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sexta-feira, 6 de março de 2026

João Rodrigues - Parabéns - 105º aniversário do PCP


* João Rodrigues

Parabéns ao Partido Comunista Português pelos seus 105 anos de luta imprescindível. Tal como a poesia, qual esperança racionalizada, organizada, “resiste à quantidade de barbárie que em cada tempo insiste” (Manuel Gusmão). Em jeito de reconhecimento, republico o artigo sobre razão comunista e iluminismo radical:

Razão comunista e iluminismo radical

Sei que vou parecer suspeito ao leitor, dado que fui candidato independente pela CDU nas últimas eleições legislativas, sentindo-me, ao mesmo tempo, muito dependente de um coletivo que me ajuda a não terminar em mim mesmo. Não sou neutro, mas procuro ser objetivo na avaliação da razão e das razões comunistas. 

Desde o início do que designam por contrarrevolução que os comunistas portugueses alertam para os efeitos redistributivos regressivos da diminuição dos direitos laborais e do correlativo aumento dos direitos patronais. Desde a adesão ao euro que os salários são a variável de ajustamento, padrão possibilitado pelo empoderamento patronal numa economia assim cada vez mais medíocre. 

Desde a adesão à CEE que os comunistas portugueses alertam para os efeitos desindustrializadores da integração de feição neoliberal desta periferia com economias estruturalmente mais capazes, ainda para mais num quadro de europeização com mecanismos de compensação manifestamente insuficientes. O chamado comércio livre nunca passou do protecionismo dos mais fortes, sabemo-lo bem desde o século XIX, graças à melhor teoria económica prática de que os comunistas nunca prescindiram.
 
Desde os anos 1980 que os comunistas portugueses alertam para os projetos descaracterizadores da nossa mais radicalmente democrática Constituição, a de 1976, com particular incidência para a revisão de 1989. De facto, Álvaro Cunhal nunca cessou de insistir: «a Constituição da República aprovada em 2 de abril de 1976 é um fiel retrato da revolução portuguesa». É o ódio à revolução democrática e nacional que tem alimentado a política revisionista da direita, com a colaboração do PS. 

Desde aí que os comunistas portugueses alertam para os efeitos negativos no desenvolvimento soberano, no controlo democrático da economia e, portanto, no resto da vida social, da reconstituição de grupo económicos privados em setores estruturalmente geradores de poder e de superlucros, provando-se, de resto, que aí só a propriedade pública é propriedade nacional. O país tem sido sangrado pela transferência de recursos para o exterior, sob a forma de juros, lucros e rendas, dado o controlo externo crescente de setores nacionais absolutamente estratégicos, geridos em função de negócios cada vez mais estrangeiros.  

Desde os anos 1990 que os comunistas portugueses alertam, em livros e panfletos luminosos, para os efeitos desdemocratizadores do Tratado de Maastricht e suas cada vez mais graves sequelas, incluindo o crucial euro, tendo sido os primeiros a chamar a atenção para as suas tendências estagnacionistas. De facto, os comunistas estiveram, nos anos 1990, na vanguarda da defesa de um referendo a esta mudança no regime de política económica, com consequências deletérias em todas as esferas da vida social nacional.  

Desde sempre que alertam, e fizeram-no com particular veemência durante a troika, para os efeitos recessivos das políticas de austeridade orçamental, laboral e monetária, para usar o desdobramento luminoso de Clara Mattei, historiadora da economia política, no seu livro A ordem do capital – Como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho ao fascismo (Temas e Debates, 2024). De facto, ainda há pouco os comunistas chamavam a atenção para os efeitos perversos da subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu ou para a permanente compressão do investimento público, que faz com que Portugal seja um de três países da União Europeia com os mais baixos níveis, em percentagem do PIB. O investimento público é uma variável com efeitos multiplicadores no investimento privado e logo no rendimento nacional.

Desde há alguns anos que os comunistas portugueses alertam para os efeitos perversos do desmantelamento do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e contra a ideia de que se pode agir em matéria migratória ao serviço do capital mais explorador, como se o país tivesse capacidades de acolhimento ilimitadas. Exige-se, creio, uma regulação dos fluxos migratórios por uma dupla razão: para defender quem cá está e quem quer vir para cá trabalhar, de modo que ninguém fique vulnerável perante o patronato. A dignidade do trabalho é para todos e ninguém deve estar vulnerável perante os traficantes de seres humanos.

Desde há muito que os comunistas defendem que o neoliberalismo alimenta o neofascismo, sendo este uma das expressões políticas das frações mais reacionárias do capital. Agora, basta seguir o dinheiro dos financiamentos, do Chega à IL. Os liberais até dizer chega da IL, tão ou mais perigosos ideologicamente do que o Chega, têm um Instituto +Liberdade (para explorar). Só em três anos, recebeu cerca de 500 mil euros do nono homem mais rico do país, Carlos Moreira da Silva. A credulidade económico-política, de recorte anti-iluminista, é hoje maciçamente financiada.
 
Desde há anos que os comunistas portugueses vêm alertando, brutalmente isolados no início, que a cultura imperialista da guerra só alimenta o desperdício armamentista, à custa dos Estados sociais e da vida, fazendo do anticolonialismo, do anti-imperialismo e logo do antirracismo modo de atuação, identidade. Hoje, essa luta é mais atual do que nunca: basta pensar nos compromissos que a direita, com apoio mais ou menos assumido do PS ou do Livre, tem vindo a assumir, no quadro da NATO, nesta área. O interesse nacional, o da maioria social, não passa por esta pulsão de morte.

E poderia continuar. Mas o leitor já percebeu aonde quero chegar: não há em Portugal quem tenha alertado tanto e acertado tanto, seja na academia, seja nos movimentos sociais ou em outras expressões de inteligência coletiva, para já não falar dos outros partidos. Desafio-o a comparar. 

Neste contexto, importa renovar a crença na promessa emancipatória aberta pelo melhor iluminismo. O curto e incisivo ensaio da filósofa catalã Marina Garcés – Novo Iluminismo Radical (Orfeu Negro, 2023) – é útil neste contexto. Não sendo comunista, esta filósofa combina sagazmente pessimismo da inteligência e otimismo da vontade, resgatando a promessa iluminista enquanto combate à atual «credulidade sobreinformada» e cínica. 

Indo para lá da condição pós-moderna, de um suposto presente eterno, Garcés denuncia o que apoda de «condição póstuma» gerada pela pulsão de morte de um capitalismo sem alternativa – «um novo relato, único e linear: o da destruição irreversível das nossas condições de vida», fazendo do presente «o tempo que resta». 

Garcés reabilita a promessa emancipatória contida no melhor iluminismo: «a pergunta que norteia o iluminismo não é o "até quando?" da condição póstuma, mas o "até onde?" da crítica». Num certo sentido, os alertas comunistas passam sempre por aqui: até onde vai a perda de soberania democrática ou de direitos laborais, por exemplo?

Garcés termina com um diagnóstico pertinente sobre a crise da cultura e das humanidades ditas críticas, tantas vezes perdidas numa desvalorizada denúncia das «relações entre saber e poder», demasiado despreocupadas em relação à esperança fundada na emancipação: «a sua crise está diretamente relacionada com a distância que se abriu entre o que sabemos acerca de nós e do mundo e a capacidade de o transformar».  
 
Eliminar essa distância, «elaborar o sentido e as condições do vivível», é tarefa coletiva, requerendo ação coletiva, ou seja, organização luminosa, como os comunistas portugueses nunca se cansaram de insistir e de praticar com coragem ímpar. De facto, e sem relativismos, «já não se trata de o verbo se ter feito carne, mas de a carne produzir verbos e de os verbos terem consequências na forma como vamos viver na nossa carne».

Já estou a ver uma réplica potencial do leitor a tudo isto: se os comunistas portugueses estão cada vez mais fracos eleitoralmente, o que é que esse seu iluminismo radical interessa? Interessa muito. Pode perder-se força e ainda assim ter muita razão, muitas razões. É sempre necessário distinguir validade e poder. As derrotas políticas não são por si só refutações. A política que interessa é a razão feita movimento, organização. Quem desistir da análise séria, tão objetiva quanto possível, está perdido. Quem desistir de ir de forma luminosa à raiz dos problemas está perdido. E não nos podemos perder, se queremos voltar a vencer.

Terça, 03 de Junho de 2025

Adenda. O quadro é da autoria de Rogério Ribeiro e vi-o no ano passado, numa retrospectiva no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a que aqui aludi.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Marcelo Rebelo de Sousa - 40 anos da Adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias

* Marcelo Rebelo de Sousa

Intervenção do Presidente da República na Sessão Comemorativa dos 40 anos da Adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias

Senhora Presidente do Parlamento Europeu, Ilustre amiga,

Bem-haja por este honroso convite pelos quarenta anos da adesão de Portugal e da Espanha às Comunidades Europeias.

