domingo, 28 de junho de 2020

Sidónio Muralha - Soneto Imperfeito da Caminhada Perfeita



* Sidónio Muralha

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar,
ninguém teme as mordaças e as algemas.
- O braço que bate há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Pedro Cardim Para uma visão mais informada e plural do padre António Vieira

* Pedro Cardim

25.06.2020 às 9h30

A estátua de Vieira retrata de uma forma caricatural a colonização portuguesa na América e o papel desempenhado pelo jesuíta, em especial no que respeita aos ameríndios. Aqueles que se revêem nesta estátua demonstram ignorar grande parte da investigação mais recente sobre o tema

Omonumento em honra do padre António Vieira, erigido em Lisboa defronte da igreja de São Roque, não faz jus à sua figura. Vieira merecia ser recordado por uma intervenção artística que desse melhor conta da riqueza da sua obra e da complexidade da sua vida.

Antes de mais, porque representar António Vieira segurando numa cruz e rodeado de crianças indígenas é uma forma caricatural de retratar o Brasil colonial e a ação que Vieira nele desempenhou, em especial no que respeita às populações ameríndias. A estátua nada diz sobre o que realmente se passou ali a partir de 1500. Desembarcados na América do Sul, os portugueses levaram a cabo uma "conquista", ou seja, a apropriação – frequentemente violenta – de terras que eram dos povos autóctones.

Depois de consolidarem o seu domínio sobre as primeiras parcelas de terra, as autoridades portuguesas, seculares e religiosas, definiram a forma como iriam lidar com os autóctones da América. Quanto aos indígenas que foram submetidos pelos portugueses, as autoridades coloniais trataram-nos como miserabile personae, como uma espécie de crianças ou de pessoas desprovidas de autonomia e de autossuficiência. Foram vistos como seres que careciam da tutela dos colonizadores, acabando por ser reduzidos a uma condição de menoridade, cívica, jurídica e política. No que respeita aos muitos povos indígenas que viviam nas vastas áreas que escapavam ao controlo dos conquistadores e que contra eles resistiam, foram encarados como "selvagens", "rebeldes" e inimigos.

Foi com base na ideia de que os indígenas eram miserabile personae que se conformou o relacionamento entre os colonizadores e as populações autóctones que não foram consideradas inimigas. A esses indígenas foi dada a possibilidade de entrarem na sociedade colonial, mas impôs-se-lhes como condição a sua subordinação aos portugueses e a sua submissão a um intenso processo de conversão ao catolicismo.

António Vieira é produto desta maneira de entender os povos ameríndios e identifica-se plenamente com ela. À semelhança do que vários missionários antes dele tinham feito, Vieira também promoveu a deslocação maciça de comunidades indígenas e a sua concentração em aldeias situadas nas proximidades das zonas de colonização, aldeias essas administradas pelos próprios jesuítas e por outras ordens religiosas.

E para que é que serviam essas aldeias? Serviam, antes de mais, para impor aos indígenas, muitas vezes com violência, o modo de vida português e a religião católica. Além disso, o sistema das aldeias impunha aos "índios aldeados" um regime de trabalho obrigatório. Tanto os jesuítas, quanto os colonos que viviam nas redondezas serviam-se dos "índios aldeados", empregando-os quase sempre nas ocupações mais aviltantes como trabalhadores forçados. Quando eram pagos, os indígenas recebiam um salário em geral miserável. Um exemplo: em 1654 Vieira estabeleceu um acordo com o governador e as câmaras do Maranhão para regulamentar o trabalho compulsório dos "índios aldeados". Segundo esse acordo, os índios realizariam seis meses de serviço por ano nas propriedades dos moradores e receberiam, em troca, pouco mais de dois metros de pano por mês...

A par do trabalho pago desta forma miserável, os índios concentrados nas aldeias foram também frequentemente mobilizados contra os inimigos dos portugueses, como os holandeses ou os franceses. Além disso, os colonos também os utilizaram na luta quer contra os escravos negros que fugiam das zonas coloniais e que se concentravam em quilombos, quer contra os demais povos indígenas que resistiam contra a colonização. Para os portugueses a guerra fazia parte do quotidiano colonial, não só para conquista de mais terras, mas também para a captura de indígenas e sua conversão em escravos ou em trabalhadores forçados.

A estátua nada diz sobre isto e tão-pouco mostra que, para além de serem submetidos ao trabalho forçado, havia muitos indígenas escravizados. Convém lembrar que, para as autoridades portuguesas, a escravização de ameríndios continuou a ser legal até à segunda metade do século XVIII. Para Vieira, como para os demais jesuítas (com poucas divergências internas), a escravidão de índios e, também, de negros era aceitável desde que fossem respeitados os títulos de escravização reconhecidos como legítimos (guerra justa, comutação da pena de morte, extrema necessidade e condição do ventre materno).

Numa sociedade marcada por uma forte discriminação racial, os índios eram relegados para um dos seus escalões mais baixos. Ou seja, os indígenas cristianizados que conseguiam sair das aldeias ou livrar-se da escravidão, quando iam viver entre os portugueses só se conseguiam empregar em atividades desprestigiantes e mal pagas, ficando praticamente privados de qualquer hipótese de ascensão social. A mestiçagem estava presente, mas costumava ser ativamente escondida por todos os mestiços que tinham a ambição de ascender socialmente.

Não há dúvida de que, ao longo da sua vida, Vieira se destacou na defesa de certos povos indígenas e denunciou alguns abusos dos colonos. Contudo, é preciso notar que tais denúncias foram quase sempre uma boa ocasião – política – para Vieira reivindicar que, na relação entre colonos e indígenas, a tutora e a intermediária privilegiada, ou mesmo exclusiva, deveria ser a Companhia de Jesus, a ordem à qual ele pertencia.

A par disso, não se pode esquecer que, em vários momentos, o mesmo Vieira apelou às forças portuguesas para que atacassem e submetessem, por vezes com muita violência, os ameríndios que resistiam à invasão das suas terras, ou que recusavam o catolicismo. Aliás, e à semelhança dos seus contemporâneos, Vieira usou termos como "gentio bárbaro" ou "selvagem" para denominar os indígenas que continuavam a resistir contra os portugueses. Tais palavras, como se sabe, estavam carregadas de preconceitos a respeito dos seres humanos assim designados.

Tudo isto é factual, baseia-se na documentação existente e está plenamente demonstrado pelos estudos dos últimos trinta anos. No entanto, a escultura que pretende homenagear Vieira é completamente omissa a respeito destes factos. Ela reflete, acima de tudo, uma visão benigna da colonização portuguesa das terras sul americanas e da relação com as suas populações autóctones. Para além de nada dizer sobre estes temas, o monumento a Vieira tem também o condão de ocultar a resposta dada pelos indígenas à agressão portuguesa. Apresenta os índios como seres passivos, uma espécie de crianças que nem sequer eram capazes de se defender, carecendo de um português para os proteger. Nada mais distante da realidade. Ao longo dos trezentos anos de colonização os indígenas defenderam-se de um modo inteligente e encarniçado. A resistência – armada, e não só – dos ameríndios contra os portugueses foi muito mais eficaz do que habitualmente se pensa, e foi precisamente graças a ela que muitos desses povos conseguiram manter os colonizadores fora das suas terras durante toda a dominação portuguesa no Brasil. Além disso, muitas mulheres e homens indígenas rapidamente aprenderam a utilizar os recursos trazidos pelos portugueses a fim de com eles alcançar a liberdade ou resistir contra a opressão colonial.

