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sábado, 12 de junho de 2010

Todos iguais em África? Não, todos diferentes

Jovens alunos em Luanda MIGUEL MADEIRA
Por Susana Moreira Marques
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Talvez Angola possa ser o país a reequilibrar a discussão da lusofonia, até aqui pesando sempre entre Portugal e Brasil sem um papel reservado a África
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De Luanda a Maputo - longe como de Lisboa a Atenas -, atravessa-se um continente. Cabo Verde está no meio do mar, que é como quem diz voltado para muitas coordenadas, não só africanas. São Tomé e Príncipe é nova ilha. E a Guiné-Bissau fica entre outras Guinés e outras culturas. Viajando estas distâncias, podemos continuar a falar português. O que não quer dizer que nos possamos entender.

"A língua é o elemento de comunicação, mas nós não comunicamos a língua. Comunicamos valores e identidades", lembra-nos Lucílio Manjate, um jovem escritor de 29 anos de Maputo. A palavra-sigla PALOP provoca suspiros do lado dele da linha telefónica, nos tais países africanos de língua oficial portuguesa.

A primeira coisa que podemos ouvir - se quisermos - vinda desse continente é que não só os portugueses, mas os europeus em geral, teimam em olhar, preguiçosamente, de forma genérica. Porque não podemos falar de uma língua portuguesa em África, mas de várias línguas portuguesas em países multilingues e multiculturais de formas que, de fora, temos dificuldade em imaginar.

Em Moçambique falam-se cerca de 20 línguas. "O escritor aprendeu uma determinada língua, mas pensa noutra", explica Lucílio Manjate, e ainda que não use directamente palavras das línguas bantu, a lógica e visão do mundo para as quais remetem as várias línguas nacionais estão presentes na escrita em português.

Como escritor, Manjate reserva-se o direito de criar a sua própria linguagem. Como cidadão que cresceu num país independente, ainda é preciso resolver o fantasma do colonialismo e sentir o português não como língua de fora, da qual se desconfia, mas de dentro.

Nacional como a mandioca


Isto é cada vez mais verdade em Angola, onde, quando se realizar um censo, se espera descobrir que um terço da população tem o português não como primeira língua, sobretudo nos centro urbanos, sobretudo entre as gerações mais jovens.

"Hoje, em Angola, a língua portuguesa é tão nacional como a mandioca", diz o escritor e jornalista João Melo. E, como quando se importou a mandioca, juntam-lhe outros ingredientes, a gosto.

Nas escolas, aprende-se o português-norma, de Portugal, mas pelas ruas de Luanda ouvimos outro português, muitas vezes com semelhanças ao português do Brasil.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, diz João Melo, essa influência não é um feito da Rede Globo. Durante o século XX, a colonização portuguesa e a ditadura militar no Brasil contribuíram para um afastamento entre Angola e o Brasil, mas os laços que actualmente se retomam são muito antigos. "Quem for estudar o século XVII, verá que a relação entre Angola e Brasil era directa, não passava por Portugal." A própria língua portuguesa como é falada no Brasil incorporou uma série de vocábulos de línguas angolanas - principalmente do quimbundo - levadas pelos escravos.

O reequilíbrio angolano

Para um escritor em Angola, o mercado brasileiro é aliciante, não apenas pelo potencial de vendas - "uma questão de escala", resume João Melo - mas também pela afinidade cultural. Se João Melo ler a sua obra para uma plateia brasileira, esta sabe do que fala. "Luanda é hoje uma metrópole terceiro-mundista", diz o escritor, e a literatura angolana, fortemente urbana, fala a quem vive nas grandes metrópoles brasileiras.

De resto, talvez Angola possa ser o país a reequilibrar a discussão da lusofonia, até aqui pesando sempre entre Portugal e Brasil, sem encontrar um papel para África.

Para João Melo, se Angola se afirmar como uma potência económica regional, isso terá que ser acompanhado de políticas culturais, incluindo a criação de políticas próprias de promoção da língua portuguesa. Mas, para já, está tudo por fazer. Neste momento, Angola não tem leitores e um país com pouco acesso ao livro dificilmente produz literatura.

Também em Moçambique é quase impossível comprar um livro fora da capital, explica Manjate. Para ele, que quer ter leitores em Moçambique, Angola, Cabo Verde, Portugal, Brasil e onde quer que se leia em português, o "sonho da lusofonia" vale a pena. Para isso, é preciso encontrar as razões certas, que não podem ser só políticas. Para ele, "a utopia tem que ser cultural, humanitária, dos afectos".
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Índios escritores resgatam sua história

Daniel Munduruku

Cultura

Vermelho - 13 de Dezembro de 2009 - 17h04

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 Os índios escritores estão recuperando a história dos povos indígenas que os não índios ignoram. Seus livros, numa coleção de narrativas para crianças e adultos que relembram as tradições das 250 nações hoje sobreviventes no Brasil, variam no estilo, mas perseguem todos o mesmo objetivo - restaurar na ficção de lendas, novelas e romances a sabedoria dos ancestrais. 

