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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Susana Peralta - Chega e o seu financiamento

* Susana Peralta

Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa Venturiana do "povo contra as elites".

André Ventura discursa contra o "sistema de interesses instalados" num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete "limpar Portugal" da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

É teatro. Obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente anti-sistema. É preciso uma suspensão de descrença digna de ópera Wagneriana.

Mas talvez o mais fascinante não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exactamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extractos bancários e cruzar transferências.

A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022.

Manuel Carlos de Melo Champalimaud, maior accionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti-elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação "Torre de Controlo" sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que fácilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa de golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exactamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte.

Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

Porque aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre "povo", "nação", "soberania".

É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

Leiamos, então. Directamente do programa do Chega, página 45: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte". Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

Página 49, sobre saúde especificamente: "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente".

Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não reformá-lo. Não melhorá-lo. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem azar. Exactamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer pela primeira vez em décadas entre países desenvolvidos. Exactamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exactamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema actual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

Há um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Óptimo para quem pode comprar os activos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

E para o "povo" que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exactamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, "esquerdalha". Mas soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o "subsidiodependente") enquanto se rouba o que resta da sua protecção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para cima.

E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, performar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extractos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

E há tanto por que estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exactamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já tem demasiado de ambos.

E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro combinado com ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito para uma agenda que nunca ganharia eleições se fosse apresentada honestamente.

Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa "vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos", seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exactamente isso — desde que embrulhe em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extractos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. "Esquece-se" de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos. E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. O SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de protecção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

Mas provavelmente não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não pára. Nunca pára. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

É quase poético. Se não fosse trágico.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/02/chega-e-o-seu-financiamento-um-artigo.html
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Por Carlos Esperança - fevereiro 19, 2026

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Fernando Rosas - O 25 de Novembro enquanto farsa

* Fernando Rosas
 
Não é difícil prever o que daqui sairá como “comemorações oficiais”: o espectro do novembrismo militarista em parada.

Num dos seus mais conhecidos escritos histórico-políticos, Karl Marx lembrou que o filósofo alemão Hegel fez notar que “os grandes acontecimentos e personagens históricas ocorrem, por assim dizer, duas vezes”. Mas, segundo Marx, ter-se-ia esquecido de acrescentar: “a primeira como tragédia, a segunda como comédia”.

Precisamente no caso presente, o Governo do PSD, não podendo reeditar a tragédia, ficou-se pela farsa: decretou umas “comemorações oficiais” do contragolpe militar do 25 de Novembro de 1975. E, como o assunto queima, entregou-as, à laia de prémio de consolação, ao improvável ministro da Defesa e exuberante chefe do CDS, Nuno Melo. O desenterrar pelo Governo da direita do novembrismo ultramontano e o propósito explícito de oficializar a comemoração assumem, é bom que se diga, o carácter de uma farsa duplamente funérea.

Em primeiro lugar, porque a sua organização é promovida por um partido-fantasma, política e socialmente inexistente, o CDS, cuja base social, como toda a gente sabe, há muito se esfumou e dissolveu nos demais partidos da direita e extrema-direita lusitana. Dito de outra forma: é uma sigla fantasmática transportada por uns cavalheiros a quem o PSD fez o favor de pendurar numa dita Aliança Democrática para fingir que ela existe. Uma esmola política que descompromete o PSD com cavalarias altas, mas evidencia a radicalização à direita do partido do Governo.

O propósito ideológico é já antigo na direita e extrema-direita portuguesa: fazer do novembrismo autoritário, colonialista e ressabiado o paradigma ideológico do regime antidemocrático que pretendem impor ao país

Em segundo lugar, porque nada desta farsa fúnebre das “comemorações oficiais” do novembrismo tem que ver com qualquer vislumbre de debate historicamente sério e pretendidamente esclarecedor sobre a efeméride. O seu assumido propósito ideológico é já antigo na direita e extrema-direita portuguesa: fazer do novembrismo autoritário, colonialista e ressabiado o paradigma ideológico do regime antidemocrático que pretendem impor ao país. E, com isso, procurar “limpar” a memória libertadora do 25 de Abril e da revolução portuguesa de 1974/75. Passo indispensável para legitimar simbólica e politicamente o autoritarismo de novo tipo que transporta, nos dias de hoje, a aliança tendencial das direitas tradicionais com a nova extrema-direita.

