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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Carlos Coutinho - Fátima (em árabe فَاطِمَة ٱبْنَت مُحَمَّد)

Carlos Coutinho

2024 09 04
 
MAL sabia a filha mais nova de Maomé, uma muçulmana dos quatro costados, Fátima (em árabe فَاطِمَة ٱبْنَت مُحَمَّد, mas em termos romanizados Fāṭimah bint Muhammad) que o seu nome haveria de identificar um catolicíssimo e imponente santuário no luso distrito da Leiria que até papas e bispos aos molhos já teve em exercício litúrgico, nas peregrinações anuais e nas mensais, somando todas muitos milhões de devotos, uns calçados e outros descalços, uns em pé e outros a rastejar ou mesmo de joelhos.

   A Senhora que veio cá chama-se Maria e teve pelo menos um filho que morreu crucificado no Gólgota, mas revirginou-se para se exceder em pureza e poder vir dez vezes à Cova da Iria, dentro de um manto branco absolutamente virginal e etéreo, como tudo que sai do céu. 

   Mergulhou em voo vertical de olhos abismados pelo azul celeste e poisou no ramo cimeiro de uma azinheira, porque não trazia sapatos que pudessem pisar o chão pedregoso da charneca insada de sardaniscas, lacraus e formigas abusadoras.

   Escolheu sempre os dias 13, por serem os do azar e, talvez, por pensar que com o azar dos outros podia ela bem, mas na quarta partida, por se ter distraído a folhear a agenda, só cá apareceu no dia 9, coisa de que papas e bispos guardaram para si e impuseram como segredo teológico, por que se estava em 1917 e havia guerras por todo o lado. Até em certos conventos.

   Como sempre, a S.ª D. Maria não resistiu a falar de profecias inverosímeis aos três pastorinhos analfabetos que passaram a ir ao seu encontro em traje domingueiro e penteadinhos a rigor. Diz quem viu que, numa das “aparições” o Sol tremeu, como se tivesse entrado em pânico ou o acometesse um orgasmo cósmico. Com o tempo, o santuário de Fátima legitimou os fabulosos negócios da água benta vendida ao garrafão e em frasquinhos popularuchos, aliviado de impostos e sempre enriquecendo mais os cofres do banco do Vaticano.

   Enfim, a S.ª D. Maria pode ainda gabar-se de glórias e milagres às dúzias, mas a verdade é que estará sempre muito longe de possuir uma biografia palaciana, mundana e celestial como a da verdadeira Fátima, a que nasceu em Meca e foi morrer a Medina, tendo vivido menos de 30 anos e dado à luz dois filhos que foram califas. A sua mãe chamava-se Cadija e fora a primeira esposa do primeiro escolhido de Alá, Maomé. Quanto a ela, apenas se casou com Ali, que foi o quarto califa para os sunitas e o primeiro para os xiitas.

   Antes, no entanto, passou por grande pobreza, azar que só despareceu quando a comunidade a que pertencia pôde comprar terras e propriedades, em resultado das primeiras conquistas sob comando de Maomé. Presenteou Ali, o marido, com três filhos. A saber, Haçane, o segundo imã xiita depois de seu pai e, por um curto período, também o califa dos muçulmanos; e Huceine, o terceiro imã xiita, cujo martírio em Carbala deixaria uma impressão indelével tanto na psique xiita quanto na história islâmica como um todo; e Moḥassen (ou Moḥsen, morto muito jovem). Fátima também deu à luz duas filhas, Umm Cultum e Zainabe.

   Os relatos conhecidos dizem que em seus últimos dias, Maomé juntou Ali, Fátima e seus dois filhos sob seu manto e disse-lhes: “Deus deseja remover a impureza de vocês, ó povo da casa [AHL AL-BAYT], e purificar-vos completamente você” (Q 33:33). Isso confirmou o estatuto sagrado de todos os cinco membros da casa de Maomé e, como resultado disso, eles são muitas vezes designados como o Povo da Capa (ahl al-kisāʾ, também conhecido em árabe como al khamsa e em persa como panj tan, sendo que ambos significam simplesmente “os Cinco”).

   Quando Maomé estava no seu leito final, em 632, Fátima e Ali cuidaram dele, enquanto a liderança da comunidade estava sendo decidida noutro lugar pelos associados de Muhammad Abu Bakr (falecido em 634), Umar Ibn AL-Khattab (falecido em 644) e seus aliados. Assim, foi implicada nos eventos que levaram à divisão entre os ramos sunita e xiita. Morreu jovem, um ano depois do pai. Diferem as opiniões quanto ao local onde ela foi enterrada.

    Para alguns Fátima foi enterrada no cemitério de Baqi, perto da casa de Muhammad; outros dizem que ela foi enterrada no terreno de sua mesquita continuando muito reverenciada pelos muçulmanos, especialmente pelos xiitas. Entre os outros nomes pelos quais ela é conhecida estão al-Zahra, “a Radiante”, al-Mubaraka, “a Abençoada” e al-Tahira, “a Pura”. 

   De acordo com as hagiografias xiitas medievais, seu casamento com Ali foi celebrado no céu e na Terra, descendendo todos os imãs xiitas desse casal. Também houve sempre quem dissesse que, por causa de sua pureza, Fátima não menstruava, como acontece s outras mulheres. Além disso, ela será a primeira a entrar no paraíso após a ressurreição e, como à Sr.ª D. Maria no Cristianismo católico, intercederá por aqueles que a honram e a seus filhos e descendentes, os imãs. 

