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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Angola - Evolução do Dinheiro nalgumas imagens



Pano


Sal


Boi


Escravos


Copper Lingot from Zakros Crete.


Cauri (ilha de Luanda)


«brasss»


Benim - português rodeado de 5 manilhas


Soba angolano com manilha no braço




1 Macuta - seculo XIX

1 Macuta - seculo XVIII

Macuta - 1837














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Para saber mais ver:
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3. - Nova pagina (Evolução do dinheiro)
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4. - Serviços - Museu do Banco de Portugal
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5. - Ron Wise's Geographical Directory Of World Paper Money
Veja dinheiro do mundo inteiro nesse site, é só você escolher o continente e depois o país e ver a evolução do dinheiro através dos tempos.
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Angola - História da Moeda - Do Zimbo ao Kwanza

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Segundo registos históricos, muito antes da época colonial utilizava-se em Angola colares formados por rodelas de conchas de caracóis e outras conchas, furadas no centro e enfiadas em fios de fibras têxteis, como instrumento de troca.
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Todavia, apesar da variedade de conchas, foi o Zimbo, pequeno búzio cinzento, um dos mais importantes e dos primeiros instrumentos de troca constituindo funcionalmente autêntica moeda local.
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O Zimbo – njimbu ou lumache - , búzio do tamanho de um bago de café, teve curso como “ moeda” em quase toda a costa ocidental africana. Apareciam em toda a costa de Angola, embora os mais belos fossem da ilha de Luanda. Dentre os mais valiosos era de cor cinzenta. Pescavam-nos as mulheres, na contracosta da ilha, por alturas da praia-mar, sendo até frequente algumas serem atacadas por tubarões e tintureiras. Avançavam pela água alguns metros e, mergulhando, enchiam de areia uns cestos estreitos e compridos, a que chamavam “cofos”. Em seguida retiravam os “zimbos” da areia recolhida, que depois separavam, segundo o critério de classificação em “ puro”, “ cascalho”, e “meão”. Com o passar do tempo o Zimbo começou a ser desvalorizado, e, assim, um “cofo”, que no tempo de Mbemba a Nzinga, valia trinta e três cruzados, desce para dez mil réis em 1615. Porém, já em 1616 não valia mais do que três mil réis.
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A queda do valor do Zimbo deu lugar à predominância dos “panos” como moeda mais generalizada. Por outro lado, o sal, o cobre, os panos, os escravos, o marfim eram também outros instrumentos de troca utilizados na altura.
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O Sal
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Provinha de duas fontes distintas: as minas e as salinas. Em Angola, as minas mais importantes foram as de Ndemba, na Quiçama, onde os povos extraíam as pedras, a escopro, e moldavam-nas em barras de dois ou três palmos de comprimento e uma mão travessa de largura. Foram também importantes as salinas de Benguela. O sal de Benguela vendia-se em Luanda à razão de mil réis de panos o alqueire.
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O Cobre
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Um dos metais que mais larga aplicação teve como meio de troca foi o cobre, e o conhecimento da sua existência em Angola vem de tempos muito remotos. Os Luchazes eram hábeis na confecção das manilhas, utilizando o cobre que os Lobares lhes levavam da Lunda para permutar a cera.
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Os registos históricos da época permitem concluir que os povos de Angola sabiam extrair e trabalhar o cobre, fazendo pequenos objectos, quase todos para enfeites, como as manilhas, colares e outros ornatos. Fabricavam também peças e acessórios para as suas armas e até um fio de cobre muito semelhante ao actual. Todos estes objectos serviram de instrumento de troca, mas o mais característico foi, sem dúvida, a “cruzeta”. Esta peça que circulou em Angola e no Congo, tinha a forma da cruz de Santo André, geralmente atribuída por alguns autores à imitação do X romano inscrito nas primeiras moedas portuguesas que apareceram em Angola no século XVII. A origem desta peça monetária à Angola, depois de averiguações feitas, parece conduzir à conclusão de que ela provinha da Lunda, território confinante com o Catanga. No reino do famoso Garangaja da Lunda, que usava o nome de “ Musiri Maria Segunda” dedicava-se uma especial atenção ao negócio do cobre. A sua extracção era feita por processos primitivos baseados na fragmentação. Derretiam o metal em fornos ou panelas, de onde derivavam tubos ou calhas de argila para os moldes, que iam desde a forma grosseira da cruz de Malta até barras longas ou quadrangulares. Desde muito cedo os portugueses interessaram-se pelo cobre angolano, contudo, em 1801 ainda se desconhecia em Angola o local da minas de onde os povos extraiam o cobre. No entanto, os povos que fundiam o cobre guardaram este segredo durante anos, chegando ao ponto de deixar de fundir as cruzetas, dedicando maior interesse ao negócio do marfim.
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Os Panos
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Os “panos” foram outra mercadoria-moeda de larga circulação entre os povos locais. Sucederam praticamente ao “Zimbo”. Consistiam os panos, na acepção da época, em pequenos pedaços de tecido, feitos á base das fibras da palmeira-bordão, e tinham geralmente a dimensão duma mabela. Tinham os “panos” duas origens distintas: o Congo e o Luango, onde os contratadores iam adquiri-los, trazendo-os para Luanda, onde circulavam como mercadoria moeda.Os do Luango chamavam-se “libongos” e dividiam-se em “bongos”, “sangos” e “infulas”, enquanto os do Congo, denominados “panos limpos”, se repartiam, consoante o tamanho, em “cundis” e “meios “cundis”. Corriam ambos em Luanda. Tanto os panos do Congo – panos limpos – como os Luango – libongos – só, passavam a ter curso monetário após haverem sido marcados pelo Senado da Câmara, com a marca real “R”. Com os “panos” comprava-se tudo, cobrava-se os impostos e remunerava-se a tropa.
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Os Escravos
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A sua utilização com funções monetárias encontrou fundamento no generalizado comércio de escravos, praticado, desde épocas muito remotas pelas mais diversas sociedades, que o encaravam como coisa natural e o haviam enraizado nos costumes da época. Os escravos não foram apenas instrumento de trabalho, acabaram também por servir de espécie monetária.