Para quem estuda a história da colonização portuguesa em terras americanas, nada disto é novidade. O alcance e os limites da ação de Vieira relativamente aos indígenas são bem conhecidos, e o mesmo se poderia dizer da sua posição sobre a escravização de africanos subsaarianos. A sua concordância com a escravidão de afrodescendentes não difere daquilo que era a opinião corrente na época. Vieira não era contrário ao sistema esclavagista, defendia-o na medida em que, do seu ponto de vista, ele permitia o trânsito de pessoas pagãs para terras cristãs e, subsequentemente, a sua suposta salvação, mas sempre sob a autoridade dos seus proprietários.

As suas críticas à violência com que os senhores de escravos tratavam as pessoas escravizadas não diferem muito do que várias pessoas há muito diziam, tanto no Brasil como na América espanhola. Mas havia quem, naquele mesmo período, e ao contrário de Vieira, condenasse a escravatura. Vários dos jesuítas com os quais Vieira entrou em conflito no final da sua vida fizeram muito mais do que ele para melhorar a condição dos afrodescendentes escravizados. O mesmo se pode dizer de alguns franciscanos e, também, de capuchinhos em missão pelas Caraíbas e pela América do Sul. Comparados com estes, Vieira não se distinguiu na defesa dos afrodescendentes escravizados. Por exemplo, ao contrário de outros, não se destacou no apoio à sua importante luta para terem acesso ao sacramento do matrimónio. Foi sempre fiel à ideia de que os escravizados deveriam aceitar submissamente o cativeiro em troca da liberdade das suas almas.

Compreende-se, pois, que Vieira se tenha oposto tenazmente à cristianização dos habitantes do quilombo de Palmares. Alegou que tal equivalia reconhecer a existência dessa comunidade "rebelde" que estava há anos a resistir contra a dominação colonial portuguesa. Com esta atitude Vieira visava, acima de tudo, castigar os que pegavam em armas contra a ordem colonial e não dar esperança aos escravizados de que poderiam alcançar, pela luta, a liberdade. Para Vieira, a liberdade não devia ser conquistada pelas armas, mas sim eventualmente concedida pelos senhores.

Tudo isto são factos conhecidos, e não propriamente um julgamento acusatório de António Vieira, figura que, aliás, sempre me interessou como objeto de investigação. O jesuíta tem sido muito estudado e tem de continuar a ser estudado, pois é uma figura com uma trajetória riquíssima e, em alguns aspetos, única. No entanto, sou contra o uso abusivo de António Vieira como um "defensor dos direitos humanos". Essa ideia, lamentavelmente inscrita na placa que acompanha a estátua que foi erigida em Lisboa em 2017, está completamente desfasada dos quadros mentais da época de Vieira. Também não me parece que se deva retratar o jesuíta como um protetor desinteressado dos índios, uma espécie de Bartolomé de las Casas português, forma de dizer que, no fundo, o colonialismo português não era assim tão mau... Vieira estava ao serviço de um projeto de colonização que visava submeter o maior número possível de indígenas e mantê-los em situação de menoridade e sob a tutela da Companhia de Jesus. Quanto à ordem colonial e esclavagista que, no Brasil, foi criada pelos portugueses e doutrinalmente sancionada pela Igreja, não era nada aprazível para os índios e, muito menos, para os afrodescendentes. Vieira jamais teve como finalidade alterá-la de uma forma substantiva.

Durante demasiado tempo, sob a ditadura de Salazar e não só, vários historiadores portugueses esqueceram estes e outros factos, insistindo numa imagem fundamentalmente benigna da colonização portuguesa, no Brasil e em outros continentes. Hoje, felizmente, a situação mudou. Muitos dos que se ocupam do passado colonial português defendem uma abordagem mais rigorosa e mais bem fundamentada. E percebem, para além disso, que pior do que não falar sobre esse passado é substituí-lo por uma narrativa apologética do colonialismo português, ou por uma comemoração simplista e caricatural de figuras como o padre António Vieira.

A estátua que me levou a escrever este texto foi erigida em Lisboa há escassos três anos, e não propriamente no século XIX ou sob o Estado Novo. Há alguns dias o atual presidente da câmara lisboeta reiterou que se revia na estátua porque esta mostrava que Vieira tinha uma "dimensão humanista e de tolerância num tempo em que isso não era de todo regra". Nessa ocasião, voltou a anunciar a criação de um "Museu da Descoberta", qualificando de "gratuita" toda a polémica gerada por este seu projeto. Mais ou menos pela mesma altura, o mayor de Londres anunciava que iria promover um debate aberto, informado e plural sobre a presença, na cidade, das marcas do império britânico. Em Portugal esta atitude mais crítica sobre o passado colonial já existe em vários sectores da sociedade. Seria importante que chegasse às autoridades políticas e religiosas, bem como à sociedade civil. E seria também importante que uma análise crítica de figuras como o padre Vieira deixasse de ser vista como antipatriótica. A finalidade destas análises é contribuir para uma sociedade melhor, assente numa relação com o passado mais informada, mais plural e mais justa.

https://expresso.pt/opiniao/2020-06-25-Para-uma-visao-mais-informada-e-plural-do-padre-Antonio-Vieira

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Sidónio Muralha - Raízes



* Sidónio Muralha


'São canta Amália Rodrigues'
Velhas pedras que pisei
saiam da vossa mudez
venham dizer o que sei
venham falar português
sejam duras como a lei
e puras como a nudez.

Minha lágrima salgada
caíu no lenço da vida
foi lembrança naufragada
e para sempre perdida
foi vaga despedaçada
contra o cais da despedida.

Visitei tantos países
conheci tanto luar
nos olhos dos infelizes
e porque me hei-de gastar?
vou ao fundo das raízes
e hei-de gastar-me a cantar.

Música: Henrique Lourenço
Letra: Sidónio Muralha

segunda-feira, 22 de junho de 2020

José Gameiro - A vidente e a pandemia


DIÁRIO DE
UM PSIQUIATRA


* José Gameiro 

Ao longo desta pandemia tenho-me lembrado muito desta história

Há muitos anos tive uma doente que era vidente. Acompanhava pessoas que a procuravam com os mais variados problemas da vida. Dava-lhes apoio, tinha uma capacidade empática fora de vulgar, mas também, um bom senso notável. Cada vez que se apercebia que quem a procurava tinha sérios problemas mentais encaminhava para um psiquiatra ou psicólogo.

Recebi vários doentes que me referenciava e eram sempre situações clínicas complexas ou que poderiam tornar-se graves sem tratamento. Um dia foi ela que me procurou. Estava triste, cansada, tinha parado a sua atividade, disse-me que não conseguia ajudar as pessoas. “Sabe o que mais me custa, quando estou exausta? Prever o futuro.” Dei-lhe uma resposta de bom senso: “Mas ninguém consegue prever o futuro...”

Explicou-me que estava completamente enganado. “Claro que não acerto completamente, mas frequentemente fico lá perto.” Como é que consegue isso, perguntei. “É muito simples, as minhas previsões condicionam parcialmente as atitudes da pessoa. Se eu lhe digo, por exemplo, que vai conhecer um príncipe encantado, ela fica mais predisposta a que isso aconteça.” Fiquei por aqui e não lhe perguntei nada acerca do meu futuro... Ao longo da pandemia tenho-me lembrado muito desta história. Será possível prevenir o futuro, condicionando-o?

Se quisermos pensar no que nos aconteceu, sem recorrer a raciocínios epidemiológicos, feitos com a melhor das boas vontades, mas com uma alta dose de aleatório, temos uma forma mais simples de o fazer. Ao confinarmos uma grande parte da população, tentámos condicionar o futuro. Mas será possível que uma tão grave decisão política tivesse sido tomada utilizando a mesma ‘epistemologia’ de uma vidente?