Majestade Rei das Espanhas, Felipe VI, ilustre e muito querido amigo,

Senhor Presidente do Conselho Europeu, ilustre e velho amigo,

Senhoras Deputadas, Senhores Deputados,

Excelências,

En primer lugar, quería transmitir a Su Majestad el Rey Felipe y al pueblo de España mi solidaridad tras la tragedia del pasado domingo, que se cobró tantas vidas inocentes.

O Reino de Portugal nasceu em 1143, vai para nove séculos, e viu a independência reconhecida, em 1179.

Nasceu na Europa e nasceu de linhagens europeias.

Nasceu na Europa, na Costa banhada pelo Oceano Atlântico.

O nosso primeiro Rei tinha por Mãe uma filha do Rei de Leão, um dos Reinos que, séculos mais tarde, formaria o Reino de Espanha.

Tinha por Pai um irmão do Duque de Borgonha, um ducado que, séculos mais tarde, ajudaria a formar o Reino de França.

Mas nasceu também de linhagens vindas de outras Europas, do Norte, do Sul, do Oeste e do Leste. E de África e das Ásias. Mais tarde das Américas e das Oceanias. Num caldo de etnias, culturas e religiões.

Somos europeus desde as raízes.

E essas raízes mesclaram-se, logo à partida, com as de outros continentes, de outros universos.

Por isso não há portugueses puros, há portugueses diversos, na sua riqueza cultural.

Somos europeus, na língua, na cultura, na História, e, porque europeus, universais.

A nossa vida foi, do século XV aos séculos XIX e XX, uma saga constante na Europa Continental e fora dela – porque desde o século XV atravessámos oceanos e tocámos ilhas e continentes.

Uma saga em que deixámos uma diáspora por todo o mundo.

E fomos, muitas vezes, mais felizes a navegar pelo mundo do que nas guerras europeias.

Com os vizinhos, que eram nossos parentes, conquistámos independência, guerreámos para a mantermos, perdemo-la e recuperámo-la.

Até ao século XVII foi um desassossego constante. Como o foram as guerras continentais em que nos envolvemos.

De tal modo que, no século XIX, a nossa independência teve de ser garantida, com a capital do Império no Brasil.

Éramos europeus, mas a Europa, que nos iluminava, não foi sempre portadora de boas notícias.


Excelências,

O que há de verdadeiramente diferente e notável é que a integração europeia do século XX, que culminou na adesão há quarenta anos, no mesmo dia da Espanha, com papel cimeiro de Mário Soares e Felipe Gonzalez, veio mudar a História.

Mudou a História europeia. Mudou a História nas relações com o nosso único vizinho por terra. Mudou a nossa História. Mudou para a Liberdade, mudou para a Democracia, mudou para o Estado de Direito, mudou para o Desenvolvimento, mudou para a Justiça Social.

E, depois de séculos de independência baseada nos Oceanos e do inevitável, mas tardio, fim do Império, com a formação da multicontinental e multioceânica Comunidade de Países de Língua Portuguesa, Portugal e a Europa, Portugal e a Espanha, Portugal e os Estados de sucessivos alargamentos europeus, começaram uma nova História. Que dura há quase cinquenta anos e que não teria sido possível sem a Europa, à margem da Europa, contra a Europa.

Exemplo singular desta mudança é a fraternidade entre Portugal e Espanha, a Espanha e Portugal, aqui eloquentemente testemunhada pelos dois Chefes de Estado unidos, em representação das respetivas Pátrias e dos respetivos Povos.


Excelências,

É, hoje, moda do momento, esquecer, minimizar, diminuir a Europa e o seu papel no mundo.

Não percamos um segundo a hesitar, a duvidar, a autoflagelarmo-nos. Temos mais Liberdade, Democracia e Estado de Direito do que tantos outros. Muitos de nós estão em lugar cimeiro do Desenvolvimento Humano e dos padrões de igualdade social. Temos um mercado dos maiores do mundo. Garantimos condições de vida comparativamente superiores à generalidade dos Estados. Somos um destino sonhado por tantos, de todos os continentes. Mas sabemos que tudo isto não basta e que perdemos, por vezes, tempo e que temos de fazer mais e melhor.

Precisamos de mais juventude, de mais conhecimento, de mais ciência, de mais tecnologia, de mais segurança comum, de mais crescimento, de mais justiça, de mais capacidade de mudança dos nossos sistemas políticos, económicos e sociais, precisamos de mais unidade, precisamos de mais futuro.

Precisamos.

Mas então tratemos disso. Com prioridade e com urgência. Contemos, antes do mais, connosco. Nós próprios, que temos de acreditar na Europa Livre, Igualitária e Democrática.

Reconstruamos a Europa. Sem medos. Sem inibições. Sem complexos.

Temos aliados? Temos. Para além da União Europeia, Portugal tem o Reino Unido, há quase 650 anos, e preferiríamos que estivesse ainda mais com a União Europeia do muito que já está.

Temos os Estados Unidos da América, cuja independência Portugal foi o primeiro Estado europeu, salvo a França, portanto o primeiro Estado neutral, a reconhecer, mas preferiríamos que fossemos sempre aliados a cem por cento e não com hiatos, intermitências ou estados de alma.

E, num e noutro, temos Comunidades fortes, históricas, jovens e pujantes.

Mas isso não é o essencial.

Nós, Portugueses, nós Portugal, já éramos Pátria independente há muitos séculos, ainda não existia a maioria dos Estados do Mundo, nem dos mais poderosos de hoje.

Fomos assim, somos assim. Sempre na Europa. Nos últimos 40 anos, mais na Europa e com a Europa. E, por isso, no universo e com o universo.

Reconhecidos às Comunidades Europeias. Reconhecidos à União Europeia. Tudo o que se possa dizer das Comunidades Europeias, hoje União Europeia, de crítico, de falível, de errado, de insuficiente, e há muito, é nada comparado com aquilo que lhes devemos.

Europeus sempre. Transatlânticos sempre. Universais sempre.

Avancemos, pois, recriemo-nos no que for necessário, que os aliados e os parceiros, que desejamos, virão, como sempre vieram, quando perceberem que não há senhores únicos no globo, que não há poderes eternos. E que as nossas alianças e parcerias valem mais do que a espuma, mesmo espetacular, mesmo sedutora de cada dia.

Digo-vos mais. Não há quem consiga hoje refazer pela força a divisão do mundo em hemisférios como no passado e sonhar controlar o seu hemisfério, ou resolver problemas do mundo sozinho. Falhará quem o tente no século XXI, como falharam outros no século XX.

E não se invoque o biliteralismo, que, verdadeiramente, é unilateralismo, que é uma forma de enfraquecer o multilateralismo e as instituições internacionais, sem que, quem deseja exercer essa hegemonia, esse controlo, tenha condições para o fazer como sonha ou afirma.

E não há como fazê-lo ignorando a Europa, o seu papel nos valores, o seu papel na justiça social, o seu papel na economia mundial. Porque a Europa ainda é e será sempre berço da Democracia, ainda é e será sempre farol de Liberdade, ainda é e será sempre esteio de Estado de Direito, ainda é e será sempre referência de Estado Social.

Foi assim no passado. Será assim no futuro.

Por isso, nós portugueses, por isso, nós europeus nunca, mas nunca mesmo, desistiremos do nosso papel fundamental no universo.

Porque desistir do seu papel universal seria, para a Europa, desistir dos seus valores, desistir de si própria, desistir de todos os que lhe dão vida.

Por isso, nós portugueses, nunca, mas nunca mesmo, desistiremos da Europa. Porque desistir da Europa seria, para Portugal, desistir de uma parte essencial e insubstituível de Portugal.

Neste dia de 40 anos de adesão da Espanha e Portugal, de Portugal e da Espanha, à Europa, viva Portugal, viva a Espanha, viva a Europa!

21 de janeiro de 2026

https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2026/01/intervencao-na-sessao-comemorativa-dos-40-anos-da-adesao-de-portugal-e-espanha-as-comunidades-europeias/

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Camões: O poeta do povo num mundo em mudança




Intervenção de Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP

22 Novembro 2025, Coimbra



 Gostaria de agradecer a todos a  presença neste concerto, inserido no programa do PCP de comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões.

Permitam-me uma saudação particular aos artistas, aos trabalhadores da cultura, a todos os que se empenharam na concretização desta iniciativa. 

É justo questionar como é que com tanta coisa para fazer e em tempos tão difíceis que exigem tanto e cada vez mais de todos nós, tempos de aperto na vida da maioria dos jovens, das mulheres, dos trabalhadores, tempos de injustiça, promoção do ódio, divisão, de incertezas, perigos e de desesperança para o povo, porque razão o PCP se lança de forma tão profunda e empenhada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões com um programa tão diversificado como aquele que estamos a levar por diante? 

