Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Lídia Jorge, Marcelo de Sousa e o Prémio Fernando Pessoa
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Jaime Nogueira Pinto - Camões: o poeta cego, surdo e mudo
A ideia de
emitir uma moeda comemorativa dos 500 anos de Camões com uma efígie estilizada
em que o “poeta cego” também surge surdo e mudo diz-nos muito de quem a
encomendou e, em Dezembro, a aprovou.
08 jun. 2024
Por má fortuna,
os quinhentos anos do que se convencionou ser o nascimento de Camões
coincidiram com cinquenta anos do 25 de Abril. E o tempo, o modo e os fundos
alocados pelo Estado às comemorações do Regime contrastaram flagrantemente com
a incúria e a modéstia de fundos destinados à celebração do épico. E assim
tinha de ser. O combatente do Império no Norte da África e na Índia, cantor
exaltado e exaltante de feitos de guerra e de conquista, homem de
sensibilidade, subtileza, erudição e experiência, capaz de dar voz ao
contraditório e a todas vãs cobiças, capaz também de se deixar cativar por uma
“cativa”, pode ser um homem para todos os tempos e estações… para todos, menos
para este. Ou é-o pela ausência, pelo vazio, pela amordaçada mudez, pela surdez
induzida e pela cegueira metafórica que a moeda comemorativa tão bem ilustra.
Num tempo de maniqueísmo simplista, contrição oca e ignorância induzida, Camões
só poderia ter lugar como saco de vento e “poeta cego”, ou mais precisamente,
na designação oficial da moeda, como “efígie estilizada do poeta cego, com uma
coroa de louros e uma gola típica do século XVI”. E depois havia ainda o
colonialismo, o imperialismo, o “nacionalismo exacerbado”, a todos os títulos
hostis a globalismos, federalismos e multiculturalismos generalistas.
Assim – e
também pela qualidade formal e estilística e pela lucidez no juízo dos homens e
dos tempos – era, desde logo, natural que Camões não despertasse grande
entusiasmo entre a classe política dirigente e a intelectualidade desta
Terceira República.
“Cessem do sábio Grego e do
Troiano
As navegações grandes que fizeram,
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano
A quem Neptuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”
…Cale-se e
cesse também Camões e o seu ilustre peito lusitano que outros valores (mais
altos?) se alevantam. Que valores exactamente não sabemos; sabemos só que não
são nem podem ser os do “peito ilustre lusitano”.
Temo que Vasco
da Gama, cujos 500 anos da morte também se cumprem este ano, em 24 de Dezembro,
véspera de Natal, não venha a conhecer melhor sorte. Até porque, além do delito
de “nacionalismo exacerbado”, que partilha com Camões, praticou alguns dos crimes
pelos quais devemos ao mundo penitência e reparação.
De regime
em regime
Como este agora
o queria fazer pela ausência amordaçada, também os anteriores regimes se foram
sucessivamente apropriando de Camões.
Em 1880, o
nascente partido republicano usou o terceiro centenário da sua morte de para
criticar a Monarquia. A ideia era pegar na grandeza do poeta, da épica e do
Portugal de Quinhentos para a atirar bem à cara do Portugal decadente do
rotativismo regenerador.
Assim, na
fórmula de Teófilo Braga, o homem da iniciativa, Camões simbolizava “as glórias
e os desastres de Portugal”. Para Teófilo – e apesar do positivismo
comteano da sua formação –, tratava-se de através da emoção e dos
sentimentos populares suscitados pela memória gloriosa de Quinhentos, de que o
Poeta era digno protagonista e celebrante, mobilizar a opinião pública e
popular mostrando-lhe o fosso entre a grandeza do século das navegações e
conquistas e “a apagada e vil tristeza” do país da Regeneração. O que se
pretendia era esse contraste histórico entre o presente de então e o Portugal
do Príncipe Perfeito e do Venturoso, contado e celebrado por Camões nos Lusíadas,
a diferença entre essa “Idade de Ouro”, real ou mitificada, em que tínhamos
sido pioneiros nos mares e oceanos e grandes na conquista das terras e o
presente. Era com tudo isso que o intelectual republicano Teófilo Braga,
através da promoção de grandes comemorações camonianas nacionais e populares,
ao modo das festas cívicas da Revolução Francesa, queria espicaçar o povo.
Camões, nesse
tempo, servia a uma esquerda nacional, republicana e patriota: era um poeta que
celebrava o Portugal da Renascença, promotor de Modernidade, um poeta que, para
o futuro primeiro presidente provisório da República jacobina, enfileirava com
Virgílio e Dante, guias do entendimento e da cultura da Humanidade. Para
Teófilo, Camões, tal como Leonardo e Miguel Ângelo, fazia a transição da Idade
Média para a Renascença.
Na Geração de
Setenta, quer Oliveira Martins, quer Antero de Quental foram críticos desse seu
entusiasmo, por razões ideológicas e políticas: Oliveira Martins achava a
versão de Teófilo de uma Renascença mais ou menos esclarecida, um mito; para
ele, o cristianismo fundamentalista e identitário e o imperialismo
político-militar não eram dissociáveis ao século de Quinhentos português; e
Antero, no seu pessimismo, via em Camões e nos Lusíadas mais
um epitáfio celebrativo do fim do ciclo da grandeza que uma proposição para
memória e ressurreição nacionais. E Martins, em 1891, já depois da crise e
humilhação do Ultimato, diria que o “entusiasmo de 1880” tinha “ardido como
palha”.