Basta atentar na composição (tutelada pelo galhardo ministro da Defesa) da comissão constituída para o efeito. Uma espécie de top ten das mais jurássicas entidades da nostalgia colonialista e neo-salazarista que por aí subsistem em estado mais ou menos vegetativo. A título de exemplo: a Sociedade Histórica da Independência de Portugal (que coabitou física e espiritualmente no antigo Palácio dos Almadas com a milícia da Mocidade Portuguesa durante 34 anos), onde pontifica o dr. Ribeiro e Castro, outro ex-dirigente do CDS; a Comissão Portuguesa de História Militar, ligada ao Ministério da Defesa, encarregada da crónica legitimadora das guerras do colonialismo português em África; e, para apimentar a coisa, a Associação dos Comandos! Nem sequer lá falta, para garantir o policiamento ideológico do grupo, a presença do director-geral da Política de Defesa Nacional. Não é difícil prever o que daqui sairá como “comemorações oficiais”: o espectro do novembrismo militarista em parada.

É claro que os golpes e contragolpes do 25 de Novembro de 1975 existiram como evento político-militar relevante na história do processo revolucionário iniciado no 25 de Abril. E desaguaram, como é sabido, na contenção pactuada do processo revolucionário negociada entre alguns dos seus principais intervenientes. Desses compromissos nasceram a Constituição de 1976 e as instituições do regime democrático. Foi um processo complexo que dividiu opiniões até hoje e merece absolutamente ser estudado de forma rigorosa, plural e com o benefício da distância de meio século. Cruzando fontes, testemunhos e várias gerações de investigadores, designadamente no âmbito das iniciativas que assinalam o cinquentenário do 25 de Abril, a cujo processo se ligam, obviamente, os acontecimentos do 25 de Novembro. Do que aqui se trata é de saber se o faremos como campanha governamental de manipulação ideológica permanente ou como debate livre e enriquecedor da cidadania democrática.

Assim sendo, como escreveu um antigo pensador chinês, só se pode desejar “que mil flores floresçam e que cem escolas rivalizem”. Cada um fará sua a que entender melhor servir para fazer face à tempestade que espreita.

É isso que é a democracia. O de mais é a farsa administrativa e sombria, paga, convém lembrar, pelos contribuintes.

Artigo publicado no jornal Público a 15 de setembro de 2025

https://www.esquerda.net/opiniao/o-25-de-novembro-enquanto-farsa/95990

sexta-feira, 7 de março de 2025

Manuel Loff - O Comodoro e as coisas



* Manuel Loff


Verdade se diga que o país era pequeno, bem pequeno mesmo. Era o que ele lembrava aos seus compatriotas desde que, chegado à Presidência, enxotava os escrevedores de discursos que havia no Palácio. Ele por ele tinha “fome de vencer e sou muito ambicioso e não gosto de perder.” Mas o país que aprendesse a trabalhar, porque isto de “distribuir a riqueza inexistente, que não produzimos”, não podia ser!

Triunfara contra dois figurões dos velhos partidos. Pelo Partido Alcrata (popularmente conhecidos como “alcatras”), o comendador Parques Tendes, que se achava velha raposa dos tempos idos do professor Tamanco. No Partido Lista, como era habitual, não se tinham entendido, ofuscados muitos deles pelo brilho do uniforme do Comodoro, com quem se tinham dado tão bem. De entre eles, em bicos de pés, lá fizera o seu número o soporífero Dr. Apólice.

Foi a desgraça para eles. O Comodoro resolveu tudo logo à primeira volta. Irritara-se, isso sim, com o palavroso Porventura. O Comodoro tratava-o como quem trata um aspirante; todos conheciam os pedagógicos raspanetes públicos que gostava de dar aos praças. Mas sabia que precisava dele para livrar-se dos velhos partidos. E ainda por cima, o outro tratava-o com o mesmo grau de reverência com que despachava despautérios contra o resto do mundo. O Comodoro achava que o tinha posto na linha.

 Depois veio o rearmamento, o serviço militar obrigatório e a crise. O país era pequeno, tinha de poupar, a guerra vinha aí, e de guerras sabia ele. “Tempos de emergência” tinham chegado; aliás, a vida devia ser vivida toda ela como uma emergência, único meio ambiente no qual um povo desleixado compreende o seu dever. Chamou-se os constitucionalistas. Disse-lhes o que queria. Presidencialismo, o único regime das nações dignas desse nome. E que se reduzisse o número de deputados, 70 chegavam muito bem. Poucos mas bons. Os listas e os alcatras balbuciaram algumas dúvidas mas disseram que sim. Afinal, explicou-lhes o Comodoro, os tempos eram outros, e todos estavam de acordo que “já não estamos em 1975!”, a frase preferida dos comentadores. O Porventura disse que nunca tinha querido outra coisa, pudesse o Comodoro dar-lhe uma chance para demonstrar a sua valia no governo.

