Mostrar mensagens com a etiqueta José Riço Direitinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Riço Direitinho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

A saga Millennium continua – o 7º volume

LIVROS

A saga Millennium continua – a Pipi das Meias Altas tem tatuagens e piercings

Os três primeiros livros da série foram um fenómeno. As preocupações sociais de Stieg Larsson inovaram. O 7.º volume chama-se A Rapariga nas Garras da Águia, foi escrito por Karin Smirnoff.

José Riço Direitinho

31 de Janeiro de 2024, 20:30

Quase vinte anos depois de ter sido publicado na Suécia o primeiro volume da saga Millennium – Os Homens Que Odeiam as Mulheres (D. Quixote, 2009) – do malogrado jornalista e escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004), os livros desta série já venderam mais de cem milhões de exemplares em todo o mundo. Que fenómeno é este? Para se responder, é necessário recuar ao tempo da publicação do primeiro livro e à mudança de paradigma que representou na literatura policial.

Nos meses seguintes à sua publicação, esse volume vendeu cerca de dois milhões de exemplares num país que tem uma população de nove milhões de habitantes. Anos depois, em 2007, e de acordo com a revista The Bookseller, o seu autor ocupou o segundo lugar da lista dos mais vendidos em todo o mundo, à frente de Ken Follet, Stephenie Meyer e J. K. Rowling.

Quais foram as razões do sucesso internacional (países nórdicos à parte, pois aí elas serão mais ou menos óbvias) dos três livros de Larsson – a série continuou depois da sua morte, mas pelas mãos de David Lagercrantz e de Karin Smirnoff, mas já lá iremos – que falam apenas da sociedade sueca, da cartografia de Estocolmo, da solidão e da frieza nórdicas, mas sobretudo das falhas de um Estado que se supunha modelar e que afinal parece ser controlado por poderosas e ocultas forças malévolas? Porque é que um leitor português, grego ou israelita – e não apenas os suecos, ou os nórdicos – também corre o risco de ficar agarrado (literalmente) aos livros lendo-os sem pensar na manhã seguinte? Fez esta trilogia de Larsson parte da onda de romances policiais nórdicos que se tornou moda um pouco por todo o mundo? O que é mesmo o “policial nórdico”?

Comecemos então pelo princípio. Os hábitos de leitura são parte da tradição cultural dos nórdicos desde há muito tempo. Eles são tidos como os maiores leitores do mundo, não apenas de livros, mas também em números de jornais e de revistas existentes. Nos anos 1970, uma dupla de autores suecos, marido e mulher, Per Wahlöö e Maj Sjöwall, assinaram os primeiros êxitos de livros policiais e criaram a figura do primeiro “inspector” sueco, Martin Beck. O modelo usado para a personagem principal e para a arquitectura dos romances estava ainda muito preso ao que era tido (e ainda é) como canónico no género, o hard-boiled norte-americano, muito estereotipado, apesar de já aflorar questões sociais. 


A Rapariga nas Garras da Águia

Autoria: Karin Smirnoff
Tradução de Maria de Fátima Carmo
Editora: Dom Quixote
496 págs., 23,30€


Efeito Olof Palme

Segundo alguns críticos e outros estudiosos do género, foi só a partir de finais da década de 80 que o “policial” escrito por autores nórdicos se começou a alterar, e houve uma razão forte para isso: a sociedade sueca não se refez do assassinato do primeiro-ministro social-democrata Olof Palme numa rua do centro de Estocolmo, em 1986, quando, perto da meia-noite, regressava a casa com a mulher, a pé e sem guarda-costas dirigindo-se para o metro, depois de terem assistido a uma sessão de cinema.

O crime continuou por resolver durante décadas, apesar das muitas pistas de teorias da conspiração seguidas (desde os independentistas curdos do PKK aos que se opunham ao fim do apartheid na África do Sul, passando pela CIA e por vários delinquentes menores com problemas de drogas e de alcoolismo). As questões emocionais relativas a este caso demoraram a ser esquecidas, não apenas pela ausência de resposta à pergunta “quem foi?”, mas sobretudo por ter levantado pela primeira vez entre os escandinavos problemas mais complexos sobre a sociedade moderna, o espaço privado, a tolerância e a violência.