Imaginemos que não queremos encontrar alguém, que temos a certeza de que nos irá fazer mal. Naturalmente, evitamos todos os caminhos, situações, contextos em que a probabilidade de encontro seja a mais próxima possível do zero. Mas, no limite, a única forma segura de o fazer é não sairmos de casa e não deixar ninguém lá entrar. Os que tentaram fazer de forma diferente, talvez numa atitude de indiferença perante o perigo — vamo-nos encontrar tantas vezes que acabamos por criar defesas —, ‘espalharam-se’. Os exemplos não faltam, Reino Unido, Suécia, Suíça foram alguns dos países com taxas de letalidade muito mais altas do que nós. Estes países optaram por pensar que sabiam. Utilizaram o conhecimento de outros vírus e aplicaram-no cegamente. Uns persistiram no erro, outros arrepiaram caminho, mas já era tarde.

Agora, passados mais de três meses, é fácil dizer que a estratégia da vidente, foi boa mas não suficiente. Se alguém, responsável, se tivesse lembrado dos lares e não tivessem metido os pés pelas mãos, com a obrigatoriedade de usar máscara, os resultados teriam sido melhores. Desde cedo que se soube que o maior risco é a idade, variável, cada vez mais evidente, mas por razões que me escapam (constitucionais, discriminatórias?), os mais velhos foram pouco protegidos. Ou seja, com o tempo, a epistemologia da vidente foi sendo afinada. Quando se soube que só cerca de 10% dos infetados o tinham sido em contexto social, cerca de 35% tinham sido infetados nos lares e que a taxa de mortalidade dos mais de 70 anos é de cerca de 17% foi possível estratificar melhor o risco.

Tivemos a sorte e o saber de não deixar passar muito tempo, entre afirmar que seria uma situação semelhante à da gripe e perceber que não percebíamos quase nada do que estava a acontecer. Tal como a vidente que ganha a sua vida a prever o imprevisível, mas que tenta condicionar o futuro, nós fechámos as portas e pusemos uma pancarta a dizer: “Não entras.”

Talvez esta pandemia nos faça mais humildes e nos leve a aceitar melhor que percebemos muito pouco do que se está a passar. Mas a incerteza não é muito popular. Uma boa e dramática lição de vida.

domingo, 21 de junho de 2020

Quadras em torno do "malmequer"


 Malmequer, por Mariza, os versos que prefiro
(Aldina Duarte / Popular )

Mal me quer a solidão
Bem me quer a tempestade
Mal me quer a ilusão
Bem me quer a liberdade

Mal me quer a voz vazia
Bem me quer o corpo quente
Mal me quer a alma fria
Bem me quer o sol nascente

Mal me quer a casa escura
Bem me quer o céu aberto
Bem me quer o mar incerto
Mal me quer…



Malmequer Pequenino, por Amália Rodrigues
(Popular / Nuno da Camara Pereira / João de Noronha)

O malmequer pequenino
disse um dia à linda rosa
por te chamarem rainha
não sejas tão orgulhosa

Papoilas que o vento agita
não me canso de vos ver
há lá coisa mais bonita
que ser simples sem saber

Por te amar perdi a Deus
por teu amor me perdi
agora vejo-me só
sem Deus sem amor sem ti

Aquela mulher pecou
por amor se fez fadista
tão longe o fado a levou
que Deus a perdeu de vista.


Malmequer (mentiroso), por Amália Rodrigues
(popular)

Oh, malmequer mentiroso!
Quem te ensinou a mentir?
Tu dizes que me quer bem
Quem de mim anda a fugir!

Desfolhei o malmequer
No lindo jardim de Santarém!
Malmequer, bem-me-quer,
Muito longe está quem me quer bem!

Um malmequer pequenino
Disse um dia à linda rosa:
Por te chamarem rainha,
não sejas tão orgulhosa!

Malmequer não é constante,
Malmequer muito varia!
Vinte folhas dizem morte
Treze dizem alegria!


quinta-feira, 18 de junho de 2020

Carlos de Oliveira - (poema 45″)

Carlos de Oliveira
 
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira
in ‘Mãe Pobre’

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Herberto Helder Sobre um poema

*  Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Sidónio Muralha - Amantes separados



* Sidónio Muralha

Como num búzio
O mar repete essa balada
Numa canção
Feita de sonho e ansiedade
Meu coração
Repete a história apaixonada
Duma presença que se fez
Longe, saudade

A vida quis que fosse assim
Nosso destino
No grande amor que quis
Vencer os vendavais
A vida quis que fosse assim
Nosso destino
Onda quebrada contra a praia
E nada mais

E a vida passa
Como os versos que escrevemos
E as promessas que fizemos
No dia da despedida
E a vida passa
Passam os dias rasgados
Tudo passa e passa a vida
Dos amantes separados
Sidónio Muralha / António Mestre

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Sophia de Mello Breyner - Em todos os jardins

* Sophia de Mello Breyner

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Gonçalo M. Tavares - O livro

* Gonçalo M. Tavares

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do
jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho,
o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Maria Teresa Horta - Morrer de amor

* Maria Teresa Horta

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso.

sábado, 30 de maio de 2020

José Luís Peixoto - na hora de pôr a mesa, éramos cinco

* José Luís Peixoto

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

domingo, 24 de maio de 2020

Maria Velho da Costa - Esta lei

* Maria Velho da Costa


Ainda que não houvéssemos feito
mais nada desde o século XVI,
erigimos este corpo de leis
invulgarmente justas e certas,
em nome da vontade popular.
A lei democraticamente escrita
pelos representantes legítimos de um povo
e o rosto que esse povo levanta
perante as outras nações.
Resplandecente de esperança e dignidade,
esta lei há-de fazer-nos maiores
do que somos na adversidade e dependência,
porque os homens são construídos ou destruídos
pelas leis que os obrigam e abrigam.
Esta é uma Constituição aventurosa,
projecto de vida certa
deste povo para este povo.
Estes são os novos mandamentos
a que ater-nos durante a longa travessia
até à justiça de todas as leis do mundo.
Mais uma vez chegamos primeiro,
acaso sem ter com quê.
Mas destruir estas tábuas seria
destruir algo daquilo em que sempre
fomos grandes – a capacidade de inscrever
o sonho realizável
na memória e no assombro dos outros povos.


Março, 1978
Vértice 59

sexta-feira, 22 de maio de 2020

António Guerreiro - Mortos de riso

* António Guerreiro

Cultura-Ípsilon - CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

22 de Maio de 2020, 9:43

 A palavra “propaganda” ficou tão associada aos modos de comunicação e de doutrinação ideológica que deixou de ser utilizada tanto na sua dimensão comercial (a que chamamos hoje “publicidade”, aludindo assim à ideia de esfera pública) como no metadiscurso político em vigor nos regimes democráticos. Mas é preciso referirmo-nos ao sentido e aos processos da propaganda para termos um entendimento crítico do discurso totalitário a que temos sido submetidos.

Não discuto se ele advém de boas razões e se é legitimado por uma boa causa, ou seja, pelo sentido de perigo e de extrema precaução exigidos aos nossos gestos e comportamentos quotidianos, em nome não apenas da saúde individual, mas também — ou sobretudo — da saúde pública. O que se tornou entretanto evidente é que a resposta à reclamação de absoluta segurança (algo impossível de alcançar, mas sempre presente nos tempos actuais) foi para além dos seus fins e agora nem os governos nem todos aqueles que, nos media, substituíram a informação pela propaganda e pelo moralismo sabem como atenuar a overdose de medo inoculado à população. Ao medo do vírus, sucedeu agora o medo de que os efeitos do confinamento e de todo o discurso público que o acompanhou — sempre informado pela lógica do pior — se tenham tornado permanentes.

