Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 16 de novembro de 2025
José Pacheco Pereira - O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação
sábado, 1 de março de 2025
Juan Manuel Olarieta - Casa con dos puertas mala es de guardar
D
El anonimato forma parte integral del derecho a la intimidad, mientras que la represión siempre ha tratado de buscar a los autores de los carteles. Lo mismo ocurrió cuando internet sucedió a la imprenta. Como todos los inquisidores, Pedro Sánchez quiere impedir el anonimato en las redes sociales, excepto si se trata de países como Irán, en cuyo caso hay que proporcionarles a los iraníes todo tipo de herramientas informáticas para ocultar su identidad en internet.
Los países occidentales viven sumidos en la hipocresía y el cinismo. Defienden el anonimato en Irán mientras lo combaten en sus propias redes sociales. Por ejemplo, desde 2016 la Ley de Poderes de Investigación permite al gobierno británico acceder a los datos que cualquier usuario tiene almacenados en la nube sin necesidad de recabar ningún tipo de autorización judicial.
Es peor que si pudiera entrar en un domicilio privado sin autorización. Cuando las viviendas tienen un cerrojo es por un motivo muy importante: porque sus moradores tienen derecho a la intimidad.
Lo mismo ocurre en el internet: los usuarios tienen derecho al anonimato y a utilizar claves para cifrar sus mensajes. Si alguien archiva su contabilidad en la nube, debe cifrar sus documentos no sólo para defender su derecho a la intimidad sino, además, porque -de lo contrario- un tercero se la podría manipular muy fácilmente.
En internet la defensa de la intimidad es un derecho del usuario y una obligación de las empresas que prestan los servicios de almacenamiento. El anonimato va ligado a la integridad de los contenidos y al cifrado. Sin embargo, a Apple le han obligado a desactivar el cifrado en iCloud en Reino Unido.
Los documentos y archivos de iCloud se cifran con claves que solo se encuentran en los terminales de sus propietarios y en el sistema.
El gobierno británico le exigió a Apple que instalara una “puerta trasera” para acceder a los datos de los usuarios. Pero “una casa con dos puertas es mala de guardar”, titulaba Calderón de la Barca una de sus obras. Ese tipo de triquiñuelas siempre acaban igual: si el gobierno británico puede entrar, significa que cualquiera puede hacerlo y, finalmente, los archivos quedan expuestos e incluso pueden ser borrados, manipulados, copiados y puestos a la vista de todos, como en un escaparate.
Para Apple es el fin del negocio porque la empresa no sólo cobra por almacenar sino por preservar la integridad de los archivos almacenados. Se opuso a la exigencia del gobierno británico que, al no lograr su propósito, lo quiso hacer por la fuerza, invocando la Ley de 2016.
Se acabó el derecho a la intimidad y se acabó el negocio. Apple dejó de ofrecer el servicio a los usuarios de Reino Unido, donde el cifrado sólo depende de la clave que le haya puesto el usuario.
La Ley de la Nube de Estados Unidos es aún peor. Permite a la policía estadounidense acceder a los archivos incluso fuera del territorio, independientemente de la nacionalidad del usuario.
El alcance de este tipo de normas represivas sorprende incluso a quienes las aprueban. Hace un par de semanas un senador y un congresista estadounidense le enviaron una carta a Tulsi Gabbard, la directora de la inteligencia nacional, para saber si la privilegiada asociación entre Estados Unidos y Reino Unido podría tener como resultado que los británicos se aprovecharan de su Ley de la Nube (1).
La respuesta fue cínica: Gran Bretaña no puede pedir información sobre ciudadanos y residentes de Estados Unidos (2). Sin embargo, las “puertas traseras” no funcionan así: cuando entregas las llaves de tu casa a un tercero, se las entregas a todos. No tienes la seguridad de que no hagan copias, de que no se pierdan, de que no entren en tu casa…
Si las llaves de tu casa las tiene el FBI, también las tiene cualquier amiguete del FBI, cualquiera al que deban un favor… Pero si no eres amiguete del FBI puedes acudir a quienes sí lo son, o quizá a los amigos de los amigos, que harán copias de las copias… Al final las fotos de la boda siempre acaban en el armario del gendarme del pueblo.
sábado, 23 de setembro de 2023
António Guerreiro - O computador, um espírito absoluto
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
Heidegger sobre a cibernética: “Tudo funciona, é precisamente esse o problema. Tudo funciona e cada novo funcionamento subtrai cada vez mais o homem à terra”.