   Embora o nome de Fátima não seja mencionado no Alcorão, os comentários xiitas apontam passagens que acreditam conter referências ocultas a ela, como Q 55:19, onde os dois oceanos de água que fluem juntos são interpretados como o reencontro de Ali e Fátima após uma disputa.

   Fátima deriva da raiz f–t–m, que significa “separar” ou “desmamar uma criança”. De acordo com uma tradição – da qual existem  algumas variantes –, a sabedoria de nomeá-la Fátima lucidez suprema está no facto de seus “descendentes” (dhurriyya), os xiitas e os devotos (muḥibb) de Fátima, serem separados de (fuṭima) o Fogo. Há também a crença de que uma das qualidades de Fátima é ser separada de todo o mal. O Profeta teria dito em várias ocasiões que Fátima mantém seus filhos e seus amigos e seguidores fora do alcance do Diabo. 

   De acordo com um hadith registado pelo imã al-Ṣādiq, Fátima tem nove nomes diante de Deus: Fátima, al-Ṣiddīqa, al-Mubāraka, al-Ṭāhira, al-Zakiyya, al-Rāḍiya, al-Marḍiyya, al-Muḥaddatha e al- Zahrāʾ. O facto de tais nomeações haverem sido fornecidas por Deus e consideradas atributos de Fátima afirma a sublime nobreza desses nomes. 

   Nas tradições esotéricas, a virgindade das deusas e as manifestações terrenas do sagrado feminino não se restringem à virgindade física. Possuem também conotações transcendentes e metafísicas, como ser inatingível, impecável, prenhe de possibilidades ocultas; ou, noutro nível, indeterminação e impenetrabilidade. Nesse mesmo sentido, a virgindade é vista como condição básica para a realização da plena recetividade feminina (qābiliyya), no sentido de estar pronta para suportar o peso do Verbo Divino e do Espírito Santo. A recetividade da Virgem Maria (Maryam) para levar a Palavra Divina, tanto na tradição cristã quanto de acordo com o Alcorão pertence a esta categoria. 

   A sunna e a literatura hadith enfatizam a virgindade de Fátima ao lado da de Maria. É por esta razão que ela recebe o título de batūl (comparável a virgem, embora também signifique uma mulher que não menstrua

   O nome Fátima é muito comum entre as mulheres muçulmanas. Na África negra utilizam-se as variantes Fatimata, Fatoumata e Fatou.

   A hamsá, ou Mão de Fátima, é um talismã usado por alguns muçulmanos que acreditam que ele pode afastar o mau-olhado. Também é usado como talismã no Judaísmo, por vezes adornado com estrelas da David, já que a mãe de Jesus era uma judia de Nazaré, tal como o Filho. Segundo a tradição judaica, esta é a mão de Miriam, irmã de Moisés e Arão, profetas que conduziram o Povo Escolhido, o povo judeu, do Egito até à Terra Prometida.

   De notar que Medina, a cidade que Fátima escolheu para ir morrer, tornou-se especialmente ilustre ao fornecer a um abutre português que viria a ser ministro das Finanças o nome com que subscreveu a cativação de várias verbas estabelecidas no Orçamento do Estado, gerando penúrias de que ainda estamos a sofrer.

https://www.facebook.com/groups/177516199108469/? 

terça-feira, 23 de abril de 2024

Edgar Silva - A religião e os valores humanistas na obra de José Saramago



Nota introdutória

É de grande atualidade o “Evangelho Segundo Jesus Cristo” quando, mais uma vez, tantos cristãos estão a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus, nestes dias em que o absurdo da guerra, entre outros profundos nexos causais, na Europa, também é justificada por alguns hierarcas por motivos da religião.

O “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, publicado em 1991, tem 24 capítulos, não numerados que totalizam 445 páginas. É o romance mais longo de José Saramago. Naquele texto, mais do que versar sobre a história de Jesus desde a sua conceção até à sua crucificação, na companhia de Jesus, Maria, José, Maria Madalena, dos discípulos de Cristo e do diabo, Saramago é o “evangelista” que faz uma releitura de tragédias da humanidade, da tragédia de todo o humano, designadamente, da vida dos «crucificados menores». O autor português constrói a história dos «crucificados menores» em confronto com o divino e o demoníaco, no fundo, a história da humanidade em prolongada busca de si mesma.

Uma arquitetura do sagrado

Ao longo da sua obra, José Saramago constrói cenários socias, políticos e religiosos imersos numa iconografia judaico cristã, projetados segundo um profundo imaginário religioso.

Revelando exaustivo estudo de textos bíblicos, como é raro na história da literatura portuguesa, na liberdade da palavra, explorando um discurso conotativo, com um fluxo semântico torrencial, por vezes vertiginoso, Saramago desenha uma arquitetura do sagrado. Materializa a crítica do sagrado enquanto religião institucionalizada, como parte da ideologia de domínio social, enquanto componente dos mecanismos repressivos das sociedades. Na sua conceção do sagrado a religião institucionalizada mantém tanta gente num estado de adormecimento, de aceitação de sacrifícios, em resignação, impedindo que os humanos vivam plenamente a sua humanidade. Essa religião como que suga a vontade humana.

Quer seja através de monólogos intimistas ou reflexões sentenciais, quer seja por ditos proféticos, apartes e antevisões ou personagens e histórias trágico-maravilhosas, o autor do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” constrói narrativas de rituais religiosos, de quadros bíblicos, de tradições e relatos do judaísmo e do cristianismo. E naquela arquitetura do sagrado, Saramago inaugura uma nova linguagem sobre o fator religioso, relê a linguagem antiga, desnudando a ideologia ou desvelando as camadas de ideologia transportadas por determinadas interpretações dadas aos textos bíblicos, às instrumentalizações retóricas, políticas, sociais das figurações de Deus.

