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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Bagão Felix - Silêncio entre silêncios (e um aniversário)

18 de Maio de 2016, 12:29
Por António Bagão Félix



F
requentemente acontece guardar-se um minuto de silêncio pela morte de alguém com algum significado ou representação. Nos recintos desportivos, essa forma de homenagem exprime-se, em geral, perante muitos espectadores. Sobretudo nos estádios de futebol, o silêncio é, não raro, substituído pelo ruído de muita gente que se está nas tintas para o momento de respeito, como também por palmas e palminhas miméticas para quem 60 segundos de silêncio são quase uma eternidade impossível de cumprir. Como isto é exasperante diante de quem não é capaz de ter a sensibilidade e o respeito de guardar silêncio, como se um minuto cronológico fosse uma “prisão perpétua”!
Ainda recentemente, assim foi na homenagem a um ex-árbitro internacional falecido, Paulo Paraty de 53 anos. Num dos estádios – não importa qual, pois o que aconteceu não é exclusivo deste ou daquele clube – não tivemos silêncio, não tivemos palmas, mas antes assobios. Tratava-se de um árbitro, logo inimigo mesmo na morte. Onde chega a ignomínia moral!
Este é um dos lados mais soezes e indigentes do horror ao silêncio. O horror ao vácuo do som (mesmo que não o possamos traduzir por silêncio, coisa bem distinta) vive todos os dias entre nós. É que o silêncio incomoda a mente de quem só vê o seu contrário como vantajoso, numa abordagem cretinamente utilitarista. O silêncio não é a moda. O que hoje mais parece contar não é a magnanimidade do silêncio respeitado, mas antes a sua ostensiva violação, mesmo que através da fronteira acústica de sons ocos, de interjeições vazias e de palavras perdidas no vazio de ideias.
O silêncio não é apenas a ausência do som, como a sombra não se esgota no recato da luz. O silêncio existe para além da não existência do seu oposto. Não foi o silêncio que veio perturbar a necessidade do ruído, mas o inverso. Por isso, este é dependente daquele. E, afinal, o que mais conta: o silêncio entre palavras ou as palavras entre silêncios? Ou, como escreveu Mia Couto, será que o silêncio não é a ausência da fala porque é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra?
Não há apenas o silêncio, há os silêncios. O bom e o mau. O genuíno e o cretino. O sem medida e o calculista. O de cada um para si e o de cada um para o outro. O que brota da dignidade e o que espezinha a respeitabilidade. O da alegria e o da tristeza. O do amor e o do desamor. O da concordância e o da discordância. O da liberdade e o da opressão. O da eloquência e o da ignorância. O da serenidade e o do desassossego. O da esperança e o do desespero. O da convicção e o da responsabilidade. O da verdade e o da mentira. O da persuasão e o da omissão. O da generosidade e o da indiferença. O da autenticidade e o do fingimento. O da coragem e o do medo. O da purificação e o da contaminação. O da solidão procurada e o do abandono perverso. O da paz e o da guerra. O da argumentação e o da decantação. O da chegada e o da partida. O da presença e o da ausência. O do alfa e o do ómega. O
A Natureza gosta do silêncio sem adereços. Porque o silêncio é a forma serena de se adormecer e o modo suave de se acordar. A neve cai no silêncio. A alvura é o silêncio majestoso das cores na sua plena união. O nascer e o pôr-do-sol convidam à serenidade do silêncio. O silêncio é o dia cedo, como contraponto da noite tarde.
O olhar pode ser muito mais do que o silêncio de uma palavra não dita. O silêncio da oração pode ser dito por palavras. E o silêncio sem palavras repetidas mecanicamente pode ser a plenitude da oração. O silêncio do reencontro é a forma perfeita do amplexo fraterno. O silêncio diante da morte diz tudo no respeito de nada falar.
A sociedade incomoda-se, cada vez mais, com o silêncio. O silêncio não é um bem transaccionável que se compre ou venda, não é objecto de transmissões televisivas que, aliás, o abominam, seria um absurdo na rádio, não substitui as palavras dos jornais, é um paradoxo no activismo das redes sociais, não se associa ao sucesso, quase se lega às gerações futuras como um estigma lúgubre. O silêncio incomoda porque interpela, perturba porque vem de dentro, enfada porque não rende, afasta porque se crê ser a forma de não comunicar.
Numa qualquer reunião ficar em silêncio desqualifica, mesmo que nada se tenha para dizer. Num debate televisivo o perdedor é o que fala menos, mesmo que no intervalo do seu silêncio, tenha sido o que disse mais. Nos discursos, o que conta não é o valor do conteúdo mas o tempo em que se agride o silêncio de ainda não se ter terminado. Na discussão, ganha quem não se cala e perde quem, às vezes sensatamente, escuta, no silêncio do seu ser, a consciência do respeito. Cito, contextualizada, a sapiência de Eurípedes: “fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio”.
O silêncio é agora urbi et orbi quebrado com a autocracia do som, ainda que musical. Na espera nos telefones onde nos impingem músicas e ritmos que não pedimos e que nunca ouviríamos, a maior parte das vezes para intervalar um serviço de atendimento permanentemente entupido ou deficitário de qualidade. Um pai ou uma mãe que acabam de perder o seu filho amado são agredidos com um alegre folclore ou música pimba que àquela hora os apanhou num telemóvel. Nos elevadores, a má-criação de um silêncio de quem não tem a educação mínima de cumprimentar quem entra ou sai, é envolta numa qualquer musiqueta de pacotilha. Nos transportes ou nos táxis, o seu utilizador tem de aturar, sem dar autorização, música rasca ou anúncio aparvalhado. Nos comboios, há momentos em que as carruagens mais parecem centrais telefónicas, onde o recato é minoritário.
O silêncio é, hoje, motivo de chacota e pretexto de crítica. Já lá vai o tempo em que o silêncio era de ouro. Hoje, na época dos ruídos metalizados, nem a mais reles lata se associa ao silêncio. Fala-se, sem rodeios, do silêncio (offshore) da lei, extrema-se a linguagem quando se diz que há um silêncio sepulcral e achincalha-se um oponente quando se afirma que se reduziu o fulano ao silêncio.
Mas volto ao início. Ao silêncio desfrutado, como ao silêncio que transporta respeito. Pelo outro e por cada um. É necessário reabilitar o silêncio que nos oferece tempos de expressão lhana, cristalina, límpida de nos exprimirmos e de nos sentirmos ser. Convida-nos à profilaxia da introspecção, aproxima-nos de nós mesmos, orienta-nos na selecção do que não é silêncio.
Nunca quebres o silêncio se não for para o melhorar”, disse um dia Beethoven. Deixo estas palavras envoltas no “Silêncio de Beethoven” da autoria do notável compositor e pianista mexicano Ernesto Cortázar e convido o amável leitor a ouvi-lo. E assim o silêncio se engrandece e se acaricia através da beleza de sobre ele compor. Com uma nota intimamente pessoal: hoje a minha filha mais nova faz 40 anos. Ofereço-lhe o mais paternal e amoroso silêncio.




