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quinta-feira, 4 de março de 2010

O desafio do escombro: Nação, identidades e pós-colonialismo na literatura da Guiné Bissau



 

Novidade editorial: O desafio do escombro: Nação, identidades e pós-colonialismo na literatura da Guiné Bissau

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Moema Parente Augel

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Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2007
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Moema Parente Augel nos presenteia, agora, com seu belo e consistente ensaio O desafio do escombro: nação, identidades e pós-colonialismo na literatura da Guiné Bissau, na origem sua tese de doutoramento. Desde o título, a autora nos leva a nós, seus leitores, a ler, conforme nos ensina Barthes, “levantando a cabeça”, para, cúmplices de seu gesto crítico, desafiarmos os próprios escombros com os quais, como sujeitos culturais de países ditos periféricos, temos de nos confrontar a cada passo.
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Muito embora o objeto do olhar de Moema seja a literatura da Guiné Bissau, literatura esta sobre a qual, de modo lúcido e percuciente, se debruça desde suas primeiras manifestações até a contemporaneidade, percebe-se que a obra ultrapassa seu próprio objeto, ao se fazer um espaço de reflexão sobre três questões básicas que mobilizam a todos nós, ou seja: “nação, identidades e pós-colonialismo”. Por esse motivo, o ensaio vai além de seu objetivo primeiro – muito importante, aliás, já que há poucas obras sobre a literatura guineense – para alargar-se e nos ajudar a entender melhor as questões mais cruciais de nosso tempo, marcado pela globalização e pela pulsão neoliberalizante, ambas instrumentos impositivos que achatam as diferenças e reforçam as hegemonias ainda hoje infelizmente vigentes. Somos levados, pela voz crítica da estudiosa, a repensar como se faz doloroso o adiamento dos sonhos e como continua a fazer sentido a luta por reforçarmos as nossas faces identitárias, mesmo que seja no espaço da obra literária, seguindo o exemplo dos escritores cujas obras são por ela lidas e analisadas de modo apaixonado, sem que se abandone o rigor científico.
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Percorrendo O desafio do escombro, vemos surgir, frente aos nossos olhos, a Guiné Bissau, rasurando-se o desconhecimento de muitos de nós sobre essa nação africana, nossa irmã na frátria da língua portuguesa. Deparamo-nos, assim, com a geografia física e humana do país, surpreendida nos traços que a definem; nos sujeitos humanos que a compõem; nas estórias, cantos e contos que habitam o imaginário dos seus povos resgatados em sua multiplicidade lingüística e cultural de base. Tudo se projeta no espelho do texto crítico, pela leitura cúmplice, rigorosa e apaixonada de Moema Parente Augel, que tenta, por ela, leitura, como propõe Schneider, “recobrir o mais possível a escritura” que a mobiliza. Com certeza a Guiné Bissau lhe agradecerá por seu gesto amoroso e solidário e o leitor atento também a ela agradecerá por lhe propiciar o reconhecimento de seu próprio jogo especular identitário.




