Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 6 de março de 2026
João Rodrigues - Parabéns - 105º aniversário do PCP
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Marcelo Rebelo de Sousa - 40 anos da Adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias
Intervenção do Presidente da República na Sessão Comemorativa dos 40 anos da Adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias
Senhora Presidente do Parlamento Europeu, Ilustre amiga,
Bem-haja por este honroso convite pelos quarenta anos da adesão de
Portugal e da Espanha às Comunidades Europeias.
Majestade Rei das Espanhas, Felipe VI, ilustre e muito querido amigo,
Senhor Presidente do Conselho Europeu, ilustre e velho amigo,
Senhoras Deputadas, Senhores Deputados,
Excelências,
En primer lugar, quería transmitir a Su Majestad el Rey Felipe y al pueblo
de España mi solidaridad tras la tragedia del pasado domingo, que se cobró
tantas vidas inocentes.
O Reino de Portugal nasceu em 1143, vai para nove séculos, e viu a
independência reconhecida, em 1179.
Nasceu na Europa e nasceu de linhagens europeias.
Nasceu na Europa, na Costa banhada pelo Oceano Atlântico.
O nosso primeiro Rei tinha por Mãe uma filha do Rei de Leão, um dos Reinos
que, séculos mais tarde, formaria o Reino de Espanha.
Tinha por Pai um irmão do Duque de Borgonha, um ducado que, séculos mais
tarde, ajudaria a formar o Reino de França.
Mas nasceu também de linhagens vindas de outras Europas, do Norte, do Sul,
do Oeste e do Leste. E de África e das Ásias. Mais tarde das Américas e das
Oceanias. Num caldo de etnias, culturas e religiões.
Somos europeus desde as raízes.
E essas raízes mesclaram-se, logo à partida, com as de outros continentes,
de outros universos.
Por isso não há portugueses puros, há portugueses diversos, na sua riqueza
cultural.
Somos europeus, na língua, na cultura, na História, e, porque europeus,
universais.
A nossa vida foi, do século XV aos séculos XIX e XX, uma saga constante na
Europa Continental e fora dela – porque desde o século XV atravessámos oceanos
e tocámos ilhas e continentes.
Uma saga em que deixámos uma diáspora por todo o mundo.
E fomos, muitas vezes, mais felizes a navegar pelo mundo do que nas
guerras europeias.
Com os vizinhos, que eram nossos parentes, conquistámos independência,
guerreámos para a mantermos, perdemo-la e recuperámo-la.
Até ao século XVII foi um desassossego constante. Como o foram as guerras
continentais em que nos envolvemos.
De tal modo que, no século XIX, a nossa independência teve de ser
garantida, com a capital do Império no Brasil.
Éramos europeus, mas a Europa, que nos iluminava, não foi sempre portadora
de boas notícias.
Excelências,
O que há de verdadeiramente diferente e notável é que a integração
europeia do século XX, que culminou na adesão há quarenta anos, no mesmo dia da
Espanha, com papel cimeiro de Mário Soares e Felipe Gonzalez, veio mudar a
História.
Mudou a História europeia. Mudou a História nas relações com o nosso único
vizinho por terra. Mudou a nossa História. Mudou para a Liberdade, mudou para a
Democracia, mudou para o Estado de Direito, mudou para o Desenvolvimento, mudou
para a Justiça Social.
E, depois de séculos de independência baseada nos Oceanos e do inevitável,
mas tardio, fim do Império, com a formação da multicontinental e multioceânica
Comunidade de Países de Língua Portuguesa, Portugal e a Europa, Portugal e a
Espanha, Portugal e os Estados de sucessivos alargamentos europeus, começaram
uma nova História. Que dura há quase cinquenta anos e que não teria sido
possível sem a Europa, à margem da Europa, contra a Europa.
Exemplo singular desta mudança é a fraternidade entre Portugal e Espanha,
a Espanha e Portugal, aqui eloquentemente testemunhada pelos dois Chefes de
Estado unidos, em representação das respetivas Pátrias e dos respetivos Povos.
Excelências,
É, hoje, moda do momento, esquecer, minimizar, diminuir a Europa e o seu
papel no mundo.
Não percamos um segundo a hesitar, a duvidar, a autoflagelarmo-nos. Temos
mais Liberdade, Democracia e Estado de Direito do que tantos outros. Muitos de
nós estão em lugar cimeiro do Desenvolvimento Humano e dos padrões de igualdade
social. Temos um mercado dos maiores do mundo. Garantimos condições de vida
comparativamente superiores à generalidade dos Estados. Somos um destino
sonhado por tantos, de todos os continentes. Mas sabemos que tudo isto não
basta e que perdemos, por vezes, tempo e que temos de fazer mais e melhor.
Precisamos de mais juventude, de mais conhecimento, de mais ciência, de
mais tecnologia, de mais segurança comum, de mais crescimento, de mais justiça,
de mais capacidade de mudança dos nossos sistemas políticos, económicos e
sociais, precisamos de mais unidade, precisamos de mais futuro.
Precisamos.
Mas então tratemos disso. Com prioridade e com urgência. Contemos, antes
do mais, connosco. Nós próprios, que temos de acreditar na Europa Livre,
Igualitária e Democrática.
Reconstruamos a Europa. Sem medos. Sem inibições. Sem complexos.