22 de Setembro de 2023
As histórias que mostram os caprichos da reversibilidade são sempre muito interessantes: o cão põe-se a salivar porque está condicionado pelo dono, pelos gestos e actos que o animal reconhece como o protocolo que anuncia a sua refeição, ou é o cão que aprendeu a condicionar o dono, ao perceber que, salivando, obtinha dele a resposta desejada? Quem tem animais domésticos conhece muito bem este mecanismo: tornamo-nos amostras de uma experiência pavloviana.
A inteligência artificial, ao atingir a rapidez e o grau de sofisticação dos chatbots, faz-nos perceber que é preciso tornar reversível o modo tradicional de entender a relação entre os computadores e o cérebro: não é o computador que imita a operação do pensamento humano, mas é o pensamento que imita o computador. E a vida imita a informática.
Entramos assim no coração de uma ontologia digital: a informática já é um mundo em si, uma segunda natureza, mais próxima de um organismo, dotado de um princípio em si mesmo, do que de uma mecânica funcional. A informática parece dotada não apenas de uma inteligência, mas de um “eu” reflexivo e de uma vontade. Há quem ache isto maravilhoso; há quem ache assustador; há quem ache as duas coisas simultaneamente; há a tecnofilia e a tecnofobia, ambas em doses superlativas; há a celebração da inteligência e a convicção de que a estupidez cresce, como o deserto. Tudo isto dá forma ao mundo em que vivemos.
Na célebre entrevista que deu em 1966, dez anos antes de morrer, à revista Der Spiegel, o mais ilustre e influente tecnófobo do século XX, Martin Heidegger, interrogado sobre o fim da filosofia e sobre o que viria ocupar o lugar dela, respondeu: “a cibernética”. E, ao argumento da eficaz funcionalidade de que a cibernética dava provas, Heidegger respondeu: “Tudo funciona, é precisamente esse o problema. Tudo funciona e cada novo funcionamento subtrai cada vez mais o homem à terra”.
Uma coisa tinha ele intuído com grande lucidez: que estávamos antrar numa época “pós” (que a informática, mais do que a cibernética, veio inaugurar), ainda que na altura estivesse distante este nosso mundo completamente produzido sob a condição informática. Poucos anos depois, o “pós” iria conhecer uma grande variedade de declinações e tornar-se um emblema epocal. De todas essas declinações, a mais popular foi a do fim da história, compreendida como a última palavra de uma democracia liberal instituída universalmente e, portanto, sem a contraposição de um outro horizonte. Tratava-se de uma interpretação, em chave actual e política, da ideia hegeliana de “fim da história”, do momento em que se realizaria o espírito absoluto e toda a negatividade estaria suprimida.
Sabemos muito bem que esta ideia de fim da história, actualizada como triunfo universal do modelo da democracia liberal, depois da queda do Muro de Berlim, foi convicção de pouca dura e não houve tese tão desmentida por tanta gente e com tanta insistência como esta. Parece que o fim da história se parece muito mais com a sociedade da informação, com a hegemonia da inteligência artificial. Talvez a intuição de Heidegger se tenha revelado muito mais certeira do que se pensava. E o que é que se pensava? Que ele, levando a sua tecnofobia ao exagero, tinha apontado a cibernética como aquilo que vinha destronar a filosofia.
Ora, estamos hoje a assistir a um coro quase universal (onde se juntam tecnófobos que não ousam dizer o seu nome aos que manifestam razoáveis e lúcidos temores que só os insensatos não têm) que se ergue ante a iminência de não ser apenas a filosofia a ser destronada. Artistas, escritores, tradutores, actores: todos se sentem hoje à beira de serem destronados e de os seus bons ofícios se tornarem excedentários. Esta nova condição epocal, sendo a mais próxima que já alguma vez nos encontrámos da situação “pós”, tem uma capacidade formadora: institui uma nova forma de vida. Afinal, o fim da história não é aquilo que se pensava. Há até quem fale de uma “informática celeste” (é o caso do filósofo francês Mark Alizart, que tem um livro com esse título) porque ela determina a “situação espiritual do nosso tempo”, como se dizia nos inícios do século passado.
Já está em curso nalgumas escolas (e noutras está em estudo) a proibição do uso do telemóvel pelos alunos porque se quer evitar (vá-se lá saber como!) que a informatização do humano seja o correspondente simétrico da humanização dos computadores, das máquinas que já começam a dizer “Eu”, que se fabricam a elas próprias e produzem uma imagem de si. Agora sim, chegou o admirável mundo novo.
