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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Helder Moura - (561) O desvelar das tendências militaristas atuais

 

 

O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.

            

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerraretomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.

 

Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.

 

A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.

 

 

 

Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.        

Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.

 

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.

 

Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.

 

Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.

 

Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.

 

 

Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.

Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis ​​por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.

 

A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.

Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.

Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.

 

Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.

No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.

Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.

Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.

 

Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:

 

Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto naziNa Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”

 

Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:

 

Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.

 

Do artigo referido, consta uma listagem que pode ser consultada respeitante a definições dos crimes de guerra japoneses, a lei internacional e a japonesa, o militarismonacionalismo , imperialismo e racismo japonêsarmas de destruição massivatortura de prisioneiros de guerra, os julgamentos de Tóquio, lista dos maiores crimes e massacres, dos crimes de guerra, e outros.

 

 

É no blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, que podem ler:

“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.

 É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.

E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.

 Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.

Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.

Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.

E por lá estão.

 

E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”,  poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::

 

“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis ​​por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados ​​por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.

Após 216 sessões, a 1 de outubro de 1946, foi proferido o veredicto de 22 dos 24 réus originais (Robert Ley cometeu suicídio enquanto estava na prisão, e as condições físicas e mentais de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach impediram que ele fosse julgado). Três dos réus foram absolvidos: Hjalmar Schacht, Franz von Papen e Hans Fritzsche. Quatro foram condenados a penas de prisão que variaram de 10 a 20 anosKarl DönitzBaldur von SchirachAlbert Speer e Konstantin von Neurath. Três foram condenados à prisão perpétuaRudolf HessWalther Funk e Erich Raeder. Doze dos réus foram condenados à morte por enforcamento. Dez deles - Hans FrankWilhelm FrickJulius StreicherAlfred RosenbergErnst KaltenbrunnerJoachim von RibbentropFritz SauckelAlfred JodlWilhelm Keitel e Arthur Seyss-Inquart - foram enforcados a 16 de outubro de 1946. Martin Bormann foi julgado e condenado à morte à revelia, e Hermann Göring suicidou-se antes de poder ser executado.

 

Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicosindustriaisjuízesministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).

 

Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”  

 

Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:

 

 “o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).

 

domingo, 10 de agosto de 2025

Rebecca Martin Goldschmidt e Seiji Yamada - Hiroshima, Nagasaki e o genocídio em Gaza


 



Por Rebecca Martin Goldschmidt e Seiji Yamada

O Holocausto, o genocídio dos judeus europeus pelos nazis, serve de justificação ideológica para o projecto sionista de apartheid, limpeza étnica e agora a Solução Final do genocídio.

À medida que o projecto sionista transita do apartheid e da limpeza étnica para a solução final para o genocídio que durou décadas, comemoramos também o 80º aniversário dos bombardeamentos nucleares de 6 e 9 de Agosto em Hiroxima e Nagasáqui. Consideremos as implicações de recordar o genocídio nuclear neste momento actual de tecnogenocídio em Gaza.

A 24 de outubro de 2023, Omar El Akkad, jornalista e romancista egípcio-americano, publicou no X: "Um dia, quando for seguro, quando não houver incómodo pessoal em chamar as coisas pelos seus nomes, quando for tarde demais para responsabilizar alguém, todos dirão que foram contra isso o tempo todo." O tweet, visualizado mais de 10 milhões de vezes, foi transformado num livro, One Day, Everyone Will Have Always Been Against This , publicado no início deste ano. Intercaladas com reflexões sobre o genocídio dos palestinianos em Gaza, estão pensamentos sobre a sua própria história e a da sua família. Como árabe e muçulmano, El Akkad reflete sobre como responderia se lhe dissessem: "Volta para onde vieste". Pensa para si: "Se gosta tanto de governos autoritários, porque não vai para onde eu vim?"

Até que ponto se pode ser contra os bombardeamentos atómicos? E como evoluíram as atitudes em relação aos bombardeamentos desde então? Em 1945, a opinião pública americana era favorável à vingança de Pearl Harbor e à destruição do Império Japonês. As representações dos japoneses como vermes ou macacos despertaram o apoio ao bombardeamento da população civil em todas as principais cidades japonesas (excepto Quioto). O bombardeamento de Tóquio, a 9 e 10 de março de 1945, fez cerca de 100.000 mortos. Combinados, os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki fizeram entre 150.000 e 246.000 mortos até ao final de 1945 (muitos outros morreram ao longo dos anos). Dado o secretismo em torno do Projecto Manhattan para desenvolver as bombas atómicas, muito poucas pessoas se opuseram à sua utilização antes de serem lançadas. Entre eles estava Leó Szilárd, um físico húngaro que fez circular uma petição durante o Verão de 1945, principalmente entre cientistas do Laboratório Metalúrgico de Chicago, na qual se opunha ao uso de tais armas sem dar ao Japão a oportunidade de se render.

Em 1942, no continente americano, sob uma ordem executiva assinada por Franklin D. Roosevelt, os nipo-americanos foram despojados das suas terras e propriedades e aprisionados em campos de concentração. Nada de semelhante foi perpetrado contra descendentes de alemães ou italianos. Não deveríamos chamar a isto limpeza étnica? É complicado interpretar a história através de categorias modernas? Embora Harry Truman tenha sugerido que, ao evitar a necessidade de invadir o território japonês, os bombardeamentos atómicos salvaram a vida de talvez meio milhão de soldados americanos, a maioria dos historiadores afirma que o Império Japonês sabia que estava acabado e pronto para se render.