Uma curiosidade que muitos não conhecem: foi Portugal que inventou a hoje generalizada homenagem pública silenciosa. Em 1911, o Parlamento, em memória do ministro brasileiro dos Negócios Estrangeiros, primeira entidade a reconhecer a República Portuguesa, observou uma hora, repito, uma hora de silêncio; e, no dia seguinte, o Senado fez o mesmo, mas já só durante dez minutos. Este costume inaugurado pelos portugueses generalizou-se depois por todos a Europa, por ocasião da vitória dos Aliados em 1918, claro que já sobre a forma breve que conhecemos hoje, a de um minuto de silêncio.


  1. Não tem nada que agradecer João Macedo. Eu também não conhecia este pormenor, mas tenho-o como verdadeiro porque quem o diz é historiador Alain Corbin, autor de «Histoire du silence de la Renaissance à nos jours», livro onde traça a história das formas tão diferentes como o Homem ocidental amou o silêncio, rejeitou-o, procurou-o ou teve-lhe uma verdadeira aversão.
    As formas de receção do silêncio seguramente variaram ao longo da História. Creio que o Homem do século XXI suporta muito mal o silêncio, o que o confunde e deixa perante o que mais teme: o tédio. Estamos numa civilização que valoriza sobretudo o lúdico e evita deixar as pessoas a sós com os seus pensamentos.
    Há poucas semanas um artigo no Público dava conta de um curioso estudo. Para os participantes era tão insuportável estarem a sós 15 minutos com os seus pensamentos que muitos eram levados a auto-administrar um choque eléctrico apesar de terem declarado previamente que estavam dispostos a pagar para o evitar. Para o Homem do século XXI não ter nada para escutar ou fazer aparentemente é o pior que lhe pode acontecer.
  2. Não conhecia, mas acho interessante sobretudo para medir o grau de (in)capacidade de suportar o tempo do silêncio!
https://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/05/18/silencio-entre-silencios/

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

António Bagão Félix - ez palavras: na moda, mas feias

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16 de Novembro de 2017, 08:32

Por


Dez palavras: na moda, mas feias

A
proxima-se o dia do anúncio dos dez vocábulos para a votação da “Palavra do ano”, uma interessante iniciativa da Porto Editora desde 2009.

