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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Viriato Soromenho Marques - A EUROPA À BEIRA DE UMA GUERRA IRRACIONAL

«A EUROPA À BEIRA DE UMA GUERRA IRRACIONAL! MAS SEREMOS CAPAZES DE A IMPEDIR?»

 * Maria João Caetano

2025 12 14 

O filósofo Viriato Soromenho Marques aponta o dedo aos EUA e à Europa pela forma como trataram a Rússia e subestimaram Vladimir Putin. E espera que no meio da escalada a que temos vindo a assistir, os líderes políticos de hoje tenham a inteligência que outros tiveram no passado e saibam dar um passo atrás. Até porque, os desafios que a nossa civilização enfrenta vão muito além da possibilidade de uma guerra: "A guerra nuclear será um ataque cardíaco. Por outro lado, a esclerose generalizada, que é um processo de morte, mas mais lento, é a crise ambiental"

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«Eu fiz as contas. No dia 12 de janeiro do próximo ano, a guerra na Ucrânia, a tal operação especial, como dizem os russos, terá mesma duração da guerra da Alemanha com a Rússia na Segunda Guerra Mundial. São 1.418 dias. De 22 de junho de 1941, quando Hitler invade a União Soviética até 8 de maio de 1945." No dia 12 de janeiro de 2026, completam-se 1.418 de guerra da Ucrânia. "E não me parece que neste momento a Rússia esteja esgotada", diz. "Tudo indica que este esforço de guerra está a acontecer com economia de meios e com economia de baixas", diz Soromenho Marques. Podemos estar numa escalada que obrigue a Rússia ou a desistir ou então a passar para a fase seguinte, com as armas nucleares, antecipa. "A verdade é que não temos nenhum exemplo de uma guerra nuclear anterior entre potências nucleares. O meu receio é que ninguém saiba controlar esta escalada».

Foi no passado dia 12, numa noite de inverno, fria e chuvosa, que um grupo de "corajosos", como lhe chamou Viriato Soromenho Marques, se juntou no auditório da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva para o debate "Guerra e paz: respostas, causas e soluções de hoje", o último dos três debates do ciclo "Uma ideia de harmonia", comissariado pela jornalista Alexandra Carita. Na mesa estava também Tatiana Moura, diretora da plataforma masculinidades.pt e investigadora do CES - Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Mas foi o filósofo e professor da Universidade Nova de Lisboa que, inegavelmente dominou a conversa.

Em 1983, em plena Guerra Fria, Viriato Soromenho Marques era um jovem a fazer inter-rail e passou algum tempo em casa de um amigo em Witten, na Alemanha. A estadia coincidiu com muitas manifestações pela paz devido à crise dos "euromísseis". "Nessa altura, a tensão entre o Pacto de Varsóvia e a NATO tinha crescido de forma exponencial. Novos mísseis estavam a ser colocados, quer no lado do lado soviético, quer do lado norte-americano e europeu", recorda o filósofo que tem atualmente tem 68 anos. "Só que nessa altura existia uma literacia sobre guerra nuclear que hoje está completamente ausente", diz, lembrando, por exemplo, que a mãe do amigo, que era dona-de-casa, "saía da sua vida e ia para a rua protestar"; ou ainda que havia uma canção "muito medíocre" que nesse verão foi um sucesso na Alemanha, intitulada "Besuchen Sie Europa (solange es noch steht)" - "Visita a Europa enquanto ela ainda lá está", que falava precisamente dessa ideia de que "isto vai acabar tudo em breve".

Terá sido esta vivência que o despertou para o problema da guerra na Europa. Depois dessa viagem, Viriato começou a pesquisar e a fazer entrevista e, em 1985, publicou o livro "Europa, o risco do futuro: a incerteza estratégica dos anos 80". O livro foi publicado duas semanas antes de Gorbachev ter tomado posse, iniciando o caminho para o fim da Guerra Fria.

"Isto que está a acontecer agora [na Europa], para mim, tem 42 anos. Isto não começou no dia 24 de fevereiro de 2022", diz, concluindo: "Para mim, isto é um pesadelo, porque eu, nessa altura, já era ambientalista e olhava para estas duas grandes ameaças. Por um lado, o ataque cardíaco. A guerra nuclear será um ataque cardíaco. Por outro, a esclerose generalizada, que é um processo de morte, mas mais lento, que é a crise ambiental", diz, introduzindo aqui um tema que é essencial no seu pensamento. Mas já lá vamos. Para entender o que se passa hoje na Europa o professor recua, precisamente, até à Guerra Fria e ao modo como esta terminou. E talvez, até, recuar um pouco mais, e perceber porque é que existem guerras.

 

AS GUERRAS SÃO EVITÁVEIS?

 

"Em toda guerra existe violência, mas nem toda violência é guerra. Isto é importante porque a violência pode ser exercida pelo indivíduo, está relacionada, individualmente, com a agressividade. Mas a condição fundamental para a guerra é a existência de uma entidade artificial, que é o estado - uma estrutura que é uma pessoa coletiva, uma estrutura sem paixão, que decide do uso da violência bélica", explica Viriato Soromenho Marques.

É por isso que para perceber as guerras é preciso entender o conceito de estado soberano. "A guerra e a paz entre nações está também associada à teoria do contrato social, que se parece um pouco com a física atómica", diz. "Temos os indivíduos que são pequenos átomos e que depois se organizam em moléculas que são sociedades." Na ordem política e na ordem legal, existe um poder de sanção. Mas, neste aspeto, "a analogia com a sociedade das nações é imperfeita. Porque na sociedade das nações não existe esse poder de sanção, é um direito imperfeito. Isto é, podem existir tribunais internacionais. Há tratados. Há uma Organização das Nações Unidas. Mas não existe um poder comum capaz de aplicar a sanção. As grandes potências não são sancionáveis."

Thomas Hobbes, pensador doa séculos XVI XVII, dizia que "os príncipes e os Estados estão permanentemente em estado de natureza, ou seja, preparados para a guerra. E não há nenhum tratado, não há nenhuma lei internacional que leve os príncipes a dormir descansados. É por isso que têm exércitos permanentes. Porque há uma desconfiança permanente".

O professor cita ainda o general prusso Carl von Clausewitz ("uma espécie de Newton da guerra"), que no século XIX escreveu a obra "Vom Krieg - Da Guerra", que é, nas suas palavras, "o grande livro contemporâneo sobre a guerra": "A guerra é uma ação em que a violência é usada como instrumento de objetivos políticos". Clausovitz diz mais: "A guerra é a continuação da política por outros meios" - uma frase que já todos ouviram. O que é que isto significa? "A guerra tem apenas uma gramática, a política tem a lógica. E deve ser a política que comanda a guerra. Evidentemente que para fazer a guerra é preciso tecnologia, é preciso treino, etc. Mas isso é a gramática. E no limite, se fosse possível, atingir esses objetivos sem a violência, não haveria guerra. Mas sem a violência não há coação. Agora, o que pode acontecer é que, perante ameaça do uso da força militar, um Estado pode recuar e conceder. Clausevitz considera que quando a diplomacia falha é muito improvável que se consiga retomá-la sem o sucesso das armas."