O Marfim
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Sem nunca ter atingido a projecção de outros instrumentos de troca, o marfim teve, no entanto, a sua época como meio de pagamento. O volume e o valor das transacções desta mercadoria cedo despertaram a atenção dos poderes públicos coloniais. Constituindo objecto de contrato privado da Fazenda Real, proibiu-se a sua exploração por entidades privadas. Terá sido em consequência deste contrato privado que o marfim começou a revestir o cunho de meio de pagamento, pois a Fazenda Real aceitava-o em pagamento de impostos e utilizava-o em transacções como se tratasse de dinheiro corrente. Comercializado em abundância no interior, principalmente nos sertões de Benguela, o marfim ocupou, durante largos anos, lugar de relevo no quadro das exportações, chegando a constituir, juntamente com os escravos, a principal fonte de receita do comércio com o exterior.

Valores Pré-Monetários de Proveniência Exterior

O “Cauris”, concha branca de rara beleza, cuja designação tem sido aplicada com frequência por vários autores a outras conchas (nomeadamente ao Zimbo) que tiveram igualmente função monetária, é conhecido desde tempos pré-históricos e constituiu moeda corrente em vários continentes. Pescava-se em Zinzibar e Moçambique, na Ásia, na América e na Oceânia. A sua generalização em Angola e no Congo teve lugar a partir do século XVI e foi consequência das relações comerciais dos mercadores portugueses, que, por via marítima, o importavam do Oriente.

As Contas
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A partir do Séc. XVI começaram a invadir o sertão contas e missangas das mais variadas cores e feitios. Muito apreciadas pelos povos de Angola, acabaram por suplantar as conchas, em especial o “zimbo” e o “cauris”, tanto na sua função ornamental como na de moeda. As contas azuis, pequenas, chegaram mesmo a usurpar o nome ao próprio “Zimbo”. Constituíam um índice de riqueza das mulheres, que se enfeitavam o mais possível com elas, dispondo-as pelos cabelos, nos colares nas tangas, de onde as retiravam quando necessitavam de fazer compras. As mais divulgadas foram a “missangas grossa”, a “miúda” – também chamada “olho de rola”-, a “Maria II” – pequena conta, encarnada na face exterior e branca no interior, com cerca de três milímetros de diâmetro - , a “ Cassungo” – conta de bordado -, a “ almandrilha” – apipada ou riscada, de forma alongada e um centímetro de comprimento - , e outras de menor importância, como a “missanga leite” e a “missanga azul celeste”. Ao contrario das “fazendas”, que eram aceites como moeda em toda a parte, as “missangas” exerciam essa função com carácter mais regional. No Bailundo, por exemplo, circulava a “missanga preta”, que, no entanto, já não tinha “curso legal” no vizinho BiéNa Lunda era muito apreciada a “missanga branca”, grande, o que não acontecia no Sul. Como excepção a esta regra, apenas se aponta a “Maria II”, que circulava praticamente em toda a África Austral.

