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sábado, 14 de dezembro de 2019

Manuel Carvalho - Vergonha ....


EDITORIAL  por Manuel Carvalho
Vergonha…
Um político com a experiência de Ferro Rodrigues devia saber que os populistas infiltrados no coração da democracia se alimentam da provocação. Dar-lhes fio à estrela é criar-lhes palco e promover o seu reconhecimento.
14 de Dezembro de 2019, 6:52
O Parlamento não aprendeu a lidar com os populistas que lhe entraram portas adentro e o seu presidente, o muito honorável e vetusto Eduardo Ferro Rodrigues, ainda acredita que o hemiciclo é habitado em exclusivo por cavalheiros de bons modos e finas falas. Foi por isso que caiu no disparate de criticar André Ventura pelo uso e abuso da palavra “vergonha”. Disparate porque, que se saiba, dizer que uma política é “vergonhosa” não ofende a cidadania habituada ao crescendo de linguagem agressiva nos últimos anos ou às histórias de deputados que falsificam as suas presenças ou os seus endereços para receber mais ajudas de custo. Disparate ainda maior porque um político com a experiência de Ferro Rodrigues devia saber que os populistas infiltrados no coração da democracia se alimentam da provocação. Dar-lhes fio à estrela é criar-lhes palco e promover o seu reconhecimento.

Nada do que se passou no lamentável incidente entre o presidente da assembleia e o deputado faz sentido. O discurso de André Ventura é uma vergonha pela demagogia, não tanto pelas palavras que usou para a desenvolver. Até porque um parlamento é um espaço de irrestrita liberdade onde só o bom senso, a moderação, a tolerância e o respeito pelo pluralismo têm de ser definidos de forma ampla. Não compete ao seu presidente determinar se o uso, mesmo reiterado, da palavra “vergonha” cabe ou não cabe nessas regras. Até porque cabe. Porque a palavra não choca nem surpreende no léxico parlamentar. E porque é normal que o deputado, à luz do seu programa, sinta rubor na face, ou opróbrio, ou receio de desonra por ter de discutir na casa da democracia. É bom que André Ventura se sinta envergonhado. Os que não simpatizam com o seu discurso, ficam até satisfeitos por isso.  

Ao censurar esse direito banal ao deputado como forma de defender o “prestígio” do Parlamento, Ferro Rodrigues excedeu-se. Mostrou preconceito, porque em variadíssimas vezes os deputados do Bloco ou do CDS usaram palavras equivalentes ou mais graves sem que isso o preocupasse. Mostrou que não sabe como moderar os instintos extremistas e manipuladores de uma certa direita. E mostrou que não percebe o processo de construção de projectos políticos como o do Chega. Juntando todas estas falhas, André Ventura pode expor-se como vítima, transformou o arrufo numa questão de Estado que reclama a intervenção do Presidente, e, mesmo até para os que execram as suas ideias e as suas palavras, pôde surgir em público como o paladino no combate contra uma certa classe política que se julga dona do país. Uma vergonha.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Junto do Céu - Poesia e Prosa


NA BUSCA DO REGRESSO de Entre Aspas
.
Estas águas nascem junto do céu
Estes corpos são puros e sagrados
Trazem junto ao peito os dias luminosos
E aquecem os seus sonhos perto do mar.
Estas praias são feitas do regresso
Ao tempo em que o tempo já não se conta
Há arcos de luz acesos no olhar
Que deixamos no fundo da idade.
Estas madrugadas que lembram hinos
Criados pela voz da liberdade
Com cores de romã e de cereja
E a beleza de não haver saudade.
Estas manhãs enormes são o berço
Onde se embala a vinda da magia
Onde há génios amigos sorridentes
-----Deslumbrados pelo sol do meio dia.
.
Renascer

.
Junto do céu sentei-me tristemente,
Enquanto os olhos choravam inquietos
O coração reluzia tão latente
Que os gazeios feriam os afetos.
.
Ao lado do mar chorei alegremente,
Era aquele amor de flora,de gravetos
Que um dia por ele chorei,inocente,
Nos perdoamos daquela dor no peito.
.
Como o amor as pazes são sementes,
Se planta,se colhe,se diz:refeito.
Errar da mesma forma não mais!Amantes
.
Somos,com brio,garbo e intento,
Mulher com sentimento fulgurante,
Homem com pétalas de amor no pensamento!
.