Enquanto aguardamos, resolvi fazer uma outra escolha: a das 10 palavras mais feias que por aí andam de braço dado com modismos ou encavalitadas em posologia tecnocrática. Fealdade, evidentemente subjectiva. Ou feiura, que só não está entre as eleitas porque ninguém a balbucia. Para mim, a estética da palavra é uma mistura quase sinestésica do som, da textura silábica, do bom casamento (ou não) entre vogais e consoantes, da macieza (ou falta dela), da cor que, por vezes, lhe associo. Numa curta viagem pela memória do ano, eis a minha selecção (por ordem alfabética):
1. Alavancagem, às vezes até sem embraiagem e engrenagem. Muito em voga na linguagem financeira e empresarial. Associo-a a tacto áspero, com vogais sem travagem. Mais tarde ou mais cedo, antevejo que vai servir para medir o grau e intensidade do assédio sexual.
2. Bascular, que não devemos confundir com basculhar ou vascular. Verbo muito usado no futebol, ainda que sem conta, peso e medida. Conjugação retorcida, como por exemplo, no imperativo “bascula tu!” ou no condicional “bascularia”. Além do mais, palavra a preto-e-branco entre as vogais a e u.
3. Disrupção. Pior só o sinónimo rompedura. Associo-a à memória do som agudíssimo do giz arranhando a pobre lousa escolar.
4. Empoderamento. Olfactivamente, o substantivo tem falta de refrigeração, por isso o associo a podre. Tem uma forma axadrezada, o que não significa necessariamente “xadrez” para o empoderado. O verbo é do mais divertido que há. Imaginemos um diálogo: “Empodera-o tu! Não senhor, melhor seria se tu o empoderasses…
5. Engajar. “Engaja, pá, antes que eu engaje”. Eis o engajamento em todo o seu verbal esplendor, indicativo e conjuntivo. Quando ouço estas palavras logo olho para os sapatos para ver se precisam de engraxamento. E do castanho me lembro.
6. Governança. Palpita-me que anda por aqui ideologia de género. É que governo é palavra masculina e governança é feminina, mesmo que juntas com outro palavrão, governabilidade. Cá para mim, associo-a a cozinha, bons pratos e olfacto guloso. E recordo, gostosamente, o governo da governanta da “família Bellamy”.
7. Incumbente. Que me perdoe um qualquer intendente desta palavra incumbente, mas só a retenho no sentido botânico, ou seja pensando na parte da planta inclinada para a terra. Palavra escura, senão mesmo tétrica, não por causa da planta, mas da terra para onde se vai.
8. Paulatinamente. Isto é: latinamente e com pau. Por fases. E atempadamente, a sua irmã siamesa, qual delas mais feia e disforme. Associo-as aos equipamentos desportivos às riscas. Não sei porquê.
9. Performante. Mais um anglicismo, tal qual o performativo. De todas estas palavras é a que cheira melhor, não fosse parente da perfumaria. Mas tirando isso, é como se em vez de um saboroso bacalhau com batatas, grelos e ovo cozido me dessem, em versão “nouvelle cuisine” minimalista, um “bacalhau confitado com pastel crocante de grão de bico, acelga selvagem e sêmola de milho”.
10. Resiliência. Lamento, mas já não a tenho (a dita resiliência) para sequer a comentar. Nem para a alocar (esta seria a 11ª…).
Peço desculpa por ter deixado de fora uma série de palavras que me merecem toda a desconsideração. Não tiveram “cabimento” (outra, a 12ª).

https://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/11/16/dez-palavras-na-moda-mas-feias/?page=/&pos=24&b=opinion__compact

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Bagão Felix - “Óscares” para os cartazes eleitorais

Valha-nos o bom-humor, para além da piscadela de olho ao CDS/PSD sem esquecer o Bloco (Victor Nogueira)

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21 de Setembro de 2017, 08:21

Por


“Óscares” para os cartazes eleitorais

E
stamos a uma semana das eleições locais. Confesso a minha pouca paciência para ler ou ouvir o que dizem os candidatos. Mais do mesmo, com qualidade em preocupante decréscimo. Admito, porém, que não devo generalizar e que estarei a ser injusto para pessoas que, com coragem, se abalançaram a um inestimável serviço público.

