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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Entrevista: John Le Carré

Entrevista: 

John Le Carré
"A humanidade não avança"

O mais famoso autor de livros de espionagem
diz que o Ocidente derrotou o comunismo, mas
agora precisa aprender a domar o capitalismo

Carlos Graieb, de Londres


Arnd Wiegmann/Reuters
"Quando a Guerra Fria acabou, podíamos ter reescrito a história. Mas não tínhamos um plano para a paz"
No começo dos anos 60, o inglês David Cornwell levava uma vida tripla. Oficialmente, trabalhava como diplomata na Alemanha. Clandestinamente, executava serviços de espionagem contra os comunistas. E, sob o pseudônimo John Le Carré, lançava-se numa carreira literária que logo ganharia força. Com romances como O Espião que Saiu do Frio (1963), o autor conquistou algo raro: um best-seller que a crítica também respeita. A queda do Muro de Berlim, em 1989, fez especular se Le Carré perderia o seu tema – o mundo dos agentes secretos. Mas ele continuou a produzir livros eletrizantes e inteligentes. O mais recente deles éAmigos Absolutos (Record; 415 páginas; 40,90 reais), que transita entre a Alemanha do fim dos anos 60, no auge da Guerra Fria, e o presente dos ataques terroristas. O romance anterior é O Jardineiro Fiel, que se passa no Quênia e contém uma dura invectiva contra as indústrias farmacêuticas. Ele acaba de ser transposto para o cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, de Cidade de Deus – uma adaptação para a qual Le Carré só reserva elogios. Aos 73 anos, o romancista recebeu VEJA em sua casa em Londres para a seguinte entrevista.  
Veja – Quando a Guerra Fria terminou, disseram que os autores de livros de espionagem haviam perdido o seu tema. O senhor chegou a sentir isso?
Le Carré – Não, jamais. Cada vez que me diziam que não havia mais motivo para espionagem depois da queda do Muro de Berlim, eu pensava comigo mesmo: "Esperem só até divulgarem o novo orçamento da CIA. Aposto que terá crescido 35%". A idéia era muito simplista, e a indústria da espionagem, grande demais para morrer assim, de uma hora para outra. Isso posto, antes mesmo de tudo acontecer eu já estava tentando deixar a Guerra Fria e seu mundo de espiões para trás em minha obra. Principalmente na última década, creio que o motor principal de meu trabalho tem sido o fascínio por situações coloniais e pós-coloniais. São os fantasmas do passado que me atraem, e a maneira como criam novas catástrofes, seja no Panamá, uma antiga possessão americana, seja na Chechênia, uma antiga colônia soviética. A história do presente é, em boa parte, a história de como a herança colonial está vindo nos assombrar. Você não consegue entender o Iraque sem atentar para a presença britânica naquela região, como os cartógrafos colonialistas traçaram algumas linhas num mapa e assim criaram o país que mais tarde seria governado por Saddam Hussein. Um dos motivos por que há tanta incompreensão sobre a política atual é a falta de consciência histórica.

Veja – O senhor não escreveu apenas best-sellers sobre espionagem. Foi espião na juventude, durante a Guerra Fria. Por que realizou esse tipo de trabalho?
Le Carré – Essa é uma história que tem a ver com o tempo em que nasci, com a forma como fui educado, com o meu país. Meu pai era, digamos assim, um empreendedor muito peculiar. Ele foi parar na cadeia várias vezes. Mas estava determinado a fazer de mim uma pessoa respeitável. E para ser respeitável na Inglaterra você tem de freqüentar certas escolas privadas, você tem de aprender a linguagem, os modos, os padrões de comportamento da elite. Quando você cresce nesse ambiente, ou submerge nele de vez ou passa a vida tentando se reinventar, livrar-se das doutrinas que lhe foram incutidas. Pertenço à segunda espécie de homem. Ingressar no serviço secreto foi minha primeira tentativa de reinvenção. Espionei enquanto ocupava cargos diplomáticos. Comecei em postos baixos, depois fui secretário político na embaixada britânica em Bonn e conselheiro político em Hamburgo. Isso durou dos 17 aos 31 anos. Mas o processo de reinvenção continuou ao longo da vida. Hoje, aos 73, sinto-me intelectualmente livre. Finalmente saí do colégio.

