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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Guilherme d’Oliveira Martins - “A Menina do Mar”

OPINIÃO
 
* Guilherme d’Oliveira Martins

A primeira visita de Sophia de Mello Breyner a Teixeira de Pascoaes possui um sentido mítico. Ocorreu 12 anos antes da morte do Cenobita do Marão. Partindo de Amarante a cavalo, rumou a São João de Gatão, até à casa misteriosa e plena, que muitos de nós conhecemos. Contudo, Sophia perdeu-se entre nevoeiros nos “campos, caminhos e atalhos”, até que finalmente lhe apareceu a casa, de modo surpreendente, “grande, antiga, maravilhosa e branca”. E o espanto deveu-se ao facto de ter lá chegado pelo “lado de trás da casa”. A destemida jovem de então, esperava, como qualquer viajante comum, chegar à entrada brasonada do solar tão celebrado dos Teixeira de Vasconcelos, mas assim não aconteceu. O próprio Pascoaes ao recebê-la surpreendeu-se: “Por este caminho nunca chegou ninguém.” A literatura e o sonho misturam-se, naturalmente. Paisagem e poema tornam-se uma mesma realidade - como tantas vezes afirmou Gonçalo Ribeiro Telles, o paisagista por excelência. “Tudo naquele lugar era igual à poesia de Pascoaes.” E Sophia viu naquele surpreendente desvio um caminho que correspondia exatamente à leitura de um poema. Como diz Carlos Mendes de Sousa: “Os textos sobre os poetas e a poesia estão muito próximos dos contos que escreveu, concretamente pelo efeito de surpresa e pela força das imagens, como a espantosa chegada a cavalo à casa de Pascoaes.” Isto, para não esquecer a evocação da descoberta do amigo Ruy Cinatti, a dizer versos sobre a beira de um tanque…

Sophia é um exemplo de amor à língua e à cultura, como essências de uma autêntica educação para as pessoas. Como candidata a deputada, nas campanhas eleitorais, em vez de discursos sobre a democracia e a liberdade, preferia ler poemas - “porque, para mim, a poesia é a liberdade”. E assim compreendia as pessoas simples do campo e os mais exigentes. “Havia sempre um silêncio especial, mais profundo e mais atento para ouvir poesia.” Por isso, afirmou na revista Colóquio que “a poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira”.

Um dia, convidei Sophia para inaugurar a escola que tem o seu nome, em Carnaxide. Respondeu-me, com a amabilidade habitual e a fidalguia que sempre lhe conhecemos, que só aceitaria na condição de alunos e professores da escola prepararem uma representação de cor do conto A Menina do Mar. Não calculam a alegria que senti da parte dos membros da comunidade escolar ao conhecerem a disponibilidade da poeta e, poucos dias depois, confirmaram que tudo estava combinado e acertado.

Mas, cética, Sophia confessou-me: “Dizem-me que se desaprendeu o método de decorar nas escolas, esquecendo-se, etimologicamente, o que é aprender com o coração.” Veio o dia aprazado, entusiasmo total, alunas e alunos, professoras e professores, famílias, grupos cantando mornas e coladeiras, tudo em festa. E a homenageada segredou-me: “Recebem-me como uma rainha…” A inauguração consistiu nesse entusiasmo. No ginásio, em vez de discursos, apenas a presença dos jovens - e de um modo perfeito, numa adaptação adequada, ouvimos, de cor, sem uma dúvida ou hesitação: “Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia, onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.” Os jovens intérpretes figuravam o enredo. Nadavam e riam, o polvo, o caranguejo, o peixe e a menina. Sophia estava surpreendida e feliz. E quando a protagonista disse “Agora a tua terra é o mar” e quando, no epílogo, o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, as palmas e os aplausos irromperam espontâneos e Sophia levantou-se com alegria juvenil: “Vejo que a língua e as escolas estão vivas.” Valera a pena o desafio. A Educação precisa sempre da liberdade e da exigência.

Dedico esta lembrança à memória de uma amiga e incansável mulher da Educação - Maria Helena Valente Rosa.