 Numa comemoração do 25 de Novembro – cuja passagem a feriado nacional o Comodoro aplaudira -, o Presidente fardado (por que não podia ele usar a farda como presidente?) apresentou o projeto. Os poucos deputados da esquerda abandonaram a sala. Vários cantavam uma canção sobre uma “vila morena”. O Comodoro queixou-se de “falta de respeito!”. Estava na altura de os pôr na ordem. O Porventura foi o primeiro a levantar-se para o aplaudir. “Sempre à disposição do senhor Comodoro para limpar a Pátria!”, garantiu. O Comodoro sorriu. Achou que o tinha no bolso. O Porventura achava que era ele que tinha o Presidente no bolso. Coisas da política, eles lá saberiam.

Depois, veio a guerra com a China. E mais austeridade. Agora assumia-se que era mesmo austeridade, e que tinha de ser. Quando começaram as greves, o Comodoro disse “Basta! Isto assim não pode ser!”, e a imprensa aplaudiu a linguagem genuína, a voz de comando, o caráter decidido! Impôs o estado de emergência, coisa que o país já conhecia. Explicaram-lhe que tinha de ser só por 15 dias e que depois havia que perguntar aos deputados se podia ser por mais tempo. “Claro que tem de ser, ou os senhores deputados acham que as guerras têm calendário?!” Fizeram-lhe a vontade. Proibiram-se as greves nos serviços públicos. Ele, militar, a servir a Nação, nunca tinha feito uma greve, por que haveriam os outros poder fazê-la?
 
E agora era assim. Como dizia o ele, no seu habitual “Colóquio à Lareira” pela televisão: “Para a frente, compatriotas! A pátria nos contempla e o passado nos espera.”

2025 03 05

https://www.publico.pt/2025/03/05/opiniao/opiniao/comodoro-212469

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

João Miguel Tavares - O deputado que surrupia malas – e o que isso diz do Chega

Os deputados do Chega têm muita vontade de limpar Portugal, da mesma forma que Miguel Arruda ajudou a limpar os tapetes do Aeroporto Humberto Delgado.

*  João Miguel Tavares

Há neste momento 18% de portugueses um pouco tristes e 82% a rebolar de riso, segundo os resultados das últimas legislativas. Peço antecipadamente perdão aos eleitores do Chega e aos proprietários das bagagens desaparecidas: o roubo de malas no aeroporto de Lisboa e de Ponta Delgada por parte do deputado Miguel Arruda é das coisas mais divertidas que tive o prazer de ler nos últimos tempos, e um raríssimo caso de delinquência que acaba por dispor bem. Tendo em conta que o estado natural de um deputado do Chega é muito zangado e aos gritos no Parlamento, que haja pelo menos um que nos faça rir deve ser devidamente celebrado. Venham de lá essas gargalhadas, pois que há três excelentes razões para elas.

Razão n.º 1: Miguel Arruda é – alegadamente, claro – um deputado da nação a cometer um crime próprio de ladrões de jantes e de auto-rádios. Desviar malas à chegada dos voos é coisa típica de gatuno despossuído ou vagamente remediado, e não de alguém que trabalha numa casa onde se aprovam leis que valem milhões. As características do roubo apontam para aquele tipo específico de meliante que encontramos nos filmes dos irmãos Coen, com um nível de QI não especialmente elevado e uma vocação incontinente para a asneira, como a primeira frase do artigo do PÚBLICO sobre esta história trata de demonstrar: “Foram alguns meses de investigação, muitas imagens da videovigilância da zona de recolha de bagagens do aeroporto de Lisboa escrutinadas, e, nesta terça-feira, acabaram recuperadas diversas malas de viagem e parte do seu conteúdo.” Um político eleito a gamar repetidamente malas num local cercado de câmaras de vigilância – Joel, Ethan, porque é que ainda estão nos Estados Unidos?

Razão n.º 2: os moralistas são sempre os mais fáceis de entalar. Basta ter paciência e esperar algum tempo, e aqueles senhores que enchem a boca com grandes proclamações de princípios acabam enterrados até ao pescoço em hipocrisia e contradições. Não porque pregar a moral seja uma má ideia – sou grande fã da actividade –, mas porque mantê-la e ser coerente dá imenso trabalho, e é uma tarefa absolutamente hercúlea na política. Os deputados do Chega têm muita vontade de limpar Portugal, da mesma forma que Miguel Arruda ajudou a limpar os tapetes do Aeroporto Humberto Delgado. Com raras excepções, são caras novas com tentações velhas, que chegaram ao Parlamento no ventre de Ventura, enquanto noutros partidos muito dificilmente passariam de junta de freguesia.