O género policial foi o único que quase de imediato abordou estas questões, e tentou, de uma maneira ou de outra, minimizar todos aqueles estragos emocionais. O modelo foi-se alterando aos poucos, os autores suecos (e por extensão também os dos outros países nórdicos) deixaram de estar apenas interessados em resolver o puzzle constituído pelos factos mais ou menos óbvios de um crime, ou na montagem de uma experiência voyeurista violenta para oferecer ao leitor, e passaram a centrar-se mais nas causas e nos efeitos de um acto violento no tecido social, aprofundando um pouco mais as personagens, obviamente nunca deixando de lado o importante aspecto lúdico. Como se o novo romance policial tivesse vindo ocupar na Escandinávia o lugar do romance realista do século XIX.

O “crime nórdico” passou a ter quase sempre uma inscrição no campo social. Na literatura policial que se escreveu na década de 2010, raros foram os casos de histórias em que o acto violento era apenas passional, ou familiar, ou então entre sócios desavindos por alguns milhões roubados. Houve sempre a presença extra de uma qualquer força dificilmente controlável, quer fosse política, económica ou mesmo religiosa. E, como consequência, as personagens principais deixaram de ser obrigatoriamente apenas os habituais polícias ou detectives privados, homens de meia-idade com alguns problemas com álcool, e passaram a ser também os advogados intuitivos, os jornalistas de investigação ou os hackers (esta foi a novidade trazida pela série Millennium).

Alguns escritores que até então se dedicavam à escrita de livros da literatura chamada “séria” converteram-se em autores de best-sellers – é o caso do sueco Henning Mankell e da norueguesa Karin Fossum, até então uma aclamada poeta. Com este input cultural, o género fortaleceu-se e em muitos casos as fronteiras entre literatura “séria” e “policial” desapareceram; um dos primeiros casos surgidos foi o do dinamarquês Peter Høeg com o romance A Senhora Smilla e a Sua Especial Percepção da Neve. A juntar a isto tudo, há ainda a tradição cultural das sagas nórdicas, de que foi recuperado o seu “grande sentido de tragédia”, como referiu o norueguês Jo Nesbø numa entrevista.

A continuação

Mas a série Millennium continuou após a morte do seu criador, que no início a tinha previsto para dez volumes (escreveu apenas três). Para a continuar, foi escolhido um sueco, David Lagercrantz (n. 1962), que até então era conhecido por escrever biografias de importantes figuras suecas, entre as quais o futebolista Zlatan Ibrahimovic. Manteve as duas personagens centrais: o par do jornalista cínico (Mikael Blomkvist) e da hacker abusada, vulnerável, que transforma agonia em energia, a carismática Lisbeth Salander, uma das mais originais heroínas romanescas dos últimos tempos, uma espécie de reconversão da Pipi das Meias Altas (foi o próprio Stieg Larsson quem faz a comparação) em justiceira pós-moderna, num “factor de entropia no caos”.

Os livros escritos por Lagercrantz não deixaram de ter essa inscrição social que caracterizava a trilogia inicial, tendendo mesmo a actualizar os assuntos para adequar os romances a tempos mais actuais. Por exemplo, no sexto volume, A Rapariga que Viveu Duas Vezes, a morte de um sem-abrigo vai aos poucos ficando inesperadamente associada ao ministro da Defesa sueco; Lagercrantz continuou a ligar escândalos políticos e jogos de poder com novas tecnologias, genética, "fábricas" de trolls que criam e difundem notícias falsas, influenciadores de resultados de eleições, etc. A personagem Lisbeth Salander é, entretanto, dada como desaparecida, mas o leitor encontra-a em Moscovo a ajustar contas com a irmã Camilla, e "desta vez será o caçador e não a presa, será o gato e não o rato".

Stieg Larsson deu uma nova direcção à ficção policial escandinava, com um olhar frio do mundo expresso num tom jornalístico e furioso

Mais recentemente foi publicado o sétimo volume da série, A Rapariga nas Garras da Águia, escrito por Karin Smirnoff, uma das autoras de maior sucesso na Suécia. Ela continua o registo de Larsson no submundo do crime. O jornalista cínico vai casar a filha ao norte do país; o noivo é um dos políticos mais influentes da região, e mais uma vez os temas da corrupção e do poder político estão no centro do romance: corrupção ligada à exploração de energias renováveis num ambiente político em que a extrema-direita está em imparável ascensão. O tema do combate à violência contra as mulheres não está ausente.

