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segunda-feira, 9 de junho de 2025

José Gabriel - Proposta cultural – Pimbemos!


Imagem gerada por IA


* José Gabriel, in Facebook, 

08/06/2025, Revisão da Estátua)


Exma. Senhora Ministra da Cultura e Assuntos Correlativos
Excelência

Olhando a composição de governo a que V. Exa. pertence, bem como a alvissareira nomeação de V. Exa. para o alto cargo que merecidamente lhe coube, concluo que chegou, após tantos anos de espera, a oportunidade de valorizar e patrimonializar elementos da cultura-pátria até agora diminuídos pela arrogância e elitismo serôdio dos governos e gerações que agora se vão finando.

A ascensão de V. Exa. à condição de Ministra da Cultura é um grito de libertação daqueles que, fugindo ao pedantismo até agora reinante, se sentem encorajados a levantar a voz em defesa de valores que o povo ama e tem no coração. Quais? – perguntará V. Exa. em estado de compreensível expectativa. Inúmeras que são as subidas prendas da cultura que, desde o povo mais ignaro à ilustrada juventude universitária, merecem o mais extremoso amor luso.

Veja-se, por exemplo, a música. Não, não, não me refiro àquelas obras que soam nas salas de concertos e nos teatros – com nomes de santos – e deles não saem, onde, a par de estrangeiros de outros tempos – Mozart, Beethoven, Bach, Debussy, Stravinsky, Verdi, Wagner e muitos outros…- e portugueses dados a vanguardices e/ou classicismos que o povo não ama, se vai esvaindo o erário público.

Entretanto, só nos programas culturais das tardes dos canais de televisão generalistas e em algumas festas estudantis se vai vendo e ouvindo o incompreendido tesouro musical e poético que dá pelo nome torpe de “música pimba”, nome criado por elitistas que nem sonham as subtilezas que se ocultam nos entrefolhos – por assim dizer – dessas obras imorredouras. Na verdade, não nos deixemos enganar pela aparente simplicidade das melodias. Tal simplicidade está ao serviço da evidência da riqueza poética que, digamos assim, a recheia. A elegante e complexa polissemia abunda. Basta ouvirmos uma peça como aquela em que Rosinha canta:

“Eu levo no pacote

Ai eu levo sim senhor

Eu levo no pacote

P’ra  gosto do meu amor”

Não podemos deixar de admirar o uso ambíguo do “pacote”, aproveitando a riqueza polissémica da palavra. Joga-se assim na complexidade da proposta poética, deixando ao ouvinte a interpretação sobre se se está a fazer uma subtil insinuação libidinosa envolvendo a intimidade posterior – como lhe chamou Fellini – ou a falar num simples contentor onde a jovem leva a refeição do seu amor.

Também outro génio incompreendido, Quim Barreiros, não para de nos fascinar com as suas volutas – chamemos-lhe assim – semânticas. Quando canta a sua vontade de cheirar o bacalhau da Maria, está a falar do saboroso gadídeo ou a referir-se à região vulvar da cozinheira?

Quando diz ser o mestre da culinária que quer comprar uma panela de pressão a ver se “cuzinha mais depressa”, quem não vê a subtileza daquela vogal que só os distraídos entenderão como erro ortográfico? E a garagem da vizinha em que o trovador diz meter e tirar o carro à hora que quiser? E onde, até, muda o óleo? Quem não se fascina com a elegância destas ambiguidades poéticas, estes complexos jogos de sentido?

E até Emanuel, de cuja erudita obra musical deriva a designação deste tipo de trova, a palavra “pimba”, quando nos canta

“E se elas querem um

Abraço ou um beijinho

Nós pimba, nós pimba

E se elas querem muito

Amor, muito carinho

Nós pimba, nós pimba”

deixa à imaginação do ouvinte o significado deste imperativo ato. Pimba significa um firme e empenhada ação de cariz sexual que responda às ânsias das ”elas” de que fala o poema, ou um gesto, comportamento, atitude que decorra do livre-arbítrio do sujeito a que se dirige o apelo? “Nós pimba” pode significar nós fugimos, nós tomamos um café, nós desmaiamos, enfim, as possibilidades são tão infinitas como o talento do autor.