As Fazendas
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De entre as mercadorias inicialmente introduzidas em Angola algumas pela sua utilidade especial, tiveram intensa procura, por parte das populações locais. Daí resultou que, com o correr do tempo, se passasse a aferir o valor de qualquer outra mercadoria em função dessas autênticas mercadorias – moeda, geralmente denominadas “fazendas”. As fazendas inicialmente mais correntes foram a “garrafa”, o “pano”, o “cortador”, a “peça” e a “espingarda”.

O Surgimento da Macuta
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A cunhagem das moedas de cobre constava de peças de 1 macuta, ½ macuta, ¼ de Macuta e 5 réis, atribuindo-se à Macuta o valor de 50 réis.Quanto à emissão de moedas de prata, constava de peças de 12, 10,8,6,4 e 2 macutas, sendo estas, de uma forma geral, semelhantes às de cobre. Neste período viviam-se tempos particularmente difíceis na colónia, motivados pelo monopólio da moeda.
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Em 1960 a situação económico/financeiro em Angola era de facto deplorável.
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Havia pouco dinheiro, as receitas que entravam nos cofres públicos eram na sua maior parte constituídas por letras e títulos de divida.Com o objectivo de fazer afluir metal sonante aos cofres, decidiram as autoridades coloniais suprimir a aceitação de letras, limitando os pagamentos apenas a dinheiro e aos irrecusáveis títulos de divida.Mas esta medida também não surtiu efeito, extinta a moeda de cobre carimbada, assim como as cédulas de papel, passou toda a moeda circulante da colónia, a macuta ( moeda de cobre angolense), a exprimir-se pelo valor Real, moeda do reino português.
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Até 1864, a actividade económica em Angola repousava essencialmente sobre os mecanismos do tradicional sistema de permutação de géneros. Nesta permutação os meios mais correntes de pagamento eram as fazendas, o Zimbo, as pedras de sal da Kissama (que corriam em toda a parte) e os libongos.
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A quantidade de capital circulante, já por si diminuta, em virtude da ausência de indústria, perdia-se nas mãos de meia dúzia de particulares, geralmente contratadores. Não existiam instituições de crédito, e em virtude disso eram os particulares que, regra geral, prestavam serviços próprios dos bancos, cobrando pelos empréstimos juros ruinosos. Porém, com a ampliação do comércio e a criação de indústrias em Angola a situação modifica-se. De 1910 a 1962 lança o Estado colonial português no mercado a emissão “Vasco da Gama”, o “escudo”, as cédulas do Banco Nacional Ultramarino, as “ritas” e os “chamiços”, os “angolares” e por último, em 1953, o “escudo” como unidade monetária.

Finalmente o Kwanza
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Depois de algum tempo chegou o tempo novo e com ele o Kwanza verdadeiramente a moeda de Angola. Considerando que um dos atributos da soberania de um Estado Independente é a faculdade de emitir moeda; Considerando que, com a Lei n.º69/76, que criou o Banco Nacional de Angola, a República Popular de Angola ficou dotada da instituição que beneficia de exclusivo da emissão monetária; Considerando que já se encontravam satisfeitas as condições de ordem técnica para o lançamento de uma nova moeda; Nestes termos ao abrigo da alínea a) do artigo 38.º, da Lei Constitucional o Conselho da Revolução decretou a Lei da Moeda nacional. À 11 de Novembro de 1976 , em cumprimento do disposto nos artigos 8.º e 30.º da Lei Constitucional, é criada a unidade monetária nacional designada o Kwanza. O Kwanza tinha como fracção o LWEI correspondendo cada Kwanza a cem Lwei. O Kwanza era representado materialmente por notas e moedas metálicas. O Lwei era representado materialmente por moedas metálicas com valor facial de cinquenta LWEI-0.50. 8 de Janeiro de 1977 foi uma data fundamental o Kwanza entra em circulação.
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Moeda de Angola - Resenha

Ref.: Ferreira, Virgílio - Prontuário de Moeda de Angola,

C.I.T.A., Luanda, 1967.

