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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Nuno Gomes dos Santos - Ruy Mingas: o bom camarada

 

* Nuno Gomes dos Santos

Ruy Mingas foi des­por­tista, pro­fessor, mú­sico, po­lí­tico e di­plo­mata


Muita gente conhece a canção Me­ninos de Hu­ambo («os meninos à volta da fogueira…»), mas poucos sabem que essa cantiga, que Paulo de Carvalho divulgou amplamente e com grande sucesso, foi escrita pelos autores… do Hino Nacional de Angola! Vem isto a propósito da homenagem que aqui se quer prestar a Ruy Alberto Vieira Dias Rodrigues Mingas, que conhecemos como Ruy Mingas, angolano que se notabilizou como atleta (foi recordista de salto em altura, em Portugal, em 1960), músico e político.

Um dia apa­receu no pro­grama Zip-Zip (de Carlos Cruz, Raul Sol­nado, Fi­alho Gou­veia e José Nuno Mar­tins, RTP, 1969), que foi ino­vador na te­le­visão por­tu­guesa e re­velou ta­lentos (Ma­nuel Freire, Fran­cisco Fa­nhais, José Ma­nuel Osório, In­troito, Pedro Bar­roso e José Ba­rata Moura, por exemplo, jun­tando-lhes To­nicha ou Le­nita Gentil) da canção que por cá se pra­ti­cava. Ruy Mingas es­tava lá, atento ao con­selho que Carlos «Liceu» Vi­eira Dias, seu tio e grande per­cursor da nova canção an­go­lana, lhe dera: «cul­tiva o teu ou­vido mu­sical.» Grande êxito e, desde logo, uma car­reira de cantor e grande di­vul­gador da canção de raízes an­go­lanas, que ca­mi­nhavam de braço dado com ideias po­lí­ticas pro­gres­sistas e em­pe­nhadas na de­núncia do co­lo­ni­a­lismo e na luta do povo an­go­lano, no seu caso a luta do MPLA.

Mingas mu­sicou e in­ter­pretou, num exemplo que sin­te­tiza o que se acaba de es­crever, o poema Mo­nan­gambé (em kim­bundu, «filho de es­cravo», que tra­balha no duro e leva «por­rada se re­filar»), de An­tónio Ja­cinto («Na­quela roça grande / não tem chuva / é o suor do meu rosto / que rega as plan­ta­ções (…). Quem faz o branco pros­perar? Mo­nan­gambé!»).

Pode dizer-se que Ruy Mingas, en­quanto mú­sico, es­creveu as suas pró­prias can­ções e mu­sicou po­emas de grandes po­etas an­go­lanos, como Agos­tinho Neto e Vi­riato da Cuz, para além do já ci­tado An­tónio Ja­cinto. O que cul­minou na canção he­róica que compôs com base num poema de Ma­nuel Rui Mon­teiro – An­gola Avante! – e que foi es­co­lhida como Hino da An­gola.

Sempre muito li­gado a Por­tugal, Mingas deu aulas de Edu­cação Fí­sica na Es­cola D. An­tónio da Costa, em Al­mada. Era, por al­turas do 25 de Abril, o prin­cipal membro do corpo di­plo­má­tico do MPLA, de­sem­pe­nhando im­por­tante papel nas ne­go­ci­a­ções pela in­de­pen­dência an­go­lana com os ofi­ciais do MFA.

Em An­gola foi se­cre­tário de Es­tado para a Edu­cação Fí­sica e Des­porto, com es­ta­tuto de mi­nistro, e acabou por ser mi­nistro du­rante dez anos, após os quais foi no­meado em­bai­xador de An­gola em Por­tugal, cargo que exerceu entre 1989 e 1995 e que es­teve na origem da con­de­co­ração – Grã-Cruz da Ordem do In­fante D. Hen­rique – com que foi agra­ciado.

Em 2014 a So­ci­e­dade Por­tu­guesa de Au­tores dis­tin­guiu-o com o Prémio Autor In­ter­na­ci­onal.