As medidas do governo até podem ter sido prudentes e na medida certa (é pelo menos o que nos dizem muitos epidemiologistas cujo conhecimento desta matéria foi tido em conta, sabendo-se que não há nem pode haver aqui unanimidade), mas todo o discurso que as acompanhou, particularmente exacerbado em muitos canais de televisão, tem sempre como pressuposto a menoridade intelectual dos espectadores. Os elogios públicos ao civismo dos portugueses ganhou o sentido de um auto-elogio que se podia traduzir nestes termos: “Vejam como somos eficazes e performativos, vejam como a nossa acção é importante para que população (e é de população que se trata, não de povo) seja disciplinada e obediente”.

Face a um inimigo invisível que é o vírus, assistimos a uma operação de propaganda que construiu um medo útil, mas de acção mais duradoura e em dose mais exagerada do que seria agora conveniente. Uma operação de propaganda desta dimensão, no nosso tempo, só a encontramos na reacção a um outro inimigo que também legitimou uma política do medo: o terrorismo.

Para esta propaganda total contribuiu também a publicidade. Todos reparámos certamente que os spots publicitários não desapareceram, mas foram atacados pelo vírus do pudor e do didactismo moralista, paternalista e geralmente piegas. Deixaram de dizer “compre”, “pague um e leve dois”, “X lava mais branco”, para passarem a dizer: “seja responsável”, “fique feliz em casa: carpe diem”, “o nosso automóvel é experiente em curvas, saiba como achatar esta com que estamos confrontados”, “tudo vai ficar bem com a nossa ajuda”. De maneira mais ou menos directa, a publicidade passou a só falar do vírus. Tornou-se tão insuportável como as afectações “poéticas” de alguns apresentadores dos jornais televisivos, ilustrando na perfeição a verdade enfática dos propagandistas. E foi assim que ficámos não apenas reféns do medo, mas também dos bons sentimentos, das afecções da alma. Distanciamento social? Não, o que houve foi a “partilha” em modo superlativo. Fechados em casa, mas a partilhar e a receber de todos os lados — da publicidade, do jornalismo, do discurso público dominante —  mensagens de medo e de bons sentimentos. E o medo como o melhor dos sentimentos. O que fazer agora, com todo o medo que sobra?

Há ainda as máscaras. Como usá-las? Como fazê-las em casa? Que percentagem de gotículas elas filtram? Porque é que o seu uso indevido as pode tornar perigosas? A que certificação têm que estar sujeitas? Todas estas instruções são tão necessárias como as próprias máscaras. Mas até quando aguentamos um mundo de gente mascarada? E os políticos mascarados em todas as suas frequentes aparições públicas — o que é que isso contribui para a erosão do poder político? Não sabemos ainda, mas começamos a sentir que isto não se pode prolongar por muito tempo. A catástrofe está a tornar-se uma paródia e vamos todos acabar mortos de riso.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Solimán I - poema a Roxelana

* Solimán I

Trono de mi mihrab solitario, mi bien, mi amor, mi luna.
Mi amiga más sincera, mi confidente, mi propia existencia, mi sultana, mi único amor.
La más bella de las bellas...
Mi primavera, mi amada de cara alegre, mi luz del día, mi corazón, mi hoja risueña...
Mi flor, mi dulce, mi rosa, la única que no me turba en este mundo...
Mi Estambul, mi Caraman, la tierra de mi Anatolia
Mi Badakhshan, mi Bagdad y mi Khorasan
Mi mujer de hermosos cabellos, mi amada de ceja curvada, mi amada de ojos peligrosos...
Cantaré tus virtudes siempre
Yo, el amante de corazón atormentado, Muhibbi con los ojos desbordados de lágrimas, yo soy feliz.



Con el seudónimo de Muhibbi, Solimán El Magnífico le escribió este poema a Roxelana, Haseki Hürrem Sultana

El Sultán Solimán I, conocido, como Solimán el Magnífico en el occidente, rigió entre los años 1520 y 1566.

Expandió el Imperio Otomano tanto en Europa como en el Oriente Medio. Llegó hasta conquistar territorios en África. Fue quien realizó el sitio en la capital austriaca de Viena.

Roxelana llegó como esclava. Recibió educación en el harén del sultán otomano, le dieron el nombre “Hürrem” y se hizo una de las concubinas del palacio. Sin que pasara mucho tiempo, Solimán el Magnífico se enamoró de ella y se convirtió en la favorita del sultán. En 1528 Solimán el Magnífico y Hürrem se casaron en una ceremonia majestuosa lo que la convirtió a la Sultana Hürrem en la primera “Sultana Haseki”, es decir,  la primera y única esposa legitima de sultán. Nunca antes un sultán otomano había contraído matrimonio legítimo con una mujer. Hürrem dio a luz a seis hijos.

El Sultán Solimán y la Sultana Hürrem vivieron un gran amor que se hizo leyenda. El sultán otomano incluso le escribió un poema a su querida esposa. Esto es el famoso poema que refleja el amor que sintió por ella.    


https://www.trt.net.tr/espanol/cultura-y-arte/2018/06/28/el-poema-que-soliman-el-magnifico-escribio-para-la-sultana-hurrem-1001907

(...) Meu amor de cabelos negros e belas sobrancelhas, de olhos lânguidos e traiçoeiros
cantarei sempre as tuas prendas / Eu, apaixonado de coração atormentado
Muhibbi de olhos cheios de lágrimas, estou feliz




Lifelines in World History: The Ancient World, The Medieval ...


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Filipe Chinita - o que procuro

* Filipe Chinita


o que procuro
.
(o último.primeiro texto
que de mim...
te envio)

