Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Lídia Jorge, Marcelo de Sousa e o Prémio Fernando Pessoa

 * Christiana Martins, Jornalista~

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”

Pouco a pouco, o Presidente da República vai-se despedindo dos portugueses. No final desta tarde, apesar da chuva e do tempo cinzento, no átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, a audiência, repleta de figuras da política, da economia e das letras, marcou presença para o ouvir. E a vencedora do Prémio Pessoa de 2025 não o poupou à emoção

10 fevereiro 2026   

O átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos encheu-se esta terça-feira para ouvir a escritora agraciada com o Prémio Pessoa 2025 e para, mais uma vez, abraçar, cumprimentar o ainda chefe de Estado. Desde a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, a Leonor Beleza, Guilherme D'Oliveira Martins, Pedro Abrunhosa e à reitora da Universidade Católica, Isabel Capeloa Gil, bem como vários banqueiros, empresários e premiados das edições anteriores.

“Querida premiada”, foi como Marcelo Rebelo de Sousa se dirigiu a Lídia Jorge. E, depois de recordar Francisco Pinto Balsemão e "o seu contributo para a projeção da língua portuguesa no mundo", o Presidente da República falou de literatura com o à vontade de quem navega na Cultura como quem nada no mar de Cascais.

Fez uma digressão diacrónica e detalhada sobre a obra da autora, sublinhando a presença do Algarve, de África, o papel da mulher e dos feminismos e “o registo que se aproxima da auto-ficção de ‘Misericórdia’” e a atenção à população mais velha. Nem a coluna de Lídia Jorge no jornal “El País” foi esquecida.

Por fim, falou do controverso discurso do 10 de Junho do ano passado. "Um escritor é um estilo e uma linguagem e todos conhecemos o estilo e a linguagem da nossa homenageada", disse o Presidente, para acrescentar, “mas é justo dizer que este discurso alargou a nossa percepção quanto à sua figura e o seu empenhamento”.

“O lugar do escritor enquanto cidadão, enquanto alguém que se preocupa e nos diz ‘preocupem-se’”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa sobre a comunicação da escritora. “Inquietação, boa vontade, humanismo, consciência são inseparáveis dos seus livros”, concluiu. Sem deixar de lembrar que os portugueses têm sabido recusar “divisionismos”, numa achega subtil e indireta à última eleição Presidencial.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Depois de longos aplausos, Lídia Jorge respondeu ao discurso do chefe de Estado. “Chamam-lhe o Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo.” Foi assim, com a delicadeza do agradecimento, que Lídia Jorge deu a Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República que se despede do cargo, um estatuto nobre, para lá da emoção a ele continuadamente associada.

Pinto Balsemão evocado
A edição de 2025 também ficou marcada por ter sido este o primeiro Prémio Pessoa a ter sido decidido sem a presença ou a orientação do seu criador, Francisco Pinto Balsemão, falecido no ano passado. Por isso mesmo, a cerimónia começou por render uma homenagem ao fundador do grupo Impresa. Mas, mesmo após o seu desaparecimento, a iniciativa da Caixa Geral de Depósitos e da Impresa resistiu.

As primeiras palavras da escritora foram para o chefe de Estado: “Se o admirava à distância, os últimos anos fizeram com que o pudesse admirar na proximidade.” Mas a resistência do Prémio Pessoa foi também assinalada pela escritora. E, por isso, a Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo a que pertence o Expresso, desejou: “O seu pai entregou este prémio a 37 premiados. Desejo que o entregue a 77. Seria sinal de que o futuro, para além das coisas boas que irá criar, manterá algumas das que são louváveis do presente.”

A Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, Lídia Jorge reconheceu, mais do que um gestor, um leitor. “A primeira vez que nos encontrámos foi na feira do Livro de Lisboa. Alguém me disse ‘Vem aí o Presidente da Caixa Geral dos Depósitos’ e as pessoas na minha pequena fila desviaram-se. Eu olhei e só vi um homem. Um homem que falava de livros. É assim que o vejo.”

E, antes de encerrar o capítulo dos agradecimentos, na presença de vários premiados em edições anteriores, Lídia Jorge permitiu-se um espaço a ela mesma, ao recordar o instante em que foi informada de que tinha conquistado a última edição do Prémio Pessoa. “Num primeiro momento, a pessoa pergunta 'Porquê eu?'. Num segundo momento, já formula a questão de modo diferente 'Porque não eu?'. É neste segundo momento, que já implica uma certa acomodação, que me encontro.”

Em tom de improviso, dirigiu-se à ministra da Cultura, dizendo que devia ser mesmo apenas ministra da Cultura, desejo que mereceu o aplauso dos presentes.

A força da poesia
Voltando ao discurso da escritora, ficou evidente que a relação entre Lídia Jorge, também conselheira de Estado, e Marcelo Rebelo de Sousa recebeu um impulso fundamental quando, também no ano passado, o Presidente a escolheu para proferir o discurso do 10 de Junho. Um discurso polémico, que tanto feriu como agradou, que tanto incomodou como incentivou, com frases marcantes, como a que vaticina que “por aqui ninguém tem sangue puro” e que “a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma”. Houve quem a aplaudisse, houve que a quisesse calar definitivamente.

Ditos os obrigadas, Lídia Jorge falou de si, da literatura, e do futuro. Começou por falar do sentimento de intimidação em receber um prémio com o nome de Fernando Pessoa. E disse que, para conseguir aceitar, prefere pensar na presença de um anjo benfazejo e bem humorado, um trocista. “O anjo do bom humor encontra-se pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.”

A sétima mulher e a primeira romancista premiada contou a sua relação com “o maior poeta do Século XX”. Lembrou-se da infância, de quando tinha apenas 13 anos e começou a lê-lo, antes de Pessoa ser para ela um mito.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Recordou também Eduardo Lourenço, “gémeo fraterno de Pessoa”, que no poeta reconhecia “o cosmopolitismo, a dinâmica técnica e subjectividade caótica" e ”a verdadeira lava ardente criadora".

É quando a escritora toca no presente, que diz ser um tempo “descomposto, à beira do estado de alucinação global”. Um tempo em que a poesia, que “corresponde à articulação mais sofisticada das línguas”, “serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso”. Uma poesia humana, para lá dos artefactos e artifícios da inteligência artificial, que tem de funcionar como “um paredão que não pode ceder, porque se ceder, cede a hipótese de verdade, de liberdade, de comunicação fiável e de paz entre os povos”.

Não sendo poeta, Lídia Jorge exaltou a poesia. “A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse.”

Para lamentar - “Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado” - e alertar: “Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios.”

Ao despedir-se, a escritora preferiu apostar no otimismo. “A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim, enquanto formos donos dela.” A audiência gostou e a ela se associou, num aplauso reconhecido.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - Camões: o poeta cego, surdo e mudo




* Jaime Nogueira Pinto

A ideia de emitir uma moeda comemorativa dos 500 anos de Camões com uma efígie estilizada em que o “poeta cego” também surge surdo e mudo diz-nos muito de quem a encomendou e, em Dezembro, a aprovou.