Outros exemplos poderiam ser chamados à liça. Mas, penso, Exma. Sra. Ministra, que estes são mais que suficientes. De resto, V. Exa. não ignorará o modo como estes artistas são aplaudidos e idolatrados em festas universitárias, por públicos da geração de V. Exa. que, como é consabidamente repetido, é a geração mais preparada de sempre. Logo, não pode estar enganada.

Do exposto, rogo a V. Exa., Senhora Ministra, que diligencie a proposta de classificação desta tão nossa forma de arte a Património Imaterial da Humanidade. O povo vos agradecerá e não deixará de exaltar o nome de V. Exa. e alcandorá-lo a par dos grandes da cóltura, perdão, cultura, de Portugal.

A bem da Nação

Nós, Pimba!

https://estatuadesal.com/2025/06/09/proposta-cultural-pimbemos/

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Olhares .. sobre a emigração portuguesa em França




EI-LOS QUE CHEGAM*
QUINTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2015
PUBLICADO POR RICARDO M SANTOS

“São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.

Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. Não têm, por isso, noção de amor à nação. Fogem em vez de defenderem o seu país e lutarem por uma vida melhor lá, na terra deles, vêm para aqui sujar o nosso país com a sua imundície. Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.

Bem, na verdade, não roubam exactamente o nosso trabalho, porque aqui há leis que não nos permitem trabalhar 18 horas diárias, embora isso exista e dê jeito a alguns patrões. Mas de certeza que nos roubam qualquer coisa. São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão.

Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem. Se é para viverem na miséria, mais valia ficarem na terra deles.”

Diário de um Parisiense,1969

*Embora pudesse ser um relato verdadeiro, demonstrativo da nossa estupidez colectiva, este texto é ficção. É da minha autoria. Não está em mais lado nenhum que não no blogue nem é excerto de coisa alguma. 

* Foto de  Gérald Bloncourt (http://bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html)
* Texto original de Ricardo M. Santos em 
http://manifesto74.blogspot.pt/2015/09/ei-los-que-chegam.html




http://www.bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Bee Wilson - A evolução natural na cozinha


COPY&PASTE

QUARTA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO DE 2012


A evolução natural na cozinha


por Thaís Serafini designer de produto e editora de conteúdo para a web, apaixonada por leituras, pesquisa e reflexões sobre design no cenário atual e em suas direções para o futuro. Tudo isso e mais algumas divagações estão disponíveis em seu blog Cataclisma Material.


Os armários e as gavetas da cozinha compõem um prato cheio para designers e apaixonados pelo assunto. Utensílios novos convivem com antigos, materiais diversos se misturam e funcionalidade quase sempre é a palavra de ordem. Como vocês já devem ter percebido nos meus posts por aqui, eu mesma adoro falar de objetos de cozinha, e por isso também achei super interessante o artigo da Época que compartilho.

O texto fala do Consider the fork, um livro recém-lançado nos Estados Unidos que trata da origem e do destino dos utensílios culinários desde a pré-história até os dias de hoje. Bee Wilson, uma historiadora de gastronomia, reúne muitos exemplos de objectos conhecidos e desconhecidos, antigos e novos, para comparar a evolução dos utensílios da cozinha com a evolução das espécies através da seleção natural. 





E, para finalizar, além dos gráficos interessantes acima, uma curiosidade: você sabe qual o utensílio de cozinha mais antigo que se tem registro - criado há cerca de 2 milhões de anos, antes mesmo da invenção do fogo? Talvez seja óbvio e mesmo surpreendente, mas estamos falando da faca! 

Imagens via

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Bee Wilson desvenda «A História da Invenção na Cozinha»







03-05-2013 às 13:16
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Bee Wilson desvenda «A História da Invenção na Cozinha»


Origem e evolução dos utensílios, a sua influência na textura, sabor e valor nutricional dos alimentos são o que oferece o livro «A História da Invenção na Cozinha», de Bee Wilson, editado pela Temas & Debates.

