O poema parcialmente transcrito no mural de Fabrizio De André, em Orsolo, na Sardenha, chama-se "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro").
Como referi, esta obra foi escrita por De André em 1967 para homenagear o seu grande amigo e cantautor Luigi Tenco. Trata-se de uma das letras mais profundas da música italiana, escrita na perspetiva de Alguém que reza a Deus para que acolha no Paraíso aqueles que o dogma religioso da época condenava (os suicidas e os marginalizados).
Aqui tem o texto completo do poema/canção na sua língua original (italiano):
Preghiera in gennaio
Lascia che sia fiorito
il tuo lungo viaggio
prima di accettare il grande dono
l'ultimo regalo del gregge
di vedere l'alba che si leva
a un nuovo mattino
di ascoltare il vento che sussurra
tra le foglie del bosco.
Quando attraverserai l'ultimo vecchio ponte
lascia che i tuoi occhi si abituino al buio
e che le tue orecchie sentano la musica
che la terra canta a chi ritorna a lei.
Lascia che i tuoi passi siano leggeri
sulla terra bagnata
e che la tua anima voli via libera
come un uccello che ha ritrovato il suo nido.
Dio di misericordiail tuo bel paradisolo hai fatto soprattuttoper chi non ha sorrisoper quelli che han vissuto con lacoscienza pural'inferno esiste soloper chi ne ha paura.
Traditori della vita, di voi non mi importa
avete sputato sulla terra che vi ha nutrito
avete venduto il vostro fratello per un pezzo di pane
e ora piangete sul suo corpo che avete ucciso.
Ma per lui, per il mio amico che ha scelto il silenzio
io chiedo una carezza sul suo viso stanco
io chiedo un posto dove possa riposare
lontano dal vostro rumore, lontano dal vostro fango.
Dio di misericordia
il tuo bel paradiso
lo hai fatto soprattutto
per chi non ha sorriso.
Tradução para Português
Para que possa acompanhar o sentido completo do poema, aqui está a tradução integral:
Oração em Janeiro
Deixa que seja florida
a tua longa viagem
antes de aceitares o grande dom,
a última dádiva do rebanho:
ver a alvorada que desponta
numa nova manhã,
escutar o vento que sussurra
por entre as folhas do bosque.
Quando atravessares a última e velha ponte,
deixa que os teus olhos se habituem à escuridão
e que os teus ouvidos sintam a música
que a terra canta a quem a ela regressa.
Deixa que os teus passos sejam leves
sobre a terra molhada
e que a tua alma voe livre,
como uma ave que reencontrou o seu ninho.
Deus de misericórdia,o teu belo paraísofizeste-o sobretudopara quem não sorriu,para aqueles que viveram com aconsciência pura;o inferno existe apenasperante quem tem medo dele.
Traidores da vida, de vós não quero saber,
cuspistes sobre a terra que vos alimentou,
vendestes o vosso irmão por um pedaço de pão
e agora chorais sobre o corpo que matastes.
Mas para ele, para o meu amigo que escolheu o silêncio,
eu peço uma carícia no seu rosto cansado,
eu peço um lugar onde ele possa repousar,
longe do vosso ruído, longe do vosso lamaçal.
Deus de misericórdia,
o teu belo paraíso
fizeste-o sobretudo
para quem não sorriu. (Google Gemini)
Foto victor nogueira - grafito em Setúbal, na Avenida José Mourinho - "Nós pintamos Dias de luta, dias de glória" (2018.01.28 Canon 151_01) A frase escrita na parede ( "Dias de luta, dias de glória" ) é a letra de uma canção famosíssima da banda Charlie Brown Jr.
