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segunda-feira, 21 de março de 2016

Alice no país das maravilhas matemáticas




Alice no país das maravilhas matemáticas

No 150º aniversário da primeira edição em inglês de Alice no País das Maravilhas – e no 75º da sua estreia em português (do Brasil), nada como uma volta às “maravilhas” matemáticas escondidas no celebérrimo livro de Lewis Carroll.

Apesar de muitos terem dado os parabéns à Alice e às suas loucas aventuras em 2015, quase se poderia dizer que foram parabéns de não-aniversário, como diria o próprio Lewis Carroll (1832-1898), autor do celebérrimo livro Alice no País das Maravilhas.
É que, olhando melhor, a data que aparece na primeira edição oficial do livro no Reino Unido – bem como nos EUA – é… 1866. Ou seja, The Adventures of Alice in Wonderland faz este ano 150 anos.
A razão para só agora felicitarmos é, por isso, totalmente legítima. Mas, como as coisas não podiam ser assim tão simples, é verdade que há uma primeiríssima edição de Alice, de 2000 exemplares – essa sim, datada de 1865 –, mas ela foi, segundo relata o norte-americano Gordon Norton Ray (1915-1986), especialista da época vitoriana e coleccionador de livros, rapidamente retirada do mercado porque a qualidade da impressão não era do agrado de John Tenniel, ilustrador da obra. Mas há mais complicações: apesar de a primeira edição oficial ter sido publicada em Novembro de 1865, o ano que surge na capa daquela edição é de facto 1866, como se de um absurdo erro de lógica ao estilo de Lewis Carroll se tratasse. Quinze anos mais tarde, em 1871, Lewis Carroll publicaria a sequela, Alice do Outro Lado do Espelho.
Seja como for, em 1931 – há 75 anos, portanto – também era publicada a primeira tradução de Alice no País das Maravilhas em português, pela mão do escritor brasileiro Monteiro Lobato (o mesmo do Sítio do pica-pau amarelo). Temos assim não um, mas dois números redondinhos para desejar muitos anos de vida à pequena-grande heroína destas estrambólicas aventuras.
O livro tornou-se um best-seller quase instantâneo entre miúdos e graúdos e desde então já foi traduzido para 180 línguas e adaptado para o cinema, em particular por Walt Disney e Tim Burton.
A personagem central de Alice no País das Maravilhas é inspirada numa menina chamada Alice a quem, reza a história, Charles Dodgson, matemático e diácono britânico, contara pela primeira vez, de improviso, as aventuras da sua homónima imaginária durante um passeio de barco no Tamisa em 1862. Todavia, naquela primeira versão do relato faltavam episódios fundamentais – tais como o lanche com o Chapeleiro Louco ou o sorriso do Gato de Cheshire a flutuar no ar. Dodgson demoraria três anos a aperfeiçoá-lo e publicaria a versão final sob o pseudónimo de Lewis Carroll.
Absurdo universal

Por que é que as aventuras de Alice continuam a ser tão fascinantes ao fim de 150 anos? Parece óbvio que o lado absurdo das situações em que a menina cheia de curiosidade se vê envolvida não é alheio à atracção que estes textos exercem sobre os leitores – mesmo quando estes não percebem totalmente do que se trata.

“Não há quase nenhum enigma ou problema fascinante para o intelecto humano que não [surja] nestes livros num clima de louca alegria e de difícil compreensão”, escrevia há uns meses o ensaísta norte-americano Adam Gopnik na revista New Yorker.
E a seguir, exemplificava: “Quando Ted Cruz [candidato às primárias do Partido Republicano para as presidenciais deste ano nos EUA] explicou recentemente (…) que não pode existir um consenso científico sobre o aquecimento global porque os cientistas são supostamente críticos – sendo portanto que o que é consensual não pode ser científico –, estava a produzir uma absurdidade aparentemente lógica” digna do próprio Humpty Dumpty.
As aventuras de Alice no país das maravilhas já foram interpretadas à luz da linguística, do mundo da infância, da psicanálise, da lógica, da política, da sociologia. E, a partir dos anos 1960, o norte-americano Martin Gardner, divulgador da ciência conhecido pela sua célebre coluna Mathematical Games na revista Scientific American, foi o primeiro a descodificar, ao longo de várias edições do seu igualmente célebre The Annotated Alice, muitos dos enigmas matemáticos e jogos de palavras contidos nos livros de Alice.  
Todavia, o papel da matemática – e em particular da álgebra – nestes livros foi relativamente descurado até recentemente. Diga-se que, quando Lewis Carroll publicou o seu primeiro Alice, era professor de matemática na Universidade de Oxford há uns dez anos. Ora, precisamente nesse local e nessa época, a álgebra moderna – uma álgebra mais abstracta, contra-intuitiva – estava a nascer. E o diácono Dodgson era um religioso e um matemático muito conservador.
Subtexto crítico

Haveria assim, nos livros de Alice, um subtexto de crítica ao que estava a acontecer na sua área de estudo e ensino por parte do seu autor?

