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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Pedro Tadeu - Quais foram os agentes provocadores da revolta no Brasil?

* Pedro Tadeu

11 Janeiro 2023 — 

Tratar os milhares de pessoas que invadiram e vandalizaram o complexo de edifícios dos Três Poderes em Brasília como "terroristas", como vi um grande número de comentadores fazerem, parece-me trair a suposta racionalidade democrática que esse epíteto pretende demonstrar - não distinguir massas populares manipuladas dos agentes provocadores dessa manipulação, que levam tantas pessoas a agirem como turba destruidora, parece-me mesmo um exercício antidemocrático.

Aquilo que estou a designar por "agentes provocadores" desta sublevação, desta recusa em aceitar um resultado eleitoral livre e justo, abrange um espetro largo de pessoas, ideias e instituições e existem, com nuances, tanto no Brasil, como nos Estados Unidos, como em Portugal. Estão mesmo por todo o lado.

Há "agentes provocadores" de primeira linha nesta ação no Brasil: os políticos bolsonaristas mais radicais que ajudaram à sua organização, os empresários que a financiaram ou os polícias e militares que deliberadamente a permitiram.

Há "agentes provocadores" de segunda linha, bastante mais difíceis de dissipar: o estado de espírito que gera esta mobilização para a pancadaria advém da capacidade de convencer estas pessoas de estarem a viver numa sociedade em que são enganadas pelo governo, onde as eleições são fraudulentas, onde os políticos do regime democrático são quase todos corruptos, onde há uma suposta campanha moral contra a família tradicional, onde se sugere que quem é patriota é perseguido, onde se apregoa que o "verdadeiro cristianismo" é acossado, onde se acusa o Sistema Educativo de "corromper" as mentes dos alunos, onde se convence que os subsídios para os pobres desempregados vêm de dinheiro "roubado" aos que trabalham, onde se assegura que quem tem mérito é prejudicado, onde se propagandeia que a liberdade está limitada.

Esta segunda linha de "agentes provocadores" da sublevação é alimentada por igrejas pentecostais, por propagandistas das redes sociais, por extremistas organizados, por fanáticos fascistas, por militares saudosistas da ditadura brasileira, por empresários gananciosos e por justiceiros iluminados.

E há, também, uma terceira linha de "agentes provocadores" para esta violência que é culturalmente secular e que as democracias, erradamente, não combatem e, até, promovem: a crença de que o êxito das sociedades depende de um líder esclarecido, de um privilegiado que tudo resolve, e não de um esforço coletivo e participado de toda gente; a convicção de que o direito à liberdade permite o abuso sobre o outro e a formação de "tribos" identitárias de combate supremacista sobre outras "tribos"; a aceitação da submissão geral a um poder superior, seja ele divino, politico ou económico, como sendo essa "a ordem natural das coisas".

A esta loucura toda associam-se, no entanto, gravosas contribuições geradas dentro do próprio regime democrático, uma quarta linha de "agentes provocadores": de facto, a corrupção existe; de facto as desigualdades sociais agravam-se; de facto a política é suja; de facto há uns que comem tudo e outros que não comem nada; de facto elegem-se cada vez mais indivíduos do que propostas políticas; de facto a sociedade globalizada tenta eliminar o patriotismo da equação socioeconómica, reduzindo-o ao estatuto de amor de uma equipa de futebol (ver estes agressores vestidos com a camisola amarela da seleção brasileira diz tudo...); de facto o Sistema Educativo não equipou as populações para resistirem por si mesmas à manipulação ideológica; de facto a única resposta contra a polarização do debate público tem sido uma sucessiva tentativa de o censurar e não de resolver os problemas que ele revela; de facto, a intolerância insuportável contra as minorias sexuais e étnicas gerou uma serie de soluções discriminatórias positivas que põem pobre contra pobre, em vez de unir todos os pobres contra quem os explora; de facto é a divisão violenta entre os mais desfavorecidos que serve os interesses de quem manipula estas pessoas para vir a dominar, em regime absoluto, a riqueza geral criada pelo povo.

A democracia, enquanto funcionar assim, terá sempre opositores violentos.

https://www.dn.pt/opiniao/quais-foram-os-agentes-provocadores-da-revolta-no-brasil-15635684.html 


Fernanda Câncio - Bem-vindos à fakedemocracia

Primeiro nos EUA e depois no Brasil, o assalto aos símbolos do poder democrático por quem recusa, em nome do "povo", o resultado de escrutínios eleitorais coloca-nos perante a evidência de que democracia, justiça e bem são noções que variam de acordo com quem ganha ou perde - como no futebol.

Fernanda Câncio

10 Janeiro 2023 

Neste domingo em Brasília, como a 6 de janeiro de 2021 no assalto ao Capitólio, pudemos ver em direto, ou quase em direto, as imagens dos assaltantes por si próprios, filmando tudo e filmando-se, através da partilha orgulhosa nas redes sociais - como quem não coloca sequer a hipótese de estar a cometer um crime e portanto a oferecer às autoridades as provas e identificação necessárias para os encontrarem e processarem.

Podemos, é claro, explicar isso com a excitação, aliada à falta de inteligência - ou ingenuidade, se quisermos ser caridosos. Mas sendo do conhecimento geral que muitos dos assaltantes do Capitólio foram identificados e acusados com base nas imagens partilhadas pelos próprios ou por companheiros de assalto, talvez seja avisado pensar noutras explicações.

Além de todos os motivos tontos, que também existem, como o da compulsão da selfie, aquelas pessoas querem mostrar-se naquele assalto porque consideram estar a fazer algo heroico, pelo bem, e ter com elas, por elas, muita gente, que pensam poder "levantar", contagiar, ganhar, com a partilha. Não é só o assalto que é uma ação política - a partilha faz parte da ação, como modo ostensivo de demonstrar que não só quem protagoniza não aceita a ideia de estar a cometer um crime como despreza quem assim o possa considerar. Porque, e o sequestro das cores do país e da sua bandeira como símbolos do movimento significam isso, para quem ali está, aquele é "o verdadeiro Brasil", o verdadeiro "povo".

Justamente, na entrada de um dos edifícios, ouve-se um dos assaltantes dizer: "Já está tomado, estamos na casa do povo." Se a casa é do povo, e se aquele é o povo, não há crime, pelo contrário; trata-se de retomar legitimamente o que foi roubado, segundo o princípio básico da democracia - um governo do povo, para o povo e pelo povo.

E nesse sentido não há nada mais simbólico que as filmagens da entrada no Supremo Tribunal e da sua destruição, como o empunhar ante a multidão, por um dos assaltantes, daquilo que sabemos agora ser uma cópia da Constituição de 1988 (a filmagem começou por ser partilhada referindo que se tratava do original).