Livro de recitações
Nos manuais elementares de jornalismo, diz-se que não é notícia um cão morder num homem. Mas se um ninho de vespas desfere um ataque a um bando de estudantes nas suas negras cerimónias iniciáticas, de tal modo que obriga a intervenção dos bombeiros, do Instituto Nacional de Emergência Médica, da PSP e do Serviço Municipal de Protecção Civil, como relata o Expresso, então temos notícia e até motivo para uma proposta modesta: o doutoramento honoris causa, já, para as inteligentes vespas, por terem sabotado as praxes como nunca antes ninguém tinha conseguido. É bem-sabido que nem tudo nas praxes é inteligente, alegre e indolor. Mas o saber destes insectos, no modo como leram e levaram à letra o enunciado estudantil da praxe, merece o louvor e o reconhecimento da instituição da qual se exige a tarefa de “inocular” os alunos com o seu “veneno”, que, como todo o pharmakon, cura e mata.
https://www.publico.pt/2023/09/22/culturaipsilon/cronica/computador-espirito-absoluto-2063912
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
É possível a convivência do livro com novas plataformas digitais?
Cultura
Coexistência é a expressão mais utilizada pelos autores que participam da oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio, ao comentar o futuro do livro em papel e das novas plataformas digitais que permitem a leitura eletrônica, como o e-book.
“Como tantas inovações, isso tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é a acessibilidade e o lado ruim é a imaginação de crianças crescendo com a internet e lendo mais na tela que nos livros de papel. Eles vão ler de outro modo, diferente da minha geração. Para eles é fácil ler rapidamente para achar informações, mas lendo tudo na tela é muito difícil se entregar completamente à literatura. Para ler jornais, tudo bem. Para ler livros pequenos não há grande problema. Mas, não consigo ver alguém lendo na internet um livro como Guerra e Paz", afirmou Burke.
O autor cearense Ronaldo Correia de Brito, que tem suas obras caracterizadas pela mescla do imaginário sertanejo e da cultura popular nordestina, acredita que há espaço para todos. "Quando surgiu a imprensa e o livro, foi disseminada a escrita, mas isso não acabou com a oralidade. As histórias continuaram sendo narradas. Da mesma forma, acho que o livro vai continuar existindo enquanto houver celulose”.
Da mesma maneira pensa o jornalista Sérgio Dávila, mediador de um dos debates promovidos pela Casa da Cultura. Ele acredita que assim como a televisão não acabou com o rádio, os meios eletrônicos não devem ser, por enquanto, vistos como uma ameaça ao livro de papel e destacou aspectos insubstituíveis como a portabilidade e “o prazer tátil que você tem ao ler um livro”.
Segundo Dávila, a crise mundial que atingiu a literatura nos últimos anos está sendo mitigada por dois fatores. “O mercado do livro está em ascensão, principalmente nos países emergentes como Brasil, porque tem toda uma classe C e D que está consumindo livro pela primeira vez na vida. Isso pelo lado do livro em papel, formato tradicional. Por outro lado, as editoras estão vendo uma possibilidade maior se abrir o uso das plataformas eletrônicas. Acho que essas plataformas vão conviver”.
Tiago Lacerda, que vive das ilustrações e quadrinhos e coleciona três publicações independentes, aposta que o livro é um elemento insubstituível. “O livro não vai acabar nunca. Um livro digital nunca vai substituir. O e-book não é a evolução do livro. O livro já chegou ao topo e o e-book, na verdade, tenta simular um livro. Não poderia ser evolução, se copia”.
O peruano Julio Villanueva Chang, editor da revista literária Etiqueta Negra e autor do livro de perfis Elogios Criminales, prefere não falar de futuro ou prever o que pode acontecer à indústria literária, mas lamenta que “jornais, revistas e impressos queiram se parecer mais com as páginas webs, twitters e redes sociais como facebook”. Segundo ele, o desafio dos escritores hoje é maior porque vivemos uma época de "crise universal de atenção, que tem a ver com uma transformação paulatina de como percebemos o mundo por meio da tecnologia. Estou te respondendo aqui e, ao mesmo tempo, ouvindo a música que está tocando e a mulher que está conversando na minha frente. Vivemos uma época em que todos querem falar e ninguém escuta”.