Temos aliados? Temos. Para além da União Europeia, Portugal tem o Reino
Unido, há quase 650 anos, e preferiríamos que estivesse ainda mais com a União
Europeia do muito que já está.
Temos os Estados Unidos da América, cuja independência Portugal foi o
primeiro Estado europeu, salvo a França, portanto o primeiro Estado neutral, a
reconhecer, mas preferiríamos que fossemos sempre aliados a cem por cento e não
com hiatos, intermitências ou estados de alma.
E, num e noutro, temos Comunidades fortes, históricas, jovens e pujantes.
Mas isso não é o essencial.
Nós, Portugueses, nós Portugal, já éramos Pátria independente há muitos
séculos, ainda não existia a maioria dos Estados do Mundo, nem dos mais
poderosos de hoje.
Fomos assim, somos assim. Sempre na Europa. Nos últimos 40 anos, mais na
Europa e com a Europa. E, por isso, no universo e com o universo.
Reconhecidos às Comunidades Europeias. Reconhecidos à União Europeia. Tudo
o que se possa dizer das Comunidades Europeias, hoje União Europeia, de
crítico, de falível, de errado, de insuficiente, e há muito, é nada comparado
com aquilo que lhes devemos.
Europeus sempre. Transatlânticos sempre. Universais sempre.
Avancemos, pois, recriemo-nos no que for necessário, que os aliados e os
parceiros, que desejamos, virão, como sempre vieram, quando perceberem que não
há senhores únicos no globo, que não há poderes eternos. E que as nossas
alianças e parcerias valem mais do que a espuma, mesmo espetacular, mesmo
sedutora de cada dia.
Digo-vos mais. Não há quem consiga hoje refazer pela força a divisão do
mundo em hemisférios como no passado e sonhar controlar o seu hemisfério, ou
resolver problemas do mundo sozinho. Falhará quem o tente no século XXI, como
falharam outros no século XX.
E não se invoque o biliteralismo, que, verdadeiramente, é unilateralismo,
que é uma forma de enfraquecer o multilateralismo e as instituições
internacionais, sem que, quem deseja exercer essa hegemonia, esse controlo,
tenha condições para o fazer como sonha ou afirma.
E não há como fazê-lo ignorando a Europa, o seu papel nos valores, o seu
papel na justiça social, o seu papel na economia mundial. Porque a Europa ainda
é e será sempre berço da Democracia, ainda é e será sempre farol de Liberdade,
ainda é e será sempre esteio de Estado de Direito, ainda é e será sempre
referência de Estado Social.
Foi assim no passado. Será assim no futuro.
Por isso, nós portugueses, por isso, nós europeus nunca, mas nunca mesmo, desistiremos do nosso papel fundamental no universo.
Porque desistir do seu papel universal seria, para a Europa, desistir dos
seus valores, desistir de si própria, desistir de todos os que lhe dão vida.
Por isso, nós portugueses, nunca, mas nunca mesmo, desistiremos da Europa.
Porque desistir da Europa seria, para Portugal, desistir de uma parte essencial
e insubstituível de Portugal.
Neste dia de 40 anos de adesão da Espanha e Portugal, de Portugal e da Espanha, à Europa, viva Portugal, viva a Espanha, viva a Europa!
21 de janeiro de 2026
https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2026/01/intervencao-na-sessao-comemorativa-dos-40-anos-da-adesao-de-portugal-e-espanha-as-comunidades-europeias/
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Camões: O poeta do povo num mundo em mudança
Jaime Nogueira Pinto - Camões: o poeta cego, surdo e mudo
A ideia de
emitir uma moeda comemorativa dos 500 anos de Camões com uma efígie estilizada
em que o “poeta cego” também surge surdo e mudo diz-nos muito de quem a
encomendou e, em Dezembro, a aprovou.
08 jun. 2024
Por má fortuna,
os quinhentos anos do que se convencionou ser o nascimento de Camões
coincidiram com cinquenta anos do 25 de Abril. E o tempo, o modo e os fundos
alocados pelo Estado às comemorações do Regime contrastaram flagrantemente com
a incúria e a modéstia de fundos destinados à celebração do épico. E assim
tinha de ser. O combatente do Império no Norte da África e na Índia, cantor
exaltado e exaltante de feitos de guerra e de conquista, homem de
sensibilidade, subtileza, erudição e experiência, capaz de dar voz ao
contraditório e a todas vãs cobiças, capaz também de se deixar cativar por uma
“cativa”, pode ser um homem para todos os tempos e estações… para todos, menos
para este. Ou é-o pela ausência, pelo vazio, pela amordaçada mudez, pela surdez
induzida e pela cegueira metafórica que a moeda comemorativa tão bem ilustra.
Num tempo de maniqueísmo simplista, contrição oca e ignorância induzida, Camões
só poderia ter lugar como saco de vento e “poeta cego”, ou mais precisamente,
na designação oficial da moeda, como “efígie estilizada do poeta cego, com uma
coroa de louros e uma gola típica do século XVI”. E depois havia ainda o
colonialismo, o imperialismo, o “nacionalismo exacerbado”, a todos os títulos
hostis a globalismos, federalismos e multiculturalismos generalistas.
Assim – e
também pela qualidade formal e estilística e pela lucidez no juízo dos homens e
dos tempos – era, desde logo, natural que Camões não despertasse grande
entusiasmo entre a classe política dirigente e a intelectualidade desta
Terceira República.