Maikel Mendonça -Manaus, Brazil
in
.

Histórias do Arco-Íris

excerto

Génesis

No princípio do princípio tudo era caos e mar, um mar profundo escuro e negro onde as escuras águas se revolviam em desassossego e não havia terra nem havia céu. Que tristeza!, pensou o menino velho. Que fazer para que tudo se veja e para que a cor vista a paisagem de suavidade e de encanto? Já sei!, disse o menino velho, depois de pensar um instante. Farei com que a luz exista! E assim lançou as sementes da poesia e quando a noite se foi, veio a primeira manhã e com ela a luz do primeiro dia.
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Olhou então o menino velho para baixo e de novo voltou os olhos para cima. Em baixo todos os mares se misturavam e em cima a luz não se via de onde vinha. Uma vez mais, num divino pensamento, separou os mares e criou o firmamento. Agora sim!, era do firmamento, junto do céu, que a luz surgia. Passou a tarde, escureceu, veio a manhã do segundo dia.
.
Mas o mundo, assim, era cheio de monotonia. A sua obra ainda agora tinha começado. Foi então que o menino velho separou os mares, um para cada lado, e para que cada mar não terminasse onde outro mar havia começado, foi buscar ao firmamento um pouco de argila e moldou rochas e penedos, picos e montanhas, fez surgir o fogo das suas entranhas, os ventos moldaram figuras bizarras e estranhas e limaram nos picos as suas arestas e, para que ao azul se unisse o verde, criou as árvores e das árvores fez florestas e desceu mais baixo do que as árvores e quis que por debaixo delas o verde também existisse e ordenou que as ervas nascessem e que até a mais simples planta florisse. E as flores deram frutos e os frutos deram sementes onde as árvores mães começaram a guardar os seus testamentos. E o menino velho ficou contente pela beleza que tudo encerrava e aos jardins por onde passeava chamou-lhes terra e gostou do que viu. Passou uma tarde, veio a manhã, era o terceiro dia e o primeiro em que sobre a terra a luz do firmamento caiu.
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Depois salpicou o céu da noite de muitas estrelas e ordenou que a Lua se passeasse entre elas. E porque durante a noite a sua luz mal se via, para que o dia sucedesse à noite e a noite fizesse desejar o novo dia, ordenou que o Sol enchesse de cada vez metade da terra com a sua alegria enquanto a outra metade em paz descansaria. E de novo o ciclo da criação se repetia. Veio a tarde, escureceu e de novo chegou a manhã do quarto dia.
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Mas o menino velho ainda estava triste. Faltava qualquer coisa para animar tudo isto. Já havia mar, luz, firmamento, terra, noite e dia, mas vida, a vida pouco se via. É claro que as árvores e as flores quebravam a monotonia, mas era paz de mais a paz que existia. Era uma paz que apenas o vento movia. Foi então que lhe surgiu a ideia. Que apareçam todos os animais, uns mais fracos, outros muito fortes, uns lentos, outros velozes, e que os mais fracos alimentem os mais fortes e que os outros se alimentem das plantas para que se encerre a cadeia. Agora sim, era maior a alegria, porque em todos os cantos do mundo, do mais alto ao mais profundo, tudo se movia. E veio a manhã do quinto dia.
.
Ao sexto dia o menino velho acordou sobressaltado. Depois de tanta obra feita e de ter gostado de tudo quanto viu, olhou em volta, percorreu o perto e o distante, o próximo e o longínquo horizonte, e não encontrou ninguém que a si fosse semelhante com quem partilhar todo aquele encanto, com quem brincasse, ou aborrecesse, com quem conversasse ou, simplesmente, quem o acompanhasse ouvindo o murmurar das águas de uma fonte. E assim criou o homem e de uma costela deste, também à sua imagem e semelhança, a mulher, obra digna de se ver e pô-los a viver no paraíso terrestre. E à semelhança da rocha, que em duas partes partiu, onde de um fez encosta, do outro fez vale e rio. E mandou que se amassem, até encher o jardim. E o sexto dia acabou assim.
.

