Mostrar mensagens com a etiqueta Dia de Portugal de Camões e das Comunidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dia de Portugal de Camões e das Comunidades. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de junho de 2026

António José Seguro - Discurso no Dia de Portugal (2026)

* António José Seguro

«Quando penso no mar, o mar regressa / a certa forma que só teve em mim – / Que onde acaba, o coração começa.»

Vitorino Nemésio nasceu aqui, nesta ilha. E nestes versos deixou aquilo que talvez só alguém criado entre o Atlântico e o céu aberto dos Açores poderia escrever: a ideia de que o mar não é apenas uma paisagem, é uma condição. Uma forma de ser no mundo.

O mar não é apenas a geografia que nos rodeia. O mar é memória, é destino e é carácter. Foi diante do Atlântico que aprendemos a olhar mais longe.

Enquanto outros viam o fim da terra, os portugueses viram um caminho. E essa visão moldou a nossa alma coletiva: resiliente perante as tempestades, humilde perante a imensidão e determinada perante o desconhecido.

O mar ensinou-nos a partir, mas também a regressar. Ensinou-nos o valor da saudade, essa palavra tão nossa, que carrega distância e afeto ao mesmo tempo. Ensinou-nos que um povo pequeno em território terrestre pode ser grande em ambição.

Falar de mar é falar da identidade portuguesa.

É também por isso que quis estar aqui, em Angra do Heroísmo, no coração do Atlântico, para celebrar o Dia de Portugal.

Senhoras e Senhores,

Os Açores assumem um lugar singular na nossa identidade, na nossa história e no nosso futuro. Os Açores situam-nos num ponto estratégico da relação entre a Europa e o continente americano. Entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas que estruturam a ordem global.

Por todas estas razões, é um lugar que nos obriga a assumir especiais responsabilidades e deveres, no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico. Sempre no respeito mútuo do que está assumido, seja com um país, seja com a comunidade internacional e a Carta das Nações Unidas. E na minha perspetiva, uma situação não está dissociada das outras.

Gostaria ainda de reafirmar que a autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica. É o seu complemento natural.

O presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança, que tem na NATO o seu pilar fundamental.

E o Atlântico faz parte da autonomia estratégica europeia, do ponto de vista político, económico, energético, tecnológico e de segurança e defesa.

Autonomia não significa isolamento. Significa liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados.

A garantia da segurança dos países europeus só é possível em articulação com os nossos aliados, numa relação de equilíbrio e reciprocidade, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a Paz, a Liberdade, os Direitos Humanos e o Multilateralismo. Valores que norteiam a ação das nossas Forças Armadas em Portugal e destacadas em missão por todo o mundo.

As Forças Armadas são um dos pilares fundamentais do Estado democrático.

A garantia permanente da soberania da República, da integridade territorial e da liberdade do povo português.

Quando a tempestade ameaça o horizonte e o medo percorre a terra, são elas que permanecem firmes, defendendo a paz em vez da guerra. Saúdo a vossa lealdade e a vossa dedicação e amor a Portugal.

Senhoras e Senhores,

Celebramos hoje também meio século de autonomia regional dos Açores e da Madeira.

Por isso, depois do Luxemburgo e da minha presença aqui, nos Açores, estarei amanhã na Madeira.

Esta presença nos dois arquipélagos projeta uma ideia a que atribuo um valor fundamental: Portugal é maior quando é plural. A unidade nacional não se faz pela uniformidade, faz-se pelo reconhecimento das diferenças. Um país capaz de gerir a sua própria diversidade interna tem mais capacidade para enfrentar os desafios que vêm de fora.

Em 1976, quando a Constituição da República consagrou a autonomia político-administrativa das regiões autónomas, havia quem duvidasse. Questionavam a capacidade das ilhas de se governarem. Duvidava-se da viabilidade de territórios fragmentados, ultraperiféricos, distantes dos centros de decisão. Duvidava-se, no fundo, de que a descentralização fosse compatível com a coesão nacional.

Cinquenta anos depois, a resposta dos Açores e da Madeira é inequívoca: a autonomia não enfraqueceu Portugal. Fortaleceu-o.