“Cessem do sábio Grego e do
Troiano
As navegações grandes que fizeram,
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano
A quem Neptuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”
…Cale-se e
cesse também Camões e o seu ilustre peito lusitano que outros valores (mais
altos?) se alevantam. Que valores exactamente não sabemos; sabemos só que não
são nem podem ser os do “peito ilustre lusitano”.
Temo que Vasco
da Gama, cujos 500 anos da morte também se cumprem este ano, em 24 de Dezembro,
véspera de Natal, não venha a conhecer melhor sorte. Até porque, além do delito
de “nacionalismo exacerbado”, que partilha com Camões, praticou alguns dos crimes
pelos quais devemos ao mundo penitência e reparação.
De regime
em regime
Como este agora
o queria fazer pela ausência amordaçada, também os anteriores regimes se foram
sucessivamente apropriando de Camões.
Em 1880, o
nascente partido republicano usou o terceiro centenário da sua morte de para
criticar a Monarquia. A ideia era pegar na grandeza do poeta, da épica e do
Portugal de Quinhentos para a atirar bem à cara do Portugal decadente do
rotativismo regenerador.
Assim, na
fórmula de Teófilo Braga, o homem da iniciativa, Camões simbolizava “as glórias
e os desastres de Portugal”. Para Teófilo – e apesar do positivismo
comteano da sua formação –, tratava-se de através da emoção e dos
sentimentos populares suscitados pela memória gloriosa de Quinhentos, de que o
Poeta era digno protagonista e celebrante, mobilizar a opinião pública e
popular mostrando-lhe o fosso entre a grandeza do século das navegações e
conquistas e “a apagada e vil tristeza” do país da Regeneração. O que se
pretendia era esse contraste histórico entre o presente de então e o Portugal
do Príncipe Perfeito e do Venturoso, contado e celebrado por Camões nos Lusíadas,
a diferença entre essa “Idade de Ouro”, real ou mitificada, em que tínhamos
sido pioneiros nos mares e oceanos e grandes na conquista das terras e o
presente. Era com tudo isso que o intelectual republicano Teófilo Braga,
através da promoção de grandes comemorações camonianas nacionais e populares,
ao modo das festas cívicas da Revolução Francesa, queria espicaçar o povo.
Camões, nesse
tempo, servia a uma esquerda nacional, republicana e patriota: era um poeta que
celebrava o Portugal da Renascença, promotor de Modernidade, um poeta que, para
o futuro primeiro presidente provisório da República jacobina, enfileirava com
Virgílio e Dante, guias do entendimento e da cultura da Humanidade. Para
Teófilo, Camões, tal como Leonardo e Miguel Ângelo, fazia a transição da Idade
Média para a Renascença.
Na Geração de
Setenta, quer Oliveira Martins, quer Antero de Quental foram críticos desse seu
entusiasmo, por razões ideológicas e políticas: Oliveira Martins achava a
versão de Teófilo de uma Renascença mais ou menos esclarecida, um mito; para
ele, o cristianismo fundamentalista e identitário e o imperialismo
político-militar não eram dissociáveis ao século de Quinhentos português; e
Antero, no seu pessimismo, via em Camões e nos Lusíadas mais
um epitáfio celebrativo do fim do ciclo da grandeza que uma proposição para
memória e ressurreição nacionais. E Martins, em 1891, já depois da crise e
humilhação do Ultimato, diria que o “entusiasmo de 1880” tinha “ardido como
palha”.
Hoje, depois do
enaltecimento do Estado Novo do Poeta e da épica, a Esquerda não está muito
interessada nem em Camões, nem em lembrar as glórias do Século de Ouro.
Ou tão pouco parece interessada – por ideologia, desinteresse ou falta de tempo
ou ciência – nas suas complexidades e na crítica do Poeta à época em que
escreve ou à gesta do passado. O governo socialista que, curiosamente,
podia reclamar alguma ascendência da esquerda republicana e patriota que, há
quase 150 anos, por interesse político de circunstância, mobilizou os lisboetas
e os portugueses para o centenário da morte de Camões, pouco ou nada fez por
este Quinto Centenário do Poeta. Olhou para o lado, ocupadíssimo a planear e
financiar os 50 anos de Abril e a acolher a agenda educacional da extrema
esquerda. Tanto que, na organização (ou ausência dela) das comemorações
camonianas, não constava sequer o Ministério da Educação, agora justamente
reposto como parceiro. Afinal, para quê implicar o Ministério da Educação
nas comemorações, congestionada que já estava a Educação com tantas, tão
determinantes e tão inclusivas agendas?
O melhor era
ignorá-lo e festejar Abril. E depois, o Poeta, na sua vida irrequieta e
perigosa, nos seus amores impossíveis, nas suas servidões e grandezas
militares, nas suas “desajustadas” devoções a Deus, à Pátria e ao Rei, na sua
consciência de contemporâneo e agente da original “exportação de Estado” pelos
portugueses, não se coadunava com as esquerdas festivas das nostalgias
anti-coloniais e muito menos com o simplismo das esquerdas do cancelamento e da
vitimização à la carte. Tão pouco poderia “civilizar-se”,
“pacificar-se” e “liberalizar-se” aquele a que a época forçara a outros modos.
Era coerente.
Como dar volta ao Camões de Ceuta e da Índia, ao Camões dos Lusíadas,
ao contador de uma história que, à luz dos valores em promoção e circulação,
não passava de um marginal belicista, nacionalista, imperialista, colonialista,
autor de uma narrativa épica que punha os guerreiros que fundaram e defenderam
Portugal do lado certo da História?
