quinta-feira, 12 de outubro de 2017

[Soneto] Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado

submitted  by Vasco_da_Gamba
Adaptação do "Soneto de todas as Putas" de Bocage.
Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado
Corrupta tem sido muita gente boa
Corrompidos deputados tem Lisboa
Milhares de vezes corruptos têm governado

Major Valentim,corrupto, desde os tempos de soldado
Já Vara, pescou robalos sem ver mar nem proa
E tu,Cavaco, não me esqueço da tua pessoa
Nem da tua fidelidade a Salgado

Esse da Madeira, dinossauro famoso,
Que odeia o chinês, o bastardo e o rabeta
Entre mil ponchas fez legado penoso

E lá nas finanças deixou funda greta
Não fiques pois, oh Sócrates, duvidoso
Que isso de político honesto é tudo peta
https://www.reddit.com/r/portugal/comments/75qpb5/soneto_n%C3%A3o_lamentes_oh_s%C3%B3crates_o_teu_estado/

Soneto de Todas as Putas

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage
(✩ 15/09/1765 — † 21/12/1805)
Autores Clássicos no Luso-Poemas


Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=205416 © Luso-Poemas

domingo, 1 de outubro de 2017

Manuel Alegre - Nambuangongo, meu amor

`Manuel Alegre

Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
e a cabeça cortada e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo
tempo exactamente em cima do nosso tempo.
Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.



sábado, 30 de setembro de 2017

Paul Éluard - em Espanha

* Paul Éluard


Se em Espanha há uma árvore cor de sangue
É a árvores da liberdade
Se em Espanha há uma boca faladora
Fala de liberdade
Se em Espanha há um copo de bom vinho
É o povo quem o há-de beber.


Paul Éluard - poemas políticos

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

David Mourão-Ferreira - Noite apressada

* David Mourão-Ferreira


Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!



domingo, 24 de setembro de 2017

Os partidos portugueses: O Bloco de Esquerda (1)

segunda-feira, julho 13, 2009

Se eu fosse empresário e os meus produtos tivessem beneficiado da publicidade mais subliminar ou descarada de que beneficiou o Bloco o Bloco de Esquerda estaria a gora a disputar as posições de Belmiro de Azevedo e de Américo Amorim na lista de fortunas da Forbes. O BE não só beneficiou da adesão de muitos jovens jornalistas que o elegeram como alternativa aos partidos tradicionais, como foi levado ao colo pelo PSD do tempo de Durão Barroso, quando o agora presidente da Comissão preferia dar todo o protagonismo da oposição a Louçã, ignorando o PCP pelo seu peso sindical e o PS por ser a alternativa de governo.

Quase todos os dias a comunicação social apresenta as homilias de Louçã como o contraponto às posições de todos os outros partidos, o PS aparece a comentar o PSD, o PSD a comentar o PS, o PCP a comentar as políticas governamentais e o Louça a comentar tudo e todos, incluindo as divergências internas do PS. Louçã é apresentado como um Diácono Remédios da política portuguesa, mas numa versão positiva. Só isso explica que um partido cujo programa são frases soltas de ocasião e sem qualquer organização, dirigido por três personalidades devidamente rodeadas de umas raparigas jeitosas tenha ultrapassado nas urnas um PCP que tem mais poder de organização num único centro de trabalho do que em todo o Bloco de Esquerda.

Como é que um partido que não é capaz de organizar um piquenique no Parque Eduardo VII vence nas urnas um PCP capaz de mobilizar 80 mil pessoas numa manifestação e de organizar o maior evento político do país?

A receita é simples, os líderes da extrema-esquerda trocaram os seus programas por uma nova marca branca da política. O vermelho é a cor do símbolo mas só aparece nos documentos oficiais, o símbolo é um produto de marketing, da bandeira comunista ficou a estrela, símbolo do internacionalismo proletário, mas mesmo essa foi estilizada, deixou de ser uma estrela. As bandeiras vermelhas deram lugar a todas as cores, uma manifestação do Bloco de esquerda parece-se mais com um anúncio publicitário da Vodafone do que com uma manifestação de extrema-esquerda, o vermelho deu lugar ao multicolor, há cores para todos os gostos.

Os líderes da extrema-esquerda deixaram de ter voz grossa, de usar bigode e vestir roupas que se identificam com o proletariado. Em vez de roupas de gente pobre ou a imitar gente pobre usam-se camisas de marca que davam para alimentar uma família operária durante meio mês, em vez das meias maratonas proletárias Louçã prefere o perfume da classe média do Holmes Place da Av. dos Defensores de Chaves. O Trotsky que chefiou o Exército vermelho e que mais tarde foi morto por uma machadada encomendada por Estaline deixou de fazer companhia a Louçã, Estaline deixou de ser exibido como modelo das virtudes marxistas-leninistas para Fazenda e outros herdeiros da UDP e do PCP(R).
O passado é demasiado incómodo, tem demasiados esqueletos, para que o BE tenha referências no passado, ao contrário do que sucede com o PCP que carrega permanentemente um armário às costas. Também não tem futuro porque não convém dizer aos putos da classe média qual o modelo de sociedade defendido pelos velhos trotskistas, estalinistas e afins. O BE apresenta-se sem referência, sem programa, sem modelo de sociedade, em vez de um projecto político prefere apresentar-se como a esquerda moderna, em vez de exibir as suas glórias do passado, como a Albânia de Enver Hodja ou o Cambodja dos Khmers Vermelhos, prefere temas fracturantes como o casamento gay ou a proibição de despedimentos em empresas com lucros.