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Pesquisas antropológicas e o registro de uma memória que vem sendo transmitida, de geração em geração, pela boca dos pajés, permitem resgatar toda essa riqueza cultural. Daniel Munduruku, ou Derpó, que em sua língua nativa significa Peixe Maluco, é um dos pioneiros desse esforço editorial.
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Ao lado de guerreiros como Marcos Terena, Kaká Werá, Aílton Krenak, Darlene Taukane, Eliane Potiguara e dezenas de outros autores que aparecem num catálogo literário organizado por entidades de defesa dos bens e direitos sociais dos índios, Daniel ajuda a espalhar a produção intelectual de seus parentes, pelo Brasil e no exterior.
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Aos 45 anos de idade e 13 de escritor, Daniel lança O Karaíba, uma história do pré-Brasil (Editora Manole, 98 págs., R$ 39), romance destinado ao público juvenil. É mais um livro para ler com o coração, conselho válido para todas as lendas buscadas nas profundezas dos séculos anteriores à chegada dos portugueses à Bahia.
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Essa é uma história de ficção", alerta Daniel, com a ressalva de que, se não ocorreu de verdade, é uma história que poderia ter acontecido. Karaíba foi um profeta que percorria as aldeias prevendo coisas assustadoras, como a chegada de um grande monstro que destruiria tudo. "Não sobrarão nem vestígios de nossa passagem sobre esta terra onde nossos pais viveram", anunciou o velho sábio a seus parentes que habitavam a Amazônia.
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"Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados", era essa a visão de Karaíba que os índios confirmariam no futuro, quando um jovem se assustou com um ponto branco se aproximando da praia. "Fantasmas estão chegando!", gritou aos guerreiros da aldeia.
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O que aconteceu daí em diante, a história contada pelos não índios, os manuais ensinam nas escolas. Nas páginas desse seu pequeno romance, Daniel resgata um pouco da cultura e da tradição dos Munduruku, que se espalham hoje com uma população de 12 mil índios pelos Estados de Mato Grosso, Amazonas e Pará.
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Foi numa aldeia da região de Santarém (PA), entre os igarapés afluentes do Rio Tapajós, que Daniel viveu até os 15 anos. Quando o pai foi morar na cidade, continuou a visitar seu povo, como conta em outro livro, Meu Vô Apolinário (Studio Nobel), que ele define como "um mergulho no rio de (minha) memória". Casado com uma moça do Vale do Paraíba e pai de dois filhos, Daniel formou-se em Filosofia na Universidade Salesiana de Lorena e faz doutorado em Educação na USP, enquanto escreve e dá palestras pelo Brasil afora.
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Cultura para crianças
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A tradição e a cultura indígena também são compartilhadas com as crianças nas escolas. "Xibat?", pergunta o índio escritor-professor a uma turma de alunos da Escola Lourenço Castanho, no bairro do Ibirapuera, em São Paulo, na manhã de uma sexta-feira de novembro. Os meninos e meninas, de 8 a 10 anos, que no início do encontro tinham ouvido de Daniel uma saudação em língua indígena, logo traduzida para o português, não entenderam nada. Todos sorriam, esperando a tradução de mais essa palavra.
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"Tudo bem? Tudo legal? Tudo joia? Tudo porreta?", traduziu o índio, despejando uma enxurrada de gírias para quebrar o gelo. Depois contou que, na aldeia, ninguém se cumprimenta com beijos e abraços, mas só com uma saudação simples como xibat, olhando nos olhos, porque, como dizem os ancestrais, "o olho é a única parte do corpo que não mente". Explicou que Munduruku quer dizer Formiga Guerreira ou Gigante, um nome que, com um significado desse, só pode dar orgulho a seu povo. A criançada prestou a maior atenção.
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"Meu povo, que vive na floresta há séculos, entrou em contato com os não índios há uns 300 anos. Aprendeu a usar roupa quando lhe disseram que era pecado andar pelado, balançando os balangandãs. Aprendeu a comer alimentos, como o macarrão, que não faziam parte de sua tradição. Os índios comiam mandioca, anta, farinha, peixe. Os índios, que falavam sua língua tradicional, tiveram de aprender o português. Os povos indígenas, que falam 180 línguas nas diversas regiões do País, agora são bilíngues."
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Não havia como não prestar atenção. O horário reservado para a palestra estourou, porque Daniel cativou os alunos. Fez provocações engraçadas, riu, gritou alto de assustar até os adultos, cantou, ensaiou passos de dança, pintou a cara com tinta de jenipapo e de urucum, pôs um cocar de chefe na cabeça e um colar de festa no pescoço. Assumiu a identidade da aldeia ao relembrar a cultura dos ancestrais, mas deixou claro que fazia concessões à modernidade. Para divulgar a história dos índios e defender seus direitos, tem um blog na internet e se comunica por e-mail e por telefone celular.
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"O povo indígena é um povo humano, que tem raiva, alegria, amor e ciúme", disse Daniel, citando sentimentos que acompanham seus personagens. Ao descrever as aventuras de seus parentes - com namoros, casamentos, caçadas, guerras e alianças de paz - ele utiliza palavras atuais, como garoto, rapaz e moça. Tudo com poesia e figuras simbólicas, mas sem aquela linguagem tipo "virgem dos lábios de mel" com que José de Alencar se referia a Iracema.
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Derpó Munduruku, que hoje se orgulha desse nome, mesmo atendendo pelo registro civil que o rebatizou como Daniel, confessa que já sentiu vergonha de suas origens, quando era discriminado por causa da imagem que o índio tinha. "Além de considerar que o índio era preguiçoso e feio, diziam que ele atrapalha o progresso, pois tem muita terra e não sabe o que fazer com ela."
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Daniel queria ser bombeiro ou astronauta, não queria ser visto como um selvagem. "Agora, tenho consciência de minha identidade e gosto dela: sou um brasileiro-índio." E, quando ele lembrou que existem brasileiros brancos, negros, japoneses, italianos e cidadãos de muitas outras ascendências que nem por isso são menos brasileiros, todos entenderam. "Xibat?", perguntou o índio. "Xibat", respondeu a criançada em coro.
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Com O Estado de S.Paulo

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[Audiobook] Catando Piolhos, Contando Histórias – Daniel Munduruku ...

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Coisas de Índio: Versão Infantil

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Daniel Munduruku, autor deste bonito panorama sobre as comunidades indígenas do Brasil, é índio e gosta de ser índio. Ou seja, acha fundamental o resgate do orgulho indígena, tão em baixa desde que os brancos aqui aportaram. Tanto que a expressão "coisas de índio" tem valor negativo, querendo dizer: "coisas de gente esquisita, de ignorante". Mas, desde que conduzidos pela mão certa, basta uma rápida olhada na cultura e na história dos povos indígenas para vermos que não é bem assim. Coisas de índio é um livro para pesquisa, acessível, interessante e muito atraente, capaz de fazer com que o leitor sensível compreenda toda a riqueza e pluralidade das coisas dos nossos índios.
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http://www.planetanews.com/produto/L/44029/coisas-de-Indio--versao-infantil-daniel-munduruku.html
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segunda-feira, 29 de junho de 2009

O “Esquerdismo” e o futuro do Brasil (1)


por Elias Jabbour*
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O Brasil vai caminhando a um destino incerto, onde a fronteira entre o projeto nacional versus dominação imperialista vai ganhando contornos trágicos ao nosso destino. A discussão de alianças e formas de se auferir determinados objetivos ganha força. Naturalmente, uma série de questões surge neste tipo de discussão.

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Porém, uma guarda caracteres especiais: levaremos - nesta tal discussão - em consideração a complexidade de uma formação onde o neto de “Maria, a louca” foi o artífice da internalização de nosso capitalismo comercial (independência), ou vamos utilizar o “supra-sumo do lixo” do marxismo produzido no século 20 como estrada sem vicinais, a argumentos baseados na ignorância, no discurso fácil e na desqualificação de tipo fascista do interlocutor como meio a um “nobre” fim?

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A montanha do conhecimento é cheio de escarpas, dizia Marx. Ou se escala esta montanha com perseverança e humildade ou nos aferremos ao antimarxismo, ao dogma, ao conservadorismo que causou a morte de gente boa em tribunais onde um “deus” – concebido numa formação social onde o direito romano estava tão distante quanto a razão de um policial, preparado ao assassínio de pobres, do BOPE – dizia quem matava ou morria, ou mesmo onde o destino de um trabalhador digno e honesto estava nas mãos de um plutocrata-assassino-protegido de tipo Béria (afinal não é incomum ouvir assertivas, entre elas “o Estado de Direito é coisa de burguês!!!”); ou como nos dias de hoje, rotulemos, desqualifiquemos, absorvendo assim o que de mais fascista criou o método da interlocução inerente ao “pensamento único” neoliberal.

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É isso, a provocação que faço é justamente no sentido de separar o chamado “joio do trigo” que na perspectiva que busco levantar pode se expressar num método tipicamente marxista-leninista (análise das “múltiplas determinações” que formam o concreto) ou num “esquerdismo” cuja superficialidade acaba degenerando – no debate de idéias – numa inconseqüente desonestidade intelectual.

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Eis o desafio de se militar e escrever nos moldes de um soro feito à base de uma mistura de água com açúcar ou se enfrentando os problemas de mente aberta e capacidade para o bom combate.


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Além de uma necessária busca das raízes históricas desta tendência política, minha idéia inicial é abordar o fenômeno do “esquerdismo” partindo da análise de alguns temas que nos interessam na contemporaneidade. Todos eles relacionados ao Brasil, entre eles a formação social brasileira, as características de nosso processo de desenvolvimento, a relação entre industrialização e reforma agrária, o desmonte do complexo rural brasileiro, a política e a economia na subjetividade do empresário nacional, entre outros.

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O pano de fundo, a essência é a discussão acerca do caráter estratégico da questão nacional à nossa transição ao socialismo. Do ponto de vista epistemológico – na falta de instrumentos de experimentação somente dispostos ao trabalho de químicos, físicos e adjacências – somente nos resta utilizar a ciência histórica como campo privilegiado de experimentação das ciências ditas como “da sociedade”. Continuando, além da busca da “raiz das coisas” (história = categoria de formação econômico-social), é mister a dotação de uma visão de conjunto do problema; logo, agrego ainda a necessidade nodal à este tipo de investigação materialista e histórica: o salto de qualidade inerente à fusão da ciência histórica com a ciência econômica, redundando no poderoso instrumento da história econômica, assim como das ciências políticas com a já citada economia inerente à Economia Política.

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É na análise de processos históricos que podemos chegar a alguma síntese justa dos problemas que nos afligem. Afinal, uma verdade somente é passível de lastro se a mesma for lastreada historicamente.


