domingo, 17 de dezembro de 2017

A vida epistolar de Sylvia Plath é publicada para desafiar o mito


São quase 1400 cartas em dois volumes, a maioria inédita. O primeiro volume desta integral acaba de sair nos Estados Unidos e em Inglaterra e revela uma mulher ambiciosa, com sentido de humor, relação obsessiva com a comida, que gostava de moda e queria ser feliz.
16 de Dezembro de 2017, 15:14

<i>The Letters of Sylvia Plath</i> tem cartas que a autora de <i>Ariel</i> escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte, 
a 11 de Fevereiro de 1963, quando aconchegou os dois filhos, fechou a porta da cozinha e pôs a cabeça no forno depois de ter ligado o gás


The Letters of Sylvia Plath tem cartas que a autora de Ariel escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte, a 11 de Fevereiro de 1963, quando aconchegou os dois filhos, fechou a porta da cozinha e pôs a cabeça no forno depois de ter ligado o gás

A perspectiva do leitor é sempre a da tragédia. Ninguém lê hoje Sylvia Plath alheio ao desfecho da vida da escritora que se suicidou aos 30 anos. Mesmo no momento em que se está perante uma carta feliz. "Querido amor Teddy... de hoje a uma semana estarei a apanhar o comboio muito cedo para te encontrar e começar a viver o meu 25º aniversário", escreveu a 20 de Outubro de 1956 ao marido, o poeta Ted Hughes, com quem casara em Junho desse ano depois de um fugaz e apaixonado namoro de pouco mais de três meses. Foi uma Sylvia também feliz a que escreveu à mãe a 25 de Fevereiro: "Conheci (...) um brilhante poeta ex-Cambridge (...). Provavelmente não o voltarei a ver (...) mas entretanto escrevi o meu melhor poema sobre ele: é o único homem que conheci forte o suficiente para se equiparar a mim; a vida é assim." Em Outubro, Sylvia começava o seu segundo ano em Cambridge, onde estudava graças a uma bolsa da fundação Fullbright, e Hughes trabalhava em Londres. Quase todos os dias se escreviam e em todas as cartas Sylvia demonstrava-lhe a sua paixão e a impaciência por viver longe dele. 

As cartas de Sylvia a Ted estão no fim do primeiro volume de uma obra gigantesca que dificilmente será publicada em português e são o grande trunfo desta integral. The Letters of Sylvia Plath, com organização de Peter K. Steinberg e Karen V. Kukil, reúne 1400 cartas escritas por Sylvia Plath e dirigidas a mais de 140 pessoas. O primeiro volume acaba de sair nos Estados Unidos e em Inglaterra e torna publicas 838 dessas missivas em 1400 páginas organizadas cronologicamente. O segundo volume contempla a correspondência dos últimos cinco anos da vida de Plath, não deve chegar as 500 cartas, mas é aquele que reserva a maior curiosidade. Deverá sair no Outono de 2018. 

A fazer a ponte entre o primeiro e o segundo volumes estão as cartas de Sylvia a Ted. "Amo-te e estou morta morro para estar contigo, deitada na cama contigo, beijando-te por toda parte & tendo apenas pensamentos selvagens & dando & beijando a tua querida e amada boca (...) Amo-te teddy teddy teddy e gostaria de estar contigo, de viver contigo...", escreveu a 19 de Outubro de 1956. Nessas cartas, estamos perante uma Sylvia mais apaixonada do que a dos diários, mas também de uma Sylvia consciente de estar ao lado de um homem volúvel. Numa carta a mãe, ela descreve-o como "um destruidor de coisas e de pessoas". E apenas um breve exemplo das extensas páginas onde lhe conta o seu dia a dia, descreve as paisagens por onde passa, traça planos de uma vida comum, confessa ambições, relata o trabalho, expõe dúvidas. 