Fonte: Agência Brasil
sábado, 31 de julho de 2010
Google Books llega al Salón Internacional del Libro Africano
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Google Books llega al Salón Internacional del Libro Africano
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Esta cuestión resulta interesante para quienes forman parte del sector editorial ya que, por el momento, la carencia de un respaldo jurídico sólido y la falta de una política de regulación de la propiedad intelectual llevan a autores y editores a evitar la digitalización y la difusión de obras vía Web.
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Tal vez, la presencia de Collado contribuya a ampliar el panorama y a entender mejor las características de Google Books, un servicio de digitalización de libros lanzado por el buscador que ya tiene más de diez millones de ejemplares a disposición de los usuarios.
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Un día después de este encuentro se organizará una charla denominada “Nuevas Herramientas de Difusión” en la cual varios expertos intentarán analizar las últimas tendencias del rubro (entre las cuales cobran importancia los blogs y las redes sociales) y sacar conclusiones acerca de cómo ha impactado la tecnología en el sector editorial español.
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En su edición 2010, el Salón Internacional del Libro Africano, un evento impulsado por la editorial Baile del Sol y Producciones Mirmidón que cuenta con el apoyo del Gobierno de Canarias, pretende hacer foco en la creación literaria surgida tanto dentro como fuera del continente europeo y promover el debate sobre todas aquellas novedades que, de alguna u otra forma, provocan una revolución en el mundo de las letras.
sábado, 24 de julho de 2010
A Questão dos Livros, de Robert Darnton
Terça-feira, 13/7/2010
Literatura
Julio Daio Borges
| Digestivo nº 466 >>> A Questão dos Livros, de Robert Darnton . Ao contrário dos jornais que passaram anos ignorando a questão da internet para depois se relançar como “do futuro”, o mercado editorial brasileiro se comportou de forma mais madura, e depois do Kindle (e do iPad), resolveu encarar o assunto da digitalização. A Companhia das Letras saiu na liderança com, justamente, A Questão dos Livros, de Robert Darnton, ex-professor de Princeton e atual diretor da biblioteca da Universidade de Harvard. O volume foi considerado datado pela imprensa e, de fato, Darnton coligiu seu ensaios antes do iPad (a Amazon, por exemplo, surge mais como livraria do que como editora ou distribuidora de livros eletrônicos). Possivelmente redigido no auge do Google – antes da Apple ultrapassá-lo em valor de mercado –, o livro discute basicamente o avanço do gigante das buscas em direção ao acervo de bibliotecas públicas. Darnton escreve à maneira de um acadêmico francês com aversão ao capitalismo, mas seu argumento faz sentido (embora tenha perdido a força): o Google Book Search está se apoderando de um patrimônio comum, para veicular anúncios e “monetizá-lo”, atropelando editores, autores e guarda-livros. O tom de A Questão dos Livros é apocalíptico, e alguém que o ler sem as últimas informações do iPad e do Kindle, vai se preparar para a débâcle da civilização. O fato é que, em matéria de livro eletrônico, a Amazon tomou a dianteira e a Apple lançou sua versão de leitor apenas neste ano. Outros fabricantes, como a HP, também devem consolidar seus aparelhos, mas a verdade é que o Google não se definiu em matéria de tablet (apesar dos rumores). Ninguém imaginava, ainda, que o iPhone (2007) fosse se consagrar como plataforma e, na sua esteira, o promissor iPad. Assim, os temores de Darnton se revelaram infundados, porque o Google Book Search não se tornou tão hegemônico. Mais um exemplo: Tim O'Reilly, o editor e visionário da Web 2.0, teme, hoje, muito mais a Apple do que o Google (em termos de monopólio). A digitalização dos livros é, definitivamente, um fato, mas A Questão dos Livros serve para nos mostrar que a discussão de ontem não é a de hoje, muito menos os vaticínios e os temores. . >>> A Questão dos Livros | . | . |
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sábado, 12 de junho de 2010
Português cresce na Internet
Estudos sobre o uso da Internet por utilizadores bilingues mostram que o uso de sites em Inglês por parte destes cai à medida que surgem alternativas na respectiva língua materna.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Espresso Book Machine - Livros à medida das nossas necessidades
Em tempos de crise, as editoras têm de controlar os custos. Depois do sucesso internacional da Espresso Book Machine, que quer ser uma espécie de caixa multibanco de produzir livros, Zita Seabra cria em Portugal uma empresa de print on demand.