Resenha por Júlio Alves Victor *


AggryDiz o autor serem contas de vidro “com lindos desenhos... parece que tiveram origem no Egipto... [e] os Fenícios que as trouxeram para África ao longo da Costa Ocidental.”

AxiluandaQuer dizer ‘lançar as redes’, segundo o autor, que segue assim a interpretação de Mr. Alves da Cunha, associando o termo à rede dos pescadores da ilha; no entanto a pesca ‘à rede’ não é referida pelos missionários jesuítas que muito bem poderiam fazê-lo nas suas vívidas descrições da indústria local após a sua chegada com Paulo Dias à Luanda, em 1575. A palavra decompõe-se obviamente em a (“de”) e tyilwanda, a palavra umbunda para ‘savana’, ou ‘planície sem vales’, e mais provavelmente referia-se aos povos ‘de’ esta planície costeira da costa angolana, ou mesmo à superfície rasa da cúspide arenosa a que se tem chamado, impropriamente, ‘ilha’.

BongueTambém escrito ‘bonge’ em documentos portugueses antigos, do Quim. mbonge‘nós de caniço’, segundo o autor; os imbonge [seriam usados na contabilidade tradicional e o termo veio a ser usado em referência ao dinheiro miúdo, também contável], por onde o nome do paninho’ fabricado no Loango, que correu como moeda em Angola, o ‘libongo’.

BúzioTermo usado genericamente pelo autor referindo-se à concha dos moluscos univalves; especificamente, ‘búzio’ é a concha dos moluscos da família Buccinidæ, e não a dos da família Cypreæ, a que pertence o ‘zimbo’, búzio-moeda, ou caurim, angolano.

Caurim O uso deste búzio como moeda teve origem na Antiguidade indiana – onde se conhecia como córi, daí o nome em Inglês, cowrie – como o autor menciona, sem especificar; refere a sua cultura sobre folhas de palmeira, mergulhadas no mar, o que sugere um habitat diferente (provavelmente sobre caules de plantas marinhas) do da/s espécie/s angolana/s. Na primeira gravura da página 22 figuram duas cípreas e um fuso, não sendo, este, um padrão monetário em Angola; os búzios da segunda gravura também não são cípreas. O autor descreve o “búzio africano” ou “de anel”: trata-se do geldkaurie, ‘caurim-dinheiro’, dos Africaneres, uma espécie que habita as costas de Moçambique e da província sul-africana do Natal; segundo o autor, os Holandeses, precursores dos Africaners, não se utilizariam ainda do caurim africano no século dezassete, quando ocuparam Luanda (1640-7), pois para ali trouxeram como padrão de troca as ‘coralinas’, contas de material que não especifica; este facto sugere que já então escasseasse o zimbo, e corresse o libongo mais geralmente em Angola.

Chevron Os pequenos objectos como as contas de feitio irregular na 2.ª figura à p. 24, encontrados, segundo o autor, em algumas escavações em Luanda com “aparência de serem antiquíssimas... exóticos trabalhos de cerâmica corada confeccionados com sucessivas camadas de vária cores sobrepostas... têm sido encontradas em túmulos no Continente Europeu e na Índia.” O autor refere que se fabricavam “em Veneza e na Índia”.

CruzetasDiz o autor que “No século XVIII, em algumas localidades para o Norte circularam pedaços de ferro e de cobre em forma de X... grosseira imitação do... dez Reis em letra Romana... nas antigas moedas... de D. Pedro II”; no entanto a gravura de uma “cruzeta” na p. 27 mostra um objecto idêntico à handa do tipo ‘vela de moinho’ da figura na p. 33, dita proveniente do Catanga e da Lunda, enquanto que os escritos portugueses coevos não referem cruzetas nesta região, mas sim, e abundantemente, a manilha ou ongondo. O fabrico da cruzeta da bacia do r. Zambeze é certamente bem mais antigo que aquelas moedas portuguesas, trazidas para Angola em 1694: o autor refere a primeira notícia de aspas em forma de ‘velas de moinho’, de um relatório de D. Álvaro Vaz de Almeida em 1516, que informava ter António Fernandes visto os nativos das terras de Ambar, vizinha da Monomotapa, vender os objectos, feitos de cobre  proveniente (?) “dos rios de Manicongo, na Rodésia”. 