Na sua arquitetura do sagrado, no “Evangelho”, Saramago dessacraliza a palavra tida por sagrada pelos crentes. O narrador é o agente dessa dessacralização. Reproduz histórias da Bíblia para apresentar Deus tal como é mencionado em diferentes contextos no Antigo Testamento. Saramago utiliza as citações bíblicas, reapresenta-as, multiplica as citações ipsis verbis do Antigo e do Novo Testamento, para expor o que considera iniquidades de Deus.

Da história de Deus, conclui Saramago no seu “Evangelho”: é «uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas».1 Do relato acerca de Deus sentencia Saramago: «É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue».2

O que há entre Saramago e Deus?

Sendo ateu, Saramago revela-se apegado à ideia de Deus. A sua literatura manifesta uma vasta incidência de temas bíblicos. Não é só no “Evangelho Segundo Jesus Cristo” que Deus, enquanto tema, está presente na obra de Saramago: Deus lá está na “Terra do Pecado”, na “História do Cerco de Lisboa”; em “Levantados do Chão”; no “Memorial do Convento”; em “Todos os Nomes”; nas peças de teatro “In Nomine Dei” e na “Vida de São Francisco de Assis”; nos romances “Ensaio Sobre a Cegueira” e em “Caim”.

Selam Ferraz, no seu estudo sobre «um certo perfil de Deus» em Saramago, refere que «ao longo de sua obra, ele vai apontando perfis de Deus que o incomodam. Em Terra do Pecado, seu primeiro romance, critica um Deus que não gosta de prazer e de sexo; em Memorial do convento, critica aqueles que edificam grandes catedrais para Deus; na peça de teatro In Nomine Dei, critica as guerras que se fazem em nome de Deus. Finalmente em o Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago questiona o Deus de Amor que deixa que seu único filho seja crucificado e que não concede o perdão a Lúcifer».3

Mais do que questionar Deus, Saramago rejeita-o, rejeita o Deus cruel, sanguinário, vingativo. Saramago recusa Deus em defesa da humanidade e, por isso, coloca-se do lado de Jesus. A recusa de Deus é, ao mesmo tempo, acompanhada da valorização da figura de Jesus.

Em contraposição à crueldade de Deus e à arrogância de Deus, Saramago identifica-se com o personagem Jesus. Tanto assim que o narrador do romance nem precisaria declarar - mas declara – que, enquanto no “Evangelho” Deus é o anti-herói, Jesus é o evidente herói daquele evangelho.4 Deus é o grande antagonista no “Evangelho de Saramago”, porque, enquanto Jesus e, diga-se, o Demónio procuram compreender os humanos, Deus procura submete-lo à sua vontade, alargar o número de fiéis e o poder que tem sobre eles.

Saramago destaca a figura humana, demasiado humana de Jesus. Se Saramago rejeita Deus é para exaltar, na figura de Jesus, a figura humana, o homem e a sua dor, o homem e a sua revolta.

Em Saramago há a identificação de Jesus com a humanidade, num processo narrativo que vai ficando mais claro nos diversos episódios que o romance recolhe da sua vida, havendo mesmo uma passagem do “Evangelho” de Saramago na qual Jesus, de certo modo, recusa Deus em favor dos homens: «Não podes ir contra a vontade de Deus - diz-lhe Pedro. Não - responde Jesus - mas o meu dever é tentar».5 Ou seja, em Saramago o Filho de Deus, em vez de se entregar aos desígnios do Pai celestial, ousa questioná-lo em nome da própria humanidade e em favor da humanidade.

Em contraposição aos homens sem vontade ou de vontade adormecida, que deixam de ser verdadeiramente humanos, contrários ao próprio movimento da História, existe um novo mundo por erguer, uma outra força que radica na vontade humana, que liberta os povos da religião institucionalizada, que comporta uma imensa capacidade criadora e transformadora, que possui potencialidades para superar todas as marcas da nossa humana fragilidade. No “Evangelho de Saramago”, o Cristo Homem traz consigo todas as marcas da nossa humana fragilidade e, correlativamente, da nossa força divina. E é neste sentido que na humanidade há uma infinita vontade de transformação do mundo.

Nesta leitura do Nobel português da literatura poderá dizer-se que no “Evangelho de Saramago” o Cristo Homem revela à humanidade a grandeza do humano, o personagem Jesus manifesta o quanto nos falta para chegarmos a ser verdadeiramente humanos.

Teologia de Saramago

Tal como os demais romances de Saramago e, antes de mais, no seu “Evangelho” sobressai aquele que é um dos maiores legados do nosso Nobel da Literatura: o alçar a humanidade ao papel de principal ator da existência.

No contador da História e de histórias que nos fascinam e apaixonam é o humano que interessa. Em José Saramago importa a humanidade detentora do seu próprio destino e única responsável pelos seus próprios atos.

No texto de Saramago “ao homem nada é impossível”. Ele é capaz de cuidar do seu próximo, é capaz de inventar, de criar, de fazer a história prosseguir. Tal como a vontade humana é capaz de amar de forma incondicional, o génio humano (tal como Blimunda, Baltasar e Bartolomeu Lourenço) é capaz de erguer a passarola; é capaz de superar obstáculos (como na saga dos Mau-Tempo) e é capaz, até mesmo, de mudar o rumo da história. Precisa, no seu Evangelho, de matar a inflexível imagem do Deus todo poderoso, como condição para que se liberte a humanidade.