Hoje, depois do
enaltecimento do Estado Novo do Poeta e da épica, a Esquerda não está muito
interessada nem em Camões, nem em lembrar as glórias do Século de Ouro.
Ou tão pouco parece interessada – por ideologia, desinteresse ou falta de tempo
ou ciência – nas suas complexidades e na crítica do Poeta à época em que
escreve ou à gesta do passado. O governo socialista que, curiosamente,
podia reclamar alguma ascendência da esquerda republicana e patriota que, há
quase 150 anos, por interesse político de circunstância, mobilizou os lisboetas
e os portugueses para o centenário da morte de Camões, pouco ou nada fez por
este Quinto Centenário do Poeta. Olhou para o lado, ocupadíssimo a planear e
financiar os 50 anos de Abril e a acolher a agenda educacional da extrema
esquerda. Tanto que, na organização (ou ausência dela) das comemorações
camonianas, não constava sequer o Ministério da Educação, agora justamente
reposto como parceiro. Afinal, para quê implicar o Ministério da Educação
nas comemorações, congestionada que já estava a Educação com tantas, tão
determinantes e tão inclusivas agendas?
O melhor era
ignorá-lo e festejar Abril. E depois, o Poeta, na sua vida irrequieta e
perigosa, nos seus amores impossíveis, nas suas servidões e grandezas
militares, nas suas “desajustadas” devoções a Deus, à Pátria e ao Rei, na sua
consciência de contemporâneo e agente da original “exportação de Estado” pelos
portugueses, não se coadunava com as esquerdas festivas das nostalgias
anti-coloniais e muito menos com o simplismo das esquerdas do cancelamento e da
vitimização à la carte. Tão pouco poderia “civilizar-se”,
“pacificar-se” e “liberalizar-se” aquele a que a época forçara a outros modos.
Era coerente.
Como dar volta ao Camões de Ceuta e da Índia, ao Camões dos Lusíadas,
ao contador de uma história que, à luz dos valores em promoção e circulação,
não passava de um marginal belicista, nacionalista, imperialista, colonialista,
autor de uma narrativa épica que punha os guerreiros que fundaram e defenderam
Portugal do lado certo da História?
Todo um
outro programa
O facto de
esses guerreiros, os reis e heróis da História e do poema camoniano, serem os
defensores da pátria e da terra portuguesa – Afonso Henriques na primeira
guerra da independência, o Mestre de Aviz e Nun’Álvares na segunda, D. Manuel
na decisão de mandar Vasco da Gama à Índia, e os Almeidas, os Albuquerques e
Castros que por lá andaram, lutaram e, alguns, morreram – parece ter-se tornado
relativamente irrelevante. Bem como o facto de Camões não ser um servidor
acéfalo dos poderes vigentes: deixa a contradição do Velho do Restelo por
resolver (como observa Carlos Maria Bobone no seu recente Camões: Vida
e Obra ) e está particularmente atento aos factores e riscos dos
desvios do poder, ao abuso, à corrupção, à tirania, ao mau conselho que podem
transformar o monarca em tirano e subverter o bom governo. Os exemplos podem
ser do Estado da Índia, mas a crítica ao poder é clara.
Ao ler no Público a
versão expurgada da fala do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, sobre
comemorações de Camões, assustei-me, pensando que o Poeta, esquecido e
marginalizado pelos seus antecessores, ia agora ser celebrado de modo
“democrático e inclusivo”, conforme o jornal dava a entender. Felizmente
fui ler as declarações de Montenegro na íntegra. Afinal, o que o
primeiro-ministro tinha dito era que não queria celebrar Camões “de um modo
passadista ou saudosista”, mas que também não queria “modernizá-lo em termos
anacrónicos falsificadores da verdade histórica…”. O que é todo um outro
programa.
Ainda que o
tempo não esteja de feição para grandes poetas ou heróis, nas suas contradições
e errâncias, na profunda verdade da sua vida e da sua obra, Camões é Portugal
ou também é Portugal. E é um grande intérprete do colectivo, do mundo e da
comunidade, do universo e da pátria que nos fala do grande mundo a que Portugal
se abriu e abriu. Merece ser celebrado – e lido.
https://observador.pt/opiniao/camoes-o-poeta-cego-surdo-e-mudo/
Jailme Nogueira Pinto - O grande imaginador: Nos 120 anos da morte de Júlio Verne
* Jaime Nogueira Pinto
Os heróis de
Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens
de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances
de Verne acabavam bem.
29 mar. 2025
Júlio Verne,
popularmente considerado o precursor ou o antepassado próximo da literatura de
ficção científica, morreu há 120 anos, a 24 de Março de 1905.
Fui desde cedo
um leitor apaixonado da ficção científica que me chegou, como à maior parte dos
da minha geração, pela colecção Argonauta dos Livros do Brasil. A Argonauta
apareceu em 1953, e foi talvez em 1956, nas vésperas de entrar para o liceu D.
Manuel II, que comecei a ler os livros, à medida que iam saindo. E fi-lo
regularmente, aí até ao número 200.