As cruzetas fundiam-se em dois desenhos básicos: o normal, em ‘X’, das culturas Luba e calunda, e o longo, as “cruzes de S.to André” da cultura monomotápica, “típicas das minas de Manicongo”, segundo o autor, que aparentemente se refere aos ‘rios’ mencionados pelo Fernandes quinhentista. Cruzetas normais são os objectos representados nas moedas de 1 e 5 francos de 1961 do Catanga, semelhante a espécimes encontrados nesta região e na Lunda, as chamadas handas de tipo ‘vela de moínho’; do segundo tipo são algumas, de confecção bem mais cuidada, com um rebordo e secção trapezoidal, encontradas nas margens do r. Mpofu, Zimbabwe, e aparentemente precursoras das cruzetas do Catanga. As cruzetas normais atingiam os 30 cm de envergadura e chegavam a pesar
1700 g; representavam, refere o autor, o preço de um escravo, e, mais recentemente, o objecto dava-se em troca de uma esposa, entre os Baluba.

O autor refere que, segundo o P.e Arnot, os Basanga fabricaram lingotes de cobre até 1891, de minas de malaquite e em fundições exploradas por certas famílias aristocráticas, possivelmente até uma casta. Os nativos mencionados pelo Fernandes eram “povos mais brancos que escuros” que Tracey coloca “além do r. Hnugani”.

Moeda de Angolana 2 de 3
.Handa – O nome que o autor atribui aos lingotes de cobre que corriam do Catanga à


Monomotapa (1966) da província do Natal, África do Sul: Handas de cobre, numária monomotápica, ensaio numismático-arqueológico. Note-se que a palavrabanta handa significa clã entre os ovimbundo e outros povos de Angola; por outro lado, o autor refere que Leo Frobenius, o incansável explorador e fundador da etnografia belga, chamava aos mesmos objectos “handacreuse”, que poderá ser heterografia da palavra flamenga handelkruis, ‘cruzeta de comércio’, de onde, possivelmente este termo. Seria preferível, portanto, falar-se de cruzetas e lingotes.



JimbambaPalavra crioula, referida pelo autor, formada de jimbo, o nome dado em Quimbundo à cíprea angolana [o zimbo, que corria até ao Catanga como moeda]; quantidade de zimbos, coisa de valor. Acrescente-se que o termo perdura no Português angolano como ‘embamba’, os pertences de alguém.


JimboQuim. yimbu, do Quic. nzimbu, moeda; palavra que deu origem a jimbamba.

LeraliO lingote dos Pedi, uma barra cilíndrica de 45 cm de comprimento com um cone de 160º (?) numa extremidade e decorações protuberantes, em forma de chifres (o autor não dá gravura do objecto).

LibongoNome que veio a ser dado em Quimbundo ao ‘paninho’ tecido no Loango, semelhante ao ‘paninho do congo’ ou likutu; acrescente-se que é palavra do Quimbundo calunda lu mbongu, ‘moeda – mbonge – irrisória, numerosa, como o nó do caniço’, já que um libongo valia 5 réis em 1695, quando o governador Henrique Jaques de Magalhães fez circular esta primeira moeda divisionária em Angola – já ali havendo moeda de 20 e 10 reis – dando assim origem a um motim entre a soldadesca brasileira da guarnição de Luanda.

LingoteForma manejável em que é vertido um metal pesado, monetário ou não. Depreende-se do trabalho em referência que o lingote de cobre africano ocorre em três formas: a barra cilíndrica, o ‘H longo’ em forma de astrágalo – o ‘jogo das pedrinhas’ – o objecto monomotápico assim denominado por Theodore Bent em The Ruined Cities of Mashonaland, e a cruzeta.