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Expressão sócio-temporal da transição feudalismo-capitalismo

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Conforme salientei na introdução do texto, sendo a história o campo de experimentação, por excelência, das ciências humanas, é na análise de distintos processos históricos que reside a viabilização da compreensão determinados fenômenos. Logo, o “esquerdismo” como fenômeno político e social somente deve ser amplamente baseada como expressão de determinados processos históricos caracterizados por uma crescente ruptura entre determinados níveis de desenvolvimento das forças produtivas com cada vez mais obsoletas relações de produção. Assim sendo, e adiantando minha opinião, acredito ser possível afirmar que o “esquerdismo” é produto histórico de sociedades cuja transição feudalismo – capitalismo ocorreu de forma mais lenta que em sociedades onde a expropriação camponesa deu-se de forma mais radical e acelerada (Inglaterra, p. ex.).

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Trocando em miúdos, o processo de desmonte das “terras comunais” (local do feudo destinado ao plantio, pelos servos, de gêneros para subsistência e – eventualmente – ao mercado) em prol da concentração dos meios de produção nas mãos da classe dominante que transformou sua hegemonia econômica em hegemonia política

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Substanciando, interessante notar que uma das características mais marcantes do discurso “esquerdista” é a relação direta entre o socialismo com o modelo de sociedade baseada em princípios igualitaristas, quando na verdade em Marx e Engels observa-se uma distância muito grande entre igualitarismo e igualdade. Afora esta distorção teórica e política dos fundamentos do socialismo científico, é de difícil garimpo encontrar, nos escritos dos fundadores do socialismo científico, a emersão de uma sociedade igualitária como uma das tarefas históricas do socialismo.

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Abrindo parêntese, importante não negarmos que o marxismo surge, no sentido filosófico, como uma corrente hegeliana de esquerda, o que significa a absorção – em suas raízes – tanto das idéias igualitaristas de pensadores franceses (Saint-Simon e Charles Fourier), quanto do cosmopolitanismo inerente aos intelectuais críticos da transformação das ciências humanas e naturais em instrumentos a serviço do projeto nacional bismarckiano na Alemanha.

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Infelizmente não é socializada a informação para quem – em Marx e Engels – a principal tarefa histórica da transição do socialismo ao comunismo reside na proscrição da divisão social do trabalho. Esta constatação muda –radicalmente – a forma de se enxergar o problema da transição...

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Retornando, o elo da solução da equação em torno da gênese do “esquerdismo”, está na mesma tentativa de resposta dos socialistas utópicos às dores do parto da transição feudalismo – capitalista numa Europa Ocidental onde o apoio camponês foi de grande relevância ao êxito, por exemplo, da Revolução Francesa: a conflituoso e traumático desmantelamento das terras comunais à pequena produção mercantil e posteriormente ao capitalismo industrial concentrado em centros urbanos. Importante notar que nas ditas “terras comunais” o igualitarismo era o principal elemento norteador da subjetividade das famílias assentadas em tais espaços. Assim fica mais claro compreender o caráter anticapitalista (não trabalham com o socialismo como superação do capitalismo) do discurso “esquerdista”, pois assim como Nitszche - produziu uma visão anticapitalista a partir da constatação das contradições inerentes daquele processo histórico de substituição de marcos éticos igualitaristas a outra onde a concorrência permearia, inclusive, as relações pessoais.

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Além de Nitszhe, Saint-Simon moldaria seu pensamento e ação ao retorno às antigas formas de relações da gleba comunal. Ressaltando a relação de causa e efeito entre os valores igualitaristas rurais e o “esquerdismo”, é interessante perceber – por exemplo – que os desvios de esquerda de líderes nascidos em comunidades agrárias (como Mao Tsétung) sempre estão baseados em trágicas tentativas de imposição (de cima para baixo) de políticas igualitaristas sob o lastro de políticas econômicas subjetivistas e – conseqüentemente – sem nenhum nexo com as leis objetivas e subjetivas do desenvolvimento social.

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Por fim, é mister demonstrar que a influência dos utópicos em Marx apenas serviu como referência de um determinado processo histórico. Marx e Engels superaram seus antecessores, por exemplo, ao demonstrar que o desenvolvimento de novas e superiores formas de produção é diretamente determinado pela relação entre homem e natureza, e sendo a natureza guiada por um conjunto de leis e que tais leis não são passíveis de mudança pela “vontade humana”. O máximo que o ser humano pode alcançar é a utilização destas leis em seu proveito. Mais, em consonância com a natureza, a próprio desenvolvimento da sociedade estão sujeitas à ação de determinadas leis que em plágio com as que regem a natureza, também não estão a mercê da vontade dos homens. Daí os fundadores do socialismo científico relacionarem a edificação do socialismo sob o pressuposto da deciframento, por parte do homem, das formas de ação das leis naturais e sociais. É a fase da história (futura) marcada pela “construção consciente da sociedade”.


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O Brasil, uma formação social complexa

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Minha idéia agora é trazer a discussão para o campo da formação social brasileira. Por quê? Pelo fato de que não podermos fazer uma análise justa de determinadas posições políticas longe do escopo da análise da visão, de determinados grupos, acerca do desenvolvimento histórico das formações sociais em que atuam. Uma tática acertada e justa deve ter como condição sine qua non uma leitura correta da história do local de atuação. Neste caso tento apontar que o subjetivismo e a inconseqüência da tática “esquerdista” no Brasil está diretamente relacionada com dois limites de ordem conceitual e teórica:

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1) Não trabalharem com o princípio para quem o contato dos colonizadores europeus com a periferia do sistema redundou na formação de sociedades onde diferentes formas de produção conviveram (e convivem) dando um caráter complexo ao modo de produção e, conseqüentemente, à formação social como um todo. A percepção do caráter complexo de nossa formação social é a principal condição objetiva à percepção de que numa dada sociedade onde o velho e o novo estão em processo de conflito e convivência, as classes dominantes assumem discursos ora conservadores, ora progressistas. Tal comportamento dúbio por parte das classes dominantes que emergiram na periferia do capitalismo pode ser de perfeita compreensão a partir do exame e domínio das formas como a lei do desenvolvimento desigual e combinado agem sobre determinada formação (no Brasil em nosso caso). Coloco ainda que a lei do desenvolvimento desigual e combinado foi, sob o ponto de vista teórico, a antesala que possibilitou a Lênin alçar a tática política do proletariado à condição de ciência;

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2) O subjetivismo, o espontaneísmo e a conseqüente falta de coerência intrínsecas às “táticas” do esquerdismo são produtos, dentre outros fatores, da falta (e incapacidade) de se analisar (tanto no imediato quanto na história econômica do Brasil em si) o processo de produção como fundamento de primeira ordem à atuação e capacidade de intervenção em processos de acirramento da luta de classes. Assim nasce a principal condição objetiva à negação duma das grandes distorções e aberrações do marxismo no século: a substituição da análise do processo de produção em detrimento da investigação do processo de circulação de mercadorias. Trocando em miúdos, ao não apreenderem de forma séria o marxismo, as análises de cunho esquerdista deixam-se levar por uma definição de capitalismo muito genérica sintetizada na idéia de produção para a venda no mercado, em que o objetivo é o lucro máximo. Assim o extremismo de esquerda aproxima-se muito mais da Economia Política produzida por Adam Smith do que da crítica produzida a ela por Marx. Somente um deslocamento do marxismo – em sua forma radical – em detrimento de uma caduca Economia Política pode servir de base a uma falsa totalidade hegeliana (afinal pode-se vislumbrar o todo mesmo na parte) e da esquematização e estratificação (logo, não observando historicamente o processo de formação e desenvolvimento das nações) do mundo em centro, semi-periferia e periferia, creditando (como nossos teóricos da dependência, esquerdistas e superficiais como Rui Mauro Marini e Gunder Frank) que processos autônomos de desenvolvimento só podem existir com “autorização” (ou “convite”) e a serviço dos interesses do centro. Aliás, algo muito conhecido (o “circulacionismo) entre nós no Brasil acostumados com as “hegemonias” cepalina, da teoria da dependência, das idéias de Caio Prado e Jacob Gorender, das teorias do subdesenvolvimento e daqueles que não trabalham com a hipótese da existência histórica do feudalismo no Brasil (estou a procura de alguém que me aponte as leis da Economia Política que nortearam uma “transição direta” do escravismo ao capitalismo no Brasil). O que existe em comum em todas elas é a não explicação do dinamismo de países como o Brasil (que chegou a ser a 8° economia do mundo no início da década de 1980) e sim na busca cega por explicações de nosso atraso. O Brasil, para os esquerdistas, é um grande fracasso histórico...