Criou instituições com legitimidade democrática. Desenvolveu políticas adaptadas às realidades locais. Gerou identidades regionais robustas que não contradizem a identidade portuguesa, antes a enriquecem.

Mas este aniversário não é um exercício de nostalgia. Deve igualmente ser um convite à lucidez. Porque cinquenta anos de autonomia revelam também o que ficou por fazer: as assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas, o custo real da insularidade que continua a pesar sobre famílias e empresas, a necessidade de um modelo de financiamento que reflita com mais precisão e mais justiça a especificidade destas regiões.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

O 10 de Junho é assinalado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas há quase meio século. Desde 1978.

Juntar ao Dia de Portugal a evocação de Camões e das Comunidades Portuguesas não foi um detalhe administrativo nem uma escolha inocente de palavras. Foi uma decisão profunda sobre a forma como os portugueses olham para si próprios, para a sua história e para o seu futuro.

Neste dia assinalamos muito mais do que um país com quase nove séculos de existência.

Celebramos uma comunidade histórica, uma memória coletiva, uma língua, uma ideia de pertença que atravessou guerras, crises, mudanças de regime, separações e reencontros.

Celebramos Portugal com as suas grandezas e contradições, com os seus erros e a sua extraordinária capacidade de resistência.

Celebramos Luís de Camões, talvez a expressão mais poderosa da consciência portuguesa. Porque nenhum outro poeta escreveu tão profundamente aquilo que fomos, aquilo que desejámos ser e aquilo que continuamos a procurar.

Depois de Camões, nenhuma cultura europeia produziu um poema nacional com semelhante densidade humana, simbólica e histórica.

Evocar a figura e a obra de Luís de Camões não significa escolher o passado e, muito menos, permanecer nele. Significa reconhecer a sua herança e a sua importância simbólica para o nosso modo de ser atual e para nos prolongarmos como povo.

É graças a Camões, também, que Natália Correia podia dizer, recordando os Açores, «Foi por línguas de fogo que aprendi a falar».

Camões continua entre nós porque escreveu aquilo que permanece no centro da experiência humana: o medo, a ambição, o amor, a perda, a coragem, a dúvida, a inveja, o desejo de grandeza e a fragilidade da condição humana.

Camões ensinou-nos a falar da beleza e da violência, da glória e do fracasso, do heroísmo e da miséria.

Ensinou-nos, sobretudo, que uma nação não se constrói apenas pelas suas vitórias. Constrói-se também pela capacidade de enfrentar as suas contradições.

Num país que, por vezes, parece dominado pelo ressentimento ou em conflito consigo próprio, todos já nos identificámos com Luís de Camões: num verso, numa imagem, numa frase ou numa passagem que sabemos de cor.

Numa das mais célebres passagens de “Os Lusíadas”, Luís de Camões interroga-se sobre qual poderia ser o nosso lugar de refúgio: «Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida» para «um bicho da terra tão pequeno?»
Nós somos esse «bicho da terra», frágil e à procura de um lugar a que pertencemos e onde nos sentimos protegidos. E esse lugar é Portugal.

Celebrar Camões, quinhentos anos depois, é também uma forma de sermos portugueses. Porque ele nos escreveu a todos.

É uma forma de continuarmos a celebrar uma língua antiga e que suscitou a Vergílio Ferreira uma das mais belas definições, e que tanto tem a ver com este cenário histórico e memorável cidade de Angra do Heroísmo: «Uma língua é o lugar de onde se vê o mundo. Da minha língua vê-se o mar.»

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Celebramos também as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. As que vivem no território nacional. E as que transportam Portugal consigo através dos continentes, das gerações e da distância.

A diáspora não é um complemento de Portugal. É uma das nossas maiores riquezas. Ainda há dias o voltei a confirmar, no Luxemburgo, onde estive com portugueses e lusodescendentes que constroem as suas vidas no centro da Europa sem deixarem de ser profundamente portugueses.

Comunidades unidas por uma língua, por referências comuns, por uma herança afetiva e cultural que o tempo transformou, mas nunca, mas nunca, destruiu.

A todos eles, onde quer que estejam, digo hoje: Portugal pensa em vós. Portugal precisa de vós. E Portugal estará sempre de braços abertos a receber-vos, se e quando assim o decidirem.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Vivemos um tempo de trincheiras.