O objectivo declarado dos bombardeamentos atómicos era pôr fim à guerra. Outras razões não declaradas incluíam a demonstração da nova arma ao futuro inimigo da Guerra Fria, a União Soviética, e a justificação do custo de desenvolvimento dessa arma para os contribuintes americanos. Embora o resultado final tenha sido a morte de muitos japoneses, o objetivo declarado não era genocida, pelo que não lhe chamamos oficialmente genocídio. (Deve notar-se, no entanto, que a etimologia de "holocausto" é "queimar tudo", e Hiroshima e Nagasaki foram certamente isso.)

Em 2025, toda a pessoa racional opõe-se à guerra nuclear, pois mesmo uma guerra nuclear "limitada" poderia desencadear um inverno nuclear, levando potencialmente à extinção da espécie humana. No entanto, o Boletim de Cientistas Atómicos está a mover o seu Relógio do Juízo Final cada vez mais para perto da meia-noite.

Faltam 89 segundos para a meia-noite. Os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), agora na sua maioria na casa dos 80 anos, gritam: "Basta de Hiroshima! Chega de Nagasaki! Não às armas nucleares! NÃO À GUERRA!". À medida que se aproxima o 80º aniversário, os activistas palestinianos em Hiroxima tentam destacar este momento não só nos milhares de japoneses, coreanos e outros que morreram e ficaram feridos no genocídio nuclear, mas também assinalá-lo como um dia de protesto contra o genocídio em curso em Gaza e a limpeza étnica em toda a Palestina.

Ao comemorarmos o 80º aniversário do bombardeamento, devemos também incluir a história do imperialismo japonês, que foi apagada da Cerimónia Memorial da Paz, sancionada pelo Estado, em Hiroshima. A derrota do Império Japonês deve ser vista como a libertação dos povos da Ásia e do Pacífico do brutal domínio colonial japonês. Os ecos do imperialismo japonês perduram sob diversas formas neocoloniais por toda a Ásia, através da exploração económica, territorial e laboral, do turismo e da indústria do sexo, para não falar da ocupação contínua das terras Ainu em Hokkaido e das terras Ryukyu em Okinawa. De facto, consideramos a cerimónia em si um ritual que reforça a mitologia nacional japonesa e o sistema nacionalista do imperador, que "exige" armas nucleares.

Até a forma como a "paz" é imposta em Hiroxima através da "oração silenciosa" é uma manipulação fascista das expressões de pesar e raiva das pessoas. A cidade de Hiroshima convenceu o público de que dobrar tsurus de papel e levar crianças a visitar o Parque da Paz é suficiente para alcançar a "paz".

 

Em 2024, com o genocídio palestiniano em pleno andamento, a cidade de Hiroshima, vergonhosamente, convidou um delegado israelita a participar na Cerimónia do Memorial da Paz de Hiroshima, sem convidar qualquer representante palestiniano. Por sua vez, as autoridades da cidade de Nagasaki retiraram o convite ao delegado israelita. Este ano, Hiroshima enviou "notificações" em vez de "convites" para tentar evitar controvérsias sobre quais os países que foram convidados e quais não foram. Esta atitude de "lavagem da paz" é partilhada pela maioria da sociedade japonesa, que também desconhece as atrocidades cometidas pelos seus antepassados em nome do imperador.

Em "O Mundo Depois de Gaza", Pankaj Mishra oferece uma visão geral de como o Holocausto, o genocídio dos judeus europeus pelos nazis, passou a servir de justificação ideológica para o projeto sionista de apartheid, limpeza étnica e, agora, a Solução Final do genocídio. Da mesma forma, Hiroshima e Nagasaki são as histórias de vitimização definitivas que os nacionalistas japoneses utilizam para justificar a militarização, o desenvolvimento tecnológico e de armamento, e a colaboração contínua com o regime israelita.

O programa Aichi-Israel Matching, que liga as startups israelitas de tecnologia de armamento com o coração industrial do Japão, é um exemplo perfeito. O fundo de pensões japonês (o maior do mundo!) investe fortemente em títulos israelitas, bem como em fabricantes de armas como a Elbit Systems (Israel), a Lockheed Martin (EUA) e a BAE Systems (Reino Unido). Empresas japonesas como a Kawasaki compram drones a Israel, enquanto a Mitsubishi Heavy Industries fabrica peças para a cadeia de abastecimento do F-35.

Entretanto, nas últimas eleições, o partido Sanseito, de Trump, conquistou 14 lugares no governo graças à sua retórica xenófoba transmitida no YouTube, que explorou os receios japoneses de contaminação estrangeira e da perda da cultura japonesa "pura". Este renovado foco no racismo explícito, aliado ao rápido desenvolvimento da indústria de armas de inteligência artificial em colaboração com um regime genocida, é o que nós, japoneses, consideraríamos " abunai " — perigoso!

O nosso ponto mais urgente do Ground Zero de Hiroshima é este: a Palestina é uma questão nuclear. Israel possui mais de 100 armas nucleares e é, na prática, um depósito de armas nucleares dos EUA na Ásia Ocidental. Vários dos seus responsáveis governamentais têm defendido o uso de armas nucleares em Gaza. A recente guerra semi-clara com o Irão danificou instalações de produção de combustível nuclear, causando potencialmente uma contaminação química e radioactiva que ninguém está disposto a reconhecer. Demonstrou o quão preparado Israel, com o apoio dos EUA, está para arrastar a região para uma guerra nuclear, mesmo tendo sido obrigado a pedir um cessar-fogo face à resposta do Irão.