A obra finalmente ficou completa. Ao sétimo dia o menino velho foi então poeta. Contemplou tudo quanto havia feito e gostou do que viu. Achou que tudo era simples e que por isso tudo era perfeito. Olhou a imensidão do mar e o sossego da floresta. Aproveitou para descansar, e ao sol, dormiu a sesta. E sonhou.
.
.........E no sonho havia um arco-íris em cada céu do universo.
.

in
Letras e Estudos Luso-Canadianos
.
um Sítio a Visitar
.
11/07/2006
O urubu e a dispnéia, por Sebastião Nery*


Enviada por Chagas Lourenço, de Natal/RN

* Publicada na TRIBUNA DA IMPRENSA, sexta-feira, dia 17 de outubro de 2003


Três índios bolivianos, à beira do lago Titicaca, lá junto do céu, ao pé do pico de Illampu, com 6.550 metros de altura, encostados nas pedras, olhando o infinito, fumavam seus longos cigarros de fumo de coca. Depois de horas do silêncio, um deles falou:

- Vou comprar a General Motors, a Volkswagen, a Ford, a Fiat, a Mercedes-Benz, a Toyota, e ser o maior industrial do mundo.

Os outros dois não disseram nada. Continuaram olhando o infinito e fumando seus imensos cigarros de fumo de coca. O segundo então falou:

- Pois eu vou comprar o Banco Central dos Estados Unidos, o Banco Central da Inglaterra, o Banco Central da Alemanha, o Banco do Brasil, o da Bolívia, todos os grandes bancos e vou ser o maior banqueiro do mundo.

Os outros dois nada disseram. E o terceiro, que nada tinha falado, falou:

- Não vendo!

E os três continuaram calados.
GERALDO MELO

Geraldo nasceu em Natal, Rio Grande do Norte,

.
imagem retirada daqui



quinta-feira, 27 de setembro de 2007

HISTÓRIAS DA GUERRA COLONIAL

MANUEL CARVALHO

ENCONTRO COM O JOÃO DE MELO












NOITE DE SENTINELA






- Cabrões ! - Com um piparote bem medido, Américo espalmou o mosquito contra o
pescoço. - Já não me lixas mais.


Sentia-se chegar ao limite da resistência, os tornozelos e os nós dos dedos
dolorosamente inchados de tanta ferroada. Prestes a desatar aos berros.

Ao redor do aquartelamento, à volta dos postes de iluminação, os mosquitos saíam
da noite em hordas cerradas.

"Maldita terra, malditos mosquitos. Não bastava este calor de morrer."


Pousou a G-3 no parapeito do posto de vigia e pôs-se a espiar o negrume.
Múltiplos ruidos, indestrincáveis, de todos os timbres, elevavam-se para além do anel
de luz das lâmpadas da periferia do aquartelamento. Era um bramar soturno, hostil,
prenhe de suspeições.


Por instantes esqueceu-se dos mosquitos, percorrido por um arrepio.
Mas o ressonar dos dois camaradas de posto, mesmo a seus pés, serenou-o.


"Se estivesse sozinho morria de cagaço."


Olhou o relógio de pulso. Os ponteiros fosforescentes indicavam
as três horas da madrugada. Dentro de três quartos de hora despertaria o
Mendes para o render. Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz.


Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a imagem ameaçadora do capitão
sobrepôs-se ao desejo. Não lhe apetecia mesmo nada apanhar uma porrada e ir parar ao
Leste, que era bem pior do que o Norte, segundo diziam.


"- Sentinela, éh sentinela !"


Emaranhado nos seus pensamentos, levou tempo a recompor-se.


- Estavas a dormir, logo na primeira noite ?


Pela voz, reconheceu o furriel Neves.