Durante anos, vi máquinas de print on demand (impressão a pedido) expostas em feiras dedicadas ao sector livreiro, como a Feira do Livro de Frankfurt ou a Feira do Livro de Londres, e nunca lhes prestei grande atenção. Pareciam trambolhos e quando olhávamos para elas, sem estarem a funcionar, a ideia de que através delas e do print on demand se podia tornar mais racional e menos arriscada a edição de livros parecia ainda uma solução distante.
Foi numa tarde do final de Maio de 2009 que tudo isto mudou. Na Book Expo America (BEA), em Nova Iorque, vi pela primeira vez a Espresso Book Machine a funcionar. Era impressionante.
Esta máquina que imprime e encaderna livros continuava a ter aquele aspecto de fotocopiadora (apesar de ser mais pequena do que as outras) mas quando, num instante, produziu um livro com um acabamento perfeito, conquistou-me. Passou de patinho feio a cisne.
Na verdade, a presença daquela máquina de impressão a pedido na BEA fazia parte de uma estratégia do grupo editorial Perseus. Queriam provar que actualmente é possível produzir um livro em pouquíssimo tempo e distribuí-lo, em inúmeros formatos, em tempo recorde.
Um mês antes, a 28 de Abril de 2009, este grupo editorial norte-americano tinha criado um site onde pedia aos cibernautas que escrevessem a continuação dos seus livros preferidos. O projecto chamava-se Book: The Sequel.
Pediam: “Peguem num livro. Imaginem uma sequela. Escrevam a primeira frase. Dêem-lhe um título fantástico.”
O site (www.bookthesequel. com) ficou aberto durante um mês. No dia 28 de Maio de 2009, deixaram de aceitar contribuições e começaram a produzir “o livro” de várias formas.
O visionário
A obra Book: The Sequel first lines from the classics of the future by inventive imposters foi então produzida, em 48 horas, no recinto desta feira em Nova Iorque. Foi editada, desenhada, paginada e produzida em audiolivro (mp3), em formato digital, eBook, para várias plataformas e fizeram também uma versão impressa na Espresso Book Machine. Esse foi o momento mais emocionante. Em poucos minutos, a máquina de print on demand, ligada a um computador onde existia o ficheiro informático com o livro, imprimiu, organizou as páginas, cortou-as, fez a capa (a cores e brilhante), encaixou-a no maço de folhas e colou tudo. O barulho não era ensurdecedor e podíamos ver passo a passo a impressão e encadernação da obra. Num minuto, a máquina imprimiu cem páginas e de dentro dela saiu um livro, que, se eu não tivesse visto ser impresso à minha frente, pensaria ser um livro de bolso tradicional.
Um assombro. Já passou quase um ano e o meu exemplar de Book: The Sequel first lines from the classics of the future by inventive imposters está na estante para dar e durar. Continua com a capa colorida superbrilhante; as páginas não se descolaram; enfim, o tempo passou e o livro não se desfez.
Por trás desta máquina está a empresa On Demand Books (http://www.ondemandbooks.com) e o famoso editor Jason Epstein. Conhecido por ser o responsável pela colecção Vintage paperbacks (onde publicou Norman Mailer, Nabokov, Gore Vidal ou Philip Roth) e por ter criado, em 1952, quando era editor da Doubleday, a chancela Anchor Books, que foi a primeira a dedicar-se exclusivamente ao formato de livro de bolso. Jason Epstein ajudou também a sua ex-mulher, Barbara Epstein, a fundar a “The New York Review of Books”. Tem uma longa experiência no sector e fama de visionário.
Em 1999, Jason Epstein fez uma série de palestras na Biblioteca Pública de Nova Iorque. Imaginou que no futuro iria aparecer uma máquina que imprimia livros e os vendia de uma forma quase automática. Teria um preço acessível e poderia ser colocada em livrarias de bairro, nos cafés, em hotéis, nos aeroportos ou em cruzeiros de longo curso. Com ela, qualquer pessoa teria facilmente acesso a livros (esgotados ou não). Nessa altura, Jason Epstein não sabia que o protótipo desta máquina já existia: tinha sido inventada por Jeff Marsh. Esta história está contada no site da On Demands Books, empresa que Jason Epstein fundou em 2003 com o seu sócio, Dane Neller (antigo CEO do Dean & DeLuca), para desenvolverem e comercializarem a máquina inventada por Jeff Marsh.