PÚBLICO -

Esse núcleo de 16 cartas onde Sylvia Plath se revela dominada por uma paixão invulgar foi disponibilizado por Frieda Hughes, a filha sobrevivente do casal – Nicholas suicidou-se em 2009 –, uma atitude que a própria justifica no preâmbulo deste volume, um texto que parece feito em defesa do pai. "Sempre foi minha convicção que a razão pela qual a minha mãe suscita o interesse dos leitores se deve ao meu pai, porque, independentemente do modo como o casamento de ambos terminou, ele honrou o trabalho da minha mãe e a sua memória ao publicar Ariel, a colectânea de poemas que a lançou no conhecimento publico, depois da sua morte. Ele, talvez mais do que ninguém, reconheceu e percebeu o seu talento extraordinário". Peter Steinberg agradece: "Eu estava muito nervoso por ter de falar com Frieda. Acho muito corajoso da parte dela escrever o que escreveu e estou muito grato por nos ter facultado as cartas a Ted Hughes. Foi um acto de confiança e de generosidade, dar ao mundo essas cartas privadas", admite numa conversa com o Ipsilon, confirmando a emoção que o segundo volume promete. "O segundo volume pode ser difícil para muitos leitores. Foi muito emotivo do ponto de vista editorial porque sabemos sempre o que está para vir. No fim do volume I, temos Sylvia Plath e Ted Hughes muito apaixonados e a começar uma bela relação e a criar uma parceria. Nós temos a perspectiva de já saber o que se segue, mas ler as cartas só por si é duro", salienta.
Neste, o dos primeiros anos de Sylvia, é preciso, pois, passar as mil páginas para chegar ao auge de um livro que, ao querer inclui tudo, é de leitura irregular e questionável quanto ao interesse que podem ter para o público todas as cartas de uma criança ou adolescente, por mais brilhante que tenha sido, sem passar pelo crivo da selecção ou edição. The Letters of Sylvia Plath tem cartas que a autora de Ariel escreveu desde os oito anos até às vésperas da sua morte ocorrida a 11 de Fevereiro de 1963, quando, separada de Ted há seis meses, aconchegou os dois filhos, Frieda, de três anos, e Nicholas, de um, fechou a porta da cozinha e pôs a sua cabeça no forno depois de ter ligado o gás. Ainda casada, Hughes herdou o espolio e entre a culpa e o dever moral, foi publicando a obra, então quase toda inédita, da mulher que conhecera seis anos antes e tinha uma ambição suprema: ser uma poeta aclamada. Em 1965, publicou Ariel, e em 1981 The Collected Poems, com toda a produção poética de Sylvia desde que o conheceu. Um ano depois, saiam The Journals of Sylvia Plath. A vida e a obra de Plath ficavam, assim, indissociáveis não apenas do suicídio, mas da depressão em que parece ter vivido parte da vida e, sobretudo, da relação com Ted Hughes. "Mergulhar neste trabalho foi ter acesso a um olhar muito íntimo sobre como Plath se relacionava e se comportava com determinadas pessoas: a mãe, os namorados, as amigas, o marido, os editores. Em cada pessoa com quem se correspondeu dá-nos uma visão única da natureza das suas relações", diz Peter Steinberg, o responsável por ler e digitar cada uma das palavras escritas por Sylvia Plath, um trabalho tão intenso, como capaz de mudar a sua visão da mulher que as escreveu. Um ser humano. Não uma lenda, não um mito. "Nas cartas temos tantas vozes diferentes e tantos aspectos diferentes da sua personalidade que dizer 'humano' é como que desafiar qualquer outra classificação. Não é apenas uma poeta, não é apenas uma irmã, não é só uma filha ou sobrinha. É tudo isso. É tudo o que cada um de nós também é. À medida que as pessoas vão lendo o livro ela vai ficando mais acessível", acrescenta este académico que descobriu a obra de Plath depois de um desgosto amoroso e teve uma ambição: contribuir para acabar com alguns estigmas e ajudar a ultrapassar o mito que surge inseparável de Sylvia.

PÚBLICO -

Um dos objectivos desta edição em dois volumes é ajudar a ultrapassar o mito que surge inseparável de Sylvia Plath

Não é apenas uma poeta, não é apenas um
a irmã, não é só uma filha ou sobrinha. É tudo isso. É tudo o que cada um de nós também é. À medida que as pessoas vão lendo o livro ela vai ficando mais acessível
Peter Steinberg, editor
Temos Sylvia em relação a Ted Hughes, em relação ao pai, Otto Plath, que morreu tinha ela oito anos; Sylvia em relação à poesia, à ambição, à maternidade, à depressão, ao suicídio. Mas quem foi Sylvia além do que todos os biógrafos já escreveram e os intérpretes da sua obra têm afirmado? É uma pergunta que atravessa este livro em dois volumes, mas a que o livro não dá resposta, embora queira contribuir para chegar perto da essência dessa mulher que um dia disse à mãe que gostaria que a família tivesse orgulho nela, a visse como "uma pessoa versátil, responsável, feliz", mas que deixou uma sombra densa na sua passagem pela vida. "Sylvia Plath foi muitas coisas para muita gente: filha, sobrinha, irmã, aluna, jornalista, poeta, amiga, artista, namorada, mulher, romancista, colega e mãe; mas talvez a característica mais ignorada da sua vida é a de que foi humana e, enquanto tal, falível. Ela deu erros ortográficos, fez pontuação incorrecta, mentiu, citou mal, exagerou, foi sarcástica, e por vezes brutalmente honesta. Todos estes aspectos, e mais alguns, estão em Letters of Sylvia Plath", lê-se logo no início da introdução ao primeiro volume, como um quase aviso ao leitor de que ele, leitor, vai ser deixado só com o ser humano e não com o mito ao logo das centenas de páginas preenchidas por cartas reveladoras de uma complexidade que o mito, como qualquer mito, simplifica. 