08 jun. 2024

Por má fortuna, os quinhentos anos do que se convencionou ser o nascimento de Camões coincidiram com cinquenta anos do 25 de Abril. E o tempo, o modo e os fundos alocados pelo Estado às comemorações do Regime contrastaram flagrantemente com a incúria e a modéstia de fundos destinados à celebração do épico. E assim tinha de ser. O combatente do Império no Norte da África e na Índia, cantor exaltado e exaltante de feitos de guerra e de conquista, homem de sensibilidade, subtileza, erudição e experiência, capaz de dar voz ao contraditório e a todas vãs cobiças, capaz também de se deixar cativar por uma “cativa”, pode ser um homem para todos os tempos e estações… para todos, menos para este. Ou é-o pela ausência, pelo vazio, pela amordaçada mudez, pela surdez induzida e pela cegueira metafórica que a moeda comemorativa tão bem ilustra. Num tempo de maniqueísmo simplista, contrição oca e ignorância induzida, Camões só poderia ter lugar como saco de vento e “poeta cego”, ou mais precisamente, na designação oficial da moeda, como “efígie estilizada do poeta cego, com uma coroa de louros e uma gola típica do século XVI”. E depois havia ainda o colonialismo, o imperialismo, o “nacionalismo exacerbado”, a todos os títulos hostis a globalismos, federalismos e multiculturalismos generalistas.

Assim – e também pela qualidade formal e estilística e pela lucidez no juízo dos homens e dos tempos – era, desde logo, natural que Camões não despertasse grande entusiasmo entre a classe política dirigente e a intelectualidade desta Terceira República.

“Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram,
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano
A quem Neptuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”

…Cale-se e cesse também Camões e o seu ilustre peito lusitano que outros valores (mais altos?) se alevantam. Que valores exactamente não sabemos; sabemos só que não são nem podem ser os do “peito ilustre lusitano”.

Temo que Vasco da Gama, cujos 500 anos da morte também se cumprem este ano, em 24 de Dezembro, véspera de Natal, não venha a conhecer melhor sorte. Até porque, além do delito de “nacionalismo exacerbado”, que partilha com Camões, praticou alguns dos crimes pelos quais devemos ao mundo penitência e reparação.

De regime em regime

Como este agora o queria fazer pela ausência amordaçada, também os anteriores regimes se foram sucessivamente apropriando de Camões.

Em 1880, o nascente partido republicano usou o terceiro centenário da sua morte de para criticar a Monarquia. A ideia era pegar na grandeza do poeta, da épica e do Portugal de Quinhentos para a atirar bem à cara do Portugal decadente do rotativismo regenerador.

Assim, na fórmula de Teófilo Braga, o homem da iniciativa, Camões simbolizava “as glórias e os desastres de Portugal”. Para Teófilo – e  apesar do positivismo comteano da sua formação –,  tratava-se de através da emoção e dos sentimentos populares suscitados pela memória gloriosa de Quinhentos, de que o Poeta era digno protagonista e celebrante, mobilizar a opinião pública e popular mostrando-lhe o fosso entre a grandeza do século das navegações e conquistas e “a apagada e vil tristeza” do país da Regeneração. O que se pretendia era esse contraste histórico entre o presente de então e o Portugal do Príncipe Perfeito e do Venturoso, contado e celebrado por Camões nos Lusíadas, a diferença entre essa “Idade de Ouro”, real ou mitificada, em que tínhamos sido pioneiros nos mares e oceanos e grandes na conquista das terras e o presente. Era com tudo isso que o intelectual republicano Teófilo Braga, através da promoção de grandes comemorações camonianas nacionais e populares, ao modo das festas cívicas da Revolução Francesa, queria espicaçar o povo.

Camões, nesse tempo, servia a uma esquerda nacional, republicana e patriota: era um poeta que celebrava o Portugal da Renascença, promotor de Modernidade, um poeta que, para o futuro primeiro presidente provisório da República jacobina, enfileirava com Virgílio e Dante, guias do entendimento e da cultura da Humanidade. Para Teófilo, Camões, tal como Leonardo e Miguel Ângelo, fazia a transição da Idade Média para a Renascença.

Na Geração de Setenta, quer Oliveira Martins, quer Antero de Quental foram críticos desse seu entusiasmo, por razões ideológicas e políticas: Oliveira Martins achava a versão de Teófilo de uma Renascença mais ou menos esclarecida, um mito; para ele, o cristianismo fundamentalista e identitário e o imperialismo político-militar não eram dissociáveis ao século de Quinhentos português; e Antero, no seu pessimismo, via em Camões e nos Lusíadas mais um epitáfio celebrativo do fim do ciclo da grandeza que uma proposição para memória e ressurreição nacionais. E Martins, em 1891, já depois da crise e humilhação do Ultimato, diria que o “entusiasmo de 1880” tinha “ardido como palha”.

Hoje, depois do enaltecimento do Estado Novo do Poeta e da épica, a Esquerda não está muito interessada nem em Camões, nem em lembrar as glórias do Século de Ouro.  Ou tão pouco parece interessada – por ideologia, desinteresse ou falta de tempo ou ciência – nas suas complexidades e na crítica do Poeta à época em que escreve ou à gesta do passado.  O governo socialista que, curiosamente, podia reclamar alguma ascendência da esquerda republicana e patriota que, há quase 150 anos, por interesse político de circunstância, mobilizou os lisboetas e os portugueses para o centenário da morte de Camões, pouco ou nada fez por este Quinto Centenário do Poeta. Olhou para o lado, ocupadíssimo a planear e financiar os 50 anos de Abril e a acolher a agenda educacional da extrema esquerda. Tanto que, na organização (ou ausência dela) das comemorações camonianas, não constava sequer o Ministério da Educação, agora justamente reposto como parceiro.  Afinal, para quê implicar o Ministério da Educação nas comemorações, congestionada que já estava a Educação com tantas, tão determinantes e tão inclusivas agendas?

O melhor era ignorá-lo e festejar Abril. E depois, o Poeta, na sua vida irrequieta e perigosa, nos seus amores impossíveis, nas suas servidões e grandezas militares, nas suas “desajustadas” devoções a Deus, à Pátria e ao Rei, na sua consciência de contemporâneo e agente da original “exportação de Estado” pelos portugueses, não se coadunava com as esquerdas festivas das nostalgias anti-coloniais e muito menos com o simplismo das esquerdas do cancelamento e da vitimização à la carte.  Tão pouco poderia “civilizar-se”, “pacificar-se” e “liberalizar-se” aquele a que a época forçara a outros modos.

Era coerente. Como dar volta ao Camões de Ceuta e da Índia, ao Camões dos Lusíadas, ao contador de uma história que, à luz dos valores em promoção e circulação, não passava de um marginal belicista, nacionalista, imperialista, colonialista, autor de uma narrativa épica que punha os guerreiros que fundaram e defenderam Portugal do lado certo da História?