Pois bem, avançamos com estas iniciativas porque Camões é, como afirma o lema das comemorações, “o poeta do povo num mundo em mudança”.

Avançamos pela sua actualidade e porque é fundamental que o povo conheça a obra do poeta que lhe deu voz.

Avançamos nestas comemorações porque é imperativo intervir pela verdade histórica que confronta a mentira e a manipulação.

A obra de Luís de Camões foi manipulada pelo fascismo, procurando com ela dar cobertura ideológica a um regime opressivo e ao colonialismo com tudo o que o envolve. 

Camões não é o poeta dessa gente, não é o poeta do medo, do individualismo, da resignação, da manipulação de consciências, da censura, da repressão, do terror.

Camões é do Renascimento, desse pensamento novo que confronta o velho pensamento dogmático de classes dominantes que procuraram reprimir e conter, nomeadamente através da Inquisição.

Camões nunca foi protegido pelo poder nem pelos privilegiados do seu tempo, é o poeta de Os Lusíadas que tal com como Álvaro Cunhal, referiu e cito: 

«Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, dos Lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista».

Camões é o poeta da aventura portuguesa nos oceanos, da descoberta mútua e das relações entre os povos, das trocas comerciais e culturais, das novas rotas, novas estrelas e dos novos céus.

Camões é o poeta do aguçar dos sentidos, das capacidades de descrição, raciocínio, experimentação e do conhecimento.

Como afirmou Garcia de Orta: «sabe-se mais num dia agora pelos portugueses do que se sabia em cem anos pelos romanos». 

Assinalar Camões pelo que foi, o que representa e quem representa na sua obra, é dar um contributo para o combate a ideias e concepções retrógradas, reaccionárias e bafientas que alguns procuram recuperar e difundir.

Mas é mais, é dar voz a esse povo por ele sempre exaltado, esse povo que lutou para defender a independência nacional, esse povo que com as suas mãos contraria sempre, mais cedo ou mais tarde, o conformismo que alguns querem impor. 

É esta a nossa história e assim foi nesse momento maior da vida do povo que foi a Revolução de Abril.

Essa data maior e única que alguns procuram fazer esquecer da memória colectiva, para fazer esquecer e pôr fim às suas conquistas e valores.

Essa data maior e única que alguns querem reescrever e substituir por outra qualquer, de forma a consolidar um rumo e uma política que aperta a vida da maioria e concentra a riqueza, benesses e privilégios nas mãos de uns poucos.

Um rumo de dezenas de anos, levado a cabo agora pelo Governo de turno de PSD e CDS, com uma política apoiada pelo Chega e pela Iniciativa Liberal, e que conta com a cumplicidade do PS. 

Um rumo que coloca Portugal nas mãos dos grandes grupos económicos e das multinacionais, um rumo e uma política  contrárias às necessidades da maioria dos que cá vivem e trabalham, de desinvestimento e ataque ao SNS, à escola pública, à cultura, à generalidade dos serviços públicos; de baixos salários e pensões, brutais dificuldades na habitação, manutenção e agravamento da precariedade e das condições laborais; de insistência no caminho de abdicação da soberania e da produção nacional.

Como assinalou Camões: «O fraco rei faz fraca a forte gente». 

Este rumo e esta política submissa perante os poderosos enfraquece o povo e a sua vida.

Comemorar Camões é também contribuir para fazer mais forte a nossa forte gente.

É afirmar o pensamento avançado, descobrir e respeitar as diferentes culturas, dar combate às injustiças e desigualdades, é afirmar a cooperação, solidariedade, respeito e soberania dos povos, fazer frente à guerra e lutar pela Paz.

Comemorar Camões e a sua obra é lembrar sempre que as lutas de hoje – pelos salários, as pensões e os direitos, contra o pacote laboral e na construção da greve geral, pelo direito à habitação, à escola pública, à cultura – se inscrevem no mesmo processo histórico de denúncia e combate às injustiças e desigualdades em que Camões, ressalvada a diferença de contexto e de tempo, se inseriu.   
 
É também por isto tudo que o PCP se lança, nestes tempos, de forma tão empenhada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões e que realizamos hoje mesmo este concerto.

Associemos agora ao engenho e arte de Luís de Camões, o engenho e arte dos artistas que hoje aqui vão intervir. 

Jaime Nogueira Pinto - Camões: o poeta cego, surdo e mudo




* Jaime Nogueira Pinto

A ideia de emitir uma moeda comemorativa dos 500 anos de Camões com uma efígie estilizada em que o “poeta cego” também surge surdo e mudo diz-nos muito de quem a encomendou e, em Dezembro, a aprovou.

08 jun. 2024

Por má fortuna, os quinhentos anos do que se convencionou ser o nascimento de Camões coincidiram com cinquenta anos do 25 de Abril. E o tempo, o modo e os fundos alocados pelo Estado às comemorações do Regime contrastaram flagrantemente com a incúria e a modéstia de fundos destinados à celebração do épico. E assim tinha de ser. O combatente do Império no Norte da África e na Índia, cantor exaltado e exaltante de feitos de guerra e de conquista, homem de sensibilidade, subtileza, erudição e experiência, capaz de dar voz ao contraditório e a todas vãs cobiças, capaz também de se deixar cativar por uma “cativa”, pode ser um homem para todos os tempos e estações… para todos, menos para este. Ou é-o pela ausência, pelo vazio, pela amordaçada mudez, pela surdez induzida e pela cegueira metafórica que a moeda comemorativa tão bem ilustra. Num tempo de maniqueísmo simplista, contrição oca e ignorância induzida, Camões só poderia ter lugar como saco de vento e “poeta cego”, ou mais precisamente, na designação oficial da moeda, como “efígie estilizada do poeta cego, com uma coroa de louros e uma gola típica do século XVI”. E depois havia ainda o colonialismo, o imperialismo, o “nacionalismo exacerbado”, a todos os títulos hostis a globalismos, federalismos e multiculturalismos generalistas.

Assim – e também pela qualidade formal e estilística e pela lucidez no juízo dos homens e dos tempos – era, desde logo, natural que Camões não despertasse grande entusiasmo entre a classe política dirigente e a intelectualidade desta Terceira República.

“Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram,
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano
A quem Neptuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”

…Cale-se e cesse também Camões e o seu ilustre peito lusitano que outros valores (mais altos?) se alevantam. Que valores exactamente não sabemos; sabemos só que não são nem podem ser os do “peito ilustre lusitano”.

Temo que Vasco da Gama, cujos 500 anos da morte também se cumprem este ano, em 24 de Dezembro, véspera de Natal, não venha a conhecer melhor sorte. Até porque, além do delito de “nacionalismo exacerbado”, que partilha com Camões, praticou alguns dos crimes pelos quais devemos ao mundo penitência e reparação.

De regime em regime

Como este agora o queria fazer pela ausência amordaçada, também os anteriores regimes se foram sucessivamente apropriando de Camões.

Em 1880, o nascente partido republicano usou o terceiro centenário da sua morte de para criticar a Monarquia. A ideia era pegar na grandeza do poeta, da épica e do Portugal de Quinhentos para a atirar bem à cara do Portugal decadente do rotativismo regenerador.

Assim, na fórmula de Teófilo Braga, o homem da iniciativa, Camões simbolizava “as glórias e os desastres de Portugal”. Para Teófilo – e  apesar do positivismo comteano da sua formação –,  tratava-se de através da emoção e dos sentimentos populares suscitados pela memória gloriosa de Quinhentos, de que o Poeta era digno protagonista e celebrante, mobilizar a opinião pública e popular mostrando-lhe o fosso entre a grandeza do século das navegações e conquistas e “a apagada e vil tristeza” do país da Regeneração. O que se pretendia era esse contraste histórico entre o presente de então e o Portugal do Príncipe Perfeito e do Venturoso, contado e celebrado por Camões nos Lusíadas, a diferença entre essa “Idade de Ouro”, real ou mitificada, em que tínhamos sido pioneiros nos mares e oceanos e grandes na conquista das terras e o presente. Era com tudo isso que o intelectual republicano Teófilo Braga, através da promoção de grandes comemorações camonianas nacionais e populares, ao modo das festas cívicas da Revolução Francesa, queria espicaçar o povo.

Camões, nesse tempo, servia a uma esquerda nacional, republicana e patriota: era um poeta que celebrava o Portugal da Renascença, promotor de Modernidade, um poeta que, para o futuro primeiro presidente provisório da República jacobina, enfileirava com Virgílio e Dante, guias do entendimento e da cultura da Humanidade. Para Teófilo, Camões, tal como Leonardo e Miguel Ângelo, fazia a transição da Idade Média para a Renascença.