Li os primeiros
números no Verão, numa praia da Foz do Douro, uma dessas praias do Estado Novo
dos anos 50 cheias de regras e rituais – com cabo do mar, baloiços, fatos de
banho com peitilho ou camisola interior e três horas de “digestão”. Horas
sagradas, que tínhamos de passar “a descansar”, entre o almoço frugal de
sanduiches mistas e o banho das cinco da tarde.
Anos mais
tarde, no Algarve, o meu sobrinho Pedro havia de me perguntar: “Tio Jaime,
acredita na digestão?” Nessa altura já tinha perdido “a fé”, mas quando era
novo, todos acreditávamos na digestão. E mesmo que não acreditássemos tínhamos
de recolher à barraca durante três horas, independentemente das nossas crenças
e vontades. Por isso, foi estendido na toalha de franjas, debaixo da lona
grossa da barraca que li muita Argonauta (também se acreditava que não era bom
apanhar o sol a pique da hora do almoço e que a leitura não fazia mal ao
estômago).
Os livros, em
formato de bolso, tinham umas capas lindas, de Lima de Freitas e de Cândido
Costa Pinto. Eram de Costa Pinto a capa do primeiro número da colecção
– Perdidos na Estratosfera, de A. M. Low – e a de A Sexta
Coluna, de Robert Heinlein, um verdadeiro épico do género que então me
impressionou consideravelmente. E foi assim que fui descobrindo os grandes
escritores da Science Fiction: a poesia das Crónicas
Marcianas, de Ray Bradbury, que em Fahrenheit 451 identificou
uma distopia de destruição de livros cara aos totalitários de todas as tribos;
os robots e a robótica e os ciclos históricos da
Fundação e do Império, de Isaac Asimov; Arthur C. Clarke e a sua Odisseia
no Espaço; o extraordinário mundo feudal de Frank Herbert, o criador
de Dune, que David Lynch adaptaria ao cinema; e outros, como A. E.
Vvan Vogt, Fredric Brown, Brian Aldiss, Poul Anderson e Philip K. Dick,
um dos “últimos”. E a sobressair num género dominantemente masculino, Ursula Le
Guin, a criadora do fabuloso Feiticeiro de Terra-Mar.
Mas a minha
iniciação na “literatura de antecipação”, tal como a de muitos, em Portugal e
no mundo, tinha acontecido antes, com as “viagens extraordinárias” de Júlio
Verne, onde se misturavam o imaginário, a ciência e a geografia.
Uma
literatura de antecipação
Não era bem
ficção científica era uma “antecipação” imaginativa a partir de invenções e
acontecimentos relativamente próximos. Não nos podemos esquecer – e às vezes
esquecemo-nos sob o impacto das surpresas e maravilhas científicas e técnicas
da nossa Idade – que o núcleo duro das invenções que ainda fazem o nosso
quotidiano são da segunda metade do século XIX: o telégrafo, a electricidade, o
telefone, o cinema, o automóvel, o avião. Ora Júlio Verne nasceu em 1828 e
morreu em 1905, ou seja, viveu o politicamente agitado século XIX francês,
desde a monarquia tradicional restaurada de Carlos X de Bourbon até à Terceira
República jacobina e anti-clerical de Loubet e Combes.
Não me lembro
exactamente qual foi o primeiro livro de Verne que li, mas quase que ia jurar
que foi A Ilha Misteriosa. A trama é um modelo da narrativa
verneana, inspirada no clássico Robinson Crusoe, de Daniel Defoe
(1719), no Robinson Suíço, de Johann Wyss (1812), e numa
narrativa próxima do tempo do autor, a de François Édouard Raynal, que
naufragara nas ilhas Auckland, no Pacífico Sul.
A Ilha
Misteriosa saiu primeiro em folhetim jornalístico, entre Janeiro de
1874 e Dezembro de 1875, com ilustrações de Jules Férat. Faz parte das “viagens
extraordinárias”, uma série de romances em que Verne combina aventura,
maravilhoso, mistério, geografia, imaginação, ciência e tecnologia.
Durante o cerco
de Richmond, cinco prisioneiros, cinco abolicionistas, conseguem escapar em
balão; depois de cinco dias e quase dez mil quilómetros, chegam a uma ilha
deserta do Pacífico. A personagem mais importante do grupo é o engenheiro Cyrus
Smith, que leva com ele o criado Nab; há um jornalista, Gedeon Spillet, um
marinheiro, Pencroff, e o jovem Herbert. Cyrus é o típico herói de Verne – um
homem de coragem, de cultura e de ciência, um chefe natural, que não só vai
assegurar a sobrevivência do grupo como a “colonização acelerada” da ilha,
valendo-se da convergência de talentos e conhecimentos dos expedicionistas.
Assim, a ilha “Lincoln” transforma-se num espaço civilizado, sob o qual vela o
grande herói verneano, o capitão Nemo, o do Nautilus e
das 20.000 Léguas Submarinas.