Todo um outro programa

O facto de esses guerreiros, os reis e heróis da História e do poema camoniano, serem os defensores da pátria e da terra portuguesa – Afonso Henriques na primeira guerra da independência, o Mestre de Aviz e Nun’Álvares na segunda, D. Manuel na decisão de mandar Vasco da Gama à Índia, e os Almeidas, os Albuquerques e Castros que por lá andaram, lutaram e, alguns, morreram – parece ter-se tornado relativamente irrelevante. Bem como o facto de Camões não ser um servidor acéfalo dos poderes vigentes: deixa a contradição do Velho do Restelo por resolver (como observa Carlos Maria Bobone no seu recente Camões: Vida e Obra ) e está particularmente atento aos factores e riscos dos desvios do poder, ao abuso, à corrupção, à tirania, ao mau conselho que podem transformar o monarca em tirano e subverter o bom governo. Os exemplos podem ser do Estado da Índia, mas a crítica ao poder é clara.

Ao ler no Público a versão expurgada da fala do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, sobre comemorações de Camões, assustei-me, pensando que o Poeta, esquecido e marginalizado pelos seus antecessores, ia agora ser celebrado de modo “democrático e inclusivo”, conforme o jornal dava a entender.  Felizmente fui ler as declarações de Montenegro na íntegra.  Afinal, o que o primeiro-ministro tinha dito era que não queria celebrar Camões “de um modo passadista ou saudosista”, mas que também não queria “modernizá-lo em termos anacrónicos falsificadores da verdade histórica…”. O que é todo um outro programa.

Ainda que o tempo não esteja de feição para grandes poetas ou heróis, nas suas contradições e errâncias, na profunda verdade da sua vida e da sua obra, Camões é Portugal ou também é Portugal. E é um grande intérprete do colectivo, do mundo e da comunidade, do universo e da pátria que nos fala do grande mundo a que Portugal se abriu e abriu.  Merece ser celebrado – e lido.

 https://observador.pt/opiniao/camoes-o-poeta-cego-surdo-e-mudo/

 

Jailme Nogueira Pinto - O grande imaginador: Nos 120 anos da morte de Júlio Verne


* Jaime Nogueira Pinto 

Os heróis de Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances de Verne acabavam bem.

29 mar. 2025

Júlio Verne, popularmente considerado o precursor ou o antepassado próximo da literatura de ficção científica, morreu há 120 anos, a 24 de Março de 1905.

Fui desde cedo um leitor apaixonado da ficção científica que me chegou, como à maior parte dos da minha geração, pela colecção Argonauta dos Livros do Brasil. A Argonauta apareceu em 1953, e foi talvez em 1956, nas vésperas de entrar para o liceu D. Manuel II, que comecei a ler os livros, à medida que iam saindo. E fi-lo regularmente, aí até ao número 200.

Li os primeiros números no Verão, numa praia da Foz do Douro, uma dessas praias do Estado Novo dos anos 50 cheias de regras e rituais – com cabo do mar, baloiços, fatos de banho com peitilho ou camisola interior e três horas de “digestão”. Horas sagradas, que tínhamos de passar “a descansar”, entre o almoço frugal de sanduiches mistas e o banho das cinco da tarde.

Anos mais tarde, no Algarve, o meu sobrinho Pedro havia de me perguntar: “Tio Jaime, acredita na digestão?” Nessa altura já tinha perdido “a fé”, mas quando era novo, todos acreditávamos na digestão. E mesmo que não acreditássemos tínhamos de recolher à barraca durante três horas, independentemente das nossas crenças e vontades. Por isso, foi estendido na toalha de franjas, debaixo da lona grossa da barraca que li muita Argonauta (também se acreditava que não era bom apanhar o sol a pique da hora do almoço e que a leitura não fazia mal ao estômago).

Os livros, em formato de bolso, tinham umas capas lindas, de Lima de Freitas e de Cândido Costa Pinto.  Eram de Costa Pinto a capa do primeiro número da colecção – Perdidos na Estratosfera, de A. M. Low – e a de A Sexta Coluna, de Robert Heinlein, um verdadeiro épico do género que então me impressionou consideravelmente. E foi assim que fui descobrindo os grandes escritores da Science Fiction: a poesia das Crónicas Marcianas, de Ray Bradbury, que em Fahrenheit 451 identificou uma distopia de destruição de livros cara aos totalitários de todas as tribos; os robots e a robótica e  os ciclos históricos da Fundação e do Império, de Isaac Asimov; Arthur C. Clarke e a sua Odisseia no Espaço; o extraordinário mundo feudal de Frank Herbert, o criador de Dune, que David Lynch adaptaria ao cinema; e outros, como A. E. Vvan Vogt, Fredric Brown, Brian Aldiss, Poul Anderson  e Philip K. Dick, um dos “últimos”. E a sobressair num género dominantemente masculino, Ursula Le Guin, a criadora do fabuloso Feiticeiro de Terra-Mar.

Mas a minha iniciação na “literatura de antecipação”, tal como a de muitos, em Portugal e no mundo, tinha acontecido antes, com as “viagens extraordinárias” de Júlio Verne, onde se misturavam o imaginário, a ciência e a geografia. 

Uma literatura de antecipação

Não era bem ficção científica era uma “antecipação” imaginativa a partir de invenções e acontecimentos relativamente próximos. Não nos podemos esquecer – e às vezes esquecemo-nos sob o impacto das surpresas e maravilhas científicas e técnicas da nossa Idade – que o núcleo duro das invenções que ainda fazem o nosso quotidiano são da segunda metade do século XIX: o telégrafo, a electricidade, o telefone, o cinema, o automóvel, o avião. Ora Júlio Verne nasceu em 1828 e morreu em 1905, ou seja, viveu o politicamente agitado século XIX francês, desde a monarquia tradicional restaurada de Carlos X de Bourbon até à Terceira República jacobina e anti-clerical de Loubet e Combes.

Não me lembro exactamente qual foi o primeiro livro de Verne que li, mas quase que ia jurar que foi A Ilha Misteriosa. A trama é um modelo da narrativa verneana, inspirada no clássico Robinson Crusoe, de Daniel Defoe (1719), no Robinson Suíço, de Johann Wyss (1812), e numa narrativa próxima do tempo do autor, a de François Édouard Raynal, que naufragara nas ilhas Auckland, no Pacífico Sul.

A Ilha Misteriosa saiu primeiro em folhetim jornalístico, entre Janeiro de 1874 e Dezembro de 1875, com ilustrações de Jules Férat. Faz parte das “viagens extraordinárias”, uma série de romances em que Verne combina aventura, maravilhoso, mistério, geografia, imaginação, ciência e tecnologia.

Durante o cerco de Richmond, cinco prisioneiros, cinco abolicionistas, conseguem escapar em balão; depois de cinco dias e quase dez mil quilómetros, chegam a uma ilha deserta do Pacífico. A personagem mais importante do grupo é o engenheiro Cyrus Smith, que leva com ele o criado Nab; há um jornalista, Gedeon Spillet, um marinheiro, Pencroff, e o jovem Herbert. Cyrus é o típico herói de Verne – um homem de coragem, de cultura e de ciência, um chefe natural, que não só vai assegurar a sobrevivência do grupo como a “colonização acelerada” da ilha, valendo-se da convergência de talentos e conhecimentos dos expedicionistas. Assim, a ilha “Lincoln” transforma-se num espaço civilizado, sob o qual vela o grande herói verneano, o capitão Nemo, o do Nautilus e das 20.000 Léguas Submarinas.