As alegações de Hiroshima de ser uma "cidade internacional da paz", comprometida com a abolição das armas nucleares, soam egoístas e vazias, pois a cidade permanece em completo silêncio sobre a realidade nuclear da Palestina e continua a ocultar os próprios crimes de guerra do Japão. Como luta de libertação indígena, a Palestina também está ligada ao movimento #LandBack, que se cruza com a luta contra o colonialismo nuclear, desde as Ilhas Marshall a Semipalatinsk, no Cazaquistão, à Nação Navajo, a Shinkolobwe no Congo, aos povos aborígenes australianos e muitos outros.

A dor de Hiroshima, Nagasaki e de todos os massacres e atrocidades dos últimos 80 anos são reais e ainda hoje nos assombram. Tanto o movimento antinuclear como os movimentos de libertação palestinianos surgiram e desenvolveram-se também durante esses mesmos 80 anos. Os activistas palestinianos no Japão vêem para além da fachada do 80º aniversário de Hiroshima e percebem que o sistema imperial japonês, bem como os sistemas britânico, americano, alemão e outros, não mudou realmente; apenas mudou de forma.

Há quase dois anos, assistimos a um genocídio em Gaza, em que os perpetradores juraram eliminar os amalecitas, ou "animais humanos". Como se Israel estivesse a experimentar uma mistura de métodos de extermínio, vimos crianças dilaceradas por bombas, baleadas por atiradores furtivos e agora mortas de fome. Os contribuintes americanos financiam isso. Os participantes do plano de pensões japonês financiam isso. Os nossos governos e os seus parceiros corporativos fornecem as armas e fornecem cobertura diplomática.

Não devemos permitir que os nossos governos se apropriem das nossas histórias de dor e sofrimento para justificar mais dor e sofrimento. Não devemos esperar até que seja seguro, até que não haja mais inconvenientes pessoais em chamar as coisas pelos seus nomes, até que seja tarde demais para responsabilizar alguém. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos opormos ao apartheid, à limpeza étnica e ao genocídio. Devemos lutar pela libertação da Palestina e pela libertação de todos os povos da dominação, da militarização e das economias de guerra.

CounterPunch.org e FONTE  

https://www-lahaine-org.translate.goog/mundo.php/hiroshima-nagasaki-y-el-genocidio-en-gaza?

Publicado Yesterday por obarbaro

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/08/hiroshima-nagasaki-e-o-genocidio-em-gaza.html

terça-feira, 5 de agosto de 2025

David Swanson - NÃO, A DESTRUIÇÃO DE CIDADES NÃO SALVOU VIDAS

 
terça-feira, 5 de agosto de 2025


 É estranhamente encorajador o facto de o New York Post ter tido de trazer à baila, na sexta-feira [1 agosto], o seu propagandista de direita mais excêntrico para argumentar que bombardear Hiroshima e Nagasaki salvou vidas. É quase como se a afirmação de que matar palestinianos não é genocídio tivesse de ser superada pelo Post. É ainda mais encorajador que o Post se tenha sentido obrigado a alargar a definição habitual de "vidas" para incluir as vidas dos japoneses, afirmando que bombardear pessoas salvou não só vidas dos EUA mas também vidas dos japoneses - um argumento que teria sido muito difícil de encontrar durante as primeiras décadas deste mito.

Mas não é verdade que as afirmações de que as armas nucleares salvaram vidas ou de que as armas nucleares acabaram com a guerra sejam feitas apenas por marginais loucos. Essas afirmações podem estar a desaparecer entre os historiadores sérios, mas são factos básicos aceites pelo público em geral. Por isso, continuam a aparecer como zombies em livros e artigos cujos autores parecem não fazer ideia de que estão a escrever algo controverso, e há muito desmascarado. (O Post chama-lhe ‘uma das questões históricas mais controversas da história americana’).

O argumento do Post (citando um autor chamado Richard Frank) é o seguinte: ‘Não só não foi recuperado nenhum documento relevante do período da guerra, como nenhum deles’, escreve ele sobre os principais líderes japoneses, ‘mesmo quando enfrentavam potenciais sentenças de morte em julgamentos por crimes de guerra, testemunharam que o Japão se teria rendido mais cedo mediante uma oferta de condições modificadas, associada a uma intervenção soviética ou a outra combinação de acontecimentos, excluindo a utilização de bombas atómicas’.

Ora bem, aqui está um documento relevante. Semanas antes de ser lançada a primeira bomba, a 13 de julho de 1945, o Japão enviara um telegrama à União Soviética expressando o seu desejo de se render e acabar com a guerra. Os EUA tinham decifrado os códigos do Japão e lido o telegrama. Truman referiu-se no seu diário ao ‘telegrama do imperador japonês a pedir a paz’. O Presidente Truman já tinha sido informado, através dos canais suíços e portugueses, das propostas de paz japonesas, três meses antes de Hiroshima. O Japão opôs-se apenas à rendição incondicional e à cedência do seu imperador, mas os EUA insistiram nesses termos até depois da queda das bombas, altura em que permitiram que o Japão mantivesse o seu imperador. Assim, o desejo de lançar as bombas pode ter prolongado a guerra. As bombas não encurtaram a guerra. (…)

Os defensores do bombardeamento de cidades podem agora afirmar que as bombas nucleares salvaram vidas, mas na altura as bombas nem sequer tinham essa intenção. A guerra terminou seis dias depois da segunda bomba nuclear, seis dias após a invasão russa do Japão. Mas a guerra ia acabar de qualquer maneira, sem nenhuma dessas coisas. O United States Strategic Bombing Survey concluiu que, ‘... certamente antes de 31 de dezembro de 1945, e com toda a probabilidade antes de 1 de novembro de 1945, o Japão ter-se-ia rendido mesmo que as bombas atómicas não tivessem sido lançadas, mesmo que a Rússia não tivesse entrado na guerra, e mesmo que nenhuma invasão tivesse sido planeada ou contemplada.’