Que vemos ali? Uma deslegitimação do regime através da dessacralização da sua lei fundamental e do tribunal que tem por função interpretá-la e aferir por ela quaisquer leis e práticas, ou uma pretensa recuperação, pelo "povo" que os assaltantes creem representar, dos princípios constitucionais que proclamam dar-lhes razão (um dos artigos da Constituição tem sido sistematicamente invocado pelos bolsonaristas como fundamento para um golpe militar)?

Na verdade, para aquelas pessoas, como para os assaltantes do Capitólio, a convicção de que estão perante um roubo não tem sequer de se fundar na ideia, alegada quer por Trump e trumpistas quer por Bolsonaro e bolsonaristas, de que houve uma fraude eleitoral. Há uma espécie de conclusão tautológica: se não foi ao seu lado, ao seu candidato, que foi reconhecida a vitória, então a eleição não foi justa. Como para os fanáticos futeboleiros, qualquer derrota só pode explicar-se por "roubo", qualquer resultado que não o desejado só pode ser ilegítimo.

Assim, as mesmas regras e instituições que serviram para dar a vitória a Trump e Bolsonaro deixam de ser credíveis quando são derrotados. A democracia só é democracia se ganharem; as leis e os tribunais só são para respeitar se prenderem Lula; quando o soltam passam a não valer nada.

Os mesmos que exigiam "lei e ordem" e uma "intervenção militar" para "repor a legalidade" podem então escavacar edifícios públicos, roubar artefactos valiosos, esfaquear quadros, defecar nos gabinetes, espancar polícias (os polícias que os enfrentaram; também os houve) e os seus cavalos, num festim de ódio e absurdo.

Queremos acreditar que este espectáculo indecente terá o efeito contrário do pretendido; que nos muitos milhões que votaram em Trump e Bolsonaro - lembremos que perderam por muito pouco - há uma maioria que não se revê nos assaltos de janeiro de 2021 e 2023. Que acontecimentos como estes contribuem para enfraquecer a respetiva base de apoio, alienando muita gente, e são por isso erros políticos - e Lula, depois de uma primeira reação destemperada no domingo, soube esta segunda-feira corrigir o tom e o discurso de modo a ir ao encontro de quem, não tendo votado nele, se queira demarcar do ocorrido.

Aliás, de tal modo o que aconteceu pode revelar-se danoso para o bolsonarismo que há quem esteja já a pôr a hipótese de que a aparatosa ausência de reação policial em Brasília foi fruto de um maquiavelismo - o de permitir que os vândalos agissem à vontade, de modo a que Bolsonaro e o seu movimento caíssem em desgraça, perdendo apoio nacional e internacional.

É verdade que internacionalmente Bolsonaro viu até líderes de extrema-direita como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni demarcarem-se de modo inequívoco do sucedido (quiçá vêm daí as fortes dores de barriga que, dizem-nos, o acometeram na Florida), e que o próprio, isolado, amedrontado e sonso, acabou por fazer o mesmo. Mas aquilo a que assistimos nos EUA e agora no Brasil (e mais ainda porque se repetiu no Brasil depois de acontecer nos EUA, em óbvia remake do filme americano) não é apenas um sinal daquilo que já sabemos - que no seio das democracias estão a crescer exponencialmente movimentos cujo intuito, consciente ou inconsciente, é derrubá-las, chegando ao paradoxo de exigir, como o fazem os bolsonaristas, a implantação de ditaduras militares como "salvação" do país e do próprio regime democrático.

Estes acontecimentos medonhos demonstram que a ideia de democracia se transformou, para muita gente, num conceito plástico, vazio, que não corresponde a qualquer conjunto de princípios. Uma espécie de fakedemocracia, ou democracia alternativa - como as fake news e os factos alternativos, é o que der jeito no momento.

 

https://www.dn.pt/opiniao/bem-vindos-a-fakedemocracia-15629461.html

domingo, 1 de janeiro de 2023

Discurso de posse do presidente Lula no Congresso Nacional (2023)


Lula da Silva - Foto Ricardo Stuckert

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Brasília, DF, 1º de janeiro de 2023

Pela terceira vez compareço a este Congresso Nacional para agradecer ao povo brasileiro o voto de confiança que recebemos. Renovo o juramento de fidelidade à Constituição da República, junto com o vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros que conosco vão trabalhar pelo Brasil.

Se estamos aqui, hoje, é graças à consciência política da sociedade brasileira e à frente democrática que formamos ao longo desta histórica campanha eleitoral.

Foi a democracia a grande vitoriosa nesta eleição, superando a maior mobilização de recursos públicos e privados que já se viu; as mais violentas ameaças à liberdade do voto, a mais abjeta campanha de mentiras e de ódio tramada para manipular e constranger o eleitorado.

Nunca os recursos do estado foram tão desvirtuados em proveito de um projeto autoritário de poder. Nunca a máquina pública foi tão desencaminhada dos controles republicanos. Nunca os eleitores foram tão constrangidos pelo poder econômico e por mentiras disseminadas em escala industrial.

Apesar de tudo, a decisão das urnas prevaleceu, graças a um sistema eleitoral internacionalmente reconhecido por sua eficácia na captação e apuração dos votos. Foi fundamental a atitude corajosa do Poder Judiciário, especialmente do Tribunal Superior Eleitoral, para fazer prevalecer a verdade das urnas sobre a violência de seus detratores.

 

SENHORAS E SENHORES PARLAMENTARES,

Ao retornar a este plenário da Câmara dos Deputados, onde participei da Assembleia Constituinte de 1988, recordo com emoção os embates que travamos aqui, democraticamente, para inscrever na Constituição o mais amplo conjunto de direitos sociais, individuais e coletivos, em benefício da população e da soberania nacional.

Vinte anos atrás, quando fui eleito presidente pela primeira vez, ao lado do companheiro vice-presidente José Alencar, iniciei o discurso de posse com a palavra “mudança”. A mudança que pretendíamos era simplesmente concretizar os preceitos constitucionais. A começar pelo direito à vida digna, sem fome, com acesso ao emprego, saúde e educação.

Disse, naquela ocasião, que a missão de minha vida estaria cumprida quando cada brasileiro e brasileira pudesse fazer três refeições por dia.

Ter de repetir este compromisso no dia de hoje – diante do avanço da miséria e do regresso da fome, que havíamos superado – é o mais grave sintoma da devastação que se impôs ao país nos anos recentes.

Hoje, nossa mensagem ao Brasil é de esperança e reconstrução. O grande edifício de direitos, de soberania e de desenvolvimento que esta Nação levantou, a partir de 1988, vinha sendo sistematicamente demolido nos anos recentes. É para reerguer este edifício de direitos e valores nacionais que vamos dirigir todos os nossos esforços.