Quando é exposta a humana fragilidade, a nossa cegueira, o medo da morte, as capacidades de destruição, logo Saramago exibe o homem ao próprio homem, a capacidade de sublimar, de compaixão, do altruísmo, da liberdade, da justiça, do amor. Demasiado humano, o humano é mortal, no entanto, aspira à imortalidade; está sujeito ao tempo, porém, aspira à divindade; é criatura, mas deseja ser criador.

Tal como todos nós, no “Evangelho de Saramago”, o Cristo Homem traz consigo todas as marcas de nossa humana fragilidade e de nossa força divina. E é em nome da humanidade que Saramago, através dos tensos diálogos, das suas alegorias, da elaboração de grandes metáforas e parábolas, nas diversas formas de confronto do humano com o absurdo, com o desconhecido, através da ficção narrativa, nos seus retratos literários, em tudo persegue um objetivo: a tentativa de entender o que significa o ser humano.

No Centenário do nascimento de Saramago será destacada a atualidade da sua obra, relida aquela literatura que continua a habitar e a inquirir os nossos dias. Para além de tudo isso, entre muitos outros aspetos, importará valorizar, de sobremaneira, a acutilância da sua palavra sobre o muito que nos falta para chegarmos a ser verdadeiramente humanos, com a insistência de uma indomável confiança na luta dos Povos, uma esperança que não aceita qualquer forma de resignação, nem a exploração, nem a desigualdade que desfigura a comum humanidade dos humanos.

Muito devemos a Saramago, mas, em particular, “como evangelista”, com ele aprendemos a dizer como ainda nos falta tanto caminho para chegarmos a ser autenticamente humanos. E é, por isso, que podemos dizer quanto o “Evangelho de Saramago” nos remete para uma profunda reflexão teológica, reporta-nos para universos da teologia antropológica dos grandes mestres, como o foi Karl Ranher, ou como nos sugere a mais pura teologia da esperança.

Tal como afirmou Max Horkheimer. «a teologia, para mim, é a esperança de que a injustiça que caracteriza o mundo não seja a última palavra».6

1 SARAMAGO, José – Evangelho…, 1998, 381.

2 SARAMAGO, José – Evangelho …, 1998, 391.

3 FERRAZ, Selma – Quais são as faces de Deus? IHU 299 (6 de julho 2009) s.p.

4 Cf. SARAMAGO, José – Evangelho…, 1998, 239.

5 SARAMAGO, José – Evangelho…, 1998, 436.

6 HORKHEIMER, Max – Elipse da Razão. Zahar: Rio de Janeiro, 1976, 18.

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CONFERÊNCIA
Uma visão universal e progressista da História - A actualidade da Obra de José Saramago
22 Outubro 2022

https://www.pcp.pt/religiao-valores-humanistas-na-obra-de-jose-saramago


Edgar Silva foi padre e é investigador no Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e dirigente do PCP.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Carlos Coutinho - Folias

* Carlos Coutinho


   Dois dias depois do Domingo Gordo, nunca falha uma foliona terça-feira com o seu Entrudo e, pelo menos para os católicos e seus vizinhos do lado, lá vem também a Quarta-Feira de Cinzas, que sempre dá início ao mórbido percurso da Quaresma

   É tradição no Domingo Gordo, aquele que precede o Carnaval e em muitos lugares é precedido pelo Domingo Magro, sendo que este só serve para meditar e orar, enquanto que no gordo se come à fartazana iguarias pesadas, como o cozido à portuguesa, uma das diversas feijoadas que são quase nacionais, ou as papas de sarrabulho que, ao contrário da vulgaridade nortenha, sobretudo minhota, são cozinhadas com mel e miolo de noz - uma sobremesa deliciosa na minha infância duriense. 

   Geralmente, em tempos antigos, com a matança do porco por alturas do Natal, as carnes mais gordas eram cuidadosamente guardadas e salgadas pelas famílias para serem saboreadas neste dia.

   Quanto ao Entrudo, sabe-se que é coisa tão antiga que até se julga haver recebido o nome do latino introitum historicamente também designado como entroydo e ontroydo (século XIII), entruido (século XIV) e entrudo (século XV). Por cá era um folguedo galaico-português realizado nos três dias que antecedem a entrada da Quaresme e nos quais os foliões arremessavam baldes de água, limões de cheiro, ovos, tangerinas, pastelões e luvas cheias de areia, golpeavam-se com vassouras e colheres de pau e sujando-se com farinha, gesso, etc. 

   Depois vinha a Quarta-Feira de Cinzas (Feria quarta cinerum, em latim) que é, como se sabe, o primeiro dia da sorumbática Quaresma, que, no calendário católico, é quando se recebe aqueles restos de fogueira devidamente peneirados que neste dia são um símbolo da reflexão a ter sobre o dever da conversão, da mudança de vida, recordando a passageira, transitória, efémera fragilidade da vida humana, sujeita à necessária e implacável morte. O desgraçado étimo quaresma  é originário do latino ‘quadragesima dies’ (quadragésimo dia).

  Já quanto à Quinta-Feira Santa,  ou Quinta-Feira de  Endenças, ou Grande e Sagrada Quinta-Feira, é o quinto dia da Semana Santa no cristianismo ocidental o sexto no oriental (que  tem também o Sábado de Lázaro, anterior ao Domingo de Ramos. É neste dia que se comemora o lava-pés e a Última Ceia, segundo o relato dos evangelhos canónicos e a enigmática pintura de Da Vinci.