Todo um
outro programa
O facto de
esses guerreiros, os reis e heróis da História e do poema camoniano, serem os
defensores da pátria e da terra portuguesa – Afonso Henriques na primeira
guerra da independência, o Mestre de Aviz e Nun’Álvares na segunda, D. Manuel
na decisão de mandar Vasco da Gama à Índia, e os Almeidas, os Albuquerques e
Castros que por lá andaram, lutaram e, alguns, morreram – parece ter-se tornado
relativamente irrelevante. Bem como o facto de Camões não ser um servidor
acéfalo dos poderes vigentes: deixa a contradição do Velho do Restelo por
resolver (como observa Carlos Maria Bobone no seu recente Camões: Vida
e Obra ) e está particularmente atento aos factores e riscos dos
desvios do poder, ao abuso, à corrupção, à tirania, ao mau conselho que podem
transformar o monarca em tirano e subverter o bom governo. Os exemplos podem
ser do Estado da Índia, mas a crítica ao poder é clara.
Ao ler no Público a
versão expurgada da fala do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, sobre
comemorações de Camões, assustei-me, pensando que o Poeta, esquecido e
marginalizado pelos seus antecessores, ia agora ser celebrado de modo
“democrático e inclusivo”, conforme o jornal dava a entender. Felizmente
fui ler as declarações de Montenegro na íntegra. Afinal, o que o
primeiro-ministro tinha dito era que não queria celebrar Camões “de um modo
passadista ou saudosista”, mas que também não queria “modernizá-lo em termos
anacrónicos falsificadores da verdade histórica…”. O que é todo um outro
programa.
Ainda que o
tempo não esteja de feição para grandes poetas ou heróis, nas suas contradições
e errâncias, na profunda verdade da sua vida e da sua obra, Camões é Portugal
ou também é Portugal. E é um grande intérprete do colectivo, do mundo e da
comunidade, do universo e da pátria que nos fala do grande mundo a que Portugal
se abriu e abriu. Merece ser celebrado – e lido.
https://observador.pt/opiniao/camoes-o-poeta-cego-surdo-e-mudo/
Jaime Nogueira Pinto - Camilo, nos 200 anos de um escritor genial
* Jaime Nogueira Pinto
Camilo
escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais,
trabalhava como “um remador de Ben-Hur”, qual escravo dos editores amarrado à
produção em massa para ganhar a vida
22 mar. 2025
No Domingo
passado, 16 de Março, completaram-se dois séculos sobre o nascimento em Lisboa,
na Rua da Rosa, de um dos melhores escritores portugueses, Camilo Castelo
Branco – ou Camilo, tout court.
É um
conhecimento de infância. Tive um tio camilianista fanático, bibliófilo e
bibliómano, pesquisador por alfarrabistas de primeiras edições do romancista.
Não tinha filhos e eu passava muitos fins-de-semana em casa dele, em Vila do
Conde. Era ali que ele juntava outros da mesma tribo, também devotos do
escritor, para falarem interminavelmente de edições antigas, primeiras ou
segundas, e das histórias dessas edições, do seu tempo de escrita e publicação,
das anedotas à volta de raridades e falsas raridades.
Porque Camilo
foi um fenómeno de produção e de qualidade na produção. Mais de duzentos
títulos – romances, novelas, História, teatro, polémicas, até poesia. Coisas
que eu, miúdo, com nove ou dez anos, à mesa dos mais velhos, ia ouvindo,
juntamente com as histórias da sorte e do azar de romances como A
Infanta Capelista – sobre uma Maria José, bastarda de El-Rei D. Miguel
–, que Camilo teria mandado destruir antes da edição em livro, constava que a
pedido do imperador D. Pedro II do Brasil, e que teria ido parar à Salsicharia
Francesa, para embrulhar artigos de mercearia. Um cliente, um tal António
Rebelo, teria dado pelo achado e adquirido as “folhas de embrulho” que
restavam, salvando alguns, poucos, exemplares, dos quais mais tarde se
publicariam duas edições fac-simile, fazendo da Infanta
Capelista uma preciosa raridade camiliana.
(Há anos, a
propósito de um livro de futurologia política sobre uma Administração americana
que não veio a acontecer, lembrei-me deste episódio camiliano e dos presumíveis
destinos, mais ou menos úteis, mais ou menos nobres, das obras malogradas.)
Mais tarde,
Camilo reescreveu e reeditou o tema da infanta capelista em O carrasco
de Victor Hugo José Alves, tornando-o menos ofensivo para a família
real de Portugal e do Brasil.
Camilo ou
Eça?
Os grandes
poetas, como Camões e Pessoa, são quase sempre os grandes conhecedores da
pátria, da nação, do colectivo histórico, da comunidade política, da herança e
identidade de um povo entre os povos; conhecem-na, (re)constroem-na e
exprimem-na nos seus altos e baixos, no seu modo peculiar de absorver e
exprimir o universal. Já os grandes escritores apanham mais as pessoas. E os
grandes escritores do seculo XIX que retrataram os portugueses, o seu modo de
ser, a sua identidade ou as suas identidades, são incontornavelmente Camilo e
Eça de Queirós.