PÚBLICO -

Nas cartas, muitas delas ilustradas, há desenhos de alimentos, como há de modelos de vestidos e casacos, flores, gente a praticar desporto. Há nisso tanto de pueril quanto de manifestação de outros talentos

Subjacente a esta edição encontramos a ideia de autenticidade, que, alegam os organizadores, editores e colaboradores, dificilmente se encontra em todo o material escrito ou divulgado de e sobre Sylvia. As cartas estão transcritas tal qual foram escritas, sem edição ou qualquer espécie de contextualização, com minúsculas onde a norma estipularia o uso de maiúsculas, sublinhados, incorrecções. Como auxiliares de leituras apenas 3 600 notas de rodapé que não procuram ser exaustivas. E os autores insistem num ponto: com esta edição integral das cartas estamos perante uma "autobiografia", "narrada pela autora através da sua correspondência". Afirmar isto no prefácio é outro desafio: uma autobiografia, e conhecendo melhor Sylvia Plath também depois destas cartas, teria decerto sido submetida a edição pela autora. Esta não foi. Frieda Hughes diz mais ou menos o mesmo no preâmbulo a esta edição: "Ela esta melhor explicada através das suas próprias palavras", sublinha, acrescentando que capta o espírito real do tempo em que viveu, bem como a sua "paixão pela literatura e vida – e pelo meu pai, Ted Hughes". Na senda dessa fidelidade, Peter Steinberg digitou cada erro, gralha, falha, incoerência em cada carta, deixando a nu toda a contradição e, subjacente, a ideia de construção: Plath escondia a autenticidade num jogo que dominava, o das palavras que alinhava de forma a ajustarem-se ao interlocutor. Era inautêntica ou a sua autenticidade era indissociável desse ser duplo que ela tão bem entendeu na obra com o mesmo titulo de Dostoiévski?    

Deixar tal qual Sylvia escreveu foi uma opção. "Tudo começou em 2012. A co-autora, Karen V. Kukil, recebeu um convite da editora para organizar um livro com as cartas de Plath e pediu-me para fazer o trabalho de transcrição", conta Steinberg, acentuando a intensidade da sua missão. Ele lera Letters Home, uma compilação das cartas de Plath editadas pela mãe em  1975 com o escrutínio de Ted Hughes. Consta que com isso, também ela queria humanizar a filha, resgatá-la da sombra da doença e do mito. 

PÚBLICO -
Aqui, pelo contrario, esta tudo. "Li o volume de cartas de uma vez, nos anos noventa, e fiquei muito desiludido. Não voltei a trabalhar com as cartas de Plath", refere Peter Steinberg que chegou a Plath no que classifica como um momento infeliz da sua vida. "Foi em 1994, a minha namorada deixou-me e em consequência disso fui frequentar aulas de poesia. Lemos Lady LazarusDaddy e muitos outros poemas. Fiquei muito interessado em Plath e pedi ao meu professor mais informação; ele disse-me que não queria que eu lesse Plath. Nunca me deu uma razão, mas um dia um amigo levou-me à biblioteca e mostrou-me mais obras e quanto mais lia mais interessado eu ficava no trabalho e na vida dela. Lembro-me de muitos amigos me dizerem que isso era uma fase pela qual todos passavam. Já estou nessa fase há muito tempo, há 23 anos. Nunca pensei, é mais de metade da minha vida", diz Steinberg para justificar o mergulho profundo que foi este trabalho. "Foi ter acesso a um olhar muito íntimo sobre o modo como Plath se relacionava e se comportava com determinadas pessoas: a mãe, os namorados, as amigas, o marido, os editores, cada pessoa com quem se correspondeu dá-nos uma visão única da natureza das suas relações", continua um dos autores de uma obra que está a suscitar alguma polémica por isso mesmo: a pretensão de, ao incluir tudo, perder a força e interessar apenas a uns poucos investigadores. Mas nunca houve duvidas quanto ao objectivo. Só não se sabiam a extensão das epístolas de Sylvia Plath, a remetente atenta. "Acho que algumas das cartas foram escritas de forma muito consciente, para uma audiência muito particular, soubesse ou não que alguém poderia trabalhar essas cartas no futuro. Não sei. Não sei quanto do que ali esta é uma representação, uma performance, ou quanto é só o produto natural da sua vida. Acho que os biógrafos no futuro vão ter muito mais para chegar perto do que foi Sylvia Plath quando trabalharem estas cartas em conjunto com os seus diários. Temos duas pessoas diferentes; nos seus diários estão os seus pensamentos privados e ela usa-os de formas muito distintas, com imaginação até, mas as cartas foram escritas não só para ela mesma, mas também para as pessoas a quem são endereçadas", refere.

