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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pablo Neruda - Endureçamos a bondade, amigos.

? Pablo Neruda

Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra. 

Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração recto, e aos não flexíveis e submissos. 

Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez. 

Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida. 

E, assim, só se chamarão bons os de coração recto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra. 

Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer" 

MAIS TEXTOS DE NERUDA EM   http://www.citador.pt/textos/a/pablo-neruda

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Luís Rosa - O claustro do silêncio

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O Claustro do Silêncio

Sinopse: O Claustro do Silêncio, a estreia na ficção de Luis Rosa, foi uma obra galardoada por unanimidade com o Prémio Vergílio Ferreira e constituiu uma verdadeira revelação. Luis Rosa surge como um mestre na arte de recriar o tempo histórico no seu universo próprio, que apela a todos os nossos sentidos e a que as mentalidades da época conferem realidade. Do fragor das batalhas aos ecos dos claustros do icónico Mosteiro de Alcobaça, encontramo-nos no conturbado contexto do final das Invasões Francesas e da extinção do Império Cisterciense. Uma belíssima obra literária. 






ficha bibliográfica

autorLuís Rosa
títuloO Claustro do Silêncio
editorEditorial Presença
ano de edição2002
nº de páginas219
época da acçãoSéculo XIX
sinopse
Romance que retrata o período de extinção das ordens religiosas em 1834, tendo como contexto o fim das Guerras Liberais e o consequente abandono do mosteiro de Alcobaça pelos monges cistercenses.
primeiro parágrafo
Eu não tenho idade, amigo. Neste infortúnio de 1834, sinto que vou acabar os dias de uma idade que o mundo conta, mas que, na realidade, se repete em círculo. Talvez mudem os cenários da comédia que a vida representa. Mas as cenas não são novas e as pedras deste Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça já assistiram, com a mesma passividade, a outras iguais. As personagens também são as mesmas. Reencarnam. Transmitem-se. Apenas usam aparência diversa e instrumentos conformes com as épocas. No mais, são iguais em vícios, grandeza, abjecção ou sublimidade. Que de tudo há em todos. Cada um apanha o rosto por que opta, para a construção do papel dos seus dias. O rosto, esse livro aberto! Nascemos apenas com risos e choros, depois vamos vincando o rosto com as marcas da alma e dos actos. Isso. Como as marcas de canteiro espalhadas pelos blocos de pedra das colunas e paredes do meu Mosteiro. Onde ficaram os canteiros? As marcas, sim, estão lá. São a sua perenidade. Riscos fantasiosos, como códigos da alma criativa ou imaginosa. O rosto é isso. A porta dos códigos de tudo aquilo que foi o percurso da alma.
informações complementares
Esta obra venceu o Prémio Vergílio Ferreira 2001 da Câmara Municipal de Gouveia.
http://pedroalmeidavieira.com/?p/785/1089/3140/L/3140/1796/



“O Claustro do Silêncio”, do escritor Luís Rosa, é um dos bons livros que li nos últimos anos. Trata-se de um romance histórico sobre o Mosteiro de Alcobaça. Já o li duas vezes. Partilho uma breve citação das muitas que eu retive. Admirável a definição de fidelidade que o autor transmite:
“Um velho frade, tão velho que os anos já não davam para contar, veio sentar-se a meu lado… fora abade, historiador e professor. Agora era louco e sábio, duas coisas que, quando são reais, são a mesma coisa. Chamava-se frei Leão de Alvorninha. Era o frade mais velho do Mosteiro e atingira a idade de tudo dizer e fazer, até que a morte o aquietasse e calasse.
(…) Estaria (frei Leão de Alvorninha) sempre no sítio preciso a adivinhar-me os passos (…) É assim a fidelidade. Uma atitude para além dos actos. Sente-se no mundo que fica por detrás das palavras”. (Luís Rosa in O claustro do Silêncio)
JLP Regedor


O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça foi fundado por D.Afonso Henriques em 1178 nas margens do Rio Alcoba e Baça. «Diz-se que o sítio foi assinalado pela lança do Rei, atirada ao alto dos candeeiros e que veio a cair no poço do Suão, na nascente do rio Alcoa. Os Cistercienses mudaram a lança e fizeram o seu mosteiro neste lugar, na confluência dos rios, onde se abrem as terras gordas da planície, e aqui fizeram maravilhas hidraúlicas e a fartura das granjas.» É assim que Luís Rosa, escritor natural de Alcobaça, descreve a fundação da vila em “O Claustro do Silêncio”, um romance histórico situado na vila durante as invasões francesas.






AUTOR:

Luis Rosa

Nacionalidade: Portugal
Biografia: Luis Rosa é natural de Alcobaça, e licenciou-se em Filosofia, dispondo de várias formações multifacetadas, particularmente na área de gestão, exercendo elevadas funções numa grande empresa portuguesa. Desenvolveu também uma intensa actividade como docente. É membro da Academia Portuguesa de História. O seu primeiro romance, O Claustro do Silêncio, foi desde logo a sua consagração, ao ser distinguido com o Prémio Vergílio Ferreira. Seguiu-se-lhe O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo, que a crítica não deixou passar sem elogiosas referências e o público esgotou. O Amor Infinito de Pedro e Inês, romance de grande densidade sobre um tema esplendoroso da nossa história, tem sido objecto de sucessivas edições; emBocage — A Vida Apaixonada de Um Genial Libertino, projecta-se o poeta na totalidade das suas dimensões, estas duas obras receberam o mesmo entusiástico acolhimento por parte do público e da crítica, tal como aconteceria também com O Dia de Aljubarrota.

sábado, 21 de abril de 2012

Um texto de Joaquim Pessoa


Espero que tenham tido um bom sábado e tal como diz o poeta " Contem comigo sempre".Boa noite a todos.



Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.

Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'
 — com Augusto Santos e 49 outras pessoas.

Eça de Queirós - A cidade e as serras (excerto)


O Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem fibra, sem viço, torto, corcunda - esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os dum cárcere ou dum quartel... A sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ela recompensa os Santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro!
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Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar - e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca! Contempla esse velho Deus do Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos lôbregos de Sodoma ou de Lesbos!...
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Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas: - ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um mostrengo numa feira. Todos, intelectualmente, são carneiros trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas pisadas; - e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o Céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames - o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!

Eça de Queirós, in 'A Cidade e as Serras'

domingo, 15 de abril de 2012

Eça de Queirós - O Povo


Aprender, Aprender Sempre ! (Lenine)


O POVO


“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

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Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.
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Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.
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Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.
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Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.
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Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM.
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E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem? Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO.
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E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”
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Eça de Queirós (1845-1900)
Quadro - Van Gogh - Os comedores de batatas

4 comentários:

Anónimo disse...
Um blog bem articulado e bem interessante!
gostei muito!
voltarei!

elisabetecunha.wordpress.com
"o moço da bodega" disse...
Olá, Vitor. Venho aqui através do guerreiro Ludovicus Rex.
Gostei assim que vi. Aliás, ele me recomendou exatamente porque já conhece meu perfil.

Abraços e seja bem-vindo.
De Amor e de Terra disse...
Olá Victor, bom dia!
Cheguei até aqui através do Ludovicus Rex e estou encantada!
Obrigda pelo que me (nos) mostra...
E ainda bem que veio!!!

Abraço

Maria Mamede
Josep Maria disse...
Enhorabuena por el blog. Empiezas con buen pie.