Du­rante as suas an­danças pelo nosso país, longe ainda de so­nhar atingir o topo da sua car­reira pro­fis­si­onal, que na mú­sica quer na po­lí­tica, o Ruy Mingas era um amigo di­ver­tido, ta­len­toso, dono de uma voz pro­funda e de uma não menos pro­funda de­ter­mi­nação em lutar pelos seus ideais.

No Zip-Zip e nos tempos que se lhe se­guiram, to­cando e can­tando so­zinho ou, como no seu se­gundo álbum, por exemplo, acom­pa­nhado pelo seu irmão André, pelo per­cus­si­o­nista francês Da­niel Louis, com o bra­si­leiro Marcos Re­sende ao piano e a di­recção mu­sical de Thilo Kras­mann, era um foco de ale­gria e boa dis­po­sição, ex­ce­lente con­ver­sador e amigo do seu amigo.

Di­gamos que Ruy Mingas era, também na in­ti­mi­dade, o que sempre foi na vida, em todas as acep­ções da pa­lavra: um bom ca­ma­rada!

 

https://avante.pt/pt/2615/argumentos/174261/Ruy-Mingas-o-bom-camarada.htm

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Maria Lança entrevista Rui Mingas (2006)

  "Leio um poema, sinto a sua musicalidade e passados 10 minutos estou a musicar"- entrevista a Ruy Mingas

2006 

* Maria Lança

Antes da Independência de Angola já Ruy Mingas tinha corrido e cantado imenso.  Deu voz ao poema «Monangamba» de António Jacinto, um dos símbolos da luta anticolonial e seguiu musicando tantos outros poemas que entoamos como memória de alegria, às vezes difícil. Presenteou o país com um hino pacífico e poético, Angola Avante! (música sua e letra de Manuel Rui). Como atleta no Benfica ganhou vários títulos de campeão. Na Angola Independente exerceu funções de direcção no primeiro Ministério da Educação, foi embaixador em Portugal de 1989 a 1995, e vice-ministro da Cultura. 

Em 2006 regressa à música, após três décadas sem gravar. Memória é um disco que remete para um legado cultural que o autor quis recuperar para os dias que correm na vontade de dá-lo a conhecer a uma juventude com outras preocupações pela frente. Com a boa sonorização das gravações actuais, estamos gratos por poder regressar à sua voz madura e doce que reaviva os poemas de luta que tanto contam da história de Angola, numa diversidade rítmica com primazia para o semba. 

Dedicando-se quase exclusivamente à educação, criou o projecto de uma universidade privada, a Lusíada, da qual é hoje administrador. Ruy Mingas sente-se feliz entre os estudantes a consolidar a educação, pilar primordial para o desenvolvimento do país.

 

É um homem com vários interesses. Cantor, investigador e professor, desportista e diplomata, com qual destas identidades se revê mais?

Sempre fui uma pessoa com actividades muito ecléticas. Mas gosto muito do desporto e da educação. Gosto especialmente da música (a minha esposa dizia “a primeira mulher do meu marido é a música”), mas de uma maneira diferente: Ocupa um espaço na minha vida mas não do ponto de vista profissional, eu nunca seria uma profissional na música, já na educação e no desporto sim. São áreas que me estimulam muito, sinto-me bem, gosto de estar aqui com os jovens e estudantes, discutir com eles, como gosto de estar no desporto, são as relações humanas mais tocantes a que me prendo. Já a música é natural, eu cresci com a música, desde os meus avós, faz parte da minha vida como prazer e convívio.

A imagem que tenho de si é, acima de tudo, um grande músico. 

Isso é pela idade que tem. Na minha juventude era mais conhecido como campeão do Benfica, entre finais dos anos 50 e finais de 70, muito antes disso.

Em que pé está o conhecimento da música angolana?

Nós temos de consolidar os nossos estilos, os nossos ritmos. O nosso estilo melódico é importante. Os ritmos das gentes do Cunene são diferentes dos ritmos das povoações de Luanda. Portanto há um enorme trabalho a fazer de identificação de ritmos e de cientificação da música.  

Isso passa por haver escolas de música e musicólogos? 

Absolutamente. Temos necessidade de ter muitas escolas. Porque a música bonita que vemos lá fora, interpretada para muita gente, é reflexo de escola, tal como o futebol, o basquete e a arte também passam por escola.