Radar Records Oficial Charlie Brown Jr - Dias De Luta, Dias De Glória
Canto minha vida com orgulho
Na minha vida nem tudo acontece
Mas quanto mais a gente rala, mais a gente cresce
Hoje estou feliz porque eu sonhei com você
E amanhã posso chorar por não poder te ver mais
O seu sorriso vale mais que um diamante
Se você vier comigo, aí nós vamo adiante
Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus
O seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu
A vida me ensinou a nunca desistir
Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir
Podem me tirar tudo que tenho
Só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo
E eu sou feliz e canto, o Universo é uma canção
E eu vou que vou
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Ô, minha gata, morada dos meus sonhos
Todo dia, se eu pudesse, eu ia estar com você
Eu já te via muito antes nos meus sonhos
Eu procurei a vida inteira por alguém como você
Por isso eu canto minha vida com orgulho
Com melodia, alegria e barulho
Eu sou feliz e rodo pelo mundo
Sou correria, mas também sou vagabundo
Mas hoje dou valor de verdade
Pra minha saúde e pra minha liberdade
Que bom te encontrar nessa cidade
Esse brilho intenso me lembra você
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Hoje estou feliz, acordei com o pé direito
E eu vou fazer de novo, eu vou fazer muito bem feito
Sintonia, telepatia
Comunicação pelo córtex
Boom, bye, bye
nós pintamos dias de luta dias de glória
~~~~~~ooo0ooo~~~~~~
O Charlie Brown Jr. foi formado em 1992 na cidade de Santos, no Brasil, misturando rock, skate punk, rap e reggae. Tornou-se um enorme fenómeno de sucesso tanto no Brasil como em Portugal. Charlie Brown Jr foi uma das maiores bandas de rock/skate punk do Brasil, entre 1992–2013. O vocalista, líder e principal letrista da banda chamava-se Alexandre Magno Abrão, mundialmente conhecido pelo seu apelido: Chorão.
Mural em Orsolo, Sardenha, Itália comemorando a queda do regime fascista
«Este mural é uma peça de arte política em Orgosolo, na Sardenha, que utiliza rimas populares da resistência italiana para celebrar a queda do fascismo. O texto está escrito em italiano e refere-se a Benito Mussolini.
Aqui está a transcrição do que aparece em cada balão e na lateral: Balões de Texto (da esquerda para a direita) Balão Azul: "Se vedrai la stella blu vuol dire che Benito non c'è più" (Se vires a estrela azul, significa que Benito já não existe). Balão Amarelo: "Se vedrai brillar la stella nera vuol dire che Benito è già in galera" (Se vires brilhar a estrela negra, significa que Benito já está na prisão). Balão Vermelho: "Se vedrai brillar la stella rossa vuol dire che Benito è nella fossa" (Se vires brilhar a estrela vermelha, significa que Benito está na cova/túmulo).
Coluna à Direita (Estatísticas de Guerra) O texto a vermelho sobre o fundo bege lista o custo humano da resistência dos "Partigiani" (guerrilheiros antifascistas):
Partigiani Caduti (Mortos): 69.774
Partigiani Dispersi (Desaparecidos): 62.354
Partigiani Mutilati (Mutilados): 36.610
As rimas que vêm neste Mural em Orgosolo fazem parte de uma cantiga popular da resistência italiana (os Partigiani) chamada "La Stella" (A Estrela) ou, por vezes, identificada pelos seus versos iniciais.
Este texto não pertence a uma obra literária de um autor único, mas sim à tradição oral das brigadas que combatiam o fascismo, sendo frequentemente cantada com a melodia da famosa música "Sul Cappello" (uma canção tradicional dos Alpini).
La Brigata Garibaldi - Canto Partigiano
Aqui está o texto integral mais comum dessa composição popular:
La Stella (Canto Partigiano)
Se vedrai la stella blu
Vuol dire che Benito non c’è più.
Se vires a estrela azul
Significa que Benito já não existe.
Se vedrai brillar la stella nera
Vuol dire che Benito è in galera.
Se vires brilhar a estrela negra
Significa que Benito está na prisão.
Se vedrai brillar la stella rossa
Vuol dire che Benito è nella fossa.
Se vires brilhar a estrela vermelha
Significa que Benito está na cova.
E se vedi la stella tricolore
Vuol dire che l'Italia è nel vigore.
E se vistes a estrela tricolor
Significa que a Itália está em vigor (reerguida).
Contexto e Significado Cada cor no poema original tinha um significado político. A estrela vermelha era o símbolo das Brigadas Garibaldi (comunistas), enquanto a azul era muitas vezes associada às Brigadas Autonomas (monárquicos ou badogliani). O mural em Orgosolo foca-se nas três primeiras estrofes para enfatizar o destino final do ditador.
Note que, no mural, o artista representou figuras com traços que remetem aos guerrilheiros e incluiu uma coluna com estatísticas reais das baixas dos Partigiani, ligando a rima popular ao custo histórico da libertação da Itália.
A Estrela (Canto dos Partigiani)
Se vires a estrela azul
Quer dizer que o Benito não existe mais.
Se vires brilhar a estrela negra
Quer dizer que o Benito já está na cadeia.
Se vires brilhar a estrela vermelha
Quer dizer que o Benito está na cova.
E se vires a estrela tricolor
Quer dizer que a Itália recuperou o seu vigor.