Mas nem tudo é monótono. Por exemplo, os cartazes – que hoje é possível conhecer por esse país fora, sobretudo através da Net – têm sempre um sabor especial, seja no humor, seja na imaginação e no aproveitamento do nome das terras, seja ainda no excêntrico, senão mesmo no ridículo.
Embora acautelando não estar absolutamente seguro de que, nalgum caso, possa haver montagens (hoje tão comuns na Internet que, aliás, me fazem duvidar de tanta coisa que por lá passa…), partilho com os leitores os meus “Óscares”, sem me referir aos partidos ou movimentos responsáveis pelos cartazes, o que, para este efeito, não importa.
Depois de aturada análise, o principal galardão vai para um cartaz algures: “ENTRE O PASSADO E O PRESENTE, ESCOLHO O FUTURO”. Na mouche
Quanto ao “Óscar” gastronómico, selecciono três cartazes: “POR AMOR A FAJÕES”, não sei se vermelhos, manteiga ou mesmo frade, “CONTINUAR LEITÕES”, ainda que não na Bairrada e “JUNTOS PELOS BISCOITOS”, neste caso biscoitos açorianos.
Na categoria de “Saúde”, estão indigitados: “CONTINUAMOS CALVOS”, apesar do candidato na fotografia exibir um assinalável cabelo que contradiz a alopécia ínsita no cartaz, “COM CANO NO CORAÇÃO”, não sei se com comparticipação no cateterismo cardíaco  e “A NOVA ALTERNATIVA PARA DEGOLADOS”, que não imagino, nem quero imaginar qual seja.
Na categoria de promessas vai ser complicado escolher entre “FAZER COM TODOS” (de um candidato independente, evidentemente), “FAZER MAIS”,” FAZER PELOS DOIS”, “CONSIGO, TODOS OS DIAS” e “A NOSSA É MAIOR QUE A DELES” (paixão), não sabendo, ainda, se um cartaz de 2013 se repete este ano (“COINA PARA TODOS”).
Já na categoria de “Promessas especiais”, os indigitados para o “Óscar” são: o mais tétrico “REDUÇÃO DO PREÇO DAS CAMPAS PARA METADE” e o mais caprichoso “QUEREMOS CORNES SEMPRE MELHOR”.
Quanto ao melhor argumento, estão seleccionados “PASSOS PARA TODOS”, “JUNTAR COSTA E ENCOSTA”, “4 ANOS DE GARANTIA” e “TODOS SOMOS SARILHOS GRANDES”.
O prémio para o cartaz em língua estrangeira vai para “JE SUIS ESPOSENDE”.
Na categoria de efeitos especiais, a luta será entre “PODAME AOS PODAMENSES”, “EU SOU O DIOGO, MAS PODES CHAMAR-ME SALOMÉ” (estranhamente do CDS e não do Bloco de Esquerda…) e “POMBAL HUMANO”, uma espécie de columbofilia transgénero.
No sector da limpeza, concorrem “PELO PÓ, SEMPRE” (sabotando a publicidade a produtos de limpeza), “PELA BRANCA TUDO CLARO COMO A ÁGUA” e o quase seu contrário “POR UMA BRANCA DIFERENTE”.
Há, ainda, um troféu honorário destinado ao cartaz de carreira. Venceu “SOU DE CONFIANÇA”. Esclarecedor, sem dúvida. Fez-me lembrar, em sentido oposto (ou talvez não), um velho cartaz no Brasil: “ROUBO, MAS FAÇO!”.
Pena não se coligarem ao menos os cartazes do PSD e CDS em Lisboa. Um é “POR UMA SENHORA LISBOA”, outro refere “PELA NOSSA LISBOA”. A junção daria um cartaz religioso “PELA NOSSA SENHORA DE LISBOA” que concorreria com Fátima.
Por fim, o cartaz que venceu o “Óscar” da inutilidade: “SOU CANDIDATO”.
Tudo menos economia, como se constata.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/09/21/oscares-para-os-cartazes-eleitorais/#comment-49700