   Já a Sexta-Feira Santa ou Sexta-Feira da Paixão ou Sexta-Feira Maior é uma data religiosa cristã que relembra a crucificação do Mestre e a sua morte no Calvário enquanto o  Sábado de Aleluia (em latim: Sabbatum Sanctum), também conhecido como Sábado Santo é a véspera da Páscoa, 

   Em termos litúrgicos, o Sábado Santo vai até às 18 horas consideradas o início do crepúsculo, começando logo a Vigília Pascal  que inicia oficialmente a Época da Páscoa. 

   No mundo o ortodoxo, este dia, conhecido como Grande e Santo Sábado, é chamado também Grande Sabá  pois foi neste dia que Jesus “descansou”. Nas tradições coptas, etíopes e eritreias, este dia é conhecido como Sábado de Alegria.

   Os ramos que os fiéis levam são um desastre para muitos milhões de árvores, por esse mundo fora, mas ainda não havia ecologia ambiental quando tal tradição se estabeleceu. 

Coisas…

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

sábado, 23 de dezembro de 2023

Carlos Matos Gomes - A derrota do Deus do Ocidente





Carlos Matos Gomes

A ação do Estado Judaico na Palestina, o genocídio em Gaza e a destruição da Cisjordânia constitui um ato que os seus autores pretendem que seja o ato final do direito de origem divina de Povo Eleito à Terra Prometida, a provocar um Armagedeão em termos do Antigo Testamento bíblico. Os dirigentes judaicos justificaram e justificam com o Antigo Testamento da Bíblia e com o seu deus Javé a ocupação manu militari de mais este território da Terra Prometida a Abraão há quatro mil anos. Sem a dimensão religiosa não é possível entender a política do Estado de Israel, o discurso e o comportamento dos seus dirigentes e a atitude de arrogância que revelam perante aa comunidade internacional (gentios) e até contra os seus protetores americanos.

No entanto, no Ocidente cristão esta guerra santa, equivalente a uma cruzada ou uma jhiad, está a ser quase exclusivamente analisada sob o ponto de vista técnico, como um historicamente vulgar conflito tendo por base os interesses de grupos políticos, económicos e sociais, interesses estratégicos de poder global envolvendo superpotências e potências regionais. Como mais uma “guerra” das muitas em que o Ocidente se tem envolvido desde que se reconstituiu após a queda do império romano, tendo o cristianismo como base ideológica e civilizacional.

No entanto esta é uma guerra de rutura civilizacional, que coloca em causa as raízes mais profundas da nossa civilização, que promove a substituição dos valores do cristianismo e do Novo Testamento pelo judaísmo e pelo Velho Testamento, o retrocesso de uma civilização de abertura, que o cristianismo foi e daí a sua universalidade, por uma civilização fechada, racista e suprematista como é o judaísmo.

O que nos tem sido apresentado pelos grandes meios de manipulação são episódios da violência inerente a qualquer confronto armado, com a particularidade da utilização de meios desproporcionados, da impiedade e da ausência de limites, ou de misericórdia. Os autores do guião da ação do Estado de Israel em Gaza e na Cisjordânia e os especialistas contratados para a analisar pretendem inculcar a ideia de que a atual ação militar contra as populações palestinianas faz parte do “direito de defesa de Israel”, pelo que o mundo estaria perante um facto recorrente, apenas um pouco mais sangrento, mas sem que nada de essencial tenha sido alterado. O discurso dominante, mesmo quando especializado, encontra-se delimitado pela análise da arte da guerra: aniquilação do inimigo através do genocídio, ou por uma conjugação de massacre e sujeição dos vencidos aos princípios e leis dos vencedores.

Podemos chocar-nos com o genocídio dos palestinianos executado a frio e com justificações de aberrante hipocrisia em nome dos interesses do Ocidente americano, mas do ponto de vista estratégico e operacional, como referem os comentadores militares, a operação está a decorrer muito bem e conforme o planeado. Nada de novo: Delenda Carthago! — Cartago tem de ser destruída! — assim terminava Catão os discursos fosse qual fosse o assunto. O mesmo afirmam Netanyahou e os seus camisas negras em todas as ocasiões: Delenda o Hamas! — Delenda Gaza, a Cisjordânia! Até surge nas notícias o picante de que os alvos são selecionados pela Inteligência Artificial, o que, numa segunda leitura, reduz os pilotos dos aviões, os artilheiros, os manipuladores de drones a imbecis que se limitam a seguir a inteligência das máquinas. Mas como é em nome da promessa da posse da Terra Prometida, tudo se desculpa e nenhum desses seres invocou problemas de consciência.

Há, contudo, uma outra análise que deve (devia) ser feita e que remete para a profundidade das raízes desta ação de Israel — da vingança histórica e milenar que ela materializa contra o Ocidente. O Ocidente está a dar a oportunidade de ouro para a realização do mais extraordinário ato de vingança contra si próprio desde a instauração do cristianismo como religião do império romano decretado no século IV por Constantino, dentro do princípio cujus regio, ejus regio — a religião do príncipe é a religião do país.

Independentemente das convicções religiosas de cada um é inegável a importância das religiões na organização das sociedades e na vida dos seres humanos. Para criar instituições políticas, o primeiro obstáculo é o de superar a desconfiança geral do grupo. Não se pode organizar um sistema político estável se a população, ou pelo menos uma parte dela, não aceita a autoridade de um chefe. A resposta mais eficaz a este desafio foi concentrar a autoridade religiosa e a do chefe político e militar. Estabelecer a religião como fonte da autoridade política. O primeiro registo desta ideia parece ser o do faraó Akenaton (1350 a.C), que se declarou emissário de um único Deus, Aten, a única ponte entre o humano e divino. A associação do poder de base militar e religiosa teve consequências para a religião, que se tornou parte da organização política.