O DESAFIO DO ESCOMBRO
é um estudo pioneiro de Moema Parente Augel que trata da literatura contemporânea da Guiné-Bissau, numa abordagem plural à luz dos Estudos Culturais, cruzando conhecimentos e questionamentos sobre ancestralidades, identidades e resistências culturais às velhas e novas formas de colonialismo. A autora, neste ensaio lúcido e consistente, acompanha os diversos momentos da poesia e da prosa guineenses, enquanto espaço de projeção identitária, detectando o papel que assumem seus escritores que, desconstruindo a história hegemônica, se empenham na afirmação da nacionalidade, através das representações simbólicas que fazem a singularidade dessa literatura quase desconhecida, mesmo do público de língua portuguesa.
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A conjuntura literária da Guiné-Bissau dos anos 90 em diante é decididamente marcada pela força da dicção de Abdulai Sila e o tratamento do inverso em Mistida; pela recuperação da memória ancestral no cantopoema de Odete Semedo No fundo do canto; pelo acerto de contas de Filinto de Barros com os “Comandantes” e a visão dos esquecidos em Kikia Matcho; pelo riso irônico, divertido e participante das crônicas de Carlos Lopes em Corte Geral, assim como pela multifacetada busca identitária e pela afirmação da diferença nos poemas de Tony Tcheka, Félix Sigá, Huco Monteiro, Respício Nuno, entre outros.
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Moema Parente Augel, em O DESAFIO DO ESCOMBRO, analisa e apresenta esses autores e seus textos descolonizados, onde os ecos da opressão colonial e seus prolongamentos transparecem no tecido literário, interligando as práticas de resistência e recuperação da história à arquitetação do futuro. A obra ressalta como esses escritores partem dos destroços de uma utopia em ruínas, promovendo o ressarcimento da auto-estima e do respeito; lutam contra a anulação cultural do acervo simbólico tradicional e a homogeneização redutora das diferenças que constituem a especificidade guineense; apontam pistas para a revivência do espírito identitário da comunidade nacional. Elevando suas vozes testemunhais, reabilitam a história dos vencidos e plasmam, com seus textos, a representação simbólica de uma comunidade de destino, de história e de cultura: a Guiné-Bissau;
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Nota sobre a autora:
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Moema Parente Augel é Licenciada em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), Mestra em Ciências Humanas pela mesma Universidade e Doutora em Literaturas Africanas pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Radicada na Alemanha, foi professora de Português e Cultura Brasileira nas Universidades de Bielefeld e Hamburgo, encontrando-se aposentada desde 2006. Dedica-se há décadas à literatura afrobrasileira e à literatura guineense. Tendo vivido na Guiné-Bissau entre 1992 e 1998, vem publicando uma série de estudos a respeito, destacando-se a Nova Literatura da Guiné-Bissau ((Bissau: INEP, 1998, 466 p.). Outras publicações: Ora di kanta tchiga. José Carlos Schwarz e o Cobiana Djazz (1997); Schwarze Prosa. Prosa Negra. Afrobrasilianische Erzählungen der Gegenwart. (1992); Schwarze Poesie. Poesia Negra. Afrobrasilianische Dichtung der Gegenwart (1988, 1988².); Visitantes estrangeiros na Bahia oitocentista (1980).
Laura Cavalcante Padilha



Resumo


A busca identitária na África como nas Américas, se quiser escapar da autocolonização, terá forçosamente que encontrar definições face ao violento processo de anulação das diferenças e das especificidades culturais vivenciadas pelos novos estados.
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Os autores guineenses, com seus textos descolonizados, a partir tanto da recuperação da memória ancestral pelo jogo intertextual com as tradições, quanto pela desconstrução e reterritorialização da herança colonial prolongada pelo neocolonialismo e pelo autocolonialismo, representam uma resposta e uma reação, no nível da fabulação e da apropriação simbólica, à dependência dos parâmetros ocidentais e hegemônicos.
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A literatura guineense oferece fecundos elementos para uma reflexão sobre a identidade nacional e acerca de como o discurso estético-literário nos contempla com construções de significados de nacionalidade que substituem, ou podem pelo menos substituir, a falência (e a falácia) do discurso ufanista, autocelebrante do poder autoritário, ainda ancorado nas glórias das lutas libertárias.
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A força da dicção de Abdulai Sila em Mistida, o brado de Odete Semedo em No fundo do canto, o acerto de contas de Filinto de Barros em Kikia Matcho, as crônicas divertidas e irônicas de Carlos Lopes, assim como os poemas de Huco Monteiro, Respício Nuno, Félix Sigá ou Tony Tcheka, entre outros, marcam a conjuntura literária da Guiné-Bissau dos anos 90 em diante e mudam os contornos da figuração da identidade nacional, neste momento em que as promessas já nada dizem nem nada representam.


