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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

António Reis - Poemas Quotidianos 6 [Que foi feito de nós]

* António Reis 

6.

Que foi feito de nós
Ah Clara, nada invejes

todos mais ou menos
ficamos tolerados
e aguardando

receando como tu
o desemprego e a velhice

vendo
crescer
 os nossos filhos sem sorrir

António Reis, in “Poemas Quotidianos” 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

António Reis - Também eu trago a saudade

* António Reis

Também eu trago a saudade
nos sentidos
Se dissesse que não era mentira

Também eu perdi um cão
casas
rios

Mas hoje
tenho mulher
amigos
e uma saudade mais real
é que me inspira

domingo, 15 de fevereiro de 2015

António Reis - Poemas Quotidianos 50 [Não é nas mãos]

* António Reis

50.
Não é nas mãos
que desespero

As minhas mãos
só trabalham
e adormecem

esfriam
ou arrefecem

Não desmaiam
nem têm rios

Têm ossos
músculos
e sangue

poros também
por onde transpiro

mais nada têm

"Poemas Quotidianos" por António Reis 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

poesia de antónio reis 03


22 de Fevereiro de 2014 às 13:36
* antónio reis

24
Também eu trago a saudade
nos sentidos

se dissesse que não
era mentira

também eu perdi um cão
casas
rios

Mas hoje
tenho mulher
amigos
e uma saudade mais real
é que me inspira


27
Conheço
entre todas
a jarra que enfeitaste

têm o jeito
com que compões o cabelo
as flores
que tocaste


30
Que semente
procuras
no sal

areia
ou neve

pérola

Não contemples
é gosto

é água salgada


ao de leve


32
Olhas tu a chuva
e são linhas de prata

agulhas compridas
picando
a vidraça

Porque
te
debruças


34
Não é o vento
não
são gritos amiga

como eu
tu sabes
o que é uma ferida

mas é bom sentir
a tua mão na minha

porque
queres
mentir


35
Já não fazes
renda

não queres
que
nos fios

o coração se prenda

Fogem os teus dedos
das malhas para as folhas

queres que nos livros
os teus olhos teçam


37
Só pelos joelhos
sentimos as estações

com saudades de água

violeta

com saudades
de árvores

velhas
a nascer

Ah natureza dos sentidos
perdida

e da terra

penso
olhando o trânsito
rápido
da janela


38
Também eu gosto da noite
como vinho

também eu gosto das rosas
e do sal

também eu caminho
sonho
e imagino

sou natural

mas trago nos pés um espinho
o bem
o mal


41
Partem todos

o abandono os leva
um barco
o medo

Quando voltam
para nenhum de nós
é um segredo


43
O mesmo pensamento
a mesma ira

Para que serve a mão

Perde o sentido
o próprio
 sofrimento

o coração
a lira


44
Não esqueço os mortos

Não esqueço os heróis

Não esqueço o luto das famílias

todos silenciosos

Denuncio publicamente a nossa cobardia

e quem mente


45
E digo
que são também homens
os traidores

embora os não ame

embora
sobre eles
silêncio
e dores

derrame


46
Aos que perseguem
um conselho
um aviso

pensem
com tempo
no dia do juízo

justo
certo

um espelho
de vidro


47
E

àqueles que chamaram agentes
aos amigos
um pesadelo

em sonho

a febre
o gelo

a nódoa numa ferida

Só depois o despertar

calvos

só depois a honra
perdida

o  dia


Esta fotografia pertence ao arquivo de Margarida Cordeiro e foi retirada do catálogo "António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra", organizado por Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo, pág. 173, publicado pelo Cineclube de Faro em 1997.  in http://antonioreis.blogspot.pt/2004/10/049-antnio-reis-em-trs-os-montes.html
Esta fotografia pertence ao arquivo de Margarida Cordeiro e foi retirada do catálogo "António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra", organizado por Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo, pág. 173, publicado pelo Cineclube de Faro em 1997. in http://antonioreis.blogspot.pt/2004/10/049-antnio-reis-em-trs-os-montes.html

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

poesia de antónio reis 02

19 de Fevereiro de 2014 às 12:42


* António Reis

9
Poemas quotidianos
como o sol
como a noite

como a vontade de comer
e o sono

como as preocupações
e o amor

e porque saio à rua
e trabalho
diariamente

11
Na cidade onde envelheço
não há brisa
há vento

A brisa é para o amor
e para os cabelos

Na cidade onde envelheço
a roupa tem de secar
durante a noite

os operários levantam-se cedo

e o seu amor é simples
e no trabalho


14.
Não amo a cidade
por ser grande

Amo-a
por ter nascido sem mistério
e ter criado
a sua própria natureza

embora os olhos e o coração
sofram quotidianamente
por imperfeições e mágoas


16.
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés

caindo sobre as estátuas
e a nostalgia

chega a ser morna

com fumo e álcool
na garganta

Até os homens
passarem junto aos vidros

Reais Molhados

Sem emoções instruídas
Pensando em remédios
e prestações

grisalhos
sem serem velhos

e falando sós
sem serem loucos


17
Hei-de entrar nas casas
também

Como o silêncio

A ver os retratos dos mortos
nas paredes
um bombeiro um menino

A ver os monogramas bordados nos lençóis

os vestidos virados
os vestidos tingidos
os diplomas de honra
as redomas

E a caderneta dos Socorros Mútuos
e Fúnebres

em atraso


18.
Hei-de entrar nas casas
também
como o luar

A ver as faltas de roupa interior
e de cama

os rostos preocupados
com os avisos da luz e da água

com a máquina de petróleo apagada
jornais nas paredes
e um pássaro na varanda
a cantar
ao lado duma flor


21
Um espaço interior
criei
nestes poemas

onde estalam os móveis
e os sentidos

onde as ideias
a meia-luz
respiram

e a vida
as imagens
não se reflectem

nos vidros


23
Eu não voo
ando

quero que me oiçam


069. ANTÓNIO REIS EM TRÁS-OS-MONTES (II)
(...) E com uma imagem que ajuda a caracterizar, como pessoa, o cineasta.
Esta fotografia pertence ao arquivo de Margarida Cordeiro e foi retirada do catálogo "António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra", organizado por Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo, pág. 95, publicado pelo Cineclube de Faro em 1997.

in
http://antonioreis.blogspot.pt/2005/06/069-antnio-reis-em-trs-os-montes-ii.html
069. ANTÓNIO REIS EM TRÁS-OS-MONTES (II) (...) E com uma imagem que ajuda a caracterizar, como pessoa, o cineasta. Esta fotografia pertence ao arquivo de Margarida Cordeiro e foi retirada do catálogo "António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra", organizado por Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo, pág. 95, publicado pelo Cineclube de Faro em 1997. in http://antonioreis.blogspot.pt/2005/06/069-antnio-reis-em-trs-os-montes-ii.html