Eça, como
confessaria numa carta ao seu amigo conde de Arnoso, conhecia sobretudo Lisboa;
e, de Lisboa, a “sociedade”, a “classe alta”; talvez por isso continuemos a
descobrir nas nossas “elites” – e na classe político-empresarial-futebolística
deste último meio século não faltam exemplares – Gouvarinhos, Dâmasos Salcedos,
Acácios. Já Camilo dá-nos outros portugueses, mais rústicos, os das terras de
Portugal, mesmo que vindos para a capital; e, entre eles, mais os do Norte, os
das “novelas do Minho”, os da Samardã, os das invasões francesas e das guerras
civis, os que, quando ofendidos, vão a casa buscar o bacamarte e voltam com ele
para lavar a honra com o sangue do ofensor.
E há a
quantidade e a qualidade. Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha
tempo de corrigir os originais, trabalhava que nem “um remador de Ben-Hur”
(para usar a imagem do inigualável Nelson Rodrigues), ou qual escravo dos
editores, amarrado à produção em massa e em série para ganhar a vida, correndo
sempre atrás do prejuízo. Bem ao contrário de Eça de Queirós, funcionário
diplomático e bem casado. Embora gastador e devedor e, curiosamente,
também “filho de mãe incógnita”, Eça nunca viveu o trágico sorvedouro das
dívidas e da angústia que daí vem. Camilo passou por essa e por outras
desgraças.
Por isso, na
cadeia da Relação do Porto, em 10 de Agosto de 1861, quando cumpria pena por
adultério com Ana Plácido, depois da queixa-crime do marido traído, escrevia ao
seu primeiro biógrafo, Vieira de Castro: “A página mais crível e instrutiva da
minha biografia será aquela em que escreveres que a desgraça é
a pedra de toque onde se aquilatam os amigos.” Vira “os muitos em que se fiava”
a desaparecer; mas não deixara de ver “em redor aqueles com quem não contava”.
As
mulheres e a “mulher fatal”
Fora assim a
sua vida – trágica, desde o berço. Fruto de uma aventura do pai, Manuel Joaquim
Botelho Castelo Branco, irmão do Simão Botelho que ele havia de imortalizar
em Amor de Perdição – o Romeu e Julieta português,
escrito em duas semanas, na prisão.
Antes do
encontro com a sua mulher fatal, Camilo entregou-se a amores jovens,
aventureiros e mal-aventurados, seduções e paixões rústicas e freiráticas,
relações inominadas e ambíguas… Bernardina Amélia, Fanny Owen, a “costureira do
Candal” … até que, num baile na Assembleia Portuense, em 1848, conheceu a
mulher da sua vida, Ana Plácido, casada com o “brasileiro” de torna-viagem
Pinheiro Alves. Ana, nesse dia, “vestia de branco, com enfeites de fitas
escarlates nos cabelos, como escreveria o apaixonado em Cenas Inocentes
da Comédia Humana.
Paixão
verdadeira desde o primeiro instante, com o desajeitado Romeu a passarinhar-se
pela rua do Almada, onde morava a sua Julieta, que estaria à janela, com alguma
provocação. Porque a acreditar em Mestre Aquilino, um entre a dúzia de
biógrafos de Camilo – dos seus contemporâneos Vieira de Castro, Freitas
Fortuna, Alberto Pimentel, até Pascoaes, Agustina, Alexandre Cabral –, Ana
Plácido já teria sido amante de António Ferreira Quiques, um portuense amigo de
Camilo, possível pai biológico de “Manuelinho”, que no registo apareceria como
filho do marido da mãe, do propriamente dito Pinheiro Alves.
Camilo foi para
Lisboa, mas voltou ao Porto e voltou a vê-la, dez anos depois, em Braga, no Bom
Jesus do Monte. Ana Plácido, que tivera uma boa educação, em família burguesa e
numerosa, descrevia o marido, o “brasileiro” Pinheiro Alves, como “mau homem e
repelente” e acabaria por fugir com Camilo. Os amantes seriam condenados.
Mais tarde, depois de livres, mas sempre perseguidos pela desgraça, viveram
juntos em S. Miguel de Seide, onde tiveram dois filhos.
Foi este homem
de vida atribulada e até trágica que contou admiravelmente o Portugal do seu
tempo em folhetos e romances com títulos curiosíssimos, como Maria não
me mates que sou tua mãe, O parente dos cinquenta e três monarcas, Mistérios
de Lisboa, Doze casamentos felizes, Novelas do Minho, Noites
de Insónia, Eusébio Macário, e a sua continuação, A
Corja. E A Brasileira de Prazins.
É uma obra
extraordinária, um retrato de Portugal do século XIX, das invasões francesas ao
fontismo. Além da verdade e realidade das personagens e dos enredos, fica um
estilo e uma linguagem únicos, expressivos e variados: do romantismo de Maria
Moisés, das Novelas do Minho, ao verrinoso dos panfletos
contra inimigos literários e existenciais, a quem não poupava, como o poeta
brasileiro Tomás Filho.
Romancista
histórico?
De certo modo,
os romances e novelas de Camilo são romances “históricos” que nos dão, não só a
História e a evolução política no tempo e na língua, como Maria Helena
Carvalhão Buescu demonstrou a propósito de Amor de Perdição e
de A Queda de um Anjo, mas que nos mostram, através das personagens
e das histórias, o tempo, bem agitado, que vai do miguelismo e da guerra civil
ao final do rotativismo. Por isso a Teresa do Amor de Perdição diz
ao pai que não casa com quem ele quer, e Mariana, plebeia, apaixona-se pelo
fidalgo Simão Botelho, que é tio de Camilo, irmão de Manuel Joaquim, pai do
escritor.