O General Dwight Eisenhower tinha expressado esta mesma opinião ao Secretário da Guerra e, segundo o seu próprio relato, ao Presidente Truman, antes dos bombardeamentos. O Subsecretário da Marinha Ralph Bard, antes dos bombardeamentos, insistiu para que fosse dado um aviso ao Japão. Lewis Strauss, conselheiro do Secretário da Marinha, também antes dos bombardeamentos, recomendou que se bombardeasse uma floresta em vez de uma cidade. O general George Marshall aparentemente concordou com essa ideia. O cientista atómico Leo Szilard liderou cientistas na apresentação de uma petição ao presidente contra a utilização da bomba. O cientista atómico James Franck liderou cientistas que defendiam que as armas atómicas fossem tratadas como uma questão de política civil e não apenas como uma decisão militar. Outro cientista, Joseph Rotblat, exigiu o fim do Projeto Manhattan e demitiu-se quando este não foi terminado. Uma sondagem aos cientistas americanos que tinham desenvolvido as bombas, efetuada antes da sua utilização, revelou que 83% queriam que uma bomba nuclear fosse demonstrada publicamente antes de a lançarem sobre o Japão. Os militares americanos mantiveram essa sondagem em segredo. O general Douglas MacArthur deu uma conferência de imprensa a 6 de agosto de 1945, antes do bombardeamento de Hiroshima, para anunciar que o Japão já estava derrotado.

Em 1949, o Presidente do Estado-Maior Conjunto, Almirante William D. Leahy, afirmou que Truman lhe tinha garantido que só seriam bombardeados alvos militares e não civis. ‘A utilização desta arma bárbara em Hiroshima e Nagasaki não foi de grande ajuda na nossa guerra contra o Japão. Os japoneses já estavam derrotados e prontos para se renderem’. disse Leahy. Entre os oficiais militares de topo que afirmaram, logo após a guerra, que os japoneses se teriam rendido rapidamente sem os bombardeamentos nucleares, contam-se o general Douglas MacArthur, o general Henry "Hap" Arnold, o general Curtis LeMay, o general Carl "Tooey" Spaatz, o almirante Ernest King, o almirante Chester Nimitz, o almirante William "Bull" Halsey e o general de brigada Carter Clarke. Como resumem Oliver Stone e Peter Kuznick, sete dos oito oficiais de cinco estrelas dos EUA que receberam a sua última estrela na Segunda Guerra Mundial ou pouco depois - os generais MacArthur, Eisenhower e Arnold, e os almirantes Leahy, King, Nimitz e Halsey - em 1945 rejeitaram a ideia de que as bombas atómicas eram necessárias para acabar com a guerra. ‘Infelizmente, porém, há poucas provas de que tenham pressionado Truman antes do facto.’

Em 6 de agosto de 1945, o Presidente Truman mentiu na rádio dizendo que uma bomba nuclear tinha sido lançada numa base do exército e não numa cidade. E justificou-o, não para acelerar o fim da guerra, mas como vingança contra as ofensivas japonesas. ‘O Sr. Truman estava exultante", escreveu Dorothy Day. Temos de nos lembrar que, nos media norte-americanos da época, matar mais japoneses era decididamente preferível a matar menos, e não exigia qualquer justificação para supostamente salvar vidas ou acabar com guerras. Truman, o homem cuja ação está a ser defendida e cujo diário está a ser cuidadosamente ignorado, não fez tais afirmações, pois não estava a fazer propaganda retrospetiva.

Então, porque é que as bombas foram lançadas?

O conselheiro presidencial James Byrnes tinha dito a Truman que o lançamento das bombas permitiria aos EUA ‘ditar os termos do fim da guerra’. O Secretário da Marinha, James Forrestal, escreveu no seu diário que Byrnes estava ‘muito ansioso por acabar com o caso japonês antes que os russos entrassem’. Truman escreveu no seu diário que os soviéticos estavam a preparar-se para marchar contra o Japão e ‘acabar com os japoneses quando isso acontecesse’. A invasão soviética foi planeada antes das bombas, não decidida por elas. Os EUA não tinham planos para invadir durante meses, nem planos à escala para arriscar o número de vidas que o Post dirá que foram salvas.

Truman ordenou o lançamento das bombas, uma em Hiroshima, a 6 de agosto, e outro tipo de bomba, uma bomba de plutónio, que os militares também queriam testar e demonstrar, em Nagasaki, a 9 de agosto. O bombardeamento de Nagasaki foi antecipado do dia 11 para o dia 9, para diminuir a probabilidade de o Japão se render primeiro. Também a 9 de agosto, os soviéticos atacaram os japoneses. Durante as duas semanas seguintes, os soviéticos mataram 84.000 japoneses e perderam 12.000 dos seus próprios soldados, e os EUA continuaram a bombardear o Japão com armas não nucleares - queimando cidades japonesas, como tinham feito antes de 6 de agosto que, quando chegou a altura de escolher duas cidades para bombardear, já não havia muitas por onde escolher.

