Habito o sol dentro de ti
Descubro a terra, aprendo o mar,
por tuas mãos, naus antigas, chego ao longe,
que era sempre tão longe, aqui tão perto.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. meu navio,
este navio onde embarquei
para encontrar dentro de ti, o país de Abril.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava,
Quando o país de Abril se vestia de ti
e eu perguntava quem eras.
Meu amor por ti cantei. E to me deste
um chão tão puro, algarves de ternura.
Por ti cantei, à beira-povo à beira-terra
e achei achando-te o país de Abril.
'São canta Amália Rodrigues'
Velhas pedras que pisei
saiam da vossa mudez
venham dizer o que sei
venham falar português
sejam duras como a lei
e puras como a nudez.
Minha lágrima salgada
caíu no lenço da vida
foi lembrança naufragada
e para sempre perdida
foi vaga despedaçada
contra o cais da despedida.
Visitei tantos países
conheci tanto luar
nos olhos dos infelizes
e porque me hei-de gastar?
vou ao fundo das raízes
e hei-de gastar-me a cantar.
Como num búzio
O mar repete essa balada
Numa canção
Feita de sonho e ansiedade
Meu coração
Repete a história apaixonada
Duma presença que se fez
Longe, saudade
A vida quis que fosse assim
Nosso destino
No grande amor que quis
Vencer os vendavais
A vida quis que fosse assim
Nosso destino
Onda quebrada contra a praia
E nada mais
E a vida passa
Como os versos que escrevemos
E as promessas que fizemos
No dia da despedida
E a vida passa
Passam os dias rasgados
Tudo passa e passa a vida
Dos amantes separados
Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não!
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!
Fui ter à mesa redonda,
Beber em malga que esconda
Um beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida não!
Procissão de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atráis dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não.
Amália Rodrigues - "Meu amor é marinheiro", por Alain Oulman Meu amor é marinheiro E mora no alto mar Seus braços são como o vento Ninguém os pode amarrar. Quando chega à minha beira Todo o meu sangue é um rio Onde o meu amor aporta Seu coração - um navio. Meu amor disse que eu tinha Na boca um gosto a saudade E uns cabelos onde nascem Os ventos e a liberdade. Meu amor é marinheiro Quando chega à minha beira Acende um cravo na boca E canta desta maneira. Eu vivo lá longe, longe Onde passam os navios Mas um dia hei-de voltar Às águas dos nossos rios. Hei-de passar nas cidades Como o vento nas areias E abrir todas as janelas E abrir todas as cadeias. Assim falou meu amor
Adriano Correia de Oliveira - Trova do Amor Lusíada"
Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos da liberdade.
INSTRUMENTAL
Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar.
INSTRUMENTAL
Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Trova do Amor Lusíada - Manuel Alegre
Meu amor é marinheiro
quando suas mãos me despem
é como se o vento abrisse
as janelas do meu corpo.
Quando seus dedos me tocam
é como se no meu sangue
nadassem todos os peixes
que nadam no mar salgado.
Meu amor é marinheiro.
Quando chega à minha beira
acende um cravo na boca
e canta desta maneira:
- Eu sou livre como as aves
e passo a vida a cantar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar.
Trago um navio nas veias
eu nasci para marinheiro
quem quiser pôr-me cadeias
há-de matar-me primeiro.
Meu amor é marinheiro
e mora no alto mar
seus braços são como o vento
ninguém os pode amarrar.
Quando chega à minha beira
todo o meu sangue é um rio
onde o meu amor aporta
seu coração - um navio.
Meu amor disse que eu tinha
uns olhos como gaivotas
e uma boca onde começa
o mar de todas as rotas.
Meu amor disse que eu tinha
na boca um gosto a saudade
e uns cabelos onde nascem
os ventos e a liberdade.
Meu amor falou-me assim:
Ó minha pátria morena
meu país de sal e trevomeu cravo minha açucena
vale mais ser livre um dia
lá nas ondas do mar bravo
do que viver toda a vida
pobre triste preso escravo.