As ansiedades que sentimos na economia, na geopolítica, na segurança das cidades, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões muito concretas da vida das pessoas reais, criam esse impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros.

Neste tempo, faltam-nos cada vez mais as palavras do meio. Aquelas que não nascem entre muros, mas nos espaços abertos. As que não ficam sitiadas nem sitiam, mas que se abrem como convite ao diálogo e ao encontro.

As palavras do meio são mais de tolerância do que de exclusão, mais de disponibilidade do que de afastamento. São elas que permitem a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os portugueses, entre as instituições, entre as ideias. São o antídoto para o vírus da polarização que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação.

Essas palavras do meio fazem parte de um dicionário que antecipa o próprio diálogo porque criam a disponibilidade para que ele aconteça. Têm a ver com o desejo do bem comum, com um desígnio coletivo, com um país unido, com liberdade de pensar e de criar. Ou, como escreveu Ruy Belo, falando de um «Portugal futuro», de «um país aonde o puro pássaro é possível».

A minha eleição para Presidente da República foi marcada pelo desejo de unir os portugueses e de unir Portugal. Mas unir o país não significa uma unanimidade artificial e indesejável. Significa reconhecer que a pátria é um chão comum e que nele há espaço para todos.

Não haverá democracia firme e pujante se os partidos não reconhecerem que a política, sendo um espaço de confronto, é também um lugar de compromisso. Um compromisso com a tolerância para quem pensa de forma diferente, para quem tem origens distintas, religiões e credos distintos, por forma a que Portugal seja, para todos, um chão comum.

Foi isso que nos permitiu ser o melhor do que fomos.

Senhoras e Senhores,

Este é um tempo que nos pede coragem. A coragem prática de fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo. De dizer a verdade mesmo quando é desconfortável. De investir no futuro mesmo quando o presente aperta. De defender o interesse de longo prazo mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo.

Este é também um tempo que nos pede humildade. A humildade de reconhecer que ninguém tem o monopólio das soluções. Que nenhuma região ou comunidade é dispensável. Que nenhuma geração é proprietária do país. Recebemo-lo em herança e temos a obrigação de o deixar em melhores condições para quem nos suceder.

É uma responsabilidade que não podemos escamotear e, por isso, no meu entender, este é, em particular, um tempo que nos exige ambição.

A ambição justa de não nos conformarmos com menos do que merecemos. A ambição de quem conhece o seu valor e se recusa a aceitá-lo como uma promessa adiada.

Olho para Portugal e vejo um país que tem mais do que aquilo que por vezes reconhece em si próprio.

Temos investigadores e cientistas cujo trabalho é reconhecido e premiado internacionalmente. Temos universidades que atraem estudantes de todo o mundo. Temos empresas que exportam com valor, que inovam em setores onde competem com os melhores e que vencem. Temos uma cultura que se expande pelo mundo através da língua, da música, da literatura, do cinema, das artes. É uma presença criativa que ultrapassa em muito o peso demográfico de um país de dez milhões de habitantes.

Temos uma língua falada por trezentos milhões de pessoas em todos os continentes. Uma língua que é simultaneamente um laço afetivo entre povos, um instrumento diplomático e um ativo económico de enorme valor e que ainda não soubemos aproveitar plenamente.

Temos jovens extraordinariamente qualificados. Jovens que aprenderam a ser competitivos num mercado global, que dominam línguas, que circulam entre culturas com uma naturalidade que as gerações anteriores não tinham.

No meu entender, e julgo que partilham a minha opinião, o problema não é o talento. Nunca foi o talento. O problema é que esse talento parte para outros destinos, demasiadas vezes, porque não encontra em Portugal as condições para crescer.

O que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração. A habitação é praticamente inacessível e esgota qualquer orçamento.

Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação. Isso é inaceitável e temos de o alterar.

Ao contrário da ladainha habitual, Portugal não pode cair no fatalismo nem ficar à espera de milagres. O que precisamos é de decisões que dependem inteiramente de nós. Portugal precisa de si próprio na sua melhor versão. E isso está ao alcance de cada um de nós.
Precisamos de políticas que fixem talento em vez de o exportar. De salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses. De um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram. De um Estado que simplifique em vez de complicar, que antecipe em vez de reagir, que planeie além do mandato em vez de gerir apenas a urgência do presente.