E nesta fase da vida de Sylvia Plath, os seus primeiros 25 anos, a maioria é dirigida ah mãe, Aurelia, com que manteve uma relação tão próxima quanto complexa. Cartas literárias, filosóficas, domésticas, intimas ou meras descrições do quotidiano, são muitas vezes redundantes, mas demonstram a força que Sylvia acreditava ter. Ela não era apenas um ser depressivo, como, aliás, também sublinha Steinberg nesta conversa, salientando o sentido de humor que os leitores conhecem em A Campânola de Vidro, único romance de Plath, publicado pouco tempo antes da sua morte, e podem confirmar aqui. " É um humor muito eficaz", afirma Peter Steinberg. "Numa das primeiras cartas que enviou à família quando estava num campo de férias, ela conta que come muito. Vivia-se a II Guerra Mundial e havia racionamento. Ela escreveu que quando chegasse a casa podiam comê-la em substituição de porco." Steinberg ri. A comida parecia ser uma das obsessões de Plath. Nas cartas, muitas delas ilustradas, há desenhos de alimentos, como há de modelos de vestidos e casacos, flores, gente a praticar desporto. Há nisso tanto de pueril quanto de manifestação de outros talentos. A voz é outra vez de Steinberg: "Uma vez eu estava a falar com uma das melhores amigas de Plath sobre isso, as descrições de alimentos, e ela disse-me que havia sempre muita comida em casa dela e que a comida era sempre preparada com cuidado. Sylvia adorava comer e escrever sobre isso. Quando estava a recuperar da primeira tentativa de suicídio em 1953, 54 [tinha 20 anos] dava grandes jantares e a partir daí tornou-se uma cozinheira confiante; era também uma boa doceira."

PÚBLICO -

O investigador quer sublinhar o lado desarmante da escritora que o atraiu pelo modo como era capaz "de dar expressão, em prosa como em poesia, às suas experiências pessoais ampliando-as para uma dimensão universal", refere, e não se fica por aí. "É um talento incrível! Sempre me senti intimidado pela Sylvia Plath por ser uma artista tão genial que desde muito cedo sabia exactamente o que queria fazer. Sempre quis ser escritora e trabalhou muito para ser bem sucedida e chegar ao objectivo de ver o seu trabalho publicado. Mas com as cartas podemos ver os bastidores do que foi o desenvolvimento do seu carácter."

Voltamos à autenticidade. As cartas que revelam o que mais nada parece capaz, Sylvia por ela mesma, sem mediação. É o discurso dos editores que já sofreu fortes críticas em jornais como o Guardian ou o New York Times. Questionavam nada mais do que a extensão do livro e o interesse de grande parte das cartas. Sobretudo neste primeiro volume. Até chegar a Ted Hughes. O interesse surge a partir daí. Outra vez Ted. Sylvia em relação a Ted, na relação com Ted, na tragédia em que tudo terminou para ela quando ele foi viver com outra mulher.  O ultimo volume é isso. As cartas de Sylvia nisso. O que trarão? Sobre o regresso a América, os filhos, e a ida para Londres, a decisão da morte. Neste livro, a ultima carta é dirigida a um editor americano; diz-lhe que ira aos Estados Unidos, que quer fazer tudo para que lhe publiquem a obra lá. No país onde nasceu a 27 de Outubro de 1932, Em Boston, Massachussets. Foi para lá que escreveu a primeira carta desta colectânea, ao pai, que morreria

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Mateus 25:31-46 - O julgamento das Nações

31 E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória;

32 E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas;

33 E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda.

34 Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;

35 Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;

36 Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver.

37 Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?

38 E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?

39 E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?

40 E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

41 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;

42 Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;

43 Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.

44 Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?

45 Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.

46 E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.

Mateus 25:31-46
https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/25/31-46

Angola e Francisca Van Dunem

FRANCISCA VAN DUNEM IN
" (...)
Fez todos os estudos liceais em Luanda?
Sim, no liceu feminino Guiomar de Lencastre.