Veja – Para um antigo espião ocidental, o senhor se tornou um crítico bastante acerbo do capitalismo. "Agora que derrotamos o comunismo, talvez tenhamos de combater o capitalismo", diz um personagem no final do livro O Peregrino Secreto, de 1991. O que o levou a essa posição?
Le Carré – Eu não renego a política dos tempos de Guerra Fria. Eu conheço pessoas que atuavam do outro lado, talvez seja amigo de algumas delas. Mikhail Lubimov, por exemplo, um antigo oficial da KGB, visitou minha casa várias vezes. Tive longas conversas com ele, e elas reforçaram minha convicção de que não jogávamos o mesmo jogo. Nós, deste lado, protegíamos algo que merecia ser protegido: uma sociedade aberta, apesar de todas as falhas. Eles operavam em nome de uma sociedade fechada. Muitas vezes disse a Lubimov que os agentes da KGB estavam mais perto da verdade sobre o Ocidente do que qualquer outra pessoa de seu mundo. Eles viviam entre nós, tinham informantes entre nós, sabiam que estavam tratando com uma sociedade aberta e relativamente decente. No entanto, guardaram essa informação como um segredo. Eles se tornaram culpados na posse do conhecimento. A queda do comunismo foi um acontecimento magnífico, uma dádiva. Isso posto, sinto-me bastante nauseado com o sabor atual do mundo – com o poder indecente das grandes corporações e a maneira como isso afeta as democracias. Tenho a terrível sensação de que a verdadeira vitória foi roubada de nós. A humanidade não avança.

Veja – O que deu errado?
Le Carré – Quando o conflito entre o mundo capitalista e o mundo comunista acabou, estivemos diante de um daqueles raros momentos em que a história poderia ter sido inteiramente reescrita. Só que não tínhamos nenhum plano de contingência para a paz. Tínhamos vários planos de guerra e nenhum projeto de reconstrução. Jovens americanos não foram enviados à antiga União Soviética para encontrar as pessoas que antes pretendiam matar, e vice-versa. Não houve esforço para fomentar entendimento. E, nesse vácuo, duas coisas aconteceram. Primeiro, vimos surgir a cultura da cobiça terminal. Creio que foi meu país que deu essa inestimável contribuição ao mundo. A parteira foi Margaret Thatcher, com seu enorme empenho político em desvalorizar a idéia de solidariedade social. Thatcher deixou um legado de total indiferença pelos problemas que afligem o mundo. Ela disse que privatizaria o ar se pudesse, e na cultura em que vivemos esse é um pensamento aceitável. A segunda coisa que aconteceu foi o início da busca por um novo inimigo. Podíamos sentir as lideranças à procura de um novo demônio, e elas finalmente conseguiram criá-lo. Elas criaram o demônio terrorista. A luta contra ele? Acho que o bombardeamento do Afeganistão foi um crime insuficientemente denunciado e a invasão do Iraque, injustificável tal como foi feita.  

Veja – O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, usou documentos do serviço secreto sobre a existência de armas químicas no Iraque para justificar a adesão do Reino Unido à guerra. Mas as armas não foram encontradas. O que achou desse episódio?
Le Carré – Quando ficou claro que os Estados Unidos iam invadir o Iraque, em 2003, Blair prometeu que os seguiríamos, com ou sem as Nações Unidas, com ou sem a Europa. Houve então uma situação de pânico, uma pressão tremenda para que nosso serviço de inteligência apresentasse algo que o ajudasse. E eles tinham muito pouca informação com que lidar, já que Saddam Hussein periodicamente eliminava quadros inteiros de assessores, entre os quais muitas pessoas que provavelmente prestavam informações a nós. Finalmente, Blair revelou que o relatório sobre armas químicas de que dispunha se baseava numa fonte só. O que é ridículo. Ao menos no meu tempo, não seria possível para um relatório tão canhestro passar por todos os filtros internos do serviço e finalmente ser usado por uma autoridade do nível hierárquico de Blair. Do ponto de vista de alguém que trabalhou no serviço secreto, essa história é inimaginável.  

Veja – Qual foi a contribuição da espionagem no quadro da Guerra Fria?
Le Carré – Nós demos nossa contribuição colhendo informações, ajudando pessoas, impedindo isto ou aquilo. Mas não acho que se deva exagerar esse papel. Não foram os espiões que venceram a guerra, tampouco os soldados. Foi a sanidade que, aos poucos, se infiltrou naquela sociedade fechada que era a União Soviética. Foi a erosão econômica do regime. Como disse alguém, "o cavaleiro morria dentro de sua armadura".