a beleza
o belo
que há em cada ser humano
o belo e a feiura
e o como bastas vezes
se interpenetram
e um é afinal
o outro
o erotismo
o olhar.olhos nos olhos
o tecermo-nos.no enquanto (n)o outro tecemos
a fome.do corpo do outro
da 'alma'.do outro
a paixão
até ao fundo dos
fundos
o perdurável
amor
a revolução
o fim da fome e das injustiças
o fim da miséria e da miséria das mentalidades
a revolução
de um conjunto determinante de humanos
- ou de todos eles caso ainda! o apre(e)ndam em tempo útil -
capaz de (re)criar um planeta
de (novo) uno
uma nova relação
entre homem e natureza o homem e a natureza
o concreto humano e esta concreta natureza que hoje enfrentamos
fruto das muitas aleivosias/malfeitorias
que sobre ela já praticámos
procurando agora
evitar as catástrofes naturais
e antecipar na medida
do possível...
as medidas
a tomar
- só um mundo
só o vasto conjunto dos humanos
vivendo no comunismo
pode fazer
face
a tão gigantesca tarefa
cuidando do planeta
como se fora de todos
e de cada um e
não apenas
de alguns
cuidando do planeta
como se fora a nossa causa
e a nossa casa
comum
como de facto
é
frágil e única
como nós
e não!
como simples forma
de o explorar
explorando
em simultâneo a sua vida
as suas múltiplas riquezas colectivas
e os outros humanos (seres)
nossos iguais
pensando apenas
na ganância
do lucro
pensando apenas
em ser cada vez mais rico
ou mais conhecido
ou mais poderoso...
que os demais
explorando
os outros.humanos
sem os quais não há qualquer espécie de vida - privada -
qualquer hipótese de vida (em) comum –
nesta variegada natureza
neste belíssimo planeta
rolando sobre si mesmo
sem que nada... dele
extravase
este planeta.terra
esta natureza.mãe
de que somos (frágil) parte
e não senhores...
repito
.
o comunismo
será enfim
a vida!
o
início da vida
da sempre efémera vida
que só então poderá começar a ser vivida por inteiro
em inteira liberdade
por todos
e por cada um
de nós
seres vivos
vivos seres
quando
enfim formos seres
autenticamente livres e iguais
na nossa eminente
diferença
.
a vida
e a morte
que inapelável nos espera
um dia.numa hora.num instante
por vezes quando menos a esperamos
- dia a dia.instante a instante (assim) acontece -
numa esquina próxima
ou distante
a morte
que tudo determina
que tudo afinal determina
a vida de todos
e de cada
um
.
por isso
só em constante dádiva
de nós mesmos
em tudo
o que - individual e colectiva.mente -
empreendemos
deveríamos
viver
e
assim vivendo
só em comunismo deveríamos/poderíamos viver
para que retiremos de nós
retirando de todos
e de cada
um
- na máxima igualdade.de oportunidades -
as potencialidades
que nos afirmam
como seres
únicos
e
irrepetíveis
para que
preservemos o planeta
para que ele esgote
sem mais maléficas interferências humanas
todo o (seu) natural
ciclo de
vida
o nosso
.
quando um dia
aprendermos a lidar com o planeta
compreenderemos em simultâneo
que só com a lenta instauração do comunismo
em verdade o poderemos
fazer
.
ousemos salvaguardar o planeta/ousemos construir o comunismo
o mais rápido o mais consistente
o mais sustentadamente
que possamos
é.será
a mais humana das tarefas
que em vida
pode(re)mos empreender
façamo-la
então
essa construção.em união até ao céu
essa união.em construção até ao céu
.
os nossos únicos (humanos) limites
serão os do(s) próprio(s).humano(s)
e os do próprio
planeta
terra
.
fjc
julho 2010
o quasi 1º texto publicado no face
assim como quem define
propósitos

2020.05.19

terça-feira, 19 de maio de 2020

Fábio Ferreira - Á Memória de Catarina Eufémia

* Fábio Ferreira


Na cruz da inocência
grita a voz da Memória
á sombra da existência
que canta ainda uma História:

“ nestes campos de Baleizão
que são vermelhos de amor e de traição,
onde o trigo apenas mata a fome
de quem lhe rouba e lhe consome.”

Sempre no mês de Maio
uma andorinha junto das serranas vem chorar
sobre dezanove lágrimas de maio,
e o trigo que nesse dia, não se vai bulhar.

Chama aos gritos as terras do Alentejo
pelo nome que da morte se fez em pão
onde o campo, ao seu corpo deu-lhe um beijo
que foi no vento, espalhado sementes de trigo e compaixão.

A um penedo amargo, foi-lhe dado o nome de carrajola
onde junto dele, a doce Ceifeira cantava a sua fome.
Num acto de raiva e impotência, com a forma de uma pistola
o vil penedo se deu em três violentas fúria de dome.

Nos muros brancos caiados ainda se pode ouvir
a quente e justa voz, da Ceifeira do Alentejo;
onde o seu Coração nas nossas mãos se consegue sentir
e a negra andorinha trás nas suas asas aquele antigo desejo.

Poema de:

Ary dos Santos - Retrato de Catarina

* Ary dos Santos

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

José Carlos Ary dos Santos

Sophia de Mello Breyner Anderson - Catarina Eufémia

* Sophia de Mello Breyner Anderson


O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

segunda-feira, 18 de maio de 2020

sábado, 16 de maio de 2020

José Pacheco Pereira - A pandemia da ignorância a propósito do ‘marxismo cultural’

 * José Pacheco Pereira 


OPINIÃO
A pandemia da ignorância a propósito do “marxismo cultural”
Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável.
16 de Maio de 2020, 0:20

Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.

Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.

Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.

0%
Volume
Nuno Melo escreveu recentemente um artigo com o título sugestivo de “A supremacia do marxismo cultural”, que é um bom exemplo de quem não percebe nada do que está a falar. Começa com uma citação de Marx, aquilo a que ele chama a “lição” que a esquerda aprendeu:

“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.”

LER MAIS
Muito bem. A frase quer dizer exactamente o contrário do que ele pretende. Quer ele dizer que é o proletariado a “classe dominante” nos dias de hoje e que é por isso que a “força intelectual dominante” é o marxismo? Interessante, ele vai certamente explicar-me quando é que houve mudança de “força material dominante”, ou seja, quando é que houve uma revolução. Na interpretação de Marx, são escritos como o de Melo que revelam a “força intelectual dominante”, ou seja, a da burguesia.

O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda

E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.

Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria. Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.
Historiador

Clara Ferreira Alves -O espião chinês

PLUMA CAPRICHOSA
CLARA FERREIRA ALVES

A CHINA E OS SERVIÇOS SECRETOS CHINESES NUNCA ATRAÍRAM A NATA DOS ROMANCISTAS DE ESPIONAGEM. A CHINA TEM OS MAIS SECRETOS E MAIS BEM ORGANIZADOS SERVIÇOS DE INTELLIGENCE DO MUNDO

A
cabou “Segurança Nacional”. A série aguentou oito temporadas sem que a intriga tenha destrambelhado, como costuma acontecer a séries de alto risco com uma história cheia de curvas e contracurvas, escrita por dezenas de argumentistas. Vimos envelhecer as personagens e estamos muito longe da “traição” inicial, mas o final é uma descoberta, com Carrie Mathison a transformar-se em Nicholas Brody. A mancha de Rorschach desenha a simetria das duas personagens, Carrie e Brody, o nó romântico e trágico da série. Howard Gordon e Alex Gansa nunca perderam o fio à meada e controlaram o resultado.

Claro que Hollywood, como o resto das ficções de espionagem, nunca encontrou melhor inimigo e adversário do que a Rússia e a antiga União Soviética. Os árabes e muçulmanos substituíram às vezes e aguentaram o papel de inimigos secundários, no banco dos suplentes, mas tanto antes como depois do 11 de Setembro, as histórias de terroristas e dos vapores tóxicos do Médio Oriente nunca conseguiram destronar a atração do cinismo eslavo e da inquietação gerada pelo KGB, hoje GRU. Para os romances de espionagem, que ganharam a consagração durante a Guerra Fria e a Cortina de Ferro, no caldo fumegante do pós-guerra e da construção do Muro de Berlim e de Checkpoint Charlie, as intrigas e traições dos serviços secretos, com as histórias e personagens nascidas das brumas, com o jogo de espelhos, são o material de excelência.

John Le Carré, filho de Joseph Conrad e de Graham Greene, os precursores, conferiu ao género uma qualidade literária, que começa com “O Espião que Saiu do Frio”, o primeiro best-seller do autor e a matriz fundadora desta literatura na segunda metade do século XX. O romance, de 1963, apresenta-nos o espião relutante Alec Leamas, um agente britânico enviado para a Alemanha Oriental fazendo-se passar por dissidente para espalhar desinformação sobre um importante oficial da secreta comunista do lado de lá. Leamas, ao contrário de muitos espiões, tinha uma consciência. A consciência do espião, e as suas valorações axiológicas, que o fazem hesitar, duvidar, ou estar disposto a morrer antes de triunfar, é o que distingue o espião bom do espião mau. O bem do mal, se quiserem. Carrie Mathison está sempre à beira de perder a consciência, tal como o mentor Saul Berenson, mas recuperam-na no fio da navalha por onde deslizam como o caracol do coronel Kurtz.