- Aqui no poleiro, não dá o sono a ninguém, meu furriel.


- Podia passar por aqui um regimento de turras que não davas por nada.
Vamos lá a ver se abres mais os olhos.


Américo sentiu os passos do furriel perderem-se na noite. Enervado,
tornou a olhar o relógio. Estava na hora. Até já passavam cinco minutos.

- Acorda, Mendes, está na hora.


O camarada soergueu-se da enxerga, estremunhado.


- Já ? Não me estás a tramar ?


- Vá, levanta-te. Não acordes o Fernandes.


- Logo agora que estava a sonhar com uma miúda muito boa lá da terra. Tens um cigarro ?


- Olha o capitão.


- O capitão que vá bardamerda. Dá cá o cigarro.


O clarão do fósforo iluminou dois rostos terrosos. Depois ficou a ponta
vermelha do cigarro a fazer arabescos na noite.


- Não te deitas ?


- Não tenho sono. Fico contigo um bocado.


- Saudades ? Deixa lá que qualquer dia já chega o correio.


Falavam em surdina, para não acordar o Fernandes. Os mosquitos tinham
acalmado e para além dos morros começava a assomar o palor da madrugada.


- Sabias que o meu filho fez ontem um ano ? - disse Américo, com tremuras na
voz. - É verdade, fez ontem um ano que ele nasceu em França.

- Tu estavas na França, não é ? Que maluqueira foi essa de voltares
para fazer a tropa ?


- Sei lá ! Comecei a pensar que nunca mais poderia regressar
a Portugal, que o meu filho nunca poderia conhecer os avós. A mulher
também se sentia triste sem a família. Resolvemos regressar. Mas quando
acabar esta merda, volto para a França.


- Dizes bem, esta merda.


Subitamente, um estampido acordou a noite.


- Ouviste ?


- Foi no posto 3.


Soou outro tiro, logo seguido duma rajada.


O aquartelamento encheu-se de sobressalto : luzes, vozes alteradas,
correrias, o latir do Fantasma.


- Será um ataque ? aventou Américo de dedos crispados na G-3.


O Fernandes despertara.


- O que é que a gente vai fazer ?- balbuciou.


A pergunta fê-los sentir como galinhas aprisionadas.


- Terá morrido alguém ?


- E nós aqui sem saber de nada.


- Que porra de situação.


- Calma - aconselhou Mendes. - Não me parece coisa grave.


- Sentinela ! - gritaram lá de baixo.


- Quem está aí ? - perguntaram em coro.


- É o furriel Meneses. Estejam tranquilos que ainda não é desta que vão
morrer. Foi o parvo do Costa que julgou ter ouvido um ruído estranho e desatou
às rajadas como um maricas. Algum javali.


- Que cagaço, meu furriel ! - Américo soltou uma risada nervosa. -
Já pensávamos que os turras tinham atacado.


- Ponham-se mas é a pau com os ataques dos mosquitos.


- Que susto aquele gajo nos pregou - desabafou o Fernandes. - Ia-me borrando todo.


- O furriel disse que eram os javalis mas podiam muito bem ter sido os turras.


- Nunca se sabe.


- Afinal, quem é que está de sentinela ? Eu ou vocês ? - galhofou o Mendes.


A parada enchia-se de vida com as primeiras pinceladas da manhã.


O segundo pelotão vair sair para a mata - suspirou o Fernandes. - Já é de dia.


- Graças a Deus - benzeu-se o Américo, olhos postos na luminosidade
que acobreava o dorso dos morros.






CHEGADA DO CORREIO



- João Moreira.



— Pronto!



— Carlos Afonso.



— Estou aqui.



Empoleirado numa mesa do refeitório,qual deus louco,
o cabo-cripto Ruivo semeia, às mãos-cheias, a alegria e a tristeza, as lágrimas
e os risos.



— Pedro Antunes.



— Eu...



- José Fernandes.



— Dá cá.



Mãos nervosas como gadanhas. Dedos
hirtos que se engalfinham nas cartas e aerogramas.



