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segunda-feira, 7 de março de 2016

Martinho da Arcada quer ocupar sobreloja e assumir-se como “café literário”

Espaço sobre o café frequentado por Fernando Pessoa pertence à Direcção-Geral do Tesouro. Ministério da Cultura já reconheceu o interesse cultural do projecto.
 

O café tem nas paredes várias fotografias de Fernando Pessoa MIGUEL MANSO

Por cima do histórico café Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, Lisboa, existe uma sobreloja com uma entrada directa a partir da rua, que se faz por uma grande porta verde mesmo ao lado da esplanada. É nessa sobreloja, actualmente propriedade da Direcção-Geral do Tesouro, que o proprietário do Martinho, António de Sousa, e o escritor Luís Machado pretendem instalar o espaço Pessoa Plural – projecto que o ministro da Cultura, João Soares, considerou “de elevado interesse cultural”, num despacho que já seguiu para o Ministério das Finanças, segundo confirmou ao PÚBLICO Elísio Summavielle, adjunto do ministro (e entretanto nomeado presidente do Centro Cultural de Belém).  
A ideia, explicam os dois promotores da iniciativa, sentados a uma mesa do Martinho, é “preservar a memória do poeta Fernando Pessoa" através de uma programação com conferências, mesas-redondas, recitais de poesia, espectáculos, projecção de filmes e “eventualmente uma livraria pessoana”. Pretendem também, mensalmente, organizar no restaurante um jantar com uma “ementa pessoana”, criada por Luís Machado, autor do livro À Mesa com Pessoa.
Para isso precisam apenas que o Ministério das Finanças ceda o espaço, que, segundo afirmam, tem actualmente um “arquivo morto”. Houve também já um encontro com a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, para apresentar a ideia. O gabinete da vereadora lembra, contudo, que “o deferimento desta pretensão depende do Ministério das Finanças”.
Há muitos anos – mais exactamente desde 1991 – que Luís Machado e António de Sousa colaboram no esforço de manter actividades culturais no café (hoje restaurante, com um espaço de cafetaria à parte, com entrada própria mas sem mesas) que Pessoa frequentava assiduamente e onde, lembram, “combateu a solidão”, especialmente no final da vida. Questionados sobre se um espaço ligado ao autor doLivro do Desassossego não colidiria com a programação da Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, defendem que se trata de duas coisas diferentes.
“A Casa Fernando Pessoa é sobretudo uma casa-museu”, argumenta Luís Machado. “O Martinho está aqui num dos eixos mais nobres da cidade, por onde passam diariamente muitas centenas de turistas”. António, que é proprietário do Martinho desde 1989, diz que todos os dias recebe visitantes estrangeiros, entre os quais muitos brasileiros, que querem ver “a mesa de Pessoa” e conhecer o local onde o poeta passou muitas horas da sua vida. “Há choro aqui, há abraços, há muita emoção”, descreve.
O Martinho da Arcada – assim conhecido porque um dos seus antigos proprietários, Martinho Rodrigues, do qual recebeu o nome que mantém até hoje, tinha outro estabelecimento no Rossio, chamado precisamente Martinho do Rossio – é o mais antigo café de Lisboa sempre em actividade. Foi um dos primeiros edifícios a nascer na Praça do Comércio quando a própria praça se ergueu após o terramoto de 1755.
A 7 de Janeiro de 1782, poucos meses antes da morte do Marquês de Pombal, o Martinho abriu pela primeira vez as portas, sendo inicialmente conhecido como Casa da Neve, por aí se vender gelo e gelados. Ao longo de dois séculos, sublinha Luís Machado, “foi poiso de jacobinos, liberais, maçons, anarquistas e republicanos”, tendo por tudo isto “um valor histórico indiscutível”.
A ideia de aproveitar a sobreloja foi apresentada pela primeira vez ao anterior Executivo, de Pedro Passos Coelho, mas com as eleições e a mudança de Governo o assunto foi adiado e só agora, já com João Soares, foi retomado. Luís Machado afirma que a lei prevê a possibilidade de cedência de um espaço sem concurso público se os fins a que se destina não forem comerciais e houver o reconhecimento do interesse cultural.
O Martinho foi classificado como local de Interesse Público em 1978, mas nos anos 80 tinha entrado em decadência, receando-se então que viesse a encerrar ou a ficar totalmente descaracterizado. Foi graças aos esforços da Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada, que iniciou a dinamização cultural do espaço, que se conseguiu chamar a atenção para o problema e reunir fundos públicos para a reabilitação, da responsabilidade do arquitecto Raul Hestnes Ferreira.
Mas depois disso o espaço mudou de mãos, tendo sido comprado por António de Sousa. Agora, diz o proprietário, o Martinho quer “assumir a função de café literário, que é a sua verdadeira vocação”. “Para esta casa seria uma nova respiração”, garante.  
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/martinho-da-arcada-quer-ocupar-sobreloja-e-assumirse-como-cafe-literario-1725384

