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sábado, 14 de novembro de 2009

Arte e Poesia em Modus Vivendi



Gustave Jean Jacquet

Jaquet_Gustave_Jean_An_Elegant_Lady.jpg
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um olhar sonhador
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Amor

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Ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e uma beleza
de príncipe de histórias encantadas.
Não tem importância, falou meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro para me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D.Cristovão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que...disse D.Cristovão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.
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Adélia Prado
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13 de novembro de 2009

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Eugen von Blass

Blass_Eugen_Von_A_Portrait_Of_A_You.jpg
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um olhar do eterno feminino
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Monemvassiá, pátria de Yannos Ritsos

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O preço da beleza, nestas ruínas amorosamente
reerguidas, é sem preço. O calcário em pedra solta
e firmes angulares, a talha rasando rente
e os volumes que como harmónio em volta
um só concerto tangem. E a rocha em frente
à pedra impõem a pequenez, enorme nessa rota
que faz a baía tecer de azul fremente
o belo impoluto na mais pura nota.
Até os pássaros no vinhedo prestam o tributo
debicando os bagos, e o majestoso pinheiro
no silêncio ergue seu hino. Lazareto outrora,
hoje este canto do passado ao presente faz o luto,
a ele trazendo a exacta medida do dinheiro,
do que vale e não vale, e do que vale a Hora.
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Aurélio Porto
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12 de novembro de 2009

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Thomas Lawrence

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Margaret, Condessa de Blessington
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Por Ana Roque às 10:17 de 12 de novembro de 2009 |
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o segredo da espuma

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Só o fogo e o mar podem olhar-se
sem fim. Nem sequer o céu com as suas nuvens.
Só o teu rosto, só o mar e o fogo.
As chamas, e as ondas, e os teus olhos.
Serás de fogo e mar, olhos escuros.
De onda e chama serás, negros cabelos.
Conhecerás o desenlace da fogueira.
E saberás o segredo da espuma.
Coroada de azul como a onda.
Aguda e sideral como a chama.
Só o teu rosto interminavelmente.
Como o fogo e o mar. Como a morte.
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Eduardo Carranza
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Por Ana Roque às 09:17 de 12 de novembro de 2009 |
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

11 de novembro de 2009

Bored

All those times I was bored
out of my mind. Holding the log
while he sawed it. Holding
the string while he measured, boards,
distances between things, or pounded
stakes into the ground for rows and rows
of lettuces and beets, which I then (bored)
weeded. Or sat in the back
of the car, or sat still in boats,
sat, sat, while at the prow, stern, wheel
he drove, steered, paddled. It
wasn't even boredom, it was looking,
looking hard and up close at the small
details. Myopia. The worn gunwales,
the intricate twill of the seat
cover. The acid crumbs of loam, the granular
pink rock, its igneous veins, the sea-fans
of dry moss, the blackish and then the graying
bristles on the back of his neck.
Sometimes he would whistle, sometimes
I would. The boring rhythm of doing
things over and over, carrying
the wood, drying
the dishes. Such minutiae. It's what
the animals spend most of their time at,
ferrying the sand, grain by grain, from their tunnels,
shuffling the leaves in their burrows. He pointed
such things out, and I would look
at the whorled texture of his square finger, earth under
the nail. Why do I remember it as sunnier
all the time then, although it more often
rained, and more birdsong?
I could hardly wait to get
the hell out of there to
anywhere else. Perhaps though
boredom is happier. It is for dogs or
groundhogs. Now I wouldn't be bored.
Now I would know too much.
Now I would know.

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Margaret Atwood
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Gustave Jean Jacquet

Jacquet_Gustave_Jean_A_Quick_Glance.jpg
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um olhar atento
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Boo, Forever

Spinning like a ghost
on the bottom of a
top,
I'm haunted by all
the space that I
will live without
you.

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Richard Brautigan
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10 de novembro de 2009

George Freeman

Freeman_George_Portarit_Of_A_Lady.jpg
da nostalgia
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O Jardineiro Míope

(recordado por Ana Paula Pinto Lourenço)
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O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista às flores
a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
"Que bem cantam as minhas papoulas!"
Um dia a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.

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Sidónio Muralha
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Modus Vivendi - Poesia e Pintura

09 de novembro de 2009

Gustave Jean Jacquet

Gustave%20Jean%20Jacquet.jpg
pura beleza, vinda de outro século para iluminar o dia
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Escrita

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.

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Leonard Cohen, Jorge Sousa Braga e Carlos Tê

08 de novembro de 2009

Teniers

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quase no São Martinho
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Sossego

Sentado sozinho
com um copo na mão
contemplo
os montes distantes

Nem que chegasse
a amada
sentiria
prazer maior

Mesmo que não falem nem riam
gosto mais
das montanhas

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Yun Sondo

07 de novembro de 2009

Presença

(gentileza de Amélia Pais)
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Não perguntes porque vim...
trazendo não-flores nos dedos,
falando línguas diferentes,
dizendo em risos-segredos,
todos os sonhos dementes...

Não perguntes porque vim...
Se pudesses entender
este pulsar sem medida
terias chegado ao fim....

Mas estou junto a ti,
irmão,
que mais te importa?

Não perguntes porque vim....
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Alda Lara

Humano

Na sujeição a fraqueza
como relógio emociona.
O choro declarado repõe
a sensibilidade. Simplifica.
Dignifica. Democratiza.
A lágrima não derramada
inunda o sentido: desanda
a máscara. Amoldada.
A criança ressurgente
diz do tempo. Sujeito
objetado à história.
Desfeito efeito.
Dispostos versos
no marco do crescimento:
trajeto e obstáculo.
Desacompanhada sombra
em que o vulto se certifica
como humana forma.

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Pedro Du Bois

Philip Alexius de László

Philip%20Alexius%20de%20L%C3%A1szl%C3%B3%20Elisabeth_von_Rum%C3%A4nien.jpg
um olhar aristocrático

06 de novembro de 2009

Ausência

Quando minha voz
se fizer
ausência, entenda o silêncio
como prova da verdade.

Arrume as palavras deixadas
entre folhas, faça frases
e desordene parágrafos.

Minha voz ausente
estará diante
do esforço. Concentre sua hora
na descoberta dos traços.

Risque as letras e deixe em branco
a parte inferior do silêncio.

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Pedro Du Bois

Philip Alexius de László

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Miss Gwen Frangcon-Davies em disfarce medieval
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Amor & Fama & Morte

agora está sentada do outro lado da janela
como uma velha a caminho do mercado;
está sentada e observa-me,
transpira nervosa
pelos cabos eléctricos, nevoeiro, ladrar dos cães
até que de repente
eu bato no vidro com um jornal
como se matasse uma mosca
e podias ouvir o grito
por toda a cidade,
e depois partiu.

a melhor maneira de acabar um poema
como este
é ficar de súbito
em silêncio.

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Charles Bukovski

05 de novembro de 2009

Arnold Bocklin

ArnoldBocklin-Odysseus-and-Calypso-1882.jpg
de costas voltadas
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Diving into the Wreck

the thing I came for:
the wreck and not the story of the wreck
the thing itself and not the myth
the drowned face always staring
toward the sun
the evidence of damage
worn by salt and sway into this threadbare beauty
the ribs of the disaster
curving their assertion
among the tentative haunters.

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Adrienne Rich
Por Ana Roque às 09:26 de 05 de novembro de 2009
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