O fim da era Gutenberg
Jason Epstein deu no ano passado uma palestra na conferência da O’Reilly Tools Of Change for Publishing e começou o seu discurso com esta frase: “Não preciso de vos dizer que estamos no fim da era Gutenberg...”. Falava não só de uma nova maneira de publicar livros mas também de uma revolução cultural. Explicava que existem muitos textos cujo valor é efémero e que não precisam de ser impressos. Nesse grupo incluía não só aqueles livros de ficção e de não-ficção que lemos uma vez (ou que nem chegamos a ler até ao fim) mas também dicionários, enciclopédias ou manuais, que ficam obsoletos logo no dia da sua publicação.
Para este editor, os conteúdos “efémeros” vão definitivamente passar a ser consultados e acedidos pelos consumidores através de dispositivos multitarefas (como telemóveis de nova geração ou tablets idênticos ao iPad que acaba de ser lançado pela Apple). Os consumidores terão acesso às obras guardadas em bases de dados através de assinaturas e os documentos digitalizados serão corrigidos ou eliminados à medida das nossas necessidades. “Quando falo em efémero, não o faço de forma depreciativa mas para enfatizar a extrema volatilidade destas obras de referência ou técnicas”, explicava Epstein.
Para ele, os editores vão comercializar online assinaturas que dão acesso a bases de dados sobre assuntos específicos e certos documentos com informações mais técnicas e académicas, estarão disponíveis quer para investigadores quer para utilizadores comuns. Na sua opinião, os leitores de livros electrónicos (que ainda considera aparelhos muito caros) serão substituídos por aparelhos mais baratos e multitarefas, isto é, podem ser utilizados para ler, mas também para jogar, ver filmes ou até navegar na Internet e terão baterias mais duradouras e ecrãs mais legíveis do que os actuais.
Jason Epstein defende também que o trabalho dos escritores precisa de ser protegido legalmente. “De que é que os escritores irão viver? Eles precisam de comer. Não são músicos. Não podem dar concertos ou fazer anúncios”, lembrou.
Nesse seu discurso (que está disponível para consulta online), o antigo editor recordava a palestra que tinha feito há dez anos na Biblioteca Pública de Nova Iorque onde lançara a ideia da tal máquina, que, como uma caixa multibanco, estaria disponível para se imprimirem livros num instante, em qualquer lugar. Na sua opinião, a máquina que mais se aproxima da que ele imaginou na época é a Espresso Book Machine (desenvolvida pela sua própria empresa) que imprime livros até 800 páginas e produz um livro de 320 páginas com a qualidade de um livro de bolso idêntico ao impresso numa tipografia, em sete minutos, por um penny por página.
“A Espresso Book Machine elimina completamente a cadeia de distribuição entregando um livro feito a partir de um ficheiro digital ao consumidor final sem passar por intermediários: sem inventário, sem armazenamento, sem custos de transporte, sem sobras e sem devoluções”, afirmou Epstein indicando que o investimento numa máquina destas equivale ao que se faz numa fotocopiadora. É quase uma revolução e permite acabar com o drama dos livros guilhotinados que tanta polémica tem gerado nos últimos meses.
Por cá, Zita Seabra, da editora Alêtheia, também decidiu seguir os passos de Jason Epstein. Quer contribuir para combater os livros em stock e o desperdício, acabar com armazéns de monos e recuperar bons livros esgotados e por isso criou uma empresa dedicada à impressão a pedido. É a Várzea da Rainha Impressores SA (VRI), teve um investimento de um milhão de euros, está sediada em Óbidos e brevemente vai aceitar encomendas através de um portal na Internet que está a ser construído. Para já, disponibilizam toda a informação sobre os seus serviços no site (http://www. varzeadarainha.pt).
A empresa possui duas máquinas de impressão a pedido: a Nuvera 200 (que imprime a preto e branco) e a Xerox DC 7002 (para imprimir a cores). Os clientes podem escolher imprimir desde um até 1500 exemplares a preços mais acessíveis do que nas impressoras tradicionais. Imprimir 25 exemplares de um livro com 250 páginas a preto e branco e capa a cores pode custar cerca de 185 euros. Por exemplo, a edição de A Nova Tirania, de Juan Manuel de Prada (Alêtheia), já foi lá produzida.