Verne nasceu em Nantes, na ilha Feydeau, perto do Quai Jean-Bart, onde passou toda a infância, o que lhe estimulou o gosto da viagem, do mar, das ilhas. Foi para Paris nos anos 1850 onde conheceu, além de Alexandre Dumas e Victor Hugo, Jacques Arago, viajante e geógrafo, que completara uma volta ao mundo em 1817, a bordo do l’Uranie. E, claro, o seu editor Hetzel, que encontrou em 1862 e com quem iria ter uma colaboração modelo e de longa duração. Um editor crítico que levantava objecções e fazia sugestões que o autor aceitava, também criticamente, como bem o documenta a correspondência entre os dois.

Verne e os outros

Em 1864, Verne publicou Cinq Semaines en Ballon, o primeiro romance da série “viagens extraordinárias”, que um crítico classificou como “roman cientifique”. Théophile Gautier, referindo-se ao novo género, falou em “quimera cavalgada e dirigida por um espírito matemático”; outros consideram-no uma “maravilha científica” e chamaram a Verne “pioneiro do romance científico”.

Por esse tempo, Edgar Alan Poe já publicara os contos e A Narrativa de Arthur Gordon Pym, e Émile Zola, num artigo de 1866, não pôde deixar de comparar “o pesadelo Edgar Poe” à “fantasia amável e instrutiva” de Verne. Outros críticos, reconhecendo a originalidade do fantástico de Poe na literatura de viagens de Homero a Defoe, passando pelas narrativas marítimas dos portugueses, reconheceriam também em Verne a originalidade da convergência “viagem, geografia, ciência, técnica e aventura”.

Os heróis de Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances de Verne acabavam bem. Quando comparamos o fantástico de Júlio Verne, com as suas máquinas e invenções que procuram sempre respeitar os dados científicos e técnicos do tempo, e a vindoura literatura de futuríveis do século XX – as distopias clássicas de Huxley, Orwell ou Bradbury, com os horrores das sociedades perfeitas de Brave New World, ou a tirania institucional de 1984 ou de Fahrenheit 451 – a diferença e a ruptura são chocantes. E não terá sido só por o século XX ter visto as primeiras utopias postas em prática, porque nos finais do século XIX, a partir de 1895, já H. G. Wells tinha escrito A Máquina do Tempo, (1895), O Homem Invisível (1897), A Guerra dos Mundos e Os Primeiros Homens na Lua (1901).

Verne escrevera Da Terra à Lua em 1865 e era, até por geração, o pioneiro: a crítica não resistiria à comparação. E mesmo em França, onde os livros de Wells foram traduzidos a partir de 1898, revistas como o Mercure de France, a Revue de Paris e a Revue des deux mondes preferiam o inglês a Verne.

A morte de Verne, em 1905, trouxe um clamor de elogios e até um certo espírito de reparação dos que tinham desdenhado o compatriota, preferindo o inglês. Reparação com algum exagero compensatório, como o do crítico Adré Lamie, que comparou o autor de A Ilha Misteriosa a Cervantes e a Balzac.

Verne é mais realista, mais científico, mais hábil a encontrar e encadear mil peripécias do que Wells; Wells é mais filosófico, mais problemático, mais desligado do técnico-científico. Verne é optimista em geral e moderamente optimista quanto à natureza humana e, além disso, é um homem de fé no Criador e na Criação. Wells não parece alinhar nesse optimismo.

Talvez por isso Verne seja um autor para a juventude, para a iniciação num mundo de aventura, como Robert Louis Stevenson, ou James Fenimore Cooper, ou Mark Twain, enquanto Wells é um precursor do século XX.  Um século que não trouxe as maravilhas que Verne tinha previsto, em que os submarinos serviram para afundar cargueiros civis e em que as grandes invenções foram acontecendo sobretudo a partir das guerras e para servir a guerra.

https://observador.pt/opiniao/o-grande-imaginador-nos-120-anos-da-morte-de-julio-verne

Gravura: Monumento a Julio Verne no Porto de Vigo
in  in https://blog.mcientifica.com.br/julio-verne//

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III


Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

 * Carlos Coutinho

Carlos Coutinho

10 h  · 

NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.

De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península. 

Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência. 

Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.

Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).

Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais. 

Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados. 

O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos. 

Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG. 

O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).

A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira. 

Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses. 

No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas. 

Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.

Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.

Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza. 

A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.

No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres. 

Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente. 

Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos. 

Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).

No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.

A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica. 

Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.

Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou. 

No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz. 

Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito. 

Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS. 

Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”. 

Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas. 

Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

2024 12 19

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Literatura(s)

* Carlos Coutinho
 
NUM domingo gélido como o de ontem, é verdadeiramente insensato sair da cama a meio da manhã, mas eu saí. Já muito perto do meio-dia, com sol a rodos e um ventinho maligno a afagar os ramos trémulos das árvores por baixo da minha janela, fui comprar o jornal e, a seguir, já com um bom café engolido, lembrei-me daquela hora antiga em que irrompi pela leitura intercalada das “Confissões” do bispo de Hipona e de “O Sorriso aos Pés da Escada”, de Henry Miller, que tinha levado comigo, para apurar certas diferenças.

   Recordo-me da alegria que senti,  ao percorrer os pecados de Santo Agostinho, nascido em 430 d.n.e., alternados com capítulos enternecedores do malandreco Miller que foi parido em Brooklyn, nos Estados Unidos, a 26 de dezembro de 1891, e, em 1930, respondendo a um espírito aventureiro e ao desejo de se dedicar à escrita, partiu para a Europa e se fixou em Paris. Foi aí, na exaltada e exaltante capital gaulesa, que, em 1934, publicou o seu primeiro romance autobiográfico,  o "Trópico de Câncer", a que se seguiu, em 1939, o "Trópico de Capricórnio", ambos banidos durante quase três décadas nos EUA. 

    Enquanto o bispo se deleita na revisitação das suas horas de fulgor mental e luxúria vivida milímetro a milímetro, Miller, em 1942, pouco após se instalar definitivamente na Califórnia, iniciou a escrita da trilogia 'Rosa-Crucificação' - “Sexus”, “Plexus”, “Nexus” - considerada uma das suas obras maiores, onde conjuga reflexão metafísica com um erotismo explícito que, traduzido para português, nem sempre se mastiga bem. 

   Foi, como é bem sabido, um dos mais extraordinários autores americanos do século XX, cuja insubmissão, quer na vida, quer na literatura, viria a influenciar fortemente a chamada 'beat generation'. Faleceu em casa a 7 de junho de 1980 e eu, desta deriva, recordo a minha juventude e o olhar avisado do meu pai, que preferia Camilo, e, perdendo o controlo da memória, desenterro a minha primeira abordagem às suas “Novelas do Minho” e ao romance de Aquilino “Quando os Lobos Uivam” .

   Na “Maria Moisés” o suicida de S. Miguel de Seide põe “o pequeno pegureiro a contar as cabras à porta do curral; e, dando pela falta de uma, desatou a chorar com a maior boca e bulha que podia fazer. Era noite fechada. Tinha medo de voltar ao monte, porque se afirmava que a alma do defunto capitão¬mor andava penando na Agra da Cruz, onde aparecera o cadáver de um estudante de Coimbra, muitos anos antes. O povo atribuia aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Támega, por vingança de ciúmes, e propalava que a alma do homicida, de fraldas brancas e roçagantes, infestava aquelas serras. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública, asseverando que a aventesma não era alma, nem a tinha, porque era a égua branca do vigário. A maioria, porém, pôs em evidência o facto psicológico, divulgando que o moleiro era homem de maus costumes, tinha sido soldado na guerra do Rossilhão, não se desobrigava anualmente no rol da igreja, nem constava que tivesse matado algum francês”. 