O Bloco de Esquerda não diz o que os seus dirigentes pensam, em cada momento diz o que os seus alvos eleitorais querem ouvir, as suas posições políticas são seleccionadas como se de um produto alimentar se tratasse, são colocadas no mercado depois de devidamente degustadas por um painel de consumidores representativos. E ao mesmo tempo que o BE vai conquistando a simpatia de jornalistas desejosos de protagonismo e de jovens da classe média sem qualquer memória histórica o Francisco Louçã vai assumindo o seu papel de Virgem Maria da política portuguesa, papel que desempenha tão bem que até um orgulhoso Manuel Alegre aceitou o papel de crente mariano na esperança de chegar a Belém.

PS: na terça-feira o post será dedicado ao PS, na quarta-feira ao PCP, na quinta-feira ao PSD e na sexta-feira ao “PRD”.

http://jumento.blogspot.pt/2009/07/os-partidos-portugueses-o-bloco-de.html

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

José Anastácio da Cunha - Pinheiro Manso

* José Anastácio da Cunha

Copado, alto, gentil Pinheiro Manso;
Debaixo cujos ramos debruçados
Do sol ou lua nunca penetrados,
Já gozei, já gozei mais que descanso...

Quando para onde estás os olhos lanço,
Tantos gostos ao pé de ti passados
Vejo na fantasia retratados,
Tão vivos, que jàmais de ver-te canso!

Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro
te hei-de cobrir, terás cópia crescida
De flores, serás honra dêste outeiro.

E para te dar glória mais subida,
No meu tronco feliz, alto Pinheiro,
O teu nome escreverei de Margarida.  

Bagão Felix - “Óscares” para os cartazes eleitorais

Valha-nos o bom-humor, para além da piscadela de olho ao CDS/PSD sem esquecer o Bloco (Victor Nogueira)

******


21 de Setembro de 2017, 08:21

Por


“Óscares” para os cartazes eleitorais

E
stamos a uma semana das eleições locais. Confesso a minha pouca paciência para ler ou ouvir o que dizem os candidatos. Mais do mesmo, com qualidade em preocupante decréscimo. Admito, porém, que não devo generalizar e que estarei a ser injusto para pessoas que, com coragem, se abalançaram a um inestimável serviço público.

Mas nem tudo é monótono. Por exemplo, os cartazes – que hoje é possível conhecer por esse país fora, sobretudo através da Net – têm sempre um sabor especial, seja no humor, seja na imaginação e no aproveitamento do nome das terras, seja ainda no excêntrico, senão mesmo no ridículo.
Embora acautelando não estar absolutamente seguro de que, nalgum caso, possa haver montagens (hoje tão comuns na Internet que, aliás, me fazem duvidar de tanta coisa que por lá passa…), partilho com os leitores os meus “Óscares”, sem me referir aos partidos ou movimentos responsáveis pelos cartazes, o que, para este efeito, não importa.
Depois de aturada análise, o principal galardão vai para um cartaz algures: “ENTRE O PASSADO E O PRESENTE, ESCOLHO O FUTURO”. Na mouche
Quanto ao “Óscar” gastronómico, selecciono três cartazes: “POR AMOR A FAJÕES”, não sei se vermelhos, manteiga ou mesmo frade, “CONTINUAR LEITÕES”, ainda que não na Bairrada e “JUNTOS PELOS BISCOITOS”, neste caso biscoitos açorianos.
Na categoria de “Saúde”, estão indigitados: “CONTINUAMOS CALVOS”, apesar do candidato na fotografia exibir um assinalável cabelo que contradiz a alopécia ínsita no cartaz, “COM CANO NO CORAÇÃO”, não sei se com comparticipação no cateterismo cardíaco  e “A NOVA ALTERNATIVA PARA DEGOLADOS”, que não imagino, nem quero imaginar qual seja.
Na categoria de promessas vai ser complicado escolher entre “FAZER COM TODOS” (de um candidato independente, evidentemente), “FAZER MAIS”,” FAZER PELOS DOIS”, “CONSIGO, TODOS OS DIAS” e “A NOSSA É MAIOR QUE A DELES” (paixão), não sabendo, ainda, se um cartaz de 2013 se repete este ano (“COINA PARA TODOS”).
Já na categoria de “Promessas especiais”, os indigitados para o “Óscar” são: o mais tétrico “REDUÇÃO DO PREÇO DAS CAMPAS PARA METADE” e o mais caprichoso “QUEREMOS CORNES SEMPRE MELHOR”.
Quanto ao melhor argumento, estão seleccionados “PASSOS PARA TODOS”, “JUNTAR COSTA E ENCOSTA”, “4 ANOS DE GARANTIA” e “TODOS SOMOS SARILHOS GRANDES”.
O prémio para o cartaz em língua estrangeira vai para “JE SUIS ESPOSENDE”.
Na categoria de efeitos especiais, a luta será entre “PODAME AOS PODAMENSES”, “EU SOU O DIOGO, MAS PODES CHAMAR-ME SALOMÉ” (estranhamente do CDS e não do Bloco de Esquerda…) e “POMBAL HUMANO”, uma espécie de columbofilia transgénero.
No sector da limpeza, concorrem “PELO PÓ, SEMPRE” (sabotando a publicidade a produtos de limpeza), “PELA BRANCA TUDO CLARO COMO A ÁGUA” e o quase seu contrário “POR UMA BRANCA DIFERENTE”.
Há, ainda, um troféu honorário destinado ao cartaz de carreira. Venceu “SOU DE CONFIANÇA”. Esclarecedor, sem dúvida. Fez-me lembrar, em sentido oposto (ou talvez não), um velho cartaz no Brasil: “ROUBO, MAS FAÇO!”.
Pena não se coligarem ao menos os cartazes do PSD e CDS em Lisboa. Um é “POR UMA SENHORA LISBOA”, outro refere “PELA NOSSA LISBOA”. A junção daria um cartaz religioso “PELA NOSSA SENHORA DE LISBOA” que concorreria com Fátima.
Por fim, o cartaz que venceu o “Óscar” da inutilidade: “SOU CANDIDATO”.
Tudo menos economia, como se constata.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/09/21/oscares-para-os-cartazes-eleitorais/#comment-49700