A forma cilíndrica, ou vergalhão, é a mais espalhada pela África austral, tanto como material para a confecção de manilhas, como na forma de mutsuku, os “cilindros rectangulares com fileiras de tachas no topo”, cada uma equivalente a 133 g de metal, o preço de uma enxada de ferro. As extremidades de um lingote monomotápico – de que a forma mais antiga foi encontrada na margem do r. Mpofu, Lomagundi – lembram, nos tamanhos mais pequenos, as orelhas de um martelo: foi Bent que primeiro descreveu o objecto, encontrado pela sua escavação das ruinas do Zimbabué de Fort Victoria, de que Hall and Neal em 1903 encontraram o molde, em talco xistoso, na estaçãode u’Mununkwaba, juntamente com gongos duplos e “um jogo de bolinhas de talco xistoso”; outros 12 moldes conhecem-se de Elizabethville e da Zambia; 21 espécimes foram encontradas por António Joaquim da Rocha “em Guengue, junto ao r. Búzi, na propriedade do Sr. Clemente da Silva”, prov. Manica e (?) Sofala, Moçambique. A cruzeta trata-se separadamente.

Os mutsuku já eram fundidos pelos Lemba, autóctones do Transvaal setentrional quando os Venda bantos ali chegaram no século XVIII. A origem do lingote monomotápico, e portanto o da cruzeta, dele provavelmente derivado, é obscura: Diodoro Sículo descreveu lingotes da Dalmácia, que o arqueólogo Sir John Evans comparou ao lingote africano (re. James Walton, The Afric an Village); poderá ser o objecto dálmata o que aparece reproduzido pelo autor na segunda figura da p. 35: um lingote em ‘H’, convexo – enquanto o monomotápico é côncavo – forma estilizada reminescente da do antigo lingote mediterrânico, no feitio e tamanho de um couro de carneiro; em África, pensa-se que a indústria tivera origem entre os Macaranga. Veja-se também Cameron (1877) e Aurora Ferreira.

Os lingotes africanos mais semelhantes ao objecto moderno foram produzidos pelos Kwena – mineiros do estanho do Rooiberg, distrito de Waterberg, Transvaal – em moldes cavados em areia ou talco xistoso.

LombongoDe libongo, nome dado em Angola ao ‘paninho’ tecido no Loango, que corria como moeda no reino do Congo e em Angola. O termo parece ter começado a aplicar-se às moedinhas de cinco reis que circularam neste reino a partir de 1695; segundo o autor [o termo é crioulo], derivado do Quimbundo m’ilambongo, ‘uma quantidade de imbonge’ (sing.  mbonge, ou ‘bongue’) coisa de contar, como o nó do caniço. Significa hoje, simplesmente,
‘dinheiro’.

MacutaQuim. makuta, pl. de likuta, o nome quicongo dos célebres ‘panos’, tecidos de fibras vegetais que correram como moeda em Angola até 1694. A partir deste ano, correram principalmente moedas de 10 reis produzidas para “o Brasil e Guiné”, querendo ‘Guiné’ dizer todas as possessões portuguesas na costa ocidental de África. As ‘macutas’, com o dístico “África Portuguesa”, só vieram a ser cunhadas em 1762, no tempo do marquês de Pombal. Conheceram, porém, uma grande distribuição no reinado de sua filha D. Maria I: houve emissões em 1783 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata; 1 macuta, em cobre), 1784 (6 e 4 macutas, em prata), 1785 (1, ½ e ¼ macuta, em cobre), 1786 (1 e ½ macuta, em cobre), 1789 (12, 8, 6 e 4 macutas, em prata; 1, ½ e ¼ macuta, em bronze) e 1796 (12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, em prata). Foram desvalorizadas 50% sob o regente D. João, em 1814 (foram carimbadas nas missões até 1816), e não tiveram novas emissões no reinado de D. Miguel. No reinado de D. Maria foram de novo desvalorizadas em 20%, mas houve novas emissões em 1848-51 e em 1853. Sob D. Pedro V houve emissões das moedas de ½ macuta (1858) e de 1 e de ½ macuta (1860). No reinado de D. Luís I houve um ensaio de nova moeda para Angola: as moedas de 20, 10 e 5 reis de 1886 substituiriam as macutas, mas nunca foram produzidas.  Assim, as macutas correram em Angola até à implantação da República em 1910, durante, portanto, 148 anos e 9 reinados.
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Moeda angolanaA primeira sugestão de cunhagem de moeda privativa para Angola pertenceu ao senado da Câmara da cidade de São Paulo da Assunção em 1649, sendo governador Salvador Correia, que também assinou o auto respectivo, de 31.03: as moedas seriam de cobre, com os pesos de duas oitavas e dois terços [2,66×3,586 g ou seja, 9,539 g]... que se chamaria meio pano e valeria 25 reis, e de uma oitava e um terço [metade do peso anterior], que se chamaria libongo e valeria, naturalmente, 12,5 reis.