Foi em 1984 que Helena Pycior, matemática e historiadora da Universidade do Wisconsin (EUA), emitiu essa hipótese. Num artigo publicado na revista Victorian Studies, esta cientista argumentava que “os livros de Alice encarnam as apreensões de Dodgson, o matemático, acerca da chamada álgebra simbólica, o principal contributo britânico para a matemática da primeira metade do século XIX”.
Vinte anos depois, Melanie Bayley, da Universidade de Oxford, estava a fazer um doutoramento em literatura da época vitoriana quando quis perceber o que teria levado Lewis Carroll a enriquecer de tal maneira a versão inicial de Alice, ao ponto de lhe duplicar o número de páginas.
Houve um artigo que interessou esta investigadora mais do que os outros: o texto que Helena Pycior publicara em 1984. “O século XIX foi um período turbulento para a matemática”, escreveu Melanie Bayley em 2009 na revista New Scientist, “com muitos novos conceitos controversos tais como os números imaginários [um sistema numérico onde os números negativos têm uma raiz quadrada] a serem cada vez mais aceites pela comunidade dos matemáticos”.
E dá mais um passo: “Ao colocarmos Alice no País das Maravilhasneste contexto, torna-se claro que Dodgson, um matemático teimosamente conservador, terá usado algumas das cenas acrescentadas para fazer uma sátira dessas novas ideias radicais.”
Melanie Bayley faz notar que Lewis Carroll era um ferrenho defensor do rigor do raciocínio patente n’Os Elementos de Euclides, o matemático da antiguidade grega que nos deu as bases da geometria e da trigonometria. A partir de “verdades irrecusáveis” (axiomas), a geometria euclidiana enuncia e demonstra, com passos lógicos simples, teoremas complexos.
Para Lewis Carroll, diz Melanie Bayley, a nova matemática abstracta era absurda. E, para a criticar, argumenta, recorreu, no Alice, à técnica euclidiana dita de “redução ao absurdo”. Como? Levando as premissas dessa nova matemática até às suas últimas consequências lógicas, “com resultados malucos”, explica Melanie Bayley. “O resultado é Alice no País das Maravilhas, conclui.
O lanche dos quaterniões

Claro que a tese de Melanie Bayley é apenas uma teoria. Mas a explicação de alguns dos episódios do livro à luz desta interpretação das intenções de Lewis Carroll revela-se bastante convincente.

Um dos exemplos que a cientista analisa por este prisma é o muito conhecido episódio do lanche do Chapeleiro Maluco e da Lebre de Março.
Segundo Bayley, o que está a ser posto em causa nesta cena são uns estranhos números de quatro componentes (quatro dimensões) chamados “quaterniões”. Inventados em 1843 pelo matemático britânico William Hamilton, seguem regras complicadas de multiplicação. Em particular, esta operação não é comutativa neste sistema numérico: a ordem dos factores altera o resultado.
Apesar de parecerem totalmente abstrusos, os quaterniões têm aplicações práticas. “Recentemente, têm sido reconhecidos como uma das maneiras mais eficazes de comunicar informação sobre rotações a um computador”, lê-se por exemplo no site do Departamento de Matemática da Universidade Brown, nos EUA. Mas já na época de Carroll a importância dos quaterniões tinha sido reconhecida, na medida em que permitiam calcular rotações de forma puramente algébrica (o que significa, justamente, que hoje estes cálculos estão ao alcance de um programa de computador).
Todavia, salienta Melanie Bayley, Hamilton tinha passado anos a trabalhar com números com apenas três termos (uma para cada dimensão do espaço), mas só conseguia fazê-los efectuar rotações num plano e não no espaço tridimensional. E foi ao acrescentar uma quarta dimensão aos quaterniões que conseguiu o resultado pretendido. Só que, como Hamilton não percebia bem o que era essa quarta dimensão, achou natural supor que representava o tempo.
O que fez o céptico Lewis Carroll aos pobres dos quaterniões? Transformou os seus três primeiros termos respectivamente num Chapeleiro Maluco, numa lebre (de Março) igualmente louca e num arganaz (uma espécie de rato) cheio de sono, todos sentados bem juntinhos num dos cantos de uma grande mesa cheia de loiça para lanchar.
Onde está o Tempo? Alice é informada que o Tempo não veio à festa porque ele e o chapeleiro se zangaram um com o outro no mês de Março – e que, ainda por cima, para se vingar, o Tempo não deixa, desde então, a hora avançar para além das seis da tarde.
“Lendo esta cena com a matemática de Hamilton em mente”, escreve Melanie Bayley, “(…) esses três personagens não conseguem levantar-se da mesa, sendo obrigados a deslocarem-se constantemente à sua volta [ou seja, no plano da mesa] à procura de chávenas e pires limpos”. E infelizmente, como Alice não consegue substituir o Tempo, a sua presença só contribui para aumentar a confusão.
“Atrever-me-ia a dizer que, sem a feroz sátira de Dodgson dirigida aos seus colegas, Alice no País das Maravilhas nunca se teria tornado famoso e Lewis Carroll não seria recordado como o mestre sem rival da ficção do absurdo”, conclui a cientista.
https://www.publico.pt/ciencia/noticia/alice-no-pais-das-maravilhas-matematicas-1726556?page=-1