Alexandre Herculano - Arrábida

    Alexandre Herculano


    Arrábida
    I
    Salve, oh vale do sul, saudoso e belo!
    Salve, oh pátria da paz, deserto santo,
    Onde não ruge a grande voz das turbas!
    Solo sagrado a Deux, pudesse ao mundo
    O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
    Qual ao freixo robusto a frágil hera,
    E a romagem do túmulo cumprindo,
    Só conhecer, ao despertar na morte,
    Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
    Que íntima voz contínuo nos promete
    No trânsito chamado o viver do homem.

    II
    Suspira o vento no álamo frondoso;
    As aves soltam matutino canto;
    Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
    Dos alcantis na base carcomida:
    Eis o ruído do ermo! Ao longe o negro,
    Insondado oceano, e o céu cerúleo
    Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
    Da eternidade e do infinito, salve!

    III
    Oh, como surge majestosa e bela,
    Com viço da criação, a natureza
    No solitário vale! E o leve insecto
    E a relva e os matos e a fragância pura
    Das boninas da encosta estão contando
    Mil saudades de Deus, que os há lançado,
    Com mão profusa, no regaço ameno
    Da solidão, onde se esconde o justo.
    E lá campeiam no alto das montanhas
    Os escalvados píncaros, severos,
    Quais guardadores de um lugar que é santo;
    Atalaias que ao longe o mundo observam,
    Cerrando até o mar o último abrigo
    Da crença viva, da oração piedosa,
    Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
    Sobre esta cena o sol verte em torrentes
    Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
    Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
    Do Zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
    De tronos de fragas sobrepostas,
    Que alpestres matas de medronhos vestem;
    O rocio da noite à branca rosa
    No seio derramou frescor suave,
    E inda existência lhe dará um dia.
    Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

    IV
    Negro, estéril rochedos, que contrastas,
    Na nudez tua, o plácido sussuro
    Das árvores do vale, que vicejam
    Ricas d'encantos, coa estação propícia;
    Suavíssimo aroma, que manando
    Das variegadas flores, derramadas
    Na sinuosa encosta da montanha,
    Do altar da solidão subindo aos ares,
    É digno incenso ao Criador erguido;
    Livres aves, vós filhas da espessura,
    Que só teceis da natureza os hinos,
    O que crê, o cantor, que foi lançado,
    Estranho ao mundo, no bulício dele,
    Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
    Dos homens esquecer paixões e opróbio,
    E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
    O sol, e uma só vez pura saudar-lha.
    Convosco eu sou maior; mais longe a mente
    Pelos seios dos céus se imerge livre,
    E se desprende de mortais memórias
    Na solidão solene, onde, incessante,
    Em cada pedra, em cada flor se escuta
    Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
    A dextra sua em multiforme quadro.

    V
    Escalvado penedo, que repousas
    Lá no cimo do monte, ameaçando
    Ruína ao roble secular da encosta,
    Que sonolento move a coma estiva
    Ante a aragem do mar, foste formoso;
    Já te cobriram cespedes virentes;
    Mas o tempo voou, e nele envolta
    A formusura tua. Despedidos
    Das negras nuvens o chuveiro espesso
    E o granizo, que o solo fustigando
    Tritura a tenra lanceolada relva.
    Durante largos séculos, no inverno,
    Dos vendavais no dorso a ti desceram,
    Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
    Que, maculando virginal pureza,
    De pudor varre a auréola celeste,
    E deixa, em vez de um serafim na terra,
    Queimada flor que devorou o raio.

    VI
    Ontem sentado num penhasco, e perto
    Das águas, então quedas, do oceano,
    Eu também o louvei sem ser um justo:
    E meditei, e amante extasiada
    Deixei correr pela amplidão das ondas.
    Como abraço materno era suave
    A aragem fresca do cair das trevas,
    Enquanto, envolta em glória, a clara lua
    Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
    Tudo caldo estava: o mar somente
    As harmonias da criação soltava,
    Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
    Se agitava, gemendo e murmurando
    Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
    O pranto me ocorreu, sem que o sentisse,
    E aos pés de Deus se derramou minha alma.
                                                                                    Alexandre Herculano 
http://www.blocosonline.com.br/versaoanterior2/literatura/poesia/pidp03/pidp040147.htm

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Filinto Elísio - soneto

* Filinto Elísio

Estende o manto, estende, ó noite escura,
enluta de horror feio o alegre prado;
molda-o bem c’o pesar dum desgraçado
a quem nem feições lembram da ventura.
-
Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da negra cor da minha desventura.
-
Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão n’ocos rochedos,
solte-se o céu em grossas lanças de água.
-
Consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero saciar de mágoa a minha mágoa!

domingo, 17 de setembro de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Retro-wifi vintage


CRÓNICA

16 de setembro de 2017, 7:05

Portugal está cheio de estabelecimentos arcaicos que ainda têm wifi. Chegam turistas para tirar selfies junto ao cartaz vintage em que patuscamente se indica a password, que é de sempre afectuosa, como ilovelisbon.