Notas sobre a tradução
"Benito": Refere-se a Benito Mussolini, o líder fascista italiano.
"Na cova" (nella fossa): Uma referência direta à morte e ao fim definitivo do regime.
Contexto Local: O mural em Orgosolo utiliza estas rimas para acompanhar a homenagem aos milhares de combatentes mortos, desaparecidos e mutilados durante a guerra contra o fascismo. (Google Gemini)
2026 05 05 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Nuestra patria è il mondo intero' (A nossa pátria é o mundo inteiro)
Stornelli d'esilio (anonimo -- Pietro Gori) canta Margot -
Franco Trincale Nostra Patria è il mondo intero
Nostra Patria è il Mondo Intero - Canti di Rivolta
(A nossa Pátria é o mundo inteiro) é o refrão de uma canção/poema anarquista italiana intitulada "Stornelli d'esilio" (Cantos de exílio), escrita pelo intelectual e ativista anarquista Pietro Gori em 1895.
Embora a frase seja anarquista, o mural inclui os nomes de Karl Marx e Federico Engels, unindo diferentes vertentes do pensamento revolucionário e internacionalista sob uma linguagem visual inspirada em Picasso.
Foi escrita num período de grande repressão contra anarquistas na Europa, quando muitos foram forçados ao exílio. A canção celebrava a dignidade dos exilados que viam o mundo inteiro como o seu lar. Tornou-se um hino cantado em vários idiomas por comunidades libertadas em todo o mundo, especialmente na Itália, Es
'A frase "Nostra patria è il mondo intero" (Nossapanha e América Latina.' (Google Gemini)
O profughi d'Italia a la ventura si va senza rimpianti nè paura.
Nostra patria è il mondo intero nostra legge è la libertà ed un pensiero ribelle in cor ci sta.
Dei miseri le turbe sollevando fummo d'ogni nazione messi al bando.
Nostra patria è il mondo intero nostra legge è la libertà ed un pensiero ribelle in cor ci sta.
Dovunque uno sfruttato si ribelli noi troveremo schiere di fratelli.
Nostra patria è il mondo intero nostra legge è la libertà ed un pensiero ribelle in cor ci sta.
Raminghi per le terre e per i mari per un'Idea lasciamo i nostri cari.
Nostra patria è il mondo intero nostra legge è la libertà ed un pensiero ribelle in cor ci sta.
Passiam di plebi varie tra i dolori de la nazione umana precursori.
Nostra patria è il mondo intero nostra legge è la libertà ed un pensiero ribelle in cor ci sta.
Ma torneranno Italia i tuoi proscritti ad agitar la face dei diritti.
Nostra patria è il mondo intero nostra legge è la libertà ed un pensiero ribelle in cor ci sta.
2018 01 09 Foto victor nogueira - em Setúbal no Largo de Santo António - "Na madrugada, escrevendo ao lado da solidão / Em cada linha escrita, um pedaço do coração"
São os versos finais da Letra da Música » Hip Hop/Rap » Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada que pode ser ouvida em
(Video Clip Oficial)
Licença sangue
Deixa eu te mostrar o que é poesia
Navego num mar de almas implorando alforria
Lutador luta agora e o covarde sempre adia
Se o errado tem voz o sábio nunca silencia
Grito de agonia, meu povo sorri chorando
Os mortos resistindo e os vivos se entregando
Tamo se aproximando, do fim cê ve o começo
Fulano ali se vende sim é só aumentar o preço
Música não tem cor, nem arte ou endereço
Postura uns morre sem, outros vem com ela de berço
Só quero o que mereço, meu santo não é de gesso
Vacilação total não aprender com o tropeço
Apresso o recomeço, apresso a futilidade
Os de mentira vive gritando que é de verdade
Julgando os meus defeitos não viu minha qualidade
Antes são na loucura que louco na sanidade
Uns são nem a metade, mas acham que pode tudo
Se a justiça tem voz , pra nóis sistema tá mudo
Humildade não é escudo, nem nosso sofro é orgulho
Se espantou pois esqueceu que vaia também e faz barulho
Maloca... vários monstro ao meu redor
Quanto mais gente conheço, mano, me sinto mais só
E o pastor que ontem se sentia entre nóis o melhor
Mural sobre internacionalismo proletário, em Orgosolo, Sardenha (Itália)
O que está escrito
Texto principal:"Nostra patria è il mondo intero..." (Nossa pátria é o mundo inteiro).