Precisamos de empresas que invistam em investigação e desenvolvimento e de um sistema financeiro que saiba avaliar o valor do conhecimento e não apenas o valor dos ativos tangíveis. Precisamos de universidades ainda mais ligadas ao tecido produtivo. De centros de investigação que transformem descobertas em soluções concretas para os problemas das pessoas e das empresas.

Precisamos, acima de tudo, de uma cultura de confiança.

Os países que crescem de forma sustentada têm algo em comum: os seus cidadãos confiam uns nos outros, confiam nas instituições e arriscam juntos porque acreditam que os outros vão cumprir a sua parte.

O presente não pode ser um bloqueio porque a capacidade de reinvenção é algo que a história portuguesa demonstra repetidamente. Não uma, mas várias vezes, em contextos radicalmente diferentes.

A capacidade de transformar limitações em oportunidades. De encontrar rotas quando os caminhos conhecidos se fechavam. De ser, quando necessário, mais do que as circunstâncias pareciam permitir.

Não inventei este Portugal. Está aqui, neste espaço, no trabalho silencioso de milhões de pessoas que todos os dias se esforçam para melhorar a sua qualidade de vida e dos seus filhos.

Está aqui, nos Açores, na Madeira, no continente e está na diáspora que, longe, continua a ser profundamente portuguesa.

Em todos os que constroem este país com competência e com dignidade, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Termino onde comecei, neste Atlântico que nos define e nos desafia.

Emanuel Félix, nascido aqui em Angra do Heroísmo, escreveu: «somos herdeiros de uma lembrança / de tesouros afundados / e arpoamos a esperança».

Sim. Somos isso. Herdeiros de uma memória longa, de conquistas e fracassos, de grandeza e fragilidade.

E projetamos a esperança com a determinação de quem sabe que o futuro se pode moldar consoante as nossas decisões, a nossa coragem e a nossa determinação.

A esperança é uma dessas palavras do meio, que, como já referi, combate a polarização. É também uma das melhores palavras desse novo dicionário que celebra o nosso tempo que há de vir, que desejamos e que ambicionamos.

Que neste Dia de Portugal possamos renovar a confiança no nosso país, na nossa capacidade de criar, de inovar e de enfrentar o futuro com coragem. Na verdade, é dar continuidade à vocação atlântica de abertura ao mundo, de diálogo e de humanidade.

Porque Portugal, tal como o mar, é feito de profundidade, de movimento e de infinito.
Viva Portugal!
Muito obrigado!
10 de junho de 2026

https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2026/06/discurso-na-cerimonia-militar-do-dia-de-portugal-de-camoes-e-das-comunidades-portuguesas/

João Miguel Tavares - O primeiro 10 de Junho de Seguro e os excessos de poesia

O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos.

* João Miguel Tavares

11 de Junho de 2026

É um mal antigo: a tradição retórica nacional é paupérrima, e ninguém seria capaz de editar um livro com os grandes discursos da democracia portuguesa, porque eles simplesmente não existem. A História da política americana está cheia de discursos extraordinários, de Abraham Lincoln a Barack Obama; Winston Churchill sustentou a resistência britânica nos anos da Blitz em cima da sua oratória; Charles de Gaulle limpou a honra da França colaboracionista muito por força da sua palavra; a voz de Václav Havel foi o esteio da recuperação democrática dos países esmagados pelo comunismo soviético.

Em Portugal não temos nada disso. As vozes de Mário Soares ou Álvaro Cunhal ficaram na História mais pela força das suas intervenções televisivas, das entrevistas que deram e dos livros que escreveram, do que por algum discurso particularmente arrebatador que hoje faça parte da nossa memória colectiva. E quando nos pomos a ler os discursos dos políticos portugueses do século XX, temo bem que os mais bem escritos e retoricamente mais eficazes sejam os de António de Oliveira Salazar, que é uma coisa chata de se dizer. Para compensar, Salazar tinha uma vozinha de professor da Beira Alta enfadonho, muito nasalada, muito vagarosa, muito pouco modelada, o que não fazia dele nem um Hitler nem um Mussolini.