Abrem-se portáteis lado a lado e começa-se a jogar ao queixume paralelo. Em vez de falar do tempo fala-se no acesso. Está lento. Não, está é muita gente a bombar. Só naquela mesa está uma turma de 16 adolescentes holandeses, todos entediados, com os narizes enfiados nos telemóveis e os dedinhos a coçar os ecrãs, mudando os bonecos.

Agora bloqueou. Ó não! Liga e desliga. Estás a fazer algum download? Não, és maluco. Tenta fechar algumas páginas. Não estou a conseguir. Espera aí... Faz um speedtest. Não dá. Para fazer um speedtest é preciso um mínimo de speed. Ha ha: o som do riso fingido que é próprio de quem está a mexer em computadores num lugar público.

Agora acelerou. Bem... agora está melhor. Consegues ver um vídeo no YouTube? Sim. Não. Está às voltinhas. Ganda lata. Lembras-te quando nos queriam fazer acreditar que o buffering tinha acabado, que era uma relíquia do século XX? Mentira. Diz que está loading mas não está a carregar porra nenhuma. Tem paciência. Pode mesmo estar a carregar. Está bem, vou esperar um bocadinho. E então? Está na mesma! Continua a loadar? Claro que não, está a bufferingar à grande.

Vou queixar-me ao TripAdvisor: o wifi é péssimo. Não estou a conseguir. Espera aí, achas que é de propósito? Estes sacanas, pá...pensam em tudo!

https://www.publico.pt/2017/09/16/opiniao/noticia/retrowifi-vintage-1785567

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Pablo Neruda - OS SÁTRAPAS

* Pablo Neruda

Nixon, Frei e Pinochet até hoje
até este amargo e doloroso mês de Setembro
do desgraçado ano de 1973.
Juntamente com Bordaberry, Garrastazu e Banzer,
são hienas vorazes da nossa história, roedores
a corroerem com venenosos dentes os pendões conquistados
com tanto sangue vertido e no meio de tanto fogo,
são réus infernais,
enlameados no pantanal das riquezas mal adquiridas,
sátrapas mil vezes vendidos e vendedores
incitados pelos lobos de Nova Iorque.
São máquinas esfomeadas por dólares,
manchadas no sacrifício
dos seus povos martirizados,
mercadores prostituídos
do pão e do ar das Américas,
cloacas assassinas e mal cheirosas
chefes de rebanhos de homens
sem conhecerem outra lei senão a da tortura, da fome e do chicote
que impõem aos seus povos.

PABLO NERUDA

CHILE, 15 de Setembro de 1973

(O último poema de Neruda – publicado durante o fascismo no Semanário «A OPINIÃO» em Outubro de 1973.)


http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2017/09/crime-que-ainda-nao-foi-punido.html

Pablo Neruda - Yo no me callo

* Pablo Neruda



“Yo no me callo

Perdone el ciudadano esperanzado
mi recuerdo de acciones miserables,
que levantan los hombres del pasado.
Yo predico un amor inexorable.
Y no me importa perro ni persona:
sólo el pueblo es en mí considerable:
sólo la Patria a mí me condiciona.
Pueblo y Patria manejan mi cuidado:
Patria y pueblo destinan mis deberes
y si logran matar lo levantado
por el pueblo, es mi Patria la que muere.
Es ése mi temor y mi agonía.
Por eso en el combate nadie espere
que se quede sin voz mi poesía.”


Eu não me calo

Eu preconizo um amor inexorável.
E não me importa pessoa nem cão:
Só o povo me é considerável,
Só a pátria é minha condição.
Povo e pátria manejam meu cuidado,
Pátria e povo destinam meus deveres
E se logram matar o revoltado
Pelo povo, é minha Pátria quem morre.
É esse meu temor e minha agonia.
Por isso no combate ninguém espere
Que se quede sem voz minha poesia.



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Chico Buarque - As Caravanas

* Chico Buarque
 


É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turqueza à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana

A caravana do Arará — do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o combio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá — é o bicho, é o buchicho é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão

E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar
Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará

domingo, 27 de agosto de 2017

Luís de Camões - Soneto XXIX

* Luís de Camões

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.

(Soneto XXIX. Luís de Camões, 1524-1580)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Manuel António Pina - A poesia vai acabar

* Manuel António Pina 


A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não 
acabarem). esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive de voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
– Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


Manuel António Pina, Poesia, saudade da prosa.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

em torno da des / informação




A informação que temos não é a que desejamos. A informação que desejamos não é a que precisamos. A informação que precisamos não está disponível” - John Peers.

Quando se descobriu que a informação era um negócio, a verdade deixou de ser importante - Ryszard Kapuscinski.

Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data - Luís F. Veríssimo. 

Uma opinião pública inquinada por falsidades ou meias verdades não está em condições de formar um juízo válido sobre as alternativas políticas que lhe são propostas.

Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma - Joseph Pulitzer ( 1847-1911)

"Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade" - Joseph Goebbels
- citado em "The Sack of Rome" - Page 14 - por Alexander Stille e também citado em "A World Without Walls: Freedom, Development, Free Trade and Global Governance" - Page 63 por Mike Moore - 2003

Politicamente só existe o que se sabe que existe, politicamente o que parece é. Oliveira Salazar  - Discursos (1940)

"Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado... quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente agora?! Agora testemunhe, está logo atrás da porta" - Georges Orwell - 1984

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

António Aleixo - Não Dês Esmola a Santinhos

* António Aleixo  

MOTE
Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão; 
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.
GLOSAS
Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos...
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas...
Se elas são p'ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.
Missas não mandes dizer,
Nem lhes faças mais promessas
E nem mandes armar essas
Se um dia alguém te morrer.
Não dês nada que fazer
Ao padre e ao sacristão,
A ver para onde eles vão...
Trabalhar, não, com certeza.
Dá sempre esmola à pobreza
Se queres ser bom cidadão.
Tu não vês que aquela gente
Chega até a fingir que chora,
Afirmando o que ignora,
Assim descaradamente!?...
Arranjam voz comovente
Para jludir os parvinhos
E fazem-se muito mansinhos,
Que é o seu modo de mamar;
Portanto, o que lhe hás-de dar,
Dá antes aos pobrezinhos.
Lembra-te o que, à sexta-feira,
O sacristão — o mariola! —
Diz, quando pede a esmola:
«Isto é p'rà ajuda da cera»...
Já poucos caem na asneira,
Mas em tempos que lá vão,
Juntavam grande porção
De dinheiro, em prata e cobre,
E não davam a um pobre
Uma fatia de pão.
António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

António Aleixo - Não creio nesse Deus

* António Aleixo


Não sei se és parvo se és inteligente
Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

Não vês que o teu bem-estar faz d’outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p’ra ti o céu e a terra…
Não te achas egoísta ou exigente?

Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P’ra o homem conseguir o que deseja.

Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?…
P’ra esses é o céu; porque o inferno
É p’ra quem vive a vida à custa alheia!

António Aleixo

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Francisco A. de Icaza - Dale limosna, mujer


Poema inscrito numa das torres da parte mais antiga do palácio de Alhambra, em Granada

Francisco A. de Icaza

Dale limosna, mujer, 
que no hay en la vida nada 
como la pena de ser ciego en Granada.
~~~~~~~~~~
Fais-lui l’aumône, ô femme, 
Car il n’y a plus grande peine 
Que d’être aveugle à Grenade.
~~~~~~~~~~
Dá-me uma esmola, mulher 
Que não há na vida nada
Como o castigo de ser cego em Granada.

do poeta mexicano Francisco A. de Icaza (1863/1925)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Miguel Torga - SÚPLICA

* Miguel Torga

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Fernando Pessoa e Salazar

* Fernando Pessoa

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

As catequistas e os frades (Crónica)

Por Carlos Esperança - julho 27, 2017

A Ti Ricardina e a sua sobrinha Aurora eras as duas únicas catequistas da aldeia. Apesar de analfabetas tinham alvará para ensinar a doutrina da única religião verdadeira. Eram celibatárias e devotadas à propagação da fé. Sabiam de cor e lecionavam as orações e os castigos que o seu Deus reservava aos pecadores.

O pároco exercia o múnus em Casal de Cinza, Carpinteiro e Vila Garcia, mas residia na primeira paróquia, a que dispunha de “casa do padre”. Só aos domingos e Dias Santos de Guarda ia pontualmente a Vila Garcia dizer a santa missa e, em outros dias, quando necessário, para levar o viático a um moribundo, celebrar missas de corpo presente ou fazer funerais. Confissões avulsas, batizados e casamentos eram ocorrências dominicais.

Só ia ao sábado para desobrigas coletivas, com outro padre e hora marcada, para aliviar os pecados e aviar os pecadores que esperavam o perdão, após confissão bem feita, reza do ato de contrição e absolvição, que exigia ainda o cumprimento da penitência. E, logo que as confissões terminassem, seguia com o outro padre para nova paróquia.

No que me diz respeito, deviam ser leves os pecados porque a penitência que lhes cabia não excedia uns padre-nossos e poucas ave-marias, sinal de que eram leves as penas que o catálogo pio lhes atribuía, tal a brandura do cúmulo jurídico canónico.

Anualmente, o padre vinha ‘perguntar a doutrina’. Não me recordo de reprovações, mas alguns titubeavam na salve-rainha e outros hesitavam no credo, enquanto ele, absorto, refletia talvez no martírio do seu Deus ou na impureza dos pensamentos que o afligiam. A catequese ensinava que há pecados por pensamentos, não só por palavras e obras, e as obras não as conheciam ainda as crianças que nós éramos.

As catequistas esforçavam-se na preparação da eucaristia e esmeraram-se para o crisma com que o Sr. D. Domingos iria confirmar a apropriação eclesiástica com a falangeta do polegar direito a desenhar cruzes de óleo santo na testa dos sacramentados.

Eram então obrigatórias, para os cristãos, a missa dominical e, pelo menos uma vez por ano, pela Páscoa da Ressurreição, a desobriga e a comunhão. Mandava a prudência que os funcionários públicos cedessem os filhos à liturgia, para não poderem ser apodados de hereges, maçons, comunistas ou judeus, por ordem crescente de perigo profissional.

O cumprimento dessas obrigações não exonerava os crentes do terço, no mês de maio, o mês de Maria, das genuflexões na passagem à porta da igreja, em dias de Exposição do Santíssimo, ou da novena ‘ad petendam pluviam’, quando a canícula fustigava o renovo e o pároco decidia.