«Uma  colher  de  pau  – o  mais  fiel  e  adorável  dos  utensílios  de cozinha – parece ser o oposto da «tecnologia», na aceção mais geral desta palavra. Mas observemos  com atenção uma colher de  pau.  É  oval  ou  redonda?  Côncava  ou  rasa?  Talvez  o  cabo seja  muito   comprido,  para   que   a   nossa  mão   fique   mais protegida   de   uma   caçarola   quente?   Talvez   tenha   uma extremidade  bicuda  num  dos  lados,  para  chegar  aos  cantos  de uma caçarola?
Foram  precisas  inúmeras  invenções,  grandes  e  pequenas,  para chegar às bem equipadas cozinhas de que dispomos agora, onde a nossa amiga colher de pau de baixa tecnologia ombreia com misturadoras,  frigoríficos  e  micro-ondas.  Mas  a  história  da invenção humana na cozinha é quase desconhecida. Nesta obra conta-se como domesticámos o fogo e o gelo, como desenvolvemos  batedeiras,  colheres,  raladores,  espremedores, 
pilões  e  almofarizes,  como  usámos  mãos  e  dentes,  tudo  em nome de garantirmos o alimento diário. Há engenho inventivo oculto  nas  nossas  cozinhas  que  influencia  a  maneira  como cozinhamos e comemos. Este não é um livro sobre a tecnologia da   agricultura,   nem   acerca   da   tecnologia   da   cozinha   de restaurante.  Fala-nos  do  sustento  quotidiano  dos  lares  e  dos benefícios  (e  riscos)  que  os  diferentes  utensílios trouxeram  ao ato de cozinhar.»


terça-feira, 30 de junho de 2009

Fundação Saramago - 2º aniversário


A Fundação fez ontem dois anos. Como é costume dizer-se, parece que o tempo não passou. Se nos pusermos a traçar um balanço do que fizemos e do que sonhávamos, motivos não faltarão para afirmar que não tivemos um momento de descanso. Em primeiro lugar, a preocupação de decidir sobre o que melhor convinha à recém-nascida para que o passo seguinte que tivesse de dar fosse firme e futurível. Depois o trabalho de convencer os desconfiados de que não estávamos aqui para nos dedicarmos à contemplação do umbigo do patrono, mas para trabalhar em benefício da cultura portuguesa e da sociedade em geral. Não temos a pretensão de os haver feito mudar de ideias, nem então, nem agora, mas essa tarefa de esclarecimento público permitiu-nos levar as nossas ideias e as nossas propostas às pessoas de boa-fé, que felizmente não faltam neste país, por muito mal que dele se diga. A Fundação já pode apresentar uma folha de serviços, não só digna, mas prometedora. As obras da Casa dos Bicos, que visitámos há três dias, avançam com afinco, e é muito provável que em seis meses ou pouco mais tenhamos a chave na mão e possamos entrar livremente na casa que já é nossa, mas que o será muito mais quando estivermos em actividade plena. Queremos que o Campo das Cebolas faça parte dos itinerários habituais das pessoas para quem a cultura não é somente uma decoração superficial do espírito. Recordámos recentemente a obra e a vida de José Rodrigues Miguéis. O próximo, talvez em Janeiro do ano que vem, será Vitorino Nemésio. E depois Raul Brandão. As leis, tantas vezes injustas, da oferta e da procura no mercado das letras, demasiadas vezes têm feito com que grandes escritores do passado recente deixem de andar nas bocas do mundo. Tudo faremos para contrariar essa maléfica tendência. Temos muito trabalho por diante. Dois anos não são nada, mas a menina está de boa saúde e recomenda-se.

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Publicado em O Caderno de Saramago
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Foto de Saramago -

instituto-camões.pt/revista



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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

PALAVRA DO BISPO - “Après moi le déluge” ?

bispo diocesano

Escrito por Dom Paulo Sérgio Machado, bispo diocesano 09-Mai-200809-Mai-2008

PALAVRA DO BISPO

Qual é a herança que estamos deixando para os nossos filhos? Estamos passando para eles, pelo nosso testemunho, o amor à vida, a alegria e a esperança tão necessárias? Que tipo de fé nós estamos comunicando?

Infelizmente há muita gente que adota esta “filosofia” de vida, alicerçada na famosa declaração de Luis XIV, o Rei Sol: “Après moi le déluge” (“depois de mim o dilúvio”), isto é, “depois de mim o mundo pode se acabar, o que importa sou eu”.

Foi, na verdade, uma infeliz declaração que bem poderia figurar no rol das frases (mal) ditas, mas, convenhamos, seríamos ingênuos se pensássemos que este é um pensamento isolado. Ledo engano! Há milhares de pessoas que compartilham o pensamento de Luis XIV. Talvez usassem uma expressão diferente como “tô nem aí” ou “o mundo que se dane!”.