Actualmente, os nossos políticos utilizam um tom oficial nos seus discursos que os faz cantarolar todos da mesma forma, e como nunca parecem ter nada de importante para dizer ao país (mesmo quando têm), compensam a aparente falta de ideias com doses cavalares de poesia, em particular quando se aproxima o 10 de Junho. Pior: os autores citados são sempre tão óbvios que qualquer pessoa percebe que os nossos políticos só são leitores de poesia na véspera de escreverem os seus discursos, ou nem isso. Infelizmente, António José Seguro não escapou a esta maldição poética na sua estreia como Presidente da República no Dia de Portugal, que este ano se assinalou com uma cerimónia modesta em Angra do Heroísmo.

Esta carga poética cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa

Tivemos direito a Camões, claro, e depois vieram, em ondas, Natália Correia (“Foi por línguas de fogo que aprendi a falar”), Vergílio Ferreira (“Uma língua é o lugar de onde se vê o mundo/ Da minha língua vê-se o mar”), Ruy Belo (“Um país aonde o puro pássaro é possível”) e um poeta local, Emanuel Félix (“Somos herdeiros de uma lembrança/ de tesouros afundados/ e arpoamos a esperança”). Esta carga poética cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa que corta a pertinência de qualquer ideia relevante que esteja a ser dita, e ainda mata de tédio metade do auditório.

O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos. Há uma velha piada de Hollywood, às vezes protagonizada por Richard Brooks, outras por John Huston ou John Ford, com uma lição que supostamente teriam aprendido após a visualização atenta de vários filmes pornográficos. A lição era esta: “Get to the fucking point.” Os nossos políticos bem podiam aprendê-la, para evitar que outros 10 de Junho terminem como este, nos vários canais de televisão: “Foi o discurso do Presidente da República. Quanto a Marco Silva, assina esta semana pelo Benfica. Seguimos em directo para o Seixal.”


quarta-feira, 11 de junho de 2025

Duscurso de José Tolentino Mendonça em 10 de Junho de 2012



bhO QUE É AMAR UM PAÍS

Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (…) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.

É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.

Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança – mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.

Camões e a arte do desconfinamento


Foto Arlindo Homem/AE, Dia de Portugal 2020
Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadassejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.

Que a crise nos encontre unidos

Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.

No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.

Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.

O que é amar um país


Foto Arlindo Homem/AE, Dia de Portugal 2020
O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.

O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre – e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.

Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.

Reabilitar o pacto comunitário

O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.

É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.

Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.

Fortalecer o pacto intergeracional


Foto Arlindo Homem/AE, Dia de Portugal 2020
Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.

A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.

Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.

Implementar um novo pacto ambiental

A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

Uma viagem que fazemos juntos

Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem – e efetivamente são – corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim – explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.

Mosteiro dos Jerónimos, 10 de junho de 2020

Cardeal D. José Tolentino Mendonça

https://agencia.ecclesia.pt/portal/o-que-e-amar-um-pais-cardeal-d-jose-tolentino-mendonca/

Discurso de Sampaio da Nóvoa em 10 de Junho de 2012

 Discurso do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa

Lisboa, 10 de junho de 2012

As palavras não mudam a realidade. Mas ajudam-nos a pensar, a conversar, a tomar consciência. E a consciência, essa sim, pode mudar a realidade.

As minhas primeiras palavras são, por inteiro, para os portugueses que vivem situações de dificuldade e de pobreza, de desemprego, que vivem hoje pior do que viviam ontem.

É neles que penso neste 10 de Junho.

A regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidenso nos outros, logo existo (José Gomes Ferreira). É o compromisso com os outros, com o bem de todos, que nos torna humanos.

Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa, agora, sem as redes das sociedades tradicionais.

Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização.

Façamos um armistício connosco, e com o país. Mas não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.

Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas.

A arrogância do pensamento inevitável é o contrário da liberdade. E nestes estranhos dias, duros e difíceis, podemos prescindir de tudo, mas não podemos prescindir nem da Liberdade nem do Futuro.

O futuro, Minhas Senhoras e Meus Senhores, está no reforço da sociedade e na valorização do conhecimento, está numa sociedade que se organiza com base no conhecimento.