"Na guerra existe uma lógica essencialmente de custo-benefício. O pensamento estratégico militar é um pensamento de custo-benefício. É um pensamento instrumental. A ideia de uma guerra com as luvas brancas não existe", afirma o filósofo. Não existe guerra sem danos colaterais e sem crimes de guerra. O que os políticos que tomam a decisão de iniciar ou entrar numa guerra fazem é tentar avaliar se vale ou não a pena. Isto, dito assim, pode parecer cruel, mas não é novo. "Os aliados, que venceram a Alemanha nazi, também cometeram imensos crimes. Hamburgo foi destruída em julho de 1943 e 40 mil pessoas foram mortas com bombas de fósforo. Antes das bombas atómicas, que foram crimes de guerra também, porque visaram populações civis, tivemos 700 mil japoneses que foram vítimas de bombardeamentos convencionais pela aviação americana. Isso são crimes de guerra", sublinha.

 

UMA GUERRA IRRACIONAL – EM QUE TODOS SAEM DERROTADOS

 

"Hoje em dia, a guerra que podemos ter será uma guerra absolutamente irracional", diz Viriato Soromenho Marques. Porquê? Segundo Clausevitz, a guerra é até 1945, tinha violência, mas tinha racionalidade. "Ou seja, havia sofrimento, mas havia a possibilidade da vitória. Os povos perdiam milhões de vidas, mas atingiam o objetivo e havia vitória. Hoje, é uma das características da guerra contemporânea, é a possibilidade de uma guerra em que todos saem derrotados".

Durante os 40 anos da Guerra Fria, houve um consenso entre os dois lados, explica o professor. A crise dos misseis de Cuba em outubro de 1962, em que o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear, "fez com que tanto Krushov como o Kennedy percebessem o que seria a irracionalidade da guerra", diz Soromenho Marques. "O que Kennedy fez a seguir a outubro de 62 foi fundamentalmente um processo de construção da paz, em colaboração com a União Soviética: a criação do telefone vermelho, a proibição de testes nucleares e outras ideias que ele tinha para a frente, de cooperação alargada com a União Soviética e com os países que estavam no Pacto de Varsóvia e que o assassinato impediu. No discurso que fez em Washington em 10 de junho de 63, Kennedy dizia o seguinte: 'Enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. "Adotar esse tipo de atitude, ou seja, querer insistir numa escalada em potências nucleares, na era nuclear, seria apenas uma prova da falência da nossa política ou de um desejo coletivo de morte'."

Ronald Reagan, que foi presidente dos EUA durante a Guerra Fria, "acolheu positivamente, com entusiasmo, Gorbachev", diz o professor, contando algo que percebeu ao ler as memórias do presidente: "Em novembro de 1983, Reagan foi um dos primeiros americanos a ver até o filme 'The Day After' [filme ficção científica que imagina o que aconteceria após uma guerra nuclear]. E ele ficou aterrorizado com o que viu. É interessante que em janeiro de 84 ele faz um discurso que causou surpresa. Enquanto o discurso do ano anterior tinha sido o discurso do "Guerra da Estrelas", vamos criar um sistema no espaço, o discurso de janeiro de 84 dizia que temos de evitar a autodestruição".

 

O FIM DA UNIÃO SOVIÉTICA: UMA OPORTUNIDADE DESPERDIÇADA

 

A Guerra Fria prolongou-se, com esse jogo de contenção de forças, até à Perestroika. Viriato Soromenho Marques considera que a transição democrática da União Soviética, com a "dissolução pacifica do Pacto de Varsóvia", "é o único caso que temos na História em que um sistema bipolar acaba porque o outro lado desiste".

Inicialmente, recorda o filósofo, "houve imensa vontade de estabelecer relações, de apoiar economicamente a transição da Rússia. O que eles fizeram foi uma coisa brutal". Mas logo se percebeu que os interesses económicos se iriam sobrepor aos bem político. Passou-se "de uma economia planificada que não funcionava, para uma economia de mercado que foi pilhada. O que aconteceu no tempo do Ieltsin foi uma catástrofe para a Rússia. A Rússia perdeu cinco anos de esperança de vida. O desemprego galopou. A mortalidade infantil aumentou imenso. O alcoolismo explodiu. A criminalidade, as mortes violentas. Depois, a formação dos oligarcas, a privatização com as grandes companhias americanas por trás. No fundo, a Rússia era um cadáver gigantesco, 17 milhões de quilómetros quadrados, que estava ali para ser devorado", diz Soromenho Marques.

"Foi uma tragédia. Não só económica, mas também política." A Europa poderia ter-se tornado um aliado, um parceiro. "Era preciso criar uma relação de confiança mútua, e isso não aconteceu. Até porque era preciso ter um inimigo, como é que nós vendíamos a expansão da Nato se não tivéssemos um papão do lado lá?"

"O analfabetismo e russofobia é também uma coisa que nos está a envenenar. Envenena-nos a alma e corrói o pensamento", afirma Soromenho Marques.

 

QUANDO PUTIN DEIXOU DE SER UM AMIGO – AS ORIGENS DA GUERRA DA UCRÂNIA

 

Soromenho Marques diz que é preciso "admitir o fracasso de todas as políticas que começaram em 1991, quando os Estados Unidos recusaram integrar a Rússia no sistema internacional" e decidiram deixar a Rússia de foram da Nato. "Esta guerra [na Ucrânia] começou porque a Rússia não tinha garantias de segurança. Pediu primeiramente que a Nato não se alargasse, mas a Nato alargou-se. Depois pediu para não se alargar para zonas que são estratégicas, porque as grandes potências têm zonas de segurança, a que se chama zonas de influência", e, mais uma vez, isso não acontece. Em 2008, em Bucareste, a Nato ofereceu um convite à Ucrânia. "E Putin, que nessa altura era convidado a ir às reuniões da Nato, fez um grande discurso a explicar porque é que isso era uma coisa que não podia ser aceite pela Rússia. Então, Sarkozy e Merkel falam com Bush e decidem arrastar isso para não arranjar problemas. As coisas foram-se arrastando assim."

"O ponto em que as coisas realmente se transformaram foi com a Praça Maidan. Foi aí que as coisas se tornaram mesmo azedas", diz o filósofo. "Esta guerra começou aí. A Operação Especial começou na Praça Maidan. O Viktor Yanukovych foi eleito em eleições reconhecidas por todos os observadores, incluindo os nossos, da União Europeia, que estiveram lá. A Victoria Nuland, que é a vice-secretária de Estado, esteve pessoalmente a comandar as operações de montagem da Praça Maidan. Inclusive ela, no inverno, em dezembro de 2013, faz uma pequena intervenção, em que chega a dizer que até agora o nosso investimento na Ucrânia foi de cinco milhões de dólares. Em 2024, o historiador ucraniano Ivan Katchanovski publicou um livro notável a explicar a Praça Maidan."