Com a trilogia “The Quest for Karla”, “Smiley Versus Karla” em português, Le Carré atingiu a plenitude do género. A trilogia é uma obra-prima. Smiley, o chefe do MI6, joga um xadrez geoestratégico na intimidade com o homólogo Karla, chefe do KGB. Smiley é um anti-herói e Karla também, entretidos a sacrificar peões num tabuleiro onde a vida vale pouco e corre em estado líquido. Tudo em nome da pátria. O jogo é o que lhes interessa, não tanto a pátria. Smiley não joga For Queen and Country, joga para xeque-mate. Teoricamente, o jogo acaba assim, mas Smiley perde tanto como Karla quando ambos ficam soterrados na poeira dos escombros do império. São dois espiões velhos e desempregados, aposentados à força e avessos às tecnologias e às políticas da imagem. Ambos deitaram vidas a perder sem perderem o respeito um pelo outro. O mundo novo e digital do século XXI nunca os aceitaria ou compreenderia, são ambos produtos da mesma cultura fortíssima, a europeia, a da Europa que ia de São Petersburgo a Londres, passando por Praga, Viena, Paris e Berlim. Putin é um avatar deste mundo antigo e literário, na versão autocrática pós-moderna. E não é dotado de consciência, foi arregimentado pela cobiça imperial. Um czar fora de época, muito bem-sucedido porque os inimigos não estão à altura. Não se pode conceber um bom drama de espiões com medíocres atores.

As grandes centrais de espionagem romanesca foram sempre a CIA, o KGB, a Mossad, O MI6 e, tangencialmente, os serviços secretos franceses ou alemães para servirem cafés. A implacável Mossad ocupa o topo da tabela, com proezas mais militares do que de intelligence, e com uma mitologia duramente construída em paralelo com a fundação do Estado de Israel e o combate ao inimigo palestiniano. Em “A Rapariga do Tambor”, Le Carré foi seduzido pela região e as guerrilhas no deserto moral das religiões, mas não ficou muito tempo. O território dele é a Alemanha, a Inglaterra, a Rússia. Berlim, Londres, Moscovo. Afastou-se para outros continentes e regressou sempre a casa. Sozinho, John Le Carré, aliás David Cornwell, refundou o género, cristalizando na imaginação coletiva a figura do espião intelectual e indeciso sobre a pertença e identidade. Todos os espiões com consciência são espelhos do autor, refletindo a ambiguidade moral e identitária de uma condição universalista sobreposta a um nacionalismo que cria e alimenta marionetas movidas pela ambição e ganância da burocracia política e militar das nações.

A aventureira Carrie Mathison herda esta ambiguidade, característica mais inglesa do que americana. A realidade da CIA não ostenta muitas personagens como Carrie e Saul, filhos dos espiões da Guerra Fria e das operações do Médio Oriente no tempo em que se usavam luvas. E Carrie tem mais de T.E. Lawrence do que de James Jesus Angleton. Ela acaba na Rússia, desertora e traidora, a recusar going native. Na série, o apartamento de Moscovo parece-se mais com um de Manhattan do que com a modéstia dos aposentos que a Rússia reservou para os traidores ocidentais. Kim Philby vivia num cinzento prédio estalinista, encostado ao tédio e ao samovar, com um copo de whisky na mão e saudade dos prados ingleses. E não consta que Edward Snowden esteja bem instalado.

É um facto curioso que a China e os serviços secretos chineses nunca tenham atraído a nata dos romancistas de espionagem. A China tem os mais secretos e mais bem organizados serviços de intelligence do mundo, e trava uma guerra ideológica permanente com um bloco ocidental que despreza e deseja submeter. Ao contrário dos extremistas da Jihad, um bando de assassinos maltrapilhos e desorganizados, o perigo da nossa “submissão”, para usar o título do livro de Houellebecq, nunca veio daqui. Qualquer diplomata sabe que o perigo, mais do que a Rússia, é a China. Demasiado poderosa para ser confrontada. Demasiado corruptora.

O grande livro sobre a secreta chinesa tem por título “Chinese Intelligence Operations”, de Nicholas Eftimiades, a bíblia para quem queira saber alguma coisa sobre o assunto. Sobre o assunto sabe-se quase nada. Impenetrável, mais impenetrável do que a Al-Qaeda dos sauditas, a China age no segredo e na discrição milenar. Está mais ativa do que nunca, controlando a narrativa da pandemia e os danos para o país, financiando espiões e idiotas úteis, movendo as peças para capturar a rainha e dar xeque ao rei americano. Por baixo do radar, a China observa e ordena, e será a única superpotência do futuro. No entanto, raros são os escritores que se interessam por tais manobras. Nunca saberemos o que aconteceu em Wuhan, para lá da especulação. Os escritores e ficcionistas não se interessam pelo que desconhecem, nem por uma cultura referencial que lhes é estranha. A língua, os usos e costumes, os comportamentos, as paisagens. A China é o maior país do mundo e o mais bem guardado segredo do mundo.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Ficar em casa mata o amor

 Abril de Novo Magazine -  15/05/2020   Manifesto74

O primeiro de maio é um dia de esperança. Claro que vem de longa história marcada pelo sangue dos mártires anarquistas de Chicago, claro que a bandeira vermelha que depois se levantou nas mãos dos operários de todos o mundo representa também o sangue que estes têm sempre de derramar quando lutam, claro que não há história de vitória sem que milhares tenham tombado na soma de derrotas que, por vezes, a compõem.

O primeiro de maio é um dia de luta, não é um dia de protesto. Não é um dia de festa. Mas é de esperança e confiança no futuro. Não é uma celebração como quem assinala que passou mais um ano desde Haymarket, nem um desfile de memorabilia e nostalgia pelos gloriosos anos de avanço operário no sistema socialista mundial. É um dia em que os trabalhadores de todo o mundo assinalam o mundo que pretendem construir.

Haverá sempre os que, como a UGT, pretenderão fazer do primeiro de maio um dia inócuo de concertos e bifanas para a malta vir à capital na camioneta paga pelo “sindicato”. Haverá sempre os que, como os do BE, achem que o primeiro de maio só pode ser assinalado se for para fazer boa figura na comunicação social burguesa. Mas felizmente, por todo o mundo ainda há os que têm um inquebrável compromisso com a libertação daqueles que representam, com os trabalhadores.

O primeiro de maio, por ser o nosso dia de esperança, é o dia da agonia da burguesia. Agonizam as redacções dos seus jornais, das suas rádios e televisões, agonizam os seus dirigentes partidários da esquerda à direita, agonizam os comentadores, os colunistas, os reaccionários, os anticomunistas e os donos disto tudo, mesmo que cada um seja dono de um bocadinho disto tudo.

Em plena pandemia provocada pelo Sars-CoV-2, em que os trabalhadores de todo o mundo estão sujeitos a uma pressão sobre os seus postos de trabalho e mais elementares direitos, os mesmos que sempre gritaram que não havia solução nem alternativa, que tens de baixar a bolinha e que isso de primeiro de maio é demodée e coisa do passado, que o capitalismo é que é modernaço (apesar de o primeiro de maio ser mais novo que o capitalismo) juntamente com outros que sempre acharam que o primeiro de maio é só um desfile de festa para mostrar umas pinturas fixes na cara e umas fatiotas criativas com palavras de ordem tiradas da poesia de 68, vieram dizer-nos que não era o momento de ir para a rua.