Que mundo estamos construindo ou que herança estamos deixando para os nossos filhos? Vivemos num tempo em que as ações são desencadeadas mais tendo em vista o imediato do que o duradouro. A impressão que se tem é de que o homem não tem mais paciência de esperar, aquela virtude tão necessária ao agricultor e tão característica do pescador. O agricultor que não sabe esperar não planta e, se planta, colhe antes da hora e põe a perder o seu trabalho. O pescador que não tem paciência nada vai pescar, pois o peixe não tem hora e pode demorar a chegar.

O mundo (e consequentemente o homem, motor desse mundo) está mais preocupado com o “ter” do que com o “ser”, com o “hoje” do que com “amanhã”, com o “estético” do que com o “ético”. Para ele, o que conta é o “agora”, o “já”, daí ser definido como imediatista. E, o que é pior, ao imediatismo se soma o individualismo: o que conta é a defesa dos próprios interesses. É um mundo “egocêntrico” que só sabe conjugar o verbo na primeira pessoa do singular, deixando-se conduzir por uma estranha matemática: eu + eu = eu. Esta aí a razão de tantos casamentos desfeitos; a explicação para tantas “depressões” e “desajustes sociais”. O homem ainda não conseguiu sair da “casca do ovo” para se encontrar com o “outro”. E, não se encontrando com o “outro”, muito menos com Deus ”. É vivendo junto com os outros e, como eles, que aprendemos a viver. A convivência não pode ser vista como arte de acomodar interesses pessoais imediatos. Daí o desafio de conviver. Na verdade, viver é fácil. O difícil mesmo é conviver, isto é, “viver com”. Isto exigirá de nós uma certa dose de altruísmo que, à luz da fé, vai se transformando em Caridade.

Que mundo nós estamos construindo? Esta é uma pergunta incômoda, pois exige de nós uma resposta sincera. Pensemos, pois, numa forma moderna, atualíssima, não individual, mas compartilhada: a destruição da natureza. Deus fez o mundo em sete dias e o homem quer destruí-lo em igual tempo. Caem florestas, ano após ano, decoradas por moto-serras inescrupulosas e gananciosas; rios, lagos e mares poluídos tornam-se, cada dia mais, fontes de morte ao seu redor; a atmosfera, ferida pelas emissões de tóxicos... E, poderíamos continuar esta trágica exemplificação.

Qual é a herança que estamos deixando para os nossos filhos? Estamos passando para eles, pelo nosso testemunho, o amor à vida, a alegria e a esperança tão necessárias? Ou, pelo contrário, estamos nos deixando contaminar pela desesperança, “entregando os pontos”, engrossando o número dos que pertencem à confraria dos braços cruzados, constituída por uma legião de cidadãos demissionários, que atiram os remos ao fundo do barco? Se for esta a nossa atitude, poderemos fazer coro ao que disse Luís XIV: “Après moi le déluge”.

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segunda-feira, 12 de maio de 2008

Ensino de história da África e de cultura afro-brasileira.


LEI 10639/03

Marisa Antunes Laureano*

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“Resgatar a nossa memória significa resgatarmos a nós mesmos da armadilha da negação e do esquecimento, significa estarmos reafirmando a nossa presença ativa na história pan-africana e na realidade universal dos seres humanos..”

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Abdias Nascimento

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A Lei 10639/03 é o resultado de uma luta histórica. O movimento negro e todas as entidades que combatem o racismo e discriminação racial, de qualquer natureza, reconhecem que essas práticas são frutos do desconhecimento. A própria palavra preconceito na sua semântica já demonstra isso. Fazer um conceito prévio de determinada pessoa, que a denigre, resulta de um desconhecimento de suas verdadeiras características. E o povo negro sofre esse preconceito há séculos. E somente o conhecimento da história e de uma compreensão de sua cultura vai encaminhar a nossa sociedade para o rompimento com práticas preconceituosas e discriminatórias.