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Certa vez Stálin afirmou que se pode falar em cinco modos de produção fundamentais, a saber: o comunismo primitivo, o escravista, o feudal, o capitalista e o socialista. Ignácio Rangel nos advertira que Stálin escrevera e falava este tipo de elaboração em russo, o que quer dizer que ao se tratar de uma língua estranha, não-latina, poderia servir de interpretações mil e vis. Claro, que talvez o então líder soviético não tratara a questão com a radicalidade necessária ao não incluir os chamados modos de produção complexos, entre eles o modo de produção asiático, onde o camponês poderia servir a formas variadas de acumulação a outrem ao mesmo tempo em que acumulava a si próprio, sem falar na essencial serventia ao imperador, senhor do destino, ao mesmo tempo, potencialmente servil a uma ampla massa de milhões de famílias camponesas. A análise desse modo de produção asiático e complexo pode ser importante à percepção das múltiplas formas que se pode tomar o socialismo, dependendo da formação em que ele se desenvolve. Afinal, se a Economia Política não é a mesma para todos os países (Engels), o socialismo não deve ser regido por um “modelão” projetado em algum gabinete lotado por um “senhor do mundo”.

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Outra classe de modos de produção complexos foram originados com os contatos ibéricos com a América, onde pode-se conceber perfeitamente, um senhor de escravos regido por um estatuto jurídico para quem “toda a terra pertence ao rei” ou “nenhuma terra sem senhor”. Esse mesmo senhor de escravos era um grande vassalo do rei de Portugal, que por sua vez intermediava o capital comercial baseado no excedente provenientes das terras brasilis com a potência industrial do momento, a Inglaterra. Com o tempo passando, esse mesmo senhor de escravos, passou a liberar seus escravos ao casamento, ao direito de morar em suas terras e plantar seus gêneros em um jogo em que a metade ou a famosa meia fosse retida como renda em troca de favores expressos. O dito senhor de escravos estava “de olho” no aumento da produtividade capaz de abastecer os exigentes e crescentes mercados ingleses. Eis a demanda que permitiu esse relaxamento de relações de produção, dando cores a um feudalismo brasileiro muito semelhante ao praticado no sul de Portugal. Eis, em ralas palavras, a lógica de nosso modo de produção complexo, a “dualidade brasileira” produzida por quem, aqui no Brasil, melhor absorveu a concretude de Aristóteles, a dialética de Hegel, o método de Marx e a capacidade analítica e empírica de Lênin. Refiro-me a Ignácio Rangel.

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Mas o processo não era igual em todo o território. Se girarmos nosso compasso analítico, veremos em regiões como a denominada hoje como Estado de Santa Catarina, as mesmas condições geográficas que permitiram a proliferação da pequena produção mercantil (um pequeno modo de produção, que para Marx reunia as condições objetivas ao processo de industrialização, por conta do acumulo de capital via produção já destinada ao mercado) no nordeste dos Estados Unidos, sendo a raiz do que hoje pode ser considerado um dos mais dinâmicos clusters industriais do mundo e tocada por empreendedores estrangeiros, no melhor estilo, nas palavras de Weber, self made man. Uma região capaz de abarcar o nascimento de empresas “de fundo de quintal” como a WEG, e que hoje é uma das empresa capaz de colocar uma Siemens alemã na defensiva, apesar de deliberada política antiindustrial iniciada com Collor e levada a cabo, ainda, por Lula (dada nossa política cambial e de juros). A revolução de 1930 fez transformar regiões inteiras ocupadas pela pequena produção mercantil em centros industriais como, a já citada Santa Catarina, mas também o Planalto Paulista, entre outras. Não somente isso, gestaram-se em nossa pátria empresários capazes, dinâmicos que colocaram o Brasil na década de 1970 em franca concorrência com o centro do sistema em, por exemplo, produção de cabos ópticos submarinos, ou mesmo, na vanguarda da ocupação da reserva de mercado encerrada na computadorização do sistema bancário, surgindo assim caixas-eletrônicos, antes no Brasil que no centro do sistema.

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O Brasil transformou-se no pós-30 em uma “grande Prússia”, inclusive nos problemas de industrialização sem reforma agrária, colocando para nós (assim como para a Alemanha e o Japão) o problema de “crescer ou crescer”, como única forma de amainar os problemas sociais advindos deste tipo de industrialização. Agravante a isso foi o epílogo de nosso processo de industrialização com a implantação de uma nova indústria de base durante o competente, governo Geisel. Indústria de base poupadora de mão-de-obra, logo, transformando o problema agrário de superpopulação em problema urbano. Novas fontes de acumulação e investimentos são e seriam necessários. Fulcral condição objetiva à reprodução do capital, a fusão entre capital bancário e industrial, gerando um capitalismo financeiro brasileiro (que se constitui em nosso novo grito de independência, assim como o foi o início de nosso processo de industrialização na década de 1930), fora e está sendo abortado. Eis uma grande expressão da brutal força do imperialismo em nosso país.

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Desde então não crescemos e os problemas sociais estão aí, inclusive com o banditismo urbano gerando novas formas de ocupação informal que vão desde os mototáxis do Rio de Janeiro à segurança privada e armada de São Paulo.


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Paradoxos políticos inerentes a complexidade de nossa formação

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Minha idéia não é passar em revista uma idéia adotada particularmente sobre nossa formação social. Apesar da forma rasteira, antidemocrática (pensamento único de “esquerda”, por exemplo, na proclamação de que no Brasil não houve feudalismo), superficial e longe da totalidade intrínseca ao materialismo histórico com que essa temática tem sido tratada (trata-se de uma abordagem longe do “marxismo cirúrgico” de um Lênin, Gramsci e I. Rangel), acredito que as coisas e o debate – impulsionado pelas “rasteiras” que a dialética nos impõe – estão caminhando.

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Este tipo de análise incide diretamente sobre nossa tática. Afinal, o materialismo é histórico e toda nossa construção de uma atitude ante o concreto deve se lastrear historicamente. Além de grande parâmetro à consecução de uma tática justa, tenho certeza que a má interpretação da história é a grande condição objetiva ao amálgama entre esquerdismo e desonestidade intelectual. Por outro lado e sob o ponto de vista da disputa interna de idéias em nosso seio, a cotização histórica é o melhor método de persuasão intelectual e política ante a incompreensão e o discurso fácil.

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Retornando à problemática histórica brasileira e sua relação com o presente, esta expressa “dualidade” que se expressa em todos os campos da vida nacional, tendo sua expressão mais clara o fato de a base econômica do país ter-se tornado amplamente capitalista, enquanto que a superestrutura de poder continua atreladas às maneiras clarificadas pelo pacto de poder de 1930 (destruição do pacto federativo por FHC e um executivo que também toma para si a arte de legislar). Do ponto de vista da análise mais histórica, a complexidade inerente à formação brasileira produziu um esquema de transições truncado; lento, gradual, seguro; com revoluções incompletas (meias rupturas...).

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Paradoxos políticos são conseqüência da complexidade que contorna nosso processo de desenvolvimento, causa e efeito da dualidade que nos é anexa: Dona Maria, a Louca vitimou um militante independentista, Tiradentes, porém foi a mãe de Dom João VI e avó de Pedro I, o príncipe regente que bradou nossa independência. Assim segue nos exemplos que vão desde os quilombolas e Miguelinho de um lado e Princesa Isabel do outro. José Bonifácio, nascido no Brasil, porém membro de uma família aristocrática portuguesa, foi nosso primeiro estadista, um “homem-luz” que em tempos em que ser liberal correspondia a uma atitude revolucionária perante a vida, foi o primeiro a colocar na pauta a necessidade da viabilização de um Estado-Nacional brasileiro sob bases industriais e modernas.