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Gonçalo M. Tavares recebe Prémio do Melhor Livro Estrangeiro publicado em França

Literatura

22.11.2010 - 20:06 Por Alexandra Prado Coelho
É uma "grande honra" ter o nome "numa lista de vencedores que inclui grandes nomes da literatura e livros míticos", disse ontem Gonçalo M. Tavares, numa breve conversa telefónica com o PÚBLICO, pouco depois de terminar a cerimónia em que recebeu o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro publicado em França em 2010 pelo seu livro Aprender a Rezar na Era da Técnica, editado em Portugal pela Caminho.
Gonçalo M. Tavares  
Gonçalo M. Tavares  (Nuno Ferreira Santos)



E quando fala em "grandes nomes da literatura e livros míticos", Gonçalo M. Tavares não está a exagerar: o prémio, criado em 1948 por Robert Carlier e André Bay e patrocinado pelo hotel parisiense Regency Madeleine, distinguiu obras como O Homem Sem Qualidades (1958), de Robert Musil, ou Cem Anos de Solidão (1969), de Gabriel Garcia Marquez, e outros autores como Kawabata, Soljenitsin, Guillermo Cabrera Infante, John Updike, Adolfo Bioy Casares, Mario Vargas Llosa, Günter Grass, Salman Rushdie, Orhan Pamuk ou Philip Roth. Até hoje só outro autor português venceu este prémio: António Lobo Antunes.

Trata-se de um prémio com "uma história invulgar de qualidade" e Gonçalo M. Tavares quer dedicá-lo à literatura de língua portuguesa. "É bom este tipo de prémios, com este prestígio, de vez em quando pararem na língua portuguesa", diz. E se isso acontece, sublinha, "tem muito a ver com a qualidade da literatura de língua portuguesa".

Aprender a Rezar na Era da Técnica (quarto romance da série O Reino, depois de Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém) é o sétimo livro do escritor editado em França, onde tem sido "recebido com muito entusiasmo", conta. E isso é particularmente importante porque França "é um país onde se traduz muito e com muita qualidade".

Antes de conquistar o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro, o mesmo livro fora já finalista de outros dois prémios literários de grande prestígio, o Femina e o Médicis.

Sendo "um dos romances mais densos" que escreveu, o livro, que foi traduzido para o francês por Dominique Nédellec, "tem tido um percurso muito interessante" também noutros países, nomeadamente o Brasil.

O júri que decidiu atribuir-lhe o prémio é composto por André Bay, Daniel Arsand (responsável pela literatura estrangeira nas Éditions Phebus et Auteur), Manuel Carcassonne (director editorial das Éditions Grasset), Gérard de Cortanze (escritor e editor da Gallimard), Nathalie Crom (responsável pelas páginas de literatura da Telerama), Solange Fasquelle (escritora e membro do júri do prémio Femina), Anne Freyer (editora de literatura estrangeira da Seuil), Christine Jordis (escritora e editora da Gallimard, também membro do júri do Femina), Jean-Claude Lebrun (do L"Humanité), Joseph Mace-Scaron (director do Magazine Littéraire), Ivan Nabokov (editor da Plon), Joel Schmidt (escritor) e Laurent Ebzant (director-geral do Hyatt Regency Paris -Madeleine).

Notícia substituída às 13h21 de 23 de Novembro
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sábado, 12 de junho de 2010

Há um grande mercado para a literatura em Português e está a entrar em ebulição do lado de lá do Atlântico



  
José Saramago com Pilar del Rio numa exposição em São Paulo MAURICIO LIMA/AFP
Por Alexandra Prado Coelho e Fabiana Godoy, em São Paulo
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Em 2008, ter-se-ão editado mais de 51 mil títulos no Brasil. Um crescimento de cerca de 15 por cento face ao ano anterior. Está aqui o futuro do Português

O escritor angolano José Eduardo Agualusa não tem dúvidas: a estratégia para o Português só faz sentido em conjunto com o Brasil. Por um motivo claro: quando pensamos em livros em Português, "o Brasil é o grande mercado, não há outro", diz o escritor, recordando que Angola, a grande esperança africana, "tem dois mil leitores, não existe enquanto mercado literário".