"A Alemanha foi seduzida pela possibilidade de também tirar algum partido da Ucrânia. E, além disso, ninguém acreditava que a Rússia tivesse capacidade para fazer esta guerra. O Biden dizia, em 2017: os russos engolem tudo o que lhe pusermos pela garganta abaixo", lembra Soromenho Marques. Em 2019, ainda Merkel estava no poder, e a Ren Corporation, que é o principal think tank da política externa americana, publica um livro que se chamava "Extending Russia". Esses analistas diziam que se deviam "criar dificuldades em muitos pontos à Rússia para que ela se parta. E um dos objetivos do Extending Russia é impedir a ligação entre a Alemanha e a Rússia. Não só energética. Avisadamente, eles percebiam que uma boa relação entre a Alemanha e a Rússia ia causar problemas a quem queria continuar a ser o dono do mundo".

 

O FIM DO DOMÍNIO AMERICANO E AS NOVAS RELAÇÕES DE PODER .

"Os Estados Unidos estão, nesta fase, a passar de interveniente principal, para algo diferente", afirma Soromenho Marques. "Reconhecem que já não têm capacidade para aquele pesadelo que foi o unipolarismo. Biden foi o último representante da ideia tonta de que era possível os Estados Unidos dominarem o mundo e imporem, com recompensas e com violência e com sanções, o domínio. Hoje estamos num mundo completamente diferente."

E explica: "Do ponto de vista económico, os Estados Unidos são uma sombra do que foram. No auge do poderio americano, no tempo do Truman, 50% do produto interno bruto era americano. Hoje, os Estados Unidos têm uma percentagem muito menor, estamos a falar de 20%, 21%. para ser otimista. Por outro lado, do ponto de vista científico, a situação é absolutamente avassaladora. No ano passado, um instituto australiano publicou um estudo que era uma análise de 20 anos de inovação científica no mundo, em 64 tecnologias de ponta. E o contraste é absolutamente esmagador. Em 2003, os Estados Unidos dominavam 61 das 64. E a China dominava 3. Em 2023, a China domina 57 das 64. E os Estados Unidos dominam as outras 7."

"Ou seja, o que temos hoje é um novo sistema internacional. Estamos numa fase horrível que é a transição. As transições são sempre terríveis, mesmo na vida dos indivíduos", diz o professor. Mas há algo positivo nesta situação, que é o facto de os Estados Unidos "já não considerarem a China como um inimigo com o qual poderiam entrar em guerra em 15 anos, mas como um competidor. Há uma diferença entre competidor e inimigo".

Já em relação à Rússia, na Estratégia de Segurança Nacional (ESN) os EUA assumem o objetivo de "estabilizar as relações com a Europa, nomeadamente com a Rússia. O que não parece uma coisa idiota, parece uma coisa até bastante sensata. Não sei como é que é possível alguém que conheça um pouco da situação atual e da situação histórica pensar que é possível excluir a Rússia do sistema internacional e do sistema europeu, para mim é uma ideia completamente absurda", afirma.

E A EUROPA NO MEIO DE ISTO TUDO?

 

"Estamos a viver um desastre do projeto europeu", diz Viriato Soromenho Marques, lembrando que em 2014 publicou livro sobre a crise do euro que se chamava "Portugal na queda da Europa". "A tese era que a crise de 2008 não foi uma crise das dívidas soberanas, como se dizia, foi uma crise do euro. O euro foi construído sem qualquer mecanismo que o tornasse uma moeda funcional, não era uma moeda federal. O euro foi criado sem sequer um sistema de prevenção das crises bancárias, por exemplo. Nada. E os países endividaram-se nessa altura para socorrer o sistema financeiro, os bancos, que estavam lá soltos. Os bancos nessa fase inicial faziam o que queriam. Falhámos. O Euro podia ser a primeira etapa do federalismo europeu, e nós falhámos. Em 2014, a minha perspetiva era que estávamos a entrar num processo de decadência europeia, de queda".

"Só que agora já estamos dentro da queda", admite, dando como exemplo máximo a forma como a Europa está a conduzir esta guerra na Ucrânia. "Primeiro: não temos nenhuma providência, nenhum artigo que conceda os poderes que a senhora von der Leyen se arrogou para funcionar como se fosse a comandante suprema de uma coisa que não existe, que são as Forças Armadas Europeias. Segundo: existe uma confusão total entre a União Europeia e a NATO. Chegámos a este ponto. Confundimos totalmente. Terceiro: o uso de procedimentos, e dia 18 de dezembro vamos ver se isto vai acontecer ou não, procedimentos que vão conduzir a uma situação dramática".

Depois de na passada sexta-feira a União ter aprovado, por maioria e com os votos contra da Hungria e Eslováquia, uma decisão para manter os ativos russos imobilizados indefinidamente no espaço comunitário, o tema volta a ser debatido esta semana pelos ministros europeus dos Negócios Estrangeiros que vão decidir se esse dinheiro pode ser usado para o empréstimo de reparações à Ucrânia. "Se isso for roubado à Rússia e entregue à Ucrânia, eu acho que somos nós, os europeus, que não depositamos mais o nosso dinheiro aqui, são também os estrangeiros que cá têm dinheiro que vão para outro sítio", antecipa o filósofo. "A gente do mundo árabe, a gente da África, a gente da América Latina, os magnatas, etc., vão para outro sítio. E também os portugueses. Vão transformar esses euros em ienes e vão pô-los na China, ou transformam-nos dólares e põem nos Estados Unidos."

 

A ESCALADA ACTUAL: "NÃO PODEMOS. COMO CIDADÃOS, ACEITAR ESTE DISCURSO DA INEVITABILIDADE DA GUERRA”

 

Chegamos, assim, aos dias de incerteza em que vivemos. Viriato Soromenho Marques "colecionou" uma série de frases proferidas nos últimos dias por "altos responsáveis políticos e militares da nossa Europa" e que mostram bem o estado do mundo:

 

• 3 de Novembro: Boris Pistorius, ministro da defesa da Alemanha, falando sobre o plano de reconstrução armamentista da Alemanha, que está outra vez na corrida dos armamentos, está a preparar um sistema que permita a rápida passagem para leste, ou seja, em direção à Rússia de 800 mil soldados da NATO, disse: "Há quem fale que a guerra vai ser em 2029. Há outros que dizem que vai ser em 2028. Mas há alguns que dizem mesmo que gozámos em 2025 o último verão em paz".

 

• 16 de novembro: o general Fabien Mandon, que era conselheiro do presidente Macron, da França, diz que "temos de aceitar perder os nossos filhos, sofrer economicamente".