Eis o que o Post afirma ter sido conseguido ao matar algumas centenas de milhares de pessoas e ao iniciar a era do perigo nuclear apocalítico: ‘O fim da guerra tornou desnecessária uma invasão dos EUA que poderia ter significado centenas de milhares de baixas americanas; salvou milhões de vidas japonesas que teriam sido perdidas em combate nas ilhas natais e à fome; encurtou a breve invasão soviética (que só por si foi responsável por centenas de milhares de mortes japonesas); e acabou com a agonia que o Japão Imperial trouxe à região, especialmente a uma China que sofreu talvez 20 milhões de baixas.’

Note-se que o Post se sente obrigado a atribuir à invasão soviética a responsabilidade pela morte de centenas de milhar de japoneses, ao mesmo tempo que afirma, como Truman, que essa invasão não influenciou a decisão japonesa de se render. Repare-se também que a única alternativa ao fim da guerra após as bombas nucleares, segundo este ponto de vista, teria sido a continuação da guerra durante muito tempo, custando milhões de vidas de japoneses. Mas os factos acima referidos não confirmam isto. O propagandista de 2025 está a discordar do consenso dos líderes do seu amado exército em 1945.

Porque é que ele faz isso?

Conclui com a sua motivação: ‘É por isso que a visão do Presidente Donald Trump de uma Cúpula Dourada para proteger os EUA de ataques de mísseis é tão importante, e é por isso que precisamos de uma força nuclear robusta para dissuadir os nossos inimigos’.

Posted by OLima at terça-feira, agosto 05, 2025 
https://onda7.blogspot.com/2025/08/leituras-marginais_01712045953.html

John Hersey - “Hiroshima” (excertos)

 

Alfredo Barroso
2 d
 ·
No dia 6 de Agosto de 1945, às 8 horas e 15 minutos (locais) da manhã

BOMBA ATÓMICA DE URÂNIO LANÇADA SOBRE HIROSHIMA, DE UM AVIÃO DA FORÇA AÉREA DOS EUA, FAZ MAIS DE 100 MIL MORTOS!
- recorda Alfredo Barroso com a ajuda do jornalista John Hersey

Aconteceu há 80 anos, seis meses depois de eu ter nascido em Roma. Foi exactamente às oito horas e quinze minutos da manhã do dia 6 de Agosto de 1945, hora japonesa, que uma bomba atómica de urânio - alcunhada “Little Boy” e lançada do avião “Enola Gay” da USA Air Force - deflagrou a cerca de 600 metros de altura sobre a cidade japonesa de Hiroshima, matando imediatamente mais de cem mil (100.000) pessoas, infligindo sofrimentos brutais aos sobreviventes e causando uma devastação terrível na cidade e arredores.

Como escreveu o jornalista e escritor John Hersey, no seu famoso livro intitulado “Hiroshima”, citando um dos sobreviventes, o reverendo Kiioshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima

* John Hersey

«Foi então que um tremendo clarão rasgou o céu. O reverendo Kiioshi Tanimoto lembra-se perfeitamente que o clarão percorreu o firmamento de nascente para poente da cidade em direcção às colinas. Parecia uma lâmina de luz»...

«(Quase ninguém em Hiroshima se lembra de ter ouvido qualquer barulho provocado pela bomba. Porém, um pescador a bordo da sua sampana, no mar interior perto de Tsuzu, o homem em cuja casa viviam a sogra e a cunhada do reverendo Tanimoto, viu o clarão e ouviu uma tremenda explosão; separavam-no de Hiroshima mais de 30 quilómetros, mas o barulho foi maior do que quando os B-29 atingiram Iuakuni, situada apenas a oito quilómetros)»…

«(…) De cima de uma pequena elevação, o reverendo Tanimoto ficou perplexo com o que viu. Não só uma parte de Koi [nos subúrbios], como pensara, mas tudo o que conseguia vislumbrar de Hiroshima através da atmosfera nublada, exalava um miasma espesso e profundamente desagradável. Nuvens de fumo começavam a elevar-se por entre a poeira um pouco por todo o lado. O reverendo Tanimoto tentou perceber como fora possível que tamanha destruição tivesse saído de um céu silencioso; mesmo poucos aviões, voando a grande altitude, teriam sido audíveis. As casas ali perto estavam a arder, e quando enormes gotas de água do tamanho de berlindes começaram a cair, chegou a pensar que eram provenientes das agulhetas dos bombeiros que combatiam as chamas. (De facto, tratava-se de gotas de humidade condensada provenientes da turbulenta coluna de poeira, de calor e fragmentos de fissão que já se elevara quilómetros no céu por cima de Hiroshima.)»…

«(…) O dr. Masakasu Fujii, médico, que só tinha vestida a roupa interior, via-se agora sujo e encharcado. A camisola interior estava toda rasgada, cheia do sangue que lhe saía de feridas profundas no queixo e nas costas. Nesse estado de confusão e desalinho caminhou até à ponte Kio, ao lado da qual se situara o seu hospital. A ponte continuava de pé. Via tudo baço sem os óculos, mas enxergava o suficiente para se espantar com o número de casas destruídas por todo o lado. Na ponte encontrou um amigo, um médico chamado Machii, e ainda estupefacto perguntou-lhe: “O que achas que foi isto?”. O dr. Machii respondeu-lhe: “Deve ter sido um ‘Molotoffano hanacago’”, um cesto de flores Molotov, o delicado nome japonês para “bread basket” ou cacho de bombas de dispersão automática.