O coro da classe dominante juntou-se finalmente e colocou de lado as aparentes divergências entre os partidos burgueses de esquerda e burgueses de direita. Veio tudo chamar aos dirigentes sindicais da Intersindical uns irresponsáveis. Os dirigentes da CGTP passaram a ser “portugueses de primeira” enquanto que os que não podem ir visitar a avó passaram a “portugueses de segunda”. Um coro de escandalizados pôs as mãos à cabeça e escreveu capas inteiras de jornais – porque a falta de espaço mediático é uma cena que não lhes assiste – falou nas tvs e acusou os comunistas de terem abusado. O secretário-geral do PCP passou de velhinho simpático (como ultimamente o vinham caracterizando) a vil e virulento privilegiado do estado comunista que deu livre-trânsito aos dirigentes sindicais para espalharem o caos e a desordem com um vírus chinês.

Inadmissível, dirão. Que numa altura em que nos dizem #ficaemcasa e que #vamosficartodosbem haja quem ouse mostrar que se pode animar o nosso espírito colectivo de forma combativa e igualmente responsável. Quão diferentes seriam as notícias, pelos vistos – essas sim – verdadeiras, se no dia primeiro de maio e seguintes os cabeçalhos fossem “notável organização da CGTP coloca milhares de trabalhadores na rua por um futuro melhor” ou “com os devidos cuidados, a luta da CGTP e dos trabalhadores não para”, ou ainda “obrigado CGTP, por nos mostrares que mesmo nos tempos mais escuros, podemos acender a luz da esperança”. Nenhum destes títulos seria mais propagandístico do que o permanente ataque à CGTP e à luta dos trabalhadores e seria, como agora se comprova, muito mais verdadeiro.

É que os que acusavam a CGTP de estar irresponsavelmente a espalhar o vírus devem olhar agora para os números da pandemia e reconhecer que afinal de contas, a CGTP não colocou em risco nenhum cidadão. Bem pelo contrário, a intersindical fez questão de cumprir os cuidados que nenhum patrão deste país cumpre ao amontoar trabalhadores nos transportes públicos, ao negar-lhes acesso a higiene e segurança no trabalho (não só em época de COVID) e demonstrar que não é o nosso destino acatar um “fica em casa” indiscriminado, um “vai ficar tudo bem” pateta e sorver lixo informativo dias inteiros pela TV.

Mesmo em situação de pandemia, somos seres humanos, seres eminentemente sociais e não estamos em condições de acatar um mundo em que os ricos se refugiam nos seus resorts com todos os luxos do mundo enquanto as máquinas lhes produzem tudo o que querem e nós trabalhamos em computadores através de casa para lhes garantir esses caprichos. Mesmo, ou até mais, nas situações de dificuldade é que a força dos trabalhadores não pode enconchar-se, nem recolher-se. A CGTP deu afinal de contas a prova contrário do que o coro de ofendidos queria mostrar. A CGTP não mostrou irresponsabilidade: mostrou que há outro caminho, um caminho de responsabilidade mas de esperança, de convívio, de sorrisos e de luta.

No momento em que deprimimos em casa diariamente, isolados, já quase nem um arquipélago somos, em que os de sempre e os que aparecem agora a fazer o papel dos de sempre, vêm colocar os que estão em casa contra os que vão à rua, vêm virar negros contra brancos, banhistas contra ciclistas, velhos contra novos, todos contra os ciganos e o mundo contra os chineses.

Ficar em casa mata o amor.


Enquanto perdemos tempo nesses ódios todos, escapa-se-nos quem está a instilar-nos o veneno, os que beneficiam com o nosso ódio entre irmãos: os que estão no iate, no condomínio fechado de luxo, no resort, no golf, nas mansões a puxar os cordelinhos de todos esses capatazes das redacções e dos dirigentes políticos dos partidos da burguesia.

O pânico e o ódio que lançaram, gratuitamente e sem sustentação científica, contra a CGTP, contra os dirigentes sindicais e contra os comunistas, foi baseado exclusivamente na ideia de que a central sindical estava a colocar em risco o controlo da pandemia e na ameaça de que iria causar um novo pico no surto que ainda decorre. Tendo falhado essa ameaça, tendo o terrorismo falhado porque não controlavam a bomba, resta-lhes dizer que foi tudo uma encenação terrorista e que a CGTP fez o que cabe a uma grande organização fazer: representar os seus membros e defender os seus direitos, no quadro social, político e, no caso, sanitário, existente.

Hoje, dia 15 de Maio, foram libertados os dados de novas infecções por COVID no dia 14 de Maio. Ficámos a saber que desde o dia 1 de Maio até hoje não houve qualquer pico e que está finalizado o período de incubação. Sair à rua não mata. O ódio sim.

Eles nunca vão reconhecer, mas o que a CGTP fez foi mostrar-nos que a luta é mais urgente do que nunca e que nenhum contexto, por mais duro que seja, pode impedi-la de continuar, mesmo que adaptada às exigências do momento. O que a CGTP fez foi abrir no horizonte de quem ficou em casa a certeza de que há quem lute pelos seus direitos e de que o futuro é de liberdade e de que o confinamento não pode ser pretexto para o assalto e para o fim dos direitos. O que a CGTP fez foi dizer a todos: “eis-nos dispostos a alterar todas as formas para garantir o conteúdo, para vos defender, para mostrar que o futuro a nós pertence”. A CGTP rasgou um sorriso num país triste num dia de luta.

Nós agradecemos-lhe.

*fotografia por João Porfírio



Via: Manifesto74 https://bit.ly/2X3hHSM

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Filipe Chinita - O poema



*  Filipe Chinita

o poema
.
que a claridade
fique suspensa
- sendo -
e o instante
entidade fugidia
- permaneça -
não escape

que a página
cintilação de diamante(s)
faces múltiplas e
muito mais se
falante

que o poema
um pedra tão
unida e
densa
que se saiba
e veja
(o)
palpitar

(qu)e em torno
se sinta o vazio criado
de tão pleno ser
o poema
.
fj
7.83
14 de maio de 2013 ·

Filipe Chinita - hoje

* Filipe Chinita


hoje
estou sem palavras

sequer me aperece falar.
nem escrever.no inteiro.silêncio.de mim
.
hoje
só me apetec(er)ia estar diante de ti

vendo-te todo o mínimo mover
imperceptível... do rosto.
do amor
.
fj
________________________________
hoje
estou
sem palavras

sequer
me apetece falar.

nem escrever.
no inteiro.silêncio.de mim
.
hoje
só me apetec(er)ia
estar diante
de
ti

vendo-te...
(todo) o mínimo mover
imperceptível...

do rosto...

do
amor
.
fj
14 de maio às 14:07

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Joaquim Pessoa Poema de agradecimento à corja



* Joaquim Pessoa)

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada. Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço. E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. Para que não sejamos também assim. E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.


12 de maio de 2013 · 

Filipe Chinita - e se tiveres de chorar pelo meio

* Filipe Chinita

e se tiveres de chorar pelo meio
chora(s)...
mas se for preciso
e para além da meiguice que és e tens...
veste(s) o teu casaco bonito
aquele onde já não
cabes...
aberto ao agreste... só o amor te protege...
na tua camisa branca
ao vento dos
tumultos...
és
a veia...
que não (se) deve calar...
e não pode... porque
a sinto aqui...
a palpitar
a galope...
e é terna
e meiga
e tão
viva
condensada
de sonhos
e fazeres
.
poeta j.