A VRI tem também um pacote apropriado para quem quer publicar livros sem ter de encontrar um editor que aceite editá-lo e sem ter de fazer a tiragem mínima imposta pela impressão nas gráficas. É o serviço de Self Publishing, que custa cerca de 350 euros e inclui a paginação do livro, a inscrição da obra no sistema ISBN, com código de barras, a atribuição da chancela Sinapis Editores e um exemplar impresso do livro é entregue ao autor. A obra é catalogada no portal da empresa e a partir daí poderá ser encomendada e adquirida online pelos leitores que a queiram ler. Sem dramas e sem chatices.
segunda-feira, 29 de março de 2010
O negócio do livro eletrônico, por Jason Epstein
| Digestivo nº 457 >>> O negócio do livro eletrônico, por Jason Epstein Jason Epstein ficou conhecido por escrever quase um clássico do mercado editorial: O Negócio do Livro (Record, 2002). Nele, falava das suas cinco décadas de experiência no assunto, enquanto revisitava iniciativas das quais participou: como a Library of America (a equivalente, nos EUA, da nossa Nova Aguilar), com Edmund Wilson; The New York Review of Books (sim, o célebre periódico – que ajudou a fundar); até um precursor do nosso Círculo do Livro (vendendo obras por catálogo); e até um encontro com Jeff Bezos, da Amazon (o qual foi aconselhado a abandonar o negócio porque, segundo Epstein, não havia como ganhar dinheiro com a venda de livros por correspondência...) E, para quem sentia falta da “voz da experiência”, Jason Epstein ressurgiu agora, em março, no New York Review of Books, para comentar, justamente, sobre a “revolução” do livro eletrônico – do Kindle até o iPad. Começa afirmando que a transição da indústria do livro físico (das gráficas até as distribuidoras) para o livro eletrônico “no ciberespaço”, “despachado para qualquer lugar da Terra”, “de modo tão rápido e barato quanto um e-mail”, está andando a passos largos e é irreversível. “Com chão tremendo debaixo de si”, continua Epstein, é natural que editores mantenham um pé “no passado que desmorona”, enquanto procuram “terreno firme” no futuro, para eles “hesitante”, da “digitalização”. “Novas tecnologias, no entanto, nunca pedem licença” e – evocando Joseph Schumpeter – alerta que, como os terremotos, elas “não estão abertas à negociação”. Para Epstein, a capacidade, “sem precedentes”, de “Kindles” e “iPads” oferecerem uma “plataforma multilíngue”, com uma “escolha ilimitada de títulos”, vai destronar o tradicional “sistema gutenberguiano” (“com ou sem a cooperação dos executivos do mercado editorial”). A digitalização, continua Epstein, torna possível um mundo em que “qualquer um [virtualmente] pode se considerar editor” e onde “qualquer um pode se chamar de autor”. Contudo, alerta que o “solitário trabalho da criação literária”, em ficção, “quase nunca é colaborativo”: “As redes sociais podem ajudar na divulgação desse ou daquele título, mas violam a privacidade necessária para forjar a verdadeira literatura”. A crítica, segundo Epstein, será mais necessária do que nunca; e “gênios literários” devem surgir nos quatro cantos do mundo. Direitos autorais, regulados de maneira diferente em cada país, perderão o sentido. E, “com a eliminação de gráficas, distribuidoras e livrarias” – do processo todo –, leitores de livros eletrônicos pagarão cada vez menos, e autores de livros eletrônicos ganharão cada vez mais (enquanto muitos grupos editoriais simplesmente desaparecerão...). Epstein ainda teme a pirataria e, comparando aos músicos, que podem viver de shows, camisetas e até propaganda, avisa que “escritores não podem se dar ao luxo”... Como já havia previsto a invasão, cada vez maior, dos best-sellers nas livrarias (em O Negócio do Livro), Epstein apenas espera que o livro eletrônico preserve o que chama de “nossa memória cultural” – sem a qual “nossa civilização entraria em colapso”... [1 Comentário(s)] | . >>> Publishing: The Revolutionary Future |
Volume 57, Number 4 · March 11, 2010
Publishing: The Revolutionary Future
By Jason Epstein
Notes
[1]A project that I helped found.[2]See also Amazon's more recent attempt to block sales of books by a major publisher because of a pricing dispute.
[3]For a critical account of this view, see Jaron Lanier, You Are Not a Gadget: A Manifesto (Knopf, 2010), pp. 26, 46.
Letters
March 25, 2010: Paul R. Goldin, Where China Failed.
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