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O sonho da modernização bonifaciana foi posto em prática por um Getúlio Vargas, estancieiro que se tornou o artífice de nossa nacionalidade. Assim, as transições bruscas são impedidas, o potencial revolucionário das classes subalternas nunca se realiza por inteiro; eis a conseqüência em matéria de prática política de uma formação que procede como uma criatura que cresce e se desenvolve casando estruturas preexistentes com o “moderno”, conservando cada qual suas particularidades fundamentais (Rangel, 1961, p. 210), evoluindo sem quebrar o núcleo da unidade dos contrários gerida por esta lógica. Enfim, o Brasil é uma formação social complexa, marcada pela dualidade jurídica, econômica, histórica e política e se não o estudarmos assim, há de parecer-nos uma construção caótica, sem nexos internos estabelecidos e, sobretudo, sem história (Rangel, 1978, p. 12). Acrescento: se não o entendermos nos marcos da complexidade que nos é intrínseca, podemos marchar para o abismo em matéria de prática política.

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Relevo à ação política com amplitude

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Duas considerações ainda. A primeira: essa dubiedade expressa em na historia política do país não pode ser encarada como algo negativo e sim uma determinação da qual podemos nos aproveitar, tendo em vista o grande relevo de ação política que se gera como resultado da variedade de interesses em jogo tendo em vista as múltiplas facetas que cada classe ou setor da sociedade pode assumir de acordo com a época histórica.

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Segundo consideração: equivocam-se os que afirmam pelos cotovelos que a história se repete. Ao analisar os golpes de Estado, primeiro de Napoleão Bonaparte seguida pela executada por Louis Bonaparte Marx, em ''O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte'', crava a genial lógica para quem a história pode se repetir somente sob forma de tragédia ou de farsa. Logo, o que acontece é o soerguimento à tona de características às leis objetivas que se manifestam no curso de nossos ciclos históricos/econômicos. Assim sendo, não é improvável que nossa transição ao socialismo obedeça, quase que piamente, a esta ordem de fatores. Eis porque a transição socialista pela via do capitalismo de Estado está na nossa ordem das coisas, quase que como uma lei objetiva de nosso processo de desenvolvimento. Mas esta é uma outra história, imbricada num mesmo processo...

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*Elias Jabbour, é Doutorando e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP, membro do Conselho Editorial da Revista Princípios e autor de ''China: infra-estruturas e crescimento econômico'' 256 pág. (Anita Garibaldi).



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 24 DE JUNHO DE 2009 - 19h45
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terça-feira, 8 de abril de 2008

D. JOÃO VI CARIOCA - NO DIÁRIO DE NOTÍCIAS

abril 08, 2008

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O Diário de Notícias de sábado passado, dia 5, publicou uma entrevista com João Spacca de Oliveira, conduzida por Catarina Carvalho, sobre o livro D. JOÃO CARIOCA, de Lilia Moritz Schwarcz (argumento) e Spacca (desenho), editado no Brasil no ambito das comemorações dos 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Rio (em 1808), em fuga "estratégica" às tropas de Napoleão.

Para quem não leu a entrevista (onde se inseria também uma caixa com a opinião do Spacca sobre o acordo ortográfico), aqui fica um excerto:

Sabia que o Presidente português glosou o título do seu livro numa entrevista que deu ao jornal Globo?

Olha só! Bem, quis dar a entender isso no último quadrinho da história: "Um rei bonacheirão e astuto, que gostava de música, sombra e água fresca." Só falta a trilha sonora de Bossa Nova para completar o quadro .

Porque escolheu o título "D. João, o carioca"?

Foi sugestão da Lília, a co-autora. E gostei. Quis brincar com o papagaio criado por Disney, Zé Carioca. O nome pode dar a entender que ele se acariocou, mas acho que não... o impacto da vinda dele para cá foi muito maior sobre os cariocas. D. João foi adoptado pelo Brasil. Ele procurou manter os mesmos gostos, a vidinha, assistir sua missa cantada... Além disso, foi, creio eu, o período mais feliz da vida dele, longe das pressões europeias, exercendo mais poder do que os outros reis.

D. João é uma figura polémica, ficou para a história como um indeciso, medroso, comilão.

O que me atraiu foi apresentar uma imagem não condizente com a caricatura pura. E a verdade mostrou-se interessante e engraçada o suficiente.

O que aprendeu na escola sobre ele?

Quando era criança, na escola. D. João VI não tinha má imagem. Era o pai do nosso imperador D. Pedro e dizia aquelas palavras proféticas para o filho, ao partir para Portugal: "Se o Brasil se separar, antes que seja para ti que me hás-de respeitar do que para algum desses aventureiros."

Que reacções teve ao livro?

Só elogios. As reacções mais contra vieram dos que acham que qualquer visão que não for a sátira desta família é a "história oficial".

Porque é que a ida da corte portuguesa para o Brasil ainda é tão malvista?

Acho que é uma soma de razões: dos brasileiros contra o domínio português, dos portugueses que não vieram e se sentiram abandonados, e dos republicanos contra a monarquia. Essa visão é reforçada pelo nosso hábito de não levar nada a sério. E funciona como justificativa dos nossos atrasos: "Pudera, com um governante desses, o Brasil só podia dar nisto." Nos últimos tempos, a oposição também pega carona, condenando o Governo actual por gastar nas comemorações dos 200 anos. Em suma, é tomate de todo lado... Na escola, há também um anedotário que os professores gostam de passar aos alunos, em parte para atrair o seu interesse com os detalhes mais pitorescos, mas também para acostumá-los a ser "irreverentes" desde cedo, como se isso os ajudasse a formar uma consciência anti-imperialista... Nos anos mais recentes, depois do regime militar que terminou em 1985, o ensino ficou iconoclasta, e todos os retratos mais sérios passaram a ser contestados. Sobre este tema, o filme Carlota Joaquina de 1995 virou referência não oficial, bastante usado em sala de aula.

Esse é o filme em que ela é retratada como uma ninfomaníaca?

Esse mesmo. Ela nem está tão mal, apesar de feia e mancando, pelo menos é a poderosa do filme. A mensagem que passa é que, casando à força e com aquele príncipe, só lhe restava pular a cerca mesmo.

Os brasileiros costumam dizer que estariam melhor se tivessem sido "descobertos" por franceses, ingleses ou holandeses. Concorda?

Não. E não é por estar na sua presença... A situação das Guianas não é lá muito inspiradora. Se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses, não tínhamos garantia de que terminaríamos sendo uma potência como os Estados Unidos, já que, devido ao clima, localização geográfica, os ingleses talvez optassem pelo mesmo tipo de produção agrícola em escala fabril, o que ajudou a determinar o tipo de sociedade que foi se desenvolvendo aqui. A questão não é tanto o povo, mas quem vem para as colónias e em que situação: se são famílias para morar, ou regimentos e feitores para explorar, se são católicos ou protestantes. Acho que o que vem a seguir tem mais a ver com a lógica colonial, o tipo de plantação adequada a cada região.

É interessante que essas figuras e a chegada da corte ainda sejam alvo de tanta polémica, 200 anos depois.

Esse é um tema muito debatido entre os académicos. Há os críticos do Nordeste, como o Ewaldo Cabral de Mello Neto, que defendem que a vinda da corte para cá só manteve o resto do Brasil em estado de colónia ou semicolónia. No Rio, há os pró-monarquistas, para quem D. João foi um grande estadista e inaugurou uma nova era (ou mesmo começou a fazer o Brasil existir), e estendem esse benefício ao Brasil como um todo. Além dessa polarização, o Ruy Castro, biógrafo seríssimo (que escreveu um livro sobre o rei), declarou que "há 200 anos se fala mal da família real, e chegou a hora de falar bem".

E qual é a sua posição pessoal?