Com a trilogia inicial, Stieg Larsson deu uma nova direcção à ficção policial escandinava. A escrita seguríssima de Larsson, o olhar frio do mundo expresso num tom jornalístico e furioso, aliados ainda à construção narrativa assente num puzzle de emoções, com sucessivas analepses ao passado das personagens, fizeram de cada livro da série Millennium um verdadeiro achado viciante.

Durante quase uma década esta foi a matriz de escrita de muitos autores de policiais nórdicos, não apenas suecos, mas também noruegueses. No entanto, há alguns anos que esta preocupação da "inscrição social" apenas se vai mantendo nos livros desta série, tendo vindo a ser abandonada por autores que voltaram aos seus polícias-inspectores de meia-idade com problemas de álcool, como os criados por Jo Nesbø e Jørn Lier Horst.

https://www.publico.pt/2024/01/31/culturaipsilon/noticia/saga-millennium-continua-pipi-meias-altas-tatuagens-piercings-2078474


terça-feira, 15 de março de 2016

Alentejo, um retrato desfocado



CRÍTICA

Tentativa de retrato de uma região e de um modo de ser que falha por evidente falta de conhecimentos empíricos e académicos do autor, Henrique Raposo.

Livros Alentejo prometido     


As generalizações, feitas a partir de umas quantas conversas familiares e de outras tantas observações recolhidas em viagens de automóvel, chegam a ser risíveis NUNO FERREIRA SANTOS




O polémico livro de Henrique Raposo (n. 1980), cronista do semanárioExpresso, incluído na colecção “Retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, procura traçar um retrato do Alentejo, mas o que acaba por fazer é apenas um retrato da sua própria família, parte da qual migrou para a Cintura Industrial de Lisboa pelos anos 1960. As generalizações, feitas a partir de umas quantas conversas familiares e de outras tantas observações recolhidas em viagens de automóvel (a propósito da ida a um casamento) numa área geográfica do Alentejo litoral — não muito afastada do triângulo entre Ermidas do Sado, Santiago do Cacém e Cercal —, chegam a ser risíveis.