Quando pensou em optar por Direito, isso não terá sido um grande motivo de alegria na família...
Foi terrível. Eu tenho uma família com uma estrutura muito patriarcal, em que o irmão mais velho do meu pai, o meu tio José, funcionava como o verdadeiro chefe da família. O seu filho, Fernando, que é meu padrinho de batismo e foi embaixador de Angola em Portugal, tinha vindo para Coimbra estudar Direito e exilou-se, saindo de Portugal numa leva de estudantes das colónias no início dos anos 60. O meu tio tinha uma grande desconfiança em relação às possíveis consequências das vindas para a então “metrópole” estudar Direito. Achava que o ambiente académico na área do Direito acabava por nos associar a atividades políticas. Sobretudo achava que eu, sendo mulher, não devia correr esse risco. E depois, como o meu avô tinha sido deportado várias vezes, por razões políticas, o meu tio entendia que devíamos tirar cursos técnicos, porque nos permitiam trabalhar em qualquer lugar. Devíamos ser médicos, engenheiros e não nos metermos no que achava serem aventuras perigosas.

Como é que conseguiu convencer a família?
Com 15 anos, ao chegar ao sexto ano do liceu, inscrevi-me na alínea E, que era a de Direito. Cheguei a casa, disse ao meu pai, que ficou triste e disse-me que eu tinha de ir falar ao meu tio. E eu fui.

E o seu tio...
O meu tio reagiu como seria de prever, mas não me proibiu. Perguntou-me coisas como: “A senhora pensa que fazer um curso de Direito é fazer alguma coisa? A senhora não tem ideia de que o curso de Direito não serve rigorosamente para nada? A senhora não acha que um curso de Medicina, de Engenharia, de qualquer outra coisa seria muito mais útil? Os senhores têm devaneios...” Eu ouvi respeitosamente, como devia fazer, e no fim ele disse-me: “Bem, a senhora está inscrita, está inscrita. Só veio cá dizer que se inscreveu.” Eu aquiesci, dando-lhe razão, e fui para casa de cabeça baixa. Esperava que me proibisse. Que me obrigasse a alterar a inscrição. A sua reação desorientou-me. Tinha levado todos os argumentos para uma batalha que não chegou a acontecer. O meu tio viveu cá os últimos anos da vida dele e tinha comigo uma relação de intensa afetividade. Gostava muito de mim, e eu gostava muito dele. A circunstância de me ter atrevido a afirmar-me contra o que sabia ser a sua vontade, de lhe ter ido dizer o que ia fazer, deu-lhe a ideia de que eu tinha a coragem dele. E ficámos muito próximos. Quando comecei a trabalhar no MP, não tinha cuidado com os registos oficiais: a nomeação, as promoções que saíam no “Diário da República”. Ele organizava tudo numa pastinha que me entregou e que se encarregava de atualizar. Depois, foi para Luanda e acabou por morrer lá. Vivemos aqui uma relação de uma enorme proximidade. Foi uma pessoa de quem eu na infância tinha medo e com quem depois acabei por ter uma relação afetiva muito profunda.

(...)
P. - Não havia Direito em Luanda. O choque foi muito grande quando chegou a Lisboa?
R. - O choque foi tremendo. Tinha 17 anos. Luanda era uma cidade aberta. Lisboa era uma cidade fechada e sombria nesse tempo. Fechada nos costumes, havia grupos muito fechados, e era uma cidade cinzenta. Eu vinha de Luanda descontraidamente. As pessoas estavam habituadas a falar com toda a gente, a vestir-se sem nenhuma preocupação, não só pelas questões do clima mas por influência da África do Sul e de Moçambique. As raparigas tinham uma forma de vestir mais solta. Eu trazia umas saias que eram curtíssimas para cá, mas eu não sabia. Não tinha a mínima noção.

P. - Era o tempo em que uma mulher era mal vista se ia a um café...
R. - Não. Nessa altura ia-se muito aos cafés. Havia muitos cafés de estudantes. Mas até a isso eu não estava habituada, àquele ambiente escuro em que as pessoas estavam vergadas sobre os livros, a fumar. Naquele tempo fumava-se muito. Era um ambiente um pouco surreal, era como se entrasse de repente num filme fantástico. Eu estava habituada ao ar livre, às esplanadas, ao sol... Essa entrada inicial foi de facto um pouco traumática.
(...)
P.- Ele decidiu regressar e vive hoje em Angola. E o seu irmão João decidiu também regressar a Luanda para o apoiar. Como é que viu essa decisão?
R. - O João era a minha alma gémea. Eu vi com bons olhos o regresso do João. Embora ele tivesse uma carreira bem sucedida na BBC, chefiava a secção de língua portuguesa, sentia nele sempre um espaço de vazio. E o grande espaço de vazio que tinha era Angola. Angola fazia-lhe falta. Tinha necessidade física. E a sua ida acabou por ser associada à ida do Che.