Na Geração de Setenta, quer Oliveira Martins, quer Antero de Quental foram críticos desse seu entusiasmo, por razões ideológicas e políticas: Oliveira Martins achava a versão de Teófilo de uma Renascença mais ou menos esclarecida, um mito; para ele, o cristianismo fundamentalista e identitário e o imperialismo político-militar não eram dissociáveis ao século de Quinhentos português; e Antero, no seu pessimismo, via em Camões e nos Lusíadas mais um epitáfio celebrativo do fim do ciclo da grandeza que uma proposição para memória e ressurreição nacionais. E Martins, em 1891, já depois da crise e humilhação do Ultimato, diria que o “entusiasmo de 1880” tinha “ardido como palha”.

Hoje, depois do enaltecimento do Estado Novo do Poeta e da épica, a Esquerda não está muito interessada nem em Camões, nem em lembrar as glórias do Século de Ouro.  Ou tão pouco parece interessada – por ideologia, desinteresse ou falta de tempo ou ciência – nas suas complexidades e na crítica do Poeta à época em que escreve ou à gesta do passado.  O governo socialista que, curiosamente, podia reclamar alguma ascendência da esquerda republicana e patriota que, há quase 150 anos, por interesse político de circunstância, mobilizou os lisboetas e os portugueses para o centenário da morte de Camões, pouco ou nada fez por este Quinto Centenário do Poeta. Olhou para o lado, ocupadíssimo a planear e financiar os 50 anos de Abril e a acolher a agenda educacional da extrema esquerda. Tanto que, na organização (ou ausência dela) das comemorações camonianas, não constava sequer o Ministério da Educação, agora justamente reposto como parceiro.  Afinal, para quê implicar o Ministério da Educação nas comemorações, congestionada que já estava a Educação com tantas, tão determinantes e tão inclusivas agendas?

O melhor era ignorá-lo e festejar Abril. E depois, o Poeta, na sua vida irrequieta e perigosa, nos seus amores impossíveis, nas suas servidões e grandezas militares, nas suas “desajustadas” devoções a Deus, à Pátria e ao Rei, na sua consciência de contemporâneo e agente da original “exportação de Estado” pelos portugueses, não se coadunava com as esquerdas festivas das nostalgias anti-coloniais e muito menos com o simplismo das esquerdas do cancelamento e da vitimização à la carte.  Tão pouco poderia “civilizar-se”, “pacificar-se” e “liberalizar-se” aquele a que a época forçara a outros modos.

Era coerente. Como dar volta ao Camões de Ceuta e da Índia, ao Camões dos Lusíadas, ao contador de uma história que, à luz dos valores em promoção e circulação, não passava de um marginal belicista, nacionalista, imperialista, colonialista, autor de uma narrativa épica que punha os guerreiros que fundaram e defenderam Portugal do lado certo da História?

Todo um outro programa

O facto de esses guerreiros, os reis e heróis da História e do poema camoniano, serem os defensores da pátria e da terra portuguesa – Afonso Henriques na primeira guerra da independência, o Mestre de Aviz e Nun’Álvares na segunda, D. Manuel na decisão de mandar Vasco da Gama à Índia, e os Almeidas, os Albuquerques e Castros que por lá andaram, lutaram e, alguns, morreram – parece ter-se tornado relativamente irrelevante. Bem como o facto de Camões não ser um servidor acéfalo dos poderes vigentes: deixa a contradição do Velho do Restelo por resolver (como observa Carlos Maria Bobone no seu recente Camões: Vida e Obra ) e está particularmente atento aos factores e riscos dos desvios do poder, ao abuso, à corrupção, à tirania, ao mau conselho que podem transformar o monarca em tirano e subverter o bom governo. Os exemplos podem ser do Estado da Índia, mas a crítica ao poder é clara.

Ao ler no Público a versão expurgada da fala do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, sobre comemorações de Camões, assustei-me, pensando que o Poeta, esquecido e marginalizado pelos seus antecessores, ia agora ser celebrado de modo “democrático e inclusivo”, conforme o jornal dava a entender.  Felizmente fui ler as declarações de Montenegro na íntegra.  Afinal, o que o primeiro-ministro tinha dito era que não queria celebrar Camões “de um modo passadista ou saudosista”, mas que também não queria “modernizá-lo em termos anacrónicos falsificadores da verdade histórica…”. O que é todo um outro programa.

Ainda que o tempo não esteja de feição para grandes poetas ou heróis, nas suas contradições e errâncias, na profunda verdade da sua vida e da sua obra, Camões é Portugal ou também é Portugal. E é um grande intérprete do colectivo, do mundo e da comunidade, do universo e da pátria que nos fala do grande mundo a que Portugal se abriu e abriu.  Merece ser celebrado – e lido.

 https://observador.pt/opiniao/camoes-o-poeta-cego-surdo-e-mudo/

 

Jaime Nogueira Pinto - Camilo, nos 200 anos de um escritor genial


* Jaime Nogueira Pinto

Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais, trabalhava como “um remador de Ben-Hur”, qual escravo dos editores amarrado à produção em massa para ganhar a vida

22 mar. 2025

No Domingo passado, 16 de Março, completaram-se dois séculos sobre o nascimento em Lisboa, na Rua da Rosa, de um dos melhores escritores portugueses, Camilo Castelo Branco – ou Camilo, tout court.

É um conhecimento de infância. Tive um tio camilianista fanático, bibliófilo e bibliómano, pesquisador por alfarrabistas de primeiras edições do romancista. Não tinha filhos e eu passava muitos fins-de-semana em casa dele, em Vila do Conde. Era ali que ele juntava outros da mesma tribo, também devotos do escritor, para falarem interminavelmente de edições antigas, primeiras ou segundas, e das histórias dessas edições, do seu tempo de escrita e publicação, das anedotas à volta de raridades e falsas raridades.

Porque Camilo foi um fenómeno de produção e de qualidade na produção. Mais de duzentos títulos – romances, novelas, História, teatro, polémicas, até poesia. Coisas que eu, miúdo, com nove ou dez anos, à mesa dos mais velhos, ia ouvindo, juntamente com as histórias da sorte e do azar de romances como A Infanta Capelista – sobre uma Maria José, bastarda de El-Rei D. Miguel –, que Camilo teria mandado destruir antes da edição em livro, constava que a pedido do imperador D. Pedro II do Brasil, e que teria ido parar à Salsicharia Francesa, para embrulhar artigos de mercearia. Um cliente, um tal António Rebelo, teria dado pelo achado e adquirido as “folhas de embrulho” que restavam, salvando alguns, poucos, exemplares, dos quais mais tarde se publicariam duas edições fac-simile, fazendo da Infanta Capelista uma preciosa raridade camiliana.

(Há anos, a propósito de um livro de futurologia política sobre uma Administração americana que não veio a acontecer, lembrei-me deste episódio camiliano e dos presumíveis destinos, mais ou menos úteis, mais ou menos nobres, das obras malogradas.)

Mais tarde, Camilo reescreveu e reeditou o tema da infanta capelista em O carrasco de Victor Hugo José Alves, tornando-o menos ofensivo para a família real de Portugal e do Brasil.

Camilo ou Eça?

Os grandes poetas, como Camões e Pessoa, são quase sempre os grandes conhecedores da pátria, da nação, do colectivo histórico, da comunidade política, da herança e identidade de um povo entre os povos; conhecem-na, (re)constroem-na e exprimem-na nos seus altos e baixos, no seu modo peculiar de absorver e exprimir o universal. Já os grandes escritores apanham mais as pessoas. E os grandes escritores do seculo XIX que retrataram os portugueses, o seu modo de ser, a sua identidade ou as suas identidades, são incontornavelmente Camilo e Eça de Queirós.

Eça, como confessaria numa carta ao seu amigo conde de Arnoso, conhecia sobretudo Lisboa; e, de Lisboa, a “sociedade”, a “classe alta”; talvez por isso continuemos a descobrir nas nossas “elites” – e na classe político-empresarial-futebolística deste último meio século não faltam exemplares – Gouvarinhos, Dâmasos Salcedos, Acácios. Já Camilo dá-nos outros portugueses, mais rústicos, os das terras de Portugal, mesmo que vindos para a capital; e, entre eles, mais os do Norte, os das “novelas do Minho”, os da Samardã, os das invasões francesas e das guerras civis, os que, quando ofendidos, vão a casa buscar o bacamarte e voltam com ele para lavar a honra com o sangue do ofensor.