O Ruivo era o tipo mais importante da
Companhia. Ou, pelo menos, assim o cria.



Na verdade era ele que estava
incumbido da distribuição do correio que o avião trazia duas vezes por semana
de S.Salvador, juntamente com os frescos.



O avião chegava geralmente por volta
das onze horas da manhã e razava duas ou três vezes o aquartelamento, com as
goelas abertas, a dar tempo que se montasse a segurança à pista.



Enquanto o furriel vagomestre Máximo
procedia à conferência da carne e do peixe, o Ruivo recebia das mãos do piloto
o saco do correio. Aquele saco era um coração gigantesco, palpitante, poderoso.
O principal sustentáculo da Companhia. Mais do que as G-3 e a cerveja, as
metralhadoras e os cigarros, os morteiros e as negras da Sanzala.



— Hoje pesa - dizia invariavelmente
o piloto.



— Deve vir cheio de cornos -
gracejava por sua vez o Ruivo.



Concluida a transacção do correio e
dos frescos, a D.O. começava a deslizar pela pista e dentro em pouco não era
mais do que um mosquito zumbidor rumo a S.Salvador.



O pessoal da segurança saía do capim
e saltava lesto para o unimog que arrancava de prego a fundo para o caldeirão
ao rubro do aquartelamento.



— Américo Pereira.



— Aqui.



- Carlos Marecos.



— Viva!



Restam três cartas. As unhas
cravam-se nas palmas das mãos. Os rostos contorcem-se em esgares doloridos.



O Ruivo passeia um sorriso
displicente por aquele mar de olhos esgrouviados e acaricia o magro monte de
correspondência que resta com



artifícios de amante sabido.



— Despacha-te... pá!



- Calminha..., tens tempo de saber
que o teu filho já chama pai a outro.



- Vai gozar com a tua avó.



O litúrgico deu lugar ao burlesco. Ruivo
procura escamotear o tempo, prolongar o seu reinado.



- Daqui a nada tás a apanhar um
borracho nos óculos.



Atingido o ponto crítico de
ruptura.É perigoso ir mais além.



- José Mendonça.



— Até que enfim.



- Pedro Moreira.



- Uf...!



— Manuel Augusto.



— Mas... não há mais nada...? —
pergunta uma voz incrédula.



- Nada mais. Começa a procurar outra
que essa já te pôs os cornos.



Há rostos lívidos de angústia, sorrisos
rasgados de orelha a orelhas, dorsos quebrados de solidão, olhos refulgentes de
alegria.



“Sou o tipo mais importante da
Companhia” — conclui, mais uma vez, o Ruivo.





NOITE DE
CONSOADA





Pouco passava
das dez horas da noite e na caserna do 1o pelotão já se bebera até chegar como
o dedo. O Fernandes sacou do realejo e largou a tocar modinhas do Minho. Todos
se puseram a dançar, os dorsos nús cheios de reflexos acobreados.



- Puxa pela garganta, Fernandes. Mostra a esta
malta quem são os nortenhos - gritou o Pacaça. Levou uma cerveja à boca e a
maçã-de-adão começou a subir e a descer no pescoço de touro.



- Cinco segundos, hem! Quem é capaz de fazer
este tempo? Alguém tem peneiras? - desafiou ao redor, de olhos envinagrados.



Mas ninguém lhe ligou. Dançava-se e bebia-se
por entre guinchos ululantes. O odor dos corpos suados misturava-se com o
cheiro azedo da cerveja entornada. O Pacaça agarrou outra cerveja e recomeçou a
sua corrida contra o tempo: um.. . dois. . . três... quatro segundos.



Ufano, os olhos negros incendiados, desafiava a
malta.



- Hei-de chegar aos três segundos ainda esta
noite - taramelava, numa dança de ébrio.



O Barão começou a cantar:

«Estou farto deles»



E o pelotão acompanhou-o em coro:



«Da chicalhada,



Esses
pançudos,



Que não fazem nada».



Américo segurou Mendes por um pulso.



- Quero-te mostrar uma coisa - ciciou-lhe ao
ouvido.