Razão n.º 3: o Chega tem um enorme problema com a falta de qualidade e de inteligência dos seus quadros. As pessoas que votam no Chega não são burras, e André Ventura muito menos. Mas ele está a pagar um preço elevado por cinco longos anos de gritaria acompanhados de uma absoluta indigência ideológica. O Chega é uma versão marca branca e deslavada do Vox ou do Rassemblement National, partidos com pensamento político próprio. As tiradas populistas de Ventura são compreensíveis para um jovem partido que quer dar nas vistas, mas são muito curtas como projecto de poder. Trump encontrou trumpistas mais cultos e estruturados do que ele, capazes de transformar um arrazoado de intuições e de tuítes em algo próximo de uma ideologia – o trumpismo. Ventura continua a não ter gente com capacidade para isso. Os seus venturistas são apenas aventureiros como Miguel Arruda, desejosos de apanhar boleia do Chega para um lugar melhor, nem que seja à custa das malas dos outros.

22 de Janeiro de 2025

https://www.publico.pt/2025/01/22/opiniao 

domingo, 5 de janeiro de 2025

Miguel Esteves Cardoso - A Festa do «Avante!» chateia…

* Miguel Esteves Cardoso


 A Festa do «Avante!» é a maior iniciativa político-cultural do país. Ela é, como se sabe, o resultado do trabalho voluntário de milhares e milhares de militantes e simpatizantes comunistas. A forma como é tratada pela comunicação social dominante é um exemplo, dos mais evidentes, do silenciamento a é submetida nos jornais, revistas, rádios e televisões, toda a actividade do PCP. Uma actividade que, sublinhe-se, é maior do que a soma das actividades de todos os restantes partidos.

Quando não é o silêncio é a inverdade. Dizem-se muitas mentiras acerca da Festa do «Avante!»: que é irrelevante; que é um anacronismo; que é decadente; que é um grande negócio disfarçado de festa; que já perdeu o conteúdo político; que hoje é só comes e bebes.

As festas do «Avante!», por muito que custe aos anticomunistas reconhecê-lo, são magníficas. É espantoso ver o que se alcança com um bocadinho de colaboração. Não só no sentido verdadeiro, de trabalhar com os outros, como no nobre, que é trabalhar de graça. Mas não basta trabalhar: também é preciso querer mudar o mundo. E querer só por si, não chega. É preciso ter a certeza que se vai mudá-lo. Por isso o conceito do PCP de «colectivo partidário» parece provocar indisposições a muito comentador de serviço.

Porque os comunistas não se limitam a acreditar que a história lhes dará razão: acreditam que são a razão da própria história. É por isso que não podem parar; que aguentam todas as derrotas e todos os revezes; que são dotados de uma avassaladora e paradoxalmente energética paciência; porque acreditam que são a última barreira entre a civilização e a selvajaria.

Por isso sobre a construção da Festa cai um silêncio ensurdecedor.

Não há psicologias de multidões para ninguém: são mais que muitos, mas cada um está na sua. Isto é muito importante. Ninguém ali está a ser levado ou foi trazido ou está só por estar. Nada é forçado. Não há chamarizes nem compulsões. Vale tudo até o aborrecimento. Ou seja: é o contrário do que se pensa quando se pensa num comício ou numa festa obrigatória. Muito menos comunista. Todos os portugueses haviam de ir de cinco em cinco anos a uma Festa do «Avante!», só para enxotar estereótipos e baralhar ideias. Por isso, a Festa é um «perigo» que há que exterminar.

Assim se chega a outro preconceito conveniente. Dava jeito que a festa do PCP fosse partidária, sectária e ideologicamente estrangeirada. Na verdade, não podia ser mais portuguesa e saudavelmente nacionalista. Sem a orientação e o financiamento de Moscovo, o PCP deveria ter também fenecido e finado. Mas não: ei-lo. Grande chatice.

A teimosia comunista é culturalmente valiosa porque é a nossa própria cultura que é teimosa. A diferença às modas e às tendências dos comunistas não é uma atitude: é um dos resultados daquela persistência dos nossos hábitos. Não é uma defesa ideológica: é uma prática que reforça e eterniza só por ser praticada.

Enquanto os outros partidos puxam dos bolsos para oferecer concertos de borla, a que assistem apenas familiares e transeuntes, a Festa do «Avante!» enche-se de entusiásticos pagadores de bilhetes.