Moeda de Angola  Página 3 de 3.


O Conselho Ultramarino indeferiu, porém, o pedido respectivo do capitão general, pelo que circulou o pano até 1694; de facto, em 31.03.1688, no reinado de D. Pedro II, o Conselho decidira já mandar cunhar, especialmente para Angola, a franquia 5 reis; cunhou-se em 1693 e veio para Angola com o capitão general Henrique Jaques de Magalhães no ano seguinte; mas como a moeda desse origem a duas rebeliões entre a soldadesca brasileira da guarnição da Luanda – o valor nominal do soldo era 200 reis, mas quando pago em panos valia 700 – parece que nunca circulou em Angola, já que só as moedas de 20 reis cunhadas em 1695 para “o Brasil e Guiné” se têm encontrado no país: o autor repara que nunca viu em colecções nem leu qualquer menção de os 5 reis (1693) e 10 reis (1695) terem circulado em Angola. Circularam, porém, no Brasil, a partir de 1704, e de então até ao reinado de D. José a moeda de Angola era a que se cunhasse para o Brasil. Assim, no reinado de D. João V correram em Angola as da moedas brasileiras de 20 e 10 reis (cunhagens de 1715, 1719, 1735 e 1736), e os 20, 10 e 5 reis (1749) do estado do Maranhão; a mais abundante terá sido, no entanto, a de 10 reis (1737) do Reino.


(1)  A princípio do reinado de D. José corriam em Angola moedas do “Brasil e Guiné” de 40 reis (1753 e 1757), e de 20, 10 e 5 reis (1752 , 1753 e 1757); mas em 1762 (e em 1763, 1770 e 1771),


(2) no governo do Marquês de Pombal, cunhou-se de novo moeda privativa para Angola: exibia, pela primeira vez, o dístico “África Portuguesa” e chamava-se macuta, por referência aos famosos ‘panos do congo’, os makuta. Uma macuta-moeda valia a princípio 50 reis3 ou meio-tostão [a moeda de cobre de 100 reis conhecia-se por ‘tostão’ dada a cor que apresentava quando oxidada]; as moedas foram cunhadas em prata nos valores de 12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, e em

cobre nos de 1, ½ e ¼ macuta; esta última (cunhada em 1771) chamava-se ‘quipaca’ na Guiné, onde a antiga moeda de 5 reis [1/10 da macuta] (3)  se conhecia por ‘pano’.



A moeda angolana foi desvalorizada em 50% no reinado de D. João VI; a carimbagem, de má qualidade, foi feita no decorrer dos anos de 1814-16, nas oficinas das missões católicas, que usaram os seus próprios carimbos. No reinado de D. Miguel fizeram-se ensaios para novas macutas, mas entretanto sobreveio a guerra civil portuguesa. Sob D. Maria II a moeda angolana foi decimalizada em 1838, e quando novas emissões apareceram (1848-1851 e 1853) a macuta tinha-se desvalorizado outra vez, em 20%, de 50 reis para 62,5 reis; do mesmo modo, ‘peças’ e ‘meias-peças’ do Reino, de 7500 e 3750 reis, começaram a circular em Angola com os valores de 13000 e 6500 reis. Desaparecia a macuta.


Sob D. Luís I corria em Angola a mesma moeda que em Portugal: ensaiou-se em 1886 uma moeda de 20 reis privativa para Angola, mas o projecto não se realizou e os reis do Reino continuaram a circular em Angola nos primeiros 10 anos da República.

No governo geral do general Norton de Matos, e por despacho ministerial de 07.02.21, voltou a cunhar-se moeda privativa para Angola, em que figurava no anverso o perfil da ‘república’: em 1921 (1, 2 e 5 centavos em bronze, 10 e 20 centavos em cupro-níquel), 1922 (5 centavos em bronze, 10 e 20 centavos em cupro-níquel, 50 centavos em níquel), 1923 (5 centavos em bronze, 50 centavos em níquel) e 1924 (5 centavos em bronze).