   E também me saltou na memória a lacrimosa Mariana do “Amor de Perdição”, talvez porque da Antena 2 brotavam as notas doridíssimas do “Stabat Mater”, de Gioachino Rossini, exprimindo a dor daquela senhora excelsa que, em pé e de mãos enclavinhadas no peito,  era a mãe do sacrificado, a “mãe dolorosa, junto da cruz, lacrimosa, donde pendia o filho” (Stabat mater dolorosa, iuxta crucem lacrimosa, dum pendebat filius.)

   Foi para me salvar deste sufoco que a minha memória me fez imaginar “O Malhadinhas”, do beirão de Sernancelhe que, em forma de monólogo, nos conta a história de um almocreve, o ardiloso e jocoso Malhadinhas, que é um serrano rústico, grosseiro, matreiro e não tem quaisquer problemas em usar a “faquinha” que traz à cintura para corrigir o que entende por injusto.

   Foi, aliás, tendo em conta inúmeros casos de manha e crueldade que conhecia, típicas dos britânicos seus patrícios, que o filósofo John Lock, tido ainda hoje como o “pai do liberalismo”, já dizia no século XVII: “Sempre considerei as ações dos homens as melhores intérpretes dos seus pensamentos.”

2024 12 16

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

1832 – Publicação de «Da Guerra», de Clausewitz




O ge­neral prus­siano Carl von Clau­sewitz (1780-1831), para muitos «o mais pro­e­mi­nente es­tra­te­gista mi­litar e po­lí­tico da guerra li­mi­tada nos tempos mo­dernos», é uma fi­gura con­tro­versa que des­pertou o in­te­resse de per­so­na­li­dades tão dis­tintas como Lé­nine, Mao, Ei­se­nhower ou Henry Kis­singer. A sua obra-prima, Da Guerra (Vom Kriege, em alemão), es­tu­dada à época pelos mi­li­tares prus­si­anos, con­tinua a constar do pro­grama das aca­de­mias mi­li­tares dos EUA. Es­crito entre 1816 e 1830, o tra­tado sobre guerra e es­tra­tégia mi­litar ainda pro­voca po­lé­mica, sendo visto por uns como a favor da “guerra total”, e por ou­tros como en­si­nando a su­bor­dinar a guerra à po­lí­tica e aos con­flitos so­ciais. Equi­pa­rado a Tu­cí­dides, o ge­neral e his­to­ri­ador ate­ni­ense autor da ví­vida obra sobre a Guerra do Pe­lo­po­neso, Clau­sewitz tanto é apon­tado como a maior re­fe­rência his­tó­rica do pen­sa­mento es­tra­té­gico como acu­sado de ter aberto a porta às guerras to­tais do sé­culo XX. «A guerra é a mera con­ti­nu­ação da po­lí­tica por ou­tros meios», uma das frases mais fa­mosas do nosso tempo, é da sua au­toria. Ins­pi­rado no pen­sa­mento de Ma­qui­avel, Mon­tes­quieu, Kant e Fi­chte, Clau­sewitz ba­seia a sua obra, se­gundo al­guns ana­listas, num mé­todo se­me­lhante à di­a­léc­tica ló­gica de Hegel e Marx.

https://www.avante.pt/pt/2651/memoria/176998/1832-%E2%80%93-Publica%C3%A7%C3%A3o-de-%C2%ABDa-Guerra%C2%BB-de-Clausewitz.htm

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Sobre as comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões

 


10 Junho 2024

1. Assinala-se em 2024 o V Centenário do nascimento de Luís de Camões, cuja obra, inseparável de um mundo em transformação, é símbolo de humanismo progressista. 

2. A figura e obra de Camões foram manipuladas pelo fascismo, que, procurando cobertura ideológica para esse regime iníquo, as utilizou para propagandear o nacionalismo fascista e a sua concepção colonialista.

Camões, «Os Lusíadas», 10 de Junho (a que, sintomática e abusivamente, chamavam «dia da raça»), foram criminosamente usados para promover o obscurantismo, a manipulação das consciências e a censura, que impunham ao povo português pelos mais diversos meios de controlo ideológico, repressão e terror.

3. Um entendimento bem diferente é devido, porém, a Camões e à sua obra. Camões tem uma significativa importância na nossa história cultural. A classe operária, os trabalhadores, o povo português e os seus artistas, têm o direito e o dever de promoverem e enriquecerem criadoramente o acesso à sua obra, ao sentido mais avançado que o seu conteúdo incorpora e à ampla avaliação do tempo e do mundo em que Camões viveu.

Como escreveu Óscar Lopes: «Só se pode ver Camões e todas as suas condignas dimensões humanas se colocarmos a sua obra na perspectiva de vários séculos de luta, quer do povo português, quer de muitos outros povos, contra a exploração feudal, capitalista e capitalista-imperialista, luta pela autodeterminação real, inclusivamente económica e cultural, do povo português e de todos os povos que com ele podem hoje livremente dar-se as mãos, num combate que continua, e agora inequivocamente em comum».

4. Camões a sua obra são, hoje, património comum da humanidade. Traduzido em várias línguas, representado, estudado e apropriado em diferentes partes do mundo, o poeta continua a ser, actualmente, um nome maior da história da literatura.

Artista de grande dimensão, não protegido pelo poder, marginalizado pelos poderosos e privilegiados do seu tempo, Camões é um poeta do povo e da pátria portuguesa – pelo modo como reflectiu um acontecimento histórico, os descobrimentos geográficos, e como desenvolveu e apurou as capacidades da língua portuguesa, tendo sido um criador de palavras e arranjos sintácticos.

Camões é um poeta do Renascimento, de uma época de exaltação das realizações humanas face ao divino e ao obscurantismo, de um mundo em transição, no qual se vai formando um novo pensamento filosófico e científico, ligado à observação da natureza e à experiência, que as forças reaccionárias dessa altura, nomeadamente através da Inquisição, procuraram reprimir e conter.

Ligado ao pensamento progressista português do seu tempo, Camões traduz na sua obra um pensamento de tipo dialéctico – de que é exemplo o soneto «Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades» – a crítica da injustiça – «Vê que aqueles que devem à pobreza/Amor divino, e ao povo, caridade,/ Amam somente mandos e riqueza,/ Simulando justiça e integridade./ De feia tirania e de aspereza/Fazem direito e vã severidade;/ Leis em favor do Rei se estabelecem;/As em favor do povo só perecem.» (Lusíadas, Canto IX, estrofe 28) - a par da evidência do período de descoberta e do saber de experiência feito.