De resto, é pela literatura "que é mais fácil entrar no Brasil", acredita Agualusa. Portugal "tem uma boa política de apoio à publicação de autores portugueses e africanos [de língua portuguesa], e isso mudou realmente a forma como a literatura portuguesa passou a ser recebida no Brasil, hoje há muito mais autores nas livrarias". Não estamos, contudo, a falar forçosamente de exportação.

Se há 20 anos as taxas para a exportação de livros tornavam a actividade ruinosa, hoje, diz Agualusa, "deixou se fazer sentido exportar, agora os autores [portugueses e africanos] estão presentes [no Brasil] através de editoras brasileiras."

Portugal começou já a entrar nesse mercado. A editora Leya avançou no ano passado e publicou até agora cerca de 40 livros (este mês sai a versão brasileira do Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, organizado por Fernando Cabral Martins). Apesar de alguns dos mais conhecidos autores portugueses não terem trocado as suas editoras no Brasil pela Leya, esta apostou na diversificação de estratégias e no apetecido mercado de edições escolares - deverá entregar no início do próximo ano livros das 25 disciplinas do 1.º ao 5.º ano para certificação, disse ao PÚBLICO fonte da editora.

Portugal podia fazer mais


Mas, perante o espantoso crescimento do mercado brasileiro - "estão a pôr a população a ler", diz Agualusa, e o Estado é neste momento o maior comprador de livros para equipar as bibliotecas -, Portugal podia fazer mais. Podia, por exemplo, ter uma presença muito mais forte na Festa Literária de Paraty, a grande montra da literatura hoje no Brasil.

Apesar disso, "a literatura portuguesa é lida nas universidades, todas as universidades públicas têm estudos portugueses", sublinha o brasileiro Luiz Ruffato, autor de Estive em Lisboa e lembrei-me de ti (Quetzal). "Em Portugal, isso não acontece com os contemporâneos brasileiros", lamenta.

O Brasil pode não fazer uma grande aposta na promoção externa da sua literatura, mas tem um vibrante mercado interno em crescimento exponencial, com apoios à escrita, lei do mecenato, prémios, feiras... Ao contrário do que acontece em Portugal, é um bom momento para correr atrás do sonho da escrita no Brasil. "Nunca foi tão fácil para um jovem chegar numa editora, publicar e divulgar seu trabalho", diz Antônio Xerxenesky, um dos donos da Não-Editora, especializada em novos autores.

Segundo os analistas, a estabilidade económica, maior escolaridade e maior poder de compra da população está a dar origem a um "boom" literário. Por isso, as editores têm apostado em mais lançamentos. Em 2008, ter-se-ão editado mais de 51 mil títulos, um crescimento de quase 15 por cento em relação ao ano anterior. "O mercado está a diversificar a aposta como se estivesse num casino", diz Sônia Jardim, presidente Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Nos últimos cinco anos, surgiram também dezenas de pequenas editoras, como a Não-Editora, criada em 2007 por seis autores de Porto Alegre e que já publicou 15 livros. Centenas de novos autores brasileiros estão também a sair do anonimato com a ajuda da Internet. Há pouco mais de um ano, foi criado o "Clube dos Autores". O autor inscreve seu livro gratuitamente e o site funciona como uma loja virtual de venda da obra. Quando um comprador escolhe o título, o texto é mandado para uma gráfica e, depois, entregue em casa do freguês. Por dia, são publicados cerca de 30 títulos. Num ano, foram três mil. "Nunca se produziu tanto conteúdo como hoje na Internet e não fazia sentido a dificuldade em publicar, em atingir o público", diz Ricardo Almeida, director-geral do Clube dos Autores.

Prémios, feiras e bienais


Outros estímulos importantes são os prémios, as feiras e as bienais, algumas das quais se tornaram já paragem obrigatória para novos autores, consagrados, autores estrangeiros, pequenas e grandes editoras e, claro, leitores. São festas como a de Paraty, Porto de Galinhas e Ouro Preto, que acontecem ao longo de todo o ano (no ano passado, a Bienal do Rio de Janeiro teve 600 mil visitantes).

Nos prémios, o mais valioso é o Prémio São Paulo de Literatura, do Estado de São Paulo, que dá 200 mil reais ao melhor livro do ano e a mesma quantia à melhor primeira-obra.

O Prémio Jabuti, um dos mais tradicionais, teve recorde de inscritos em 2010, com quase três mil obras. Basta que um livro seja seleccionado pelo júri para que já se sintam os efeitos de fazer parte de um mercado emergente. "Só por ser indicado como finalista um livro, ele já vende mais, é publicado em Portugal e o escritor é chamado para fazer palestras", conta Selma Caetano, curadora do Prémio Portugal Telecom, que tem como objectivo aumentar o intercâmbio literário entre os países de língua portuguesa.
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