 

SENHORAS E SENHORES,

Em 2002, dizíamos que a esperança tinha vencido o medo, no sentido de superar os temores diante da inédita eleição de um representante da classe trabalhadora para presidir os destinos do país. Em oito anos de governo deixamos claro que os temores eram infundados. Do contrário, não estaríamos aqui novamente.

Ficou demonstrado que um representante da classe trabalhadora podia, sim, dialogar com a sociedade para promover o crescimento econômico de forma sustentável e em benefício de todos, especialmente dos mais necessitados. Ficou demonstrado que era possível, sim, governar este país com a mais ampla participação social, incluindo os trabalhadores e os mais pobres no orçamento e nas decisões de governo.

Ao longo desta campanha eleitoral vi a esperança brilhar nos olhos de um povo sofrido, em decorrência da destruição de políticas públicas que promoviam a cidadania, os direitos essenciais, a saúde e a educação. Vi o sonho de uma Pátria generosa, que ofereça oportunidades a seus filhos e filhas, em que a solidariedade ativa seja mais forte que o individualismo cego.

O diagnóstico que recebemos do Gabinete de Transição de Governo é estarrecedor. Esvaziaram os recursos da Saúde. Desmontaram a Educação, a Cultura, Ciência e Tecnologia. Destruíram a proteção ao Meio Ambiente. Não deixaram recursos para a merenda escolar, a vacinação, a segurança pública, a proteção às florestas, a assistência social.

Desorganizaram a governança da economia, dos financiamentos públicos, do apoio às empresas, aos empreendedores e ao comércio externo. Dilapidaram as estatais e os bancos públicos; entregaram o patrimônio nacional. Os recursos do país foram rapinados para saciar a cupidez dos rentistas e de acionistas privados das empresas públicas.

É sobre estas terríveis ruínas que assumo o compromisso de, junto com o povo brasileiro, reconstruir o país e fazer novamente um Brasil de todos e para todos.

SENHORAS E SENHORES,

Diante do desastre orçamentário que recebemos, apresentei ao Congresso Nacional propostas que nos permitam apoiar a imensa camada da população que necessita do estado para, simplesmente, sobreviver.

Agradeço à Câmara e ao Senado pela sensibilidade frente às urgências do povo brasileiro. Registro a atitude extremamente responsável do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Contas da União frente às situações que distorciam a harmonia dos poderes.

Assim fiz porque não seria justo nem correto pedir paciência a quem tem fome.

Nenhuma nação se ergueu nem poderá se erguer sobre a miséria de seu povo.

Os direitos e interesses da população, o fortalecimento da democracia e a retomada da soberania nacional serão os pilares de nosso governo.

Este compromisso começa pela garantia de um Programa Bolsa Família renovado, mais forte e mais justo, para atender a quem mais necessita. Nossas primeiras ações visam a resgatar da fome 33 milhões de pessoas e resgatar da pobreza mais de 100 milhões de brasileiras e brasileiros, que suportaram a mais dura carga do projeto de destruição nacional que hoje se encerra.

SENHORAS E SENHORES,

Este processo eleitoral também foi caracterizado pelo contraste entre distintas visões de mundo. A nossa, centrada na solidariedade e na participação política e social para a definição democrática dos destinos do país. A outra, no individualismo, na negação da política, na destruição do estado em nome de supostas liberdades individuais.

A liberdade que sempre defendemos é a de viver com dignidade, com pleno direito de expressão, manifestação e organização.

A liberdade que eles pregam é a de oprimir o vulnerável, massacrar o oponente e impor a lei do mais forte acima das leis da civilização. O nome disso é barbárie.

Compreendi, desde o início da jornada, que deveria ser candidato por uma frente mais ampla do que o campo político em que me formei, mantendo o firme compromisso com minhas origens. Esta frente se consolidou para impedir o retorno do autoritarismo ao país.

A partir de hoje, a Lei de Acesso à Informação voltará a ser cumprida, o Portal da Transparência voltará a cumprir seu papel, os controles republicanos voltarão a ser exercidos para defender o interesse público. Não carregamos nenhum ânimo de revanche contra os que tentaram subjugar a Nação a seus desígnios pessoais e ideológicos, mas vamos garantir o primado da lei. Quem errou responderá por seus erros, com direito amplo de defesa, dentro do devido processo legal. O mandato que recebemos, frente a adversários inspirados no fascismo, será defendido com os poderes que a Constituição confere à democracia.

Ao ódio, responderemos com amor. À mentira, com a verdade. Ao terror e à violência, responderemos com a Lei e suas mais duras consequências.

Sob os ventos da redemocratização, dizíamos: ditadura nunca mais! Hoje, depois do terrível desafio que superamos, devemos dizer: democracia para sempre!

Para confirmar estas palavras, teremos de reconstruir em bases sólidas a democracia em nosso país. A democracia será defendida pelo povo na medida em que garantir a todos e a todas os direitos inscritos na Constituição.

SENHORAS E SENHORES,

Hoje mesmo estou assinando medidas para reorganizar as estruturas do Poder Executivo, de modo que voltem a permitir o funcionamento do governo de maneira racional, republicana e democrática. Para resgatar o papel das instituições do estado, bancos públicos e empresas estatais no desenvolvimento do país. Para planejar os investimentos públicos e privados na direção de um crescimento econômico sustentável, ambientalmente e socialmente.

Em diálogo com os 27 governadores, vamos definir prioridades para retomar obras irresponsavelmente paralisadas, que são mais de 14 mil no país. Vamos retomar o Minha Casa, Minha Vida e estruturar um novo PAC para gerar empregos na velocidade que o Brasil requer. Buscaremos financiamento e cooperação – nacional e internacional – para o investimento, para dinamizar e expandir o mercado interno de consumo, desenvolver o comércio, exportações, serviços, agricultura e a indústria.

Os bancos públicos, especialmente o BNDES, e as empresas indutoras do crescimento e inovação, como a Petrobras, terão papel fundamental neste novo ciclo. Ao mesmo tempo, vamos impulsionar as pequenas e médias empresas, potencialmente as maiores geradoras de emprego e renda, o empreendedorismo, o cooperativismo e a economia criativa.

A roda da economia vai voltar a girar e o consumo popular terá papel central neste processo.

Vamos retomar a política de valorização permanente do salário-mínimo. E estejam certos de que vamos acabar, mais uma vez, com a vergonhosa fila do INSS, outra injustiça restabelecida nestes tempos de destruição. Vamos dialogar, de forma tripartite – governo, centrais sindicais e empresariais – sobre uma nova legislação trabalhista. Garantir a liberdade de empreender, ao lado da proteção social, é um grande desafio nos tempos de hoje.