Há a liberdade de falar e há a liberdade de viver, mas esta só existe quando se dá às pessoas a sua irreversível dignidade social (Miguel Torga).

Gostaria de recordar o célebre discurso de Franklin D. Roosevelt, proferido num tempo ainda mais difícil do que o nosso, em 1941. A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos.

Numa situação de guerra, Roosevelt sabia que os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”.

Em mar de águas revoltas, é preciso manter o rumo, ter a sabedoria de separar o acessório do fundamental. A Europa não é uma opção, é a nossa condição. Uma Europa com uma nova divisa: liberdade, diversidade, solidariedade.

A Europa é o nosso futuro, mas não nos iludamos. Ou nos salvamos a nós, ou ninguém nos salva (Manuel Laranjeira). Falemos, pois, de Portugal e dos portugueses.

Pelo Tejo fomos para o mundo… mas quantas vezes estivemos ausentes dentro de nós? Preferimos a Índia remota, incerta, além dos mares, ao bocado de terra em que nascemos (Teixeira de Pascoaes).

A Terra ou o Mar? Portugal ou o Mundo? A pergunta foi feita por todos aqueles que pensaram Portugal.

No final do século XIX, um homem da Geração de 70, Alberto Sampaio, explica que as nossas faculdades se atrofiaram para tudo que não fosse viajar e mercadejar. Nunca nos preocupámos com a agricultura, nem com a indústria, nem com a ciência, nem com as belas-artes. As riquezas que fomos tendo “mal aportavam, escoavam-se rapidamente, porque faltava uma indústria que as fixasse”, e o património da comunidade, esse, “em vez de enriquecer, empobrecia”.

Nos momentos de prosperidade não tratámos das duas questões fundamentais: o trabalho e o ensino. Nos momentos de crise é tarde: fundas economias na administração aumentariam os desempregados, e para a reorganização do trabalho falta o capital; falta o tempo, porque a fome bate à porta do pobre. Então a emigração é o único expediente: silenciosa e resignadamente cada um vai partindo, sem talvez uma palavra de amargura.

Este texto foi escrito há 120 anos. O meu discurso poderia acabar aqui. Em silêncio.

Senhor Presidente da República,

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É esta fragilidade endémica que devemos superar. O heroísmo a que somos chamados é, hoje, o heroísmo das coisas básicas e simples – oportunidades, emprego, segurança, liberdade. O heroísmo de um país normal, assente no trabalho e no ensino.

Parece pouco, mas é muito, o muito que nos tem faltado ao longo da história.

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si:

- Num sistema político cada vez mais bloqueado;

- Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício;

- Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial.

Estão a surgir, é certo, sinais de uma capacidade de adaptação e de resposta, de baixo para cima. Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade.

Chegou o tempo de dar um rumo novo à nossa história.

Portugal tem de se organizar dentro de si, não para se fechar, mas para se abrir, para alcançar uma presença forte fora de si.

Não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo, se formos ninguém em nós.

Não é por sermos um país pequeno que devem ser pequenas as nossas ambições. O tamanho não conta; o que conta, e muito, é o conhecimento e a ciência.

Senhor Presidente de República,

O convite de V. Ex.ª, que muito agradeço, é um gesto de reconhecimento das universidades e do seu papel no futuro de Portugal.

Em Lisboa, na célebre Conferência do Casino (1871), Antero disse o essencial: A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos.

Antero tinha razão e o século XX ainda mais razão lhe veio dar. O drama de Portugal, do nosso atraso e da nossa dependência, tem sido sempre o afastamento de sociedades que evoluíram graças ao conhecimento e à ciência.

Nas últimas décadas, realizámos um esforço notável no campo da educação (da escola pública), das universidades e da ciência.

Pela primeira vez na nossa história, começamos a ter a base necessária para um novo modelo de desenvolvimento, para um novo modelo de organização da sociedade.

É uma base necessária, mas não é ainda uma base suficiente.

Existe conhecimento. Existe ciência. Existe tecnologia. Mas não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego.

É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.

Insisto. Apesar de todos os contratempos, Portugal tem hoje uma capacidade instalada, nas universidades e na ciência, que nos permite sair de uma posição menor, periférica, e superar o fosso tecnológico que se cavou entre nós e a Europa.