 

• 3 de Dezembro: o almirante Giuseppe Cavo Dragone, chefe do Comité Militar da Nato, disse ao Financial Times que a NATO deveria considerar a possibilidade de uma ação preventiva contra a Rússia.

 

• 11 de Dezembro: Mark Rutte, secretário-general da NATO, diz que "depois da Ucrânia nós somos o próximo alvo da revolução. E nós precisamos estar prontos. Devemos estar preparados para uma guerra da escala dos nossos avós e dos nossos bisavós. Preparados para a possibilidade de milhões de mortos" e dizendo que, por isso, nós precisamos gastar 5% do PIB na corrida ao armamento.

 

• Entretanto, Vladimir Putin, interrogado numa conferência de imprensa, a seguir às declarações de Dragone, diz: "Se a Europa começar subitamente, o tal ataque preventivo, uma guerra contra nós, eu penso que essa guerra acabará rapidamente. Isso não será a Ucrânia. Com a Ucrânia nós estamos a atuar com precisão cirúrgica, cuidadosamente, isto não é uma guerra no sentido direto, moderno da palavra. Se a Europa começar uma guerra contra a Rússia, em breve, Moscovo não terá ninguém com quem negociar."

Perante isto, Soromenho Marques questiona-se até que ponto é que aquela ideia de Kennedy, que é fruto do conceito da "destruição mútua assegurada", ainda estará atualizada. "Na altura de Kennedy existiam 70 mil armas militares. Hoje existem à volta de 13 mil. Mas 13 mil são suficientes para dar cabo de tudo. E eu pergunto-vos, será que estas pessoas partilham desta preocupação?", pergunta.

E ainda, mais incisivo: "A questão que me parece prioritária é não aceitarmos, como cidadãos, este discurso da inevitabilidade da guerra", diz.

Na sua perspetiva, "uma guerra em que fossem usadas armas nucleares representaria o fim da história". "Mas vamos pensar que haverá ainda alguma sombra de cuidado com o futuro, e alguma inteligência também, e que não vamos entrar por aí", diz, recorrendo ao que resta do seu otimismo.

 

"QUAL A POSSIBILIDADE QUE TEMOS DE SOBREVIVER A ISTO? (E «ISTO» NÃO É SÓ A GUERRA NA UCRÂNIA)”

 

"Este conflito [na Ucrânia] é o centro do vulcão. Claro que temos conflitos noutros lugares no mundo, mas a Europa é, mais uma vez, o centro do vulcão e é onde, de facto, a situação pode ficar completamente fora de controlo. Mas eu pergunto: será apenas na guerra que estamos fora do controlo? Não me parece." Viriato Soromenho Marques tem um olhar mais abrangente. "Nós, europeus, temos muito orgulho na maturidade, com todo o contributo para a ciência e para a tecnologia moderna, mas realmente os grandes desígnios da modernidade, que eram a emancipação humana, que era, como no tempo do grefos, vencer um destino, uma moira, a que estávamos condenados pelos deuses, ou, como dizia depois Descartes, vencer a vida curta, prolongar a vida humana, impedir as tragédias, o sofrimento - será que conseguimos isso? A verdade é que nós construímos um aparato gigantesco para combater esse destino natural, mas temos uma crise existencial na área do ambiente. Portanto, eu colocaria o nosso debate sobre a guerra e a paz no quadro de uma interrogação ainda mais penetrante: qual é a possibilidade que temos de sobreviver a isto? Onde é que erramos? E teremos a coragem para primeiro identificar as causas fundamentais e depois agir em consequência? Ou seja, sermos capazes de fazer a renúncia a tanta coisa a que nos acostumamos a considerar fundamentais?"

A verdade, diz, "é que estamos numa situação em que, perante os desafios existenciais que temos, nomeadamente o facto de estarmos a viver num planeta que estamos a destruir, que estamos a devorar", deveríamos estar preocupados com outros problemas. "Quando começou a guerra na Ucrânia, surgiu um artigo chamado 'Uma guerra no convés do Titanic'. Nós temos que que fazer o possível para que ele não afunde. E neste momento não vemos muita gente que esteja preocupada com isto", lamenta.

Na sua opinião, seria necessária "uma visão integrada". Em primeiro lugar, deveríamos "tomar consciência da gravidade da situação. Já não é evitar, não, é de fazer uma adaptação que permita a continuação da história humana e que permita uma visão de reconstrução do modo como as nossas instituições, nomeadamente a nossa economia, que é uma economia primitiva. Nós precisamos de uma economia ecológica, ou seja, de uma economia que considere que é um subsistema da ecologia e não o contrário".

Cícero dizia que «a salvação do povo seja a suprema lei».

«Quando a gente fala em salvação do povo, está a falar fundamentalmente da vida das pessoas e da fazenda das pessoas, do que as pessoas têm. A minha preocupação é com a nossa vida. Porque acho que a fazenda já está perdida».

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Wyndham Lewis, «The Waste Land», sobre o poema de T.S. Eliot

https://cnnportugal.iol.pt/guerra/ucrania/nao-podemos-aceitar-este-discurso-da-inevitabilidade-da-guerra-a-europa-esta-a-beira-de-uma-guerra-irracional-mas-seremos-capazes-de-a-impedir/20251215/693fe7afd34e3caad84c62ea

sábado, 8 de março de 2025

Viriato Soromenho-Marques - Na tempestade de fogo


Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

* Viriato Soromenho-Marques


Na guerra da Ucrânia, os soldados dos dois lados, mortos e feridos, não têm direito à revelação completa dos nomes. A lista de baixas está transformada num segredo de Estado. A batalha que se trava nos jornais e nas televisões é de pólvora seca verbal. Que sabemos, verdadeiramente, sobre a experiência desses soldados, homens e mulheres, ucranianos e russos, dilacerados nesse inferno de fogo e sangue lavrando há quase três anos?


Para nos aproximarmos de uma resposta teremos de recuar à I Guerra Mundial (I GM). As semelhanças esmagam. Duas guerras de dominância industrial e tecnológica. Novas e antigas armas encontram-se reunidas num concerto letal, colocando o mais treinado e valente dos guerreiros numa situação de impotência e acaso perante o fogo de artilharia, o ataque de drones e mísseis, as minas, a investida dos tanques, o tiro furtivo dos snipers, o fogo de armas ligeiras, os ataques aéreos a distâncias que inibem qualquer defesa por antecipação. Na I GM não ameaçavam drones assassinos, mas imperavam os gases venenosos, banidos hoje dos teatros de operações. Na I GM, o combate desenrolou-se, a partir do final de 1914, numa linha contínua de fortificações, que, na frente ocidental, correspondia aos 750 km que vão do Mar do Norte até à fronteira franco-suíça. Na Ucrânia, a frente fortificada estende-se por mais de 1200 km. Nos dois conflitos a maioria das baixas é causada pela arma de artilharia. As condições dos combatentes nas trincheiras são, em ambos os casos, de enorme dureza, e os tempos médios de sobrevivência (sem algum tipo de ferimento), podemos alvitrar, serão de escassos meses.