quinta-feira, 30 de março de 2017

Correcção política ad nauseam por Bagão Feiix

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30 de Março de 2017, 09:11

Por




A
linguagem politicamente correcta continua a expandir-se em extensão e compreensão. Abarca quase todas as áreas, incluindo a religiosa, talvez com a excepção do futebol onde predomina o chico-espertismo umas vezes mais rasca, outras vezes mais diplomático.
Na linguagem gestionária e na economia é notória a invasão, acantonamento e militância da correcção política. No debate de há dias na AR, o Primeiro-ministro garantiu que não haverá despedimentos na CGD, respondendo a Jerónimo de Sousa. Haverá – tão-só – reformas antecipadas e rescisões amigáveis, disse. Um feito, direi, fechando balcões, reduzindo estruturas e eliminando postos de trabalho. Verdade seja dita que a sua resposta foi a habitual de políticos e gestores nas mesmas circunstâncias. Hoje, para gáudio da correcção política, não há despedimentos, apenas “rescisões por mútuo acordo” (convencionalmente amigáveis) e reformas generosamente antecipadas ou, numa visão global, falar-se-á de uma “reestruturação” (com o indispensável prefixo re) ou downsizing (em modo anglófono e erudito). Obviamente, tudo polvilhado com “flexibilidade”.
Exaustivamente replicada há, também, a consagradíssima classificação das pessoas nas organizações como “recursos humanos”, que, bem vistas as coisas, está cada vez mais adequada à lógica pura e dura de coisificar o trabalho e de se ser mero meio ou instrumento e não sujeito e fim das acções. Nós não somos recursos (humanos). Os nossos recursos é que são humanos.
Curiosa é também a expressão estatística de “trabalhador desencorajado” que é o desempregado que desistiu de procurar activamente trabalho, depois de muitas e infrutíferas tentativas. Estatística e politicamente, esta classificação permite retirar este desempregado (da população activa) para não desempregado (na população inactiva). Prevejo que, dentro em breve, o Eurostat venha até a classificar um desempregado como “alguém em transição entre empregos” …
Entre um vasto rol de expressões politicamente correctas na gestão e economia, refiro algumas das mais usuais: em termos de pirueta matemática, “crescimento zero” ou, mais atrevidamente, “crescimento negativo” em vez de estagnação ou recessão económica (na mesma lógica, prevejo o gastador passar, generosamente, a “poupador negativo”); “consolidação orçamental” que, quase sempre, continua a significar défice, apenas mais pequeno e nem sempre escorreito; “livro branco”, instrumento muito usado para simular ou procrastinar decisões (e que pode ser conjugado com outras cores, como o verde e azul, e o notável “no paper” eurocrata); “imparidade”, termo que tanto pode ser usado no seu verdadeiro sentido técnico, como ser alargado a flagrantes erros de gestão, fraudes e outras maquinações; “descontado” que é o que se diz de um facto ou efeito já concretizado e que constitui hoje uma poderosa arma de previsão económica … a posteriori; “arquitectura organizacional”, mistura explosiva de belas-artes com o agora costume de adjectivar um substantivo com o maior número de letras e que, não raro, faz jus ao lampedusiano teorema de que é preciso mudar algo para que tudo fique na mesma; “engenharia financeira”, que, muitas vezes, não passa de serralharia…; “customizar”, um anglicismo que dá jeito para algumas ilusórias técnicas de venda em que se faz-de-conta que o cliente conta; “sinergia” que ora se usa no seu verdadeiro sentido ou se emprega para disfarçar conflitos de interesses. Claro, tudo isto bem “focado” e “alavancado”…
Ah! A mais recente: “economia colaborativa”, onde se inserirá, creio, a Uber.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/03/30/correccao-politica-ad-nauseam/#comment-42687

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

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16 de Fevereiro de 2017, 07:42

Por


Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

C
om ou sem acordo ortográfico, ouvem-se e lêem-se, com frequência, expressões de modismos mais ou menos tecnocráticos e de anglicismos forçados.