Nos olhos já lhe bailavam meia dúzia de Sagres.



- Anda daí.



A malta continuava a cantar:



«Vai prá mata



Ó meu malandro.



Por tua causa



É qu’eu aqui ando».



Mendes, acabou de beber a cerveja e deixou-se
conduzir. Américo tirou a mala de debaixo da cama e abriu-a.


- Olha! Tá lindo, não tá?


Mendes segurou a fotografia. O rosto traquinas do filho do Américo fê-lo engolir em seco.


- Tá lindo, não tá? - insistia a voz cheia de lágrimas do Américo.


«Abre a cantina,



Ó cantineiro,



Anda co’a malta



Caga no Primeiro».



- Quando penso que hoje é noite de consoada! - -
soluçava o Américo.



O Fernandes estava fantástico nessa noite,
quase fazia o realejo falar. Os corpos contorciam-se, alucinados, ululantes. O
Barão saltou para cima duma cama:




- Meus senhores, vamos beber em honra da malta
que está nos postos de sentinela esta noite.



Foi então que uma ideia genial chispou naquele
mar de álcool.



- E se lhes fossemos levar uma pinga? - juntou
uma voz.



Como por magia uma garrafa de bagaço nasceu das
mãos do Pacaça.



- Em frente, marche! - comandou o Barão.



À aproximação daquele mar proceloso, as
sentinelas gritavam, alarmadas:



- Quem vem lá?



- É o pai Natal que te trás um presente -
respondia-lhe o pelotão.



E sem tempo para uma resposta, a garrafa de
bagaço começava a gorgolejar garganta abaixo dos felizes contemplados.






MARIA


O Pacaça esqueceu-se que era um
grande bebedor. Já nem mesmo uma boa partida de lerpa o fazia esquecer a
imensidão exasperante dos dias.



— É um caso perdido - comentava,
descoroçado o Barão. — Eu que tinha tantas esperanças neste rapaz!



O Pacaça sorria, o carão inundado
por um fogaréu que lhe crescia nas entranhas.




Impreterivelmente todas as noites,
antes de se escapulir do quartel para a cubata de Maria, passava pela cozinha
buscar os restos do jantar.



— Lá vem o rapa-tachos - galhofavam
os cozinheiros.



Quando havia faltas, chegava ao
ponto de repartir com a rapariga a sua ração. Estirado no catre, qual ritual,
gostava de vê-la comer, silenciosa, cheia de olhares idólatras.



No final, olhos semi-cerrados, o
rosto crispado de desejo, chamava-a:



— Anda cá.



Naquela noite estranhou-a. Não lhe
achou o ardor habitual. O olhar turvou-se-lhe ciumento.



— O que tens?



— Nada - respondeu Maria, abraçando-o.



O Pacaça repeliu-a com brutalidade.



— O que tens? - repetiu,
sondando-lhe os olhos baixos.



— Tenho um filho na barriga -
anunciou, com simplicidade, Maria.



— Um filho!? - gritou Pacaça,
sentando-se de repelão no catre. — Meu!?



Apanhou as calças e vestiu-as
atabalhoadamente. Sentia o estômago às reviravoltas como quando estava com a
ressaca.



Maria continuava sentada na beira do
catre, esfíngica estátua de ébano.



O Pacaça calçou as botas e pegou na
camisa.



— Um filho!?



Velou noite fora.



“Um filho!?”.



Era algo de insólito que se
incrustara subrepticiamente no seu mundo simples e que, à traição, o socara no
estômago, como um copo de bagaço em jejum.



Ouvia o ressonar dos camaradas. A
lua ocupou, gorda e enfarinhada, o rectângulo da janela, pincelando a oca a caserna.
Depois, tranquilamente, desapareceu.



“Que diabo posso fazer? Levar o
garoto comigo? Abandoná-lo?”



A esta última alternativa. o coração
confrangeu-se-lhe. Na sanzala, em todas as sanzalas por onde passava, as
crianças mulatas constrangiam-no.



— Éh filho duma lata de conserva!



— Éh café com leite!