P. - E, apesar de serem almas gémeas, a Francisca não tem esse espaço vazio em relação a Angola?
R. - Eu tenho. Fica sempre. Há sempre um lugar em nós, um bocado em nós que está perdido algures, não no espaço cósmico. Sabemos onde está. Mas nestas coisas tem de haver alguma racionalidade. No jogo entre o espaço do possível, do fazível e do desejável, é preciso encontrar algum realismo. A minha mãe tem 93 anos e vive comigo. Eu tenho uma carreira feita aqui que não me passa pela cabeça abandonar de um dia para o outro. A partir de uma certa altura, foi uma escolha que fiz. E foi uma escolha consciente.
(...)
P. - Acha que morreu de desgosto?
R. - O meu pai morreu de tristeza. Interiorizava muito as coisas. Escrevia muita poesia. Tinha uma vida interior muito intensa. Acabou por ficar num estado de tristeza e de desconsolo que não teve retorno.
(...)"

Quando regressou a Angola?
A primeira vez que regressei a Angola fui com o então procurador-geral da República, conselheiro Cunha Rodrigues, em 1997, depois voltei lá com outro procurador-geral, o conselheiro Pinto Monteiro, e depois a seguir à morte do João. Ele foi enterrado cá, mas as cerimónias do sétimo dia foram feitas lá. Depois disso fui lá mais uma vez.

Que país é que encontrou?
Encontrei o suficiente para ficar em paz com a minha identidade, mas obviamente encontrei um país diferente daquele que deixei há quase 40 anos. As coisas mudam. Há uma evolução necessária em Angola como em qualquer outro lugar. O que me faz alguma confusão às vezes é não encontrar os lugares que conheci. Passar por uma rua e não a reconhecer. Há muros muito altos por razões de segurança e há zonas muito descaracterizadas.

A casa onde vivia ainda existe?
As casas onde vivi ainda existem. A casa onde passei a infância, aquela a que estou mais ligada, é uma casa na Rua João das Regras.





Há coisas mais importantes do que o sucesso na carreira: como é que se faz as pazes com o país que nos matou o irmão? Como é que se conta a um miúdo de três anos que os pais foram assassinados?
EXPRESSO.SAPO.PT

***
NICOLAU SANTOS


Texto

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Eduardo Galeano - El lenguaje 3

Eduardo Galeano

En la época victoriana, no se podían mencionar los pantalones en presencia de una señorita. Hoy por hoy, no queda bien decir ciertas cosas en presencia de la opinión pública:

el capitalismo luce el nombre artístico de economía de mercado;

el imperialismo se llama globalización;
las víctimas del imperialismo se llaman países en vías de desarrollo, que es como llamar niños a los enanos;

el oportunismo se llama pragmatismo;

la traición se llama realismo;

los pobres se llaman carentes, o carenciados, o personas de escasos recursos;

la expulsión de los niños pobres por el sistema educativo se conoce bajo el nombre de deserción escolar;

el derecho del patrón a despedir al obrero sin indemnización ni explicación se llama flexibilización del mercado laboral;

el lenguaje oficial reconoce los derechos de las mujeres, entre los derechos de las minorías, como si la mitad masculina de la humanidad fuera la mayoría;

en lugar de dictadura militar, se dice proceso;

las torturas se llaman apremios ilegales, o también presiones físicas y psicológicas;

cuando los ladrones son de buena familia, no son ladrones, sino cleptómanos;

el saqueo de los fondos públicos por los políticos corruptos responde al nombre de enriquecimiento ilícito;

se llaman accidentes los crímenes que cometen los automóviles;

para decir ciegos, se dice no videntes;

un negro es un hombre de color;

donde dice larga y penosa enfermedad, debe leerse cáncer o sida;

repentina dolencia significa infarto;

nunca se dice muerto, sino desaparición física;

tampoco son muertos los seres humanos aniquilados en las operaciones militares:

los muertos en batalla son bajas, y los civiles que se la ligan sin comerla ni beberla, son daños colaterales;

en 1995, cuando las explosiones nucleares de Francia en el Pacífico sur, el embajador francés en Nueva Zelanda declaró:

«No me gusta esa palabra bomba. No son bombas. Son artefactos que explotan»;

se llaman Convivir algunas de las bandas que asesinan gente en Colombia, a la sombra de la protección militar;

Dignidad era el nombre de unos de los campos de concentración de la dictadura chilena y Libertad la mayor cárcel de la dictadura uruguaya;

se llama Paz y Justicia el grupo paramilitar que, en 1997, acribilló por la espalda a cuarenta y cinco campesinos, casi todos mujeres y niños, mientras rezaban en una iglesia del pueblo de Acteal, en Chiapas.