Há alguns dias, João Miguel Tavares defendia neste jornal que Raposo seguia um modelo anglo-saxónico, que tem em Portugal uma cultora, Maria Filomena Mónica. O problema não é o modelo em si, o problema é que não é “Maria Filomena Mónica” quem quer, pois a Raposo faltam conhecimentos para ensaiar um suposto “retrato” de uma qualquer zona rural, com qualquer que seja o modelo — e não me refiro apenas aos conhecimentos empíricos, que a falha desses é demasiado evidente e difícil de suprir em pouco tempo. Mas umas leituras prévias de alguns trabalhos de Sociologia Rural, de História da Agricultura em Portugal, e de Religião Popular Portuguesa, talvez tivessem disfarçado um pouco a falta de conhecimentos empíricos sobre a ruralidade portuguesa em geral. Para se conhecer o Portugal rural não chega (como é óbvio), a alguém que passou os dias nos arrabaldes de Loures e de Odivelas, ter tido nas férias de há muitos anos “uma vidinha muito etnográfica” numa casa pobre, onde as pessoas se amontoavam nas camas em colchões de folhelho e de palha de centeio, e onde não havia água canalizada e a casa de banho era ao fundo do quintal, depois de se ter de passar pelo poço de onde se tirava a água para os despejos. São várias as afirmações que mostram o desconhecimento do autor sobre a ruralidade portuguesa, pois o que muitas vezes atribui ao Alentejo é comum a Trás-os-Montes ou ao Minho ou às Beiras: a venda, ou a tasca, ser o “epicentro social”, o facto de serem sobretudo os homens a frequentar os cafés, o machismo que ele encontrou no Alentejo não é em nada diferente do que se encontra em Freixo de Espada à Cinta (o Portugal rural é ainda machista, homens e mulheres afinam pelo mesmo diapasão), o facto de no passado se alguém ficasse doente só poderia recorrer a mezinhas e benzeduras… a lista poderia continuar.
Henrique Raposo não nasceu no Alentejo, mas numa família alentejana, e assume que “como todas as famílias de migrantes desenraizados”, também a dele construiu ao longo dos anos “um Alentejo mítico sem qualquer precisão no traço”, um “Alentejo enquanto espaço de fábula negra onde são possíveis pragas de Velho Testamento” como as vagas de gafanhotos africanos que ele “caçava com o mata-moscas” da avó. Então ele propõe-se retratar o Alentejo, retirando-lhe o lado mítico, e para isso vai visitando lugares que lhe são mais ou menos familiares, conversando com os mais velhos, ouvindo histórias, e ao mesmo tempo tirando conclusões (com alguns raciocínios enviesados), conclusões que da sua família, ou da meia dúzia de aldeias que visita, extrapola para o Alentejo todo.
Um dos problemas que parece estar na base de várias conclusões a que Raposo chega prende-se com a “estrutura fundiária” da propriedade. Diga-se, antes de mais, que o tipo de propriedade na zona em que o autor viaja é muito particular. E por várias vezes Raposo refere os “foros”, o “regime de aforamento” que foi instituído em 1887 pela Lei do Fomento Rural, de Oliveira Martins. Ora, esta região, em que a cultura do arroz assumiu grande importância, foi colonizada por gente vinda de fora que alugou parcelas de terreno (de poucos hectares) para explorar economicamente, mas ao mesmo tempo, e quando era necessário, trabalhava para outros proprietários. Estes colonos tinham hortas de onde poderiam obter algum sustento. No resto do Alentejo (o tal sobre o qual Raposo quer tirar conclusões), onde o latifúndio dominava exclusivamente, e que devido aos Planos de Fomento e Campanhas do Trigo produziam apenas cereais, os trabalhadores estavam restringidos a uma ocupação sazonal (sementeiras e ceifas), e não havia maneira de fugir à pobreza. O Alentejo vivia no século XX (até 1974) em quase regime de feudalismo, com verdadeiros servos da gleba pagos em géneros, de facto uma “terra sem lei” (como o autor nota mas por outras razões). Vem isto a propósito de várias considerações a uma suposta falta de vontade de trabalhar e a uma “raiz política” dos malteses, chegando a comparações com o denodo para o trabalho dos “ratinhos” (trabalhadores beirões que desciam sazonalmente ao Alentejo para as ceifas, mas que tinham nas suas terras as leiras e vinhas de onde tiravam o sustento o resto do ano).
Outra das afirmações “estranhas” é apresentar o Alentejo como “um espaço novíssimo” e dizer que “qualquer vila do Norte tem centenas ou milhares de anos” e que no Alentejo não. Ora, é exactamente na área onde Raposo centra o “estudo” que o Alentejo é “novo”, e falamos de Santo André e de Ermidas do Sado. No restante, romanos e árabes fundaram vilas e cidades, e ao longo dos séculos outras foram surgindo.
De entre as várias características (subjectivas) que Raposo atribui aos alentejanos, como a falta de hospitalidade e a desconfiança, há uma que sobressai no livro, que é a falta de solidariedade (o entendimento do voluntariado), e por caminhos travessos acaba por a justificar com “um problema de Santiago e de todas as cidades alentejanas: as pessoas não se identificam com os símbolos da terra”, e para isso recorre ao clube de futebol da terra e faz comparações com o Norte, nomeadamente com o Arouca e o Tondela. Também aqui foi infeliz, por desconhecimento ou esquecimento, e não mencionou (não passaram assim tantos anos) os clubes de futebol de Campo Maior, Portalegre ou Beja, o que deitaria a sua argumentação por terra.
Estranhamente, ou talvez apenas por razões ideológicas, Raposo parece querer tentar desviar a ideia da opressão dos senhores da terra sobre os trabalhadores, e a sua violenta exploração, para um outro tipo de opressão, fazendo afirmações como a que se segue para tentar justificar que o abuso físico sobre as mulheres (e “até a violação”) faziam parte da normalidade alentejana: “Os romances neo-realistas centram-se na opressão económica, mas a verdadeira opressão era sexual e íntima.”
Apesar de não ser um retrato do Alentejo, de estar muito longe disso,Alentejo prometido é um livro bem escrito e desenvolto, pesem expressões como “o odor a haxixe dos eucaliptos” (ou o autor não cheirou haxixe ou não conhece o cheiro dos eucaliptos).
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alentejo-retrato-desfocado-1726095