Veja – Como se conquista uma fonte no serviço secreto?Le Carré – O charme da espionagem – e aquilo que, a meu ver, a torna atraente para a literatura – é que todas as possibilidades de nosso caráter humano ficam expostas em suas tramas. As pessoas lhe servirão de fonte pelos motivos mais diversos: porque se sentem sozinhas, porque não gostam do chefe, porque vão com a sua cara, porque você as diverte, porque lhes paga uma bebida ou é simpático com sua mulher. Espionagem tem a ver com sedução, com confiança, com manter promessas. É uma atividade demasiado humana. Quando se fala de serviços de espionagem, as pessoas tendem a se transportar para um mundo estranho. Uma névoa desce sobre os olhos delas. Na verdade, estamos falando da busca de informação em meio ao comportamento humano mais comezinho. É muito próximo do jornalismo. O maravilhoso das histórias de espionagem está nessa riqueza de experiências que elas permitem mostrar – esse mundo de motivações e desejos que se tenta compreender e às vezes manipular. Também gosto do fato de que elas lhe permitem falar de temas políticos, do grande palco do mundo, sem soar pretensioso. Enquanto a história corre, os leitores o perdoam.  
Veja – Relações pai e filho são muito importantes em seus livros. Por quê?
Le Carré – Meu pai forjou a própria vida com um talento extraordinário – só que para o desastre, e não para o sucesso. Ele era basicamente um vigarista. Suas aventuras eram tão extraordinárias, tão irreais, que numa certa altura da vida passei a duvidar de minhas próprias memórias a respeito dele e fiquei obcecado pelo personagem. Cheguei a contratar dois detetives particulares para investigar sua vida e eu mesmo fiz um monte de pesquisas. Ele era um tipo extravagante, um completo fantasista, que num dia se candidatava ao Parlamento e no dia seguinte ia preso por fraudes. Certa vez, tive de tirá-lo da cadeia em Jacarta. Às vezes ele ganhava 1 milhão – e logo descobríamos que tinha outros 2 em débito. Ele morreu aos 69 anos com uma mulher no interior, duas amantes em Londres e uma casa cheia de empregados que não viam o salário havia tempos. Suponho que isso explique meu interesse pelo tema. De fato, há muitas histórias sobre pais e filhos em meus romances. Um deles, Um Espião Perfeito, é francamente autobiográfico e contém um retrato de meu pai no personagem Rick Pyn.

Veja – Os ingleses parecem ter uma obsessão por seu sistema escolar. Ela está muito presente na literatura, dos romances de Harry Potter aos seus thrillers de espionagem, quando é preciso descrever a origem de um personagem. Por que isso?
Le Carré – Colégios são importantes na formação de qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Mas as escolas privadas e sobretudo os internatos da Inglaterra, com seus uniformes, seus brasões, e suas longas histórias, são realmente instituições muito peculiares. Nelas, categorizamos desde cedo nossos jovens. Eu fui professor durante um tempo. Ensinei alemão em Eton, um dos colégios mais tradicionais. Lá encontrei classes para os ultra-ricos, para os garotos promissores, para os criminosos em potencial, para os indomáveis. Todos já estavam em seus nichos. Além disso, ser despejado num internato inglês já é uma experiência e tanto. "Aqui estou eu. Meus pais me mandaram embora", pensa o garoto de, digamos, 5 anos. Foi nessa idade que eu mesmo caí numa dessas versões polidas de uma penitenciária. E então você se torna imediatamente seduzível e cooptável pelo poder daqueles que estão à sua volta e parecem capazes de lhe dar abrigo. Várias escolhas têm de ser feitas. Você não pode ser estúpido, nem esperto demais. Você tem de se acomodar ao padrão. Você precisa conviver com sistemas totalmente ilógicos de disciplina. Você pode apanhar muito – e carregar desde então uma grande indignação e uma grande raiva. Você precisa criar sistemas próprios de justiça. Os colégios são, enfim, instrumentos muito poderosos de socialização na Inglaterra – e também o palco de enormes dramas e batalhas.  