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Devemos primeiro entender a origem do racismo, pois este foi construído historicamente. O ser humano não nasce racista, ele aprende a ser. E na origem deste processo está o advento da sociedade capitalista. Quando a burguesia surge como classe detentora do capital, no século XV, ela estabelece novas formas econômicas que vão extinguir, aos poucos, as práticas feudais e erguer as práticas capitalistas. E dentro deste processo, de um novo modo de produção que surge, novas relações humanas passam a ser estabelecidas. O mercantilismo surge junto com a expansão marítima, onde os europeus, já não mais acreditando no mundo quadrado, passam a navegar e tentar encontrar novos caminhos para as índias. E neste percurso de conhecimento de outros povos (principalmente os africanos) os contatos são feitos ainda sem o racismo que virá quando surge o interesse pela dominação direta destes povos.

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O europeu navegador, que pensa-se descobridor de novas terras e vê-se como o centro do universo, cria então eurocentrismo. A Europa passa a ser o centro do mundo e os demais continentes devem ser submetidos, aprisionados, escravizados. A Europa passa a ter o sistema capitalista, que aos poucos vai dizendo para que veio e mostrando a sua cara cruel de exploração absoluta e de dominação, a lei do mais forte, o darwinismo social, a pólvora.

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Quando as novas terras passam a ser ocupadas com produções locais torna-se necessário uma mão-de-obra mais extensa. Neste caso, a mão-de-obra local vai ser usada (a indígena na América), mas a medida que esta mão-de-obra passa a ser exterminada e catequizada, concomitantemente, dois fatores vão levar à introdução da mão-de-obra africana na América: 1°) A afirmação da Igreja Católica Apostólica Romana da existência de alma nos índios e de não alma nos africanos. 2°) o lucro que o comércio de seres humanos passa a representar. (religião e dinheiro, eis a questão).

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O europeu tinha claro conhecimento da humanidade dos africanos, pois há muito tempo negociavam com eles, conheciam seus territórios, tinham uma relação histórica com os povos do norte da África. Por isso, para tornar escravo esse povo que tinha uma história muito antiga e rica (vide Egito Antigo), era necessário um argumento convincente. O religioso, que sempre funciona (até hoje), era o de que eles não eram cristãos (o termo cristão já sendo usado como sinônimo de bondade, pureza, dignidade, e as fogueiras queimando seres humanos.). Se não são cristãos, não têm alma, se não têm alma não são humanos. E caso sejam humanos são inferiores. Mas se são humanos por que são inferiores? Por que são diferentes, tem a pele escura, são pretos. O racismo começa a surgir. E o discurso foi tão forte e tão bem construído que predomina até hoje.

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Agora temos que desconstruir esse discurso da inferioridade do povo africano, para elevar à condição de igualdade todos os afro-brasileiros, que ainda hoje por sua origem são discriminados pelo aumento de melanina na pele.

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O primeiro passo para os professores, das mais diversas áreas, e não somente história, é trabalhar a origem dos afro-brasileiros, mostrar a África como ela realmente foi e como ela está hoje. O porque de sua desestruturação. Imagine que por 300 anos foram retirados deste continente todos os homens e mulheres em idade produtiva! Qual o resultado deste processo para o continente? Foi trágico. E não são os resultados que devemos trabalhar, mas as causas deles.

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A origem do ser humano também é muito importante ser trabalhada. Neste caso devemos saber que as questões religiosas vão sempre atravancar qualquer debate sobre racismo. As intolerâncias religiosas destroem civilizações, matam pessoas, denigrem comunidades, e até hoje não se encontrou uma paz de fato, pois em nome de deus os seres humanos ainda matam. Na hora de mostrarmos para nossas crianças a origem do ser humano isso deve ser feito de forma científica. E essa é parte mais difícil na hora de combater o racismo. Pois o professor não se vê como cientista e fica preso a convenções religiosas que não levam à emancipação humana, e sim ao atraso de pensamento.

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A trajetória do ser humano pela Terra e seu processo evolutivo demonstra claramente a origem africana do ser humano e a existência atualmente de uma única raça: a raça humana. A construção da idéia de raças diferentes, que ocorre fortemente no século XIX, surge para justificar a segunda fase da dominação dos povos africanos e, a partir de então, também os asiáticos. Não era mais possível a argumentação da existência de alma ou não, em um século que vai ser o século da ciência. Era preciso usar a ciência para justificar a dominação sobre outros povos. Assim surge a Eugenia, que por séculos vai fazer parte das ciências biológicas, e vai justificar a dominação pela inferioridade de determinadas raças. Então, é importante desconstruir isso também. A eugenia, ciência utilizada pelos nazistas, foi utilizada no Brasil até os anos 50 para prender pessoas ou afastá-las do convívio da sociedade. Os afro-brasileiros sofreram muito a marginalização a que foram colocados em função de sua diferença física, argumentada pela eugenia como passíveis de desvios de conduta.