E porquê? Porque é a festa de todos eles. Eles não só querem lá estar como gostam de lá estar. Não há a distinção entre «nós» dirigentes e «eles» militantes, que impera nos outros partidos. Há um tu-cá-tu-lá quase de festa de finalistas. Por isso, ao Programa da Festa, anunciado em conferências de imprensa, são concedidas meia dúzia de linhas ou de segundos.

Ser-se comunista é uma coisa inteira e não se pode estar a partir aos bocados. A força dos comunistas não é o sonho nem a saudade: é o dia-a- dia; é o trabalho; é o ir fazendo; e resistindo, nas festas como nas lutas. Por isso a dimensão e o êxito da Festa chateiam. Põem em causa as desculpas correntes da apatia.

2006.09.03

In jornal "Público" - Edição de 3 de Setembro de 2010

sábado, 27 de julho de 2024

José Pacheco Pereira - Porque é que na “geração mais preparada de sempre” a ignorância cresce?

Opinião

A ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao saber são perigosos para a democracia e liberdade.

* José Pacheco Pereira

27 de Julho de 2024


Este é o tipo de artigos em que já se sabe de antemão as críticas, mais “bocas” do que críticas, que vai receber. Passadista, “velho do Restelo”, velho tout court, arrogante, reaccionário, antiquado, com incompreensão do que é a “nova” geração e as mudanças culturais em curso, com uma visão ultrapassada do que são as novas “competências”, não compreendendo os novos “saberes”, preso a um mundo que já acabou e a um elitismo sem sentido numa sociedade muito mais igualitária, em que os “saberes” do passado são inúteis. Muito bem, é tudo isto, mas, mesmo assim, reafirmo que o mundo cultural circulante nos dias de hoje é particularmente pobre, é pobre de referências, é pobre de “histórias”, é pobre de vocabulário, e alimenta uma ignorância agressiva, em particular nas redes sociais, e isso é péssimo para a democracia. Ainda mais, é um mundo que pela sua fragilidade cultural é particularmente sensível às modas, sem qualquer distanciação e consistência.

Tenho consciência de que este tipo de catastrofismo cultural, ainda por cima com uma componente geracional, é recorrente na história, tem características comuns que se repetem e tem-se revelado muitas vezes errado. É cíclico nas suas lamentações dos “velhos” para as gerações mais novas, mas se há coisa que a história também revela é que, às vezes, existe mesmo decadência. É um pouco aborrecido estar com estes caveats todos –​ aqui está uma palavra em desuso –, mas a ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao saber são perigosos para a democracia e liberdade. Decadência é outra palavra maldita. 250 palavras gastas com prevenções.

Aqui há alguns anos eu dei aulas partilhadas com Jaime Gama sobre “relações internacionais” no ensino superior. Nos dias de exames, verifiquei que muitos alunos corriam à secretaria para obter um adiamento, “porque fazia muitas perguntas difíceis”. Tentei perceber quais eram as “perguntas difíceis” e de onde vinha o medo. Consegui identificar a origem num exame em que o tema que o aluno estava a expor eram os eventos da Revolta Húngara de 1956, que ele conhecia minimamente. De repente, suspeitei de algo estranho e perguntei-lhe esta simples coisa: onde é que é a Hungria. Pânico, e completa ignorância onde era a Hungria, onde estava o Danúbio, e após tentativas e erros a Hungria ficava para os lados do Cazaquistão. Comecei então a fazer perguntas deste tipo e estas eram as “perguntas difíceis”.


Daumier DR

Tratava-se de estudantes do ensino superior prestes a acabar a licenciatura. Mas, andando para trás e para a frente, tenho as mais sérias dúvidas que seja possível hoje ler a grande maioria da grande literatura portuguesa, Camões, Camilo, Eça, por exemplo, mesmo que, no caso de Eça, seja um dos raros autores ainda presente numa lista de leituras em grande parte jornalística. Em linhas gerais, a parte narrativa de alguns livros que ainda sobrevivem talvez subsista, mas duas grandes fontes da nossa cultura ocidental desapareceram do saber circulante: a Bíblia e a cultura greco-latina. Ora, duvido muito que textos literários que falam como quem respira de Orfeu, Sísifo, David, Golias, da Guerra do Peloponeso, de Marte, de Salomão, do Bom Samaritano, de Péricles, da “voz clamando no deserto”, de Abraão, de Ulisses, do Cavalo de Tróia, de Homero, mesmo de Caim e Abel, de César Augusto, de Esparta, do Hades, de Diana, a caçadora, de Herodes, etc., etc., hoje signifiquem alguma coisa. O mesmo para muitas lendas, metáforas, ditos, alcunhas, etc.