O disco Memória pode servir de referência para os jovens em termos musicais, pois são músicas que tiveram grande importância durante o colonialismo. Como vê a importância desta retoma de composições de uma determinada época? 

A retoma foi para proporcionar a uma geração - que não existia nessa altura - o conhecimento desta poesia interventiva de grande significado, que suporta um período pré-independência num contexto histórico e político completamente distinto. Quando chamo Memória - e aqui presto homenagem à minha filha Nayma pois ela é que pensou no nome - é para essa juventude que pouco estuda e sabe da literatura angolana, para terem oportunidade de conhecer a poesia bonita que marcou uma época de luta. A última vez que gravei tinha 30 e poucos anos, passaram 32 anos. Agora a geração é outra e o contexto completamente distinto e isto é um disco produzido com uma tecnologia que dá melhor qualidade à mensagem poética, a sonoridade melhorou muito.

Neste disco musicou poemas de escritores angolanos como Manuel Rui Monteiro, Viriato da Cruz, Agostinho Neto e Ernesto Lara Filho. Tem mantido uma intensa relação entre música e literatura angolana. 

Eu gosto de musicar poesia bem elaborada que reflicta algo. Comecei com 18 anos a musicar o Agostinho Neto, o Mário Pinto de Andrade. Para mim o sentido temático e a mensagem são fundamentais, contando que seja algo bem elaborado. 

Gostaria de escrever?

Escrevo alguma coisa mas não publico e acho que temos poetas tão bons que prefiro fazer aquilo que sei fazer bem, compor. Eu crio música com muita facilidade, leio um poema, sinto a sua musicalidade e passados 10 minutos estou a musicar. Farei isso sempre que estiver na presença de um grande poema.   

Ao dar a conhecer esses poetas ligados a uma geração de luta está a tentar despertar neles uma consciência crítica e política?

Claro que sim. Tenho um carinho muito grande pelos jovens e às vezes uma certa preocupação com a sua qualidade. 

Como e quando surgiu a ideia de criar uma universidade privada em Angola? 

A ideia surgiu logo quando a sociedade angolana liberalizou o seu sistema para instituições privadas, universitárias e comércio. Concebemos este projecto em 1998. 

O balanço é positivo em termos de resultados e de assimilação no mercado de trabalho dos estudantes que saem da Lusíada?

Iniciámos em 98, com 4 cursos e o ano propedêutico, hoje temos 8 licenciaturas, nas áreas económicas e nas áreas sociais. Penso que os alunos estão bem enquadrados porque Angola está longe de superar os quadros qualificados que correspondem à procura e, passe a modéstia, temos quadros bem formados. O feed-back que temos encontrado das instituições para onde se destinam tem sido o melhor possível. Temos as melhores referências, ex-alunos a trabalhar na BP, na Sonangol, em empresas privadas, acho que o resultado está a ser muito bom. 

Que perfil de aluno vem estudar para a Lusíada, em termos de extractos sociais?

Os alunos aqui abrangem todo o tipo de extractos sociais. Não se pode identificar as classes sociais em Luanda na medida que há quem não pertença tradicionalmente à classe privilegiada mas tenha poder de compra equivalente ou superior aos que aparentam essa classe. As pessoas têm um poder de compra muito grande. Nós iniciámos os cursos com alunos adultos, de 40 e 50 anos, hoje são predominantemente jovens. A evolução foi a melhor possível. Começámos com 300 alunos, neste momento temos cerca 6 mil em Luanda, mais um pólo em Benguela e em Cabinda, no conjunto das 3 universidades temos cerca de 7500 estudantes.  

Sente que os alunos chegam à universidade preparados? Qual é a principal carência do ensino anterior, pré-universitário?

A carência é muito grande, por isso iniciámos esta universidade com o ano propedêutico, não obrigatório, era opcional. Houve muita recepção na primeira experiência, muita gente queria fazer exame de aptidão directo, mas o índice de reprovação era tão grande que ao fim do primeiro ano os próprios alunos constataram que quem fizesse o ano zero teria melhor solidez nos seus conhecimentos e o curso universitário fluía muito mais facilmente. Hoje em dia temos dois terços dos candidatos a matricularem-se no ano zero. Fomos os primeiros a implementar este sistema pela consciência de que temos de melhorar bastante o ensino.