A teia
romanesca camiliana apanhou todos estes protagonistas do seu tempo, um tempo
que faz a transição das oligarquias tradicionais, noblesse de sang e noblesse
de robe (nas famílias de Simão Botelho e de Camilo) para as classes
novas do constitucionalismo, do Porto burguês e liberal, dos “brasileiros”, dos
“eleitos” deputados e barões de que o Calisto Elói de A Queda de um
Anjo é um fidelíssimo retrato, um irmão próximo do Abranhos de Eça,
retratos ainda vivos e actuais da nova oligarquia liberal-democrática.
Camilo era
assim. Pintou o século XIX como ele foi em Portugal e na Europa, um filho das
guerras da Revolução e do Império – primeiro das invasões francesas e da guerra
miguelistas-liberais; depois do liberalismo convulso até à Regeneração, pelo
golpe militar de Saldanha.
Em Eusébio
Macário e na Brasileira de Prazins quis mostrar-se à
vontade na nova religião do romance realista. Mas Camilo não era só capaz de
realismo literário; era um realista existencial, que entendia a continuidade da
natureza humana e a continuidade dos portugueses. Os mestres do liberalismo,
Garrett e Herculano, antigos voluntários e combatentes da nova fé,
desiludiram-se da nova ideia com a prática; Herculano, retirando-se para Vale
de Lobos e dizendo que o estado da pátria lhe dava vontade de morrer, Garrett
fazendo a crítica ao materialismo dos barões e agiotas do liberalismo,
lembrando nas Viagens na minha Terra que Jesus lhes faria o
mesmo que aos vendilhões do Templo.
Camilo, crítico
do absolutismo português, no Perfil do Marquês de Pombal, crítico
da oligarquia liberal, em A Queda de um Anjo, autor de uma charge ao
miguelismo nortenho nessa saga burlesca que é A Brasileira de Prazins,
em que um sósia do príncipe exilado mobiliza para a contra-revolução a reacção
do Portugal Velho, parece não ter tido nem ilusões nem desilusões políticas.
Talvez porque a todos visse como homens, protagonistas e figurantes do seu
tempo e da sua pátria na grande comédia ou tragédia humana. Um som e uma fúria
que contou com humor e sentido do trágico em mais de duas centenas de títulos,
alguns milhares de personagens, dezenas de milhares de páginas – de boa
literatura, acrescente-se.
Pena que o
tenham trocado por moeda mais nova e mais barata; e logo num tempo em que a
consciência crítica de si, dos outros, do país e do mundo está tão em falta.
https://observador.pt/opiniao/camilo-nos-200-anos-de-um-escritor-genial/
Jailme Nogueira Pinto - O grande imaginador: Nos 120 anos da morte de Júlio Verne
* Jaime Nogueira Pinto
Os heróis de
Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens
de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances
de Verne acabavam bem.
29 mar. 2025
Júlio Verne,
popularmente considerado o precursor ou o antepassado próximo da literatura de
ficção científica, morreu há 120 anos, a 24 de Março de 1905.
Fui desde cedo
um leitor apaixonado da ficção científica que me chegou, como à maior parte dos
da minha geração, pela colecção Argonauta dos Livros do Brasil. A Argonauta
apareceu em 1953, e foi talvez em 1956, nas vésperas de entrar para o liceu D.
Manuel II, que comecei a ler os livros, à medida que iam saindo. E fi-lo
regularmente, aí até ao número 200.
Li os primeiros
números no Verão, numa praia da Foz do Douro, uma dessas praias do Estado Novo
dos anos 50 cheias de regras e rituais – com cabo do mar, baloiços, fatos de
banho com peitilho ou camisola interior e três horas de “digestão”. Horas
sagradas, que tínhamos de passar “a descansar”, entre o almoço frugal de
sanduiches mistas e o banho das cinco da tarde.
Anos mais
tarde, no Algarve, o meu sobrinho Pedro havia de me perguntar: “Tio Jaime,
acredita na digestão?” Nessa altura já tinha perdido “a fé”, mas quando era
novo, todos acreditávamos na digestão. E mesmo que não acreditássemos tínhamos
de recolher à barraca durante três horas, independentemente das nossas crenças
e vontades. Por isso, foi estendido na toalha de franjas, debaixo da lona
grossa da barraca que li muita Argonauta (também se acreditava que não era bom
apanhar o sol a pique da hora do almoço e que a leitura não fazia mal ao
estômago).
Os livros, em
formato de bolso, tinham umas capas lindas, de Lima de Freitas e de Cândido
Costa Pinto. Eram de Costa Pinto a capa do primeiro número da colecção
– Perdidos na Estratosfera, de A. M. Low – e a de A Sexta
Coluna, de Robert Heinlein, um verdadeiro épico do género que então me
impressionou consideravelmente. E foi assim que fui descobrindo os grandes
escritores da Science Fiction: a poesia das Crónicas
Marcianas, de Ray Bradbury, que em Fahrenheit 451 identificou
uma distopia de destruição de livros cara aos totalitários de todas as tribos;
os robots e a robótica e os ciclos históricos da
Fundação e do Império, de Isaac Asimov; Arthur C. Clarke e a sua Odisseia
no Espaço; o extraordinário mundo feudal de Frank Herbert, o criador
de Dune, que David Lynch adaptaria ao cinema; e outros, como A. E.