Contexto: Como mencionei, é um verso de Pietro Gori, um advogado e pensador anarquista que escreveu a canção "Nostra patria è il mondo intero" em 1894.
Nomes: No canto inferior direito da imagem, aparecem os nomes de Karl Marx e Friedrich Engels, os fundadores do socialismo científico.
Essa canção é um dos hinos mais bonitos e emocionantes do movimento anarquista italiano. Escrita por Pietro Gori em 1894, enquanto ele estava no exílio, a letra reflete o espírito de resistência e a rejeição às fronteiras nacionais.
Originalmente, os versos faziam parte de um poema intitulado "Sante Caserio", dedicado ao anarquista que assassinou o presidente francês Sadi Carnot, mas a música tornou-se um hino de fraternidade universal.
Letra: Nostra patria è il mondo intero
Italiano (Original)
Português (Tradução)
Nostra patria è il mondo intero
Nossa pátria é o mundo inteiro
Nostra legge è la libertà
Nossa lei é a liberdade
Ed un pensiero ribelle in cor
E um pensamento rebelde no coração
Ci destò la volontà.
Despertou-nos a vontade.
Scacciati di terra in terra
Expulsos de terra em terra
Costretti a errare andiam
Forçados a vagar vamos
Per la giustizia e per l'amor
Pela justiça e pelo amor
In esilio noi moriam.
No exílio nós morremos.
Ma il dì dell'umana riscossa
Mas o dia do resgate humano
Fra poco splenderà
Em breve brilhará
Il sol dell'avvenire
O sol do porvir (futuro)
Di giustizia e libertà.
De justiça e liberdade.
E allora i poveri oppressi
E então os pobres oprimidos
Si stringeranno la man
Darão uns aos outros a mão
E spunterà la pace
E despontará a paz
Per l'umana famigli'
Para a família humana.
Nostra Patria è il mondo intero - Pietro Gori (versione di Franco Trincale)
Notas sobre a Canção
O "Sol dell'avvenire": Esta expressão (O sol do porvir) tornou-se uma das imagens mais poderosas da iconografia socialista e anarquista italiana, simbolizando a esperança num novo mundo.
Contexto de Orgosolo: Ao veres este mural na Sardenha, percebes que a letra não é apenas música; é o fundamento da identidade política daquela vila, que sempre se viu como uma comunidade de resistência contra a autoridade central imposta.
Em 1986, em uma década que podemos considerar hoje como a era ideal de paz e liberdade, a banda de rock britânica Status Quo quase alcançou o topo das paradas pop com seu cover de „In the Army Now“. O original foi da dupla sul-africana Bolland & Bolland em 1981, e a única mudança no texto foi que a referência específica à Guerra do Vietname foi removida.
Férias em um país estrangeiro,
O tio Sam está a dar o seu melhor
Estás no exército agora,
Ah, ah, você está no exército agora
Agora você se lembra do que o recruta disse,
Nada a fazer o dia todo, exceto deitar na cama
Estás no exército agora,
Ah, ah, você está no exército agora
Vais ser o herói do bairro,
Ninguém sabe que você se foi para sempre
Estás no exército agora,
Ah, ah, você está no exército agora
Rostos sorridentes enquanto esperas pela aterragem,
Mas uma vez lá, já ninguém se importa
Estás no exército agora,
Ah, ah, você está no exército agora
Granadas de mão voam sobre sua cabeça
Foguetes voam sobre sua cabeça
Se queres sobreviver, levanta-te
Estás no exército agora
Ah, ah, você está no exército agora
Os tiros ecoam à noite
O sargento grita: „Levante-se e lute!“
Estás no exército agora
Ah, ah, você está no exército agora
Tens a tua encomenda, é melhor disparares imediatamente,
Seu dedo está no gatilho, mas não parece certo
Estás no exército agora,
Ah, ah, você está no exército agora
A noite cai e você simplesmente não consegue ver nada
Isso é ilusão ou realidade?
Estás no exército agora,
Oh-oo-oh, você está no exército agora, no exército
" You're in the Army Now " é uma canção da dupla holandesa de origem sul-africana Bolland & Bolland , lançada em 1981. A canção passou seis semanas consecutivas no topo da parada de singles norueguesa. Um cover da banda de rock britânica Status Quo , simplificado como " In the Army Now ", fez sucesso internacional em 1986.