E há a quantidade e a qualidade. Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais, trabalhava que nem “um remador de Ben-Hur” (para usar a imagem do inigualável Nelson Rodrigues), ou qual escravo dos editores, amarrado à produção em massa e em série para ganhar a vida, correndo sempre atrás do prejuízo. Bem ao contrário de Eça de Queirós, funcionário diplomático e bem casado.  Embora gastador e devedor e, curiosamente, também “filho de mãe incógnita”, Eça nunca viveu o trágico sorvedouro das dívidas e da angústia que daí vem. Camilo passou por essa e por outras desgraças.

Por isso, na cadeia da Relação do Porto, em 10 de Agosto de 1861, quando cumpria pena por adultério com Ana Plácido, depois da queixa-crime do marido traído, escrevia ao seu primeiro biógrafo, Vieira de Castro: “A página mais crível e instrutiva da minha biografia será aquela em que escreveres que a desgraça é a pedra de toque onde se aquilatam os amigos.” Vira “os muitos em que se fiava” a desaparecer; mas não deixara de ver “em redor aqueles com quem não contava”.

As mulheres e a “mulher fatal”

Fora assim a sua vida – trágica, desde o berço. Fruto de uma aventura do pai, Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, irmão do Simão Botelho que ele havia de imortalizar em Amor de Perdição – Romeu e Julieta português, escrito em duas semanas, na prisão.

Antes do encontro com a sua mulher fatal,  Camilo entregou-se a amores jovens, aventureiros e mal-aventurados, seduções e paixões rústicas e freiráticas, relações inominadas e ambíguas… Bernardina Amélia, Fanny Owen, a “costureira do Candal” … até que, num baile na Assembleia Portuense, em 1848, conheceu  a mulher da sua vida, Ana Plácido, casada com o “brasileiro” de torna-viagem Pinheiro Alves.  Ana, nesse dia, “vestia de branco, com enfeites de fitas escarlates nos cabelos, como escreveria o apaixonado em Cenas Inocentes da Comédia Humana.

Paixão verdadeira desde o primeiro instante, com o desajeitado Romeu a passarinhar-se pela rua do Almada, onde morava a sua Julieta, que estaria à janela, com alguma provocação. Porque a acreditar em Mestre Aquilino, um entre a dúzia de biógrafos de Camilo – dos seus contemporâneos Vieira de Castro, Freitas Fortuna, Alberto Pimentel, até Pascoaes, Agustina, Alexandre Cabral –, Ana Plácido já teria sido amante de António Ferreira Quiques, um portuense amigo de Camilo, possível pai biológico de “Manuelinho”, que no registo apareceria como filho do marido da mãe, do propriamente dito Pinheiro Alves.

Camilo foi para Lisboa, mas voltou ao Porto e voltou a vê-la, dez anos depois, em Braga, no Bom Jesus do Monte. Ana Plácido, que tivera uma boa educação, em família burguesa e numerosa, descrevia o marido, o “brasileiro” Pinheiro Alves, como “mau homem e repelente” e acabaria por fugir com Camilo.  Os amantes seriam condenados. Mais tarde, depois de livres, mas sempre perseguidos pela desgraça, viveram juntos em S. Miguel de Seide, onde tiveram dois filhos.

Foi este homem de vida atribulada e até trágica que contou admiravelmente o Portugal do seu tempo em folhetos e romances com títulos curiosíssimos, como Maria não me mates que sou tua mãeO parente dos cinquenta e três monarcasMistérios de LisboaDoze casamentos felizesNovelas do MinhoNoites de InsóniaEusébio Macário, e a sua continuação, A Corja. E A Brasileira de Prazins.

É uma obra extraordinária, um retrato de Portugal do século XIX, das invasões francesas ao fontismo. Além da verdade e realidade das personagens e dos enredos, fica um estilo e uma linguagem únicos, expressivos e variados: do romantismo de Maria Moisés, das Novelas do Minho, ao verrinoso dos panfletos contra inimigos literários e existenciais, a quem não poupava, como o poeta brasileiro Tomás Filho.

Romancista histórico?

De certo modo, os romances e novelas de Camilo são romances “históricos” que nos dão, não só a História e a evolução política no tempo e na língua, como Maria Helena Carvalhão Buescu demonstrou a propósito de Amor de Perdição e de A Queda de um Anjo, mas que nos mostram, através das personagens e das histórias, o tempo, bem agitado, que vai do miguelismo e da guerra civil ao final do rotativismo. Por isso a Teresa do Amor de Perdição diz ao pai que não casa com quem ele quer, e Mariana, plebeia, apaixona-se pelo fidalgo Simão Botelho, que é tio de Camilo, irmão de Manuel Joaquim, pai do escritor.

A teia romanesca camiliana apanhou todos estes protagonistas do seu tempo, um tempo que faz a transição das oligarquias tradicionais, noblesse de sang e noblesse de robe (nas famílias de Simão Botelho e de Camilo) para as classes novas do constitucionalismo, do Porto burguês e liberal, dos “brasileiros”, dos “eleitos” deputados e barões de que o Calisto Elói de A Queda de um Anjo é um fidelíssimo retrato, um irmão próximo do Abranhos de Eça, retratos ainda vivos e actuais da nova oligarquia liberal-democrática.

Camilo era assim. Pintou o século XIX como ele foi em Portugal e na Europa, um filho das guerras da Revolução e do Império – primeiro das invasões francesas e da guerra miguelistas-liberais; depois do liberalismo convulso até à Regeneração, pelo golpe militar de Saldanha.

Em Eusébio Macário e na Brasileira de Prazins quis mostrar-se à vontade na nova religião do romance realista. Mas Camilo não era só capaz de realismo literário; era um realista existencial, que entendia a continuidade da natureza humana e a continuidade dos portugueses. Os mestres do liberalismo, Garrett e Herculano, antigos voluntários e combatentes da nova fé, desiludiram-se da nova ideia com a prática; Herculano, retirando-se para Vale de Lobos e dizendo que o estado da pátria lhe dava vontade de morrer, Garrett fazendo a crítica ao materialismo dos barões e agiotas do liberalismo, lembrando nas Viagens na minha Terra que Jesus lhes faria o mesmo que aos vendilhões do Templo.

Camilo, crítico do absolutismo português, no Perfil do Marquês de Pombal, crítico da oligarquia liberal, em A Queda de um Anjo, autor de uma charge ao miguelismo nortenho nessa saga burlesca que é A Brasileira de Prazins, em que um sósia do príncipe exilado mobiliza para a contra-revolução a reacção do Portugal Velho, parece não ter tido nem ilusões nem desilusões políticas. Talvez porque a todos visse como homens, protagonistas e figurantes do seu tempo e da sua pátria na grande comédia ou tragédia humana. Um som e uma fúria que contou com humor e sentido do trágico em mais de duas centenas de títulos, alguns milhares de personagens, dezenas de milhares de páginas – de boa literatura, acrescente-se.

Pena que o tenham trocado por moeda mais nova e mais barata; e logo num tempo em que a consciência crítica de si, dos outros, do país e do mundo está tão em falta.

        https://observador.pt/opiniao/camilo-nos-200-anos-de-um-escritor-genial/ 


Jailme Nogueira Pinto - O grande imaginador: Nos 120 anos da morte de Júlio Verne


* Jaime Nogueira Pinto 

Os heróis de Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances de Verne acabavam bem.

29 mar. 2025

Júlio Verne, popularmente considerado o precursor ou o antepassado próximo da literatura de ficção científica, morreu há 120 anos, a 24 de Março de 1905.

Fui desde cedo um leitor apaixonado da ficção científica que me chegou, como à maior parte dos da minha geração, pela colecção Argonauta dos Livros do Brasil. A Argonauta apareceu em 1953, e foi talvez em 1956, nas vésperas de entrar para o liceu D. Manuel II, que comecei a ler os livros, à medida que iam saindo. E fi-lo regularmente, aí até ao número 200.

Li os primeiros números no Verão, numa praia da Foz do Douro, uma dessas praias do Estado Novo dos anos 50 cheias de regras e rituais – com cabo do mar, baloiços, fatos de banho com peitilho ou camisola interior e três horas de “digestão”. Horas sagradas, que tínhamos de passar “a descansar”, entre o almoço frugal de sanduiches mistas e o banho das cinco da tarde.

Anos mais tarde, no Algarve, o meu sobrinho Pedro havia de me perguntar: “Tio Jaime, acredita na digestão?” Nessa altura já tinha perdido “a fé”, mas quando era novo, todos acreditávamos na digestão. E mesmo que não acreditássemos tínhamos de recolher à barraca durante três horas, independentemente das nossas crenças e vontades. Por isso, foi estendido na toalha de franjas, debaixo da lona grossa da barraca que li muita Argonauta (também se acreditava que não era bom apanhar o sol a pique da hora do almoço e que a leitura não fazia mal ao estômago).