Vvan Vogt, Fredric Brown, Brian Aldiss, Poul Anderson e Philip K. Dick,
um dos “últimos”. E a sobressair num género dominantemente masculino, Ursula Le
Guin, a criadora do fabuloso Feiticeiro de Terra-Mar.
Mas a minha
iniciação na “literatura de antecipação”, tal como a de muitos, em Portugal e
no mundo, tinha acontecido antes, com as “viagens extraordinárias” de Júlio
Verne, onde se misturavam o imaginário, a ciência e a geografia.
Uma
literatura de antecipação
Não era bem
ficção científica era uma “antecipação” imaginativa a partir de invenções e
acontecimentos relativamente próximos. Não nos podemos esquecer – e às vezes
esquecemo-nos sob o impacto das surpresas e maravilhas científicas e técnicas
da nossa Idade – que o núcleo duro das invenções que ainda fazem o nosso
quotidiano são da segunda metade do século XIX: o telégrafo, a electricidade, o
telefone, o cinema, o automóvel, o avião. Ora Júlio Verne nasceu em 1828 e
morreu em 1905, ou seja, viveu o politicamente agitado século XIX francês,
desde a monarquia tradicional restaurada de Carlos X de Bourbon até à Terceira
República jacobina e anti-clerical de Loubet e Combes.
Não me lembro
exactamente qual foi o primeiro livro de Verne que li, mas quase que ia jurar
que foi A Ilha Misteriosa. A trama é um modelo da narrativa
verneana, inspirada no clássico Robinson Crusoe, de Daniel Defoe
(1719), no Robinson Suíço, de Johann Wyss (1812), e numa
narrativa próxima do tempo do autor, a de François Édouard Raynal, que
naufragara nas ilhas Auckland, no Pacífico Sul.
A Ilha
Misteriosa saiu primeiro em folhetim jornalístico, entre Janeiro de
1874 e Dezembro de 1875, com ilustrações de Jules Férat. Faz parte das “viagens
extraordinárias”, uma série de romances em que Verne combina aventura,
maravilhoso, mistério, geografia, imaginação, ciência e tecnologia.
Durante o cerco
de Richmond, cinco prisioneiros, cinco abolicionistas, conseguem escapar em
balão; depois de cinco dias e quase dez mil quilómetros, chegam a uma ilha
deserta do Pacífico. A personagem mais importante do grupo é o engenheiro Cyrus
Smith, que leva com ele o criado Nab; há um jornalista, Gedeon Spillet, um
marinheiro, Pencroff, e o jovem Herbert. Cyrus é o típico herói de Verne – um
homem de coragem, de cultura e de ciência, um chefe natural, que não só vai
assegurar a sobrevivência do grupo como a “colonização acelerada” da ilha,
valendo-se da convergência de talentos e conhecimentos dos expedicionistas.
Assim, a ilha “Lincoln” transforma-se num espaço civilizado, sob o qual vela o
grande herói verneano, o capitão Nemo, o do Nautilus e
das 20.000 Léguas Submarinas.
Verne nasceu em
Nantes, na ilha Feydeau, perto do Quai Jean-Bart, onde passou toda a infância,
o que lhe estimulou o gosto da viagem, do mar, das ilhas. Foi para Paris nos
anos 1850 onde conheceu, além de Alexandre Dumas e Victor Hugo, Jacques Arago,
viajante e geógrafo, que completara uma volta ao mundo em 1817, a bordo
do l’Uranie. E, claro, o seu editor Hetzel, que encontrou em 1862 e
com quem iria ter uma colaboração modelo e de longa duração. Um editor crítico
que levantava objecções e fazia sugestões que o autor aceitava, também
criticamente, como bem o documenta a correspondência entre os dois.
Verne e
os outros
Em 1864, Verne
publicou Cinq Semaines en Ballon, o primeiro romance da série
“viagens extraordinárias”, que um crítico classificou como “roman cientifique”.
Théophile Gautier, referindo-se ao novo género, falou em “quimera cavalgada e
dirigida por um espírito matemático”; outros consideram-no uma “maravilha
científica” e chamaram a Verne “pioneiro do romance científico”.
Por esse tempo,
Edgar Alan Poe já publicara os contos e A Narrativa de Arthur Gordon
Pym, e Émile Zola, num artigo de 1866, não pôde deixar de comparar “o
pesadelo Edgar Poe” à “fantasia amável e instrutiva” de Verne. Outros críticos,
reconhecendo a originalidade do fantástico de Poe na literatura de viagens de
Homero a Defoe, passando pelas narrativas marítimas dos portugueses,
reconheceriam também em Verne a originalidade da convergência “viagem,
geografia, ciência, técnica e aventura”.
Os heróis de
Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens
de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances
de Verne acabavam bem. Quando comparamos o fantástico de Júlio Verne, com as
suas máquinas e invenções que procuram sempre respeitar os dados científicos e
técnicos do tempo, e a vindoura literatura de futuríveis do século XX – as
distopias clássicas de Huxley, Orwell ou Bradbury, com os horrores das
sociedades perfeitas de Brave New World, ou a tirania institucional
de 1984 ou de Fahrenheit 451 – a diferença e
a ruptura são chocantes. E não terá sido só por o século XX ter visto as
primeiras utopias postas em prática, porque nos finais do século XIX, a partir
de 1895, já H. G. Wells tinha escrito A Máquina do Tempo,
(1895), O Homem Invisível (1897), A Guerra dos Mundos e Os
Primeiros Homens na Lua (1901).