Veja – Como o processo de adaptação de O Jardineiro Fiel foi parar nas mãos do cineasta brasileiro Fernando Meirelles?
Le Carré – O projeto começou há quatro anos e, inicialmente, faríamos um filme no estilo americano. O diretor Mike Newell, deQuatro Casamentos e Um Funeral, estaria à frente dele. Mas Newell saltou do barco para filmar um dos episódios da sérieHarry Potter e, nesse ponto, entrou Fernando Meirelles. Ele deu ao filme o espírito que eu desejava. A história se passa no Quênia e fala de uma grande indústria farmacêutica que usa africanos como cobaias para testar remédios. Em Fernando, encontrei um diretor que entendia a questão da complexidade racial e que sabia falar da tragédia que é a destruição de vidas humanas, pois a mostrou de maneira admirável em Cidade de Deus. Além disso, ele tinha uma percepção não européia do livro, o que me pareceu excelente. Com ele, eu sabia que não teríamos somente um thriller e uma história de amor, mas também um olhar político sobre a ação das grandes corporações no mundo. Creio que Fernando está se tornando, rapidamente, um grande nome do cinema internacional. Deverá ser muito assediado por Hollywood, esse grande cemitério de talentos inocentes, mas sinto que tem o fogo e a inteligência para seguir um caminho próprio.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Carlos Graieb - o baú de Pessoa


O baú do poeta

Nova edição revela facetas de Fernando Pessoa
e ilumina pontos de sua discreta biografia

Carlos Graieb
O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) é um sucesso de público e crítica. Considerado unanimemente o melhor da língua ao lado de Luís de Camões, Pessoa hoje é também saudado como um dos maiores de todos os tempos, em qualquer idioma. Ele é o único português que aparece entre os grandes em O Cânone Ocidental elaborado pelo crítico americano Harold Bloom. Nas últimas décadas, Pessoa também virou ídolo popular no Brasil e em Portugal. Ao lado de Che Guevara e Gandhi, é campeão de vendas daquelas camisetas que trazem frases impressas. As dele são sempre as mesmas: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e "O poeta é um fingidor". Pessoa, no entanto, é muito mais do que isso. Mesmo os fãs do poeta português conhecem pouco, proporcionalmente, de sua obra. Fernando Pessoa publicou apenas um livro em vida, Mensagem, e alguns versos em jornal. Boa parte de sua literatura ficou guardada numa arca de madeira escura, grandalhona, contendo exatamente 27.543 textos. Nos anos 40, uma parcela desse legado foi lançada numa primeira edição de sua obra completa, mas ficou faltando muita coisa. Os novos inéditos começaram a vir à tona há cerca de quinze anos, em livros que só circularam entre especialistas. Apenas no ano passado, em Portugal, atingiram o grande público numa edição comercial da obra de Pessoa que saiu pela casa Assírio & Alvim de Lisboa. Essa nova edição, que deverá ter ao todo 23 volumes, começa a ser publicada agora no Brasil pela Companhia das Letras. Os livros trarão muitas surpresas mesmo para o leitor habitual de Pessoa.
A jovem Ofélia
Queiroz: único
amor conhecido
na vida do poeta
Foto: Reprodução

A Ofélia ­ IV

Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.

Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
Retirado do livro Pessoa por Conhecer,
de Teresa Rita Lopes
Como todo mundo aprendeu na escola, o poeta português é famoso pelas personalidades literárias que criou. As mais famosas são o clássico Ricardo Reis, o pagão Alberto Caeiro e o atormentado Álvaro de Campos, chamados heterônimos porque tinham estilo próprio e até temperamentos diferentes. Mais alguns poucos eram conhecidos: o guarda-livros Bernardo Soares e os ingleses Charles Anon e Alexander Search. Estudos recentes demonstraram que chegam a 72 as personalidades literárias de Pessoa. Os inéditos também trazem subsídios para iluminar a discreta biografia do poeta. Ele, que jamais teve emprego fixo, viveu apertado com dívidas e acossado pela pobreza. Agora, pode-se entender melhor suas posições políticas e até sua sexualidade. Por último, as pesquisas restabelecem o texto original de alguns poemas de Pessoa que haviam sido publicados anteriormente de forma errada.
Machista — Talvez os dados mais impressionantes que emergem dos textos recém-descobertos sejam os relativos às novas personalidades literárias do autor. Muitos merecem leitura, como Antônio Mora e o Barão de Teive. O primeiro é filósofo. Ele teoriza sobre um certo neopaganismo e mostra o lado provocador de Pessoa, com passagens polêmicas que levariam o poeta à execração pública em tempos politicamente corretos. Num fragmento encontrado pela professora portuguesa Teresa Rita Lopes, flagra-se o machista Mora dizendo o seguinte: "As três classes mais profundamente viciadas, na sua missão social, pelo influxo das idéias modernas, são as mulheres, o povo e os políticos. A mulher, na nossa época, supõe-se com direito a ter uma personalidade; o que pode parecer 'justo', 'lógico' e outras coisas parecidas; mas que infelizmente foi de outro modo disposto pela natureza". Já o Barão de Teive é um pouco parecido com Bernardo Soares, o autor do famoso Livro do Desassossego. Pessoa inventou a história de que teria encontrado "o único manuscrito" do barão numa gaveta. A Assírio & Alvim pretende publicar livros com textos de Mora e de Teive. Segundo Teresa Rita Lopes, que há mais de três décadas se dedica ao estudo de Pessoa e já produziu alguns ensaios marcantes, como os dois volumes de Pessoa por Conhecer, as várias personalidades literárias inventadas por Pessoa eram como figuras de um romance, ou diário, que ele foi "escrevendo para viver e vivendo para escrever".
Os novos textos já publicados em Portugal revelam facetas inusitadas do talento de Pessoa. Ele gostava, por exemplo, de escrever poemas infantis para as sobrinhas. Esses poucos textos já estão reunidos num volume, O Melhor do Mundo São as Crianças. Em A Língua Portuguesa, o poeta reflete longamente sobre o idioma dando a entender que, hoje, seria um opositor feroz da reforma ortográfica. Existe ainda o Pessoa ficcionista, autor da novela A Hora do Diabo, que tinha inclusive planos de redigir contos policiais. Há o criador de chistes e piadas e o inventor de charadas e jogos. Note-se, aliás, que boa parte dos trabalhos mencionados é em prosa. Pouca gente sabe, mas a obra em prosa de Fernando Pessoa é mais extensa que a poética.
Fernando Pessoa:
castidade e dificuldades
financeiras
Foto: Reprodução

Sem título

De leste a oeste comandamos,
Onde o sol vai, pisamos nós.
Ao luar de ignotos fins buscamos
A glória, inéditos e sós.
Hoje a derrota é a nossa vida
Doença o nosso sono brando.
Para quando é a nova lida,
Ó mãe Ibéria, para quando?

Dois povos vêm da mesma raça
Da mãe comum dois filhos nados,
Hispanha, glória, orgulho e graça,
Portugal, a saudade e a espada,
Mas hoje... clama no ermo insulso
Quem fomos por quem somos, chamando.
Para quando é o novo impulso
Ó mãe Ibéria, para quando?

Fernando Pessoa
Sexualidade "branca" — Pessoa namorou uma única mulher, Ofélia Queiroz, que parece ter-lhe inspirado uns poemas ruins e várias cartas ("todas as cartas de amor são ridículas" é outra de suas frases estampadas em camisetas). Não se sabe de outras aventuras sexuais, de qualquer tipo, que possa ter tido. Foi ele homossexual? Ou teve uma sexualidade "branca", inexistente? Só há especulações. Ele sempre se achou feio. E triste. Normalmente é lembrado como um homem tímido, dado a devaneios metafísicos (algo que está bem documentado em sua poesia) e a explorações místicas. Pessoa, que pensou em ser astrólogo profissional, usando o pseudônimo Rafael Baldaya, guiava-se por seu horóscopo. Certa vez, deixou a poetisa brasileira Cecília Meireles aguardando em um café porque os astros lhe diziam que o dia não era propício para conhecer novas pessoas.
Ao contrário do que se pensava, Pessoa escreveu sobre sexo. Há no espólio diversos poemas e textos a respeito de amor e de mulheres, no sentido bíblico. Freqüentemente eles são surpreendentes. "O desdobramento do eu é um fenômeno em grande número de casos de masturbadores", escreveu Pessoa, certamente pensando em seus próprios heterônimos. Um deles, o já citado Antônio Mora, defende que a mulher deve ter experiências sexuais antes do casamento, em contraste com o que rezava o costume da época. Em outra passagem desconhecida, Pessoa joga com a idéia da homossexualidade: Álvaro de Campos faz insinuações a respeito de Ricardo Reis, que teria tentado disfarçar, "pela sintaxe", o fato de que uma de suas odes é dirigida a um rapaz. Segundo Teresa Rita Lopes, o mais provável é que Pessoa fosse casto, não gay. "Se não assumiu, é porque não tinha de assumir. Ele não teria problemas quanto a isso, já que defendeu sem preconceitos seus amigos homossexuais, como o escritor Antônio Botto".
As primeiras incursões no espólio literário de Fernando Pessoa ocorreram na década de 40. Ligados à editora portuguesa Ática, esses exploradores desentranharam do baú escritos fundamentais. As edições da Ática têm o mérito do pioneirismo e tornaram-se canônicas pelos cinqüenta anos seguintes. Serviram de base, por exemplo, para as edições brasileiras mais utilizadas, a da Nova Aguilar e a da Nova Fronteira. Esses pioneiros, contudo, fizeram certa bagunça remexendo a papelada, que só voltou a ter ordem em 1968, quando foi catalogada. Também mandaram para a gráfica poemas em que havia dúvidas, deixando para os tipógrafos a responsabilidade de "acertar" o texto. Até hoje isso compromete a boa leitura de alguns clássicos. É o caso de "Passagem das horas", extenso poema assinado pelo heterônimo Álvaro de Campos. Em 1990, a pesquisadora brasileira Cleonice Berardinelli, membro da Equipa Pessoa, uma comissão nomeada pelo governo português para fazer edições críticas da obra do poeta, descobriu que a edição da Ática simplesmente invertia o posicionamento de dois grandes trechos do poema, alterando sua interpretação. Em outros casos, havia erros de grafia que modificavam completamente o sentido, como no verso Assim sou a máscara — que durante cinqüenta anos foi lido como Assim sem a máscara.
O poeta quando
criança, em Durban,
África do Sul

