobreza de olhar os camaradas com o respeito que eles, muitas vezes, não mereciam. Para ele, a literatura era um sonho de viver, e feria-o quando, aparentemente, o ignoravam. Passou, há dias, o aniversário da sua morte, recolhido ao Alentejo que escrevera como ninguém, num fulgor magoado e com o olhar enevoado de desgostos. 

‘O Fogo e as Cinzas’, admirável livro de contos, cuja organização se deve a Carlos de Oliveira, à mulher deste, Maria Ângela de Oliveira, e a José Gomes Ferreira, é um trabalho de amor e uma doação ao espírito daqueles tempos. Outros grandes títulos do grande autor; ‘Seara de Vento’, ‘Cerromaior’, filmado por Luís Filipe Rocha com a paixão devida, e outros mais. 

Certo dia, sabedor de que o meu amigo andava de dinheiro em baixo, falei com Francisco Pinto Balsemão para a entrada de Manuel da Fonseca como colaborador do jornal onde eu era redactor. E assim nasceram crónicas admiráveis, que eu editava no suplemento de domingo, sob o título ‘Pessoas na Paisagem’, uma experiência que me deu grande felicidade. Pontualmente, o meu velho amigo publicou, durante anos, sem uma falha, um texto ímpar que falava do seu Alentejo com a grandeza imaculada de quem escreve sobre o que ama. 

Estive, agora, a reler o grande escritor, com a emoção de quem está, de novo, a ouvi-lo e à sua voz pausada e lenta, revendo os seus olhos pequenos e vivos, recordando a sua lúcida atenção às coisas, aos homens e ao seu tempo. Mas, sobretudo, recordando a amizade e o afecto, de que sinto a falta.

terça-feira, 21 de julho de 2009

A ROSA MURCHA DE SÓCRATES

* Baptista-Bastos

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No emocionado êxtase de si próprio, José Sócrates anda pelo País a distribuir computadores. Faz discursos repletos de adjectivos e de nenhumas reticências. Como ninguém dá nada de graça, os recebedores das máquinas têm de as pagar, mais tarde ou mais cedo, acaso com leves descontos. Tudo em nome da ciência, da tecnologia e do conhecimento. E ponha lá, também, da "esquerda moderna", instrutiva expressão inventada nos melancólicos vagares de José Sócrates. Os portugueses estão cada vez mais aflitos, andam cheios de Prozac, enchem os consultórios de psicólogos e de psiquiatras, e o querido primeiro-ministro entrega-lhes computadores, na presunção de que vai erguer o moral da pátria.

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Portugal existe numa litografia graciosa e colorida, segundo no-lo é apresentado pelo Governo. Mas os números do desespero são assustadores. Admito que as evidências da realidade sejam extremamente maçadoras para a desenvolta modernidade do Executivo: meio milhão de desempregados; dois milhões de compatriotas em risco de pobreza; três milhões de famílias endividadas em cerca de 1,2 vezes o seu rendimento anual; 48 mil professores sem colocação; milhares de enfermeiros em estado de susto; e as dez maiores fortunas do País cresceram quase 14%.

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Possuo enorme rol de malformações sociais, criadas, aumentadas ou não resolvidas por este Governo que somente serve para nos dar desgostos, enquanto acusa os objectantes de intrigas rasteiras e manobras sórdidas. A verdade é que começamos a assistir a pequeninas insurreições de militantes do PS, que apontam Sócrates à execração socialista e o acusam de ter murchado a rosa. Ainda há dias, Alfredo Barroso deu alguma luminosidade ao triste Sol do Saraiva, aproveitando o rodapé em que foi paginado o seu artigo para reduzir a subnitrato este PS, o Governo e adjacências. É um texto exemplar, pelo que nomeia de danos irreversíveis provocados pela vigência destes "socialistas modernos".

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Porém, José Sócrates não só dissolveu as expectativas nele depositadas. Avariou, irremediavelmente, a grandeza de intenções contida na ideia de socialismo. Guterres causara amolgadelas graves no corpo cambaleante do infeliz partido, mas nada que se compare às cacetadas de Sócrates. Daqui para o futuro quem vai acreditar nos socialistas, no socialismo, no PS?, cuja história carrega um peso insuportável de derivas, desvios e traições.

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José Sócrates pode ser um guloso de tecnologia, um amante desvairado de cibernética, um "animal feroz", como se definiu numa preguiçosa e insensata entrevista ao Expresso. O que José Sócrates não é, sabemo-lo todos - e todos os dias: nem socialista, nem grande político nem grande primeiro-ministro.

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-escritor e jornalista

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bbastos@netcabo.pt


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in Diário de Notícias -


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