É do retrato histórico honesto, e da reconstitui- ção criteriosa, evitando as armadilhas tanto do escracho quanto do ufanismo. A memória de D. João levou bordoadas dos dois lados do Atlântico, até por bons motivos (afinal, Portugal ficou à míngua e teve que livrar-se dos franceses e ingleses sem a Sua Real ajuda). Depois os republicanos completaram-lhe a caricatura. Coitado do gordinho. Merece um julgamento mais justo da história, mesmo que isso não nos renda um título de visconde...

Apesar de retratá-lo como gordo, nunca usou a imagem dos frangos nos bolsos, muito comum. Porquê?

Não encontrei um relato confiável, ou uma fonte localizada, sobre as coxinhas. Só li que na sala de despachos do rei havia um urinol que precisava ser trocado.... Um diplomata escreveu que, durante a audiência com D. João, havia à vista um penico cheio, que os criados não esvaziaram... Agora, gordo e com cara de bebezão, ele tinha mesmo.

Em quem se inspirou para desenhar essas personagens?

Todos os personagens foram inspirados em quadros e gravuras da época. Às vezes o personagem lembrava-me um actor. É o caso de Lord Strangford, o actor Bill Nighy... E também tem a citação do Zé-Povinho, criação do meu ilustre colega de traço Rafael Bordalo Pinheiro.

Como é que a história dos Bragança influenciou a imagem dos portugueses no Brasil?

A imagem dos portugueses vem da colonização toda, sendo que no século XX veio a leva de portugueses mais humildes, imigrantes. Então você tem o português da padaria, o mascate, o da construção civil. Como o "Oliveira" do meu nome, herança do meu avô mestre de padaria, Lucas Rodrigues de Oliveira.

O que se lembra dele?

Não sei se ele era filho de portugueses ou se veio pequeno. Era mestre padeiro, trabalhava em padarias italianas no bairro do Bexiga, em São Paulo. Eu o conheci já velhinho e morando numa casa muito simples. Era teimoso e tinha mania de procurar tesouros enterrados em todo o lado.

Como se documentou para desenhar este livro? Veio a Portugal?

Infelizmente, não fui a Portugal. Era para ter ido em Abril de 2007, mas a situação nos aeroportos estava um caos, e eu precisava iniciar logo a produção dos desenhos. Precisei me virar com fotografias, gravuras antigas, guias de viagem, mapas, fotos de satélite. Assisti a alguns filmes, desenhei actores. Adquiri em alfarrabistas livros preciosos sobre os tipos populares de Lisboa; comprei uma Ilustração Portuguesa de 1906, que traz uma reportagem sobre os tipos de outrora, e também Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo, livro ilustrado de Calderon Dinis. Achei numa livraria um livro com aquarelas magistrais de Roque Gameiro, que ilustrou muito a história de Portugal. O meu ponto de partida foram alguns capítulos dos livro A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. D. João VI no Brasil, do diplomata pernambucano Oliveira Lima, é o meu livro favorito sobre esse período. Uso muito a Internet com bastante critério e sem medo. O site Viriatus dedicado a miniaturas militares portuguesas foi de grande ajuda.


Publicado por jmachado in .

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terça-feira, 4 de março de 2008

Convenção 158 da OIT: o que eles dizem e o que eles temem




por Augusto César Petta*

Há meses atrás, estive em Volta Redonda, para coordenar um curso promovido pelo Centro de Estudos Sindicais e pelo Sindicato dos Professores do Sul Fluminense. Tive a oportunidade de conhecer, um pouco mais, essa cidade onde está situada a Companhia Siderúrgica Nacional-CSN.


Fiquei impressionado com o tamanho do espaço onde se situa essa grande empresa. Mas, o que mais me surpreendeu foi o número de prédios comerciais e residenciais que pertencem à CSN. Os colegas da diretoria do Sinpro - Sindicato dos Professores- , num passeio de carro, foram apontando muitos prédios e residências, todos parte do capital concentrado na CSN. Ao concordar com a privatização da CSN, o Governo FHC vendeu a preços muito inferiores aos estabelecidos pelo mercado, essa imensa riqueza, levando à prática , aquilo que dizia sobre a necessidade do ''fim da Era Vargas''.


Pois bem, no último dia 26, num artigo publicado na Folha de São Paulo, o senhor Benjamim Steinbruch, diretor-presidente da CSN e primeiro vice-presidente da Fiesp, investe violentamente contra a possibilidade de que o Congresso Nacional venha a aprovar o pedido de ratificação da Convenção 158 da OIT, enviado pelo Governo Lula, no dia 14 de fevereiro de 2008.

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Reconhece que, no Governo Lula, foram criados 6,4 milhões de empregos com carteira assinada, e diz que a aprovação da referida Convenção provocará grandes retrocessos. Recorre aos ensinamentos de um dos consultores que mais defendem os interesses patronais no Brasil, o sr. José Pastore, que afirma que as consequências práticas da adoção da Convenção referem-se à criação de burocracias, prolongamento do prazo de demissões, aumento de custos, relutância das empresas em abrir vagas, aumento do desemprego de longo prazo e dos gastos do governo com seguro-desemprego, e aumento do número de ações trabalhistas. Nesse mesmo dia, também na Folha de São Paulo, um leitor de Camaragibe-PE, escreve dizendo que caso seja aprovada a referida Convenção, ''restam ao PT, aos sindicalistas e ao Presidente, outras medidas modernizantes: substituir as estrelas da Bandeira Nacional pela foice e martelo; o Hino Nacional pela Internacional Comunista; o verde e amarelo da seleção brasileira pelo vermelho chavista; a cédula eleitoral pelo cartão corporativo; Tiradentes por Mao''.

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Levanta-se uma questão: qual o conteúdo da Convenção 158? Ele é tão explosivo capaz de provocar tantos retrocessos, como afirmam Streinbruch e Pastore? Será capaz de tantas transformações que poderiam questionar profundamente o sistema capitalista no Brasil? O que efetivamente os empresários temem?

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A Convenção 158 foi promulgada

pela Organização Internacional do Trabalho-O.I.T.- em 1982.

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Na justificativa da aprovação, aparece como necessária, para enfrentar os graves problemas relacionados ao trabalho, em função das dificuldades econômicas e das mudanças tecnológicas ocorridas, em grande número de paises. A Convenção - baseada no princípio de que o emprego é um bem social a ser preservado - tem 22 artigos, sendo o de número 4, o que define basicamente o seu conteúdo: ''Não se dará término à relação de trabalho de um trabalhador, a menos que exista para isso uma causa justificada, relacionada com sua capacidade ou seu comportamento, ou baseada nas necessidades de funcionamento da empresa, ou estabelecimento ou serviço''. O artigo posterior esclarece que a filiação a sindicato, a participação em atividades sindicais fora das horas de trabalho ou com o consentimento do empregador durante as horas de trabalho, o fato de ser candidato a representante dos trabalhadores ou atuar ou ter atuado nessa qualidade, o fato de apresentar uma queixa ou participar de um procedimento estabelecido contra um empregador por supostas violações de leis ou regulamentos ou recorrer perante as autoridades administrativas competentes não poderão ser consideradas causas que justifiquem a demissão. Também são injustificas demissões por questões raciais, de estado civil e gravidez.

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No Brasil, a Convenção 158 foi promulgada pelo Congresso Nacional, em 1992, sendo que, no apagar das luzes de 1996, no dia 20 de dezembro,FHC decretou o seu fim, satisfazendo os interesses dos gananciosos empresários, ávidos de demitir ao seu bel prazer, na maioria das vezes, arbitrariamente.

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Na realidade, o que o patronato teme, é qualquer medida que possa situar os trabalhadores, em melhor posição na luta de classes e que possa colocar limites à exploração do trabalho. Sendo assim busca eliminar, ou nem mesmo permitir que essa medida possa ser colocada, em prática. Não se trata, nem mesmo, de estabilidade de emprego, o que seria desejável. É apenas uma justa proteção contra demissões arbitrárias. Não tem absolutamente o caráter explosivo de retrocessos e de supostas transformações do modo de produção. O capitalismo não sofrerá grandes abalos pela adoção da referida Convenção, ainda que desejássemos que assim fosse.