Eu vivo lá longe longe
onde passam os navios
mas um dia hei-de voltar
às águas dos nossos rios.
Hei-de passar nas cidades
como o vento nas areias
e abrir as janelas
e abrir todas as candeias
hei-de passar a cantar
pelas ruas da cidade
erguendo na mão direita
a espada da liberdade.
Ó minha pátria morena
meu país de trevo e sal
sou marinheiro e não esqueço
que nasci em Portugal.
Assim falou meu amor
assim falou ele um dia
desde então eu vivo à espera
que volte como dizia.
Eu creio no meu amor
meu amor é marinheiro
quem quiser pôr-lhe cadeias
há-de matá-lo primeiro.
Sei que um dia ele virá
assim muito de repente
como se o mar e o vento
nascessem dentro da gente
como se um navio entrasse
de repente na cidade
trazendo a voar nos mastros
bandeiras de liberdade.
Meu amor é marinheiro
e mora no alto mar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar.
in 30 anos de Poesia, Manuel Alegre, Círculo de Leitores
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Dois poemas que, embora separados por cinco séculos, têm um tema comum: A separação amorosa. João Roiz de Castel-Branco foi um cavaleiro nobre português, fidalgo português, fidalgo da casa Real, cortesão, e poeta humanista. Nasceu presumivelmente em Castelo Branco em meados do Século XV e faleceu na mesma cidade depois de 1515. Celebrizou-se como poeta, encontrando-se algumas de suas composições integradas no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, publicado em 1516. José Saramago dispensa apresentações.Não sei o ano do poema do Saramago, mas não admira que ele tenha prestado esta homenagem a João Roiz de Castelo Branco, um homem, como ele diz em Viagem a Portugal (1981), «que, pouco mais tendo feito que estes sublimes versos, há-de ser lembrado e repetido enquanto houver língua portuguesa». Uma justa homenagem!
Cantiga sua partindo-se
Senhora, partem tam tristes meus olhos por vós, meu bem, que nunca tam tristes vistes outros nenhuns por ninguém.
Tam tristes, tam saudosos, tam doentes da partida, tam cansados, tam chorosos da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes, tam fora d'esperar bem, que nunca tam tristes vistes outros nenhuns por ninguém.
Entre sombras misteriosas em rompendo ao longe estrelas trocaremos nossas rosas para depois esquecê-las. Se o meu sangue não me engana como engana a fantasia havemos de ir a Viana ó meu amor de algum dia
Partamos de flor ao peito que o amor é como o vento quem pára perde-lhe o jeito e morre a todo o momento. Ciganos, verdes ciganos deixai-me com esta crença os pecados têm vinte anos os remorços têm oitenta.
Música: Alain Oulman Letra: Pedro Homem de Melo Intérprete: Amália Rodrigues
* Vinícius de Morais O sal das minhas lágrimas de amor, criou o mar Que existe entre nós dois p'ra nos unir e separar Pudesse eu te dizer a dor que dói dentro de mim, Que mói meu coração nesta paixão que não tem fim. Ausência tão cruel, Saudade tão fatal, Saudades do Brasil em Portugal.
Meu bem, sempre que ouvires um lamento Crescer, desolador, na voz do vento, Sou eu em solidão pensando em ti, Chorando todo o tempo que perdi.
Depois da proibição do Fado de Peniche na rádio por ser considerado, pelo regime ditatorial em vigor na época, um hino aos presos de Peniche, após a gravação e o lançamento nas rádios, Povo que lavas no rio ganhou dimensão política.
Talvez devido a esse mesmo facto, as opiniões quanto à interpretação da letra dePedro Homem de Mello, poeta português de excelência, divergem em absoluto: enquanto alguns críticos creem que o poema imortalizado por Amália Rodrigues seja um depoimento de amor ao povo português o qual, ainda segundo esta linha de pensamento, enfrentava uma situação de grande pobreza no tempo da ditadurasalazarista, considerando o país da época como sendo rural e economicamente pouco desenvolvido face à industrializaçãoeuropeia, outras correntes tendem a ver nas suas estrofes uma lírica de cariz fortemente ligado à homossexualidade masculina, acentuada pelos contornos de incursões às tabernas populares, onde o narrador teria procurado os seus parceiros, e visto recusadas as suas investidas ou, mais ainda, qualquer envolvimento sentimental mais profundo.