Em 1986, a banda britânica de rock Status Quo fez um cover de "In the Army Now" em seu álbum homônimo . A versão deles adicionou um riff de sintetizador proeminente e mudou o verso "Smiling faces on the way to 'Nam" para "Smiling faces as you wait to land" , removendo assim a referência explícita à Guerra do Vietnã . (Wikipedia)
Rogério
Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso são os rostos deste
espectáculo que resgata da sombra figuras da resistência e do 25 de Abril. A
estreia é esta segunda-feira.
Rogério
Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso: os rostos não
anónimos dos Anónimos de Abril LUÍS FILIPE CATARINO
Sabem quem foi
Aurora Rodrigues? Belmira Gonçalves? Francisco Miguel Duarte? Albina Fernandes?
Jorge Alves? Luís e Herculana Carvalho? João Arruda? As suas vidas estão
ligadas à resistência contra o Estado Novo e ao 25 de Abril, mas os seus nomes
permanecem desconhecidos para a quase totalidade dos portugueses. É deles, e de
outros como eles, que nos fala (e canta) Anónimos de Abril, em
estreia esta segunda-feira no Tivoli BBVA (21h), em Lisboa. O espectáculo, inserido
nas comemorações dos 100
anos do Teatro Tivoli, vai ser gravado pela RTP, para posterior
transmissão.
O projecto de
Rogério Charraz e José Fialho Gouveia, com as participações de Joana Alegre e
João Afonso (vozes) e dos músicos Alexandre Frazão (bateria), Carlos Garcia
(piano), Marco Reis (guitarra) e Nuno Oliveira (baixo), surgiu quando o cantor
e compositor viu num texto de uma rede social a história de Celeste Caeiro,
recorda ao PÚBLICO. "Já conhecia o nome, sabia que começou por dar um
cravo a um militar, mas a maior parte dos portugueses está convencida de que
era florista, quando de facto ela trabalhava num restaurante que fazia um ano
no dia 25 de Abril [de 1974].”
Ele próprio não
conhecia a história e isso aguçou-lhe ainda mais a curiosidade. “Quando dei por
mim a deliciar-me com ela, pensei que deve haver muitas pessoas que tiveram um
papel simbólico ou até fundamental na resistência ou na revolução e que não são
muito faladas de cada vez que se celebra o 25 de Abril. Foi esse o ponto de
partida para este Anónimos de Abril: ir à procura de histórias
enterradas ou guardadas na gaveta.”
O passo
seguinte foi falar com José Fialho Gouveia, que já havia colaborado com Rogério
Charraz, como letrista, nos discos O Coreto (2021) e Reunião de Condomínio (2023), para combinar uma
ida aos arquivos, tarefa que começou a ser feita a dois.
“Fomos
encontrando histórias”, diz José Fialho Gouveia. “Falámos com pessoas que nos
passaram figuras que podiam encaixar neste projecto e fomos construindo uma
lista que depois tivemos de ir encurtando. Quisemos diversidade: não queríamos
quatro ou cinco exemplos cujo aspecto central fosse a vida na clandestinidade;
quisemos equilíbrio entre homens e mulheres, porque o 25 de Abril também
foi feito por muitas mulheres, embora os nomes mais conhecidos sejam de
homens; e quisemos regiões diferentes do país.”
O compositor
acrescenta: “No caso das mulheres, tivemos também a preocupação de não ir
buscar apenas as que eram de facto apoio de homens, como a Arajarir Campos
[secretária de Humberto
Delgado, morta pela PIDE na mesma emboscada em que ele foi assassinado, em
Fevereiro de 1965], mas mostrar os vários papéis que tiveram.”
Arajarir está
entre os “anónimos” aqui cantados. Tal como, entre vários outros, Belmira
Gonçalves, morta a tiro durante a “Revolta das Águas” na Madeira, em 1962; o
Padre Alberto Neto, fundamental na vigília
da Capela do Rato; Jorge Alves, o militar da GNR que ajudou na célebre fuga
dos presos do Forte de
Peniche; Francisco Sousa Mendes, neto do cônsul Aristides Sousa Mendes, que
integrou a coluna de Salgueiro Maia; Aurora
Rodrigues, estudante presa em 1973 e torturada durante três meses; ou o
casal Luís
e Herculana Carvalho. De uma família abastada do Porto, estes pais de um
destacado militante do PCP, Guilherme da Costa Carvalho, conseguiram
autorização para visitar o filho na colónia penal do Tarrafal. Ali tiraram
fotografias às campas dos prisioneiros mortos e no regresso percorreram o país
a entregar as imagens aos familiares dos detidos.
