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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

(105) Hoàng Hà - O País Repleto de Alegria (Đất nước trọn niềm vui)


O maior muro de flores do Vietnã: quando os muros contam histórias  

Este mural vietnamita celebra a libertação do Vietbame. Na parte inferior da composição, destaca-se em letras douradas em relevo a frase: «Đất nước trọn niềm vui» (que significa em português "O país em plena alegria" ou "País de alegria total"), inspirada no célebre título da canção patriótica homônima do compositor Hoàng Hà que celebra a reunificação do Vietname

A canção "Đất nước trọn niềm vui" (O país em plena alegria), composta por Hoàng Hà, é uma das obras musicais mais emblemáticas e comemorativas da história do Vietname. Escrita e estreada na rádio nacional logo após o anúncio da queda de Saigão a 30 de abril de 1975, a música captura a imensa euforia, o alívio e a alegria transbordante da reunificação do país após décadas de guerra.


ĐẤT NƯỚC TRỌN NIỀM VUI - NSND Trung Kiên

Temas centrais da letra:

  • A celebração da vitória e da paz: O texto descreve as ruas repletas de bandeiras com estrelas douradas, as multidões em marcha e a emoção do reencontro e da libertação de Saigão.

  • A memória e o legado: Evoca a figura inspiradora do Presidente Hồ Chí Minh e a resiliência indómita do povo vietnamita face à destruição causada pelos conflitos.

  • O orgulho nacional: Exalta a soberania recuperada e a beleza de uma pátria unificada. (Gemini)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

(98) 'Scotch Drink' e 'O cão engarrafado'

 

Foto victor nogueira - mural em setúbal, numa antiga discoteca (foto em 2018.07.31)

Este mural  é uma Homenagem a Bob Dylan: O rosto em destaque na pintura (no lado direito) retrata o lendário músico, cantor e compositor norte-americano Bob Dylan.Campanha Publicitária Comercial: O mural está associado a uma antiga campanha marcadamente artística da Ballantine's (lançada originalmente em 2007), que utilizou figuras lendárias e intemporais — como Bob Dylan e o ator Steve McQueen — para promover a identidade da marca sob o mote de "deixar uma marca" ou "impressionar" (Leave an Impression).Elementos visuais: A composição inclui ainda fotografias em formato de colagem, instrumentos musicais (como uma guitarra) e silhuetas de garrafas e estrelas integradas na pintura de rua.

Para lá de Bob Dyjan, o mural publicita uma marca de uísque, tema de dois poemas, de Robert  Burns e de Vinícius de Morais. O poema de Burns " Scotch Drink ", escrito  em1785, é  uma vibrante ode em língua escocesa ao uísque, à agricultura e à vida da classe trabalhadora. Sendo demasiado extenso, o poema integral encontra-se em Scotch Drink - Robert Burns

1. "Scotch Drink" (Excerto Principal / O Uísque como Personagem) — Robert Burns

O thou, my Muse! guid auld Scotch drink!
Whether on sphinges thou thy think,
Or pat the pakie in a blink,
Wi' auld kirk geud,
Drink cauld or het, a' think it's sink,
By some folk viewed.

Of a' the plagues that haunt the kirk,
Ay e'en the very deil's wark,
Wi' spitefu' heart or spitefu' dark,
Thou canst break doun,
And gie a shot to ilka spark,
A king o' men's renown!

Tradução do excerto

Ó tu, minha Musa! boa velha bebida escocesa!
Quer penses nelas com agudeza,
Quer num piscar de olhos faças a proeza,
Com a graça da velha igreja,
Bebida fria ou quente, todos julgam que é leveza,
Ainda que por alguns rejeitadaja.

De todas as pragas que rondam a capela,
Sim, até mesmo a obra do próprio diabo em sua vela,
Com coração rancoroso ou treva amarela,
Tu podes destruí-las no chão,
E dar fulgor a cada faísca bela,
Ao renome de um rei de coração!

O célebre poeta brasileiro Vinícius de Moraes tinha uma relação mítica com o uísque e eternizou-o numa tirada boémia que depois inspirou versos. Numa conversa célebre com o compositor Antônio Maria, Vinícius decretou que o uísque era o melhor amigo do homem, culminando na famosa frase: "O uísque é o cão engarrafado".

Mais tarde, transformou isto num poema brincalhão e afetuoso (frequentemente associado ao seu famoso Ave Canem), onde o uísque assume o papel de leal companheiro de copo nas horas incertas:

2. O "Cão Engarrafado" (A Boémia e o Copo) — Vinícius de Moraes

Arrimo igual, irmão, só na bebida.
Naquele "twelve years" especialmente.
É tudo que ora digo, face erguida.
Qual sóbrio porta-voz da boêmia gente.
E lanço, copo à mão, novo ditado:
"O uísque é o cão engarrafado".   

