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quarta-feira, 3 de março de 2021

Mário Dionísio - Com a data de hoje

* Mário Dionísio

 

Nas esquinas destas horas transitórias

de vidraças partidas e relógios parados

a surpresa segreda uma ária inocente

com um fato de ganga e as mãos maltratadas

 

Surda sombra de grades sobre o rosto

vem insuspeita intrometer-se ali

onde a esperança entre gritos que não soam

ígnea vem pela noite às marteladas

 

Árdua profunda invocação de paz

fremindo à flor das águas temerosas

lá no mais fundo onde não chegam as palavras

árdua desvenda aos homens o caminho

para onde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO "POESIA COMPLETA",

Mário Dionísio - Balada dos Amigos Separados

* Mário Dionísio

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco 
E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangularmos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

Mário Dionísio, in 'As Solicitações e Emboscadas'

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mário Dionísio - Balada dos Amigos Separados

* Mário Dionísio


Onde estais vós Alberto Henrique 
João Maria Pedro Ana? 
Onde anda agora a vossa voz? 
Que ruas escutam vossos passos? 
Ao norte? ao sul? aonde? aonde? 
José António Branca Rui 
E tu Joana de olhos claros 
E tu Francisco E tu Carlota 
E tu Joaquim? 
Que estradas colhem vosso olhar? 
Onde anda agora a vossa vida repartida? 
A oeste? A leste? Aonde? aonde? 
Olho prà frente prà cidade 
e pràs outras cidades por trás dela 
onde se agitam outras gentes 
que nunca ouviram vosso nome 
e vejo em tudo a vossa cara 
e oiço em tudo o som amigo 
a voz de um a voz de outro 
e aquele fio de sol que se agitava 
sempre 
em todos nós 
Dançam as casas nesta noite 
ébrias de sombra nesta noite 
que se prolonga em plena angústia 
aos solavancos do destino 
e não consegue estrangularmos 
Sigo e pergunto ao vento à rua 
e a esta ânsia inviolável 
que embebe o ar de calafrios 
Onde estais vós? onde estais vós? 
E por detrás de cada esquina 
e por detrás de cada vulto 
o vento traz-me a vossa voz 
a rua traz-me a vossa voz 
a voz de um a voz de outro 
toada amiga que me banha 
tão confiante tão serena 
Aqui aqui em toda a parte 
Aqui aqui E tu? aonde? 

Mário Dionísio, in 'As Solicitações e Emboscadas' 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Mário Dionísio - Estamos Agora em Paz

* Mário Dionísio


Estamos agora em paz 
sabendo simular o esquecimento 

sentados 

com os olhos no vento 
lá de fora atirado para antes 
de nós as mãos caídas 
nos joelhos mas nada suplicantes 
só esvaídas 

conformados 
com não nos conformarmos 

resignados 
a esperando não esperarmos 

como se tudo fosse um imenso tanto faz 

Mário Dionísio, in 'Terceira Idade' 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

 

03/12/10

Hoje no «JN»



A Alice recorda Carlos Oliveira
Carlos de Oliveira em quadro de Mário Dionísio
Crónica de Alice Vieira, hoje no JN: - «Recordando Carlos de Oliveira - .
«Quando chega Dezembro, começamos a notar que à mesa familiar falta cada vez mais gente. "Mesa familiar" é, no fundo, a metáfora que usamos para nesta altura abraçarmos um pouco mais os amigos e ficarmos felizes só pelo facto de eles estarem ao nosso lado. Mas ao nosso lado vai havendo cada vez mais lugares vagos. A minha mesa familiar ainda não se habituou às ausências do João Aguiar, da Rosa Lobato de Faria, da Matilde Rosa Araújo, do Raul Solnado, da Mariana Rey Monteiro, todos eles ainda tão dentro de mim.
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Mas, de repente, chega-me uma terrível e inesperada saudade de alguém que há muitos anos desapareceu da minha mesa.
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Tudo por causa de um programa que a RTP2 passou, dedicado aos "Grande livros".
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Naquela noite, o livro era "Uma abelha na chuva", do Carlos de Oliveira.
É um grande romance da nossa literatura e foi bom recordarmos as imagens do filme do Fernando Lopes, e ouvir falar dele (a Laura Soveral e a sua voz incomparável...)
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Mas o que sobretudo me marcou foi o rosto do Carlos de Oliveira - aquele olhar que entrava dentro de nós e nos dizia tudo o que era preciso, aquele sorriso que me recebia sempre, quando eu chegava à sua mesa do "Monte Carlo".
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Ele e o Zé Gomes Ferreira - sempre. Depois, às vezes por lá caíam o Abelaira, o Mário Dionísio, tantos outros.
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Mas o Carlos e o Zé Gomes eram a minha âncora. E foram a minha verdadeira universidade. Eu, 20 e poucos anos, deslumbrada no convívio diário com gente que nunca pensara vir a conhecer.
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E, de repente, quando a revolução de Abril dava os seus primeiros passos, o Carlos de Oliveira morre. De um dia para o outro.
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Nunca perdoei ao destino, e acho que aquela geração mais nova que privou com ele nunca mais se recompôs.
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Fosse o que fosse que fizéssemos ou escrevêssemos, pensávamos sempre: "O que é que o Carlos dirá disto".
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Ele era o rigor, a coerência, a lucidez em estado puro.
Ele era a nossa consciência moral.
Nunca mais tivemos outra.»
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sábado, 18 de abril de 2009

(SEM TÍTULO) - Mário Dionísio

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Eu canto porque a voz nasce e tem de libertar-se.
E grito porque respondo
às lanças que me espetam
e aos braços que me chamam,
E porque, dia e noite, minhas mãos e meus olhos,

por estranhas telegrafias,
dos cantos mais ignotos
e das linhas perdidas
e dos campos esquecidos
e dos lagos remotos,
e dos montes,
recebem longas mensagens e comunicações:
para que grite e cante.

O meu grito e meu canto é a voz de milhões.

Por isso que me importa?
Eu canto e cantarei o que tiver a cantar
e grito e gritarei o que tiver a gritar
e falo e falarei o que tiver a falar.

Direis que não é poesia.
E a mim que importa
se eu estou aqui apenas para escancarar a porta
e derrubar os muros?
E a mim que importa
se vós sois afinal o que hei-de ultrapassar
e esmigalhar
em nome
de todos os futuros?

Eu sigo e seguirei.
como um doido ou um anjo,
obstinado e heróico a caminho de nós
em palavras e acções
por todos os vendavais
e temporais
e multidões
nos cantos mais ignotos
e nas linhas perdidas
e nos campos esquecidos
e nos lagos remotos
e nos montes
- por terra, mar e ar.


Direis que não é poesia
E a mim que importa!
Convosco ou não, meu galope é em frente.
Pertenço a outra raça, a outro mundo, a outra gente.

É andar, é andar!

MÁRIO DIONÍSIO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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