Os descobrimentos geográficos são do maior alcance histórico no desenvolvimento do espírito crítico, da experimentação e da procura do novo no conhecimento, nomeadamente no campo da Geografia, Astronomia, das Ciências Naturais, da Cartografia, das técnicas de navegação, ligando ciência e técnica. Um processo que foi, contudo, posteriormente aproveitado pelas classes dominantes para impôr a brutal exploração, durante séculos, de outros povos, a escravatura e o tráfico, com as guerras de submissão e de conquista, ao mesmo tempo que submetiam também o povo português ao seu domínio e exploração - «Mas já nas naus os bons trabalhadores/Volvem o cabrestante, e, repartidos/Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,/ Outros quebram co peito duro a barra» (Lusíadas, Canto IX, estrofe 10)

5. A intervenção do Partido Comunista Português nas comemorações do V Centenário de Camões é um contributo insubstituível para a participação activa do nosso povo nessas comemorações e para um maior conhecimento, difusão, apropriação e fruição da obra do grande poeta.

De facto, o direito à cultura ocupa um lugar central nos objectivos do PCP que o considera uma das quatro vertentes fundamentais de uma democracia avançada inspirada nos valores de Abril. Uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural com uma política cultural orientada para a salvaguarda, o estudo e a divulgação do património cultural nacional, regional e local, erudito e popular, tradicional ou actual; que assuma a educação, a ciência e a cultura como vectores estratégicos para o desenvolvimento integrado do nosso País. Uma democracia que promova o intercâmbio com outros povos da Europa e do mundo, a abertura aos grandes valores da cultura da humanidade e a sua apropriação criadora; que estimule o combate à mercantilização e à colonização cultural; que fomente a promoção internacional da cultura e da língua portuguesas, em estreita cooperação com os outros países que a usam. 

6. Assim, com o objectivo de comemorar o V Centenário de Luís de Camões, o PCP promoverá um diversificado conjunto de iniciativas, a realizar ao longo dos anos de 2024 e 2025, que terão início numa sessão político-cultural, a realizar em Lisboa, no final de Agosto, e na Festa do Avante! de 2024.

7. O Partido Comunista Português apela ao envolvimento alargado de pessoas, estruturas e instituições, a que valorizem Camões e a sua obra – inseridos no seu tempo, no processo histórico de luta contra a opressão e a exploração, pelo progresso social – projectando-os na actualidade e afirmando o património cultural português, a língua portuguesa, a cultura e a arte, também nesse quadro; a que dêem o seu contributo insubstituível para levar a obra de Luís de Camões até ao povo.

Tal como sublinhava Álvaro Cunhal na Festa do Avante! de 1979, referindo-se às comemorações pelo PCP do IV Centenário da morte de Luís de Camões, «Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, dos Lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista», importa, na actualidade, enfrentar e rejeitar todas as tentativas de associar Camões, ou aproveitar o V Centenário do seu nascimento, para promover ideias e concepções retrógradas e reaccionárias como o chauvinismo, o racismo, a xenofobia, o colonialismo e o neocolonialismo. 

O PCP apela a que, inserida num processo aberto, activo e de interacção com a cultura mundial, se defendam e afirmem os valores da soberania e da independência nacionais, da cooperação entre os povos, elementos indissociáveis da luta emancipadora dos trabalhadores e do povo contra a exploração capitalista, por uma sociedade nova, sem exploradores nem explorados, que é parte integrante da luta em defesa dos valores de Abril e pela sua projecção no futuro de Portugal.


https://www.pcp.pt/sobre-comemoracoes-do-v-centenario-do-nascimento-de-luis-de-camoes 

terça-feira, 26 de março de 2024

Carlos Coutinho - Metamorfoses

 


* Carlos Coutinho 

Há não sei quantos milhões de anos, a mais que milionésima bactéria tremeu nas águas primordiais e começou a perder os seus primeiros borbotos e estes, imitando a mãe, bacterizaram-se também e, logo que adultos, desataram a povoar os mares igualmente emergentes, iniciando verdadeiras dinastias de bactérias diferentes e ávidas de novas diferenciações.

É o que deduzo das muitas leituras que tenho feito sobre o assunto.

Muitas bactérias do frio e do quente optaram por abandonar as diversas águas planetárias, continuaram a metamorfosear-se, de espécie em espécie, e atingiram a humana, aquela que ainda não sabemos o que será, nos próximos séculos ou milénios, se ainda viver.

Mas sabemos que a sua primeira compulsão foi alimentar-se para sobreviver, disputando os alimentos com as vizinhas e, assim, aprendendo a lutar. Criou, portanto, os primeiros modos de matar e nunca mais parou de os aperfeiçoar, aperfeiçoando também a coragem, a ira, o ódio, condições instrumentais de sobrevivência.

– A inteligência animal começou assim, por total inexistência de ética e, muito menos ainda de filosofia, para desgosto de Santo Agostinho que descobriu, milhões de anos mais tarde, na cidade argelina de Hipona, o mal e a sua sede original na mulher.

– Mas foram precisos também milhões de anos para os moluscos marinhos galgassem as areias das praias, adquirissem esqueleto e exoesqueleto, escamas, penas, couro e pelo, vulva e pirilau, luxúria e autorreprodução sem gâmetas, fossem eles óvulos ou espermatozoides, e muito menos fecundação in vitro, até que o primeiro primata optou por se amacacar ou se antropolizar.

– E ainda não foram poucos os milhões e anos necessários para a fundação do Antropoceno, com o homo neandertalensis e o homo sapiens a alterar irremediavelmente a ordem e as formas das coisas, até os primeiros analfabetos conscientes inventarem os hieróglifos e as primeiras gravuras rupestres com as mãos borrifadas por bocas cheias de líquidos cromáticos nas rochas mais adequadas das cavernas.

– Daí ao sumério Gilgamesh e, seguidamente, à arca de Noé, ainda tiveram de transcorrer mais alguns milhares de anos, porque faltava formular a teoria da impulsão, a carpintaria naval, a arte da navegação e, assim, foi imposta a entrada com senha para a barca, visto a bicharada ser tanta que teve de se organizar filas, entrando cada novo passageiro só quando algum outro, lá dentro, já tinha sido devorado por alguns dos seus famintos semelhantes em luta compreensível de sobrevivência das espécies, das raças e dos costumes.

– A revista “Nature” publica agora um estudo sobre a perda da cauda nos símios, ocorrida há 25 milhões de anos. A hipótese inicial do estudo é a de que os nossos ancestrais perderam os rabitos abanadores quando mutações alteraram um ou mais dos seus genes.

Os cientistas compararam o ADN de seis espécies de símios com o de nove espécies de macacos caudados, descobrindo que a mutação compartilhada por símios e humanos – mas ausentes nos macacos com cauda – no gene TBXT. Esta mutação terá afetado TBXT aleatoriamente um único símio, fazendo com que este desenvolvesse um coto em vez de uma cauda e passasse o “defeito” para os seus descendentes. Com o tempo, a mutação TBXT tornou-se norma nos símios e nos humanos atuais, incluindo os que já funcionam com ginástica digital da conectividade radical e com a inteligência artificial.