Ernst Jünger
Para quem queira conhecer (e sentir) melhor a brutalidade do esforço que Kiev e Moscovo pedem aos seus soldados nesta guerra (nada comparável com as campanhas assimétricas travadas pelos EUA contra rivais muito inferiores) aconselho a leitura do melhor livro sobre a I GM: Tempestades de Aço (edição portuguesa de Guerra & Paz, 2023), da autoria do grande escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998), na altura um jovem oficial, miraculosamente sobrevivente a quatro anos de combate contínuo, pontuado por catorze ferimentos graves: “Cinco tiros de espingarda, dois estilhaços de granada, uma bala de granada, quatro granadas de mão e dois estilhaços de projétil de espingarda” (p. 278). Em setembro de 1918, Jünger receberia a mais alta condecoração militar prussiana, Pour le Mérite, normalmente apenas atribuída a generais e marechais.


O livro baseia-se nas anotações dos seus diários de guerra. Nele se pratica um hercúleo exercício de distanciamento e objetividade, tratando a guerra como se fosse um cataclismo natural, semelhante a um sismo ou um furacão. A narrativa está povoada pelos nomes de companheiros mortos, por gratidão com camaradas que por ele deram a vida, pela lembrança de soldados inimigos, mortos pelas suas armas, ou por ele poupados. Entre 1920 e 1978, o livro conheceu sete edições, revistas parcialmente. Na última edição, Jünger, a propósito de um jovem soldado inglês abatido pela sua espingarda, acrescenta o seguinte: “Mais tarde, pensei nele muitas vezes, cada vez mais, com o decorrer dos anos. O Estado, que nos isenta da responsabilidade, não nos pode libertar da dor; temos de ser nós a lidar com ela. Ele penetra até às profundezas dos nossos sonhos” (p. 235). Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

Diário de Notícias, 2025/01/03

https://azoreantorpor.wordpress.com/2025/01/04/


James Brown - I feel good (Good Morning Vietnam Soundtrack) 1988

Viriato Soromenho-Marques - PORTUGAL À DERIVA NA TEMPESTADE – quatro notas de leitura

Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.

* Viriato Soromenho-Marques


As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.

Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.

Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia. O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.

Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.

Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.

Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar.

(Publicado no Jornal de Letras, edição de 5 de março de 2025)

Post scriptum. O artigo acima foi escrito antes da famosa “disputa” de Zelensky contra Trump e toda a sua equipa na Sala Oval, no dia 28 de fevereiro de 2025. Aconselho os leitores do Azorean Torpor a visionarem o filme completo (49’47’’), antes de fazerem coro com a transformação de Zelensky numa vítima heróica. Fazer um juízo a partir da parte final dessa conversa, satisfaz o alinhamento manipulatório que foi dado na Europa a essa longa conversa. Também não tenho simpatia por Trump, mas reconheço que existe um esforço sério da sua administração para acabar com esta guerra, em absoluto contraste com a corrida para o confronto total com a Rússia a que nos conduziria a continuação da política de Biden e Blinken. Pelo contrário, Zelensky aproveitou a amabilidade dos seus anfitriões norte-americanos para mostrar, perante um auditório universal, a sua total oposição a esse processo de paz. Para um cidadão europeu, ao fim de três anos de guerra, não perceber onde é que está o nosso interesse vital, preferindo o discurso de ódio ao discurso da via diplomática, significa até que ponto chagámos na Europa a um lamentável estado de degradação da nossa capacidade coletiva e individual de distinguir entre o que é essencial e o que é perigosamente ilusório.

2025 03 06 

https://azoreantorpor.wordpress.com/2025/03/06/

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Viriato Soromenho-Marques - União Europeia: à deriva entre duas ilusões

 OPINIÃO

10 junho 2024

* Viriato Soromenho-Marques

Professor universitário

Tudo indica que as forças do nacionalismo e populismo extremos terão um significativo ganho relativo de deputados no Parlamento Europeu (PE) em 2024. Contudo, já nas eleições de 2014, a mesma corrente política obteve triunfos substanciais. Basta recordar a vitória da Frente Nacional (hoje, Reagrupamento Nacional-RN) de Marine Le Pen, ou o sucesso de Nigel Farage, com o seu UKIP, que seria o instrumento fundamental para o Brexit em 2016.

Em 2014, sangrava ainda a crise do euro, disfarçada com a máscara oficial da “crise das dívidas soberanas”. Tratava-se, então, de uma clivagem aguda. mas na periferia europeia (Irlanda, Grécia, Portugal, Chipre, a banca espanhola…). A sua narrativa afundava-se numa linguagem económica e financeira errada e moralista: corrigir o pecado coletivo de povos inteiros que teriam vivido acima das suas posses.

As vitórias populistas, de 2014 e de 2024, pelo contrário, mudam a intensidade, mas também a geografia e o léxico do mal-estar europeu. O fulcro da doença da UE ataca hoje o núcleo dos países da Declaração Schuman de 1950, diria mesmo, o coração da velha Europa Carolíngia. O populismo já governa a Itália e a Holanda, ameaça uma Alemanha, que nunca foi tão desgovernada em democracia (incluo a República de Weimar), e caminha para uma vitória presidencial de Marine Le Pen em 2027, que só a doença ou a guerra poderão travar.

Para capitalizar os seus ganhos no Pos partidos populistas deverão fundir os seus dois grupos parlamentares, respetivamente, o ID (Identidade e Democracia), onde pontifica o RN de Marine Le Pen, e o ECR, onde se destacam os Irmãos de Itália, da PM italiana Giorgia Meloni.

O PE será apenas mais uma plataforma para assaltar o centro do poder da UE, o Conselho Europeu, onde se definem alianças e hierarquias. Mas o que querem, afinal, os populistas? O seu discurso, nem sempre coerente, reclama mais devolução de soberania às nações, menos competências das instituições europeias, em especial da Comissão Europeia (CE). Querem mais autonomia dos Estados nas migrações e na política externa e de defesa. Dividem-se sobre o que fazer perante a guerra na Ucrânia, mas estão unidos na contestação das políticas ambientais e climáticas. A sua natureza, simultaneamente populista e nacionalista, não augura uma cooperação sistemática entre estas forças, à medida que assumam lugares de decisão nos respetivos países. Mais perigoso ainda é o seu desempenho em matéria de Direitos Humanos: chauvinismo, racismo, homofobia, fazem parte de uma agenda de (maus) costumes, que, aliás, é partilhada com alguma da velha direita.

Contudo, importa não cair na habitual falácia de tomar as causas pelos efeitos. Se a onda populista marca um novo ciclo político, no estado de crise permanente em que a UE entrou, quase desde o início do século, isso deve-se à incapacidade de democratas-cristãos, socialistas e liberais se manterem fiéis a um projeto europeu baseado na defesa da paz, do Estado Social e da proteção ambiental.