Os livros, em formato de bolso, tinham umas capas lindas, de Lima de Freitas e de Cândido Costa Pinto.  Eram de Costa Pinto a capa do primeiro número da colecção – Perdidos na Estratosfera, de A. M. Low – e a de A Sexta Coluna, de Robert Heinlein, um verdadeiro épico do género que então me impressionou consideravelmente. E foi assim que fui descobrindo os grandes escritores da Science Fiction: a poesia das Crónicas Marcianas, de Ray Bradbury, que em Fahrenheit 451 identificou uma distopia de destruição de livros cara aos totalitários de todas as tribos; os robots e a robótica e  os ciclos históricos da Fundação e do Império, de Isaac Asimov; Arthur C. Clarke e a sua Odisseia no Espaço; o extraordinário mundo feudal de Frank Herbert, o criador de Dune, que David Lynch adaptaria ao cinema; e outros, como A. E. Vvan Vogt, Fredric Brown, Brian Aldiss, Poul Anderson  e Philip K. Dick, um dos “últimos”. E a sobressair num género dominantemente masculino, Ursula Le Guin, a criadora do fabuloso Feiticeiro de Terra-Mar.

Mas a minha iniciação na “literatura de antecipação”, tal como a de muitos, em Portugal e no mundo, tinha acontecido antes, com as “viagens extraordinárias” de Júlio Verne, onde se misturavam o imaginário, a ciência e a geografia. 

Uma literatura de antecipação

Não era bem ficção científica era uma “antecipação” imaginativa a partir de invenções e acontecimentos relativamente próximos. Não nos podemos esquecer – e às vezes esquecemo-nos sob o impacto das surpresas e maravilhas científicas e técnicas da nossa Idade – que o núcleo duro das invenções que ainda fazem o nosso quotidiano são da segunda metade do século XIX: o telégrafo, a electricidade, o telefone, o cinema, o automóvel, o avião. Ora Júlio Verne nasceu em 1828 e morreu em 1905, ou seja, viveu o politicamente agitado século XIX francês, desde a monarquia tradicional restaurada de Carlos X de Bourbon até à Terceira República jacobina e anti-clerical de Loubet e Combes.

Não me lembro exactamente qual foi o primeiro livro de Verne que li, mas quase que ia jurar que foi A Ilha Misteriosa. A trama é um modelo da narrativa verneana, inspirada no clássico Robinson Crusoe, de Daniel Defoe (1719), no Robinson Suíço, de Johann Wyss (1812), e numa narrativa próxima do tempo do autor, a de François Édouard Raynal, que naufragara nas ilhas Auckland, no Pacífico Sul.

A Ilha Misteriosa saiu primeiro em folhetim jornalístico, entre Janeiro de 1874 e Dezembro de 1875, com ilustrações de Jules Férat. Faz parte das “viagens extraordinárias”, uma série de romances em que Verne combina aventura, maravilhoso, mistério, geografia, imaginação, ciência e tecnologia.

Durante o cerco de Richmond, cinco prisioneiros, cinco abolicionistas, conseguem escapar em balão; depois de cinco dias e quase dez mil quilómetros, chegam a uma ilha deserta do Pacífico. A personagem mais importante do grupo é o engenheiro Cyrus Smith, que leva com ele o criado Nab; há um jornalista, Gedeon Spillet, um marinheiro, Pencroff, e o jovem Herbert. Cyrus é o típico herói de Verne – um homem de coragem, de cultura e de ciência, um chefe natural, que não só vai assegurar a sobrevivência do grupo como a “colonização acelerada” da ilha, valendo-se da convergência de talentos e conhecimentos dos expedicionistas. Assim, a ilha “Lincoln” transforma-se num espaço civilizado, sob o qual vela o grande herói verneano, o capitão Nemo, o do Nautilus e das 20.000 Léguas Submarinas.

Verne nasceu em Nantes, na ilha Feydeau, perto do Quai Jean-Bart, onde passou toda a infância, o que lhe estimulou o gosto da viagem, do mar, das ilhas. Foi para Paris nos anos 1850 onde conheceu, além de Alexandre Dumas e Victor Hugo, Jacques Arago, viajante e geógrafo, que completara uma volta ao mundo em 1817, a bordo do l’Uranie. E, claro, o seu editor Hetzel, que encontrou em 1862 e com quem iria ter uma colaboração modelo e de longa duração. Um editor crítico que levantava objecções e fazia sugestões que o autor aceitava, também criticamente, como bem o documenta a correspondência entre os dois.

Verne e os outros

Em 1864, Verne publicou Cinq Semaines en Ballon, o primeiro romance da série “viagens extraordinárias”, que um crítico classificou como “roman cientifique”. Théophile Gautier, referindo-se ao novo género, falou em “quimera cavalgada e dirigida por um espírito matemático”; outros consideram-no uma “maravilha científica” e chamaram a Verne “pioneiro do romance científico”.

Por esse tempo, Edgar Alan Poe já publicara os contos e A Narrativa de Arthur Gordon Pym, e Émile Zola, num artigo de 1866, não pôde deixar de comparar “o pesadelo Edgar Poe” à “fantasia amável e instrutiva” de Verne. Outros críticos, reconhecendo a originalidade do fantástico de Poe na literatura de viagens de Homero a Defoe, passando pelas narrativas marítimas dos portugueses, reconheceriam também em Verne a originalidade da convergência “viagem, geografia, ciência, técnica e aventura”.

Os heróis de Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances de Verne acabavam bem. Quando comparamos o fantástico de Júlio Verne, com as suas máquinas e invenções que procuram sempre respeitar os dados científicos e técnicos do tempo, e a vindoura literatura de futuríveis do século XX – as distopias clássicas de Huxley, Orwell ou Bradbury, com os horrores das sociedades perfeitas de Brave New World, ou a tirania institucional de 1984 ou de Fahrenheit 451 – a diferença e a ruptura são chocantes. E não terá sido só por o século XX ter visto as primeiras utopias postas em prática, porque nos finais do século XIX, a partir de 1895, já H. G. Wells tinha escrito A Máquina do Tempo, (1895), O Homem Invisível (1897), A Guerra dos Mundos e Os Primeiros Homens na Lua (1901).

Verne escrevera Da Terra à Lua em 1865 e era, até por geração, o pioneiro: a crítica não resistiria à comparação. E mesmo em França, onde os livros de Wells foram traduzidos a partir de 1898, revistas como o Mercure de France, a Revue de Paris e a Revue des deux mondes preferiam o inglês a Verne.

A morte de Verne, em 1905, trouxe um clamor de elogios e até um certo espírito de reparação dos que tinham desdenhado o compatriota, preferindo o inglês. Reparação com algum exagero compensatório, como o do crítico Adré Lamie, que comparou o autor de A Ilha Misteriosa a Cervantes e a Balzac.

Verne é mais realista, mais científico, mais hábil a encontrar e encadear mil peripécias do que Wells; Wells é mais filosófico, mais problemático, mais desligado do técnico-científico. Verne é optimista em geral e moderamente optimista quanto à natureza humana e, além disso, é um homem de fé no Criador e na Criação. Wells não parece alinhar nesse optimismo.

Talvez por isso Verne seja um autor para a juventude, para a iniciação num mundo de aventura, como Robert Louis Stevenson, ou James Fenimore Cooper, ou Mark Twain, enquanto Wells é um precursor do século XX.  Um século que não trouxe as maravilhas que Verne tinha previsto, em que os submarinos serviram para afundar cargueiros civis e em que as grandes invenções foram acontecendo sobretudo a partir das guerras e para servir a guerra.

https://observador.pt/opiniao/o-grande-imaginador-nos-120-anos-da-morte-de-julio-verne

Gravura: Monumento a Julio Verne no Porto de Vigo
in  in https://blog.mcientifica.com.br/julio-verne//

Bruno de Carvalho - 25 de Novembro

* Bruno de Carvalho,

E o embaraço dos militares na televisão a tentar explicar porque é que os portugueses são indiferentes ao 25 de Novembro? As ruas completamente vazias são prova disso. De uma Praça do Comércio quase cheia para assistir à iluminação de uma árvore de Natal a uma Praça do Comércio vazia com uma parada militar a imagem é muito óbvia. 

Também tentam esconder factos relevantes. Recordo que, a 25 de Novembro, despediram cerca de 150 jornalistas de meios estatais de forma ilegal num processo de saneamento e perseguição política. Fizeram aquilo que acusaram outros de querer fazer.

O 25 de Novembro não foi uma tentativa de golpe da esquerda. Foi um protesto de um sector das forças armadas contra mudanças na hierarquia militar usado como pretexto para a direita militar iniciar um golpe para esmagar a revolução.

Ninguém saiu à rua para defender o golpe da direita. Os únicos que o fizeram foi para tentar evitar esse golpe. Não tiveram qualquer legitimidade ou apoio popular. De tal forma, que meses mais tarde a direita foi obrigada a aceitar uma constituição que tem o socialismo inscrito no seu preâmbulo. 