A frequentação feminina de cursos superiores fará com que haja mais mulheres na liderança do país, com protagonismo em várias áreas?

Isso é extremamente louvável. Eu pertenço a uma geração em que os próprios pais entendiam que era preciso dar mais formação aos homens do que às mulheres.

Já se erradicou essa mentalidade?

Não creio. Nas províncias sim, porque as populações estão muito agarradas a alguns conceitos tradicionais. A nível urbano não se sente. A sociedade angolana até foi muito aberta em relação à mulher. Conheço bem o continente africano, não creio que haja nenhum país com tanta abertura para com as mulheres como Angola. É evidente que à medida que as mulheres forem adquirindo mais capacidade técnica, científica, cultural e outras estarão capacitadas para adquirir mais responsabilidades e é louvável que assim seja. Naturalmente, o crescimento do número de mulheres com formação vai influenciar as sociedades mais tradicionais a procurarem entender a mulher de maneira diferente.

Mas imaginemos que um homem e mulher com a mesma formação procuram emprego, não acha que, além das suas competências e qualificações, o género é tido em conta na escolha do candidato?

Daquilo que constato acho que não há problemas dessa natureza. Não tenho sentido quaisquer preconceito para se fazer a selecção das pessoas em função do género. Se existe é em situações muito menos frequentes do que no tempo dos meus pais. Em Portugal rejeitam as mulheres com aquelas condicionantes de maternidade. Na admissão da mulher nas empresas privadas que não têm nenhum orçamento que cai do céu como nas empresas públicas e que apostam na capacidade de produção dos seus trabalhadores, muitas vezes isso acontece. Eu acho que deve ser tudo feito com base nas capacidades, aqui na Universidade tenho isso presente com várias senhoras responsáveis. 

Fará sentido para si a discussão de cotas para a representação política feminina ou isso terá de acontecer naturalmente sem ser pela descriminação positiva?

O Brasil tem quotas para a entrada de negros na universidade porque aquilo é uma sociedade estratificada, onde esse problema é visível. Aqui não. A mulher angolana não tem maior participação na política porque essa percentagem decorre do número de pessoas que aderiram à luta política. Não era muito comum encontrar mulheres no ativismo político há 40 anos atrás. Hoje felizmente há muito mais, a vossa juventude tem essa participação, também há uma formação que lhes permite uma outra capacidade de intervenção na abordagem e na discussão dos problemas. Isso é paulatino, pratica-se à medida que a sociedade for mais equilibrada e tiver mulheres formadas ao mesmo nível que os homens a participar no sistema de emprego. Não é por acaso que a Inglaterra já teve Primeira-Ministra e a França teve uma candidata à Presidência da República, trata-se de um longo percurso de tradição e participação na vida política. 

BI: 

Nome: Ruy Alberto Vieira Dias Rodrigues Mingas 

Data de nascimento: 12/05/1939 - 4/2/2023

Naturalidade: Luanda 

Cantor preferido: Ray Charles, Nat King Cole

Cantora preferida: Aretha Franklin, Ella Fitzerald 

Filme: Os Dez Mandamentos

Pintor: Salvador Dali

Cor: Azul

Viagem: Roma

O que mais despreza: falsidade

O que mais preza: sinceridade, transparência

Prato preferido: calulu

De que sente mais saudade: dos meus pais

Lema de vida: ser aquilo que sou, apoiar sempre as crianças 

 

por Marta Lança
Cara a cara | 5 Janeiro 2024 | desportoeducaçãomemóriamúsicapoesia angolanaruy mingasuniversidade


https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/leio-um-poema-sinto-a-sua-musicalidade-e-passados-10-minutos-estou-a-musicar-entrevista-

Cara a cara | 5 Janeiro 2024 |  





Rui Mingas (1939 / 2024)




Ruy Mingas (1939-2024), músico lutador pela liberdade, cantor feito homem político

Nome maior da música angolana, co-autor de Meninos do Huambo, Ruy Mingas foi antes atleta recordista, foi depois ministro e embaixador da Angola independente. Tinha 84 anos.