Verne
escrevera Da Terra à Lua em 1865 e era, até por geração, o
pioneiro: a crítica não resistiria à comparação. E mesmo em França, onde os
livros de Wells foram traduzidos a partir de 1898, revistas como o Mercure
de France, a Revue de Paris e a Revue des deux
mondes preferiam o inglês a Verne.
A morte de
Verne, em 1905, trouxe um clamor de elogios e até um certo espírito de
reparação dos que tinham desdenhado o compatriota, preferindo o inglês.
Reparação com algum exagero compensatório, como o do crítico Adré Lamie, que
comparou o autor de A Ilha Misteriosa a Cervantes e a Balzac.
Verne é mais
realista, mais científico, mais hábil a encontrar e encadear mil peripécias do
que Wells; Wells é mais filosófico, mais problemático, mais desligado do
técnico-científico. Verne é optimista em geral e moderamente optimista quanto à
natureza humana e, além disso, é um homem de fé no Criador e na Criação. Wells
não parece alinhar nesse optimismo.
Talvez por isso
Verne seja um autor para a juventude, para a iniciação num mundo de aventura,
como Robert Louis Stevenson, ou James Fenimore Cooper, ou Mark Twain, enquanto
Wells é um precursor do século XX. Um século que não trouxe as maravilhas
que Verne tinha previsto, em que os submarinos serviram para afundar cargueiros
civis e em que as grandes invenções foram acontecendo sobretudo a partir das
guerras e para servir a guerra.
Bruno de Carvalho - 25 de Novembro
Fernando Rosas - O 25 de Novembro enquanto farsa
terça-feira, 18 de novembro de 2025
Henrique Raposo - 25 de Novembro e a direita burra
sábado, 27 de julho de 2024
Diana Andringa - O velho foi à viola
´* Diana Andringa
Segunda-feira, 27 de Julho de 1970. Um inusitado toque de clarim interrompe a rotina matinal na prisão de Caxias.
Um toque diferente, desconhecido, num tom lamentoso que não lhe conhecíamos.
Numa cadeia, ganham-se mil ouvidos: habituamo-nos aos sons ciciados da chegada de um novo preso, ao esforço de distinguir qual a cela onde o colocam (da parte da frente, com o rio ao longe? Da de trás, tendo como única visão o muro e as pernas do guarda republicano andando nele?), à frase «Prepare-se para ir à António Maria Cardoso», que pode significar, para aquele a quem é dita, uma sessão de tortura, seja a pancada, o sono ou a estátua, o seu regresso («Quantas horas passou em interrogatórios? Quantas noites?»), à tosse que anuncia esse regresso, ao assobio longínquo de um camarada, identificando-se com uma canção comum (no nosso caso, uma coladera), até às crises de asma de alguém que necessita socorro, numa cela próxima. Então, um toque de clarim, a uma hora inabitual, desperta de imediato a atenção e a ansiedade.
Lá em baixo, na guarita, o jovem guarda republicano olha, também ele, o lado de onde o som surgiu.«Que toque é este?», perguntamos-lhe, gritando.Olha-nos e encolhe os ombros. Não como quem não quer responder à pergunta gritada por aqueles que tem o dever de guardar, mas como quem não sabe. E ouvimo-lo repetir a pergunta para a guarita seguinte: «“Que toque é este?»Do outro lado chega uma resposta, para nós inaudível. Mas o jovem ouve-a e repete-a para nós: «“É o toque dos mortos!»Para que, numa cadeia, toque o clarim por alguém que morreu, é que esse alguém é pessoa de importância. E a ansiedade e a curiosidade crescem. Gritamos, de novo, para o guarda: «E quem é que morreu?»
Tal como da primeira vez, ele repete, para a guarita seguinte, a nossa pergunta. E tal como da primeira vez, a resposta escapa-nos. Mas – tal como da primeira vez – o jovem que nos guarda logo no-la repete: «Foi o velho! O velho foi à viola!»
Não houve necessidade de perguntar mais nada. O «velho» com direito a clarim só podia ser um: Salazar. E logo nos abraçámos a rir, enquanto ouvíamos, vindos de outras celas, gritos de regozijo. Que a morte, tantas vezes desejada, do ditador, nos fosse anunciada pelo jovem que devia guardar-nos aumentava a ironia da notícia.
A cadeia explodiu em gritos, risos, murros nas paredes, comunicando de cela em cela, na velha caligrafia prisional – «Um toque é “a”, dois são “b”, três “c” e por aí adiante…» – a morte do antigo Presidente do Conselho.
Os mais lúcidos lembraram que já havia outro, Marcelo Caetano. Mas, nesse dia, a alegria prevaleceu. Mesmo quando a visita foi cancelada, mesmo quando nos cortaram os minutos de música diária, porque «o país está de luto». «De luto?», respondemos nós. «O vosso talvez esteja, o nosso país está em festa!»
E, desafinadas ou não, ergueram-se as vozes dos presos e ouviram-se pela Cadeia, nesses minutos sem música, canções de resistência.
28 de julho 2016 - 15:32
(Publicado no nº 26 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo , coordenada por António Simões do Paço.)
https://www.esquerda.net/artigo/o-velho-foi-viola/43863