«No início, o dr. Fujii conseguia ver apenas dois fogos, um que se estendia para o outro lado do rio a partir do sítio onde estivera o seu hospital, e outro bastante mais para sul. Contudo, ele e o amigo observavam algo que os intrigava e que, na qualidade de médicos, discutiam entre si: apesar de até ao momento haver poucos fogos, via-se gente ferida a atravessar a ponte num passo apressado, numa fila infindável de sofrimento, exibindo muitas pessoas queimaduras horríveis na cara e nos braços. “Como explicas isto?”, perguntou o dr Fujii. Até uma teoria era uma coisa reconfortante nesse dia e o dr. Machii agarrou-se à dele: “Talvez fosse um cesto de flores Molotov”»…

«(…) Nas vésperas do 1º aniversário do bombardeamento, o reverendo Kiioshi Tanimoto escreveu, numa carta a um americano, palavras a exprimir o sentimento com que os sobreviventes tinham enfrentado uma provação terrível: "Que cena dilacerante a da primeira noite! Cerca da meia-noite atraquei na margem do rio. Havia tanta gente ferida deitada no chão que abri caminho saltando por cima deles. Repetindo 'desculpem', fui avançando com uma vasilha de água na mão, distribuindo-a por cada um deles. Erguiam lentamente o corpo e aceitavam a caneca com uma vénia, bebendo silenciosamente; depois, despejando qualquer sobra, devolviam a caneca exprimindo calorosamente o seu agradecimento, e um até disse: 'Não pude socorrer a minha irmã, que ficou soterrada nos escombros da casa, porque tive de acorrer à minha mãe, que tinha uma ferida profunda num olho; a nossa casa pegou fogo e mal conseguimos escapar. Ouça, perdi a minha casa, a minha família, e acabei por ficar gravemente ferido. Mas agora vou a dedicar o tempo que me resta para acabar a guerra a bem do nosso país'. Era esta a promessa que formulavam, inclusive mulheres e crianças. Esgotado como estava, deitei-me junto deles, mas não consegui dormir. Na manhã seguinte reparei que estavam mortos muitos dos homens e mulheres a quem dera água na noite anterior. Mas, para grande espanto meu, nunca ouvi ninguém gritar com dores, apesar de se encontrarem em profundo sofrimento. Morreram em silêncio, sem rancor, cerrando os dentes para poderem aguentar. Tudo pelo país!"»…

«(…) Logo que puderam, os cientistas chegaram à cidade aos magotes. Alguns calcularam a força que fora necessária para deslocar pedras tumulares de mármore nos cemitérios, para virar 22 das 47 carruagens estacionadas nos cais da estação ferroviária de Hiroshima, para levantar e mover o pavimento de betão numa das pontes e para provocar outros feitos dignos de registo, concluindo que a pressão exercida pela explosão variou ente 5,3 e 8 toneladas por quilómetro quadrado. Outros descobriram que a mica, cujo ponto de fusão é de 900 graus Celsius, derretera nas pedras tumulares de granito a uma distância de 345 metros do centro; que os postes de telefone feitos de ‘Cryptomeria japonica’, cuja temperatura de carbonização é de 240 graus Celsius, ficaram carbonizados a quatro quilómetros do centro e que a superfície das telhas de barro cinzento do tipo usado em Hiroshima, cujo ponto de fusão é de 1300 graus Celsius, se dissolvera a 550 metros do centro. Depois de terem examinado outras cinzas e fragmentos fundidos relevantes, concluíram que o calor libertado pela bomba no centro junto ao solo devia ter atingido os 6000 graus Celsius. E a partir de ulteriores medições de radiação, que implicaram, além de outros passos, a raspagem de fragmentos de fissão em caleiras e em algerozes tão longe quanto o subúrbio de Takasu, a três quilómetros do centro, ficaram a conhecer factos muito mais importantes acerca da natureza da bomba. O Quartel-General do general MacArthur censurava sistematicamente qualquer referência à bomba nas publicações científicas japonesas, mas não foi preciso muito tempo para que o resultado dos cálculos dos cientistas fosse do conhecimento comum entre físicos, médicos, químicos, professores e jornalistas japoneses e, sem dúvida, entre os políticos e militares ainda em circulação. Muito antes da divulgação pública aos norte-americanos, já a maioria dos cientistas e de muitos não cientistas do Japão sabia – a partir dos cálculos dos físicos nucleares japoneses – que uma bomba de urânio explodira em Hiroshima e outra mais potente, de plutónio, em Nagasaki. Sabiam ainda que em teoria era possível desenvolver uma bomba dez ou vinte vezes mais potente»…

(Todas as citações e excertos tirados do livro «HIROSHIMA», do jornalista e escritor JOHN HERSEY (1914-1993), publicado em Portugal pela ANTÍGONA, em 1997, com tradução de Fernando Gonçalves, revisão e anexos de Júlio Henriques) 

terça-feira, 26 de março de 2024

Carlos Coutinho - Metamorfoses

 


* Carlos Coutinho 

Há não sei quantos milhões de anos, a mais que milionésima bactéria tremeu nas águas primordiais e começou a perder os seus primeiros borbotos e estes, imitando a mãe, bacterizaram-se também e, logo que adultos, desataram a povoar os mares igualmente emergentes, iniciando verdadeiras dinastias de bactérias diferentes e ávidas de novas diferenciações.