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SUMÁRIO
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PREFÁCIO
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1 OS CAMINHOS DA MOTIVAÇÃO, DA METODOLOGIA , DA ELABORAÇÃO
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Os Estudos Culturais como base metodológica 25
Comunidade de cultura, de história e de destino 32
As etapas e os contornos da elaboração 37
2 O CONTEXTO GEOGRÁFICO, HISTÓRICO E SOCIAL 43
O meio ambiente 43
Panorama histórico 44
A época antes da colonização 44
Primeiros contactos com os portugueses 45
A colonização 49
A luta armada 54
O período pós-independência 56
Antecedentes do conflito armado de 1998-1999 59
Onze meses de guerra e luto 61
Período pós-guerra 64
Situação social do país 66
Os grupos étnicos 70
A questão lingüística 72
A língua guineense 76
O guineense nas manifestações escritas 79
As religiões 85
3 A LITERATURA GUINEENSE: PRODUÇÃO E RECEPÇÃO 93
Guineenses sobre a literatura guineense 94
A literatura guineense em Portugal 98
A literatura guineense no Brasil 104
A literatura da Guiné-Bissau fora do contexto lusógrafo 108
A Guiné-Bissau e sua literatura nos países africanos 115
4 PÓS-COLONIALISMO, NEOCOLONIALISMO, ANTICOLONIALISMO 119
Inocência versus força bruta 121
A máquina de fazer o outro 126
Os espaços do pós-colonial 132
O neocolonialismo e a “lógica imperial” 137
A reação anticolonialista 153
A língua portuguesa - espaço de transgressão 158
Guiné-Bissau: descolonização... e agora? 166
5 LITERATURA COMO APROPRIAÇÃO SIMBÓLICA 171
O processo de entendimento interétnico 172
A apropriação simbólica 175
O desenraizamento na diáspora 176
O estranhamento 181
O espaço vital 186
A construção social de etnia 190
O “nós” e os “fora de nós” 194
Motivos do “desassossego da Guiné” 203
Os poilões vão sangrar de desgosto 211
A ermondadi em perigo 214
A baraka reterritorializada 219
6 LITERATURA E IDENTIDADE CULTURAL 221
O ser nacional 221
Desterrados de si mesmos: a identidade individual 225
Oscilações e incertezas. O “olhar para dentro” de Odete Semedo 226
Félix Sigá, “foz de mil cascatas furiosas” 229
Comunidade de destino: a identidade compartilhada 234
Pascoal D’Artagnan Aurigemma, “poeta soldado”, “poeta proibido” 235
Tony Tcheka e o seu insone “olhar para fora” 241
7 LITERATURA E A NARRAÇÃO DA NAÇÃO 251
“Poesia de africanidade” 252
Desejo de ser nação 255
O não apagar da memória 258
A construção de significados 262
Ver com “os olhos da mente” 266
“Unidade e luta” 271
O discurso literário dos anos noventa: revelando os arquivos do silêncio 274
A visão dos vencidos: Kikia Matcho 278
Fundação da nacionalidade 285
A metonímia da nação: Abdulai Sila e sua Trilogia 288
As três faces de Ndani 289
A terra para onde “a gente pode regressar” 293
O tratamento do inverso: mistidas a safar 298
O espaço da dor e do escárnio: Tcholonadur Odete Semedo 309
“No fundo... no fundo...” 313
O protocolo do horror 319
O “Consílio dos Irans” 322
Os “embrulhos” 328
Retraçando territorialidades 337
8 CONCLUSÕES: O DESAFIO DO ESCOMBRO 339
REFERÊNCIAS 357
Obras literárias de autores guineenses 357
Outras referências 359
Sites consultados 379
APÊNDICES 381
Apêndice A - Guiné-Bissau - Dados gerais 383
Apêndice B - Cronologia histórica 385
Apêndice C - Indicadores econômicos 388
Apêndice D - Indicadores sociais 389
Apêndice E - Dados culturais 390
ANEXOS 393
Anexo A - Mapa da África 395
Anexo B - Mapa da Guiné-Bissau
Anexo C - Hino Nacional da Guiné-Bissau 397
399 
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Literatura e sociedade na Guiné-Bissau By Antonio Ozaí da Silva

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Literatura e sociedade na Guiné-Bissau