Texto do livro em 
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/alicep.pdf

sábado, 4 de julho de 2009

Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe

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Digestivo nº 409 >>> Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
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DIGESTIVOS >>> Literatura
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Sinopse

Nestes contos - selecionados e traduzidos por José Paulo Paes -, Edgar Allan Poe (1809-1849) imaginou algumas das mais conhecidas histórias de terror e suspense da literatura, tramas que migraram da ficção direto para o imaginário coletivo do Ocidente. É o caso de 'O gato preto', a tenebrosa história de um assassinato malogrado, ou de 'O poço e o pêndulo', que apresenta uma visão macabra da ansiedade da morte. Pioneiro dos contos de mistério, como 'A carta roubada' e 'O escaravelho de ouro', Poe deu a seus personagens notável profundidade psicológica. Usando diversos artifícios narrativos inovadores, criava climas e situações aterrorizante.
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Segunda-feira, 8/6/2009
Literatura
Julio Daio Borges
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Poe, reza o clichê, inventou o gênero terror e as histórias de detetive. E Poe impressionou Baudelaire e, no Brasil, foi traduzido por ninguém menos que Machado de Assis. Mas Poe é muito mais que isso. Poe, em matéria de terror, inventou as múmias que ressuscitam (muito antes do cinema inventar-se a si próprio); os pets que são mortos e revivem (acabando com a graça de todo e qualquer Stephen King); e os loucos que tomam conta do hospício, bem como o “defunto autor” (contemporâneos ou antecessores do nosso Machado?). As histórias de detetive Poe inventou sem querer e, se fosse vivo, teria se arrependido da proliferação do gênero numa subliteratura que ele nunca praticou. Poe impressionou Baudelaire porque viveu como o mesmo – como um poeta –, com direito a doses de loucura no final e deixando sérias dúvidas sobre sua causa mortis. (A última história de terror de Poe?) Embora o entretenimento tenha se apossado de suas criações, o que nos faz pensar que ele possa ter alguma coisa a ver com isso, Poe era um literato e como tal escreveu, felizmente. A prova viva está nesta nova edição, pocket, de Histórias Extraordinárias, selecionadas, traduzidas e apresentadas por José Paulo Paes. Saber da vida de Poe não é fácil como não é, igualmente, fácil lê-lo hoje. Incrível como simples histórias do século XIX podem arrepiar os cabelos de alguém no século XXI – quando o audiovisual banalizou qualquer susto –, mas podem... Poe está à espreita! E nunca morre.
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in Digestivo Cultural
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O Corvo (The Raven) é um poema do escritor estadunidense Edgar Allan Poe escrito originalmente em inglês. Na língua portuguesa encontra-se em duas traduções:


O Corvo
por Edgar Allan Poe
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Tradução de Fernando Pessoa

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Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
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Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
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Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
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E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
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A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
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Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
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Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
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E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
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Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
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Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
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A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
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Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
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Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
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Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
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"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
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"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
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"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
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E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

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The Raven
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by Edgar Allan Poe
"The Raven" is a narrative poem by the American writer and poet Edgar Allan Poe. It was published for the first time on January 29, 1845, in the New York Evening Mirror. Noted for its musicality, stylized language and supernatural atmosphere, it tells of the mysterious visit of a talking raven to a distraught lover, tracing his slow descent into madness.
Excerpted from The Raven on Wikipedia, the free encyclopedia.
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1858 illustration by John Tenniel.
1884 illustration by Gustave Doré.
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Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor", I muttered, "tapping at my chamber door —
Only this, and nothing more."
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Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; — vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow — sorrow for the lost Lenore —
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore —
Nameless here for evermore.
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And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me — filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door —
Some late visitor entreating entrance at my chamber door; —
This it is, and nothing more."
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Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you" — here I opened wide the door; —
Darkness there, and nothing more.
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Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore?"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!" —
Merely this, and nothing more.
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Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore —
Let my heart be still a moment and this mystery explore; —
'Tis the wind and nothing more."
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Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door —
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door —
Perched, and sat, and nothing more.
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Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore —
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
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Much I marveled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning — little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door —
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."
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But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered — not a feather then he fluttered —
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before —
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."
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Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore —
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never — nevermore'."
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But the Raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore —
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."
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This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!
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Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee — by these angels he hath sent thee
Respite — respite and nepenthe, from thy memories of Lenore
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
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"Prophet!" said I, "thing of evil! — prophet still, if bird or devil! —
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted —
On this home by horror haunted — tell me truly, I implore —
Is there — is there balm in Gilead? — tell me — tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
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"Prophet!" said I, "thing of evil — prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us — by that God we both adore —
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore —
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."
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"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting —
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! — quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
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And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted — nevermore!


This work published before January 1, 1923 is in the public domain worldwide because the author died at least 100 years ago.