É o que deduzo das muitas leituras que tenho feito sobre o assunto.

Muitas bactérias do frio e do quente optaram por abandonar as diversas águas planetárias, continuaram a metamorfosear-se, de espécie em espécie, e atingiram a humana, aquela que ainda não sabemos o que será, nos próximos séculos ou milénios, se ainda viver.

Mas sabemos que a sua primeira compulsão foi alimentar-se para sobreviver, disputando os alimentos com as vizinhas e, assim, aprendendo a lutar. Criou, portanto, os primeiros modos de matar e nunca mais parou de os aperfeiçoar, aperfeiçoando também a coragem, a ira, o ódio, condições instrumentais de sobrevivência.

– A inteligência animal começou assim, por total inexistência de ética e, muito menos ainda de filosofia, para desgosto de Santo Agostinho que descobriu, milhões de anos mais tarde, na cidade argelina de Hipona, o mal e a sua sede original na mulher.

– Mas foram precisos também milhões de anos para os moluscos marinhos galgassem as areias das praias, adquirissem esqueleto e exoesqueleto, escamas, penas, couro e pelo, vulva e pirilau, luxúria e autorreprodução sem gâmetas, fossem eles óvulos ou espermatozoides, e muito menos fecundação in vitro, até que o primeiro primata optou por se amacacar ou se antropolizar.

– E ainda não foram poucos os milhões e anos necessários para a fundação do Antropoceno, com o homo neandertalensis e o homo sapiens a alterar irremediavelmente a ordem e as formas das coisas, até os primeiros analfabetos conscientes inventarem os hieróglifos e as primeiras gravuras rupestres com as mãos borrifadas por bocas cheias de líquidos cromáticos nas rochas mais adequadas das cavernas.

– Daí ao sumério Gilgamesh e, seguidamente, à arca de Noé, ainda tiveram de transcorrer mais alguns milhares de anos, porque faltava formular a teoria da impulsão, a carpintaria naval, a arte da navegação e, assim, foi imposta a entrada com senha para a barca, visto a bicharada ser tanta que teve de se organizar filas, entrando cada novo passageiro só quando algum outro, lá dentro, já tinha sido devorado por alguns dos seus famintos semelhantes em luta compreensível de sobrevivência das espécies, das raças e dos costumes.

– A revista “Nature” publica agora um estudo sobre a perda da cauda nos símios, ocorrida há 25 milhões de anos. A hipótese inicial do estudo é a de que os nossos ancestrais perderam os rabitos abanadores quando mutações alteraram um ou mais dos seus genes.

Os cientistas compararam o ADN de seis espécies de símios com o de nove espécies de macacos caudados, descobrindo que a mutação compartilhada por símios e humanos – mas ausentes nos macacos com cauda – no gene TBXT. Esta mutação terá afetado TBXT aleatoriamente um único símio, fazendo com que este desenvolvesse um coto em vez de uma cauda e passasse o “defeito” para os seus descendentes. Com o tempo, a mutação TBXT tornou-se norma nos símios e nos humanos atuais, incluindo os que já funcionam com ginástica digital da conectividade radical e com a inteligência artificial.

– Quando as primeiras mitologias apareceram e os filósofos as normalizaram, para Jeová aparecesse a legislar e Homero a encher caldeirões de amores, ciúmes, viagens à ilha das tragédias, egípcios a fazer perguntas à esfinge de pedra, Aristóteles a pôr carne nas sombras de Platão e Spartacus a dizer “já basta!”, enquanto Afrodite fazia de Helena, a mais bonita de todas as mulheres e esposa do rei grego Menelau, se apaixonar-se pelo troiano Páris, que então a levou para a sua cidade. Agamenon, rei de Micenas e irmão de Menelau, reuniu os aqueus (gregos), liderou uma expedição contra Troia e cercou essa cidade frugal da Lacónia ou Leçademónia, na Península do Peloponeso, durante dez anos, como uma represália pelo insulto de Páris.

Após a morte de muitos heróis, incluindo os gregos Aquiles e Ájax, bem como Heitor, Páris recuperou a sua imprescindíveel Helena com a ajuda de um cavalo de pau.

– Claro que infinito, acumulação, conectividade radical, biocósmico, morte e força de viver são os temas da japonesa Yayoi Kusama, de 65 anos, acabados de fazer, que, depois e tantas décadas a viver voluntariamente numa instituição de saúde mental, personifica hoje um dos mais estrondosos fenómenos de popularidade na arte contemporânea, mas isso não implica que os dadores de gâmetas tenham de ficar eternamente anónimos, como a lei portuguesa, felizmente, já aceita.

Nem que só haja um os dois cardiologistas nos hospitais do Interior, sabendo-se que há mais de 500 nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde!

– E certo é também não devia ser permitido abater árvores em todos os cantos do mundo para fazer papel desnecessário ou simplesmente prescindível, mesmo que para substituir os sacos de plástico nos supermercados.

E menos ainda seria de permitir que se continuasse a plastificar tudo, ao ponto de já se ter encontrado no estômago de um mastodóntico cachalote lulófilo, morto na praia, um emaranhado rolo de 43 quilos de redes de nylon, escovas de dentes, copos de plástico, sapatilhas, etc.