Leal, mudo, que aquece e não aborrece,
Que espera no aparador a hora incerta,
Que nunca trai, nem foge, nem esquece,
E traz a alma da noite sempre aberta.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

(95) Pedro Barroso - 'Bonita'


 foto victor nogueira - oeiras - ilha dos amores no parque dos poetas - escultura de Francisco Simões

Conteúdo partilhado com: Público
Pedro Barroso - Bonita

Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido
percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
falavas de projectos e futuro
de coisas banais frivolidades
mas quando me sorriste parou tudo
problemas do mundo enormidades
senti que um rio parava e o nevoeiro
vestia nos teus dedos capa e espada
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse no fundo preciso
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse preciso dizer nada
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

(94) 'Companheira', de Pedro Barroso


foto victor nogueira - oeiras - parque dos poetas - ilha dos amores - escultura de francisco simões

COMPANHEIRA - pedro barroso
Deixei pousar minha boca em tua fronte
toquei-te a pele como se fosses harpa
escorreguei em teu ventre como o vento
e atravessei-te em mim como se fosse farpa
Deixei crescer uma vontade devagar
deixei crescer no peito um infinito
morri da morte lenta do desejo
e em cada beijo abafei um grito
Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira
Inventei mil paisagens no teu peito
rebentei de loucura e fantasia
quando me olhavas devagar com esse jeito
e eu descobri tanta coisa que não via
Havia em ti uma forma grande de incerteza
que conseguias converter em alegria
havia em ti um mar salgado de beleza
que me faz sentir saudades em cada dia
Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(90) José Régio - Coimbra em Edmundo Betencourt e José Régio

* ictor Nogueira / Gemini 


Fotos victor nogueira - Coimbra Casas com História – Edmundo Bettencourt (Foto victor nogueira 2000 F1060041)

Neste prédio habitou / enquanto escolar de Direito / o poeta e cantor presencista / Edmundo de Bettencourt

“Gritos de cristal e oiro
Que o Betencourt alto erguia
Que é da roda que algum dia
Vos sabia acompanhar! “ (José Régio)

Homenagem da Academia de Coimbra / aos trovadores presencistas / da década de oiro / Artur Paredes Albano Nogueira / Afonso de Sousa e Guilherme Barbosa / que ao lado de Bettencourt / ergueram um canto novo

Na tomada da Bastilha 25 – 11 – 1988
D.G. da A.A.C.

A "Balada de Coimbra" é uma elegia nostálgica em que o poeta evoca o ambiente boémio e académico da cidade universitária. Ao longo do poema, Régio percorre lugares emblemáticos — como o Penedo da Saudade, a Quinta das Lágrimas, o Choupal e a Sé — evocando a memória de estudantes, amantes e músicos que por ali passaram. A estrofe da lápide surge no clímax dessa homenagem, imortalizando a genialidade de Artur Paredes na guitarra e o timbre inconfundível de Edmundo de Bettencourt no fado de Coimbra.

(89) Representações de Álvaro Cunhal 03 - A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche

 

Setúbal  - Memorial comemorativo do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal (2013), (Foto victor nogueira  IMG_1522)

Poetas da Imprensa Clandestina (Avante! e O Militante)

  • Contexto: Nos anos 50 e 60, circulavam no boletim A Voz das Camaradas e no jornal Avante! dezenas de poemas assinados sob pseudónimo ou anonimato por militantes e operários.

  • Temática: Muitos destes versos eram dedicados a "Duarte" ou "Arnaldo" (os nomes clandestinos de Cunhal) e focavam-se na sua libertação da prisão de Peniche, comparando a sua fuga a uma "brecha na noite" do fascismo.


Euma poética de resistência militante, escrita por anónimos, operários e comunistas na clandestinidade (ou durante a prisão), dedicada a Álvaro Cunhal  e à lendária fuga do Forte de Peniche a 3 de janeiro de 1960.

1. A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche (Janeiro de 1960)

Nos dias imediatamente a seguir à evasão do Forte de Peniche, versos escritos à pressa por militantes anónimos circularam em edições clandestinas do Avante! e em panfletos distribuídos nas fábricas da Margem Sul e do Porto. Neles, o nome «Duarte» (com o qual Cunhal era conhecido na organização clandestina) surgia como metáfora da própria resistência:

  • Excerto de poema anónimo militante (circa 1960):

«Caiu a grade, quebrou-se o muro,

rasgou-se o vento na noite fria.

O Duarte volta ao nosso lado, 

traz a promessa de um novo dia.

 

Peniche ruiu na sua vaidade, 

a maré alta não guardou a prisão: 

quem tem o povo na sua voz 

nunca esteve preso na amplidão.»