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ficção O fantasma de Ulisses - Enrique Vila-Matas


Ípsilon


Ficção

O fantasma de Ulisses

  • Dublinesca
  • Enrique Vila-Matas
  • (trad. Jorge Fallorca) Teorema
Um livro que é uma festa de cultura literária e uma inteligente e talentosa reflexão sobre o anunciado fim da literatura

O catalão Enrique Vila-Matas (n. 1948) - a par de Javier Marías, este num registo muito diferente - tem sido a vanguarda da renovação da narrativa espanhola desde há anos. Sem nunca se desviar muito das suas principais preocupações estéticas e intelectuais, e dos temas que lhe são caros - a identidade, as coincidências, os ténues limites que separam a vida e a literatura, a viagem literária, os escritores, os úteis jogos do acaso, o aparecimento (e o desaparecimento) de personagens fantasmagóricas - tem vindo a construir uma obra singular e tão homogénea que por vezes um livro parece ser uma espécie de reescrita, ou talvez melhor, de continuação, do livro anterior; ou então, todos são apenas capítulos avulso de uma obra que parece querer cumprir um programa.
.
No seu último livro, "Dublinesca" (o título remete-nos de imediato para o fantasma de James Joyce e a sua colecção de contos, "Dubliners"), Enrique Vila-Matas não se desvia da linha orientadora da sua obra. E mais uma vez, aventura-se pela metaficção - se esta for entendida não apenas como um texto que expõe os seus mecanismos de feitura, mas também aquele que reflecte sobre o "literário" e se constrói de citações, de referências a livros e a autores não ficcionados. "Dublinesca", que usa o espesso magma da tradição literária e da vida dos seus autores (não deve haver uma página em que um autor não seja referenciado - desde Yeats a Bolaño, passando por Céline, Magris, Claus, entre dezenas de outros), é uma reflexão sobre o possível fim da literatura, dos leitores interessados e interessantes, e também dos "verdadeiros escritores": a literatura é apresentada como uma "arte em perigo", condenada ao desaparecimento. E tudo isto porque "o bezerro de ouro do romance gótico [e de outros best-sellers] forjou a estúpida lenda do leitor passivo". Mas o que a princípio pode parecer uma reflexão apocalíptica vai-se tornando numa viagem esperançosa, pois para o protagonista o "apocalipse da literatura" apenas pode ser representado de maneira paródica, e não trágica. E esse pode ser o sinal de esperança, da necessidade de uma mudança cultural (aquilo a que uma das personagens chama "o salto inglês" - a mudança de uma cultura "parisiense" para uma cultura "nova-iorquina"), para refrescamento e "refazer o entusiasmo".
.
Vila-Matas, não se afastando da forma tradicional do romance psicológico (e também de ideias), conta-nos a história de Samuel Riba, homem de sessenta anos, judeu por parte de mãe, que gosta de se ver a si próprio "como o último editor" culto e literário. Para evitar a falência, fechou há dois anos a editora em que ao longo da vida foi construindo um prestigiado catálogo. Numa recente viagem a Lyon, Riba (assim é conhecido no mundo literário) conseguiu fabricar uma teoria geral do romance, assente em cinco pontos, e inspirada no livro de Julien Gracq, "Le Rivage des Syrtes". Apesar de tudo, na sua vida continua a lamentar não ter "descoberto um autor desconhecido que tivesse acabado por se revelar um escritor genial"; e este génio é ao longo do livro uma espécie de presença fantasmagórica. Desde que fechou a editora, Riba foi-se isolando socialmente, passando agora horas e horas fechado diante do computador, perdendo o entusiasmo. Lê blogues, consulta o Google, e recebe correio electrónico. Um dos emails recebidos é de uma amiga francesa, Dominique, que anda a preparar uma instalação em que procura construir uma cultura apocalíptica da citação literária, "uma cultura de fim de trajecto", uma estética do fim do mundo. Esta é uma atmosfera que Riba conhece bem, pois sente-se mergulhado nela há já algum tempo. 
.
.
.
.