Procissões, jejuns e adoração da Cruz, na Sexta-feira Santa, e rezas à Sagrada Família, que viajava pela povoação e ficava 24 horas em cada casa, alumiada com a candeia de azeite, eram alimentos das almas e a obrigação pia da aldeia onde não chegara ainda a telefonia, a luz elétrica, o telefone, o saneamento ou outros malefícios urbanos.

Apesar da devoção, do zelo do pároco e da dedicação das catequistas, todos os anos ia à aldeia um frade a predicar. De sandálias, capuz e túnica de burel, cingida por uma corda cujas pontas baloiçavam, parecia ter-se soltado da argola onde o tivessem preso. Ia sem farnel e comia em casa de paroquianos, dormindo num cabanal, sobre palha, com manta emprestada, como prevenia o padre na missa anterior ao seu aparecimento.

Ainda ignoro a ordem dos frades que rumavam à paróquia, e ignorava então que o clero regular, à semelhança do reino animal, se dividia em ordens, classes, géneros e famílias. A chegada antecipava a desobriga anual e a sua prédica fazia chorar pessoas apiedadas das almas do Purgatório cuja duração da pena dependia das missas, orações e esmolas caídas nas caixas que lhes eram reservadas. Afligia os vivos com defuntos condenados por pecados veniais com que se finaram. O que diferenciava o Inferno do Purgatório era a barbaridade das penas e a eternidade, um padecimento irrevogável que interditava o Paraíso às almas caídas no primeiro.

Lembro-me dessas pregações sobre os horrores a que os pecadores seriam condenados se expirassem em pecado mortal; do fogo do Inferno; do azeite fervente; dos gritos de pavor das almas que o Demo frigia, em delírio, no caldeirão onde as mergulhava com o garfo de três dentes; do cheiro a enxofre; do eterno e inapelável sofrimento.

Com ameaças, advertia para o perigo do adiamento do batismo dos filhos, as mães eram sempre as responsáveis, apesar da obediência que deviam aos maridos, e o Limbo era o destino dos não batizados, com enterro na parte não benzida do cemitério. Era um local de tédio, triste e silencioso, de eterna melancolia, sem Deus nem Diabo.

Quando o papa Bento 16 aboliu o Limbo, por pudor ou sumiço da certidão do registo predial, lembrei-me da estupefação da menina Aurora quando perguntei como cabiam lá tantas almas. O Limbo era o destino de todos os finados sem batismo, a única terapia do pecado original, e havia imensos mortos antes de João Batista testar o batismo em Jesus, seu primo pelo lado da mãe, no rio Jordão. Disse que era mistério, a explicação habitual para todas as dúvidas, vinda de quem só tinha certezas.

Durante alguns anos julguei os frades mais horrendos do que o clero secular, sem pensar que era igual a farinha de que eram feitos e comuns os dogmas, antes de recusar a fé que me ensinaram e de me libertar do medo, cura que leva já seis décadas, sem recidiva.

Assim, depois de cumprido o ciclo biológico, vedadas a ascensão ao Paraíso e a descida ao Inferno, garanti a defunção no planeta em que nasci. 


https://ponteeuropa.blogspot.pt/2017/07/as-catequistas-e-os-frades-cronica.html

terça-feira, 25 de julho de 2017

Khalil Gibran - Os Filhos

* Khalil Gibran

Os Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eugénio de Andrade - Os Amigos

Eugénio de Andrade


Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.


Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

terça-feira, 18 de julho de 2017

Corto Maltese, 50 anos depois

. . .


Francisco Louçã

18 de Julho de 2017, 08:24

Por


Corto Maltese, 50 anos depois

P
arece que Mitterrand, perguntado sobre que personagens o impressionavam ou o seduziam, apontava para Corto Maltese. Matreirice, seria uma imitação mais elegante, mas escassamente menos narcísica, de um De Gaulle que afirmava que só temia a concorrência da popularidade de Tintin. Cada um vinha do seu tempo e, se ambos sobreviveram com um “perfume de lenda”, como escreve Umberto Eco sobre Corto, o facto é que foi Hugo Pratt quem marcou a imaginação que trespassa as fronteiras do espaço e da imaginação. Por isso, Corto Maltese é o herói moderno que sobrevive à sua contemporaneidade.