Sobretudo no futebol, propaga-se em toda a linha, o paupérrimo “à condição”. É assim que se diz e escreve em quase todo o lado, quando, por exemplo, uma equipa fica “líder à condição”. Os entendidos da bola teimam em falar de classificações antes de concluída uma qualquer jornada, usando aquela deficiente expressão. Confesso que tenho saudades do tempo em que os jogos se realizavam nas tardes de domingo, todos à mesma hora. Pelo menos, nessa altura, não havia classificações “à condição”. Neste contexto, bem se poderá concluir que esta expressão “à condição” é culpa da televisão que obrigou a “jornadas dominicais” estendidas por 4 dias!
A expressão “à condição” exige dizer-se qual ela é. Porque condições há muitas… Se eu disser simplesmente “estou à condição”, entender-se-á que a minha frase, além de um indigente modo de expressão (deveria dizer “sob condição”), está incompleta (qual é, afinal, a condição?). Já se viu o que seria uma pessoa “à condição” no tribunal? E será que um arguido julgado à revelia é-o “à condição”? No caso da estafada frase em futebolês “primeiro classificado à condição”, melhor seria dizer “líder provisório”. Aliás, “à condição” é como estão todas as equipas antes de jogarem: a condição de jogarem mesmo. Na primeira jornada até todos os competidores serão campeões “à condição” …
Uma outra expressão, agora muito em voga, é a tradução literal de “by default” (“por defeito”). Muito usada na linguagem informática, expandiu-se endemicamente no uso e no abuso. Com a ridícula consequência de se poderem confundir três leituras possíveis: a que resulta directamente da expressão inglesa (que, verdadeiramente, quer dizer “por omissão”, “por predefinição”, “por norma”); a que está associada ao verdadeiro significado da palavra “defeito” enquanto imperfeição ou deformidade; ou ainda a expressão quantitativa de insuficiência que se opõe a “por excesso” (por exemplo, “O PIB foi avaliado por defeito”).
Com o avanço, de um modo de todo deslocado, da asserção “por defeito” com o significado da expressão inglesa, não faltará muito tempo para se dizer, com aparente naturalidade, por exemplo, “fez mal (ou bem), por defeito”, “sem carro, foi a pé, por defeito”, “como era o único candidato à liderança do partido, ganhou por defeito”, “era palhaço, por defeito”, “passou a ser ateu, por defeito” … Enfim, de defeito em defeito, até onde chegará o dito defeito?
Finalmente, entre os muitos anglicismos adoptados, há um que medra em escala logarítmica: o que advém do inglês “to realize”, que quer dizer notar ou aperceber-se. Por simpatia, o verbo realizar tem sido replicado no nosso idioma com o mesmo significado do verbo inglês.  Ora, realizar significa, em bom português, efectuar, conseguir, fazer, concretizar, pôr em prática, dirigir um filme, produzir. Mas há pessoas, sobretudo nas camadas ditas mais eruditas ou socialmente mais presentes, que, sistematicamente, usam o verbo no sentido que a palavra tem em inglês (“ele só ontem realizou que os impostos subiram”). Como diria Júlio Verne, “tudo o que um homem é capaz de imaginar, outro é capaz de realizar”.
Juntando estas breves notas, termino com uma charada de mau português: “Nos próximos dias, escreverei, à condição, sobre um tema que, por defeito, possa incluir neste blogue e que os leitores possam realizar”. Fiz-me entender?

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/02/16/hoje-escrevo-por-defeito-e-a-condicao/

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Natal dos consumidos (e um pedido)

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14 de Dezembro de 2016, 22:21

Por


E
stamos a breves dias do Natal. O que sobra em consumismo desenfreado (seja-se crente, agnóstico, ateu ou de um sincretismo de tudo e nada), falta em espiritualidade adventista. É assim cada vez mais, perante a primazia do (de)ter, do comprar, do usar, do trocar. Uma correria sem nexo, acorrentada pela obrigação, mais do que alimentada pelo coração. Uma permuta instrumental que transforma o prazer de dar em desprazer de despachar. Pessoas sujeitas à pressa, à quantidade, à turbulência cheia de vazio, num vaivém freneticamente estúpido.  Atafulham-se com listas e preçários, numa contabilidade que releva o presenteado em euros e compara as prendas natalícias com o custo do recíproco. Agora, até o Natal é antecedido por uma nova mercearia com nome inglês, pois claro: “Black Friday”. Nisso somos imparáveis, importamos tudo o que seja consumismo. É aproveitar a ilusão (e, às vezes, a trafulhice) dos preços em regime ioió, quer dizer subindo para depois descer e descendo para depois subir.
No fim, a exaustão do corpo, a carência do espírito, a inutilidade do gasto, a velocidade uniformemente acelerada da compra precipitada, o excesso das trocas e baldrocas, o vácuo depois da apoplexia. E lá se foi o Natal. Mais um. Com inutilidades de prendas (perdão, presentes, segundo os cânones socialmente correctos) condenadas ao esquecimento ou – quem sabe – a girar no próximo Natal.
Agora que vivemos no tempo dos smartphones e das redes sociais, outro martírio se nos depara. A enxurrada de “Boas Festas” e outras expressões do momento cai, em inusitada abundância, nas nossas maquinetas mais ou menos “smart”. Confesso que tenho saudades do tempo em que, por esta época festiva, se falava com a família e amigos. Agora é sempre a andar em jeito de poluição de afectos: centenas de SMS (e mails) de conhecidos, desconhecidos, ignotos, chatos e insinuantes. Sem selecção, sem critério, ao dispor de um dedilhar de um botãozinho. Abomino, sobretudo, os que logo percebo que foram enviados para um vasto conjunto de “amigos”, com “beijos ou abraços” ou, na linguagem cifrada e com correcção de género por via de um @, “abreijos” para todos “car@s amig@s”. E, também, os que, na obsessiva preocupação de não cair nas palavras simples e mais usadas, escrevem bizantinices florentinas, em prosa ou falso verso, que, de tão kitsch, me fazem perder o apetite mesmo diante de um bolo-rei.
Que saudades tenho do dia 24 de Dezembro sem esta parafernália de termos e desenhos tontos que, de tanta inflação de uso e de abuso, nada significam. Por isso, procuro preservar o Natal de família e de amizade. Das pessoas que me estão próximas no coração, não naquele dia, mas sempre.
Gosto do gosto de um Natal com a magia que advém (e não desaparece) do imaginário infantil. De um Natal que seja capaz de, por uns instantes, tornar os adultos mais crianças e as crianças mais meninos e meninas.  De um Natal em que o melhor não é tanto a data, mas a atmosfera dos dias que o antecedem, porque o melhor não é o chegar, mas o ir ao encontro de, não é o possuir, mas o viver.
Aproveito este “tudo menos economia” de hoje para clamar por uns dias natalícios de “tudo menos um tsunami de SMS e quejandos”. Depois de falar com quem quero, o meu telemóvel vai tirar uns dias de férias de e no Natal e transformar-se numa parede inexpugnável. Por favor, poupem os euros de mensagens que as operadoras vos facturam com tanto zelo! Assim, terei tempo para parar, contemplar, falar, pensar diante do aniversário do nascimento d’Aquele em que acredito. Com esperança e alegria.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/12/14/o-natal-dos-consumidos-e-um-pedido/