By Antonio Ozaí da Silva
 
por Adelto Gonçalves*
I
Santos, SP – Um país com uma superfície de apenas 28 mil quilômetros quadrados e uma população de cerca de um milhão e meio de habitantes – essa é a república da Guiné-Bissau, uma das dez nações mais pobres do mundo, que emergiu do colonialismo com uma taxa de analfabetismo ao redor de 60%; e uma complexidade étnica e lingüística que ajuda a travar qualquer projeto de coesão nacional.
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Com uma rede escolar em estado precário, é um país que não conta até hoje com nenhuma livraria e dispõe apenas de uma editora privada, além de uma fundação que, mantida por cooperação sueca, edita livros didáticos. Um país cujo idioma oficial, o português, não é uma língua corrente, já que é falado por menos de dez por cento de uma população, que está dividida em pelo menos 27 línguas étnicas.
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Se há um idioma majoritário, esse é o crioulo, ou língua guineense, que é falado por aqueles que vivem na capital e nos centros urbanos, embora conservem a língua autóctone, da própria etnia, como o principal veículo de comunicação. Por isso, o crioulo é visto com ressentimento por parte daqueles que não o falam, pois é usado apenas por uma sociedade cujos membros, geralmente, cristãos, são mais escolarizados, mais ocidentalizados e assimilados aos hábitos introduzidos pelo poder colonial. E que sempre foram ligados à estrutura estatal e dominam os postos-chaves do governo.
 
Num país assim, é possível encontrar literatura? É, até porque não há povo sem literatura. E literatura de boa qualidade, como acaba de provar a professora Moema Parente Augel, mestra em Ciências Humanas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em Literaturas Africanas pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em O Desafio do Escombro: Nação, Identidades e Pós-Colonialismo na Literatura da Guiné-Bissau (Rio de Janeiro, Editora Garamond, 2007).
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Aliás, diz a professora, a literatura que se faz hoje na Guiné-Bissau “constitui, sem dúvida, um dos poucos veículos e, por isso indispensável, para a demarcação, inclusive dos contornos emocionais, do território dessa comunidade de pensamento e de afetos, para o balizamento das margens de representação manifestadas em função da construção da nacionalidade”. O que explica o subtítulo e aponta para a tese que afirma constituir a literatura que se faz hoje na Guiné-Bissau “um contributo essencial para a construção da nação guineense – e isso através de sua narração”.
II
Para fazer o seu trabalho, a professora Moema tratou de analisar e procurar entender a trajetória da literatura guineense, a partir da leitura das obras de seus escritores mais representativos, detectando o papel que assumem na definição ou redefinição da nacionalidade. E partiu do conceito de Estudos Culturais, disciplina que teve início na Universidade de Birmingham, em 1964, e trata de combinar o estudo das formas e dos significados simbólicos com o estudo do poder, na definição de António Sousa Ribeiro em “Estudos culturais: a globalização da teoria cultural (In: Eduardo Coutinho, org. Fronteiras imaginadas: cultura nacional/teoria internacional. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, 2001, p.256).
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Tendo vivido de 1992 a 1998 na Guiné-Bissau e autora de uma vasta obra sobre literaturas africanas de expressão portuguesa, Moema tem uma visão de conjunto da literatura praticada na Guiné-Bissau nas três últimas décadas, marcadas pela independência em relação ao jugo colonial: trata-se de uma literatura escrita por guineenses, autônoma, sem grandes influências estrangeiras, em que a sensibilidade diante dos mufanesas (azares, má sorte) e da sabura (os prazeres, as delícias) da vida assume muitas faces, diz, explicando que a “cor local” dessa literatura nada tem de exotismo. Antes, exige a necessidade de uma “tradução”, não por questões lingüísticas, mas, sobretudo, pelas idiossincrasias culturais, onipresentes na textura literária.
 