SENHORAS E SENHORES,

O Brasil é grande demais para renunciar a seu potencial produtivo. Não faz sentido importar combustíveis, fertilizantes, plataformas de petróleo, microprocessadores, aeronaves e satélites. Temos capacitação técnica, capitais e mercado em grau suficiente para retomar a industrialização e a oferta de serviços em nível competitivo.

O Brasil pode e deve figurar na primeira linha da economia global.

Caberá ao estado articular a transição digital e trazer a indústria brasileira para o Século XXI, com uma política industrial que apoie a inovação, estimule a cooperação público-privada, fortaleça a ciência e a tecnologia e garanta acesso a financiamentos com custos adequados.

O futuro pertencerá a quem investir na indústria do conhecimento, que será objeto de uma estratégia nacional, planejada em diálogo com o setor produtivo, centros de pesquisa e universidades, junto com o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, os bancos públicos, estatais e agências de fomento à pesquisa.

Nenhum outro país tem as condições do Brasil para se tornar uma grande potência ambiental, a partir da criatividade da bioeconomia e dos empreendimentos da socio-biodiversidade. Vamos iniciar a transição energética e ecológica para uma agropecuária e uma mineração sustentáveis, uma agricultura familiar mais forte, uma indústria mais verde.

Nossa meta é alcançar desmatamento zero na Amazônia e emissão zero de gases do efeito estufa na matriz elétrica, além de estimular o reaproveitamento de pastagens degradadas. O Brasil não precisa desmatar para manter e ampliar sua estratégica fronteira agrícola.

Incentivaremos, sim, a prosperidade na terra. Liberdade e oportunidade de criar, plantar e colher continuará sendo nosso objetivo. O que não podemos admitir é que seja uma terra sem lei. Não vamos tolerar a violência contra os pequenos, o desmatamento e a degradação do ambiente, que tanto mal já fizeram ao país.

Esta é uma das razões, não a única, da criação do Ministério dos Povos Indígenas. Ninguém conhece melhor nossas florestas nem é mais capaz de defendê-las do que os que estavam aqui desde tempos imemoriais. Cada terra demarcada é uma nova área de proteção ambiental. A estes brasileiros e brasileiras devemos respeito e com eles temos uma dívida histórica.

Vamos revogar todas as injustiças cometidas contra os povos indígenas.

SENHORAS E SENHORES,

Uma nação não se mede apenas por estatísticas, por mais impressionantes que sejam. Assim como um ser humano, uma nação se expressa verdadeiramente pela alma de seu povo. A alma do Brasil reside na diversidade inigualável da nossa gente e das nossas manifestações culturais.

Estamos refundando o Ministério da Cultura, com a ambição de retomar mais intensamente as políticas de incentivo e de acesso aos bens culturais, interrompidas pelo obscurantismo nos últimos anos.

Uma política cultural democrática não pode temer a crítica nem eleger favoritos. Que brotem todas as flores e sejam colhidos todos os frutos da nossa criatividade, Que todos possam dela usufruir, sem censura nem discriminações.

Não é admissível que negros e pardos continuem sendo a maioria pobre e oprimida de um país construído com o suor e o sangue de seus ascendentes africanos. Criamos o Ministério da Promoção da Igualdade Racial para ampliar a política de cotas nas universidades e no serviço público, além de retomar as políticas voltadas para o povo negro e pardo na saúde, educação e cultura.

É inadmissível que as mulheres recebam menos que os homens, realizando a mesma função. Que não sejam reconhecidas em um mundo político machista. Que sejam assediadas impunemente nas ruas e no trabalho. Que sejam vítimas da violência dentro e fora de casa. Estamos refundando também o Ministério das Mulheres para demolir este castelo secular de desigualdade e preconceito.

Não existirá verdadeira justiça num país em que um só ser humano seja injustiçado. Caberá ao Ministério dos Direitos Humanos zelar e agir para que cada cidadão e cidadã tenha seus direitos respeitados, no acesso aos serviços públicos e particulares, na proteção frente ao preconceito ou diante da autoridade pública. Cidadania é o outro nome da democracia.

O Ministério da Justiça e da Segurança Pública atuará para harmonizar os Poderes e entes federados no objetivo de promover a paz onde ela é mais urgente: nas comunidades pobres, no seio das famílias vulneráveis ao crime organizado, às milícias e à violência, venha ela de onde vier.

Estamos revogando os criminosos decretos de ampliação do acesso a armas e munições, que tanta insegurança e tanto mal causaram às famílias brasileiras. O Brasil não quer mais armas; quer paz e segurança para seu povo.

Sob a proteção de Deus, inauguro este mandato reafirmando que no Brasil a fé pode estar presente em todas as moradas, nos diversos templos, igrejas e cultos. Neste país todos poderão exercer livremente sua religiosidade.

SENHORAS E SENHORES,

O período que se encerra foi marcado por uma das maiores tragédias da história: a pandemia de Covid-19. Em nenhum outro país a quantidade de vítimas fatais foi tão alta proporcionalmente à população quanto no Brasil, um dos países mais preparados para enfrentar emergências sanitárias, graças à competência do nosso Sistema Único de Saúde.

Este paradoxo só se explica pela atitude criminosa de um governo negacionista, obscurantista e insensível à vida. As responsabilidades por este genocídio hão de ser apuradas e não devem ficar impunes.

O que nos cabe, no momento, é prestar solidariedade aos familiares, pais, órfãos, irmãos e irmãs de quase 700 mil vítimas da pandemia.

O SUS é provavelmente a mais democrática das instituições criadas pela Constituição de 1988. Certamente por isso foi a mais perseguida desde então, e foi, também, a mais prejudicada por uma estupidez chamada Teto de Gastos, que haveremos de revogar.

Vamos recompor os orçamentos da Saúde para garantir a assistência básica, a Farmácia Popular, promover o acesso à medicina especializada. Vamos recompor os orçamentos da Educação, investir em mais universidades, no ensino técnico, na universalização do acesso à internet, na ampliação das creches e no ensino público em tempo integral. Este é o investimento que verdadeiramente levará ao desenvolvimento do país.

O modelo que propomos, aprovado nas urnas, exige, sim, compromisso com a responsabilidade, a credibilidade e a previsibilidade; e disso não vamos abrir mão. Foi com realismo orçamentário, fiscal e monetário, buscando a estabilidade, controlando a inflação e respeitando contratos que governamos este país.

Não podemos fazer diferente. Teremos de fazer melhor.