O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa de uma espécie de psicologia barata. E tem um público jovem

É importante saber-se isto? Claro que é, por uma razão muito simples: é que não se sabendo é-se mais pobre da cabeça, até porque com esta ignorância vem um pacote de um mundo mais desértico. Há excepções, como é óbvio, mas as excepções não contam. O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa de uma espécie de psicologia barata, e não é por acaso que uso esta comparação porque um dos alicerces desta ignorância agressiva é mesmo esse tipo de conversa, que vai muito para além da Casa e dos comentadores em estúdio. Ele estende-se aos/às influencers e ao mundo das redes do Chega, raiva, ressentimento, sentimentalismo barato, pseudodepressões, “bocas”, erros de ortografia, escasso vocabulário, e muita, muita ignorância. E tem um público jovem.


O mundo não está brilhante, porque este tipo de gente é particularmente fácil de manipular.

O autor é colunista do PÚBLICO



 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

António Guerreiro - A política da leitura


* António Guerreiro 

O mais conhecido imperativo da leitura, que ao longo de quase dois séculos garantiu o prestígio do livro e lhe conferiu o valor de instrumento essencial da socialização da cultura e da criação de um espaço público racional, é aquele formulado por Kant, quando respondeu, em 1784, à pergunta que lhe foi feita por uma publicação mensal de Berlim. “O que é o Iluminismo?”. Na sua resposta, Kant definia o Iluminismo como a “saída do estado de menoridade”, tornada possível através da leitura, isto é, através da formação de uma comunidade de leitores que, eles e só eles, estariam aptos ao livre exercício público da razão. Ainda hoje não podemos dizer que este ideal kantiano esteja completamente extinto. Mas já não tem a mesma força de outrora.

A leitura era, por definição, a leitura de livros. No nosso tempo, a alfabetização universalizou-se, a leitura tornou-se uma competência generalizada, mas o monopólio do livro e do texto impresso já não existe. Quem foi acompanhando esta progressiva perda de exclusividade move-se ainda entre dois mundos e é levado constantemente a fazer comparações. E o mais certo é não ter sequer consciência de como a leitura de um livro é, hoje, para muita gente, um acto anacrónico, anti-democrático, sem qualquer força de atracção para quem se habituou a tudo o que é interactivo.

Num livro recente, Pouvoirs de la lecture. De Platon au livre électronique, o filósofo e musicólogo francês Peter Szendy, professor numa universidade norte-americana, começa por se referir a esse imperativo da leitura e conta como se sentiu espantado por uma série de decisões judiciais que prescreviam a leitura como pena a cumprir pelo réu. A primeira história que ele conta, leu-a no Courrier international em Julho de 2009 e tinha como título Pior do que a prisão, a leitura. Tratava-se aí da condenação de um cidadão turco, condenado por um tribunal do seu país a quinze dias de prisão, uma pena comutada em obrigação de ler uma hora e meia por dia, sob vigilância policial, durante alguns meses.

Quando um jornal local perguntou ao indivíduo sentenciado como é que ele sentiu a sua entrada, pela primeira vez, na biblioteca, ele descreveu a pena como um castigo atroz: “No início era terrível. Tinha a impressão de que me torturavam e de que todos os habitantes da cidade me observavam e se riam de mim”. O jornalista quis saber que livros leu e se os leu verdadeiramente. Resposta: “Comecei por um livro sobre os escritores turcos. Li também a biografia de Atatürk. Eram livros volumosos. Levei um mês inteiro a lê-los. Na verdade, fazia de conta, a única coisa que fazia era virar as páginas. Mas quando me disseram que o juiz me interrogaria sobre o conteúdo, comecei a ler verdadeiramente. Não desejo isto a ninguém, nem mesmo ao pior inimigo”.

Perante este testemunho espantoso, Peter Szendy confessa que não tinha nenhum meio para verificar se o relato era verdadeiro, mas alguns anos depois leu duas outras histórias semelhantes que ilustravam também formas de penalização através do livros: uma no Guardian, que contava que um juiz do Estado de Virginia tinha condenado uns adolescentes, que vandalizaram túmulos inscrevendo neles a cruz gamada, a ler 35 livros, de autores como Hannah Arendt e Elie Wiesel; outra, no Corriere della Sera, que relatava um caso que envolvia prostituição e violência. Neste caso, o réu foi sentenciado a indemnizar a vítima através de um conjunto de livros escritos por mulheres.