Fazendo a leitura de poetas como Tony Tcheka (1953), Odete Semedo (1959) e Pascoal D´Artagnan Aurigemma (1938-1991) e prosadores como Abdulai Sila (1958), Filinto de Barros (1942) e Carlos Lopes (1960), entre outros, Moema procura delinear toda a trajetória da narração da nação, “a partir da encenação de um mito fundador, onipresente na literatura de combate, com manifestações de dor, de repúdio ao colonialismo e de nostalgia de um tempo anterior, da vida não corrompida, ilesa à civilização ocidental”.
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Essa preocupação está latente, diz a crítica, principalmente, em Kikia Matcho (1997), romance de Filinto de Barros, que passa em revista o passado recente, a partir do enfoque do subalterno, ou seja, daqueles que perderam, os marginalizados, que não têm voz nem direitos, os excluídos, que não são só os que vemos sem rumo nas ruas, mas também aqueles que choram suas mágoas em casa, longe dos outros.
III
Para se perceber um pouco da desilusão que perpassa esse romance, é preciso, porém, que o leitor conheça um pouco da história recente de Guiné-Bissau, um país que emergiu depois de onze anos de luta contra o poder colonialista que, se não podia se rivalizar com as potências européias da época, ao menos dispunha de força suficiente para oferecer resistência a quem tinha ainda menos recursos. Para chegar a isso, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), fundado em 1956, em torno da figura carismática do engenheiro-agrônomo Amílcar Cabral, reuniu alguns idealistas que conseguiram unificar populações heterogêneas e desiguais, levando-as à vitória contra as forças do regime fascista português, em 1973.
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Mas, depois, sem um inimigo comum, com a ascensão dos antigos líderes guerrilheiros ao poder, ocorreu o que se pode chamar de um deus-nos-acuda, em que cada um tratou de demarcar sua zona de influência e de ganhos particulares de seu grupo. Na Guiné-Bissau de hoje, decorridos 35 anos da revolução que libertou o país do regime fascista português, só mesmo os antigos “comandantes” continuam a se vangloriar dos feitos passados e a se aproveitar dessa aura em benefício próprio, valendo-se da participação na luta pela libertação para legitimarem seus atos e conservarem o poder. Porque os demais veteranos também já descobriram, a exemplo da população, que só foram usados para preservar os interesses de grupos bem restritos, já que o país continua tão pobre – ou mais – quanto no tempo do colonialismo. O que é uma tragédia.
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Três décadas e meia depois, basta ver o número de presidentes que o país teve para se constatar o baixo índice de democracia em que o país vive, com eleições sempre contestadas e suspeitas. Depois da presidência de Luís Cabral, que substituiu seu irmão Amílcar Cabral, assassinado em 1973, à frente do PAIGC, oito meses antes da independência, veio João Bernardo Nino Vieira, que chegou ao poder em 1980 por meio de um golpe de estado e permaneceu até 1999, tendo sido deposto depois de uma guerra civil, que incluiu até a presença de tropas do Senegal e da República da Guiné, em menor número, atendendo a apelo de Nino Vieira. Sucedendo a Nino Vieira, houve uma junta militar, cujo chefe, o general Ansumane Mané, foi assassinado em novembro de 2000, quando já não estava no poder.
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Em fevereiro de 2000, com a eleição de Kumba Yalá, do Partido da Renovação Social, imaginou-se que o país poderia trilhar um caminho de recuperação e reencontro com suas raízes, mas logo a população encontrou motivos para novas frustrações, que culminaram com a deposição do presidente em 2003. Depois de um governo de transição, marcado pelo assassinato do chefe do estado-maior das forças armadas, general Veríssimo Seabra, houve as eleições de 2005 que assinalaram o retorno de Nino Vieira ao poder.
IV
Esse desencanto de descobrir que, depois de tanto tempo, já não se pode atribuir todos os males do país aos “tugas” – corruptela de portugas, os colonialistas – é o que perpassa o romance de Filinto de Barros, ele mesmo um participante das lutas de libertação e membro importante do PAIGC e, mais tarde, alto prócer do governo, tendo sido secretário de Estado da presidência, embaixador em Portugal (1978-1981) e ministro da Informação e Cultura, da Justiça, de Recursos Naturais e Indústria e das Finanças. Localizado nas décadas de 1970 e 1980, Kikia Matcho, porém, o que oferece é uma visão dos despossuídos, centrado em torno da morte de um “combatente da liberdade da pátria”, N´Dingui, que terminou seus dias num bairro degradado de Bissau, relegado ao abandono tanto pelos familiares como pelas instituições públicas.
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A trama do romance é tecida de várias decepções: além da de N´Dingui, que morre sem ver realizada a promessa feita aos antigos combatentes de melhor pensão, há a frustração de seus amigos e camaradas de luta no mato que, sem honrarias, sem trabalho, sem reconhecimento algum pelo que fizeram pela pátria, são a imagem da decadência e da desolação: vivem na periferia, lembrando os tempos da luta de libertação, entregues à bebida. Como diz a autora, a obra de Filinto de Barros é “um romance de revisão, de balanço geral de uma época, balanço feito por uma personagem histórica – o autor-narrador – que talvez tenha escolhido esse meio para um acerto de contas com a própria História que ele ajudou a construir”.
V
Dentro do corpus que Moema Parente Augel reuniu, também ocupa espaço importante a obra de Abdulai Sila, engenheiro eletrônico formado pela Universidade de Dresden e o primeiro romancista guineense, que publicou até agora três romances no espaço de quatro anos (1994, 1995 e 1997). Nos três, como diz a crítica, o denominador comum também é a decepção pelo insucesso da política depois da descolonização e a denúncia dos responsáveis pelo fracasso.
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Em A última tragédia (1995), Sila recua até os tempos coloniais, procurando nessa época a origem e as causas dos males atuais, contando a história de Ndani que, depois de trabalhar como empregada doméstica para um casal de portugueses, virou a sexta esposa do régulo de Quinhamel. “Também aqui”, diz Moema, “Abdulai Sila vai de encontro ao discurso hegemônico da época que insistia em pintar os “nativos” como ignorantes, ingênuos, incapazes, justificativa para o paternalismo e a expoliação”.
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Em Eterna paixão (1994), primeiro romance de Guiné Bissau, Sila já deixa explícito esse desencanto com os escombros a que está reduzido o seu país, mas sem se deixar levar pelo conformismo ou pela apatia. Por fim, em Mistida (1997), o autor, como diz a investigadora, empreende uma releitura do processo de formação da nação guineense ao mesmo tempo em que procura estabelecer novos contornos da identidade nacional. E faz uma literatura de denúncia na medida em que coloca a nu a corrupção da classe dirigente, ao mesmo tempo em que dá voz aos excluídos, àqueles que não chegaram lá e sentiram-se desprezados e traídos.