– Quando as primeiras mitologias apareceram e os filósofos as normalizaram, para Jeová aparecesse a legislar e Homero a encher caldeirões de amores, ciúmes, viagens à ilha das tragédias, egípcios a fazer perguntas à esfinge de pedra, Aristóteles a pôr carne nas sombras de Platão e Spartacus a dizer “já basta!”, enquanto Afrodite fazia de Helena, a mais bonita de todas as mulheres e esposa do rei grego Menelau, se apaixonar-se pelo troiano Páris, que então a levou para a sua cidade. Agamenon, rei de Micenas e irmão de Menelau, reuniu os aqueus (gregos), liderou uma expedição contra Troia e cercou essa cidade frugal da Lacónia ou Leçademónia, na Península do Peloponeso, durante dez anos, como uma represália pelo insulto de Páris.

Após a morte de muitos heróis, incluindo os gregos Aquiles e Ájax, bem como Heitor, Páris recuperou a sua imprescindíveel Helena com a ajuda de um cavalo de pau.

– Claro que infinito, acumulação, conectividade radical, biocósmico, morte e força de viver são os temas da japonesa Yayoi Kusama, de 65 anos, acabados de fazer, que, depois e tantas décadas a viver voluntariamente numa instituição de saúde mental, personifica hoje um dos mais estrondosos fenómenos de popularidade na arte contemporânea, mas isso não implica que os dadores de gâmetas tenham de ficar eternamente anónimos, como a lei portuguesa, felizmente, já aceita.

Nem que só haja um os dois cardiologistas nos hospitais do Interior, sabendo-se que há mais de 500 nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde!

– E certo é também não devia ser permitido abater árvores em todos os cantos do mundo para fazer papel desnecessário ou simplesmente prescindível, mesmo que para substituir os sacos de plástico nos supermercados.

E menos ainda seria de permitir que se continuasse a plastificar tudo, ao ponto de já se ter encontrado no estômago de um mastodóntico cachalote lulófilo, morto na praia, um emaranhado rolo de 43 quilos de redes de nylon, escovas de dentes, copos de plástico, sapatilhas, etc.

Pior só a existência de triliões de triliões de partículas de plástico na corrente sanguínea dos peixes que comemos e, agora, até já na dos frangos e de outros bichos de aviário e de viveiros para aquacultura.

E mesmo no ar que respiramos, como nos disseram na recente 11.ª Cimeira Mundial dos Oceanos!

– E por que carga de água, quando a PSP registou entre 2020 e 2323 algo como 15 mil furtos por carteiristas, caçada que lhes rendeu 7,1 milhões de euros, vêm agora certos interessados reclamar a implementação da muito perigosa, energia nuclear em Portugal, sabendo-se que, ainda por cima, sai “demasiado cara, mesmo sem se contabilizar os custos escondidos – os de armazenar os resíduos, os dos seguros contra acidentes e seus efeitos, os do desmantelamento das centrais em fim de vida, etc.”

É que é mesmo “muito mais cara – 10 a 20 vezes mais cara (segundo o catedrático e investigador Manuel Collares-Pereira) por unidade de potência instalada que as renováveis – solar, eólica, hídrica e outras que estão em desenvolvimento” – e que já provaram poderem continuar de vento em popa.

“O combustível nuclear convencional (U235)”, diz ele, “é escasso; psra ser considerado abundante (U238, Th232), implicaria uma mudança de tecnologia (mais risco, mais tempo…); neste contexto fala-se hoje da tecnologia dos pequenos reatores, pré-fabricados, algo que não existe ainda … e que muito provavelmente, serão ainda mais caros. (…) Para uma central de 1600MW, estamos a falar de um investimento de mais de 1000 milhões de euros, se registarmos o exemplo finlandês de Olikuoto, acabada de construir), e podemos mesmo contar com mais de 19 000 milhões, se tomarmos como referência o idêntico EPR francês de Flamanville (em construção).”

Mas, por cá, os lóbis movem-se. Vá-se lá saber porquê.

– E não me esqueço de que dos anuros, com penugens ou com pelagens, com escamas ou com viscos, com espinhos ou com pelado coiro impermeável, com guelras ou com pulmões, com bico com boca, houve que vencer mais alguns milhões de anos, até se poder atingir o cataclismo que cósmico e ardente que nos dinossaurizou os territórios livres, criando uma ordem nova – ordine nuovo, como a do Mussolini – que até o Pio XI e o nosso Cerejeira cardeal, ombro com ombro com o nosso sempre solteiro Salazar, tanto apreciaram.”

Daí até aparecer a besta do “Apocalipse” ainda tivemos de aturar os aedos que deram histórias e mitos Homero e a Virgílio, os delirantes que souberam desnudar as estrelas e ainda sobrevivem como espíritas e horoscopizáveis em modo Pessoa, os Abraões decalógicos, os Plutarcos e os Arquimedes, os Avicenas e os Averróis, o milagre de Ourique e a mirabolante conversa do Condestável com Cristo antes da batalha de Aljubarrota, como antes acontecera com D. Afonso Henriques, o Nuno Gonçalves dos painéis de S. Vicente, o zarolho Luís Vaz da Ilha dos Amores, o salaciano ou alcacerense Pedro Nunes da Matemática, os arquitetos da Baixa Pombalina, os versos de António Nobre e dos de Cesário Verde, as composições de Lopes Graça e até o descaramento com que misturo tudo isto.

– Talvez faça falta a esta lista de figurões o nome do jesuíta Luís Frois que viveu 34 anos no Japão e assistiu à batalha A “História” de Luís Fróis é também uma narração dos acontecimentos histórico-políticos de uma das fases históricas mais cruciais do país.

A sua “História do Japão” abrange o declínio da dinastia dos Ashikaga que começou a sua regência em 1338 e acabou em 1573.

Abrange a ascensão e o fim do comandante Oda Nobunaga (1534 - 1582) que iniciou o processo da unificação do Japão de um modo decisivo.

Abrange os anos mais importantes do sucessor de Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi (1536 - 1598), que continuou a obra de Nobunaga e completou a unificação do país, mas que também iniciou a perseguição dos cristãos em 1587. Sob o seu reinado foram mortos também os primeiros 26 mártires católicos, em 1597.

O historiador de circunstância Luís Frois nasceu em Lisboa e, em 1563, viajou para o Japão, encarregado de pregar o Evangelho, isto uns 20 anos depois de os primeiros mercadores portugueses, a bordo da “Nau do Trato”, terem desembarcado no Sul nipónico. Foi seguidamente para Quioto, onde se reuniu com Ashikaga Yoshiteru, que então era xogun. Em 1569 tornou-se amigo de Oda Nobunaga e permaneceu na sua residência em Gifu (cidade), enquanto se dedicou à escrita por um curto período.

Descreveu, então, pormenorizadamente as suas impressões sobre as tradições e cultura japonesas do século XVI através de cartas enviadas para Macau, Roma (ao Papa) e aos reis de Portugal.

É considerado o primeiro cronista europeu daquelas paragens. Entre as suas obras encontra-se uma “História do Japão”, um clássico que recolocou o país do sol nascente na história do mundo moderno e que Akira Kurosawa seguiu milimetricamente para filmar o também clássico “Kagemusha” (“A Sombra de um Samurai”) e que o também clássico Claude Lévi-Straus catalogou como “o primeiro antropólogo”

– Que bom ter nascido no país dos milagres, onde em contramão, também, nasceram pastorinhos videntes e sádicos da tauromaquia!


https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Carlos Coutinho - Pois é…

* Carlos Coutinho


   PESSOA já tinha vivido na pele de todos os seus heterónimos quando o argentino Borges, com ascendência lusitana, escreveu em “Lamento de Heráclito”: 

   “Eu que tantos homens tenho sido, (tradução minha), não fui nunca / aquele em cujo abraço desfalecia Matilde Urbach.” 