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O Brasil é o segundo país do mundo em quantidade de negros, tem metade da população assumindo a sua negritude (fora os que não assumem), mas também é um dos países mais racistas do mundo (segundo pesquisa feita pela ONU). Esse quadro tem que mudar, e como tudo é através da educação que devemos fazer isso:

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As escolas devem procurar trabalhar interdisciplinarmente a valorização da identidade negra, através do conhecimento da história da África e da cultura afro-brasileira. Existem diversas formas de trabalhos que podem ser realizados, principalmente na semana da consciência negra, que dentro da lei consta como data que deve ser destacada nas escolas com alguma atividade.

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Alguns exemplos de trabalho:

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História => A história da África, principalmente mostrando o quanto foram grandiosas as civilizações dos diversos países africanos, a começar pelo Egito.

Geografia => Mostra que a África é muito grande, que é um continente que abriga diversos países. Discutir com os alunos a diversidade étnica dentro do continente, e como a divisão forçada no século XIX origina até hoje disputas internas que não precisariam existir se não fosse a mão dos europeus ali.

Sociologia => Trabalhar as semelhanças sócio-econômicas entre os países africanos e o Brasil, ou outros países do terceiro mundo. Por que víamos somente negros na televisão quando passou o furacão nos EUA?

Ciência ou Biologia => Trabalhar a origem do ser humano. O continente-mãe que é a África. Por que mais ou menos melanina na pele? A caminhada dos homens pré-históricos pelo planeta e suas mudanças físicas para adaptação ao meio.

Matemática => Onde surgiu a geometria? Como os egípcios construíram as suas pirâmides? Quanto cálculo foi necessário para eles chegarem aquelas formas perfeitas? A engenharia que utiliza cálculos surge no Egito. Quando pesava cada pedra colocada na pirâmide? Quantas pessoas foram necessárias para carregar as pedras?

Língua estrangeira => Os professores de língua inglesa trabalham muito com música. Que tal trabalhar também a origem destas músicas? Trabalhar com músicas de origem negra, como o blues, o jazz, o rock, o reggae. Trabalhar com texto de líderes negros norte americanos, como o famoso discurso de 1963 de Martin Luther King: I Have a dream.

Português => As palavras de origem africana que existem na língua portuguesa são as mais diversas, é possível um debate sobre estas palavras, as quais os alunos conhecem. A literatura trabalhada deve mostrar a criança negra presente. Os poemas de Castro Alves são ótimos para trabalhos em aula, demonstrando além do talento do poeta a luta negra no Brasil.

Artes => Que tal construir máscaras africanas de forma criativa, discutindo a origem delas e o significado religioso das máscaras para os africanos, e também a transposição destes significados para outros símbolos de religiões afro-brasileiras.

Educação física => É importante trabalhar com os alunos o negro e o esporte. Desmistificar algumas coisas tipo: o negro joga futebol, mas não pode ser nadador. O negro pode ser qualquer coisa dentro do esporte. A Daiane dos Santos prova que o negro poder ser um ginasta, coisa impensada até bem pouco tempo, por ser este um esporte de meninas ricas. Mostrar a anatomia de cada um: a raça é a mesma, mas temos diferenças de cor, de força, em função de nossa origem pré-histórica e misturas étnicas ao longo dos séculos.

Ensino religioso => Talvez a disciplina mais importante para acabar com preconceito. O compromisso do ensino religioso deve ser o de debater identidades religiosas, respeitando a diversidade. E o estudo das religiões afro-brasileiras deve ser tratado em sala de aula para acabar com o preconceito que remonta ao período de escravidão. A umbanda, o candomblé, batuque, e as diversas formas de expressão religiosa de matriz africana são religiões brasileiras que tem sim uma matriz africana, mas a sua mistura, configuração final, foi dada no Brasil. É, depois dos cultos indígenas, a única religião realmente brasileira. Portanto, deve ser apresentada como tal.

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15/12/2005

* Professora e Mestre em História


http://www.atrincheira.com.br/artigos/mariLei10639.htm

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