O neoliberalismo e a sua teologia de mercado intoxicaram a construção europeia, desde logo na incompetente arquitetura da Zona Euro, e depois na passividade cúmplice face à subida aguda da desigualdade e da pobreza nos países europeus. Por outro lado, também não foram Governos populistas que arrastaram a UE para a perigosa subordinação à NATO e aos EUA, numa guerra, que segundo inquérito recente do Institute of Global Affairs, de Nova Iorque, conta com a oposição esmagadora de europeus e norte-americanos.

Vejamos dois dos erros cruciais que alimentaram o populismo. Um dos primeiros países onde o extremismo despontou, com o partido Aurora Dourada, foi a Grécia. Então, sob o duplo peso da austeridade e de vagas de migrantes. Os Governos de Atenas e Roma gerem duas das mais sensíveis zonas de entrada de refugiados na Europa. É extraordinário verificar não só o total improviso e falta de solidariedade da UE, como a criminosa e irresponsável descoordenação entre os Estados-membros na prevenção das causas das migrações.

O aventureirismo do Reino Unido, e de outros países europeus, esteve patente, no apoio militar à infundada e brutal invasão norte-americana do Iraque, em 2003. As ondas de refugiados nessa altura criadas, aumentaram substancialmente com a intervenção “humanitária” da NATO contra o Governo de Kadhaffi, em 2011. A França de Sarkozy e o Reino Unido de Cameron foram dos mais ativos intervenientes na destruição de um dos mais prósperos países africanos, transformado hoje num santuário terrorista e numa fábrica de refugiados.

Pior ainda, a CE tinha conseguido em outubro de 2010, depois de anos de negociação com Tripoli, um amplo acordo que tornaria a Líbia num aliado da UE no combate às redes de migração ilegal e no acolhimento temporário de refugiados. Como se tal não bastasse, a França de Hollande e, uma vez mais Cameron, com o apoio de Hillary Clinton, querendo derrubar o Governo sírio a qualquer preço, sustentaram uma guerra civil, causadora de milhões de refugiados, que se abateram em particular sobre a Alemanha, em 2015. O PE aprovou há semanas um Pacto das Migrações e Asilo, mas ele não menciona a responsabilidade dos Estados-membros que agravaram unilateralmente esse problema humanitário, nem confere os meios necessários para o seu cabal financiamento.

A guerra da Ucrânia é outro expoente da negligência estratégica da UE na defesa da paz e boa vizinhança. O discurso dominante coloca na Rússia a responsabilidade total, mas quem tenha algum pudor intelectual não confundirá propaganda com objetividade. Desde 2008 que a UE e EUA sabiam das objeções fundamentais da Rússia contra a entrada de Kiev na NATO. William Burns, hoje chefe da CIA, então embaixador de Washington em Moscovo, alertou, em 2008, para a insensatez desse alargamento. Em 2010, foi eleito o presidente Yanukovich (em eleições universalmente reconhecidas como limpas), na base de uma plataforma que faria da Ucrânia um país que deveria ser ponte, e não fronteira, entre a NATO e a Rússia (em 2019, Zelensky seria eleito tendo por promessa principal a resolução negociada e pacífica dos diferendos com Moscovo…).

Em 2014, Yanukovich é derrubado insurrecionalmente em Kiev, precipitando-se uma guerra civil. Ficámos a saber, já depois da invasão de 2022, que a iniciativa russa de resolver diplomaticamente a contenda, através dos Acordos de Minsk I e II (em 2014 e 2015), foi encarada por Merkel e Hollande, em representação da UE, como uma oportunidade para enganar Putin, dando tempo para Kiev se transformar, como escreve John Mearsheimer, num membro de facto da NATO.

A grande ilusão dos partidos fundadores da UE, e que se consideram como donos da democracia genuína, é a de que a UE low cost do euro poderia ter futuro. A ilusão de que seria possível alimentar a grandiloquência retórica dos valores europeus, da Justiça Social com prosperidade económica e sustentabilidade ambiental, através de uma união monetária, sem união política, nem união orçamental e fiscal, desprovida de um sistema de paz pan-europeu.

A nova ilusão, dos nacionalismos populistas, é a de que poderemos regressar, tranquilamente, a uma mítica Europa das nações, sem nos cortarmos nos estilhaços que a implosão da atual estrutura da UE inevitavelmente provocaria. Contudo, a primeira e urgente prova de fogo da realidade, na nova paisagem política, será a de travar a escalada suicida para uma guerra frontal da UE com a Rússia.


https://www.dn.pt/7241072303/uniao-europeia-a-deriva-entre-duas-ilusoes/

sábado, 11 de maio de 2024

Viriato Soromenho-Marques - A batalha pela verdade factual

* Viriato Soromenho-Marques 

(Diário de Notícias 11 maio 2024)

Quando em 1968 as forças do Vietname do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet, contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.

Lembro-me, vivamente, de como, apesar da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo, os poderes que contam - o dinheiro e o seu braço político - aprenderam a prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a exuberância nua dos factos.

Sem o poder da imprensa livre, a Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu mandato.

Pouco antes da Ofensiva do Tet, a filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos, ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.

Os factos suscitam opiniões e interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4 de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.

A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.

https://www.dn.pt/6555146601/a-batalha-pela-verdade-factual/


domingo, 26 de fevereiro de 2023

Viriato Soromenho-Marques - Palavras de guerra,

 *  Viriato Soromenho-Marques

25 Fevereiro 2023 

A pulsão de morte liberta-se, com particular exuberância entre os intelectuais, nas vésperas de guerra. A maior matança política em Portugal, em mais de século e meio (200 mortos e mais de mil feridos), ocorreu em maio de 1915 nas ruas de Lisboa, na insurreição que derrubou o governo de Pimenta de Castro e afastou o presidente Manuel de Arriaga. O objetivo fundamental dos golpistas, como Afonso Costa e João Chagas -- que as suas milícias ecoavam na rua sob o lema "Viva a guerra!" -- foi o de envolver Portugal na frente europeia da I Guerra Mundial, e não apenas em Angola e Moçambique e sem declaração formal de guerra à Alemanha, como defendiam Brito Camacho e Bernardino Machado. A turba armada, incitada por muitos publicistas, conseguiu o que queria. Um quarto de século antes, em janeiro de 1890, gente exaltada insultava o jovem rei D. Carlos I por este, depois da imposição do Ultimato britânico, ter poupado os portugueses do fogo mortífero da Armada britânica. O enorme serviço que o Rei prestou ao interesse nacional seria pago com juros de chumbo no regicídio de 1908.