Talvez as pistas sobre este marinheiro maltês, filho de uma cigana de Sevilha e de outro marinheiro perdido, que nasceria em 1887 e cresceria no bairro judeu de Córdoba, ou seja, sem pátria, assistindo depois às guerras inaugurais do novo século, estejam por aí espalhadas: Italo Calvino participara na preparação de um guião de um filme, “Tikoyo e o tubarão” (1962, Folao Quilici), sobre uma criança que fala com o seu amigo tubarão, e horizontes oníricos desse tipo foram sendo explorados por muitos autores (veja-se a “Balada” ou “Mu”); e, evidentemente, a literatura de viagens aventurosas, de Rimbaud a Jack London, povoara a juventude de Hugo Pratt. Pratt, aliás, cresceu na Etiópia, viveu em Buenos Aires e Veneza, e sobretudo, percorreu as fábulas em que se mistura com Corto, a que dá forma no dia 10 de julho de 1967, com “A Balada do Mar Salgado” – fez agora cinquenta anos.
O maravilhamento de algumas figuras cimeiras da literatura com a banda desenhada, mesmo que a vissem como género menor, também não é de hoje e não se inventou certamente com Pratt. Steinbeck, que não era modesto, adivinhava provocatoriamente um Nobel para Al Capp, pela força do seu Li’l Abner, a representação encantatória do mundo rural norte-americano (e de uma simplicidade desarmante que levava a água ao seu moinho). Umberto Eco dedicou-se aos Peanuts e a Charlie Brown num livro, “Apocalípticos e Integrados” (edição portuguesa na Relógio d’Água), em que descreve os enquadramentos de cinema na tira do desenho.
Pode-se perguntar então de onde vem o ciúme ou a curiosidade que escritores de mérito têm da banda desenhada. No caso do sucesso de Pratt, percebe-se de onde vem essa sensação: é que Corto Maltese é mesmo um romance em forma de apresentação gráfica. Aliás, Pratt explora decididamente esse vínculo e pisca o olho à literatura clássica: Pandora lê Melville, Slutter lê Rilke e Shelley, Corto cita Conrad e a “Utopia” de More e, ao atravessar as mitologias (célticas, etiópicas, caribenhas, argentinas, venezianas, o vodoo ou o que lhe apetece), ao escolher com que se cruza (Butch Cassidy, o Barão Vermelho, Tiro Fixo, mas também Hemingway, Hesse, Joyce), vive aventuras que transcendem os limites do tempo. Nenhum romance pode pedir mais, se os traços são marcados, se as personagens vivem a sua vida, se nos surpreende, então é a melhor literatura. É certo que, sendo desenho, deciframos melhor nessas páginas alguma coisa do autor (Eco conta que a sua filha pequena, apresentada a Pratt, disse que ele era Corto), e portanto a mentira da literatura é vivida à nossa vista.
Mas Pratt morreu há vinte anos. Corto, que é mais teimoso, continua agora com o desenho dos espanhóis Juan Diaz Canales (Blacksad) e Rubén Pellejero, em “Sob o Sol da Meia Noite”, já editado em Portugal (Arte de Autor, 2017), anunciando-se um segundo livro desta dupla, “Equatoria”. Discutir-se-á se outro escritor pode continuar “Os Maias” ou “A Guerra e Paz” e dir-se-á que não pode. Mas, neste atrevimento, Corto cruza-se com Jack London, encontra rebeldes irlandeses, sonha com Rasputine, destrói uma rede de tráfico de mulheres, percorre o Yucon – e nós imaginamos o resto e aceitamos a aventura.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/18/corto-maltese-50-anos-depois/

domingo, 9 de julho de 2017

Alexandre O’Neill - Minuciosa formiga

* Alexandre O’Neill


Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.


"Formiga Bossa Nova" - do álbum "Adriana Partimpim" de Adriana Calcanhotto. 
Música original de Alain Oulman, adaptada do poema de Alexandre O'Neill "Velha fábula em bossa nova", originalmente cantada por Amália Rodrigues.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Mário Henrique Leiria - Rifão quotidiano

Mário Henrique Leiria 



MÁRIO VIEGAS diz “Uma nêspera que fica deitada”. 
Adaptado de Mário Henrique Leiria, Novos contos do gin tonic, 1974


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece


Mário Henrique Leiria, Novos Contos do Gin, 1978, p. 31


______________________
(1) Rifão: ditado popular, provérbio.

domingo, 2 de julho de 2017

José Fanha - BALANÇO PROVISÓRIO

* José Fanha


Estamos mais gordos mais magros
talvez mais denso
ou mais pesado o nosso olhar
temos pressa de ternura
angústias de vez em quando
e umas contas de telefone atrasadas
para pagar.

Temos falta de cabelo
três ou quatro cicatrizes
sofremos de inquietação.
Muitas vezes nos disseram
como é rápido o deslize
mesmo assim nunca deixámos
de dar corda ao coração.

Daqueles que já partiram
guardamos silêncio e nome
e uma improvável mistura
de amargura e rebeldia
nas palavras desordeiras
que dizem redizem cantam
relembrando dia a dia
como é feita de azinheiras
a capital da alegria.

Muitas ondas já morreram
outras tantas vão nascer
muitos rios já se cansaram de correr até á foz
águas claras que se foram
outras águas se turvaram
e agora restamos nós.

Somos muitos somos poucos
calmamente radicais
sabemos vozes antigas
trazemos a lua ao peito
amamos sempre demais.

Neste caminho tomado
fomos traídos trocados
vendidos ao deus dará.
Nem por isso desistimos
e assim nos vamos achando
perdidos de andar às voltas
nas voltas que a vida dá.

Somos uns bichos teimosos
peixes loucos aves rindo
plantas poetas palhaços
e portanto resumindo
somos mais do que nos querem
estamos vivos
somos lindos.


Ferreira Fernandes - Eu apagava

* Ferreira Fernandes

 Um amigo, bom e experimentado repórter, disse-me, um dia: "Nunca estendas o microfone a um futebolista que sai do campo para ser substituído." Como raramente estendi um microfone e todos os jogos que vi foram quase sempre sentado, ora em bancada ora em sofá, percebi que o velho jornalista estava a debitar um conselho geral. Ele ainda me disse: "Depois de se andar a correr 70 minutos o cérebro está demasiado oxigenado, ou de menos..." Aquela dúvida entre duas situações opostas - vinda dele, que mais depressa dissertaria com exatidão sobre isquemia cerebral, e assim - confirmou-me que só aparentemente estávamos a falar de as substituições no futebol serem vividas com a cabeça a não funcionar como deve ser... O meu amigo falava duma lei universal para quem pergunta com a vontade de ouvir uma resposta autêntica.