SENHORAS E SENHORES,

Os olhos do mundo estiveram voltados para o Brasil nestas eleições. O mundo espera que o Brasil volte a ser um líder no enfrentamento à crise climática e um exemplo de país social e ambientalmente responsável, capaz de promover o crescimento econômico com distribuição de renda, combater a fome e a pobreza, dentro do processo democrático.

Nosso protagonismo se concretizará pela retomada da integração sul-americana, a partir do Mercosul, da revitalização da Unasul e demais instâncias de articulação soberana da região. Sobre esta base poderemos reconstruir o diálogo altivo e ativo com os Estados Unidos, a Comunidade Europeia, a China, os países do Oriente e outros atores globais; fortalecendo os BRICS, a cooperação com os países da África e rompendo o isolamento a que o país foi relegado.

O Brasil tem de ser dono de si mesmo, dono de seu destino. Tem de voltar a ser um país soberano. Somos responsáveis pela maior parte da Amazônia e por vastos biomas, grandes aquíferos, jazidas de minérios, petróleo e fontes de energia limpa. Com soberania e responsabilidade seremos respeitados para compartilhar essa grandeza com a humanidade – solidariamente, jamais com subordinação.

A relevância da eleição no Brasil refere-se, por fim, às ameaças que o modelo democrático vem enfrentando. Ao redor do planeta, articula-se uma onda de extremismo autoritário que dissemina o ódio e a mentira por meios tecnológicos que não se submetem a controles transparentes.

Defendemos a plena liberdade de expressão, cientes de que é urgente criarmos instâncias democráticas de acesso à informação confiável e de responsabilização dos meios pelos quais o veneno do ódio e da mentira são inoculados. Este é um desafio civilizatório, da mesma forma que a superação das guerras, da crise climática, da fome e da desigualdade no planeta.

Reafirmo, para o Brasil e para o mundo, a convicção de que a Política, em seu mais elevado sentido – e apesar de todas as suas limitações – é o melhor caminho para o diálogo entre interesses divergentes, para a construção pacífica de consensos. Negar a política, desvalorizá-la e criminalizá-la é o caminho das tiranias.

Minha mais importante missão, a partir de hoje, será honrar a confiança recebida e corresponder às esperanças de um povo sofrido, que jamais perdeu a fé no futuro nem em sua capacidade de superar os desafios. Com a força do povo e as bênçãos de Deus, haveremos der reconstruir este país.

Viva a democracia!

Viva o povo brasileiro!

Muito obrigado.

 https://lula.com.br/discurso-de-posse-lula-2023/


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Herton Gustavo Gratto - FIM DA LINHA PRA VOCÊ, EX-PRESIDENTE!

* Herton Gustavo Gratto

Fim da linha pra você, ex - presidente ladrão
mesmo sem provas
bato panelas
em prol da sua condenação
isso é pra você aprender
que o pobre não tem direito a mais que uma refeição
Fim da linha pra você, metalúrgico boçal
isso é pra você aprender
a nunca mais fazer assistência social
com meu dinheiro
e nem se atrever a transformar em engenheira
a filha do pedreiro
Fim da linha pra você ex presidente aleijado
não é pelo triplex
que você está sendo condenado
é pela sua ousadia
em ajudar o garçom
a virar advogado
em contribuir
pra ascensão do negro favelado
que agora acredita
que pode estudar medicina
sair da miséria
e até conhecer a Capela Sistina
Fim da linha pra você, ex presidente bandido
isso é pra você aprender
que o nordeste deve continuar a ser esquecido
e que saúde e educação
é pra quem pode
e não é que pra quem quer
Fim da linha pra você, semi analfabeto atrevido
graças a sua insensatez
o filho da faxineira
chamou o meu filho de amigo
você está sendo condenado
pela sua falta de noção
de achar que pobre é gente
que agora pode usar aparelho nos dentes
ter casa própria e andar de avião
Fim da linha pra você, ex presidente imundo
isso é pra você parar com essa palhaçada
de estimular a minha cozinheira
a querer ter carteira assinada
era só o que me faltava
o proletariado sonhar com qualidade de vida
você devia saber
que essa gente nasceu pra me servir
e não pra servida
mas você é tão inconsequente
não enxerga um palmo diante do nariz
que fez a babá do meu caçula
sonhar que pode estudar pra ser atriz
e fazer aula de inglês
essa pouca vergonha
é resultado
da sua insensatez
da sua irresponsabilidade desmedida
aprenda de uma vez
barriga vazia
e bala perdida
fazem parte do cotidiano
dessa gente bronzeada
foi querer mudar o mundo
se meteu numa enrascada
Fim da linha pra você, ex presidente imbecil
você está sendo condenado
não por ter roubado
porque isso não foi provado
seu erro
foi ser / fazer história
ser do tamanho do Brasil
ter oitenta por cento de aprovação popular
acreditar em igualdade
e saber governar.


domingo, 8 de abril de 2018

LULA DA SILVA "Não adianta parar o meu sonho, porque, quando eu parar de sonhar, sonharei pela cabeça de vocês"