Recolhidas as
histórias, foi a vez das canções. “O processo foi o mesmo que usámos nos dois
discos anteriores”, conta Rogério Charraz. “Partir da história, da personagem,
fazer a letra – um trabalho do Zé, depois de aprofundar a pesquisa inicial, ao
ler os livros, conhecer as histórias a fundo, os pormenores –; em cima das
letras, eu construí as canções e os arranjos, para depois meter as vozes,
minha, do João e da Joana.”
Os cantores
foram já escolha de ambos. “Na minha cabeça, há um lado colectivo no canto de
intervenção”, explica o compositor. “Os cantautores cantavam muitas vezes
juntos, com as suas guitarras e as suas vozes, e isso está muito
presente no nosso imaginário. Fazia sentido ir buscar outras vozes,
[aliás] com ligações familiares a figuras da resistência: a Joana é filha de Manuel Alegre e o João é sobrinho do José Afonso.”
Depois dos
palcos, um disco
Joana Alegre
aceitou o convite antes de ouvir as canções, mas o que leu e ouviu deixou-a
tranquila: “Agradou-me muito a perspectiva literária, transversal, não
panfletária, igualitária, de contar a história de pessoas anónimas que também
construíram a liberdade”, diz.
“Esta narrativa
corrige um bocadinho aquela de que as mulheres ficaram reféns, e que menorizava
o seu papel na resistência e na construção da liberdade", sublinha a
cantora. "Há aqui histórias muito sensíveis, porque estamos a entrar no
plano dos traumas individuais, do sofrimento pessoal, mas as letras foram
feitas pelo Zé Fialho com muito cuidado.”
João Afonso
corrobora: “Também aceitei o desafio sem conhecer os poemas, mas a ideia em si
atraiu-me logo – porque é muito interessante a abordagem. O 25 de
Abril que conhecemos foi feito por oficiais, homens, mas estas histórias vão
mais além, falam do trabalho de resistência escondido, de personagens que não
vêm nos livros escolares.”
Após a estreia
do espectáculo em Lisboa, há já mais oito datas marcadas, além de outras ainda
à espera de confirmação: Portimão (16 de Março), Montijo (6 de Abril), Fafe (19
de Abril), Vila do Conde (20 de Abril), Santa Maria da Feira (24 de Abril, com
a Orquestra Sinfónica de Jovens), Barcelos (27 de Abril), Grândola (21 de
Setembro) e Loulé (26 de Outubro). Anónimos de Abril deverá
ainda dar lugar a um CD, a lançar em 2025.
"Leio
um poema, sinto a sua musicalidade e passados 10 minutos estou a musicar"-
entrevista a Ruy Mingas
2006
* Maria Lança
Antes da
Independência de Angola já Ruy Mingas tinha corrido e cantado imenso. Deu
voz ao poema «Monangamba» de António Jacinto, um dos símbolos da luta
anticolonial e seguiu musicando tantos outros poemas que entoamos como memória
de alegria, às vezes difícil. Presenteou o país com um hino pacífico e poético,
Angola Avante! (música sua e letra de Manuel Rui). Como atleta no Benfica
ganhou vários títulos de campeão. Na Angola Independente exerceu funções de
direcção no primeiro Ministério da Educação, foi embaixador em Portugal de 1989
a 1995, e vice-ministro da Cultura.
Em 2006
regressa à música, após três décadas sem gravar. Memória é um
disco que remete para um legado cultural que o autor quis recuperar para os
dias que correm na vontade de dá-lo a conhecer a uma juventude com outras
preocupações pela frente. Com a boa sonorização das gravações actuais, estamos
gratos por poder regressar à sua voz madura e doce que reaviva os poemas de
luta que tanto contam da história de Angola, numa diversidade rítmica com
primazia para o semba.
Dedicando-se
quase exclusivamente à educação, criou o projecto de uma universidade privada,
a Lusíada, da qual é hoje administrador. Ruy Mingas sente-se feliz entre os
estudantes a consolidar a educação, pilar primordial para o desenvolvimento
do país.
É um homem
com vários interesses. Cantor, investigador e professor, desportista e
diplomata, com qual destas identidades se revê mais?
Sempre fui uma
pessoa com actividades muito ecléticas. Mas gosto muito do desporto e da
educação. Gosto especialmente da música (a minha esposa dizia “a primeira
mulher do meu marido é a música”), mas de uma maneira diferente: Ocupa um
espaço na minha vida mas não do ponto de vista profissional, eu nunca seria uma
profissional na música, já na educação e no desporto sim. São áreas que me
estimulam muito, sinto-me bem, gosto de estar aqui com os jovens e estudantes,
discutir com eles, como gosto de estar no desporto, são as relações humanas
mais tocantes a que me prendo. Já a música é natural, eu cresci com a música,
desde os meus avós, faz parte da minha vida como prazer e convívio.