Eduardo Galeano,  Patas arriba. La escuela del mundo al revés

sábado, 9 de dezembro de 2017

JOSÉ PACHECO PEREIRA - Mas qual é o mal do passado?


OPINIÃO

O passado tem má imprensa, o presente é o melhor que há e o futuro então não se fala, é o período da felicidade perfeita, tanto mais perfeita quando todos já estaremos mortos.

9 de Dezembro de 2017, 6:12
No início de um livro de L. P. Hartley há uma frase que eu cito bastante e vou fazê-lo de novo: “O passado é um país estrangeiro, lá fazem-se as coisas de forma diferente”. Em inglês é ainda melhor: "The past is a foreign country; they do things differently there". E cito-a pela obsessão absurda que existe nos dias de hoje na política e na comunicação social, de achar que “voltar ao passado” é um coisa tenebrosa e um insulto. Este tipo de frases são o pão nosso de cada dia na competição eleitoral no PSD, em que cada candidato atira ao outro ou aos seus apoiantes a acusação de que são o passado. Na verdade, o candidato mais do passado é que o faz com mais denodo e falta de vergonha, tanto mais que os “jovens” que apresenta são infinitamente mais velhos do que os “velhos” que eles atacam de senectude. Presumo que eles acham que tem um DeLorean ao seu dispor, visto que a probabilidade de entenderem alguma coisa do passado, presente e futuro dificilmente passa do Back to the Future.

Mas se fosse só nestes conflitos de menores, passávamos bem. Mas é no debate parlamentar, no comentário, na moda, e nessa ecologia em que vivemos no tempo presente e que se chama “comunicação social”. A obsessão pela “novidade” da comunicação social, é da mesma natureza destes jogos retóricos. Estão sempre a descobrir génios jovens e prometedores cuja fama não dura um ano, e que em muitos casos são os amigos deles, ou noutros são os que estão na “moda”, essa tenebrosa forma de identidade fugaz, cujas raízes no passado são aliás sempre mais importantes do que as folhas do presente. Resumindo e concluindo: o passado tem má imprensa, o presente é o melhor que há e o futuro então não se fala, é o período da felicidade perfeita, tanto mais perfeita quando todos já estaremos mortos.

Mas ainda me hão-de explicar o que é que tem de fascinante o presente, e como é que sabem que o futuro vai ser melhor. Nem o presente é brilhante, o que acontece é que estamos presos nele, temos que viver nele, e nem ninguém sabe o que vai ser o futuro porque a essência da história é a surpresa. Pelo contrário, no passado podemos escolher algum proveito e exemplo, mesmo que saibamos que ele nunca se repete, e se se repete, como dizia Marx, tem sempre tendência para ser como comédia. Corrijo aqui o velho Karl, nos nossos dias há uma alta probabilidade de começar como comédia e acabar como tragédia outra vez. Veja-se Donald Trump.

O passado tem imensas virtualidades, exactamente porque nós vivemos no presente e podemos escolher as “formas diferentes” como se faziam as coisas nesse “país estrangeiro”, usando a frase de Hartley. E é porque o passado transporta, no seu uso, a possibilidade de uma moral, de uma escolha, que é tão incómodo para aqueles que pensam que apenas podem beneficiar do presente, sem essa maçada de ter limites às suas acções. Os limites são aquelas coisas malditas como seja o saber, em vez da ignorância, a virtude em vez do vale tudo, a prudência em vez do meia bola e força, e o parar para pensar em vez do imediato e do “já” que cada vez mais pesa numa sociedade onde a adolescência se prolonga pelo Facebook e ersatzes de vida similares.

Não admira por isso que haja nos nossos dias algo que não tem precedente na nossa civilização ocidental, a que nos fez e ainda remotamente nos faz, que é o ataque aos mais velhos. Nos anos do “ajustamento”, os pseudo-jovens que tiveram a sua oportunidade nesses anos de lixo, dedicaram-se a querer empobrecer os seus avós e os seus pais, em nome de uns longínquos e putativos filhos e netos, pelos quais mostravam tanto mais amor quanto na realidade o que faziam era tirar a uns pais e avós para dar a outros pais e avós, só que da classe certa.