Queridas companheiras, queridos companheiros.
Querido companheiro Vagner, presidente da CUT. Querido companheiro Aloizio Mercadante, ex-senador, ex-deputado federal, ex-ministro da Educação, ex-ministro da Casa Civil da presidenta Dilma – se eu tivesse tantos títulos assim eu seria presidente da República. Nosso companheiro Guilherme Boulos, que está iniciando uma jornada sendo candidato à presidência pelo Psol, é um companheiro da mais alta qualidade e vocês têm que levar em conta a seriedade desse menino. Eu digo menino porque ele só tem 35 anos de idade e, quando eu fiz a greve de 78, eu tinha 33 anos e consegui através da greve ajudar a criar um partido e virar presidente. Você tem futuro, meu irmão. É só não desistir nunca.
Agora quero cumprimentar essa garota bonita, garota militante do PCdoB que está fazendo a sua primeira experiência como candidata a presidenta. Eu acho um motivo de orgulho e perspectiva de esperança deste país ter gente nova disposta a enfrentar a negação da política, assumindo a política e dizendo “nós queremos ser presidentes da República para mudar a história do país!”
Quero agradecer a companhia dessa mulher. Possivelmente a mais injustiçada das mulheres que ousaram fazer política neste país. Acusada pelo jeito de governar. Acusada por não saber conversar. Acusada de não saber fazer política, mas eu quero ser testemunha de vocês. A Dilma foi a pessoa que me deu a tranquilidade de fazer quase tudo que eu consegui fazer na presidência da República pela confiança, pela seriedade e pela qualidade e competência técnica da Dilma. Eu sou grato de coração porque o nosso governo não teria sido o que foi se não fosse a companheira Dilma. Por isso, Dilma, você sabe que eu serei eternamente grato e compartilho o meu sucesso na presidência com vossa excelência independentemente do que aconteça neste mundo.
Quero cumprimentar meu querido companheiro Fernando Haddad, que viveu o melhor período de investimento na educação brasileira neste país. Quero cumprimentar o meu companheiro Celso Amorim, que certamente foi o mais importante ministro das relações exteriores que este país já teve, que colocou o Brasil como protagonista mundial durante todo o nosso governo.
Quero cumprimentar o nosso companheiro Ivan Valente, deputado pelo Psol, companheiro que está aqui nos apoiando.
Quero cumprimentar o nosso companheiro extraordinário João Pedro Stedile, presidente, coordenador do Movimento dos Sem Terra.
Quero cumprimentar o companheiro Juliano, presidente do Psol.
Quero cumprimentar o nosso querido escritor Fernando Morais, que está escrevendo a biografia do nosso governo e nunca termina.
Quero cumprimentar o nosso querido companheiro Paulo Pimenta, líder do PT, o homem que tem o blog do deputado mais importante de Brasília e o cidadão que melhor tem enfrentado o Moro e a Operação Lava Jato naquilo que são os efeitos dela. Parabéns, companheiro Pimenta.
Quero cumprimentar o índio mais esperto deste país, o governador do Piauí, companheiro Wellington Dias, que está cumprindo o terceiro mandato e pelo andar das pesquisas está a caminho de cumprir o quarto mandato.
Quero cumprimentar aqui o companheiro Emídio, tesoureiro do PT, ex-prefeito de Osasco, que tem trabalhado incansavelmente pra gente recuperar o papel do PT na história deste país.
Quero cumprimentar o companheiro Orlando Silva, deputado do PCdoB.
Quero cumprimentar o nosso companheiro Índio, da Intersindical, companheiro de muita qualidade.
Quero cumprimentar o companheiro Adilson da CTB, que é muito importante pra causa sindical.
Quero cumprimentar a nossa companheira Gleisi Hoffmann, a nossa querida presidenta do nosso partido.
Quero cumprimentar o companheiro Luiz Marinho, que foi presidente do PT, ministro do Trabalho, ministro da Previdência. Vou contar duas coisas do Marinho. O Marinho foi catador de algodão, catador de café e catador de amendoim em Santa Fé. O Marinho foi pintor na Volkswagen, foi presidente deste sindicato, da CUT, e foi o melhor prefeito que São Bernardo já teve e agora é nosso presidente estadual.
Quero cumprimentar o nosso senador Lindbergh, que eu conheci na campanha para tirar o Collor, tentei tirar ele do PCdoB para levar para o PT, mas a minha relação de amizade com o João Amazonas era tão forte que eu não tive coragem de conversar com ele.
Quero chamar aqui o presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, companheiro Vagner e o companheiro Moisés.
Ah, quero cumprimentar também o nosso vereador e futuro senador Eduardo Suplicy.
Eu pedi para vir aqui o companheiro de Sergipe, vice-presidente do PT que tem a missão de coordenar as caravanas da cidadania por todo o território nacional e vocês tem acompanhado pela internet o companheiro Marcio Macedo.
Eu pedi para chamar aqui dois sindicalistas. Porque eu nasci neste sindicato. Quando eu cheguei aqui isso era um barraco, esse prédio foi construído na nossa diretoria. Aqui, para vocês saberem, eu fui diretor de uma escola que tinha 1080 alunos, vocês acham que eu fui só torneiro mecânico então podem dizer fui diretor de escola.
Aqui está o Paulão, metalúrgico e da secretaria sindical do PT. Wagner, eu queria aproveitar que vocês estão aqui para dizer que parte da democracia brasileira a gente deve a este sindicato a partir de 1978. Aqui foi minha escola. Aqui aprendi sociologia,economia, física, química e aprendi a fazer política.
Quando fui presidente deste sindicato, as fábricas tinham 140 mil professores que me ensinavam a fazer as coisas. Toda vez que eu tinha dúvida eu ia perguntar pra peãozada. Na dúvida não erre. Pergunte. E o Wagner está cedendo este prédio para a nossa campanha. O Moisés aqui é um companheiro que nunca se negou a contribuir com o movimento social. Ele nunca negou absolutamente nada. Então eu quero uma salva de palma para estes companheiros que são os sustentáculos do nosso governo.
Este sindicato tem mais de 280 diretores. Para ser diretor tem que ser eleito pelo chão de fábrica. Se a gente fizesse isso em todo sindicato do Brasil, a gente teria muito menos pelego. Eu fiz questão de citar eles porque muitas vezes a pessoa planta o alimento, lava e a gente não sabe quem é.
Eu confesso que vivi os meus melhores momentos políticos aqui. A minha matrícula é 25886 de setembro de 68. De lá para cá eu mantenho uma relação maior do que qualquer presidente que tem aqui. Vicentinho já foi presidente, Menegueti também, Guiba, Zé Nobre, agora o Wagnão e por todos eles eu sou tratado como ainda fosse presidente pela relação.
Eu queria dizer para vocês que eu estou contando isso para tentar chegar ao que quero dizer. Em 1979, esse sindicato fez uma das greves mais extraordinárias e nós conseguimos fazer um acordo com a indústria automobilística que foi dos melhores. E eu tinha um chão de fábrica com 300 trabalhadores. E o acordo era bom. Eu resolvi levar o acordo pra assembleia e convenci a peãozada a ir mais cedo. E eu queria que eles bebessem um pouquinho porque a gente fica mais ousado, mas eles bebiam uma garrafa.
Nós começamos a colocar o acordo em votação. Mas 100 mil não aceitavam. Era o melhor. A gente não perdia décimo terceiro, a gente não perdia nada. Mas a peãozada queria 83 ou nada.
Olha tá aqui o senador do Acre, Jorge Viana que eu não vi porque é baixinho.