Nunca deixara de repreender os
camaradas, quando estes troçavam dos garotos.




Certa vez ia jogando à porrada com o
Barão. Não tinha estômago para ouvir aquelas coisas.



“Iria o seu filho ser um dia alvo de
troças idênticas?”



Sentia-se acalorado. Com os pés.
atirou o lençol para o fundo da cama, indiferente aos mosquitos.



“E se ficasse em Angola?”



Arrepiou-se e cobriu-se de novo com
o lençol.



Na sanzala, os galos lá cantavam. Em
breve despontaria a alba.



Passou ao de leve pelo sono. Um sono
prenhe de pesadelos e de reviravoltas na cama. A uma reviravolta maior a
despertina regressou. Contou os meses pelos dedos.



“No fim da comissão já o miúdo teria
um ano. Já lhe chamaria pai.”



A ideia de ficar, qual monstro libidinoso,
enroscou-se-lhe no cérebro.



“E por que não? Já ouvira dizer que
davam terras lá para o sul. Não tinha medo ao trabalho. Afinal, se regressasse,
não teria também que ir cavar o seu pão na Alemanha ou na França? Pelo menos em
Angola compreendia as pessoas, falava-se língua de gente. Por que não? Ficar
com a criança, com Maria”.



O Pacaça sorriu e fechou os olhos,
apaziguado. Não tardou a adormecer. Pela janela já escorria uma claridade
diáfana.









FANTASMA






O Américo pensava no filho, que no próximo
domingo fazia dois anos, quando a explosão o atirou ao ar. Caiu de costas na
cama fofa do capim.



Por um bom lapso de tempo não conseguiu
raciocinar, os ouvidos numa zoada tremenda. Gradualmente, foi recuperando a
lucidez.



«Meu Deus! O que teria sido? Meus Deus, meu
Deus, devo estar ferido. Será grave?»



Vozes alvoroçadas subiam ao redor.



«Meu filho, nunca mais te torno a ver».



Após mais uns minutos de imobilidade,
apercebeu-se que não sentia dores. Ousou mexer um pé, depois o outro, as mãos,
o pescoço, o suor a cegá-lo. Sentou-se.



«Meu Deus, estou vivo».



Pôs-se de pé. A zoada nos ouvidos parou. Finalmente,
compreendeu que não estava ferido.



Na picada sobrepunham-se ordens, gritos,
correrias.



«Foi uma mina, foi uma mina. Onde estará a
minha G-3? Se o capitão me apanha sem a arma dá-me uma descasca.»



Reentrou na picada.



- Há feridos?



Ninguém lhe respondeu. O capitão, na berma da
picada, acocorado sobre o rádio de transmissões, estava a comunicar com a
Companhia, numa voz despropositadamente alta. O Barão fumava um cigarro, com a
G-3 a servir de cajado. O enfermeiro punha um penso na testa do Costa.



- Estou muito ferido? - perguntou este, pálido
como um cadáver.



- Nem deita sangue. Feriste-te numa folha de
capim.



- Qual folha de capim, qual carapuça, isto foi
um estilhaço. Bem senti.



O unimog atingido afocinhara, com os pneus da
frente rebentados. Um cheiro intenso a borracha queimada pairava no ar.



- Vem já aí o 2° pelotão socorrer-nos anunciou
o capitão largando o rádio. - Alferes Mendonça mande já os homens sair da
picada e monte a segurança. Que bandalheira é esta?



Só então o Américo sentiu a falta do Fantasma.



- O Fantasma? Onde tá o Fantasma?



- Cagou-se todo com o medo e cavou por esses
morros acima - troçou o Barão.



Américo emitiu um assobio e esperou. Nada, do
Fantasma nem sombras.



- O
Fantasma tá aqui, Américo. Em cima do unimog.



Américo correu para a viatura danificada. Um grande
novelo, branco e peludo, jazia sob os bancos.



- Fantasma - chamou Américo.



O animal não se moveu.



- Fantasma! - tornou o dono, a voz sumir-se.



