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sexta-feira, 5 de junho de 2020

Gonçalo M. Tavares - O livro

* Gonçalo M. Tavares

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do
jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho,
o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Gonçalo M. Tavares - Diário da Peste. Alguns idosos saem para a rua de forma ostensiva



* Gonçalo M. Tavares
Diário da Peste,
14 Abril

15.04.2020 às 7h22

Alguns idosos saem para a rua de forma ostensiva.
Há quem fale numa espécie de coragem alucinada.
Um quase suicídio, um para-suicida.
Nos mais velhos na rua, uma lucidez - mas com os olhos maiores do que o corpo.
Uma gula insólita, perigosa. Os velhos querem viver.
“Reino Unido. Chamadas para agência de apoio à vítima de violência doméstica disparam em todo o território”.
Aumentam os crimes na casa, diminuem no exterior.
Uma necessidade de violência que se desloca do interior para o exterior, do exterior para o interior.
Índia prolonga o fechamento em casa por tempo indeterminado.
E Argentina prolonga quarentena até 27 de abril.
Fazer o cálculo: talvez a violência geral do mundo seja uma variável fixa.
Se somarmos os crimes, dentro e fora, obteremos sempre o mesmo resultado.
É uma hipótese. Investigar isso.
Especialista em Homeopatia garante que “estímulo vibracional melhora os sintomas do coronavírus”.
Em quarentena mantenha o número de refeições, mas reduza as porções.
Ou: mantenha as porções, mas reduza as refeições.
No Rio de Janeiro, um militar idoso, um general, andava pela ciclovia com uma pistola na mão.
Tinha interrompido o isolamento em casa. Talvez já não aguentasse.
Estava com um surto, diziam.
Gritava que queria falar com os filhos.
Chegou mais tarde um dos filhos que o acalmou.
Orwell: “O importante não é mantermo-nos vivos, é mantermo-nos humanos.”
Cary Grant e Ingmar Bergman no filme “Notorius” de Hitchcock.
Um beijo de dois minutos, perseguição e suspensão mútua.
Um dos beijos mais longos do cinema.
Alguém comenta essa cena: tens três opções: ou me beijas, ou te beijo, ou nos beijamos.
Uma amiga do México conta que os jovens de classe média e alta fazem corona parties.
18-20 anos.
Mas alguns estão a morrer porque são obesos.
Comemos de forma desequilibrada, diz.
Comemos mal há muitos anos, diz ainda.
Uma entrevista de 2017 ao Papa Francisco.
O mau humor não é exemplo de santidade, afirma o Papa.
E diz: “às vezes pedem-me um exemplo de beleza simples, que ajude as pessoas a serem mais felizes.”
E o Papa levanta dois dedos e murmura: o sorriso e o sentido de humor.
O sorriso, sobretudo quando é gratuito, acrescenta.
“Governador do Rio de Janeiro infetado.”
O número de mortes em Nova Iorque ultrapassa as 10 mil.
Economia mundial vive a pior crise desde a Grande Depressão, avisa o FMI.
A palavra problema vem do grego.
Em grego problema significa promontório.
Uma elevação que entra pelo mar dentro. E também obstáculo.
À volta do problema não há chão, não há sítio para pôr os pés.
Podes discursar ou gritar, mas não te deves mexer.
Mantém-te quieto até encontrares a solução.
A solução é ter terra por baixo dos pés.
Não se cair enquanto se anda.
Eu faço equilíbrio num muro de 15 cm de altura.
A Jeri concorda com a cabeça não sei com quê, e a ferida da Roma melhora.
Eu depois fico parado e espero.
Não cair já é bom, os dias não estão para acelerações.
“Quero fazer uma confissão pessoal”, disse o Papa em 2017. “Todos os dias depois de rezar as orações principais, rezo a oração do mártir Tomás Moro para pedir sentido de humor.
Oração que começa de uma maneira que faz rir, diz o Papa, sorrindo:
“Dá-me Senhor, uma boa digestão.
Mas também algo para digerir”.
“Roger Waters emociona-se a tocar versão de John Prine, músico que a covid-19 vitimou.”
"Tenho saudades tuas, meu irmão", diz Roger Waters.
Rezar para pedir sentido de humor a Deus.
O incêndio perto de Chernobyl está controlado.
China promete não discriminar africanos que vivem no país.
China inicia testes clínicos de duas vacinas em seres humanos.
“Porque é que os países liderados por mulheres parecem responder melhor à crise do coronavírus”, uma reportagem.
Alemanha, Taiwan, Nova Zelândia, etc., como exemplos.
A repetição do amo-te, amo-te, é absurda - diz Barthes.
Mas não é absurda, diz Barthes, porque a linguagem nos apaixonados não é linguagem, é um toque de pele.
Parece que estão a falar, mas estão a tocar.
Nestes dias, isso é evidente.
Sul de Itália. Nápoles: filas enormes de homens pobres.
Uma fila em frente a uma igreja, são recebidos por homens protegidos de alto a baixo e vestidos de branco.
Entregam um saco de comida a cada um.
A igreja nos momentos duros deixa de ser um edifício e sai para o exterior.
Aumenta de comprimento, largura e altura.
Gosto destes versos do Nicanor:

“17 elementos subversivos
foram surpreendidos ontem
nos arredores de La Moneda
transportando laranjas”.

Que o dia nos dê boa digestão, mas também algo para digerir.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Gonçalo M. Tavares recebe Prémio do Melhor Livro Estrangeiro publicado em França

Literatura

22.11.2010 - 20:06 Por Alexandra Prado Coelho
É uma "grande honra" ter o nome "numa lista de vencedores que inclui grandes nomes da literatura e livros míticos", disse ontem Gonçalo M. Tavares, numa breve conversa telefónica com o PÚBLICO, pouco depois de terminar a cerimónia em que recebeu o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro publicado em França em 2010 pelo seu livro Aprender a Rezar na Era da Técnica, editado em Portugal pela Caminho.
Gonçalo M. Tavares  
Gonçalo M. Tavares  (Nuno Ferreira Santos)



E quando fala em "grandes nomes da literatura e livros míticos", Gonçalo M. Tavares não está a exagerar: o prémio, criado em 1948 por Robert Carlier e André Bay e patrocinado pelo hotel parisiense Regency Madeleine, distinguiu obras como O Homem Sem Qualidades (1958), de Robert Musil, ou Cem Anos de Solidão (1969), de Gabriel Garcia Marquez, e outros autores como Kawabata, Soljenitsin, Guillermo Cabrera Infante, John Updike, Adolfo Bioy Casares, Mario Vargas Llosa, Günter Grass, Salman Rushdie, Orhan Pamuk ou Philip Roth. Até hoje só outro autor português venceu este prémio: António Lobo Antunes.

Trata-se de um prémio com "uma história invulgar de qualidade" e Gonçalo M. Tavares quer dedicá-lo à literatura de língua portuguesa. "É bom este tipo de prémios, com este prestígio, de vez em quando pararem na língua portuguesa", diz. E se isso acontece, sublinha, "tem muito a ver com a qualidade da literatura de língua portuguesa".

Aprender a Rezar na Era da Técnica (quarto romance da série O Reino, depois de Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém) é o sétimo livro do escritor editado em França, onde tem sido "recebido com muito entusiasmo", conta. E isso é particularmente importante porque França "é um país onde se traduz muito e com muita qualidade".

Antes de conquistar o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro, o mesmo livro fora já finalista de outros dois prémios literários de grande prestígio, o Femina e o Médicis.

Sendo "um dos romances mais densos" que escreveu, o livro, que foi traduzido para o francês por Dominique Nédellec, "tem tido um percurso muito interessante" também noutros países, nomeadamente o Brasil.

O júri que decidiu atribuir-lhe o prémio é composto por André Bay, Daniel Arsand (responsável pela literatura estrangeira nas Éditions Phebus et Auteur), Manuel Carcassonne (director editorial das Éditions Grasset), Gérard de Cortanze (escritor e editor da Gallimard), Nathalie Crom (responsável pelas páginas de literatura da Telerama), Solange Fasquelle (escritora e membro do júri do prémio Femina), Anne Freyer (editora de literatura estrangeira da Seuil), Christine Jordis (escritora e editora da Gallimard, também membro do júri do Femina), Jean-Claude Lebrun (do L"Humanité), Joseph Mace-Scaron (director do Magazine Littéraire), Ivan Nabokov (editor da Plon), Joel Schmidt (escritor) e Laurent Ebzant (director-geral do Hyatt Regency Paris -Madeleine).

Notícia substituída às 13h21 de 23 de Novembro
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