Verne nasceu em
Nantes, na ilha Feydeau, perto do Quai Jean-Bart, onde passou toda a infância,
o que lhe estimulou o gosto da viagem, do mar, das ilhas. Foi para Paris nos
anos 1850 onde conheceu, além de Alexandre Dumas e Victor Hugo, Jacques Arago,
viajante e geógrafo, que completara uma volta ao mundo em 1817, a bordo
do l’Uranie. E, claro, o seu editor Hetzel, que encontrou em 1862 e
com quem iria ter uma colaboração modelo e de longa duração. Um editor crítico
que levantava objecções e fazia sugestões que o autor aceitava, também
criticamente, como bem o documenta a correspondência entre os dois.
Verne e
os outros
Em 1864, Verne
publicou Cinq Semaines en Ballon, o primeiro romance da série
“viagens extraordinárias”, que um crítico classificou como “roman cientifique”.
Théophile Gautier, referindo-se ao novo género, falou em “quimera cavalgada e
dirigida por um espírito matemático”; outros consideram-no uma “maravilha
científica” e chamaram a Verne “pioneiro do romance científico”.
Por esse tempo,
Edgar Alan Poe já publicara os contos e A Narrativa de Arthur Gordon
Pym, e Émile Zola, num artigo de 1866, não pôde deixar de comparar “o
pesadelo Edgar Poe” à “fantasia amável e instrutiva” de Verne. Outros críticos,
reconhecendo a originalidade do fantástico de Poe na literatura de viagens de
Homero a Defoe, passando pelas narrativas marítimas dos portugueses,
reconheceriam também em Verne a originalidade da convergência “viagem,
geografia, ciência, técnica e aventura”.
Os heróis de
Verne, como o capitão Nemo e Cyrus Smith, eram como que “homens novos”, homens
de uma nova Renascença, justos, bons, sábios. E, de um modo geral, os romances
de Verne acabavam bem. Quando comparamos o fantástico de Júlio Verne, com as
suas máquinas e invenções que procuram sempre respeitar os dados científicos e
técnicos do tempo, e a vindoura literatura de futuríveis do século XX – as
distopias clássicas de Huxley, Orwell ou Bradbury, com os horrores das
sociedades perfeitas de Brave New World, ou a tirania institucional
de 1984 ou de Fahrenheit 451 – a diferença e
a ruptura são chocantes. E não terá sido só por o século XX ter visto as
primeiras utopias postas em prática, porque nos finais do século XIX, a partir
de 1895, já H. G. Wells tinha escrito A Máquina do Tempo,
(1895), O Homem Invisível (1897), A Guerra dos Mundos e Os
Primeiros Homens na Lua (1901).
Verne
escrevera Da Terra à Lua em 1865 e era, até por geração, o
pioneiro: a crítica não resistiria à comparação. E mesmo em França, onde os
livros de Wells foram traduzidos a partir de 1898, revistas como o Mercure
de France, a Revue de Paris e a Revue des deux
mondes preferiam o inglês a Verne.
A morte de
Verne, em 1905, trouxe um clamor de elogios e até um certo espírito de
reparação dos que tinham desdenhado o compatriota, preferindo o inglês.
Reparação com algum exagero compensatório, como o do crítico Adré Lamie, que
comparou o autor de A Ilha Misteriosa a Cervantes e a Balzac.
Verne é mais
realista, mais científico, mais hábil a encontrar e encadear mil peripécias do
que Wells; Wells é mais filosófico, mais problemático, mais desligado do
técnico-científico. Verne é optimista em geral e moderamente optimista quanto à
natureza humana e, além disso, é um homem de fé no Criador e na Criação. Wells
não parece alinhar nesse optimismo.
Talvez por isso
Verne seja um autor para a juventude, para a iniciação num mundo de aventura,
como Robert Louis Stevenson, ou James Fenimore Cooper, ou Mark Twain, enquanto
Wells é um precursor do século XX. Um século que não trouxe as maravilhas
que Verne tinha previsto, em que os submarinos serviram para afundar cargueiros
civis e em que as grandes invenções foram acontecendo sobretudo a partir das
guerras e para servir a guerra.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III
* Carlos Coutinho
Carlos Coutinho
10 h ·
NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.
De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península.
Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência.
Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.
Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).
Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais.
Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados.
O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos.
Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG.
O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).
A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira.
Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses.
No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas.
Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.
Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.
Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza.
A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.
No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres.
Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente.
Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos.
Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).
No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.
A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica.
Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.
Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou.
No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz.
Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito.
Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS.
Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”.
Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas.
Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945
2024 12 19
https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
Carlos Coutinho - Literatura(s)
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
1832 – Publicação de «Da Guerra», de Clausewitz
quarta-feira, 12 de junho de 2024
Sobre as comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões
10 Junho 2024
1. Assinala-se em 2024 o V Centenário do nascimento de Luís de Camões, cuja obra, inseparável de um mundo em transformação, é símbolo de humanismo progressista.
2. A figura e obra de Camões foram manipuladas pelo fascismo, que, procurando cobertura ideológica para esse regime iníquo, as utilizou para propagandear o nacionalismo fascista e a sua concepção colonialista.
Camões, «Os Lusíadas», 10 de Junho (a que, sintomática e abusivamente, chamavam «dia da raça»), foram criminosamente usados para promover o obscurantismo, a manipulação das consciências e a censura, que impunham ao povo português pelos mais diversos meios de controlo ideológico, repressão e terror.