Tudo quanto é argumento neo-malthusiano foi usado para explicar a “injustiça geracional”, em que pais e avós hipotecam o futuro dos filhos e netos, para viverem bem no presente. Eles que eram “passado” viviam bem no presente e punham em causa o futuro. E o futuro destinado aos jovens era não ter casa, nem emprego, nem dinheiro, nem pensões, nem reformas, porque os malvados dos pais e avós não queriam perder os “direitos adquiridos”, nem as leis que protegiam o emprego, nem as suas reformas, nem o Estado Providência. Todo um argumentário conservador, que desaguava depois nos excessos da direita radical, se desenvolveu para dar um lugar ao sol não a todos os jovens, porque continuavam a ser precisos soldadores, mecânicos de automóveis, electricistas, padeiros e empregados de mesa, mas aqueles que nas elites se sentiam deserdados de um estatuto ou de um poder que lhes parecia devido, por família ou riqueza natural, ou aqueles que invejavam este estatuto de poder. Já repararam como este argumentário tem sucesso ou em jovens políticos profissionais das “jotas”, ou em pessoas que participam em “think tanks” de fundações e universidades bem providas, ou em pessoas com empregos como “consultores”, “assessores”, jovens advogados de negócios, e jornalistas da imprensa económica ou colaboradores dessa mesma imprensa ou afim. Há excepções, mas não invalidam a regra.

Um dos aspectos desta nova forma de luta de classes, na verdade a mesma de sempre, foi a minimização do saber e da experiência, tudo coisas que vem com a vida e o trabalho árduo, combate que assumiu e assume todo o seu esplendor naqueles que vivem nas chamadas “redes sociais” onde há uma ideia igualitária sobre o conhecimento, ou seja, uma apologia da ignorância. Se todos se podem pronunciar sobre tudo e por isso mesmo tudo o que dizem tem o mesmo valor, não vale a pena estudar, nem trabalhar para conhecer uma determinada matéria, basta só escrevinhar umas frases que pretendem ser engraçadas. Esta nova forma de ignorância agressiva, tem sido um instrumento para minimizar não só as hierarquias profissionais e académicas, como para dar o mesmo papel na sociedade a exercícios vulgares e superficiais mais ou menos intuitivos que se tornam virais e pela comunidade cultural entre as “jotas” políticas e as “jotas” jornalísticas que usam as “redes sociais” deles, os seus Facebooks e Twitters para “interpretar” movimentos colectivos que são dos mesmos de sempre, sendo esses mesmos muito poucos.

Há igualmente um ataque à memória, com o encolhimento sistemático do que se lembra no presente a um passado de escassos meses e anos. No limite, apenas ao que se encontra nas pesquisas do Google, ou está na Internet. O que acontece é que esse “passado” para além de ser considerado arqueológico, e portanto inútil de lembrar, afunda-se nas trevas do esquecimento. Por sobre esta memória de passarinho, crescem mitos, falsidades e memórias selectivas quase sempre instrumentais para as necessidades dos conflitos do presente. Os mais velhos são também um incómodo porque se lembram de coisas demais e de como, nesse “país estrangeiro” do passado, alguns dos próceres do presente, já mostraram o que valiam ou o que não valiam, os defeitos de carácter ou de incompetência, ou por semelhança de atitudes, podem conduzir aos mesmos sucessos ou, mais comummente aos mesmos desastres. 

Eu sei bem que isto já foi tantas vezes dito, quantas gerações passaram sobre a terra. O passado está cheio de previsões sobre de como as coisas se degradam entre os mais velhos e os mais jovens. É verdade, é quase um lugar-comum. Mas isso não significa que às vezes, às vezes, possa ser verdade. Suspeito que hoje é.

Não sou, por isso, um fã do presente, onde vivo, principalmente quando se quer esconjurar o saber, a experiência e a memória, que são coisas que precisam do tempo do passado. Não é para as pessoas voltarem à lanterna mágica, ou às televisões de caixa, ou ao Pacman, nem tenho qualquer nostalgia do stencil ou do verniz corrector, nem da máquina de escrever. Mas já tenho de homens como o esquecido e frágil Mem Verdial, com a sua gravata à Lavaliére, já então tão fora do tempo, e que levou um paralelepípedo escondido para um comício da oposição a Salazar, patrulhado por um capitão qualquer que numa mesa podia interromper qualquer orador. E quando foi interrompido por dizer coisas subversivas sobra a democracia, perguntou ao homúnculo do canto: “O senhor representante da autoridade quer que eu ponha uma pedra sobre o assunto?”. E pegou na pedra e colocou-a em cima dos seus papéis. É este passado que me faz falta 

Assinado: Matusalém.
Colunista