sábado, 15 de janeiro de 2011

De Miguel de Cervantes Saavedra para o amantíssimo leitor português

Ípsilon

De Miguel de Cervantes Saavedra para o amantíssimo leitor português

29.12.2010 - José Riço Direitinho


Escritas há 400 anos, as "novelas exemplares" de Cervantes podem ser lidas hoje como modernas. Já lá está quase tudo o que viria a ser a narrativa moderna. Uma "escritura desatada", nas palavras do génio espanhol, foi agora traduzida na íntegra para português
.
Pela primeira vez em muitas décadas, os leitores portugueses têm à sua disposição uma tradução integral das "Novelas Exemplares" de Miguel de Cervantes Saavedra. Originalmente publicada em 1613 - anos depois da publicação da primeira parte de "D. Quixote de la Mancha" - a obra compõem-se de uma dúzia de pequenas histórias (novelas), escritas entre 1590 e 1612, a que Cervantes deu um certo carácter ora didáctico ora moral; o próprio afirma no prólogo que "não há nenhuma de que não se possa tirar algum exemplo proveitoso", isto apesar da violência e de alguns exemplos de "maus costumes" que atravessam as mesmas. A influência das tendências moralizantes é bastante simples e faz-se sentir quase sempre apenas no final das histórias.
.
Diga-se, antes de mais, que o adjectivo "exemplares" do título é um pouco forçado para o tempo em que foi usado, e para o significado que então tinha. À época, eram bastante populares entre os leitores europeus as chamadas "histórias de proveito e exemplo", mas todas elas tinham uma origem que não era a Península Ibérica, antes se inscreviam numa tradição da Europa Central e do Norte, como resultado de um imaginário povoado por seres etéreos que não faziam parte do folclore dos reinos do Sul. Essas "histórias" tinham uma carga religiosa e moral bastante forte, e as suas personagens assentavam não tanto nos modelos dos vivos mas, sobretudo, no que se supunha ser a vida das almas antes de se verem livres do cativeiro terreno. Eram histórias de "almas penadas" (ou outras criações etéreas) que tentavam expiar os pecados e, ao mesmo tempo, com o seu exemplo, tentar ensinar os vivos a que não repetissem os erros por elas cometidos. A literatura portuguesa tem uma obra desse género, da autoria de Gonçalo Fernandes Trancoso, "Contos & Histórias de Proveito & Exemplo", publicada em 1575, quase quatro décadas antes do título do génio espanhol.
.
A obra de Cervantes, a querer encontrar-se uma filiação (e ela é, ou foi, bastante discutida entre os eruditos), está mais perto das "novellieri" italianas (de que Boccaccio foi um exímio cultor) do que das verdadeiras histórias exemplares. É aliás o próprio Cervantes que diz no prólogo que elas lhe saíram inteiras do seu génio: "(...) e é assim, que eu sou o primeiro que novelei em lingua castelhana, que as muitas novelas que nela andam impressas todas são traduzidas de linguas estrangeiras, e estas são as minhas próprias, não imitadas nem furtadas: o meu engenho as engendrou, e as pariu a minha pena, e vão crescendo nos braços da estampa." Talvez seja isso que faz com que estas "novelas exemplares" não sejam pura arqueologia literária, e antes pelo contrário - como acontece com toda a grande literatura - se mantenham vivas. Lidas hoje, poderão considerar-se modernas, pois o engenho narrativo de Cervantes deu-lhes uma roupagem que viria a influenciar toda a narrativa posterior: o narrador narra ele próprio apenas quando lhe convém, dá a palavra às personagens quando julga necessário, fá-las dialogar ao ver que daí poderá vir vantagem para a estética da história, as descrições feitas dos ambientes ou de factos alternam muitas vezes entre o pessoal e o impessoal; todos estes aspectos, assim em conjunto, foram uma novidade na arte de narrar; é o que o próprio autor viria a chamar de "escritura desatada". Um exemplo: a "Novela da força do sangue" poderia ser um conto policial moderno, talé a sua estrutura e arquitectura psicológica da personagem.
.