Não temos tempo para hesitações. As universidades vivem de liberdade, precisam de ser livres para estarem à altura do que a sociedade lhes pede.

É por aqui que passa o nosso futuro, pela forma como conseguirmos ligar as universidades e a sociedade, pela forma como conseguirmos que o conhecimento esteja ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas.

É por aqui que passa o nosso futuro, um outro futuro para Portugal.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Também Lisboa se está a transformar graças à criação, à energia da cultura e da ciência, graças aos estudantes que aqui chegam de todas as partes do mundo.

Lisboa é dos poetas. Em abril, a poesia esteve na rua e fez-nos emergir da noite e do silêncio. A poesia volta sempre à rua, através desta língua que é a nossa mátria, desta língua que nos permite estar connosco e com os outros, nas comunidades que nos multiplicaram pelo mundo e nos países que são parte de nós.

25 anos depois, não esqueço José Afonso: Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém, cantai também.

Cantemos todos. Por um país solidário. Por um país que assegura o direito às coisas básicas e simples. Por um país que se transforma a partir do conhecimento.

Não podemos ser ingénuos. Mas denunciar as ingenuidades não significa pôr de lado as ilusões, não significa renunciar à busca de um país liberto, de uma vida limpa e de um tempo justo (Sophia).

Foi esta busca que me trouxe ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.


https://anibalcavacosilva.arquivo.presidencia.pt/diadeportugal2012/?idc=588&idi=66573

Discurso de António Barreto em 10 de Junho de 2009

.

Santarém, 10 de Junho de 2009 - António Barreto

Senhor Presidente da República,

Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Primeiro-ministro,

Senhores Embaixadores,

Senhor Presidente da Câmara de Santarém,

Senhoras e Senhores,

.

Dia de Portugal... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez. Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os Portugueses. Onde quer que vivam. Há mais de cem anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e o seu povo. Por isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas. Iguais, no essencial, às expressas por Eça de Queirós, aquando do primeiro dia de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que colchas às varandas, precisavam de cultura. Estranho dia este! Já foi uma "manobra republicana", como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi "exaltação da raça", como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado para louvar imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para seduzir os nossos emigrantes, cujas remessas nos faziam falta. E apenas de Portugal.

.

Os Estados gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. "As festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares", disse também Eça de Queirós. Tinha razão. Mas devo dizer que temos a felicidade única de aliar a festa nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um poeta que nos deu a voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se julga Camões. Que é Camões. Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se nela não virem armadilha ou manipulação.

.

Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências contemporâneas. Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E simplicidade. Garantimos com altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e garantir a sua perenidade.

.

Afirmamos, com brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então. Mais vale afirmá-lo com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta comunidade. Dizemos, com orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas deveríamos talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere. Quando se escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói. Ele é Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de quem nele procura o melhor. Os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes, pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes ou símbolos de uma superioridade obscena. Ainda hoje soubemos prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas também aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever de cuidar da democracia.

.

As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de resistir, base da "persistência da nacionalidade", como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não apague ou esbata o resto. Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.

.

Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo. Há mais de trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo. Desde então, muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo. Ainda a viver com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade. Evoluiu a situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto tempo, submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente. Mudou até a constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses e credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os partidos e as associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos próximos antepassados. A sociedade e o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens, nas relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade recente. A pertença à União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é um facto consumado. A estes trinta anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da população jovem. É certamente uma das realizações maiores. Estas transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda precisa de mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal. A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. 0 favor ainda vence vezes de mais o mérito. O endividamento de todos, país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a próxima geração. A nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.

.

Há poucos dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A elevadíssima abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade e de representatividade das instituições europeias. A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus deveriam pensar de novo, uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos sem saída ou falsos percursos que terminam mal. E nós fazemos parte desse número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o seu futuro, o futuro dos Portugueses que vêm a seguir. É a pensar nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor ligar o passado com o futuro. Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista. Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais. Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.

.

Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo. Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes. Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos. Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça. Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir. Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar "sinais de esperança" ou "mensagens de confiança". Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos. Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis. Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país.

.

António Barreto

.

.