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Mesmo não tendo, por si só, esse caráter de grandes transformações, poderá contribuir para a diminuição desse quadro terrível de mais de 12 milhões de trabalhadores demitidos, em 2007, no Brasil. Seria refreada a enorme rotatividade de emprego, no mercado de trabalho. E, quando a rotatividade decresce, a possibilidade da mobilização e da organização dos trabalhadores cresce. Quando os trabalhadores não podem ser demitidos pelo fato de lutarem por melhores salários e condições de trabalho, a participação nessa luta tende a aumentar.


Por isso, as Centrais Sindicais, inclusive a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - CTB - , apóiam a Convenção 158 e, para tanto, trabalharão no sentido de que o Congresso Nacional venha a aprovar o pedido do Governo Lula, para ratificá-la.


Penso que as entidades sindicais, ao mesmo tempo que pressionam o Congresso para que haja a ratificação, devem incluir o conteúdo da Convenção nas sua pautas de reivindicações, para que haja a possibilidade de que venha a constar nas suas respectivas convenções coletivas.





*Augusto César Petta, é diretor do Sindicato dos Professores de Campinas e Região, do Centro de Estudos Sindicais e membro da Comissão Sindical Nacional do PCdoB.


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in VERMELHO - 1 DE MARÇO DE 2008 - 20h18
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Jean de Léry (1534-1613)





Nomes da história intercultural em contextos euro-brasileiros



Jean de Léry (1534-1613)




Jean de Léry nasceu em Lamargelle, na Burgúndia, em 1534, falecendo em Isle-près-Montrichet, na Suiça, em 1613. Provavelmente de família de modestas condições, parece ter aprendido a profissão de sapateiro. Em 1555 já se encontrava em Genebra, estudando teologia com calvinistas. A sua vinda ao Brasil se insere no projeto de criação da França Antárctica.

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Em 12 de julho de 1555, Nicolas Durand de Villegagnon, cavaleiro da Ordem de Malta e vide-admiral da Bretanha, partiu de Le Havre, com dois navios, para fundar uma colonia francesa no Novo Mundo. Os marinheiros da Normandia já possuiam conhecimentos do Brasil e mantinham contactos com indígenas. Em 1550, um grupo de indígenas havia tomado parte em festividades realizadas em Rouen. O empreendimento contou com o apoio do rei Henrique II°. Já há muito opunha-se a França aos privilégios concedidos à Espanha e a Portugal na divisão do mundo descoberto ou a ser descoberto pela bula do Papa Alexandre VI (1493). Duas concepções antagônicas relativas a direitos da Europa no Novo Mundo permitem melhor compreender o papel desempenhado por nações não-ibéricas na cristianização e colonização das Américas. O direito de propriedade de novas terras deveria ser, segundo o ponto de vista francês, apenas definido por fatos criados, fossem pacíficos, através do trato com indígenas, fossem armados.

Cerca de 600 pessoas, entre elas huguenotes, tais como Nicolas Barré, de La Chapelle e de Boissi, tomaram parte na expedição. À sua testa encontrava-se o admiral Gaspard de Coligny, Senhor de Châtillon, protestante, calvinista ou simpatizante dos calvinistas. Talvez pretendesse criar no continente americano uma possibilidade de refúgio para os perseguidos por motivos religiosos (Edito de Chateaubriand, 1551).

Chegaram no dia 10 de novembro de 1555 na Guanabara, dando início a um povoado na ilha posteriormente denominada de Ilha dos Franceses e à construção do Forte Coligny. Como mediador atuou um francês que já se encontrava em contacto com os Tupinambás.

Em 1556, a pedido de Villegagnon, dirigido a J. Calvino, vieram mais onze calvinistas de Genebra, sob a direção de Philippe du Pont de Corguilleray e dois pregadores, Pierre Richier e Guillaume Chartier. Três naves de guerra (La Grande Roberge, La Petite Roberge, La Rosée) trazem-nos para a colonia, juntamente com artesãos e mulheres jovens. Jean de Léry, um desses onze calvinistas dá início a seu diário de viagens no dia 19 de novembro desse ano, em Honfleur, cidade portuária no Norte da França.

Jean de Léry


No dia 10 de março de 1557, Léry se encontra com os seus irmãos de confissão no Forte Coligny. Logo se iniciam as discórdias entre os huguenotes com Villegagnon. Em outubro desse ano, Léry e os demais calvinistas se retiram para terra firme.

Em 4 de janeiro de 1558, embarca juntamente com 14 calvinistas sob a direção de Philippe du Pont de Corguilleray na nave comercial "Le Jacques" para retornar à Europa. Por motivo de uma avaria, a nave precisou retornar; cinco dos passageiros calvinistas voltam à terra; Villegagnon os deixa afogar. No dia 26 de maio de 1558, Léry chega à França. Termina o seu diário na Bretagnha. Em 1563, sob a pressão de amigos, Léry prepara o seu manuscrito para ser impresso; o texto foi apanhado por emissários em Lyon e ficou por longo tempo perdido. Em 1571, após ter recuperado quase todos os textos elaborados, deu início ao texto de um segundo livro de viagens. Durante a sua fuga à fortaleza de Sancerre em Charité-sur-Loire, perde-se o segundo manuscrito relativo ao Brasil. Em 1576, Léry recebe o seu primeiro manuscrito preparado para ser publicado e que havia sido confiscado em Lyon, revendo-o mais uma vez. Em 1577, após a leitura da obra La Cosmographie universelle, de André Thevet, convence-se da necessidade de publicar o seu texto corrigindo o relato da missão huguenote no Brasil. Em 1578, a Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dite Amérique foi publicada, com ilustrações gravadas, por Antoine Chuppin. Em segunda edição, de 1586, a obra surgiu com o título de Historia Navigationis in Brasiliam, quae et America dicitur.






[Excertos de trabalhos]









Principais datas dos estudos concernentes a Jean de Léry


1970. Jean de Léry e o índio na história da música no Brasil.
Curso História da Música no Brasil. Sociedade Nova Difusão




1972. Reflexões para educadores musicais a partir de Jean de Léry.
M. Braunwieser. Instituto Musical de S. Paulo



1973. Jean de Léry na Etnomusicologia brasileira. Faculdade de
Música do Instituto Musical de São Paulo




1977. Fontes para a história indígena do Leste do Brasil. Instituto
de Etnologia da Universidade de Colonia


1978. À procura de vestígios de Jean de Léry. Viagem de estudos
à Burgúndia e a Genebra




1982. Jean de Léry como emblema. Primeiro Forum Brasil-Europa
e Ia. Semana de Música Brasil-Alemanha



1983/4. 450 anos de nascimento de Jean de Léry. Colóquio. Semana
França-Alemanha. Forum Brasil-Europa, Leichlingen



1998. Fontes históricas de observação etnomusicológica. Questões
relativas à transcrição. Música no Encontro de Culturas, Universidade
de Colonia



2002. Colóquio: Europa e o universo sonoro indígena. Diferntes
possibilidades de abordagens. Universidade de Colonia/A.B.E.


2007. Psalmodia sob perspectivas interculturais: J. de Léry. Seminário
Música na hermenêutica bíblica. Universidade de Colonia





Indicações bibliográficas:


De Bry Theodor. Narratio profectionis joanis Lerii, Americae Tertiae
pars, 1592



Crespin, Jean. Histoire des martyrs persécutés et mis à mort pour
la vérité de l'Evangile, depuis le temps de apôtres jusqu'à nos
jours, 1617




Thevet, André. Les Singularités de la France antarctique, autrement
nommée Amérique, Paris 1557. Nova edição comentada por Paul Gafarel,
Paris 1878. Trad. port. de E. Pinto, Singularidades da França
Antarctica a que outros chamam de América, São Paulo 1944 (Brasiliana
229)


Thevet, André. La Cosmographie universelle, Paris 1575; S. Lussagnet
(ed.), Le Brésil et les Brésiliens, intrd. par Ch.-A. Julien,
Paris 1953 (Pays d'outre-mer, deuxième série: Les Classiques de
la Colonisation 2)



Rodrigues Leite, F. "Iean de Lery, viajante de singularidades",
Revista do Arquivo Municipal CVIII (1946), 23-112



Mayeux, M.-R. Vorwort. Jean de Léry, Unter Menschenfressern am
Amazonas: Brasilianisches Tagebuch 1556-1558. Tübingen e Basel:
Erdmann, 1977 (Alte abentuerliche Reise- und Entdeckungsberichte),
11-47


Bispo, A.A. Indianer und ihre Musik im Zeitalter der Reformation:
Maraca versus Psalme. Die Musikkulturen der Indianer Brasiliens:
Stand und Aufgaben der Forschung IV: Zur Geschichte der Forschung.
Jahrbuch Musices Aptatio 2000/2001. Roma/Siegburg, 56-63.