A criação dos deuses e das religiões constituem as mais importantes descobertas do ser humano, mais importantes que a descoberta da roda, do fogo ou da escrita. O ser humano não quer apenas viver, tem necessidade de dar sentido à vida. A religião é um dos espaços para dar sentido à vida e os deuses são criações do homem, têm real existência. Quando um piloto judeu larga uma bomba do seu avião sobre Gaza em nome do seu deus, esse deus existe, mata e venceu o deus que não salvou os seus fiéis palestinianos. O deus dos cruzados europeus que atacaram o Templo de Jerusalém e mataram os que lá se encontravam a ponto de o sangue dar pelos jarretes dos cavalos existia e venceu o deus que lá estava. Os deuses existem, têm criador e, infelizmente, os criadores de deuses são por norma os mais ambiciosos e sem escrúpulos dos homens, que os utilizam para lhes servirem de instrumento de domínio.

A dimensão religiosa desta ação do Estado judaico devia e deve estar no centro das análises, porque é ela que, em última instância, determina o futuro de todos os envolvidos e, desde logo, do Ocidente que fornece as armas e o apoio político e ideológico a quem se bate por um deus que é o seu e que há dois mil anos foi derrotado pelo deus do Ocidente.

O Estado de Israel tem o judaísmo por infraestrutura ideológica. Pelo seu lado, o Ocidente, a partir do édito de Milão e da “conversão” de Constantino, validou o cristianismo como religião oficial, colocando o judaísmo na situação de seita responsável pela morte e sacrifício do novo Deus de Roma. Durante séculos, até ao nazismo, os judeus foram tidos no imaginário ocidental como um povo-vítima, pacífico, perseguido, estigmatizado, que se deixava sacrificar sem luta. O judaísmo era uma religião de mansos que viviam em guetos e aí celebravam os seus rituais. O Ocidente ignorou a violência genética do judaísmo e do seu deus, Javé. Não pareceu surpreendido com o terrorismo que os judeus praticaram logo que tiveram a oportunidade de reunirem uma massa critica adequada primeiro no protetorado britânico da Palestina, que evoluiria para Estado de Israel sob os auspícios das Nações Unidas, atribuindo as práticas dos seus grupos terroristas à necessidade de defesa e ao seu direito de existência. Não era: o judaísmo é geneticamente violento, por ser exclusivista, racista e negacionista do outro, por se assumir como a prova de que é a ideologia de um povo eleito, superior.

O grande sofisma utilizado pela elite judaica no coração do Ocidente para se confundir com ele e o tomar por dentro tem sido o de que o cristianismo é uma “continuação” do judaísmo (uma justificação que também serviria para o islamismo…) e o instrumento culminante dessa manobra de continuidade do cristianismo a partir do judaísmo foi o Estado de Israel, promovido pelo movimento sionista, aproveitando as condições do pós-Segunda Guerra.

Na realidade, o cristianismo é uma nova religião que nasceu e se desenvolveu em confronto direto e irredimível com o judaísmo. Durante dois mil anos o convívio entre as duas religiões teve episódios de grande conflitualidade — a Inquisição, os pogrom e o nazismo — alternando com outros de coexistência mais ou menos tolerada segundo os interesses do momento, em especial nos momentos de aperto financeiro dos soberanos cristãos.

O facto de duas famílias judaicas dominarem desde o século XVIII o sistema financeiro mundial, o coração do sistema capitalista, as duas praças mundiais, os Rothschild em Londres (e também Frankfurt) e os Rockfeller em Nova Iorque fez com que o judaísmo, enquanto formatador civilizacional, aparelho ideológico e legitimador de comportamentos fosse parasitando e metastesiando o corpo principal da civilização ocidental, tendo o cristianismo como base dos seus princípios.

Segundo o Antigo Testamento da Bíblia, pelo qual se regem os judeus, o pacto entre eles e Javé, o seu deus, teria começado com Abraão, há cerca de 4 mil anos. Este foi chamado por Deus para deixar a cidade de Ur, na Mesopotâmia e ir fundar uma nova nação num terra desconhecida, a Terra Prometida, que seria chamada de Canaã. O deus que apareceu a Abraão rompia com a tradição politeísta dos gregos, e colocava-se na posição omnipotente de exigir o que quisesse. No caso de Abraão, ordenou-lhe que sacrificasse o seu filho Isaac como prova de fé, isto é, de sujeição.

O Javé do Antigo Testamento (o Pentateuco, para os judeus) não tem semelhanças com o pai protetor que mais tarde o cristianismo iria propagar como sendo o seu Deus. Javé é um deus brutal, parcial e assassino, um deus de guerra, que seria conhecido como Javé Sabaoth, Deus dos Exércitos. Manda pragas aos egípcios, mostra-se até arrependido da sua criação, como quando ordenou a morte por afogamento de toda a humanidade através do dilúvio, do qual só escapou a família de Noé e os animais que colocou na arca. Javé, o deus dos judeus, está mais preocupado em ameaçar a raça humana para que ela não se desvie das instruções que entregou a Moisés do que em criar condições de paz e de harmonia, de felicidade e de justiça. Javé é passionalmente partidário do seu povo eleito, os judeus, e tem pouca misericórdia pelos não favoritos. É uma divindade tribal.

A narrativa de continuidade entre o judaísmo e o cristianismo foi destruída por Paulo de Tarso, ao estabelecer que o cristão se justificava pela fé e não pela obediência à lei judaica, nem à sua ascendência judaica, que os gentios, os não judeus, se podiam converter, abrindo o cristianismo a novos espaços. Paulo tirou Jesus Cristo da pequena gaiola de um messias para o povo hebreu, ou de mais um profeta, transformando-o num salvador de todos os povos. Javé, esse continuou ligado apenas ao povo hebreu, enquanto Cristo ganhava um caráter universal. Javé continuou a ser o deus carrancudo dos judeus e o cristianismo transmitiu a imagem de um deus bem mais amistoso que Javé.