A imagem que
tenho de si é, acima de tudo, um grande músico.
Isso é pela
idade que tem. Na minha juventude era mais conhecido como campeão do Benfica,
entre finais dos anos 50 e finais de 70, muito antes disso.
Em que pé
está o conhecimento da música angolana?
Nós temos de
consolidar os nossos estilos, os nossos ritmos. O nosso estilo melódico é
importante. Os ritmos das gentes do Cunene são diferentes dos ritmos das
povoações de Luanda. Portanto há um enorme trabalho a fazer de identificação de
ritmos e de cientificação da música.
Isso passa
por haver escolas de música e musicólogos?
Absolutamente.
Temos necessidade de ter muitas escolas. Porque a música bonita que vemos lá
fora, interpretada para muita gente, é reflexo de escola, tal como o futebol, o
basquete e a arte também passam por escola.
O
disco Memória pode servir de referência para os jovens em
termos musicais, pois são músicas que tiveram grande importância durante o
colonialismo. Como vê a importância desta retoma de composições de uma
determinada época?
A retoma foi
para proporcionar a uma geração - que não existia nessa altura - o conhecimento
desta poesia interventiva de grande significado, que suporta um período
pré-independência num contexto histórico e político completamente distinto.
Quando chamo Memória - e aqui presto homenagem à minha filha Nayma pois ela é
que pensou no nome - é para essa juventude que pouco estuda e sabe da
literatura angolana, para terem oportunidade de conhecer a poesia bonita que
marcou uma época de luta. A última vez que gravei tinha 30 e poucos anos,
passaram 32 anos. Agora a geração é outra e o contexto completamente distinto e
isto é um disco produzido com uma tecnologia que dá melhor qualidade à mensagem
poética, a sonoridade melhorou muito.
Neste disco
musicou poemas de escritores angolanos como Manuel Rui Monteiro, Viriato da
Cruz, Agostinho Neto e Ernesto Lara Filho. Tem mantido uma intensa relação
entre música e literatura angolana.
Eu gosto de
musicar poesia bem elaborada que reflicta algo. Comecei com 18 anos a musicar o
Agostinho Neto, o Mário Pinto de Andrade. Para mim o sentido temático e a
mensagem são fundamentais, contando que seja algo bem elaborado.
Gostaria
de escrever?
Escrevo alguma
coisa mas não publico e acho que temos poetas tão bons que prefiro fazer aquilo
que sei fazer bem, compor. Eu crio música com muita facilidade, leio um poema,
sinto a sua musicalidade e passados 10 minutos estou a musicar. Farei isso
sempre que estiver na presença de um grande poema.
Ao dar a
conhecer esses poetas ligados a uma geração de luta está a tentar despertar
neles uma consciência crítica e política?
Claro que sim.
Tenho um carinho muito grande pelos jovens e às vezes uma certa preocupação com
a sua qualidade.
Como e
quando surgiu a ideia de criar uma universidade privada em Angola?
A ideia surgiu
logo quando a sociedade angolana liberalizou o seu sistema para instituições
privadas, universitárias e comércio. Concebemos este projecto
em 1998.
O balanço é
positivo em termos de resultados e de assimilação no mercado de trabalho dos
estudantes que saem da Lusíada?
Iniciámos em
98, com 4 cursos e o ano propedêutico, hoje temos 8 licenciaturas, nas áreas
económicas e nas áreas sociais. Penso que os alunos estão bem enquadrados
porque Angola está longe de superar os quadros qualificados que correspondem à
procura e, passe a modéstia, temos quadros bem formados. O feed-back que
temos encontrado das instituições para onde se destinam tem sido o melhor
possível. Temos as melhores referências, ex-alunos a trabalhar na BP, na
Sonangol, em empresas privadas, acho que o resultado está a ser
muito bom.
Que perfil
de aluno vem estudar para a Lusíada, em termos de extractos sociais?
Os alunos aqui
abrangem todo o tipo de extractos sociais. Não se pode identificar as classes
sociais em Luanda na medida que há quem não pertença tradicionalmente à classe
privilegiada mas tenha poder de compra equivalente ou superior aos que
aparentam essa classe. As pessoas têm um poder de compra muito grande. Nós
iniciámos os cursos com alunos adultos, de 40 e 50 anos, hoje são
predominantemente jovens. A evolução foi a melhor possível. Começámos com 300
alunos, neste momento temos cerca 6 mil em Luanda, mais um pólo em Benguela e
em Cabinda, no conjunto das 3 universidades temos cerca de
7500 estudantes.