A outra face dos imperativos da leitura é o da interdição de ler certos livros, a história da censura. Uma e outra desempenham papéis complementares e solidários neste imperativo categórico que Peter Szendi encontra logo em Platão. Quem hoje é induzido a reflectir sobre o livro e a leitura deverá saber que ninguém se pode eximir a uma política da leitura, por mais inócuo que nos pareça o acto de ler.

sábado, 6 de março de 2021

Adriano Miranda - 100 anos sem perder um dia

* Adriano Miranda 

OPINIÃO -  

Portugal é um país de sorte por ter na sua família política um partido assim, feito de portugueses lutadores e abnegados.

Pelo gradeamento do Jardim da Estrela vi corpos nus deitados na pedra no hospital militar. Era criança. A minha mãe colocou a palma da sua mão sobre os meus olhos. O meu pai ficou por breves minutos agarrado ao gradeamento. Não fiz perguntas, e durante muito tempo aquela imagem assaltou os meus pensamentos na escuridão do meu quarto. Era uma criança feliz. Com uma família aparentemente normal. Julgava eu. Até ao dia em que a telefonia não se desligava e se falava baixinho num nervoso contido. Não fui à escola. Depois, vieram os abraços, o champanhe, a alegria, os novos amigos e as novas palavras. Na curiosidade dos meus oito anos, andei às cavalitas do meu tio para ver a multidão. Liberdade, fim à guerra, democracia, socialismo. E uma bandeira vermelha com uma estrela, uma foice e um martelo.

Chegou depois a hora de perceber porque nunca conheci o meu avô paterno. Foi assassinado pela ditadura. De descobrir porque o meu tio José foi preso — tinha uma tipografia clandestina. O porquê de o meu avô materno não querer que eu mexesse nos embrulhos de papel pardo — eram propaganda clandestina. De sentir homens a sair de casa de madrugada — eram camaradas. E de perceber que corpos eram aqueles deitados na pedra fria. Sentir o aconchego quente dos braços da minha mãe — filho, já não vais para a guerra.


Cresci no Partido. Rodeado de amigos. De talentos. Tanta e tanta coisa boa vivi e aprendi. Principalmente a tenacidade e a audácia. E a solidariedade. Guardo na minha memória e nas minhas convicções, homens e mulheres combativos e íntegros. Guardo o Samy que me ensinou a desenhar. Guardo o Marco que me ensinou francês. Guardo o Tó Zé que se fez pescador e por eles lutou. Guardo o Albino que sempre lutou pelos agricultores. Guardo o João Pereira que só abandonou as fábricas na hora da sua morte. Guardo a Arinda que sempre me viu quando alguma dor me inquietava. Guardo a Eurídice que sempre me visitou no hospital enquanto os pulmões recuperavam. Guardo o António e as viagens loucas na sua Jawa. Guardo o Vasco pela amizade. Guardo o Vidal pela sua combatividade. Guardo tantos e tantas. Gente de coração grande de utopia e realidade.


Vi depois gente a sair que nunca devia ter saído. Vi laivos de falta de democracia interna. Vi também desalento. Vi cristalização no discurso. Mas vi também que um comunista português é coisa ímpar no mundo. Contra ventos e marés, não se desvia um milímetro que seja, na luta em prol dos mais desfavorecidos. E curioso — sabem bem os comunistas portugueses que muitos desses desfavorecidos nunca transformarão o seu voto em agradecimento. É desproporcional a força dos comunistas na sociedade e nas urnas. Mas os comunistas portugueses não se cansam. Dou por mim a pensar de onde vem tanta energia.

São 100 anos de energia. Sem ter encerrado para balanço um dia que seja. Uma vida cheia. Cheia de erros e contradições. Cheia de virtudes e conquistas. Uma história que atravessa os maiores tumultos mundiais e as maiores conquistas civilizacionais. E Portugal é um país de sorte por ter na sua família política um partido assim, feito de portugueses lutadores e abnegados.

No Jardim da Estrela já não se avistam os corpos frios. Há muito tempo. Para todo o sempre. No Jardim da Estrela já não se fala à surdina. No Jardim da Estrela já não se trocam senhas clandestinas. No Jardim da Estrela sente-se a liberdade pela manhã. A manhã de um país livre e democrático. E os comunistas portugueses, entre outros, foram os seus obreiros. E continuam a ser. Como sempre. Sem fechar para balanço.