Na tradição judaica estava muito claro que o homem devia temer a Deus acima de tudo. Com o cristianismo, a mensagem passa a ser amar a Deus acima de tudo. A diferença entre o judaísmo e o cristianismo é a mesma entre temer e amar. É esta escolha que está em causa com a ação de Israel na Palestina e em que os dirigentes ocidentais estão a tomar o partido do Deus do medo, defensor de um pequeno povo de eleitos contra a humanidade. O “direito de Israel a defender-se” tem o sentido de direito divino a destruir ou subjugar todos os que não são os eleitos, incluindo nós, os que lhe fornecemos as armas e a complacência.

O que o Estado de Israel está a realizar perante o mundo e em nome do Ocidente é a morte do Deus dos cristãos, do Deus que, apesar das violências cometidas em seu nome, permitiu que surgisse um humanismo cristão, que produziu um Santo Agostinho, um São Francisco, que permitiu a recuperação do conceito de um deus moral, em oposição ao deus brutal.

A vitória nas guerras foi sempre a vitória dos deuses dos vencedores. A vitória de Israel na Palestina é a vitória do deus dos judeus sobre o deus dos muçulmanos, mas também sobre o deus dos cristãos. O deus moral representado por Cristo podia oferecer uma via para que as sociedades cooperassem, evitando ofender um poder superior atento ao seu comportamento em relação aos demais. Javé, o deus dos judeus exclui o compromisso. E essa exclusão é evidente no discurso dos dirigentes judaicos.

Mesmo para quem, como eu, entende a religião apenas como uma dimensão simbólica do comportamento humano e a religiosidade como um sistema produtor de normas e culturas inerentes a qualquer sociedade, quer a religião, quer a religiosidade são fatores constitutivos e estruturantes da vida humana. Não me é, pois, indiferente, muito pelo contrário, ser regido pelas normas de Javé ou de Cristo, de ser regido pelo Velho Testamento, pelo Alcorão ou pelo Novo Testamento. Não é a mesma coisa ser não crente numa divindade numa civilização que tenha por deus Javé ou Alá, entre judeus e muçulmanos, ou sê-lo numa civilização que tenha Cristo por referência.

Impressiona-me a ausência de pensamento no interior do cristianismo sobre o conflito judaico-cristão, que coloca em causa a nossa civilização. Preocupa-me que estejamos a ir atrás do canto das sereias do conflito com os muçulmanos, encadeados que estamos pelo domínio dos poços de petróleo do Médio Oriente e dos eixos de ataque à Rússia, a primeira barreira a ser ultrapassada para os Estados Unidos enfrentarem a China. Entendo ser uma cegueira perigosa e criminosa o Ocidente abdicar do seu Deus e dos seus valores, trocando-o por Javé, o velho carrancudo, vingador e sem piedade.

Além dos palestinianos, é também o cristianismo que está debaixo de fogo neste Natal na Palestina. Quem invoca um deus para justificar o genocídio na Palestina não me merece respeito. Repugna-me a corrupção dos que traficam o seu deus com eles. Dos católicos, dos anglicanos, dos luteranos, das igrejas evangélicas, dos cardeais de Roma, dos televangelistas americanos, dos vendedores de dízimo brasileiros nem uma palavra!

Para ser claro: à vingança dos judeus por dois mil anos de humilhação pela derrota de Javé, os cristãos respondem agora com a traição ao seu Deus. Falta-nos um Shakespeare!

2023 12 23

https://cmatosgomes46.medium.com/a-derrota-do-deus-do-ocidente-68a58fecb0c5


segunda-feira, 11 de junho de 2018

Ramon Llull



OPINIÃO
O doido da família
O que se pede hoje aos discípulos de Jesus é que tenham suficiente loucura para não se acomodarem à lógica dos donos deste mundo.
10 de Junho de 2018, 6:24

1. A Catalunha continua a ser notícia por vários motivos, sobretudo por razões de ordem política. Os meios de comunicação portugueses não foram excepção, mas esqueceram a grande homenagem à figura marcante da cultura catalã actual e de significação universal.

A Generalitat de Catalunya i l'Ajuntament de Barcelona estão a celebrar, em 2018, o Ano de Raimon Panikkar (1918-2010), centenário de um sábio do nosso tempo [1]. Filho de pai indiano e hindu e de mãe catalã católica romana, nasceu em Barcelona, viveu na Índia e morreu rodeado da beleza em Tavertet.

Era padre, cientista, filósofo, teólogo e místico. Sem deixar de ser católico integrou, na sua identidade, vários elementos de outras crenças religiosas. Como diz Ignasi Moreta, editor das suas Obras Completas, das quais já saíram dez volumes, "era uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, entre as Letras e as Ciências, entre as expressões do Cristianismo, do Induísmo, do Budismo e do Pensamento Secular".

Esta forma de viver, pensar e escrever evoca Ramon Llull (1232-1315), o escritor, filósofo, poeta, missionário, teólogo, o símbolo cultural da Catalunha. Nascido em Palma de Maiorca, na encruzilhada de três culturas – cristã, islâmica e judia –, foi o criador da língua catalã literária, mas também se exprimia, com elegância, em castelhano, latim, árabe e Langue d’oc.