Sente que os
alunos chegam à universidade preparados? Qual é a principal carência do ensino
anterior, pré-universitário?
A carência é
muito grande, por isso iniciámos esta universidade com o ano propedêutico, não
obrigatório, era opcional. Houve muita recepção na primeira experiência, muita
gente queria fazer exame de aptidão directo, mas o índice de reprovação era tão
grande que ao fim do primeiro ano os próprios alunos constataram que quem
fizesse o ano zero teria melhor solidez nos seus conhecimentos e o curso
universitário fluía muito mais facilmente. Hoje em dia temos dois terços dos
candidatos a matricularem-se no ano zero. Fomos os primeiros a implementar este
sistema pela consciência de que temos de melhorar bastante o ensino.
A
frequentação feminina de cursos superiores fará com que haja mais mulheres na
liderança do país, com protagonismo em várias áreas?
Isso é
extremamente louvável. Eu pertenço a uma geração em que os próprios pais
entendiam que era preciso dar mais formação aos homens do que às mulheres.
Já se
erradicou essa mentalidade?
Não creio. Nas
províncias sim, porque as populações estão muito agarradas a alguns conceitos
tradicionais. A nível urbano não se sente. A sociedade angolana até foi muito
aberta em relação à mulher. Conheço bem o continente africano, não creio que
haja nenhum país com tanta abertura para com as mulheres como Angola. É
evidente que à medida que as mulheres forem adquirindo mais capacidade técnica,
científica, cultural e outras estarão capacitadas para adquirir mais
responsabilidades e é louvável que assim seja. Naturalmente, o crescimento do
número de mulheres com formação vai influenciar as sociedades mais tradicionais
a procurarem entender a mulher de maneira diferente.
Mas
imaginemos que um homem e mulher com a mesma formação procuram emprego, não
acha que, além das suas competências e qualificações, o género é tido em conta
na escolha do candidato?
Daquilo que
constato acho que não há problemas dessa natureza. Não tenho sentido quaisquer
preconceito para se fazer a selecção das pessoas em função do género. Se existe
é em situações muito menos frequentes do que no tempo dos meus pais. Em
Portugal rejeitam as mulheres com aquelas condicionantes de maternidade. Na
admissão da mulher nas empresas privadas que não têm nenhum orçamento que cai
do céu como nas empresas públicas e que apostam na capacidade de produção dos
seus trabalhadores, muitas vezes isso acontece. Eu acho que deve ser tudo feito
com base nas capacidades, aqui na Universidade tenho isso presente com várias
senhoras responsáveis.
Fará sentido
para si a discussão de cotas para a representação política feminina ou isso
terá de acontecer naturalmente sem ser pela descriminação positiva?
O Brasil tem
quotas para a entrada de negros na universidade porque aquilo é uma sociedade
estratificada, onde esse problema é visível. Aqui não. A mulher angolana não
tem maior participação na política porque essa percentagem decorre do número de
pessoas que aderiram à luta política. Não era muito comum encontrar mulheres no
ativismo político há 40 anos atrás. Hoje felizmente há muito mais, a vossa
juventude tem essa participação, também há uma formação que lhes permite uma
outra capacidade de intervenção na abordagem e na discussão dos problemas. Isso
é paulatino, pratica-se à medida que a sociedade for mais equilibrada e tiver
mulheres formadas ao mesmo nível que os homens a participar no sistema de
emprego. Não é por acaso que a Inglaterra já teve Primeira-Ministra e a França
teve uma candidata à Presidência da República, trata-se de um longo percurso de
tradição e participação na vida política.
BI:
Nome: Ruy
Alberto Vieira Dias Rodrigues Mingas
Data de
nascimento: 12/05/1939 - 4/2/2023
Naturalidade: Luanda
Cantor
preferido: Ray Charles, Nat King Cole
Cantora
preferida: Aretha Franklin, Ella Fitzerald
Filme: Os
Dez Mandamentos
Pintor:
Salvador Dali
Cor: Azul
Viagem: Roma
O que mais
despreza: falsidade
O que mais
preza: sinceridade, transparência
Prato
preferido: calulu
De que sente
mais saudade: dos meus pais
Lema de vida:
ser aquilo que sou, apoiar sempre as crianças