A recordação destas tragédias foi-me suscitada pela entrevista do PM ao Público no passado dia 20. A citação que a jornalista Teresa de Sousa escolheu para título reza assim: "A paz só é possível com a vitória da Ucrânia e a derrota da Rússia". Dificilmente se encontrará uma declaração tão belicosa em qualquer homólogo da OTAN, com exceção, talvez, dos Estados bálticos. Nos EUA, o país que importa, a linha prevalecente, descontado o ardor retórico, jamais isolou o apoio militar à Ucrânia da diplomacia. Dia 16, o secretário de Estado Blinken chegou ao ponto de alertar Kiev para o risco de tentar incluir o território da Crimeia nos seus objetivos finais, pois tal seria uma linha vermelha" (red line) para Putin. Ao contrário do que sugere o nosso PM, Blinken explicita que o eventual sucesso da Ucrânia não seria uma vitória de soma zero, pois haveria interesses fundamentais da Rússia a ter, desejavelmente, em conta. O PM poderia ter-se mantido no quadro oficial da OTAN e da UE, sem necessidade de assumir uma hostilidade pré-bélica com um país com o qual ainda mantemos relações diplomáticas. Portugal não tem de fazer uma voz grossa, que termine em fífia. Ao contrário de países como a Alemanha, França e Polónia, Portugal esteve completamente afastado dos desastres político-diplomáticos, que não podem ser esquecidos por quem queira compreender as raízes desta guerra.

Portugal não prometeu nada que não pudesse ou não quisesse cumprir, nem junto do presidente Yanukovich (21 02 2014), nem mais tarde nos Acordos de Minsk I e II --para resolver pacificamente o estatuto das regiões russófonas do Donbass no quadro da soberania ucraniana -- que afinal, sabemos agora através das confissões de Merkel e Hollande, serviram apenas para dar tempo ao armamento de Kiev. Não há prova maior para quem tem na sua decisão a vida de milhões de vidas, do que o estreito caminho entre a paz e a guerra. Clamar, mesmo que em coro, por uma temerária "vitória" no presente conflito é recusar a responsabilidade pelo formidável e inédito desafio que esta guerra representa. Um ano de combates já deixou um rasto de destruição humana e institucional que ameaça as gerações futuras. Se os frágeis fios que nos separam da expansão da guerra se romperem, o "milagre Gorbachev" não se repetirá. Levada ao limite, a Rússia, ao contrário da União Soviética, não parece inclinada a perecer sozinha.


Professor universitário

https://www.dn.pt/opiniao/palavras-de-guerra-15895569.html


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Viriato Soromenho-Marques - 'Salus populi suprema lex esto'

* Viriato Soromenho Marques

Este título ("Que a salvação do povo seja a lei suprema") não consagra apenas uma das teses mais profundas e duradouras da herança romana, mas a própria essência da política em geral na tradição milenar do pensamento ocidental. Numa democracia representativa esse princípio deveria ser ainda mais imperativo, já que - como foi recordado por Lincoln em 1863 no cemitério militar de Gettysburg - o tipo ideal do sistema democrático constitucional é o do "governo do povo, pelo povo, para o povo". As peripécias do atual governo de maioria absoluta são, talvez, um indicador do crescente esgotamento das energias e competências não apenas do partido que ocupa sozinho as cadeiras do poder executivo, mas também sinal do aparente cansaço do sistema partidário de onde poderia brotar uma alternativa, e, atrevo-me a dizer, um sintoma de desvinculação da realidade por parte dos órgãos de soberania. A maior prova disso não se encontra nos episódios lamentáveis, mas menores, de biografias tortuosas de governantes, de gestores de falências com indemnizações milionárias, ou de sumptuosos altares nada condizentes com a humildade franciscana do Papa que o país receberá em breve. O problema reside no modo negligente, irrefletido e mimético como Governo, Assembleia da República e Presidência têm tratado a questão da guerra provocada pela invasão russa da Ucrânia.

UMA COISA é a justeza e o consenso nacional na condenação da invasão de um país reconhecido pela comunidade internacional, incluindo oferecer todo o apoio humanitário que nos seja possível para tornar menos penosa a vida dos refugiados ucranianos que nos procuram, ou ajudar as instituições de proteção civil e de saúde pública que na Ucrânia acodem as vítimas dos combates. Outra coisa bem diferente é entrar numa escalada militar de apoio ao governo de Kiev, seguindo em grande medida uma agenda de apoio bélico ditada pelo próprio, sem ponderar as consequências que daí poderão decorrer para a segurança global e, no que nos diz respeito, sobretudo nacional. Invocar a nossa pertença à OTAN ou à UE como motivo para imitar os aliados, sem o esforço de ponderação do nosso interesse próprio, é uma desculpa preguiçosa. Não temos qualquer obrigação militar perante a OTAN, pois o artigo 5.º da "defesa mútua" não se aplica ao caso presente da Ucrânia, país que não pertence à organização do Atlântico Norte. Nem a UE tem qualquer estrutura ou estratégia de defesa comum, desde que em 1954 gaulistas e comunistas abortaram o Tratado da Comunidade Europeia de Defesa no Parlamento de Paris.

Esta guerra é desde o seu início o evento internacional mais perigoso depois de 1945. Infelizmente, nos círculos políticos parece ser subestimado o facto de que cada acha na pira militar faz subir um grau no nível de hostilidades. Aumenta não só o número de vítimas, mas também o risco impensável, mas bem real nos arsenais atuais, de se resvalar para a twilight zone do confronto nuclear em larga escala. Qualquer governo europeu, incluindo o português, deveria colocar como prioridade máxima a salvaguarda da sua população contra o risco de o seu território ser um alvo direto ou indireto (através do fallout radioativo resultante de explosões nucleares). O entusiasmo belicista, bem patente na declaração pessoal de guerra que a MNE alemã fez a Moscovo, é visível também na Grã-Bretanha ou na Polónia. O brio castrense da maioria da opinião escrita, evoca o sinistro entusiasmo europeu nas primeiras semanas de agosto de 1914. Que a razão jurídica não esgota a complexidade do real, sobretudo quando se morre nos campos de batalha, é algo esquecido no atual jardim europeu, onde, com a modéstia lusa de sempre, procuramos fazer boa figura. Na verdade, será nos limites da razão de Estado das duas potências que contam, os EUA e a Rússia, que será decidido ou o cessar das hostilidades ou a escalada para a autodestruição geral.

A DIPLOMACIA é a capacidade de escutar as razões dos outros, sobretudo daqueles que são potenciais inimigos. Esta é uma guerra sem vitória possível e que poderia ter sido evitada diplomaticamente, se os países europeus, que partilham uma vizinhança histórica com a Rússia, tivessem tido maturidade e coragem para contrariar a obstinação dos EUA, nunca abandonada desde a cimeira de Bucareste em 2008, de integrar a Ucrânia na OTAN, apesar das reiteradas reservas e sucessivos alertas russos de que tal constituía uma inaceitável linha vermelha de segurança. Depois de iniciada a guerra, o que teria sido sensato seria travar diplomaticamente as hostilidades, garantindo o Estado ucraniano, deixando a questão territorial para negociações de segurança europeia posteriores. Reconstruir a paz será obra de muitos anos. O que importa agora é estancar a escalada da violência, cessando as hostilidades. Há exemplos dessa espécie de paz imperfeita: recorde-se que ainda não existe um tratado de paz entre as duas Coreias, apesar do fim dos combates em 1953; os Montes Golã separam, desde 1973, dois países, Israel e Síria, tecnicamente ainda em estado de guerra.