Autêntica, isto é, dada por alguém sabendo o que está a dizer e em condições de saber que, depois de dita para um jornalista, a resposta ganha asas e atinge ouvidos mal-intencionados que eu sei lá. Erra o leitor que pensa que esta minha crónica é sobre assuntos de jornalismo, normas e conselhos para uma corporação. Também é, mas o sujeito da crónica é o abusado pelo jornalista. O indivíduo a quem se aponta um microfone, sem ser prevenido de que aquilo dispara.

Quem diz futebolista, diz peixeira. Mais abaixo, publico um discurso recente de uma mulher para jornalista, testemunho dado com cara e nome. Não são imagens como as do ex-ministro Miguel Macedo, exposto durante um interrogatório judicial, falando para uma câmara que ele pensava ao serviço da lei mas acabando por fornecer um esgoto. Essas imagens, a do ex-ministro, são fruto de duas anormalidades: a irresponsabilidade judicial e a canalhice de jornalistas. Essas, embora tão feias, de certo modo tranquilizam-nos, porque são anomalias, desvios. Mas, o outro, o discurso com que a peixeira foi apanhada na curva, é mais grave. Porque foi publicado e transmitido, em televisão e site de jornal, sem intenção de a ferir e sem se enganar a senhora com manhas. Coisa aparentemente e, quase de certeza, com vontade de ser limpa. Tanto que poderia ter sido publicada e transmitida por qualquer outro jornal português e televisão. Neste meu jornal também. E é esse o ponto: banalizou-se não nos interrogarmos sobre o que estamos a falar quando estamos a falar.

A comerciante e a sua carrinha de distribuição de peixe e fruta passaram pela estrada N-236 naquele dia em que houve ali tantas mortes. Dias depois, sempre a trabalhar, voltou ao local e falou para a câmara e para os microfones. A situação não configura o exemplo do futebolista apanhado com os bofes de fora, com mais ou menos oxigénio no cérebro. Mas, eu já o disse, aquele exemplo do meu amigo não era só para a vizinhança das quatro linhas do relvado. A senhora testemunha de forma emocionada, soluça por vezes. Não, ela não estava a falar de postas de pescada, mas de coisa sua, funda. E disse o que não devia.

Ela disse, cara filmada, nome na legenda, com a carrinha que há de continuar a parar entre os seus amigos e clientes, narrando como conduziu na estrada entre o fumo e o fogo. Disse: "Foi então quando entrei naquela fúria. A partir daí foi tudo quanto eu encontrava pela frente para me tentar salvar. Lembro-me de bater em vários carros a arder [palavras embargadas, soluço], não sei se os acabei de matar. Mas se os acabei de matar peço... peço desculpa porque ali era salve-se quem pudesse."

O vídeo, no jornal onde foi publicado, puxou para título o discurso direto, entre aspas, assim: "Se os acabei de matar peço desculpa, mas ali era o salve-se quem puder!" É quase exatamente o que a senhora disse, com uma emenda talvez gramaticalmente melhor. Em vez de "ali era salve-se quem pudesse", que ela disse, escreveu-se "ali era o salve-se quem puder." Interessante o cuidado na formulação gramatical quando se negligenciou, ou pior, deu-se demasiada atenção - até se chamou para título - ao que foi dito.

A senhora disse o que quis dizer, certamente sem ter sido coagida e sem ter sido endrominada para o dizer. Não é esse o ponto. E falou dias depois do acontecimento, sem estar no calor da ação, é certo. Mas não falava só para as amigas e clientes, algumas que até sabem quanto ela foi valente e podiam recolher-lhe as palavras, mesmo as perigosas, com a sabedoria que se reserva à conversa entre próximos.

Não, ela não falava para os seus. Ela estava a falar a um microfone e uma câmara - para um palavrão, multimedia - que serviriam de extraordinário altifalante ao que ela dizia. Sobretudo o indizível. A mulher que falava estava ciente dessa dimensão? E das traduções todas que as suas palavras teriam? E das palavras que mais especialmente seriam escolhidas pelos ouvidos estranhos (e para título, pelos jornalistas)? Saberia ela que com os aparelhos que lhe puseram à frente, às palavras o vento não leva, duram mesmo depois de se esquecerem os acontecimentos que as motivaram?

Enfim, a senhora interrogou-se com a prudência devida? Sabia de tudo, como todas as nuances com que seria ouvida, do que estava a falar quando estava a falar? Duvido. Mas os jornalistas sabiam. Todos, na cadeia que levou da recolha das palavras até à publicação e difusão, sabiam do extraordinário testemunho que aquilo era.

E, sabendo, deviam, vou dizer uma iconoclastia para o negócio: deviam apagar. Eu apagava as  Palavras da senhora. O meu critério é simples: se fosse um dos meus a dizer aquilo, eu apagava.


http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/eu-apagava-8602192.html

sábado, 1 de julho de 2017

Miguel Hernández - Soledades me quita, cárcel me arranca…

* Miguel Hernández


NO te asomes
a la ventana,
que no hay nada en esta casa.
Asómate a mi alma.
No te asomes
al cementerio,
que no hay nada entre estos huesos.
Asómate a mi cuerpo.

(De ‘Cancionero y romancero de  ausencias’. 1938-1941)