4 de Janeiro de 2024, 19:03




Foto

Ruy Mingas foi nos anos 1980 e 1990 ministro da Educação Física e Desportos e embaixador de Angola em Portugal DR

O seu percurso de vida está intimamente ligado ao de Angola independente. Foi, afinal, co-autor do hino de Angola com o escritor e dramaturgo Manuel Rui e foi também ministro da Educação Física e Desportos angolano entre 1979 e 1989 e, entre 1990 e 1995, embaixador da nação africana em Portugal. Homem de talentos multifacetados, Ruy Mingas, falecido esta quinta-feira em Lisboa, aos 84 anos, foi também recordista português do salto em altura. Mas foi, acima de tudo, poeta, cantor e compositor, um nome maior da música angolana e co-autor, por exemplo, da Meninos do Huambo popularizada em 1985 por Paulo de Carvalho.

Nascido em Luanda a 12 de Maio de 1939, Ruy Mingas destacou-se primeiro no desporto. Atleta do Benfica nas categorias de 110 metros barreiras e salto em altura, bateria o recorde nacional da segunda em 1960. Porém, tal como outro angolano seu contemporâneo em Lisboa, Barceló de Carvalho, que conhecemos hoje como Bonga, mas que foi também campeão de atletismo, pelo mesmo clube, na década de 1960, Ruy Mingas seguiria outra musa. No seu caso, podemos mesmo afirmar que houve uma certa inevitabilidade na sua dedicação à música e ao seu envolvimento empenhado na luta independentista e anticolonialista angolana.

Ruy Mingas era, afinal, sobrinho de Liceu Vieira Dias, figura fundamental da música popular angolana, co-fundador dos míticos N’Gola Ritmos no final dos anos 1940, um lutador contra a opressão colonial portuguesa que o Estado Novo encarcerou durante vários anos no Tarrafal, o temido campo de concentração para presos políticos em Cabo Verde.

Desse exemplo familiar bebeu abundantemente Ruy Mingas, como o comprovam uma canção como Monangambé (1974), sob poema de António Jacinto ("Naquela roça grande tem café maduro/ e aquele vermelho-cereja/ são gotas do meu sangue feitas seiva"), ou álbuns como Angola (1970) e Temas Angolanos (1974). Neles, como escrevia Kalaf Epalanga em 2020, numa crónica para a revista brasileira Quatro Cinco Um, ouvíamos “o homem que deu voz às aspirações do povo angolano e cantou como poucos nossa dor e ânsia por liberdade”.

O grande público contactou pela primeira vez com Ruy Mingas em Portugal quando actuou em 1969 no Zip Zip, o histórico programa da RTP apresentado por Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz – a acompanhá-lo nas percussões estava Bonga. No ano seguinte, editou o seu primeiro álbum, Angola, que viria a ser lançado, além de Portugal, em Itália, Espanha ou França – o seu prestígio neste país levou mesmo à sua distinção, em 2010, com o Prémio de Arte, Cultura e Letras da Academia Francesa de Educação.

Sem que o público português o soubesse, porém, Ruy Mingas já interviera de forma marcante na música portuguesa, ainda que por interposta pessoa: foi ele a apresentar aos Sheiks de Carlos Mendes e Paulo de Carvalho o clássico Summertime, de George Gershwin, que a grande banda do yé yé português gravou em 1965 como o seu primeiro single. Nesse período, movendo-se no seio dos estudantes africanos em Portugal, desenvolveu a sua consciência e actividade política e integrou os Ngola Kizomba, banda emanada da Casa dos Estudantes do Império na Capital Portuguesa.

Através das suas composições, musicando poetas da luta independentista angolana como Viriato Cruz, o supracitado António Jacinto ou o futuro Presidente da República Agostinho Neto, ou colaborando com Manuel Rui (além do hino de Angola, compuseram em conjunto, em 1976, Meninos do Huambo, entre outras), Ruy Mingas legou à música angolana, na sua voz cheia, expressiva e ponderada, temas como Birin birin, Ixi ami, Poema da farra, Adeus à hora da largada ou a já referida Monangambé.

