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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Armando Silva Carvalho - POEMA QUE FOI CURTO

 *  Armando Silva Carvalho


Num poema curto a corrente do sangue corria

como um planeta levando no dorsal

a filosofia pública da hora,

e a luz nua e directa incidia sobre o corpo,

real, absoluta.

 

Hoje o poema teima sempre em ser maior,

e a história, o tempo, a memória e o verso porque é velho,

ocultam-lhe a idade nas curvas irreconhecíveis

dum vulto.

É sempre cada vez mais longa a maratona,

e as insistentes palavras

parecem desistir enquanto avançam.

 

De A Sombra do Mar, (Assírio & Alvim).

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Armando Silva Carvalho - Mar de Peniche


* Armando Silva Carvalho

1

Todos os dias
acordam
violadas
estas praias
que dizemos
virgens.

2

A chuva
esse suor
do mar
já não desfaz
a solidão dos homens
ou o piar dos corvos.

3

Mar de Peniche
onde os peixes se atiram
contra os barcos
e as grutas dos rochedos
nada acoitam.

4

As traineiras
juntaram-se a dormir.
Mas o mar não esquece
e grita
contra a fortaleza.

5

O mar
sorveu
todo este dia
exausto.
E o que fica
da praia
são estas pedras
lassas
transidas
pelo sono.

6

O que fica
das pedras
é este mar
de sono
que os homens
já submersos
sorvem
a curtos
haustos.

7

O que fica
da noite
são os presos
exaustos
que as pedras
dissimulam
e o mar
absorveu.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Armando Silva Carvalho - A prosa do terror

* Armando Silva Carvalho

O terror vai-se acumulando lá fora.
Ao princípio ele primava pela distância, via-se, ouvia-se, virtual.
Linhas em sangue vivo podiam circular pelas vizinhanças,
trocavam-se os idiomas por deus,
nasciam e morriam problemas, corriam pelas palavras da noite
os fantasmas do dia.
Mas tudo se ocultava por fim, negro e sem sol redimível,
numa espéciede armário humaníssimo
à prova do corpo a corpo.
Como se lança um dardo desportivo, assim foi a conversa
do poemae da vida.
Iam-se tomando medidas entre país e país,
discutiam-se as possíveis ciências do futuro, o desfrute mental
de possíveis refúgios,
as sempre consumíveis teorias sobre a paciência,
a brilhante ogiva teatral do mundo.
Agora já se observa o lixo armazenado,
as cabeças cheias e coloridas, as artes recicláveis
consoante os estilos de morte,
os braços nus e trabalhados numa pose de séculos,
a sempre apregoada, bendita mãe de todos os desastres,
a rotineira novela do petróleo,
os seios fictícios de Angelina Jolie, a nova namorada de Clooney,
tudo isso concentrado em trinta segundos.
E o degolar gargantas ou enviar mísseis como apertos de mão,
em gran finale.
Ah, ainda se vive tão bem
nesta velha europa.

domingo, 11 de junho de 2017

Um Homem na Revolução e 2 poemas

Vasco dos Santos Gonçalves (3/5/1922 – 11/6/2005) - Um Homem na Revolução e 2 poemas - Armando Silva Carvalho e Eugénio de Andrade

* Armando Silva Carvalho - NOME DE VASCO - 
A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.
A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.
Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.
Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.

Cartoon de João Abel Manta
* Eugénio de Andrade - a Vasco Gonçalves
Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Armando Silva Carvalho - A conversa do poema e da vida

CRÍTICA LIVROS

A conversa do poema e da vida

Armando Silva Carvalho regressa com a novidade de quem tem na escrita um dos caminhos de maior solidão, pelo radicalismo da sua experiência do corpo, do ser humano, de deus e do mundo.

domingo, 24 de abril de 2016

Armando Silva Carvalho - Desperta

* Armando Silva Carvalho



Já não vejo o som mas só a lama
E acelero.

Quero atravessar este país depressa
Antes da morte.

Já não oiço a luz mas só o sono
E travo

Contigo, com os teus freios cansados
E as tuas jantes tortas.

Sigo esta pista de silêncio
E arrabalde de velhos.

Arrastamos connosco a história cega
E acrobata deste tempo.

Chamo a tudo isto uma gincana
Nas traseiras da Europa

Já não viajamos, vamos em ponto morto
E a meta é ali

Desperta.
.


Armando Silva Carvalho

in O Amante Japonês, p.36