Pegou-lhe por uma pata inerte e puxou-o. Estava
morto. Um estilhaço perdido fizera um rombo na caixa da viatura e perfurara-lhe
o peito, ao nível do coração.



Américo continuou a puxar e o corpo tombou na
picada com um baque surdo. Uma roseta de sangue alastrava pelo peito do
cadáver, humedecia a terra esfarelada.



Mendes pousou a mão no ombro do Américo.



- Tem calma. . -



- O que há aí?- interpelou-os o capitão. - Não
ouviram as ordens?



- O Fantasma morreu - disse Mendes.



- Atirem-no para o capim. Antes o cão do que um
homem. Mexam-se.



- Ficaste viúvo, Américo - troçou o Barão.



-
Deixa-o
- disse secamente Mendes.



Surdo a tudo, Américo debruçara-se sobre o
corpo do Fantasma, os lábios lívidos como que agitados numa prece.





ARMADILHAS







A mensagem, captada pelo pessoal
do posto de transmissões, propalou-se rapidamente pelo aquartelamento:



"Caiu uma catrefada de turras
nas armadilhas do trilho Luvo."



As casernas esvaziaram-se e a
parada encheu-se de frenesim. Os cozinheiros largaram os tachos e correram a
engrossar os magotes efervescentes. 0 pessoal da limpeza desenvencilhou-se das
vassouras e embicou direito ao posto de transmissões. Para aumentar a balbúrdia,
o jipe da água com o auto-tanque a reboque irrompeu pela parada a grande
velocidade, quase cilindrando um dos grupos.



- Querem trancar o jipe? - refilou o condutor, envolto numa nuvem de
poeira.



O furriel mecânico Reis
apercebeu-se do incidente e saiu disparado da messe dos sargentos, de rosto
apoplético por quatro ou cinco Sagres.



-
O que há?



- Estes gajos atravessaram-se
diante do jipe - desculpou-se o condutor.



- Quantas vezes já te disse para
andares mais devagar dentro do
aquartelamento? - gritou o furriel
assanhado.



O condutor achou por bem bater em
retirada e o jipe começou a rastejar de rabo entre as pernas para a cozinha.



Só então o furriel Reis se
apercebeu da agitação reinante.



- Passa-se alguma coisa? - perguntou
ao redor.



- Parece que caiu um exército
de turras nas nossas armadilbas - respondeu-lhe o básico Marecos, feliz por
esclarecer um furriel.



O furriel Meneses estava estendido
na cama, embrenhado na leitura duma revista quando se levantou a balbúrdia. Depois
ouviu o derrapar do jipe.



''São os fangios do Reis” pensou,
mas como a agitação persistia pousou a revista e foi abrir a
porta.



- O que há? - perguntou ao Reis
que regressava agitadíssimo à messe.



- Cairam uns gajos nas armadilhas
do Luvo.



- Nossos?!



- Turras, parvo.



Meneses começou a ver tudo à roda.
Parada, homens, casernas, céu, bandeira, num turbilhão alucinante. Encostou-se à
parede para não cair.



-
Sentes-te mal, pá? - assustou-se Reis.



Lentamente,
tudo foi reocupando o seu devido lugar. Ficou só o coração a estraçalhar o
peito.



- Queres um copo de água?



Meneses abanou a cabeça.



- Não,
obrigado. Já estou bem.



- Devias ir medir a tensão, aconselhou o
Reis. Deves andar a precisar duns copos. Anda dai.



-
Vai tu. Já estou bem.



O
Reis ainda duvidava.



- Vê lá se te dói alguma coisa.



Meneses reentrou na camarata. Atirou-se para cima da cama.



“Caídos nas armadilhas que ele e o alferes Vasconcelos tinham
montado.”



Vozes, saídas das próprias entranhas esmagavam-lhe as têmporas.



“Assassino... Assassino...”



Afundou a
cara na almofada, as mãos crispadas nos ferros da cama.



Um rugido
animal subiu-Ihe à garganta e as lágrimas saltaram, por fim, a ferver, rosto
abaixo.










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BREVEMENTE, NOVA HISTÓRIA