50 anos depois podemos dizer que são 50 anos de ruas vazias de qualquer capacidade de celebrar o 25 de Novembro. A direita podia tê-lo feito e nunca tentou porque sabe que seria um fracasso. Ainda assim, é um facto que o 25 de Novembro é a data em que a esquerda militar é derrotada e se inicia um processo contra-revolucionário. 

Quando hoje se fala da data que inscreveu definitivamente a liberdade e evitou um regime comunista, como alega a direita, nunca se diz o que realmente se celebra: o início do processo que empurrou o país para mais desigualdades sociais, pobreza, privatizações, desmantelamento do aparelho produtivo, entrega do poder aos grandes grupos económicos e financeiros e a perda da nossa soberania para a União Europeia.

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Fernando Rosas - O 25 de Novembro enquanto farsa

* Fernando Rosas
 
Não é difícil prever o que daqui sairá como “comemorações oficiais”: o espectro do novembrismo militarista em parada.

Num dos seus mais conhecidos escritos histórico-políticos, Karl Marx lembrou que o filósofo alemão Hegel fez notar que “os grandes acontecimentos e personagens históricas ocorrem, por assim dizer, duas vezes”. Mas, segundo Marx, ter-se-ia esquecido de acrescentar: “a primeira como tragédia, a segunda como comédia”.

Precisamente no caso presente, o Governo do PSD, não podendo reeditar a tragédia, ficou-se pela farsa: decretou umas “comemorações oficiais” do contragolpe militar do 25 de Novembro de 1975. E, como o assunto queima, entregou-as, à laia de prémio de consolação, ao improvável ministro da Defesa e exuberante chefe do CDS, Nuno Melo. O desenterrar pelo Governo da direita do novembrismo ultramontano e o propósito explícito de oficializar a comemoração assumem, é bom que se diga, o carácter de uma farsa duplamente funérea.

Em primeiro lugar, porque a sua organização é promovida por um partido-fantasma, política e socialmente inexistente, o CDS, cuja base social, como toda a gente sabe, há muito se esfumou e dissolveu nos demais partidos da direita e extrema-direita lusitana. Dito de outra forma: é uma sigla fantasmática transportada por uns cavalheiros a quem o PSD fez o favor de pendurar numa dita Aliança Democrática para fingir que ela existe. Uma esmola política que descompromete o PSD com cavalarias altas, mas evidencia a radicalização à direita do partido do Governo.

O propósito ideológico é já antigo na direita e extrema-direita portuguesa: fazer do novembrismo autoritário, colonialista e ressabiado o paradigma ideológico do regime antidemocrático que pretendem impor ao país

Em segundo lugar, porque nada desta farsa fúnebre das “comemorações oficiais” do novembrismo tem que ver com qualquer vislumbre de debate historicamente sério e pretendidamente esclarecedor sobre a efeméride. O seu assumido propósito ideológico é já antigo na direita e extrema-direita portuguesa: fazer do novembrismo autoritário, colonialista e ressabiado o paradigma ideológico do regime antidemocrático que pretendem impor ao país. E, com isso, procurar “limpar” a memória libertadora do 25 de Abril e da revolução portuguesa de 1974/75. Passo indispensável para legitimar simbólica e politicamente o autoritarismo de novo tipo que transporta, nos dias de hoje, a aliança tendencial das direitas tradicionais com a nova extrema-direita.

Basta atentar na composição (tutelada pelo galhardo ministro da Defesa) da comissão constituída para o efeito. Uma espécie de top ten das mais jurássicas entidades da nostalgia colonialista e neo-salazarista que por aí subsistem em estado mais ou menos vegetativo. A título de exemplo: a Sociedade Histórica da Independência de Portugal (que coabitou física e espiritualmente no antigo Palácio dos Almadas com a milícia da Mocidade Portuguesa durante 34 anos), onde pontifica o dr. Ribeiro e Castro, outro ex-dirigente do CDS; a Comissão Portuguesa de História Militar, ligada ao Ministério da Defesa, encarregada da crónica legitimadora das guerras do colonialismo português em África; e, para apimentar a coisa, a Associação dos Comandos! Nem sequer lá falta, para garantir o policiamento ideológico do grupo, a presença do director-geral da Política de Defesa Nacional. Não é difícil prever o que daqui sairá como “comemorações oficiais”: o espectro do novembrismo militarista em parada.

É claro que os golpes e contragolpes do 25 de Novembro de 1975 existiram como evento político-militar relevante na história do processo revolucionário iniciado no 25 de Abril. E desaguaram, como é sabido, na contenção pactuada do processo revolucionário negociada entre alguns dos seus principais intervenientes. Desses compromissos nasceram a Constituição de 1976 e as instituições do regime democrático. Foi um processo complexo que dividiu opiniões até hoje e merece absolutamente ser estudado de forma rigorosa, plural e com o benefício da distância de meio século. Cruzando fontes, testemunhos e várias gerações de investigadores, designadamente no âmbito das iniciativas que assinalam o cinquentenário do 25 de Abril, a cujo processo se ligam, obviamente, os acontecimentos do 25 de Novembro. Do que aqui se trata é de saber se o faremos como campanha governamental de manipulação ideológica permanente ou como debate livre e enriquecedor da cidadania democrática.

Assim sendo, como escreveu um antigo pensador chinês, só se pode desejar “que mil flores floresçam e que cem escolas rivalizem”. Cada um fará sua a que entender melhor servir para fazer face à tempestade que espreita.

É isso que é a democracia. O de mais é a farsa administrativa e sombria, paga, convém lembrar, pelos contribuintes.

Artigo publicado no jornal Público a 15 de setembro de 2025

https://www.esquerda.net/opiniao/o-25-de-novembro-enquanto-farsa/95990

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Henrique Raposo - 25 de Novembro e a direita burra

* Henrique Raposo

Além de simbolizar esta colonização mental da direita às mãos da esquerda, o 25 de Novembro tem outro problema: tapa os momentos em que a direita foi, de facto, líder na conquista da liberdade, as revisões constitucionais de 1989 e sobretudo de 1982

á a direita liberal, há a direita conservadora e depois há a direita burra; ou cábula, para sermos mais exatos.

A direita que comemora o 25 de Novembro revela que continua a ser uma colónia mental da esquerda, ou seja, limita-se a dizer o exato oposto da esquerda, como se isso fosse um pensamento livre e diferente. Não é; é só uma pose de cábula que quer a estética do contra. Só que ser do contra não é para quem quer, é para quem pode.

O 25 de Novembro é sobretudo uma construção do PS, quer na execução das manobras no terreno naqueles dias quentes, quer sobretudo na herança que deixou ao país durante as décadas que duraram até à imensa estupidez de Antónia Costa, que destruiu ponto por ponto a arquitetura de Soares. O efeito histórico do 25 de Novembro foi o seguinte: deu ao PS o lugar charneira no sistema entre um PCP forte e a direita democrática. O PCP baixou as armas militares, mas não as armas políticas. Foi essa a natureza do acordo de novembro: o PCP não provoca um conflito militar, sim senhor, mas condiciona à esquerda a governação e a política.

Na prática, só podíamos ter políticas de esquerda. A alternância política e intelectual não era feita entre a esquerda democrática e a direita democrática, como nos outros países europeus, era uma alternância entre duas esquerdas. Recorde-se que, no início deste século, se tivéssemos de pensar no arquétipo do intelectual/comentador à direita, teríamos de passar pelo... Pacheco Pereira. Portanto, quando comemora o 25 de Novembro, a direita está a comemorar a sua condição de ator secundário, está a comemorar uma mordaça política e cultural que determinou que a legitimidade e até a legalidade constitucional de uma política precisava de um requisito: tinha de estar à esquerda; a governação de Cavaco é a de um social-democrata clássico. O liberal conservador Lucas Pires foi infelizmente derrotado. Ofir nunca foi seguido, até hoje. Hoje só a IL tem esse espírito de forma permanente. A AD tem dias.

Este PS esquerdista e amnésico em relação à sua própria história está a fazer um revisionismo histórico? Este PS colonizado pela geringonça quer esquecer que esteve em estado de guerra civil com o PCP? Pois, claro que se pode criticar isto, mas entre essa crítica e a comemoração do 25 de Novembro vai uma larga distância.

Por outro lado, além de simbolizar esta colonização política e intelectual da direita às mãos da esquerda, o 25 de Novembro tem outro problema: tapa os momentos em que a direita democrática foi, de facto, líder na conquista da liberdade, as revisões constitucionais de 1989 e sobretudo de 1982, um momento muito falado aquando da recente morte de Balsemão.