Jean de Léry (1534-1613)


História da reformação, história das relações culturais França-Brasil
e história das fontes históricas dos estudos etnomusicológicos
referentes aos índios



(1973, simplificado em 1983/4 para fins de discussão com jovens
na Semana franco-alemã, Forum Brasil-Europa de Leichlingen, publicado
aqui em tradução do alemão realizada por estudantes)


Antonio Alexandre Bispo

O principal acontecimento para os estudos da reforma protestante em suas relações com os estudos culturais dos indígenas do Brasil pode ser visto na tentativa francesa de fixação no país. A História de uma viagem feita na terra do Brasil (1 ed. 1578; 2a. ed. rev. e aum. 1586), do teólogo huguenote Jean de Léry (1534-1611), repleta de pormenores e escrita em estilo relativamente objetivo de narração, já foi considerada como verdadeiro "breviário da Etnologia" (Claude Lévi-Strauss, Tristes tropiques, 1955). Essas qualidades da obra resultam do período relativamente longo da permanência do autor no país. O seu diário abrange o período de 19 de novembro de 1556 a 26 de maio de 1558; Léry passou cerca de dez meses em terra firme.

(...)

Interesse etnomusicológico

O extraordinário interesse etnomusicológico dessa obra tem sido visto sobretudo no fato de conter as primeiras anotações grafadas de cantos indígenas da literatura. É, assim, obra pioneira da "transcrição musical". Esses exemplos musicais, ainda que breves, foram por várias vezes citados e interpretados por autores dos séculos que se seguiram e influenciaram de forma duradoura a visão da música indígena na Europa e no próprio Brasil.

Um ponto de partida para a leitura adequada das informações de interesse musicológico nessa obra pode ser encontrado nos esclarecimentos que o autor fornece no Posfácio do livro. Léry esperou nada menos do que dezoito anos para publicar a sua narração. Trouxera do Brasil anotações manuscritas com os fatos mais notáveis vividos e desenvolvera-as posteriormente, sem, porém, desejá-las publicar; já em 1563 tinha preparado uma narração mais longa e que perdera-se. Os fatos descritos baseiam-se, assim, não apenas na memória do autor, podendo ser considerados como fidedignos. O escopo da publicação e o espírito que perpassa a obra, porém, refletem esforços interpretativos da experiência vivida e circunstâncias posteriores.

Entra em pormenores a respeito da função do canto, descrevendo o canto ("He, ha, he, hé, he") e a prática responsorial das mulheres, dando atenção a gestos e à coreografia. Menciona danças e cantos acompanhadas pelo consumo de cauim.

(...)





Descreve a confecção de idiofones de cascas de frutas que os indígenas prendiam nos tornozelos. Segundo ele, essas fieiras de cascos e cascas desempenhavam a função de excitar o espírito e poderiam ser comparados, segundo Léry, com os guisos comumente usados nos folguedos da Europa, uma comparação que podia ser corroborada pelo fato desses instrumentos europeus serem muito procurados pelos indígenas. Também oferece dados a respeito do contexto ritual no qual eram usados, citando, por exemplo, o uso de guisos de pernas pelos homens jovens por ocasião do casamento, comparando-os mais uma com os costumes do catolicismo popular na Europa.

(...)

Outro pormenor de extraordinária importância etnomusicológica é a menção que Léry faz das referências a pássaros nos cantos indígenas. No Capítulo XII, dedicado aos pássaros e insetos voadores, fornece dados a respeito do pássaro chamado "Kanidé", citado frequentemente em canções que repetiriam "Kanidé-june, Kanidé-june, heurauech".

(...)

No Capítulo XV, dedicado à guerra e às armas, descreve instrumentos de sopro, tais como a "inubia" e flautas de ossos humanos, tecendo comparações com instrumentos europeus.

(...)

A obra e antagonismos religiosos na Europa do século XVI

A obra de J. de Léry deve ser vista em contraposição à do católico André Thevet OFM (1502-1592), por ter sido escrita para revidar as afirmações desse autor que resolvera publicar a sua História. Jean de Lery lera Des Singularités de l‘Amérique (1558) no ano de seu retorno do Brasil (1558), uma obra que fora elaborada por La Porte com base nos Contes et Mémoires de A. Thevet. Corroborando a crítica feita por Fumée no prefácio da Histoire génerále des Indes, J. de Léry afirma que também a Cosmographie(1575) de A. Thevet contém graves erros. Não se pode esquecer, porém, que Thevet, por ser franciscano, compreensivelmente descreve a ação protestante sob luz negativa, e a obra de J. de Léry surge, assim, como uma correção.

No capítulo XX, dedicado a práticas indígenas relativas à doença e à morte, fornece descrições de cantos, também comparando-os com usos do catolicismo popular.

(...)





Universo dos salmos e leitura da obra

O próprio Jean de Léry indica expressamente no frontispício do seu livro que interpretou a sua experiência no Brasil dentro do espírito do salmo 108, ou seja, de um canto de louvor pela vitória alcançada. O cerne das concepções diz respeito à celebração do Senhor entre os povos e ao canto dos salmos entre as nações. Assim, o próprio autor apresenta-se como cantor de salmos.Uma vez, como salienta, foi-lhe presenteado um pequeno animal em retribuição por ter ele entoado o salmo 104. Ao ouví-lo, os indígenas ter-se-iam lembrado da música de uma tribo amiga.

(...)

Similarmente à obra de Hans Staden, é sob este pano de fundo salmódico que o papel das referências musicais na obra de J. de Léry deve ser avaliado. Nelas, porém, ao contrário de Hans Staden, o autor revela-se particularmente sensível à música dos nativos e se expressa de forma positiva a respeito da musicalidade indígena. Assim, salienta o encanto que sentiu perante a beleza dos cantos que ouviu na casa cerimonial. Esses cantos diziam respeito a conceitos relativos ao dilúvio, o que, para um teólogo, naturalmente despertaram particular interesse.

(...)

Jean de LéryOs conceitos religioso-musicais desse seguidor de Calvino são significativos para o estudo da missiologia reformada. Segundo o autor, a religião é um dos temas mais importantes que ele precisou tratar. Segundo a sua convicção, o Homem teria por natureza uma religião, fosse ela correta ou falsa. Para ele, devido à importância da vingança entre os índios, eles não possuiriam religião no sentido estrito da palavra, seriam sem Deus e viveriam sem Deus. No capítulo dedicado à Religião, diz, porém, que, apesar de tudo, os americanos estariam intimamente convencidos da existencia de uma divindade.

(...)

Observações relativas à maraca à luz das concepções religiosas

A consideração histórico-cultural e musicológica da obra de J. de Léry deve ser feita, portanto, fundamentalmente à luz do antagonismo confessional na Europa do século XVI. A animosidade anti-católica do autor demonstra-se claramente nas suas observações relativas à maraca, comparando as práticas indígenas com expressões da religiosidade popular européia, tais como com relicários de Santo Antonio ou de outros santos.

Os dados de Léry relativos à esse instrumento de significado central para as culturas indígenas são, porém, de grande valor histórico-documental para os estudos etnomusicológicos, possibilitando diversos tipos de abordagens.

(...)









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