Após o 25 de Abril e a independência de Angola, vestiu a farda de político e tornou-se ministro, primeiro, e depois embaixador. Em 1995, foi agraciado por Portugal com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. No início deste século, defensor da educação como alavanca decisiva para a prosperidade do seu povo, impulsionou a fundação da Universidade Lusíada em Angola, a primeira instituição de ensino superior privada no país, com pólos em Luanda, Cabinda e Benguela. A música, porém, continuava presente.

Em 2011, o pai da cantora Katila Mingas e da modelo Nayma, editou Memória, álbum em que compilou originais e novas versões das suas canções, qual testemunho artístico feito ponte entre o passado e o presente.


sábado, 20 de agosto de 2016

"Os meninos do Huambo", de Manuel Rui Alves Monteiro





Ruy Mingas - Meninos do Huambo

 Com fios feitos de lágrimas passadas 
Os meninos do Huambo fazem alegria 
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas 
E no céu descobrem estrelas de magia 

Com os lábios de dizer nova poesia 
Soletram as estrelas como letras 
E vão juntando no céu como pedrinhas 
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira 
Vão aprender coisas de sonho e de verdade 
Vão aprender como se ganha uma bandeira 
Vão saber o que custou a liberdade 

Com os sorrisos mais lindos do planalto

Fazem continhas engraçadas de somar 
Somam beijos com lores e com suor 
E subtraem manhã cedo por luar 

Dividem a chuva miudinha pelo milho 
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas 
Constelações que brilham sempre sem parar 

Os meninos à volta da fogueira 
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira 
Vão saber o que custou a liberdade 

Palavras sempre novas, sempre novas 
Palavras deste tempo sempre novo 
Porque os meninos inventaram coisas novas 
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira 
Juntam palavras deste tempo sempre novo 
Porque os meninos inventaram coisas novas 
E até já dizem que as estrelas são do povo


Manuel Rui Alves Monteiro, de Huambo (n. 4 de Novembro de 1941), mais conhecido por Manuel Rui, é um escritor angolano, autor de poesia, contos, romances e obras para o teatro. Dono de uma obra na qual o homem comum é celebrado, Manuel Rui é considerado um dos mais importantes escritores ficcionistas angolanos.

http://antreus-dois.blogspot.pt/2016/08/os-meninos-do-huambo-de-manuel-rui.html

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Poesia da Mudança - Brecht, Vinícius e António Jacinto

De Brecht
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O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
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Nada é impossível de Mudar
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"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."
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Privatizado
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"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence
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e de Vinicius por Mário Viegas - Operário em Construção 


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edilsonfoto | 16 de Novembro de 2007 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Oprerário em Construção texto de Vinicius de Moraes, Declamação Mario Viegas, Edilson Edilson Almeida.
UJC BAIXADA
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e de António Jacinto e Rui Mingas - "Monagambé"
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lmdoliveira | 1 de Março de 2009 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
a musica e bela voz de Rui Mingas, a letra é de António Jacinto. Dois angolanos de mão cheia!
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Monangambé
(António Jacinto/Rui Mingas)

Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambé..."

António Jacinto (Poemas, 1961).
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RECANTO DA POESIA EM VERSO E PROSA
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Alice Alves Paree que lhe sinto o cheiro....!
há 3 horas · GostoNão gosto
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Maria Clara Roque Esteves maravilhoso!Mesmo uma mulher de estatura mediana cruza a memória com o infinito dos lugares e do tempo.E as imagens (das palavras) são relevantes para quem julga perceber a importância dos momentos, sem repetição dos dias. " O mundo avança e o metal organiza-se".
há 2 horas · GostoNão gosto
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Alice Alves O cheiro de África....O feitiço que Africa nos lança...um misto de emoções tão intensas, que nos marcam e que não conseguimos descrever..apenas sentir.... :-)))
há 2 horas · Gosto
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Música - Poesia - Dança
Grupo aberto
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José Carlos Moutinho Lindo poema....cantado pelo Rui Mingas
há 21 horas · GostoNão gosto
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Maria Catarina Palma Fialho BONITO POEMA ...CHEIRA A ÁFRICA:::!
há 19 minutos
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