6 de Março de 2021, 6:32

tp.ocilbup@adnarima


https://www.publico.pt/2021/03/06/politica/opiniao/100-anos-perder-dia-1953215


sábado, 21 de novembro de 2015

Miguel Esteves Cardoso - como brincar e escrever sem ter trabalho



O GATO DAS BOTAS

Textos automáticos produzidos sem dor num telemóvel perto de si: como brincar e escrever sem ter trabalho

A primeira parte da minha adolescência foi passada sob a influência gloriosamente alegre e nefasta do surrealismo. A escrita automática, tal como a escrita indecifrável e os cadáveres esquisitos, eram maneiras de começar a escrever sem grandes problemas.

Depois de anos a lutar contra os editores de texto que adivinham (sempre mal) as palavras que vamos escrever, decidi ceder. Usando o QuickType do iOS 9 no iPhone (ou qualquer outro previsor de texto), descobri que é facílimo escrever prosa automática, simultaneamente pretensiosa e enganadora, sem um único pensamento original ou rasgo de imaginação.

As regras do jogo são simples: escreve-se uma palavra qualquer capaz de começar uma frase e, a partir daí, tem de se escolher uma das propostas que surgem. A única intervenção permitida é pôr pontos finais e começar outra frase. Não podia ser mais preguiçosa, divertida, surpreendente e automática esta brincadeira.

Eis alguns exemplos cuidadosamente escolhidos. Nenhum texto sofreu a mais pequena modificação.

O nome da pessoa
Fugiu de casa para alugar um filme sobre os outros. Eu não sei o que é a primeira vez na vida real de cada um.É uma questão que eu não vou deixar.
Eu sei disso porque não tenho nada a ver com a pessoa que eu tenho que parar de ser.
Não tenho mais orgulho do que a minha mãe.
Não tenho mais orgulho e preconceito e discriminação em geral.
Eu sei o nome da pessoa com quem nasceu primeiro o ovo.
Um amor para o dia inteiro
É um amor para o dia inteiro.
É um amor para o que eu vou deixar.
É um amor que eu não sei se é.
É um amor de verdade.
É um amor para os outros.
É um amor para o que é a primeira coisa.
É uma coisa que não é um amor.
Não é um amor que eu vou deixar de ter.
É o mais rápido possível e que a vida de uma pessoa muito especial do júri popular em que eu vou ter de me arrumar umas horas depois do almoço comemorativo, que não tem a ver com outra mulher de verdade.

O cérebro comido
Comeu-te o dia inteiro e não é um dos melhores filmes de terror.
É o que é um dos meus sonhos de amor que não é o mais rápido que a minha opinião sobre canibais.

Declaração de direitos
Não sei o que é um bom lugar para se ter uma ideia. É um dossier de um ano que eu não sei onde está.
É uma questão de tempo para se sentir falta do teu lado. Não tenho nada contra a corrupção e abuso do poder.
Eu sei que não se trata de um dos meus sonhos de consumo cantar o hino nacional da serra eléctrica no Twitter.
É uma coisa muito séria e o pior é que o tempo de verdade é um dos maiores.
É uma das minhas edições da revista da associação nacional dos bispos e pastores.
E a gente não tem a sua vida.
Não tenho nada a ver com o seu nome na lista dos melhores.
É uma das minhas amigas, que o governo federal em São João da vida é assim mesmo. Não tenho mais de mil milhões de euros por dia e a sua opinião sobre o assunto é muito mais do que eu não ser suspensa por igualdade de direitos humanos.

Coisas por saber
É uma questão que se faz com a sua voz da América e eu sou a única coisa que não é um amor para recordar.
Não sei o que é uma coisa muito importante.
Eu não tenho nada a ver com o tempo.
É o que eu tenho.
Eu não sei se o mundo é esse que ninguém sabe.
É um bom lugar para se ter um dia.
Eu não vou deixar o tempo que não tem nada de bom e o que é a primeira coisa que me ama.

Como hei-de viver
Viverei sem o teu pai e mãe. É uma questão de opinião pública para debater com os outros. Não tenho nada contra a parede da minha casa. É um amor que não se pode ver. Eu publiquei uma nova versão de estúdio da banda de reggae e toda a minha cara de um vídeo que mostra o quanto eu te amo.

Claro que as palavras propostas não são inteiramente aleatórias: dependem do que cada um costuma escrever. É isso que torna os textos — tal como acontecia com os surrealistas — embaraçosamente pessoais.

Quase como se tivessem sido escritos como deve ser....

http://lifestyle.publico.pt/artigos/355472_textos-automaticos-produzidos-sem-dor-num-telemovel-perto-de-si-como-brincar-e-escrever-sem-ter-trab