2. O Boletim «A Voz das Camaradas» (Anos 50)

O boletim interno A Voz das Camaradas era redigido e distribuído clandestinamente por e para as mulheres da organização comunista (muitas delas companheiras de militantes presos ou operárias na clandestinidade). Durante os mais de dez anos em que Cunhal esteve preso (1949–1960), era frequente a publicação de poemas de solidariedade dirigidos aos dirigentes encarcerados:

  • Versos de uma militante operária (assinado como «Uma Camarada», anos 50):

«Na cela fria onde o tempo para, 

não vergam a fibra do teu pensar.

Escreves no escuro, Duarte irmão, 

aquilo que o povo há de cantar.

 

A tua ausência é presença viva 

na nossa jornada contra a dor, 

por cada grade que te prende a carne, 

cresce no peito o nosso amor.»

3. José Dias Coelho e os Artistas na Clandestinidade

José Dias Coelho (esculptor e militante clandestino assassinado pela PIDE em 1961) e a sua companheira Margarida Tengarrinha produziam ilustrações e textos para a imprensa clandestina. Na sequência da fuga de Peniche, multiplicaram-se as estrofes populares escritas para serem cantadas ou declamadas em reuniões clandestinas, celebrando o feito:

  • Quadras populares clandestinas (1960):

«Peniche já não é fortaleza,

uma porta que se abriu, o camarada 

 Duarte passou e a noite do fascismo tremeu.

 

Guardavam-no torres e marés,  

guardavam-no armas e sentinelas, 

mas a vontade de um povo livre 

consegue saltar todas as janelas.»

(Gemini) 

(88) Representações de Álvaro Cunhal 02 - Pablo Neruda - 'A làmpada marinha'


.Palmela - Mural  da JCP 'Não ao aborto clandestino' (Foto victor nogueira  IMG_8596)


 * Pablo Neruda

Portugal,
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
 
Como é isto?
 
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
 
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
 
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
 
aprenderás de novo a ser estrela.


(87) Representações de Álvaro Cunhal 01 - Eugénia Cunhal - 'Quando vieres'



Palmela Mual de homenagem a Álvaro Cunhal -(foto victor nogueira   em 2021 12 18 Canon 199_12)IMG_8593) 

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.
Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

domingo, 23 de agosto de 2026

(85) Textos para um mural


Mural em Setúbal na Rua Edmond Bartissol, reconstituído pelo  Gemini a partir de 4 fotos de Victor Nogueira


* Victor Nogueira / Gemini

As fotos são de 2019, na Rua Edmond Bartissol, onde se localiza a casa onde presumivelmente nasceu o poeta setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage e o mural, estilo naïf, foi pintado no murete que a separa do Largo de S. Domingos. Nele se inscrevem várias frases: Todos nós fazemos a diferença /  Aqui somos felizes - Casa Bocage /  Mude e o Mundo muda. Inserido no projecto Setúbal Mais Bonita,  este mural foi pintado em 2019  por iniciativa do Centro Comunitário de S. Sebastião

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O MUNDO É COMPOSTO DE FAZENDA E MUDANÇA (Victor Nogueira)


 Cada um de nós é só ele próprio

E a sua boa ou má circunstância,

Procurando em tudo uma substância,

Com arte ou não, o alfa milenário.

 

Há na terra quem faça santuário

Do sentir ou razão, em abundãncia;

Mas é do cacau terna a fragância

Do fado ter um bom ou mau solário.

 

O tempo bem diz que é tudo ilusão;

O amor, doçura, felicidade,

Em lixo ou pó substanciando.

 

Honra, beleza, sentir, no caixão;

Erramos, pelo campo ou na cidade,

No mundo, bem ou mal, vagueando.

  Pinhal Novo 1989.09.10


terça-feira, 18 de agosto de 2026

(80) - José Afonso - O Povo é quem mais ordena, dentro de ti, oh cidade

 

Coimbta - Painel de azulejos na Casa onde viveu José Afonso (Foto victor Nogueira   F1060049)

"Em cada esquina um amigo /  Em cada rosto igualdade / O Povo é quem mais ordena / Dentro de ti, o cidade"

Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, Vila Morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, Vila Morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

"Grândola, Vila Morena" é aemblemática canção composta e cantada por José Afonso (Zeca Afonso). Tornou-se mundialmente famosa por ter sido a segunda senha radiofônica da Revolução de 25 de Abril de 1974 , dando sinal verde para os militares avançarem e derrubarem o regime do Estado Novo. Escrita por José Afonso após uma visita à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense em Grândola, Alentejo, foi lançada em dezembro de 1971 no álbum Cantigas do Maio .