2013.05.13

terça-feira, 12 de maio de 2020

"Se isto é um homem", de Primo Levi

* Primo Levi

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

in Se isto é um homem, tradução de Simonetta Cabrita Neto


domingo, 10 de maio de 2020

Agostinho Neto - Meia noite na quitanda

* Agostinho Neto


- Cem reis de jindungo
Sá Domingas
O sol
entrega Sá Domingas à lua
nas quitandas dos musseques
E a quitandeira esperando
- Cinquenta reis de tomate
três tostões de castanha de cajú
Um doce de coco
Sá Domingas
Ela vende na quitanda à meia noite
que o filho
está na estrada
precisa de cem mil reis
para pagar o imposto
O sol deixa Sá Domingas
na quitanda
e ela deixa o luar
Um tostão
dois tostôes
três tostões
que o coração de Sá Domingas
sofre mais do que o corpo na quitanda

gravura: Quitandeira, por Neves e Sousa


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Catherine M. O’Meara - E as pessoas ficaram em casa

Catherine M. O’Meara

E as pessoas ficaram em casa
E leram livros
E ouviram música
E elas descansaram
E fizeram exercícios
E produziram arte e jogos
E aprenderam novas maneiras de ser
E pararam e escutaram
Mais profundamente
Alguém meditou, alguém orou
Alguém encontrou sua sombra
E as pessoas começaram a pensar de forma diferente
E pessoas foram curadas.
(...)
A terra também começou a se curar
E quando o perigo terminou e
As pessoas se viram
Elas sofriam pelos mortos
E fizeram novas escolhas
E sonharam com novas visões
E criaram novas formas de viver
E curaram completamente a terra
Assim como elas foram curadas.

Este poema, escrito em Março 2020,  tem sido erroneamente datado do século xix pretensamente escrito por Kathleen O’Mara,

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Le chant des partisans (Le chant de la libération)



I
Yves Montand - Le Chant des Partisans

O Canto dos Guerrilheiros ou Canto da Libertação é o hino da Resistência Francesa durante a ocupação da França pela Alemanha nazi, durante a II Guerra Mundial.A música, inicialmente composta em 1941 para um texto de soviético, é da autoria da franceesa Anna Marly, antiga emigrante  russa que em 1940 trocou a França pela Grâ-Bretanha. O texto original francês foi escrito em 1943 por Joseph Kessel, também de origem russa, e o seu sobrinho Maurice Druon, que haviam ambos acabado de juntar-se às Forças Francesas Livres. (wikipeditrad VN)

Le chant des partisans (Le chant de la libération)

Ami, entends-tu le vol noir des corbeaux sur nos plaines?
Ami, entends-tu les cris sourds du pays qu'on enchaîne?
Ohé, partisans, ouvriers et paysans, c'est l'alarme.
Ce soir l'ennemi connaîtra le prix du sang et les larmes.

Montez de la mine, descendez des collines, camarades!
Sortez de la paille les fusils, la mitraille, les grenades.
Ohé, les tueurs à la balle et au couteau, tuez vite!
Ohé, saboteur, attention à ton fardeau: dynamite..
.
C'est nous qui brisons les barreaux des prisons pour nos frères.
La haine à nos trousses et la faim qui nous pousse, la misère.
Il y a des pays où les gens au creux des lits font des rèves.
Ici, nous, vois-tu, nous on marche et nous on tue, nous on crève...

Ici chacun sait ce qu'il veut, ce qu'il fait quand il passe.
Ami, si tu tombes un ami sort de l'ombre à ta place.
Demain du sang noir sèchera au grand soleil sur les routes.
Chantez, compagnons, dans la nuit la Liberté nous écoute...

Ami, entends-tu ces cris sourds du pays qu'on enchaîne?
Ami, entends-tu le vol noir des corbeaux sur nos plaines?
Oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh...

Fonte: Musixmatch

 

Filipe Chinita - um obrigado.

Filipe Chinita


um obrigado.
sem paga
possível
.

tornei
e tomei
esta (tua) casa
como se minha... fosse

e há momentos
em que mesmo
sem a minha
altaneira
intensa
luz
de
(a)
mar...

mui
amo
aqui estar

no - apenas- silêncio

do vai-vem dos comboios... de corda

e das velozes ou
lentas teclas
de escrita
.
obrigado!
.
sim
- por vezes -
amo...
esta
luz

coalhada.
de distância

entrando
pelo corredor
afora

vinda
de um lado
e
de outro

da
rua
espa.ventosa.
dos humanos
e
do cova
do corredor d' aço
sobre as nossas cabeças

ou
de
uma apenas
inventada
luz
humana

como
se iluminada
árvore

de
e.terno
natal

que
te guie

sem luz.nos olhos

interior.corredor.
afora
.
fj

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Leonard Cohen - The partisan



* Leonard Cohen 

When they poured across the border
I was cautioned to surrender
This I could not do
I took my gun and vanished.
I have changed my name so often
I've lost my wife and children
But I have many friends
And some of them are with me
An old woman gave us shelter
Kept us hidden in the garret
Then the soldiers came
She died without a whisper
There were three of us this morning
I'm the only one this evening
But I must go on
The frontiers are my prison
Oh, the wind, the wind is blowing
Through the graves the wind is blowing
Freedom soon will come
Then we'll come from the shadows

~~~~~~~~~~~~~~~~
Les Allemands étaient chez moi
Ils me dirent, "résigne toi"
Mais je n'ai pas peur
J'ai repris mon âme
J'ai changé cent fois de nom
J'ai perdu femme et enfants
Mais j'ai tant d'amis
J'ai la France entière
Un vieil homme dans un grenier
Pour la nuit nous a caché
Les Allemands l'ont pris
Il est mort sans surprise
Oh, the wind, the wind is blowing
Through the graves the wind is blowing
Freedom soon will come
Then we'll come from the shadows

https://www.lyricfind.com/


Jacques Brel - L'Amour Est Mort





* Jacques Brel

Ils n'ont plus rien à se maudire
Ils se perforent en silence
La haine est devenue leur science
Les cris sont devenus leurs rires
L'amour est mort, l'amour est vide
Il a rejoint les goélands
La grande maison est livide
Les portes claquent à tout moment

Ils ont oublié qu'il y a peu
Strasbourg traversé en riant
Leur avait semblé bien moins grand
Qu'une grande place de banlieue
Ils ont oublié les sourires
Qu'ils déposaient tout autour d'eux
Quand je te parlais d'amoureux
C'est ceux-là que j'aimais décrire

Vers midi s'ouvrent les soirées
Qu'ébrèchent quelques sonneries
C'est toujours la même bergerie
Mais les brebis sont enragées
Il rêve à d'anciennes maîtresses
Elle s'invente son prochain amant
Ils ne voient plus dans leurs enfants
Que les défauts que l'autre y laisse

Ils ont oublié le beau temps
Où le petit jour souriait
Quand il lui récitait Hamlet
Nu comme un ver et en allemand
Ils ont oublié qu'ils vivaient
A deux, ils brûlaient mille vies
Quand je disais belle folie
C'est de ces deux que je parlais

Le piano n'est plus qu'un meuble
La cuisine pleure quelques sandwichs
Et eux ressemblent à deux derviches
Qui toupient dans le même immeuble
Elle a oublié qu'elle chantait
Il a oublié qu'elle chantait
Ils assassinent leurs nuitées
En lisant des livres fermés

Ils ont oublié qu'autrefois
Ils naviguaient de fête en fête
Quitte à s'inventer à tue-tête
Des fêtes qui n'existaient pas
Ils ont oublié les vertus
De la famine et de la bise
Quand ils dormaient dans deux valises
Et, mais nous, ma belle
Comment vas-tu?
Comment vas-tu?

https://www.youtube.com/watch?v=wTl-1g4OMoQ