O caminho alternativo seguido com o abandono das negociações iniciais, foi o de apoiar militarmente Kiev, sem envolver a OTAN diretamente com forças no terreno. O pressuposto subjacente a essa posição parece-me irrealista e cruel. Irrealista, porque a ideia de que a Ucrânia, com apoio material da OTAN, poderia vencer sozinha a Rússia não resiste a uma análise objetiva mínima da relação de forças entre os dois países. Aliás, essa implícita subestimação das capacidades militares da Rússia, entra em total contradição com o fruste argumento usado por muitos partidários desse apoio militar, segundo o qual se a Rússia não for travada, Moscovo continuará a guerra para Ocidente. Cruel, na medida em que, embora enfraqueça a Rússia - como o secretário de Estado da Defesa, Lloyd Austin, definiu ser um dos objetivos dos EUA - continuará a implicar um enorme preço para a Ucrânia, pago em vidas, destruição de património, e perda de território.

TUDO INDICA que estamos nas vésperas de uma grande ofensiva russa. Se no rescaldo desse confronto, a posição de Kiev se tornar insustentável, os EUA e os seus aliados poderão ainda arriscar o confronto convencional direto com a Rússia. Nesse caso, teríamos atingido o culminar da loucura coletiva. Só quem acreditasse em milagres esperaria que uma Rússia derrotada por forças militares convencionais da OTAN não iria usar - como o fariam os EUA, a China, a França, ou a Grã-Bretanha se encurralados num beco sem saída semelhante - todo o seu potencial nuclear. Apesar de ter lido longamente Herman Kahn, na sua pregação nos anos 60 sobre a moderação na escalada nuclear, nunca acreditei que num contexto vertiginoso e infernal de cidades a serem vaporizadas, exista algum líder com sangue-frio para fazer cálculos de mitigação de danos no inimigo. Se ultrapassarmos o patamar nuclear nesta guerra, passaremos das relações internacionais para a teologia, da geopolítica para a encomendação das nossas próprias almas.

Já basta termos traído as gerações mais jovens, entregando-lhes um planeta em desagregação ambiental e climática. É tempo de a força da razão se sobrepor à temeridade insensata, disfarçada de coragem. Portugal deveria estar do lado do fim urgente das hostilidades, como primeiro e frágil passo para construir uma paz que a todos deve comprometer. Continuar a alimentar esta guerra, mais tarde ou mais cedo, terminará numa catástrofe irreversível.

Professor universitário
11 Fevereiro 2023 
https://www.dn.pt/opiniao/salus-populi-suprema-lex-esto-15815326.html

sábado, 26 de novembro de 2022

Viriato Soromenho-Marques - Vosso futuro, nosso inferno

 *   Viriato Soromenho-Marques

OPINIÃO  -  26 Novembro 2022 — 

Muitas opiniões ventiladas na nossa esfera pública, a propósito da luta estudantil contra a devastação ambiental e climática, surpreenderam-me. Não apenas pela gritante ausência de escolaridade sobre os temas em debate, mas pelo atrevimento de transformar a pobreza reflexiva num ato de iliteracia voluntária. Os jovens ativistas de hoje bem podem identificar-se com o Paul Nizan, de Aden Arabie (1931): "Tinha 20 anos. Não deixarei ninguém dizer que é a mais bela idade da vida."

Para perceber a gravidade do que está em causa é útil ler Douglas Rushkoff (DR), no seu mais recente livro: A Sobrevivência dos mais Ricos. Fantasias de Fuga dos Bilionários da Tecnologia (W.W. Norton, 2022). Tudo começou em 2017, quando DR - um professor de teoria dos media e de economia digital, e um dos 10 mais influentes intelectuais da atualidade segundo o MIT - foi convidado, com um tentador honorário equivalente a meio ano de salário, a proferir uma conferência sobre o futuro da tecnologia numa luxuosa e isolada estância. Para surpresa de DR, o público era constituído por apenas 5 grandes investidores de capital de risco, que cercaram o orador com temas fora da agenda do convite. As perguntas prendiam-se com a sua sobrevivência pessoal depois do "evento", o nome dado ao colapso da civilização por causas ambientais, nucleares, tecnológicas, pandémicas, ou pela combinação de todas elas: Qual o melhor sítio para construir um bunker, Alasca ou Nova Zelândia? Como garantir a fidelidade dos guarda-costas, depois do evento? Como impedir as multidões enlouquecidas pelo desespero de assaltarem esses redutos pós-apocalípticos?

Foi esta inquietante reunião que levou DR a estudar o universo mental da elite tecnológica global. O resultado aí está nos 12 capítulos e 224 páginas deste ensaio. Trata-se de uma viagem àquilo que o autor designa por Mindset, uma sinistra gnose partilhada pela elite que governa as dinâmicas da inovação tecnológica: os grandes empresários do mundo digital e os líderes da arquitetura financeira global. Os donos não apenas do dinheiro, mas os engenheiros das mentes, dos mitos e das esperanças, criadas e difundidas pelos intelectuais orgânicos do otimismo tecnológico como ópio para as massas. Os políticos estão ausentes, pois esta narrativa não inclui o pessoal menor. Musk, Bezos, Zuckerberg, Peter Thiel, Ray Kurzweil entre muitos outros ...

A tábua de valores destes super-ricos consiste na idolatria do ego, na crença de que a vida é um jogo de vídeo a vencer, onde as regras de um mercado impiedoso imperam. A condição humana é reduzida a uma galáxia de dados que os algoritmos da IA ajudam a explorar e domesticar. Baniram a prudência ética, pela aposta na tecnologia como instrumento da dominação e nulificação da natureza, capaz de reduzir à obediência voluntária o resto da humanidade, com a qual não sentem qualquer afinidade. À semelhança dos estudantes teenagers que lutam por um futuro habitável, os super-ricos acreditam que vamos rumo ao colapso, mas ao contrário da recusa dos jovens, aceitam-no como o inevitável preço da sua dominação, seguros de salvarem a pele nas centenas de abrigos, brotando como cogumelos, de onde esperam emergir ilesos num planeta esterilizado pela ruína e mega morte. Teríamos aqui um caso a exigir a intervenção dos poderes públicos, caso eles fossem efetivos. Mas, certamente, não contra os estudantes, os derradeiros defensores de uma habitação da Terra onde todos caibam.

Professor universitário

https://www.dn.pt/opiniao/vosso-futuro-nosso-inferno-15387224.html