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O lápis já não é o que era

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2 de Dezembro de 2016, 08:26

Por


O lápis já não é o que era

homem empurra lápis pbV
olto ao excelente filme “Eu, Daniel Blake”. A propósito de um pormenor (será?) na cena final da despedida do carpinteiro. Lá estavam os fiéis amigos, os jovens vizinhos que representavam a nova geração com novos sonhos e novos pesadelos, a funcionária da Segurança Social que, ali, simbolizava a coragem e o afecto de ter coração e de se ser solidário, desafiando as normas e os regulamentos (e, por isso, é repreendida pela chefe). E a mãe solteira – com os seus dois filhos tão iguais e tão diferentes no modo de serem crianças – que acompanhara Daniel na sua última tentativa para ver o seu processo de invalidez deferido. É ela que abre um papel amarrotado escrito por Blake e no qual exprimiu a sua paradoxalmente serena e inconformada revolta diante do júri de reavaliação. O essencial está no que lá escreveu, o pormenor no modo como o manuscreveu. Com um singelo lápis.

O lápis, o velho companheiro de vida de tantas pessoas é o lado antigo e oposto da face superlativamente nova de vidas subordinadas à miríade de instrumentos tecnológicos. Não se trata aqui de uma visão reaccionária ou conservadora face ao progresso material e comunicacional. Haverá, por certo, alguma nostalgia no detalhe do lápis. Mas o que representa, essencialmente, é um dualismo funcional e geracional que pode conduzir uma insuportável exclusão de uns e a uma pretensa superioridade de outros, que, não raro, não sabem o que é um lápis ou essa “união de facto” do lápis encimado por uma borracha, nunca escreveram com uma caneta de tinta permanente, ignoram o que seja um compasso e quase erradicaram a prática (física e intelectual) de manuscrever.
Evidentemente que o progresso técnico é uma importante condição necessária para o desenvolvimento, mas nunca será, só por si, uma condição suficiente se, às tecnologias, não estiverem associados o bem comum, a justiça social e geracional, o respeito pelo outro.
Na era da “cidadania electrónica”, os “netizens” são, hoje, uma expressão eloquente do saber mais democratizado (embora, neste contexto, sempre me lembre do que escreveu Jean Guitton: “se o livro tivesse sido inventado depois do computador teria sido uma grande invenção”). Mas quantas vezes, ao lado desse progresso, vamos deparando com uma acrescida aridez relacional, em alguns casos mesmo com uma diferente expressão da solidão, senão mesmo de isolamento e abandono. Nas situações mais extremadas, de um lado um novo cárcere, do outro uma velha exclusão.
Com toda a tecnologia à nossa volta, acentuou-se a divisão entre os cidadãos “funcionalmente significantes” e os “funcionalmente supérfluos”. Ou, de outro modo, os que só têm passado, os que só têm presente e os que só têm futuro.
Escreveu Bento XVI na Caritas in Veritate: “Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade”.
A técnica, em si mesma, é ambivalente. A tecnologia não tem rosto. É impessoal. Pode ser usada para o bem ou para o mal. A técnica existe para o homem, não o homem para a técnica. É um recurso indispensável, mas não se pode transformar num fim que domina ou aparta pessoas. Porque o fim somos nós mesmos, sujeitos do desenvolvimento (não é por acaso que o adjectivo que o acompanha é “humano”). Peter Ustinov dizia que “costumávamos fazer muitas perguntas para as quais não havia respostas. Agora, com os computadores, há muitas respostas para as quais ainda não encontrámos perguntas”.
E as respostas do lápis, agora fora do sistema, são desprezadas…