   É certo que Fernando Pessoa achava que “a morte é a curva da estrada. / Morrer é só não ser visto”, porém, quando isto escreveu, Jorge Luís Borges ainda não era cego e lia toneladas de livros em Buenos Aires, além de muito apreciar os faquistas portenhos.

   Até um erudito emigrante açoriano, que dá aulas nos EUA, de seu nome Teotónio Onésimo Almeida, “reconhece a dificuldade de em Pessoa se encontrar um núcleo duro ou básico no seu pensamento, embora isso não seja de todo impossível. Por exemplo, tenhamos em consideração que os heterónimos não são assim tão antagónicos em matéria de ética. Não há radicalização de nenhum deles: nenhum heterónimo pessoano se revela marxista, nem muçulmano, nem revolucionário de esquerda, nem verde, nem católico, nem nazi, nem sequer protestante.” (in revista “Ler”, 2023, Pessoa e Nietzsche – Um confronto na modernidade).

   Diga-se, de passagem, que estes versos de Jorge Luís Borges – foram modificados em edições posteriores, trocando-se “abraço” por “amor”, já que, no dizer do autor, ficavam muito sibilantes – tendo aparecido numa seleção intitulada “Museu” e apocrifamente atribuída a Gaspar Camerarius. Especificamente, no fragmento VII, 16 de “Deliciae Poetarum Borussiae”. 
 
   Enquanto alguns especulavam com que o nome de Matilde Urbach resultava de uma certa paixão secreta do jovem Borges, outros intuíram conotações menos pessoais ou mais filosóficas – embora o título do poema remeta para “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, e o patronímico Urbach provenha, talvez, de um étimo protogermânico impronunciável que deu origem ao germânico medieval Bach (arroio, ribeira), propiciando uma cifrada interpretação.  

   Mas a verdade sobre Matilde Urbach continuou mistério, até que um texto de Bonilla, integrado em “A Arte do Yo-Yo”, respiga uma suposta investigação em torno desse “nome inabordável”. 

   Por sua vez, outro escritor argentino, Bioy Casares, declarou: “Creio que era uma personagem de um romance cuja leitura Borges me confessou.” 

   E o formidável escritor espanhol Javier Marías, recém-falecido, nos remete para o romance “Man With Four Lives”, do ignoto norte-americano William Joyce Cowen, que tinha sido referido por Borges na época em que colaborava na revista “El Hogar”.

   Como quer que seja, a verdade é que outra grande escritora, Marguerite Yourcenar, de origem belga e cedo migrada para os EUA, escreveu “En Pelerin et en Étranger”:

   “Face à história, qualquer homem minimamente consciente das constantes mudanças e da complexidade quase infinita das coisas sente-se, a pouco e pouco, tomado pela sensação do horrível e do absurdo. Nenhuma delas se altera em breve, e sem que primeira ou a segunda dessas noções enfraqueça, junta-se-lhes uma outra, a de que uma vasta impostura, na qual, ativos ou passivos, todos participamos.”

   Pois é…

2024 01 3 0

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/posts/pfbid02fPyvMiy9ggC1WkLJMXNUbBiDb4z8BbnjJfAojLJrCP79rd91UmZEsXPmhYKnsnVSl

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Miguel Tamen - Plano Nocional de Leitura

* Miguel Tamen

Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa


Plano Nocional de Leitura (XV)

O que faz do livro de Oliveira Martins um livro de história não é parecer-se mais ou menos com um romance. É, como em toda a grande história, dar voz ao que pessoas achavam que se podia estar a passar

Plano Nocional de Leitura (XIV)

Bernardim Ribeiro é o autor de um poema maravilhoso onde imagina que em alturas especiais, quando alguns diriam ‘eu sou,’ é preferível dizer ‘eu estou’, apesar de a gramática recomendar o contrário.


Plano Nocional de Leitura (XIII)

Ao contrário dos anões, que acabam sempre por fazer as pazes com quem lhes mexe nas coisas, Camilo Pessanha parece ter razões para continuar a temer essa mãe morta, que insiste em aparecer-lhe em casa

***

Plano Nocional de Leitura (XII)

D. João era um animal complexo: ora vezes explica o que o move, ora esfaqueia quem lhe desagrada. O mérito de Fernão Lopes é ter sido o primeiro autor português que se interessou por animais complexos

Plano Nocional de Leitura (XI)

Pode não ser despropositado fingir sentimentos que não temos; mas que razão teríamos para fingir sentimentos que já temos? É como fingir que temos uma piscina na nossa casa com piscina.

***

Plano Nocional de Leitura (X)

Não é de excluir que o Padre António Vieira achasse que durante a hora anterior não tinha estado realmente a falar: e que por isso não tinha estado a mandar mensagens, a convencer pessoas.


Plano Nocional de Leitura (IX)

A razão por que não é possível sair de Lisboa, percebe-se no fim, é porque Lisboa é um cemitério. Poucos reparam nisso: depois de tantas coisas pitorescas e de um poema tão comprido, a atenção dormita

Plano Nocional de Leitura (VIII)

O susto desta ermida, porém, e a aflição da pessoa que lá está, são peculiares; não são preparados nem explicados; e muito menos o poeta nos comunica que já previra que tudo aquilo deveria acontecer.

Plano Nocional de Leitura (VII)

Contar a história não mostra que se prestou atenção ao romance, ao filme, à peça ou ao poema: só mostra que se tentou contar uma história; e uma certa impaciência com tudo o que não seja a história.


Plano Nocional de Leitura (VI)

Os poemas são no fundo colecções de coisas parecidas, que provêm dos armazéns de parecenças onde as vamos buscar; e nesses armazéns há artigos de toda a espécie: rimas e frases, barulhos e explicações


Plano Nocional de Leitura (V)

As frases de Camões foram escritas há muito tempo; e é normal que aqueles que acham que as devem tentar perceber não as percebam muito bem. São versos difíceis. O único remédio é prestar-lhes atenção.

Plano Nocional de Leitura (IV)

A literatura, acredita-se nos gabinetes, é como um guia turístico, um requerimento administrativo, ou um manual de história: um meio para tratar de outros assuntos embora com frases longas ou difíceis


Plano Nocional de Leitura (III)

Um contemporâneo de William Wordsworth declarou que os poetas são os “legisladores oficiosos deste mundo.” Não temos a certeza de que assim seja, ou que sempre seja assim.  

Plano Nocional de Leitura II

A inveja é uma emoção reprovável que não imaginamos poder sentir; e que imaginamos prontamente nos terceiros que haja por perto. O nosso consenso sobre a inveja é realmente sobre os outros.

Plano Nocional de Leitura I

Seria insólito que nas seis horas imediatas à leitura de um bom romance todos tivéssemos desenvolvido um impulso irresistível para praticar o bem.