VI
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Na última parte de seu livro, a professora Moema faz a análise de No fundo do canto, da poetisa Odete Semedo (1959), licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigadora, na capital guineense, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas para as áreas de Educação e Formação, hoje, a única mulher escritora de Guiné-Bissau. Nesse livro, Odete reelabora igualmente o fenômeno da guerra civil e seus efeitos morais, recuperando o drama que assaltou a sociedade guineense ao final do século XX.
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Para Moema, todos esses autores – a que se deve juntar também os nomes do romancista Carlos Lopes e dos poetas Tony Tcheka, Huco Monteiro (1961), Respício Nuno (1959) e outros –, cada um a seu modo, tratam de buscar uma interpretação do momento histórico atual, mas principalmente buscam fazer a denúncia da derrota da utopia salvacionista preconizada pelos “donos” do poder, a uma época em que imaginavam que a saída para as sociedades em construção poderia estar no Leste Europeu.
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É daqui que provém o título deste livro: O Desafio do Escombro conta a luta daqueles que procuram sair das ruínas políticas e dos escombros em que o recente conflito bélico transformou a Guiné-Bissau. Metaforicamente, são também de escombros estes tempos atuais – e não só na Guiné-Bissau – em que as utopias já não servem para nada e a sobrevivência é um vale-tudo, um salve-se quem puder.
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* Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
O DESAFIO DO ESCOMBRO: NAÇÃO, IDENTIDADES E PÓS-COLONIALISMO NA LITERATURA DA GUINÉ-BISSAU, de Moema Parente Augel. Rio de Janeiro: Editora Garamond/Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 421, 2007. E-mail: editora@garamond.com.br
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Comentário a um comentário de Ibrahimo Djaura
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Eu não sou o autor o texto mas limitei-me a publicá-lo a partir do site original. Mas teria sido interessante saber a sua opinião em contradição do que no texto se refere. Aliás foi a partir da leitura de "Kikia Matcho" de Filinto de Barros que parti para a descoberta da Guiné-Bissau.  Se quiser fazê-lo, tem o meu blog Ao Sabor do Olhar à sua disposição.
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No meu blog "Ao (es)correr da pena e do olhar escrevi sobre este livro:
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"Li dum fôlego um livro da colecção Autores lusófonos: Kikia Matcho, dum escritor guineense, Filinto de Barros. É completamente diferente dos do Mia Couto, do Pepetela ou do Agualusa. Mostra o desencanto dos homens da Luta, abandonados e esquecidos pelos novos senhores corrompidos, mas na perspectiva dum sincretismo religioso entre o ateísmo marxista, o animismo, o catolicismo e o islamismo."
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Um abraço
Victor Nogueira
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Filinto de Barros e o Kikia Matcho