Pior só a existência de triliões de triliões de partículas de plástico na corrente sanguínea dos peixes que comemos e, agora, até já na dos frangos e de outros bichos de aviário e de viveiros para aquacultura.

E mesmo no ar que respiramos, como nos disseram na recente 11.ª Cimeira Mundial dos Oceanos!

– E por que carga de água, quando a PSP registou entre 2020 e 2323 algo como 15 mil furtos por carteiristas, caçada que lhes rendeu 7,1 milhões de euros, vêm agora certos interessados reclamar a implementação da muito perigosa, energia nuclear em Portugal, sabendo-se que, ainda por cima, sai “demasiado cara, mesmo sem se contabilizar os custos escondidos – os de armazenar os resíduos, os dos seguros contra acidentes e seus efeitos, os do desmantelamento das centrais em fim de vida, etc.”

É que é mesmo “muito mais cara – 10 a 20 vezes mais cara (segundo o catedrático e investigador Manuel Collares-Pereira) por unidade de potência instalada que as renováveis – solar, eólica, hídrica e outras que estão em desenvolvimento” – e que já provaram poderem continuar de vento em popa.

“O combustível nuclear convencional (U235)”, diz ele, “é escasso; psra ser considerado abundante (U238, Th232), implicaria uma mudança de tecnologia (mais risco, mais tempo…); neste contexto fala-se hoje da tecnologia dos pequenos reatores, pré-fabricados, algo que não existe ainda … e que muito provavelmente, serão ainda mais caros. (…) Para uma central de 1600MW, estamos a falar de um investimento de mais de 1000 milhões de euros, se registarmos o exemplo finlandês de Olikuoto, acabada de construir), e podemos mesmo contar com mais de 19 000 milhões, se tomarmos como referência o idêntico EPR francês de Flamanville (em construção).”

Mas, por cá, os lóbis movem-se. Vá-se lá saber porquê.

– E não me esqueço de que dos anuros, com penugens ou com pelagens, com escamas ou com viscos, com espinhos ou com pelado coiro impermeável, com guelras ou com pulmões, com bico com boca, houve que vencer mais alguns milhões de anos, até se poder atingir o cataclismo que cósmico e ardente que nos dinossaurizou os territórios livres, criando uma ordem nova – ordine nuovo, como a do Mussolini – que até o Pio XI e o nosso Cerejeira cardeal, ombro com ombro com o nosso sempre solteiro Salazar, tanto apreciaram.”

Daí até aparecer a besta do “Apocalipse” ainda tivemos de aturar os aedos que deram histórias e mitos Homero e a Virgílio, os delirantes que souberam desnudar as estrelas e ainda sobrevivem como espíritas e horoscopizáveis em modo Pessoa, os Abraões decalógicos, os Plutarcos e os Arquimedes, os Avicenas e os Averróis, o milagre de Ourique e a mirabolante conversa do Condestável com Cristo antes da batalha de Aljubarrota, como antes acontecera com D. Afonso Henriques, o Nuno Gonçalves dos painéis de S. Vicente, o zarolho Luís Vaz da Ilha dos Amores, o salaciano ou alcacerense Pedro Nunes da Matemática, os arquitetos da Baixa Pombalina, os versos de António Nobre e dos de Cesário Verde, as composições de Lopes Graça e até o descaramento com que misturo tudo isto.

– Talvez faça falta a esta lista de figurões o nome do jesuíta Luís Frois que viveu 34 anos no Japão e assistiu à batalha A “História” de Luís Fróis é também uma narração dos acontecimentos histórico-políticos de uma das fases históricas mais cruciais do país.

A sua “História do Japão” abrange o declínio da dinastia dos Ashikaga que começou a sua regência em 1338 e acabou em 1573.

Abrange a ascensão e o fim do comandante Oda Nobunaga (1534 - 1582) que iniciou o processo da unificação do Japão de um modo decisivo.

Abrange os anos mais importantes do sucessor de Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi (1536 - 1598), que continuou a obra de Nobunaga e completou a unificação do país, mas que também iniciou a perseguição dos cristãos em 1587. Sob o seu reinado foram mortos também os primeiros 26 mártires católicos, em 1597.

O historiador de circunstância Luís Frois nasceu em Lisboa e, em 1563, viajou para o Japão, encarregado de pregar o Evangelho, isto uns 20 anos depois de os primeiros mercadores portugueses, a bordo da “Nau do Trato”, terem desembarcado no Sul nipónico. Foi seguidamente para Quioto, onde se reuniu com Ashikaga Yoshiteru, que então era xogun. Em 1569 tornou-se amigo de Oda Nobunaga e permaneceu na sua residência em Gifu (cidade), enquanto se dedicou à escrita por um curto período.

Descreveu, então, pormenorizadamente as suas impressões sobre as tradições e cultura japonesas do século XVI através de cartas enviadas para Macau, Roma (ao Papa) e aos reis de Portugal.

É considerado o primeiro cronista europeu daquelas paragens. Entre as suas obras encontra-se uma “História do Japão”, um clássico que recolocou o país do sol nascente na história do mundo moderno e que Akira Kurosawa seguiu milimetricamente para filmar o também clássico “Kagemusha” (“A Sombra de um Samurai”) e que o também clássico Claude Lévi-Straus catalogou como “o primeiro antropólogo”

– Que bom ter nascido no país dos milagres, onde em contramão, também, nasceram pastorinhos videntes e sádicos da tauromaquia!


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