Nas primeiras emissões de moeda angolana do Estado-Novo, toda em alpaca, em 1927 (50, 20, 10 e 5 centavos) e 1928 (50, 20 e 10 centavos), reapareceu a palavra ‘macuta’ – agora com o valor de 5 centavos – e a face da ‘república’ era mais feminina que nas moedas anteriores. Mas desapareceu das emissões seguintes, em 1948 (50 centavos em bronze-níquel, 20 e 10 centavos em bronze), 1949 (20 e 10 centavos em bronze) e 1950 (50 centavos em bronze-níquel), bem como o perfil da ‘república’; além disso, o escudo português foi substituído por um desenhado especialmente para Angola, em que figuravam um elefante e uma zebra. Moedas de prata, do mesmo desenho, mas de 20 e 10 escudos, apareceram em 1952; o escudo (o antigo tostão, ou 100 reis) em 1953 (1 escudo e 50 centavos em bronze, e 2,5 escudos em cupro-níquel). As últimas cunhagens deste período da República portuguesa, referidas pelo autor, datam de 1967.

MutsukuTipo de lingote encontrado na estação de Rwena, no Magaliesberg, que correu no Transvaal setentrional, fabricado pelos Kwena a partir de antigos modelos pré-bantos (Lemba). Tipo especial do lingote cilíndrico, tal como o lerali, tem o feitio de um feixe de varões constricto ao meio, com tachas (studs) no topo, e era utilizado também como monumento sepulcral, como as efígies de pedra que os antigos muxicongos colocavam sobre as suas campas.

OngondoManilha de cobre colocada antigamente nos artelhos das mulheres dos homens mais abastados, de valor proporcional ao peso, que variava de 0,5 a 7,0 quilogramas: as mulheres mais ricas tinham por isso que ser transportadas de cadeirinha; era, afinal, um tipo de lingote cilíndrico, mas moldado, que correu em Angola desde o Cuanhama ao planalto de Luanda: um espécime encontrado em Saia, perto de Dalatando, mede 24 cm de diâmetro e 4 cm de espessura – não é, portanto, um anel de artelho – e pesa 5,430 quilogramas; o autor menciona que um destes objectos, de 1,240 quilogramas (11 cm de diâmetro por 2,8 cm de espessura), comprava um bezerro.

A colocação de um ongondo no artelho de uma mulher envolvia primeiramente o corte e formação inicial da argola, usando uma trolha em forma de pêra, a maçaneta ou otyikalo, e um cone de calibragem, também de ferro, o osinua; a argola, depois de batida em redor do cone, era então aberta para deixar passar o artelho, e fechada de novo a frio, com o auxílio do otchicalo, sobre um calhau a servir de bigorna: tinha que ser uma operação delicada. O autor refere-se a um jazigo de minério para este cobre “no Cuamato, num local de difícil acesso, a leste do deserto do Roçadas... [na] mulola do Tchimpôro.”

Pano 

ZimboO autor pensa que a palavra é quimbunda: é conguesa (nzimbu), sendo a pesca da cíprea angolana praticada entre Luanda e o rio Longa, provavelmente por canoeiros de língua banta que os autóctones pré-bantos chamaram solungu, ‘senhores dos lungu’, sendo lungu o nome dado antigamente à canoa marítima entre a margem direita do rio Zaire e o Gabão; eram de facto nobres da corte do régulo dos Su-hu (‘sung-hu’) – mais tarde ‘conde’ de Son-ho, termo aportuguesado nos documentos c evos para ‘Sonho’ e hoje nacionalizado como ‘Soyo’ – que o rei do Congo autorizava como fiscais da pesca do zimbo na “ilha” de Luanda. A palavra conguesa foi quimbundizada para yimbu, por onde o crioulo jimbo.



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1. Estas moedas terão estado ainda em circulação em Angola em princípios do século XIX, já que, segundo o autor, foram desvalorizadas em 50% por decreto de 18.04.1809.

2. O autor acha que a moeda de ½ macuta de 1755 no Museu de Angola seria uma prova ou falsificação.

3. Noutra passagem o autor refere que a macuta valia 40 reis, e portanto 5 reis equivaleriam a 1/8 da macuta.
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 Natural de Moçâmedes, hoje Namibe, Angola. Amigo e colega no Helderberg College, África do  Sul. Depois de terminar os estudos universitários, em Geologia, fixou residência naquele país.  endereço ao Júlio Victor os meus agradecimentos pela sua valiosa colaboração..




.Inserção em 14 de Março de 2004.

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