Íbis, ave do Egito

O Íbis, ave do Egito,
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito
Ou pelo menos estar no Egito.
Estrofes de poema de Fernando Pessoa
No caso das edições da Assírio & Alvim, a responsabilidade pelo texto cabe a Teresa Rita Lopes e seus colaboradores. "Não estamos fazendo edições críticas, mas edições criteriosas", diz a pesquisadora. "Os versos de Pessoa costumam ter muitas variantes, sem indicação de qual era a opção final. Para dar conta disso, redigimos as notas necessárias, mas evitando que esse aparato técnico se transforme num problema para o leitor comum." Existe, porém, uma questão jurídica em torno dessa nova edição que começa a sair no Brasil. A obra de Pessoa, que havia caído em domínio público em 1985, voltou a ser patrimônio dos herdeiros do poeta no ano passado, graças a uma mudança na legislação européia. Esses herdeiros concederam exclusividade de publicação à Assírio & Alvim e, em razão disso, as outras edições de Pessoa que existiam em Portugal (algumas boas, outras muito ruins) estão saindo aos poucos de circulação. A pergunta é: será que essa legislação vale também no Brasil? O assunto dá pano para mangas. Segundo o diretor da Assírio & Alvim, Manuel Hermínio Monteiro, a expectativa é de que os livros lançados por outras editoras, que não a Companhia das Letras, também deixem o mercado, sem que para isso seja necessária ação na Justiça. Tudo indica, porém, que uma nova pendenga judicial vem aí.

Uma descrição dos heterônimos

Alberto Caeiro,
Ricardo Reis e
Álvaro de Campos,
imaginados pelo pintor
Almada Negreiros
Em torno do meu mestre Caeiro havia, como se terá depreendido destas páginas, principalmente três pessoas ­ o Ricardo Reis, o Antônio Mora e eu. O Ricardo Reis era um pagão latente, desentendido da vida moderna e desentendido daquela vida antiga, onde deveria ter nascido. Caeiro, reconstrutor do Paganismo, ou melhor, fundador dele no que eterno, trouxe-lhe a matéria da sensibilidade que lhe faltava. O Antônio Mora era uma sombra com veleidades especulativas. Encontrou Caeiro e encontrou a verdade. Por mim, antes de conhecer Caeiro, eu era uma máquina nervosa de não fazer nada. Logo que conheci Caeiro, verifiquei-me. Mais curioso é o caso do Fernando Pessoa, que não existe, propriamente falando. Ouviu ler o Guardador de Rebanhos. Foi para casa com febre, e escreveu, num só lance ou traço, a Chuva Oblíqua.
Montagem de trecho sobre os heterônimos assinado por Álvaro de Campos


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