16 janeiro 2024 


Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 https://www.dn.pt/7662928991/a-menina-do-mar/ 

Guilherme d’Oliveira Martins - Herculano e Fontes


OPINIÃO
 
* Guilherme d’Oliveira Martins

Na Lisboa oitocentista houve o tempo dos cafés e o Marrare do Polimento ditava leis, na que hoje é a Rua Garrett. Ali Passos Manuel fazia escritório, José Estêvão, Castilho, Herculano, Garrett e Bulhão Pato encontravam-se para debater os assuntos do momento. Mas, como reconheceu Zacarias d’Aça, essa voga passou e nasceram os clubes, à maneira inglesa, e, entre eles, o Grémio Literário. Corria o ano de 1846 e os ânimos viviam exaltados, em guerra civil perante o Cartismo de Costa Cabral: a crise financeira, a Revolta da Maria da Fonte, o início da Patuleia, o início clandestino de O Espetro de Rodrigues Sampaio. Garrett dava à estampa As Viagens na Minha Terra, antes vindas a lume em folhetins na Revista Universal Lisbonense, dirigida por Castilho, e Alexandre Herculano publicava o primeiro volume da sua História de Portugal.

Helena Buescu e David Justino deram início agora ao ciclo sobre os fundadores do Grémio Literário, com a evocação de duas figuras primordiais na vida da vetusta instituição: Alexandre Herculano, o sócio N.º 1, fundador da moderna historiografia, marcante na literatura, na vida política e até na modernização da agricultura, com o seu premiadíssimo azeite; e António Maria Fontes Pereira de Melo, o governante, que tendo sido quatro vezes primeiro-ministro, fixou com o seu nome, na designação dada por Ramalho Ortigão, o período fundamental do liberalismo português - o Fontismo. E, se dúvidas houvesse, Rafael Bordalo Pinheiro intitularia de António Maria a mais célebre das suas publicações críticas.

Alexandre Herculano, um dos bravos do Mindelo, vindo de uma família de reconstrutores da cidade de Lisboa, depois do grande terramoto, foi figura única da primeira geração liberal, cultor do progresso e da autonomia individual, insistindo especialmente na dimensão moral. “O erro deplorável dos adeptos de certa escola é desprezarem a distinção entre o progresso que influi no melhoramento social e moral dos povos, e aquele que só melhora a condição física.” A luta contra a tirania, o exílio e contra a morte da liberdade era expressão da superioridade do homem convertido em cidadão.
 
Admirado pela geração dos jovens de 1870, o historiador foi a referência ética que se impôs. E lembremo-nos como nos seus ensaios e narrativas sobressaem o exemplo e a coerência da dignidade humana. Eurico, o Presbítero é o símbolo romântico, que se sacrifica estoicamente, enaltecendo a virtude dos seus adversários, em nome da honra, e em A Abóbada temos a sublime afirmação da vontade e do conhecimento que afinal prevalece num risco supremo. É esta coerência que encontramos em Herculano, que, não tendo apoiado a Revolução de Setembro de 1836, tornar-se-ia defensor em A Voz do Profeta, da Constituição compromissória de 1838, matricial no movimento estabilizador da Regeneração no Ato Adicional de 1852, em cujo regime defendeu intransigentemente a soberania popular com alternância de dois partidos - Regenerador e Histórico.

Para compreendermos Fontes Pereira de Melo, temos de entender a sua formação técnica e a muito precoce mobilização militar, cívica e política para a causa do liberalismo, na senda da carreira de armas de seu pai, em nome dos ideais da liberdade e do progresso. Por isso afirmou: “No nosso país há três grandes partidos. O progressista, o estacionário e o partido retrógrado. Eu sou progressista, digo-o com toda a franqueza, mas sou menos progressista do que muitos indivíduos que eu conheço nesta grande divisão; tenho, portanto, muita gente para a frente, e alguma para a retaguarda. (…) Entretanto, seria preciso que eu tivesse mais 30 anos, ou que tivesse nascido no século passado, para não ser progressista, como entendo que se deve ser” (15.1.1849).

Num período longo, houve condicionantes, continuidades e descontinuidades - que permitem entender a ideia de progresso e o confronto que Herculano precisou entre este e o melhoramento moral dos povos.