3. Um entendimento bem diferente é devido, porém, a Camões e à sua obra. Camões tem uma significativa importância na nossa história cultural. A classe operária, os trabalhadores, o povo português e os seus artistas, têm o direito e o dever de promoverem e enriquecerem criadoramente o acesso à sua obra, ao sentido mais avançado que o seu conteúdo incorpora e à ampla avaliação do tempo e do mundo em que Camões viveu.
Como escreveu Óscar Lopes: «Só se pode ver Camões e todas as suas condignas dimensões humanas se colocarmos a sua obra na perspectiva de vários séculos de luta, quer do povo português, quer de muitos outros povos, contra a exploração feudal, capitalista e capitalista-imperialista, luta pela autodeterminação real, inclusivamente económica e cultural, do povo português e de todos os povos que com ele podem hoje livremente dar-se as mãos, num combate que continua, e agora inequivocamente em comum».
4. Camões a sua obra são, hoje, património comum da humanidade. Traduzido em várias línguas, representado, estudado e apropriado em diferentes partes do mundo, o poeta continua a ser, actualmente, um nome maior da história da literatura.
Artista de grande dimensão, não protegido pelo poder, marginalizado pelos poderosos e privilegiados do seu tempo, Camões é um poeta do povo e da pátria portuguesa – pelo modo como reflectiu um acontecimento histórico, os descobrimentos geográficos, e como desenvolveu e apurou as capacidades da língua portuguesa, tendo sido um criador de palavras e arranjos sintácticos.
Camões é um poeta do Renascimento, de uma época de exaltação das realizações humanas face ao divino e ao obscurantismo, de um mundo em transição, no qual se vai formando um novo pensamento filosófico e científico, ligado à observação da natureza e à experiência, que as forças reaccionárias dessa altura, nomeadamente através da Inquisição, procuraram reprimir e conter.
Ligado ao pensamento progressista português do seu tempo, Camões traduz na sua obra um pensamento de tipo dialéctico – de que é exemplo o soneto «Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades» – a crítica da injustiça – «Vê que aqueles que devem à pobreza/Amor divino, e ao povo, caridade,/ Amam somente mandos e riqueza,/ Simulando justiça e integridade./ De feia tirania e de aspereza/Fazem direito e vã severidade;/ Leis em favor do Rei se estabelecem;/As em favor do povo só perecem.» (Lusíadas, Canto IX, estrofe 28) - a par da evidência do período de descoberta e do saber de experiência feito.
Os descobrimentos geográficos são do maior alcance histórico no desenvolvimento do espírito crítico, da experimentação e da procura do novo no conhecimento, nomeadamente no campo da Geografia, Astronomia, das Ciências Naturais, da Cartografia, das técnicas de navegação, ligando ciência e técnica. Um processo que foi, contudo, posteriormente aproveitado pelas classes dominantes para impôr a brutal exploração, durante séculos, de outros povos, a escravatura e o tráfico, com as guerras de submissão e de conquista, ao mesmo tempo que submetiam também o povo português ao seu domínio e exploração - «Mas já nas naus os bons trabalhadores/Volvem o cabrestante, e, repartidos/Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,/ Outros quebram co peito duro a barra» (Lusíadas, Canto IX, estrofe 10)
5. A intervenção do Partido Comunista Português nas comemorações do V Centenário de Camões é um contributo insubstituível para a participação activa do nosso povo nessas comemorações e para um maior conhecimento, difusão, apropriação e fruição da obra do grande poeta.
De facto, o direito à cultura ocupa um lugar central nos objectivos do PCP que o considera uma das quatro vertentes fundamentais de uma democracia avançada inspirada nos valores de Abril. Uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural com uma política cultural orientada para a salvaguarda, o estudo e a divulgação do património cultural nacional, regional e local, erudito e popular, tradicional ou actual; que assuma a educação, a ciência e a cultura como vectores estratégicos para o desenvolvimento integrado do nosso País. Uma democracia que promova o intercâmbio com outros povos da Europa e do mundo, a abertura aos grandes valores da cultura da humanidade e a sua apropriação criadora; que estimule o combate à mercantilização e à colonização cultural; que fomente a promoção internacional da cultura e da língua portuguesas, em estreita cooperação com os outros países que a usam.
6. Assim, com o objectivo de comemorar o V Centenário de Luís de Camões, o PCP promoverá um diversificado conjunto de iniciativas, a realizar ao longo dos anos de 2024 e 2025, que terão início numa sessão político-cultural, a realizar em Lisboa, no final de Agosto, e na Festa do Avante! de 2024.
7. O Partido Comunista Português apela ao envolvimento alargado de pessoas, estruturas e instituições, a que valorizem Camões e a sua obra – inseridos no seu tempo, no processo histórico de luta contra a opressão e a exploração, pelo progresso social – projectando-os na actualidade e afirmando o património cultural português, a língua portuguesa, a cultura e a arte, também nesse quadro; a que dêem o seu contributo insubstituível para levar a obra de Luís de Camões até ao povo.
Tal como sublinhava Álvaro Cunhal na Festa do Avante! de 1979, referindo-se às comemorações pelo PCP do IV Centenário da morte de Luís de Camões, «Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, dos Lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista», importa, na actualidade, enfrentar e rejeitar todas as tentativas de associar Camões, ou aproveitar o V Centenário do seu nascimento, para promover ideias e concepções retrógradas e reaccionárias como o chauvinismo, o racismo, a xenofobia, o colonialismo e o neocolonialismo.