1982: é nesse momento que a visão de Sá Carneiro e Balsemão vence por fim o caudilhismo militar que até tinha os seus defensores na esquerda moderada. Mais tarde, em 1989, vivemos o mesmo momento: o PSD europeísta e reformador a puxar o PS para uma normalidade constitucional europeia longe da naftalina revolucionária. A direita burra não conhece isto porque não estuda, não lê ou só lê panfletos que dão jeito a esta preguiça, a esta bravata de forcado.

2025 11 18

sábado, 27 de julho de 2024

Diana Andringa - O velho foi à viola

´* Diana Andringa

Segunda-feira, 27 de Julho de 1970. Um inusitado toque de clarim interrompe a rotina matinal na prisão de Caxias. 


O funeral de Salazar no Mosteiro dos Jerónimos, partida para Santa Comba Dão

Um toque diferente, desconhecido, num tom lamentoso que não lhe conhecíamos.

Numa cadeia, ganham-se mil ouvidos: habituamo-nos aos sons ciciados da chegada de um novo preso, ao esforço de distinguir qual a cela onde o colocam (da parte da frente, com o rio ao longe? Da de trás, tendo como única visão o muro e as pernas do guarda republicano andando nele?), à frase «Prepare-se para ir à António Maria Cardoso», que pode significar, para aquele a quem é dita, uma sessão de tortura, seja a pancada, o sono ou a estátua, o seu regresso («Quantas horas passou em interrogatórios? Quantas noites?»), à tosse que anuncia esse regresso, ao assobio longínquo de um camarada, identificando-se com uma canção comum (no nosso caso, uma coladera), até às crises de asma de alguém que necessita socorro, numa cela próxima. Então, um toque de clarim, a uma hora inabitual, desperta de imediato a atenção e a ansiedade. 

Lá em baixo, na guarita, o jovem guarda republicano olha, também ele, o lado de onde o som surgiu.«Que toque é este?», perguntamos-lhe, gritando.Olha-nos e encolhe os ombros. Não como quem não quer responder à pergunta gritada por aqueles que tem o dever de guardar, mas como quem não sabe. E ouvimo-lo repetir a pergunta para a guarita seguinte: «“Que toque é este?»Do outro lado chega uma resposta, para nós inaudível. Mas o jovem ouve-a e repete-a para nós: «“É o toque dos mortos!»Para que, numa cadeia, toque o clarim por alguém que morreu, é que esse alguém é pessoa de importância. E a ansiedade e a curiosidade crescem. Gritamos, de novo, para o guarda: «E quem é que morreu?»

Tal como da primeira vez, ele repete, para a guarita seguinte, a nossa pergunta. E tal como da primeira vez, a resposta escapa-nos. Mas – tal como da primeira vez – o jovem que nos guarda logo no-la repete: «Foi o velho! O velho foi à viola!» 

Não houve necessidade de perguntar mais nada. O «velho» com direito a clarim só podia ser um: Salazar. E logo nos abraçámos a rir, enquanto ouvíamos, vindos de outras celas, gritos de regozijo. Que a morte, tantas vezes desejada, do ditador, nos fosse anunciada pelo jovem que devia guardar-nos aumentava a ironia da notícia.

A cadeia explodiu em gritos, risos, murros nas paredes, comunicando de cela em cela, na velha caligrafia prisional – «Um toque é “a”, dois são “b”, três “c” e por aí adiante…» –  a morte do antigo Presidente do Conselho.

Os mais lúcidos lembraram que já havia outro, Marcelo Caetano. Mas, nesse dia, a alegria prevaleceu. Mesmo quando a visita foi cancelada, mesmo quando nos cortaram os minutos de música diária, porque «o país está de luto». «De luto?», respondemos nós. «O vosso talvez esteja, o nosso país está em festa!»

E, desafinadas ou não, ergueram-se as vozes dos presos e ouviram-se pela Cadeia,  nesses minutos sem música, canções de resistência.

28 de julho 2016 - 15:32

(Publicado no nº 26 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo , coordenada por António Simões do Paço.)

https://www.esquerda.net/artigo/o-velho-foi-viola/43863

sábado, 15 de junho de 2024

João Vasconcelos-Costa´- COMEMORAR O 25 DE NOVEMBRO, PORQUÊ?


João Vasconcelos-Costa

Uma comemoração solene na Assembleia da República, presidida pelo PR, exige o cumprimento cumulativo de vários requisitos em relação ao facto ou data a celebrar: significado histórico relevante, grau significativo de consenso, superpartidarismo, sentir popular generalizado sobre o facto ou data, conhecimento histórico consolidado sobre os acontecimentos e o seu contexto. O facto a comemorar deve ter tido efeitos aditivos ou multiplicativos, não divisivos.

A meu ver, nada disto se verifica em relação ao 25 de Novembro de 1975, pelo que nem preciso de invocar razões pessoais, políticas ou ideológicas para rejeitar a proposta da direita parlamentar de instituir, anualmente, comemorações oficiais (dia feriado e sessão solene na AR) daquele episódio muito controverso do processo pós-25 de Abril. Isto não quer dizer, obviamente, que eu não tenha uma opinião sobre o significado desse acontecimento, que, para mim e muita gente, interrompeu um processo histórico e de progresso irredutível. Simplesmente, nem preciso, neste caso, de usar argumentos com carga ideológica.

O 25 de Novembro não foi momento histórico de primeiro plano, algo que ficará na História como já ficou o 25 de Abril. Não se mudou nenhum sistema nem regime, não se derrubou uma ditadura. No essencial, o que houve foi uma considerável mudança do rumo político (o que, para mal ou para bem, é relativamente vulgar) com substituição dos seus agentes. 

Dizer-se que o 25 de Novembro marcou a vitória da democracia e o regresso do 25 de Abril ao seu programa (ou até, como se diz, à sua “pureza”) é abusivo. O programa já continha espaço para as alterações sócio-económicas que se seguiram, o caminho para o socialismo era tão aceite que até o novo partido de direita, o PPD, se dizia social-democrata, as novas instituições democráticas provisórias estavam a funcionar, incluindo a Assembleia Constituinte e a democracia só estava em perigo para quem tinha uma visão particular, estreita e formalista da democracia. Passou apenas a jogar uma só legitimidade, num processo até então complexo em se juntavam outras duas: a legitimidade revolucionária de um movimento militar que tinha libertado o povo português (libertado duplamente, porque também não é livre o povo num Estado que não permite a liberdade dos outros); e a legitimidade popular, porque a vontade do povo não se exprime só pelo voto.

Quanto ao consenso sobre a data, ao seu efeito divisivo, ao sentir popular da data, nem vale a pena argumentar, de tão óbvio que é não se cumprirem as condições para uma celebração oficial. A falta do critério de suprapartidarismo também é flagrante. Até esta situação atual de viragem à direita, em Portugal e no resto da Europa, só tinha havido sugestões tímidas para a comemoração da data. É evidente que esta iniciativa de agora simboliza uma afirmação de força da direita, levando ao colo a ultradireita e é muito mais uma jogada política do que um ato de significado nacional. Não deixa de ser curioso que, na época, fosse o PS e não os partidos de direita de então, PPD/PSD e CDS, que fosse tido como o parceiro político do golpe militar. Muitos socialistas hão de estar desgostosos ao ver o seu “feito” abarbatado pela direita de hoje.

Finalmente, julgo que também está longe de cumprido o outro critério que postuleis o da transparência e rigor histórico na compreensão do acontecimento. Provavelmente, nenhum outro na nossa História recente está tão envolto em dúvidas, interpretações opostas, factos por revelar. Começa logo pelo momento desencadeado: a tomada das bases aéreas pelos paraquedistas foi uma tentativa de golpe (golpe muito estranho, que não teve por alvo de ação nenhum centro de poder ou objetivo militar estratégico) ou uma forma desajeitada e politicamente infantil de responder a uma provocação montada contra eles? Os planos de “contra-golpe” (ou o verdadeiro golpe?) pelo grupo de Eanes eram genéricos ou dirigidos já a esse pretexto da ação dois paraquedistas? Como jogaram entre si os vários componentes do “contragolpe”, que cumplicidades se estabeleceram e a que preço, inclusive com grupos terroristas e criminosos como MDLP? Houve só um 25 de Novembro ou estava preparado outro, porventura com diferentes interesses por detrás? E, por falar em interesses, que relações havia entre responsáveis do “contra-golpe” e serviços secretos estrangeiros? Que provas há do sempre alegado envolvimento do PCP? As centenas de militares de Abril que sofreram prisão, demissão e outras represálias profissionais estavam comprometidos com um alegado plano de golpe revolucionário esquerdista ou “gonçalvistas”, ou foram pura e simplesmente saneados por delito de opinião, a bem da retomada de poder pela hierarquia militar tradicional? Etc., etc., mas acho que já bastam estes exemplos.

2024 05 14

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