DJAMBADON

Segunda-feira, Dezembro 26, 2005


Filinto de Barros e o Kikia Matcho








Filinto de Barros: acerto de contas com o passado?

por: Moema Perente Augel

Filinto de Barros afirma que seu romance Kikia matcho não passa de um pequeno exercício de ficção. Nem história, nem sociologia, nem etnologia, nem política, tão somente uma abordagem que se pretende dinâmica do processo de síntese sócio-cultural de um Povo (cf. Barros, 1998, p. 7).
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O título é a designação crioula para o mocho e a essa ave são atribuídas na Guiné-Bissau propriedades diversas: pode ser mensageira do bem e do mal, mas sobretudo é ligada a maus presságios e à má sorte. Através do kikia e da sua simbologia, Filinto de Barros introduz o leitor e a leitora no mundo mágico e mítico africano ao mesmo tempo em que, pela interação das personagens, estabelece a ponte entre o passado e o presente.
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Em seu conjunto, o livro Kikia matcho encerra uma soma de informações sobre o processo da independência e os primeiros passos de um Estado em formação. Essas informações são a razão de ser da obra, a estória constituindo apenas um pretexto. Ao mesmo tempo em que informa, ativo participante que foi da gestação e do momento desse parto, Filinto de Barros mobiliza os diferentes níveis da narrativa, direcionando-os tanto para o exercício dialético da compreensão do processo como para o julgamento dos seus resultados. Informação a nível do passado e interpretação a nível do presente, o romance deixa entrever sombrias perspectivas para o futuro. É sobretudo uma constatação dos acontecimentos contemporâneos com um olhar para o já acontecido, com o fito de esclarecer, explicar a situação atual do país.
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O abandono sofrido pelos antigos combatentes da liberdade da pátria, cujo soldo não basta para um saco de arroz, é mostrado bem cruamente em Kikia matcho e seria um exemplo do desmascaramento intencionado pelo romancista Filinto de Barros.
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Uma lembrança presente no coração do povo, que não faz parte da herança hegemônica, foi ainda evocada por Filinto de Barros que pôs a descoberto o fato do combatente morto ter perpetrado atos menos nobres, vergonhosos mesmos, não coadunando com a aura de heroismo que sempre envolve os "combatentes da liberdade da pátria". O autor ousou assim confessar o lado podre da gloriosa luta da libertação nacional, o abuso nunca mostrado às claras da utilização indevida das armas, evidenciando a perversão da "cultura da guerra", presente não só no campo inimigo. O processo de revirar ou reverter certas ambigüidades morais e factuais, cristalizadas em poderosos mitos patrióticos, faz parte da construção social da realidade, para usar a expressão divulgada a partir de Berger e Luckmann na Sociologia4. Ela é desmontada aqui e confrontada com uma outra visão, oposta e desafiadora.
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Somente alguns poucos meses após a publicação desse romance, a 7 de junho de 1998, como já disse, eclodiu no país uma revolta no seio dos grupos dirigentes, entre representantes dos heróis da libertação transformando-se em guerra aberta e dolorosa que, depois de onze meses de sempre renovados conflitos armados, encontrou uma solução, que esperemos seja duradoura, a 7 de maio deste ano de 1999. Os presságios do Kikia Matcho ou os horrores acumulados em Mistida parece se terem confirmado. O sangrento embate entre fracções do exército nacional e contra o povo que conta entre os mais pobres do mundo, relança o questionamento sobre a legitimidade do regime tido como revolucionário, há quase trinta anos no poder, e sobre seus dirigentes, em grande parte os mesmos desde a independência. O legendário e carismático PAIGC está onipresente no romance de Filinto de Barros. Os donos do poder estão caricaturados até a desfiguração no romance Mistida, de Abdulai Sila. A revolta militar encabeçada pelo chefe do Estado Maior do Exército, General Assumane Mané, contra o governo dirigido pelo Presidente João Bernardo ("Nino") Vieira é expressão da crescente insatisfação e da decepção aqui tantas vezes já exteriorizadas, da parte dos antigos combatentes pela liberdade da pátria, compartilhadas pela grande maioria da população.