O PCP apela a que, inserida num processo aberto, activo e de interacção com a cultura mundial, se defendam e afirmem os valores da soberania e da independência nacionais, da cooperação entre os povos, elementos indissociáveis da luta emancipadora dos trabalhadores e do povo contra a exploração capitalista, por uma sociedade nova, sem exploradores nem explorados, que é parte integrante da luta em defesa dos valores de Abril e pela sua projecção no futuro de Portugal.
https://www.pcp.pt/sobre-comemoracoes-do-v-centenario-do-nascimento-de-luis-de-camoes
terça-feira, 26 de março de 2024
Carlos Coutinho - Metamorfoses
Há não sei
quantos milhões de anos, a mais que milionésima bactéria tremeu nas águas
primordiais e começou a perder os seus primeiros borbotos e estes, imitando a
mãe, bacterizaram-se também e, logo que adultos, desataram a povoar os mares
igualmente emergentes, iniciando verdadeiras dinastias de bactérias diferentes
e ávidas de novas diferenciações.
É o que deduzo
das muitas leituras que tenho feito sobre o assunto.
Muitas
bactérias do frio e do quente optaram por abandonar as diversas águas
planetárias, continuaram a metamorfosear-se, de espécie em espécie, e atingiram
a humana, aquela que ainda não sabemos o que será, nos próximos séculos ou
milénios, se ainda viver.
Mas sabemos que
a sua primeira compulsão foi alimentar-se para sobreviver, disputando os
alimentos com as vizinhas e, assim, aprendendo a lutar. Criou, portanto, os
primeiros modos de matar e nunca mais parou de os aperfeiçoar, aperfeiçoando
também a coragem, a ira, o ódio, condições instrumentais de sobrevivência.
– A
inteligência animal começou assim, por total inexistência de ética e, muito
menos ainda de filosofia, para desgosto de Santo Agostinho que descobriu,
milhões de anos mais tarde, na cidade argelina de Hipona, o mal e a sua sede
original na mulher.
– Mas foram
precisos também milhões de anos para os moluscos marinhos galgassem as areias
das praias, adquirissem esqueleto e exoesqueleto, escamas, penas, couro e pelo,
vulva e pirilau, luxúria e autorreprodução sem gâmetas, fossem eles óvulos ou
espermatozoides, e muito menos fecundação in vitro, até que o primeiro primata
optou por se amacacar ou se antropolizar.
– E ainda não
foram poucos os milhões e anos necessários para a fundação do Antropoceno, com
o homo neandertalensis e o homo sapiens a alterar irremediavelmente a ordem e
as formas das coisas, até os primeiros analfabetos conscientes inventarem os
hieróglifos e as primeiras gravuras rupestres com as mãos borrifadas por bocas
cheias de líquidos cromáticos nas rochas mais adequadas das cavernas.
– Daí ao
sumério Gilgamesh e, seguidamente, à arca de Noé, ainda tiveram de transcorrer
mais alguns milhares de anos, porque faltava formular a teoria da impulsão, a
carpintaria naval, a arte da navegação e, assim, foi imposta a entrada com
senha para a barca, visto a bicharada ser tanta que teve de se organizar filas,
entrando cada novo passageiro só quando algum outro, lá dentro, já tinha sido
devorado por alguns dos seus famintos semelhantes em luta compreensível de
sobrevivência das espécies, das raças e dos costumes.
– A revista
“Nature” publica agora um estudo sobre a perda da cauda nos símios, ocorrida há
25 milhões de anos. A hipótese inicial do estudo é a de que os nossos
ancestrais perderam os rabitos abanadores quando mutações alteraram um ou mais
dos seus genes.
Os cientistas
compararam o ADN de seis espécies de símios com o de nove espécies de macacos
caudados, descobrindo que a mutação compartilhada por símios e humanos – mas
ausentes nos macacos com cauda – no gene TBXT. Esta mutação terá afetado TBXT
aleatoriamente um único símio, fazendo com que este desenvolvesse um coto em
vez de uma cauda e passasse o “defeito” para os seus descendentes. Com o tempo,
a mutação TBXT tornou-se norma nos símios e nos humanos atuais, incluindo os
que já funcionam com ginástica digital da conectividade radical e com a
inteligência artificial.
– Quando as
primeiras mitologias apareceram e os filósofos as normalizaram, para Jeová
aparecesse a legislar e Homero a encher caldeirões de amores, ciúmes, viagens à
ilha das tragédias, egípcios a fazer perguntas à esfinge de pedra, Aristóteles
a pôr carne nas sombras de Platão e Spartacus a dizer “já basta!”, enquanto
Afrodite fazia de Helena, a mais bonita de todas as mulheres e esposa do rei
grego Menelau, se apaixonar-se pelo troiano Páris, que então a levou para a sua
cidade. Agamenon, rei de Micenas e irmão de Menelau, reuniu os aqueus (gregos),
liderou uma expedição contra Troia e cercou essa cidade frugal da Lacónia ou
Leçademónia, na Península do Peloponeso, durante dez anos, como uma represália
pelo insulto de Páris.
Após a morte de
muitos heróis, incluindo os gregos Aquiles e Ájax, bem como Heitor, Páris
recuperou a sua imprescindíveel Helena com a ajuda de um cavalo de pau.