Olha para falar em nome dos artistas eu quero chamar aqui o Osmar Prado. E tem a mulherada de Belém. Mas eu citei o Osmar, que é de uma qualidade extraordinária. O que Deus não deu de tamanho para ele deu de inteligência. E ele já fez papéis extraordinários. Mas tem um que ele era motorista chamado de Tabaco. E eu acho que ele tem uma posição política.
Eu ia dizendo que nós não conseguimos aprovar a proposta que eu considerava boa. E eu ia na porta e ninguém me ouvia. E eu vi um cartaz que dizia: “ Lula fala para os ouvidos moucos dos trabalhadores”. Nós levamos um ano para recuperar o prestígio. E eu fiquei pensando com ares de vingança: os trabalhadores podem fazer 100 dias de greve que eles vão até o fim, pois eu vou testá-lo em 80. E a gente fez a maior greve daquele tempo, 41 dias de greve, eu fui preso no 17° dia e os trabalhadores começaram depois de alguns dias a furar a greve. Eles falavam para eu acabar com a greve. Eu dizia que os trabalhadores que vão decidir. Mas eles não aguentaram.
Mas é engraçado que na derrota a gente ganhou muito mais do que quando a gente ganhou economicamente. Isso prova que o que a gente ganha não é só dinheiro.
Agora estamos quase que na mesma situação. Estou sendo processado e eu tenho dito claramente. O processo do meu apartamento, eu sou o único ser humano que sou processado pelo apartamento que não é meu. E eles sabem que o Globo mentiu quando disse que era meu. A Polícia Federal da Lava Jato quando fez o inquérito mentiu que era meu. O Ministério Público mentiu dizendo que era meu. E eu achei que o Moro ia resolver, mas ele mentiu dizendo que era meu. E me condenou a nove anos de cadeia.
É por isso que eu sou um cidadão indignado, porque eu já fiz muita coisa com os meus 72 anos, mas eu não os perdoo por ter passado à sociedade a ideia de que sou um bandido. Deram a primazia de fazer um pixuleco. Deram a primazia dos bandidos chamaram a gente de petralha. Deram a primazia dos bandidos viverem negando a política neste país.
E eu digo todo dia: nenhum deles tem coragem ou dorme com a consciência tranquila da honestidade e da inocência que eu durmo. Eu não estou acima da justiça. Se eu não acreditasse na justiça eu não teria criado partido, eu teria feiro a revolução. Eu acredito numa justiça justa, numa justiça que vota um processo baseado nos autos do processo, na prova concreta do crime. O que eu não posso admitir é um procurador que fez um PowePoint e foi para a televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil e o Lula, por ser a figura mais importante do partido, é o chefe. Portanto, se o Lula é o chefe eu não preciso de provas, eu tenho convicção.
Eu quero que ele guarde a convicção dele para os comparsas dele, para os asseclas dele e não para mim. Certamente um ladrão não estaria exigindo prova. Estaria de rabo preso e de boca fechada torcendo para a imprensa não falar o nome dele.
Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me atacando. Eu tenho milhares de páginas de jornais me atacando. Eu tenho mais a Record me atacando. Eu tenho mais a Bandeirantes. Eu tenho mais as rádios do interior.
O que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro. Eu não tenho medo deles. Eu até já falei que gostaria de fazer um debate com o Moro sobre a denúncia. Eu queria que ele me mostrasse alguma coisa de prova. Eu já desafiei os juízes do TRF-4 que eles fossem para um debate na universidade que eles quisessem para provar qual é o crime que eu cometi neste país.
Sou um construtor de sonhos. E há muito tempo atrás eu sonhei que seria possível governar este país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões nas universidades, criando milhões de empregos neste país.
Eu sonhei que era possível um metalúrgico sem diploma universitário cuidar mais da educação do que os diplomados que governaram este país.
Eu sonhei que era possível diminuir a mortalidade infantil levando leite, feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia.
Eu sonhei que era possível levar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades deste país para que a gente não tenha juízes e procuradores apenas da elite. Daqui a pouco nós vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliópolis, nascido em Itaquera, nascido na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, da CUT, formados.
Eu cometi este crime que eles não querem que eu cometa mais. É por conta desses crimes que eu tenho 10 processos contra mim. Eu cometi o crime de botar negro na universidade, fazer pobre comer carne, pobre comprar carro, viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura e ter sua casa própria. Se esse foi o crime que eu cometi, eu quero dizer que eu vou continuar sendo criminoso. Vou fazer muito mais.
Em 1986, eu fui o deputado constituinte mais votado da história do País. E nós fomos descobrir que dentro do PT, havia uma desconfiança dentro do PT de que só tinha poder quem tinha mandato. Eu não citei o Humberto Costa, a Fátima será a futura governadora do Rio Grande do Norte, esse aqui é o que mais denuncia a Lava Jato, o Rossetto foi ministro e talvez vá ser o governador do Rio Grande do Sul. Aqui está a Jandira, que é extraordinariamente combativa.
Então, companheiros, quando eu descobri que só tinha valor no PT quem era deputado eu deixei de ser deputado porque eu queria provar que seria a figura mais importante do PT sem ter mandato. Porque se alguém quiser ganhar de mim no PT, só tem um jeito: é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu.
Nós agora estamos num trabalho complicado. Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família, os meus filhos, o que sofreu a Marisa e eu quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela.
Porque essa gente eu acho que não tem filho, não tem alma, e não tem noção do que sente uma mãe ou um pai quando vê um filho atacado.
Eu então resolvi levantar a cabeça. Não pensem que eu sou contra a Lava Jato.
Se pegar bandido tem que pegar e prender. Todos nós queremos isso. Todos nós a vida inteira dizíamos: só prende pobre, não prende rico. Eu quero que continue prendendo rico. Mas qual é o problema? Que você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa porque no fundo você destrói as pessoas, a imagem das pessoas e depois os juízes vão julgar e dizem “eu não posso ir contra a opinião pública porque a opinião pública está pedindo para cassar”.
Quem quiser votar com base na opinião pública largue a toga e vá ser deputado e escolha um partido e vá ser candidato. Ora, a toga é um emprego vitalício. O cidadão tem que votar apenas com base nos autos dos processos.
Eu acho que ministro da Suprema Corte não deveria dar declaração de como vai votar. Nos Estados Unidos você não sabe em quem votou para que ele não seja vítima de pressão. Então juiz tem que ter a cabeça mais fria, mais responsabilidade na hora de votar. O Ministério Público é uma instituição muito forte. Por isso esses meninos, que fazem um curso de direito e depois fazem três anos de concurso porque o pai pode pagar, deveriam conhecer um pouco de política para saber o que eles fazem na sociedade.
Tem uma coisa chamada responsabilidade. Eu fui presidente e indiquei quatro procuradores e fiz discurso em todas as posses. E eu dizia: quanto mais forte a instituição, mais forte as pessoas têm que ser. Você não pode condenar as pessoas pela imprensa para depois você julgá-las.