Daí as referências ao povo, neste caso portuense, que teria inevitavelmente tecido comentários aos seus devaneios, e dificultado a sua vida, ao beijo inconspícuo da partilha do mesmo copo, simbolizando o beijo em público que era, nessa época mais conservadora, absolutamente interdito aos homossexuais e, acima de tudo, a confissão lírica, ao afirmar que teria dormido com eles na cama, e enlameado por ter mantido este tipo de vida proibída. O autor, Pedro Homem de Mello, era ele próprio homossexual, e ter-se-ia assumido,1 não só através deste poema, mas também junto da comunidade que lhe era mais próxima, na Cidade do Porto, onde viveu, tendo sido assíduo frequentador do Café Rialto, em Sá da Bandeira.
Independentemente da divergência na interpretação da obra, a sua versão musicada em forma de fado, tornou-se no ex-libris do género em Portugal, e a música que mais reconhece a intérprete original. (Wikipedia)
José Carlos Ary dos Santos e Amália Rodrigues cantam, do álbum Cantigas de Amigos, a música medieval Vim Esperar o Meu Amigo, Cantiga de Amigo (Tenção) de Bernaldo de Bonaval.
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- Ai, formosinha se me escutais, longe da vila, que procurais? - Vim esperar o meu amigo.
- Ai, formosinha, se me atendeis, longe da vila, o que fazeis? - Vim esperar o meu amigo.
- Longe da vila que procurais? - Sabei-o, já que o perguntais: Vim esperar o meu amigo.
- Longe da vila o que fazeis? - Sabei-o, já que o não sabeis: Vim esperar o meu amigo.
(Adaptado de uma cantiga medieval, por Natália Correia em 1970)
Consta-se que José Carlos Ary dos Santos, escreveu este Poema em louvor ao Soldado que partia para o Ultramar Português em missão de Serviço. Amália canta divinamente e para mais com música de Alain Oulman.
Cantiga de Amor de Don Denís, Cantiga de mestría (Pergamino Sharrer)
Os diré, con tristeza, lo que nunca pensé que os diría, señora, porque veo que por vos muero, porque sabéis que nunca os hablé de cómo me mataba vuestro amor: porque sabéis bien que de otra señora yo no sentía ni siento temor.
Todo esto me hizo sentir el temor que de vos tengo, y desde ahí por vos dar a entender que por otra moriría, de ella tengo, sabéis bien, algo de temor; y desde hoy, hermosa señora mía, si me matáis, bien me lo habré buscado.
Y creed que tendré gusto de que me matéis, pues yo sé con certeza que en el poco tiempo que he de vivir, ningún placer obtendré; y porque estoy seguro de esto, si me quisierais dar muerte, señora, por gran misericordia os lo tendré.
Dom Dinis ("Dionisio I de Portugal" Lisboa, 1261 - Santarém, 1325)
Intérpretes: Paulina Ceremuzynska
Amigo, queredes vos ir? Si, mia senhor, ca nom poss'al fazer, ca seria meu mal e vosso; por end'a partir mi convem d'aqueste logar; mais que gram coita d'endurar me será, pois m'é sem vós vir!
Amigu', e de mim que será? Bem, senhor bõa e de prez; e pois m'eu fôr daquesta vez, o vosso mui bem se passará; mais morte m'é de m'alongar de vós e ir-m'alhur morar. Mais pois é vós ũa vez ja!
Amigu', eu sem vós morrerei. Nom o queirades esso, senhor, mais pois u vós fôrdes, nom fôr o que morrerá, eu serei; mais quer'eu ant'o meu passar ca assi do voss'aventurar, ca eu sem vós de morrer hei!
Queredes-m', amigo, matar? Nom, mia senhor, mais por guardar vós, mato-mi que m'o busquei.