– Claro que
infinito, acumulação, conectividade radical, biocósmico, morte e força de viver
são os temas da japonesa Yayoi Kusama, de 65 anos, acabados de fazer, que,
depois e tantas décadas a viver voluntariamente numa instituição de saúde
mental, personifica hoje um dos mais estrondosos fenómenos de popularidade na
arte contemporânea, mas isso não implica que os dadores de gâmetas tenham de
ficar eternamente anónimos, como a lei portuguesa, felizmente, já aceita.
Nem que só haja
um os dois cardiologistas nos hospitais do Interior, sabendo-se que há mais de
500 nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde!
– E certo é
também não devia ser permitido abater árvores em todos os cantos do mundo para
fazer papel desnecessário ou simplesmente prescindível, mesmo que para
substituir os sacos de plástico nos supermercados.
E menos ainda
seria de permitir que se continuasse a plastificar tudo, ao ponto de já se ter
encontrado no estômago de um mastodóntico cachalote lulófilo, morto na praia,
um emaranhado rolo de 43 quilos de redes de nylon, escovas de dentes, copos de
plástico, sapatilhas, etc.
Pior só a
existência de triliões de triliões de partículas de plástico na corrente
sanguínea dos peixes que comemos e, agora, até já na dos frangos e de outros
bichos de aviário e de viveiros para aquacultura.
E mesmo no ar
que respiramos, como nos disseram na recente 11.ª Cimeira Mundial dos Oceanos!
– E por que
carga de água, quando a PSP registou entre 2020 e 2323 algo como 15 mil furtos
por carteiristas, caçada que lhes rendeu 7,1 milhões de euros, vêm agora certos
interessados reclamar a implementação da muito perigosa, energia nuclear em
Portugal, sabendo-se que, ainda por cima, sai “demasiado cara, mesmo sem se
contabilizar os custos escondidos – os de armazenar os resíduos, os dos seguros
contra acidentes e seus efeitos, os do desmantelamento das centrais em fim de
vida, etc.”
É que é mesmo
“muito mais cara – 10 a 20 vezes mais cara (segundo o catedrático e
investigador Manuel Collares-Pereira) por unidade de potência instalada que as
renováveis – solar, eólica, hídrica e outras que estão em desenvolvimento” – e
que já provaram poderem continuar de vento em popa.
“O combustível
nuclear convencional (U235)”, diz ele, “é escasso; psra ser considerado
abundante (U238, Th232), implicaria uma mudança de tecnologia (mais risco, mais
tempo…); neste contexto fala-se hoje da tecnologia dos pequenos reatores,
pré-fabricados, algo que não existe ainda … e que muito provavelmente, serão
ainda mais caros. (…) Para uma central de 1600MW, estamos a falar de um
investimento de mais de 1000 milhões de euros, se registarmos o exemplo
finlandês de Olikuoto, acabada de construir), e podemos mesmo contar com mais
de 19 000 milhões, se tomarmos como referência o idêntico EPR francês de
Flamanville (em construção).”
Mas, por cá, os
lóbis movem-se. Vá-se lá saber porquê.
– E não me
esqueço de que dos anuros, com penugens ou com pelagens, com escamas ou com
viscos, com espinhos ou com pelado coiro impermeável, com guelras ou com
pulmões, com bico com boca, houve que vencer mais alguns milhões de anos, até
se poder atingir o cataclismo que cósmico e ardente que nos dinossaurizou os
territórios livres, criando uma ordem nova – ordine nuovo, como a do Mussolini
– que até o Pio XI e o nosso Cerejeira cardeal, ombro com ombro com o nosso
sempre solteiro Salazar, tanto apreciaram.”
Daí até
aparecer a besta do “Apocalipse” ainda tivemos de aturar os aedos que deram
histórias e mitos Homero e a Virgílio, os delirantes que souberam desnudar as
estrelas e ainda sobrevivem como espíritas e horoscopizáveis em modo Pessoa, os
Abraões decalógicos, os Plutarcos e os Arquimedes, os Avicenas e os Averróis, o
milagre de Ourique e a mirabolante conversa do Condestável com Cristo antes da
batalha de Aljubarrota, como antes acontecera com D. Afonso Henriques, o Nuno
Gonçalves dos painéis de S. Vicente, o zarolho Luís Vaz da Ilha dos Amores, o
salaciano ou alcacerense Pedro Nunes da Matemática, os arquitetos da Baixa
Pombalina, os versos de António Nobre e dos de Cesário Verde, as composições de
Lopes Graça e até o descaramento com que misturo tudo isto.
– Talvez faça
falta a esta lista de figurões o nome do jesuíta Luís Frois que viveu 34 anos
no Japão e assistiu à batalha A “História” de Luís Fróis é também uma narração
dos acontecimentos histórico-políticos de uma das fases históricas mais
cruciais do país.
A sua “História
do Japão” abrange o declínio da dinastia dos Ashikaga que começou a sua
regência em 1338 e acabou em 1573.
Abrange a
ascensão e o fim do comandante Oda Nobunaga (1534 - 1582) que iniciou o
processo da unificação do Japão de um modo decisivo.