Quando eu fui prestar depoimento lá em Curitiba, eu disse para o Moro: você não tem condições de me absolver porque a Globo está exigindo que você me condene e você vai me condenar.
Eu acho que tanto o TRF-4 quanto o Moro, a Lava Jato e a Globo têm um sonho de consumo: primeiro o golpe não terminou com a Dilma, só vai concluir quando eles conseguirem convencer que o Lula não pode ser candidato a presidente da República em 2018. Não é porque eu vou ser eleito. Eles não querem que eu participe.
Eles não querem o Lula de volta porque na cabeça deles pobre não pode ter direito. Pobre não pode comer picanha, andar de avião, fazer universidade. Pela lógica deles pode só pode comer coisa de segunda categoria.
O outro sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Eu fico imaginando o tesão da Veja colocando a minha foto na capa. Eu fico imaginando o tesão da Globo colocando a minha foto preso.
Eles vão ter orgasmos múltiplos. Eles decretaram a minha prisão e deixa eu contar uma coisa: eu vou atender o mandato deles. E vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo de errado que acontece neste país foi por minha causa.
Eu já fui condenado a três anos de cadeia porque um juiz em Manaus decidiu que eu não preciso de arma porque eu tenho uma língua felina. Então é preciso fazer o Lula calar porque, se ele não calar, ele vai continuar falando. Está na hora da onça beber água e eles acharam que essa frase era a senha.
Eles já tentaram me prender por obstrução de justiça. Não deu certo. Agora querem me pegar numa prisão preventiva que é mais grave porque não tem habeas corpus. O Vaccari está preso há três anos. O Marcelo Odebrecht gastou 400 milhões e continua preso. Mas eu não vou gastar um tostão.
Porque eles não sabem que o problema deste país não se chama Lula, chama-se vocês, a consciência do povo, o MST, o MTST, tem muita gente. Eles sabem que aquilo que a nossa pastora disse e eu tenho dito: não adianta evitar que eu ande por este país porque tem milhões e milhões de Lulas, Boulos, Manuelas, Dilmas Rousseff para andar por mim.
Não adianta tentar parar as minhas ideias porque elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las.
Não adianta parar os meus sonhos porque quando eu parar de sonhar eu sonharei pela cabeça de vocês.
Não adianta achar que tudo vai parar quando o Lula tiver um infarto porque o meu coração baterá pelo coração de vocês. E são milhões de coração. E não adianta eles tentarem fazer com que eu pare. Porque eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia. Uma ideia misturada com a ideia de vocês.
Essa é uma prova: eu vou cumprir o mandato e vocês vão ter que se transformar, cada um de vocês, não vão mais chamar Chiquinha, Joãozinho, Zezinho, todos vocês vão virar Lula e vão andar por este país sabendo o que têm que fazer. Todo dia eles têm que saber que a morte de um combatente não para a revolução. Eles têm que saber que nós vamos fazer uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima de mentiras todo santo dia.
Vocês que são mais inteligentes do que eu poderão queimar os pneus, fazer as passeatas, as ocupações no campo e na cidade. Parecia impossível a ocupação de São Bernardo e amanhã vocês vão ter a notícia de que ganharam o terreno que invadiram.
Eu estava na fronteira com o Uruguai e as pessoas me diziam: Lula, dá uma voltinha ali, só atravessar a rua, finge que vai comprar uísque e vai embora e pede asilo político, você pode ir na Embaixada da Bolívia, do Uruguai, da Rússia, de lá você pode ficar falando. Eu falei que não tenho mais idade e eu vou enfrentá-los olhando no olho. Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que estão me prendendo.
Quanto mais dias eles me deixarem lá, mais Lulas vai nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país. Porque a democracia não tem limite nem hora para a gente brigar. Eu estou fazendo uma coisa muito consciente. Se dependesse da minha vontade eu não iria, mas eu vou. Mas eu vou porque vão dizer que eu estou foragido. Eu não estou escondido. Eu vou lá na barba deles para eles saberem que eu não tenho medo, que não vou correr e que vou provar a minha inocência.
Eu vou terminar com uma frase que eu peguei em 1982 de uma menina em Catanduva que dizia: os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais poderão deter a chegada da primavera. E nós queremos a chegada da primavera, nós queremos mais escolas, mais casas, menos mortalidade, nós não queremos repetir a barbaridade que fizeram com a Marielle no Rio de Janeiro, não queremos repetir a barbaridade que fazem com os meninos negros na periferia deste país, nós não queremos repetir a mortalidade por desnutrição, nós não queremos mais que os jovens não tenham esperança de entrar numa universidade porque este país é tão cretino que foi o último a ter universidade e falaram muito fazer escola e agora eu pergunto quanto custou não fazer há 50 anos atrás.
Eu tenho orgulho de ser o único presidente sem diploma, mas que foi o que mais fez universidade neste país para mostrar que essa gente que não confunda inteligência com anos na universidade. Isso não é inteligência. É conhecimento. Inteligência é quando você sabe tomar decisão. É quando você tem lado. Quando não tem medo discutir com os companheiros o que é prioridade. E a prioridade deste país é garantir que o brasileiro volte a ter cidadania.
Não vou vender a Petrobras, vamos fazer uma nova constituinte e revogar a venda do petróleo. Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa, destruir o Banco do Brasil e vamos fortalecer a agricultura familiar que é responsável por 70 % dos alimentos que comemos neste país.
É com essa crença, de cabeça erguida para chegar ao delegado e dizer: Estou à disposição. E a história vai provar daqui alguns dias que quem cometeu crime foi o delegado que me acusou, o juiz que me julgou e o Ministério Público que foi leviano comigo.
Eu quero que vocês saibam que se tem uma coisa que eu aprendi é gostar de falar com povo, quando eu pego na mão de vocês, quando eu beijo vocês eu não estou beijando por segundas intenções. Eu estou beijando porque eu dizia que eu vou voltar para onde eu vim e eu sei quem são meus amigos eternos e meus amigos eventuais.
Os de gravatinha agora desapareceram. E quem está comigo são aqueles que estavam comigo antes de eu ser presidente. São aqueles que comiam rabada comigo, frango com polenta, que tomava caldo de mocotó no Zelão. É aquele que tem coragem de invadir um terreno para fazer casa, aqueles que têm coragem.
Vocês vão perceber que eu sairei dessa maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente porque eu quero provar que eles é que cometeram um crime político de perseguir um homem que tem 50 anos de história política.
Eu não tenho como pagar a gratidão e o carinho e respeito que vocês têm dedicado a mim durante todo esse tempo. E eu quero dizer a vocês, Guilherme e Manuela. Eu tenho orgulho de ver dois jovens disputando o direito de ser presidente deste país.
Podem ter certeza que este pescoço não vai baixar porque minha mãe fez esse pescoço curto para ele não baixar. Eu vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado. Um forte abraço e muito obrigado por tudo o que vocês fizeram por mim!

http://www.pt.org.br/o-discurso-historico-de-lula-no-abc-na-integra/

Um outro discurso histórico



PT Brasil
Publicado a 09/03/2017