06 fevereiro 2024


Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

https://www.dn.pt/autor/5021344582/guilherme-doliveira-martins/

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Guilherme d’Oliveira Martins - Coração (Cuore), de Edmondo de Amicis

 


 


Guilherme d’Oliveira Martins

26 Dezembro 2023 — 07:00

O Risorgimento italiano tem raízes muito antigas. Dante, Petrarca e Maquiavel fazem parte de um longo caminho que culminou na unificação de Itália. Entre 1815 e 1870 confrontam-se os partidários da Casa de Saboia e do rei da Sardenha e os companheiros de Mazzini e Garibaldi. A saga contada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) em Il Gattopardo, imortalizada por Visconti, desenha-nos o pano de fundo. A guerra patriótica contra o Império austríaco, os ecos da Primavera dos Povos de 1848, a proclamação do reino de Itália e a anexação dos Estados Pontifícios marcam um tempo que mudou o panorama europeu. Napoleão dividira a Itália em vários reinos e o Congresso de Viena deixaria a península subalternizada ao Império Austro-húngaro. O reino da Sardenha, com o conde Cavour, economicamente moderno, tornou-se a locomotiva do novo Estado, associada ao Risorgimento Letterario, que criou uma nação a partir da língua e do génio poético presentes na grande Comédia de Dante, tornada divina. A história é conhecida e até chegou a Portugal, com o trágico exílo de Carlos Aberto e a sucessão em seu filho Vítor Manuel II, pai da nossa Rainha D. Maria Pia.

Além dos clássicos, o escritor moderno que muito contribuiu para a formação da consciência italiana foi Edmondo de Amicis (1846-1908), autor de Coração, uma obra sublime. Todos os jovens italianos desde 1886 até à geração de Umberto Eco formaram-se a ler o livro de Amicis, talvez demasiado cheio de bons sentimentos, mas indiscutivelmente marcante para a formação de uma consciência cívica liberal e democrática. A obra relata, pela voz de Henrique, um ano letivo dos alunos da 3.ª Classe de uma Escola, onde se lia em cada mês uma verdadeira parábola sobre a liberdade, a generosidade, o respeito, o exemplo, o altruísmo e a salvaguarda das diferenças. O Coração, que eu li integralmente, com grande prazer, e que os meus pais me ajudaram a ler, numa experiência inesquecível com meus irmãos, foi adotado como leitura obrigatória nas escolas de Itália no final do século XIX. Daí a influência que exerceu em diversas gerações também na Europa democrática. Longe do nacionalismo que envenenou a mentalidade europeia - lembramos a carta em que se diz: "Eu amo a minha terra porque a minha mãe nela nasceu; porque o sangue que me corre nas veias é o mesmo sangue; porque na minha terra estão sepultados os mortos que a minha mãe chora e meu pai venera." A cidade, a língua, os livros que me educam, o grande povo no meio do qual vivo, a bela natureza que me cerca, tudo pertence à ideia de pátria. E as histórias contadas pelo mestre-escola ilustram a entrega e a generosidade, a abertura e a autonomia pessoal - como nos casos do pequeno patriota paduano, do pequeno vigia lombardo, do tamborzinho, da viagem dos Apeninos aos Andes - ou do sacrifício do pequeno escrevente florentino - que nas altas horas da noite ajudava, às escondidas, seu pai a realizar um trabalho árduo e repetitivo que compunha o ganha-pão familiar. "Cursava a 4.ª classe. Era um gracioso florentino de 12 anos, negro de cabelos e alvo de rosto; filho mais velho de um empregado dos caminhos de ferro que, tendo muita família e pouco ordenado, vivia com dificuldades." O filho, às escondidas, decidiu ajudar o pai a escrever endereços em cintas para enviar revistas a assinantes. Mas se o trabalho singrava, o pai não compreendia por que razão o aproveitamento do filho se ressentia, até que descobriu que tal era fruto do cansaço pela generosidade... Escritor dotadíssimo, de Amicis dá-nos exemplos de cidadania viva. A verdade é que, em vez de um discurso abstrato, há valores exemplares. Mas além dos contos mensais, há pequenos exemplos na relação entre os companheiros da turma (perante uma dificuldade, uma doença, um acidente ou uma morte) que demonstram a importância do respeito mútuo, do cuidado e da solidariedade. Eis como um livro se torna influente.

Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

https://www.dn.pt/opiniao/coracao-de-edmondo-de-amicis-17559844.html