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/12/12/o-lapis-ja-nao-e-o-que-era/

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A geringonça vocabular do ano

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5 de Dezembro de 2016, 08:53

Por


A geringonça vocabular do ano

C
omeçou a votação para a palavra de 2016, excelente iniciativa da Porto Editora desde 2009. Foram seleccionadas dez palavras: Brexitcampeão, empoderamento, geringonça, humanista, microcefalia, parentalidade, presidente, racismo e turismo  (hélas, sem versões acordistas!)

Palpito que geringonça vai vencer. Se tal acontecer, será a vitória do calão, assim fazendo jus à sua presença crescente na linguagem oral e nas redes sociais. Um vocábulo da política deste ano, cognome da maioria governamental, que teima em querer contrariar o que, nos dicionários, significa algo mal engendrado, tosco e desenculatrado.
Palavras da política já haviam ganho, em 2010 com austeridade e em 2011 com o fugaz neologismo já desfeito pelo tempo, entroikado. A propósito de palavras vencedoras de moda efémera e estrangeirada, logo descartadas do uso e da memória, o caso mais estranho aconteceu em 2010 com a onomatopaica sul-africana vuvuzela.
Como somos importadores vocabulares (com saldo negativo, pois não exportamos quase nada, nem para o Brasil), lá vem, no rol designado, o Brexit, em homenagem à língua de Shakespeare, o que, porém, nunca aconteceu com o quase Grexit.
Entre os nove substantivos e um adjectivo (desta vez não há verbos), há uma adopção por via do inglês “empowerment”. Só que o luso neologismo engendrou um palavrão esteticamente detestável, aparvalhadamente snob e que as pessoas comuns jamais conhecem e usam: empoderamento! Enfim, um empobrecimento de um empolamento por causa de um necessário e prévio empossamento sujeito, às vezes, a um emprazamento judicial. Tudo, evidentemente, sem apodrecimento (sobretudo monetário). Palpito que, para o ano, vamos gramar com “performante” …
Nos últimos anos, surgiram palavras ligadas à saúde. Este ano é microcefalia por causa do vírus zika, antes dos Jogos Olímpicos, entretanto “desaparecido” depois daquele evento. Antes, foram legionela e ébola.
Curioso é a engenhoca da geringonça ter feito desaparecer antipáticas palavras do mundo financeiro: PEC, défice, desemprego, orçamento (todas em 2010), austeridade e desemprego, esta repetente (em 2011), imposto, cortes, TSU (em 2012), “swap” (em 2013), banco (em 2014), plafonamento e privatização (em 2015).  E a dívida, que aumenta silenciosamente, ainda não teve um lugarzinho de “dama de honor” (ou “cavalheiro de honra”, para não ferir susceptibilidades de “género”)?
Em relação a anos anteriores, há menos palavras com carga negativa (apenas racismo microcefalia) contra sete no ano passado (jihadismo, ébola, legionela, corrupção, cibervadiagem e até basqueiro e banco). Ao invés, há termos com uma conotação claramente positiva (turismo, humanista, presidente e campeão). Será que está alteração vai pesar nos indicadores de confiança do INE?
Há ainda uma (boa) diferença face a anos anteriores: não há palavras escolhidas apenas porque marcaram os últimos meses, dado que a escolha foi mais homogénea considerando a totalidade do ano. Se tivesse vigorado o “sistema FIFO” (“first in, first out”), lá teríamos mais palavras de fim-de-ano, como por exemplo declaração (patrimonial), licenciatura (falsa) caça  (ao homem), sobretaxa, Caixa, Agosto (mês de todos os simpáticos aumentos), cuspo, etc. E quem sabe, domingo, quer dizer, Domingues.
Enfim, entre amigos da geringonça e amigos da onça, venha o diabo e escolha!
No Reino Unido, venceu a pós-verdade (post-truth). Já cá está chegando esse eufemismo para dar ar científico à mentira. Até lá, vamos xurdir (uma das palavras de 2014), que é como quem diz, fazer pela vida.

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