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Esses recentes acontecimentos na Guiné-Bissau estão contribuindo para que o discurso oficial hegemônico se esvazie e perca a sua aura, reiterando de forma dramática a triste atualidade da urgência de uma reinterpretação da História, reflexão essa encetada pelos romancistas pioneiros Abdulai Sila e Filinto de Barros.
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Considerações finais
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Todos os escritores aqui referidos têm em comum uma tarefa de recuperação da africanidade e da dignidade perdidas, de procura e de afirmação da identidade nacional: tanto os afrobrasileiros como os guineenses, cada grupo a seu modo, cada autor com seu estilo próprio, com sua voz única e específica. Trata-se de uma literatura exortativa, sim, literatura engajada, literatura social, no seu sentido mais amplo, mas literatura exercício estético de beleza e busca do eu e do nós, mais profundo e mais verdadeiro, que têm a ver com raízes, umbigo, magma; literatura incitamento a um mergulho dentro de um passado doloroso e de difíceis lembranças, incitamento à empatia, ao sentir com, ao fazer com, incitamento à adesão, ao "concerto do djunta mon", de que fala o escritor guineense Tony Tcheka (1996:69).
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O passado, tanto o passado bom como o passado infame, tem que continuar sendo relembrado como uma parte da identidade do africano assim como do afrobrasileiro. Embora consciente de que um número cada vez mais numeroso de afrodescendentes tenham hoje em dia alcançado um nível social e financeiro muito elevado e a franja dos bem sucedidos seja cada vez mais larga, no mesmo poema Cuti não deixa esquecer: Hoje é amanhã e ontem [...] / chicotes modernos não só relembram são chicotes/ que batem que rendem mais aos fundos senhoriais (Cuti, Resposta).
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Cuti, que sempre, em todos os seus escritos, convida e incita à reflexão, admoesta: Quem disse [...] que é preciso calar a voz dos ancestrais? (ebd).

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Bibliografia
Alves, Miriam, Momentos de busca. Poemas, São Paulo: Edição daAutora, 1983
Assmann, Aleida und Jahn, Christof Hardmeier (Org.), Schrift und Gedächtnis. Beiträge zur Archeologie der literarischen Kommunikation, München: Wilhelm Fink Verlag, 1983
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Assmann, Jahn, Die Katastrophe des Vergessens, in: Assmann, A.e D. Harth (Org.), Mnemosyne. Formen und Funktionen der kulturellen Erinnerung, Frankfurt/M: Fischer Verlag, 1993, p. 339-347
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Augel, Moema Parente (Org. e Intr.), Schwarze Poesie. Poesia Negra. Afrobrasilianische
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O Autor
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Filinto de Barros nasceu em Bissau a 28 de Dezembro de 1942. Fez estudos secundários no Colégio Nuno Álvares, em Tomar, e estudos superiores na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e no Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa. Depois da independência da Guiné-Bissau foi embaixador em Lisboa, entre 1978 e 1981. Na Guiné-Bissau exerceu vários cargos políticos, entre os quais ministro da Informação e Cultura (1981-1983), ministro dos Recursos Naturais e Indústria (1984-1992) e ministro das Finanças (1992-1994).
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