Acerca de R. Panikkar surge sempre a pergunta: mas ele era católico ou hindu? Não se pode dizer que fosse católico pela mãe e hindu pelo pai. A religião não é uma herança de ordem genética. O sincretismo religioso foi sempre mal visto, pois não parece exprimir uma identidade, mas uma confusão. Talvez sim, talvez não. Não se exigiu aos primeiros discípulos de Jesus a renúncia à condição judaica. Começaram por ser todos judeus de várias tendências. O problema nasceu quando as portas e janelas, que a prática de Jesus abriu, passaram a ser fechadas às outras tradições religiosas. Paulo de Tarso, judeu de pura cepa, não aceitou que se fizesse depender a graça de Deus, manifestada em Jesus de Nazaré, da condição judaica. A salvação não estava ligada a uma condição étnica nem religiosa. Era universal como a graça de Deus, que não faz acepção de pessoas e povos.

2. Quem abriu todos os horizontes foi Jesus de Nazaré que viajou pouco, mas sabia muito. No texto do Evangelho de hoje [2], existe uma polémica duríssima sobre esta questão. Começa com um desentendimento familiar tão profundo que até julgavam que ele estava doido. É dito textualmente: "ao verificarem o seu comportamento, os parentes saíram para o deter, pois diziam, está fora de si." Qual era a estranheza? A casa de família estava invadida por quem não era da família. A família estava sem casa.

Mais adiante, voltaremos às razões desta confusão toda. No mesmo texto, é dito que ele estava pior que doido, estava possesso de Belzebu. Era este que lhe dava poder para expulsar os demónios.

Jesus observa aos escribas que estão a ser completamente parvos, pois, se é Satanás a expulsar Satanás, é o império do diabo que se autodestrói.

Neste ponto, não é capaz de passar adiante: "tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e blasfémias que tiverem proferido, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão, será réu de pecado para sempre." Os senhores da inteligência da vontade e da acção de Deus estavam a negar a evidência em nome da sua cegueira. Não há pior cego do que aquele que não quer ver, como mostrará mais tarde [3].

S. Marcos vai radicalizar a questão central do universalismo cristão. Jesus perturba a família que se quer fechar sobre si mesma. Os filhos de Deus não são apenas os da própria família.

Maria e os familiares vão tentar encontrar-se com Jesus para esclarecer esta situação. Diz o texto: "entretanto, chegaram a sua mãe e os seus irmãos, que ficaram fora e mandaram-no chamar. A multidão estava sentada à sua volta quando lhe disseram, a tua mãe e os teus irmãos estão lá fora à tua procura e, olhando para aqueles que estavam à sua roda, declarou: eis a minha Mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe."

Estava mesmo doido. Os limites do cristianismo não são as outras religiões ou os ateísmos, etc.. São os que não reconhecem que ser irmão é a vocação de todo o ser humano. Assim se responde aos que criticam Raimon Panikkar. O cristianismo só tem um limite: a exclusão do outro, religioso ou não.

3. Em nome do cristianismo, em nome da sua exclusiva posse da verdade, foram muitas vezes condenadas as outras religiões, pois a verdade e o erro não merecem o mesmo respeito.

Do anátema passou-se à tolerância. Não eram igualmente verdadeiras mas, para superar as guerras de religião, o melhor era suportá-las. Mal menor.

O pluralismo humano e cultural apontava para algo mais positivo. Nasceu a teologia sobre as outras religiões, baseada na pergunta: qual a significação que a diversidade religiosa pode ter no plano de Deus?

Quando as religiões eram atacadas pelos mestres da suspeita, alguns teólogos insistiram em mostrar que o cristianismo estava imune a esse negativismo, pois não era uma religião. Nesta astúcia há algum fundamento. Por fim, surge o diálogo inter-religioso como uma bênção. Se a forma de viver como humanos é o diálogo, e fora do diálogo não há salvação, as religiões devem dar o exemplo que lhes tem faltado.

Por vezes, as mesas-redondas que o devem favorecer, com a preocupação de vender o seu peixe e mostrar as virtudes da própria religião, esquecem o próprio diálogo. Este, para ser frutuoso, deve implicar em todos a respectiva autocrítica e a vontade de conversão, de reforma. Um diálogo autêntico altera os que nele intervêm. Não pode ceder à lógica dos debates partidários, preocupados em vencer o adversário. Se a lógica do diálogo inter-religioso é a escuta e a busca, é normal que os participantes possam dizer no fim: estamos melhores, podemos continuar e alargar o caminho da unidade na diferença.

O que se pede hoje aos discípulos de Jesus de Nazaré, o doido da família, é que tenham suficiente loucura para não se acomodarem à lógica dos donos deste mundo, à do carreirismo eclesiástico, à do poder das religiões e que não atraiçoem o Pai Nosso que rezam de mãos dadas na Missa. Ou será que Deus fora da Missa deixa de ter família?

[1] Raimon Panikkar. Centenari d’un savi del nostre temps, FocNou, 2018, n.º 483. Ano XLV
[2] Mc 3, 20-35
[3] Jo 9
Colunista


domingo, 25 de setembro de 2016

Mateus e as Bem-Aventuranças

Mateus 5:1-48

1 E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;
2 E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
3 Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.
12 Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.
13 Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
14 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;
15 Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
16 Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
18 Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.
19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.
22 Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.
23 Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,
24 Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.
25 Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão.
26 Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil.
27 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.
28 Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
29 Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
30 E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
31 Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.
32 Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.
33 Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor.
34 Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;
35 Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei;
36 Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto.
37 Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.
38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
39 Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
40 E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
41 E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
42 Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
43 Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
44 Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
45 Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
46 Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
47 E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
48 Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/5/1-48

domingo, 18 de abril de 2010

Philip Pullman: The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ (extracto)