Abrange os anos
mais importantes do sucessor de Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi (1536 - 1598), que
continuou a obra de Nobunaga e completou a unificação do país, mas que também
iniciou a perseguição dos cristãos em 1587. Sob o seu reinado foram mortos
também os primeiros 26 mártires católicos, em 1597.
O historiador
de circunstância Luís Frois nasceu em Lisboa e, em 1563, viajou para o Japão,
encarregado de pregar o Evangelho, isto uns 20 anos depois de os primeiros
mercadores portugueses, a bordo da “Nau do Trato”, terem desembarcado no Sul
nipónico. Foi seguidamente para Quioto, onde se reuniu com Ashikaga Yoshiteru,
que então era xogun. Em 1569 tornou-se amigo de Oda Nobunaga e permaneceu na
sua residência em Gifu (cidade), enquanto se dedicou à escrita por um curto
período.
Descreveu,
então, pormenorizadamente as suas impressões sobre as tradições e cultura
japonesas do século XVI através de cartas enviadas para Macau, Roma (ao Papa) e
aos reis de Portugal.
É considerado o
primeiro cronista europeu daquelas paragens. Entre as suas obras encontra-se
uma “História do Japão”, um clássico que recolocou o país do sol nascente na
história do mundo moderno e que Akira Kurosawa seguiu milimetricamente para
filmar o também clássico “Kagemusha” (“A Sombra de um Samurai”) e que o também
clássico Claude Lévi-Straus catalogou como “o primeiro antropólogo”
– Que bom ter
nascido no país dos milagres, onde em contramão, também, nasceram pastorinhos
videntes e sádicos da tauromaquia!
https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/
quarta-feira, 31 de janeiro de 2024
Carlos Coutinho - Pois é…
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
Miguel Tamen - Plano Nocional de Leitura
Plano Nocional de Leitura (XV)
O que faz do livro de Oliveira Martins um livro de história não é parecer-se mais ou menos com um romance. É, como em toda a grande história, dar voz ao que pessoas achavam que se podia estar a passar
Plano Nocional de Leitura (XIV)
Bernardim Ribeiro é o autor de um poema maravilhoso onde imagina que em alturas especiais, quando alguns diriam ‘eu sou,’ é preferível dizer ‘eu estou’, apesar de a gramática recomendar o contrário.
Plano Nocional de Leitura (XIII)
Ao contrário dos anões, que acabam sempre por fazer as pazes com quem lhes mexe nas coisas, Camilo Pessanha parece ter razões para continuar a temer essa mãe morta, que insiste em aparecer-lhe em casa
Plano Nocional de Leitura (XII)
D. João era um animal complexo: ora vezes explica o que o move, ora esfaqueia quem lhe desagrada. O mérito de Fernão Lopes é ter sido o primeiro autor português que se interessou por animais complexos
Plano Nocional de Leitura (XI)
Pode não ser despropositado fingir sentimentos que não temos; mas que razão teríamos para fingir sentimentos que já temos? É como fingir que temos uma piscina na nossa casa com piscina.
Plano Nocional de Leitura (X)
Não é de excluir que o Padre António Vieira achasse que durante a hora anterior não tinha estado realmente a falar: e que por isso não tinha estado a mandar mensagens, a convencer pessoas.
Plano Nocional de Leitura (IX)
A razão por que não é possível sair de Lisboa, percebe-se no fim, é porque Lisboa é um cemitério. Poucos reparam nisso: depois de tantas coisas pitorescas e de um poema tão comprido, a atenção dormita
Plano Nocional de Leitura (VIII)
O susto desta ermida, porém, e a aflição da pessoa que lá está, são peculiares; não são preparados nem explicados; e muito menos o poeta nos comunica que já previra que tudo aquilo deveria acontecer.
Plano Nocional de Leitura (VII)
Contar a história não mostra que se prestou atenção ao romance, ao filme, à peça ou ao poema: só mostra que se tentou contar uma história; e uma certa impaciência com tudo o que não seja a história.
Plano Nocional de Leitura (VI)
Os poemas são no fundo colecções de coisas parecidas, que provêm dos armazéns de parecenças onde as vamos buscar; e nesses armazéns há artigos de toda a espécie: rimas e frases, barulhos e explicações
Plano Nocional de Leitura (V)
As frases de Camões foram escritas há muito tempo; e é normal que aqueles que acham que as devem tentar perceber não as percebam muito bem. São versos difíceis. O único remédio é prestar-lhes atenção.
Plano Nocional de Leitura (IV)
A literatura, acredita-se nos gabinetes, é como um guia turístico, um requerimento administrativo, ou um manual de história: um meio para tratar de outros assuntos embora com frases longas ou difíceis
Plano Nocional de Leitura (III)
Um contemporâneo de William Wordsworth declarou que os poetas são os “legisladores oficiosos deste mundo.” Não temos a certeza de que assim seja, ou que sempre seja assim.
Plano Nocional de Leitura II
A inveja é uma emoção reprovável que não imaginamos poder sentir; e que imaginamos prontamente nos terceiros que haja por perto. O nosso consenso sobre a inveja é realmente sobre os outros.
Plano Nocional de Leitura I
Seria insólito que nas seis horas imediatas à leitura de um bom romance todos tivéssemos desenvolvido um impulso irresistível para praticar o bem.