Cervantes estava bastante seguro da sua importância nas letras hispânicas, o "D. Quixote" tinha a primeira parte publicada com grande sucesso e aclamação. E é curioso como no prólogo a estas "novelas exemplares" ele se quer mostrar também como um herói militar, um soldado que luta, e descreve-se assim: "Perdeu na batalha naval de Lepanto a mão esquerda [entenda-se a função da mão esquerda, que anquilosou] de uma arcabuzada, ferida que, ainda que pareça feia, ele a tem por bonita, por tê-la cobrado na mais memorável e alta ocasião que viram os passados séculos, nem esperam ver os vindouros, militando debaixo das vencedoras bandeiras do filho do raio da guerra, Carlos V, de feliz memória."
.
Se alguma influência existir (pela complexidade psicológica de algumas personagens, arquitectura da acção e realismo das situações), será a da novela de Mateo Alemán. É quase certo que Cervantes conheceria a obra deste seu contemporânio, o sevilhano que fez publicar em duas partes, em 1599 e em 1604, "Guzmán de Alfarache" (Campo das Letras, 2008), aquela que é considerada a novela picaresca "perfeita". O estilo incisivo, a vivacidade da narração, o colorido das descrições e a capacidade de observação dos pormenores, parecem ter algum paralelismo com as novelas de Cervantes. Guzmán de Alfarache, o pícaro filho do ócio, o eterno vagabundo, narra-nos a sua história de vida feita de vícios e pecados avulsos, mas sempre prometendo a virtude futura. As inúmeras situações ridículas e bastante risíveis, superficiais e inconsequentes, que caracterizavam as personagens de "Lazarillo de Tormes", dão agora lugar ao dramatismo da maldade inata de uma sociedade degenerada, em que o herói pícaro se obriga a ter vontades moralizantes e a contar histórias didácticas de proveito e exemplo. O optimismo do Renascimento parece dar assim lugar ao Barroco influenciado pelo moralismo da Contra-Reforma. Cervantes juntou às suas novelas as "tendências espanholas" que herdara de Lope de Veja e de Mateo Alemán.
.
As obras de Miguel de Cervantes reflectem o meio em que ele vivia, os gostos e os costumes do tempo. Para ele, a vida seria como uma novela, a realidade oferecia-lhe assuntos e modelos, uma espécie de "pintura ao vivo" de vários tipos, a arquitectura da história servia-lhe para embelezar. A realidade vivida torna-se nas mãos de Cervantes (na sua pena) numa "realidade artística". É certo que nem tudo o que ele escreveu foi inspirado na sua própria vida, ele serviu-se de memórias alheias, escritos de viajantes, que ao contrário do que por vezes possamos ser levados a pensar, não fantasiavam. Madrid era o centro do mundo, toda a gente culta conhecia a lingua castelhana. Fantasiar uma viagem a Madrid, era à época impossível, assim como para nós é, nos dias de hoje, fazer de uma viagem a Paris ou a Londres um acontecimento inverosímil.
.
As doze "novelas exemplares" de Cervantes são um retrato da Espanha do "Siglo d'Oro", uma espécie de catálogo dos problemas sociais, políticos e históricos do tempo. Ele ficciona os problemas de minorias pouco populares, como os ciganos ou os judeus convertidos; ilustra com génio as dificuldades do que hoje se chamaria "mobilidade social", e descreve a maneira de viver de indivíduos que teimam em manter-se (por gosto ou por inabilidade) nas franjas da sociedade. Outro dos temas fortemente presente é o do papel opressivo da "honra" (assunto já antes popularizado por Lope de Vega, e que mais tarde se viria a tornar no principal "leitmotiv" do drama espanhol). Na "Novela de Rinconete e Cortadilho", por exemplo, não é apenas um quadro dos costumes dos ladrões sevilhanos de finais do século XVI, é todo um estudo de vida da ladroagem da Espanha desse tempo.
.
Estas novelas exemplares poderão ser divididas em dois tipos: as "idealistas" e as "realistas"; as primeiras, caracterizam-se por enredos amorosos, com grande abundância de acontecimentos, personagens idealizadas mas sem espessura psicológica; as segundas, pela descrição de ambientes e personagens realistas, muitas vezes com uma intenção crítica. Mas o que é certo, é que ainda hoje são um deleite de leitura para o "amantíssimo leitor", como escreveu Cervantes.
.