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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Do centro-esquerda aos anarquistas: por dentro das Acampadas de Lisboa e do Porto

Além de um protesto pela habitação, as acampadas de Lisboa e do Porto tornaram-se uma experiência quotidiana de organização coletiva. Entre assembleias, grupos de trabalho, cantinas populares, atividades culturais e decisões tomadas em comum, centenas de participantes mantêm vivos espaços que funcionam, ao mesmo tempo, como forma de reivindicação e comunidade~

* André Manuel Correia, Jornalista / Cláudia Monarca Almeida. Jornalista / , Jornalista

É terça-feira, 3 de novembro, e a proposta vai a votos: devem pessoas com cargos políticos, públicos ou partidários integrar a mesa da assembleia popular? Antes de saber a escolha das várias centenas de pessoas reunidas no Rossio, os moderadores, que assumem a função de forma rotativa, convidam a vir à frente os defensores e detratores da ideia. De um lado, argumenta-se que há “conflito de interesses” e que os porta-vozes da mesa devem ser “imparciais”, do outro, que o impedimento pode “criar mais divisões dentro do movimento do que aquelas que o Governo tem criado”. Entre estes últimos está Bruno Cancelinha, “dirigente de um partido pequeno”, o Trabalhadores Unidos, fundado por Renata Cambra. Na hora de votar, os braços erguidos pela possibilidade de qualquer pessoa estar na mesa da assembleia são uma esmagadora maioria.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Manuel Loff - A “guerra civil”


No dia em que uma vitrina for quebrada, serão todos chamados “ladrões”. Um pouco mais e “terroristas”.   

 * Manuel Loff

Esperar pela madrugada para, enquanto a cidade dorme, soltar os cães e carregar sobre manifestantes. Um clássico. Cerca de cem feridos no somatório das várias cargas policiais em Lisboa e no Porto desde o dia 15. E cada nova carga policial produz mais feridos que a anterior; 38 só no domingo, no Porto. O que percebemos nestes 20 dias é que a violência policial é completamente independente da natureza do protesto e do perfil dos manifestantes pelo direito à habitação. Na madrugada de domingo passado, as primeiras vítimas, no Porto, foram as Mães pela Acampada, “sentadas na linha da frente a cantar”. Duas foram presas, entre as dezenas de detidos que se vêm somando – a tal ponto que a Provedoria de Justiça enviou à última manifestação de Lisboa uma equipa do Mecanismo Nacional de Prevenção para verificar os procedimentos da PSP. Num caso, em Lisboa, só a intervenção dos seus membros permitiu que um manifestante ferido fosse socorrido pela própria acampada.   

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Luís Aguiar-Conraria - Capangas do ministro?

* Luís Aguiar-Conraria

Professor de Economia da Universidade do Minho

Num Estado decente não se agridem manifestantes que não estão a estragar nada, que não representam nenhum perigo relevante
 
29 outubro 2026

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Oartigo 18º, nº 2, da Constituição estabelece: “A lei só pode restringir os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição.” Os direitos, liberdades e garantias constitucionais estão elencados nos artigos 24º a 57º. O artigo 45º tem apenas dois números: (1) “Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização” e (2) “A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação”. Nenhuma restrição é prevista, pelo que, dita a lógica, uma lei não pode restringir este direito.

Miguel Sousa Tavares - Bloqueados


'Bloqueados' - Ilustração Hugo Pinto

* Miguel Sousa Tavares

Tal como os lenços palestinianos não ajudam em nada a causa palestiniana ou a da habitação, também os discursos contra o “rentismo” soam 
muito bonitos mas só agravarão as coisas

Visto que há 15 dias que o país — ou a imprensa, melhor dizendo — não fala de outra coisa além dos acampados do Porto e Lisboa, vamos lá, então. E serenamente, se é que isso fará alguma diferença.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Vasco Cardoso - As imagens de Paris e Lisboa e o desejo mediático pelo “confronto”

* Vasco Cardoso

Es­tará por provar que as in­ter­mi­ná­veis horas de di­rectos te­le­vi­sivos sejam a forma mais ri­go­rosa e es­cla­re­ce­dora de in­formar os te­les­pec­ta­dores. Re­lembro, entre ou­tros exem­plos, a ine­nar­rável co­ber­tura dada ao “re­fluxo” de André Ven­tura em plena cam­panha elei­toral, acom­pa­nhada a par e passo por todas as te­le­vi­sões com os re­sul­tados que se ima­gina. Mas nestes tempos de de­sin­for­mação, esse tipo de co­ber­tura no­ti­ciosa as­sumiu-se como regra, fa­ci­li­tando não poucas vezes a ma­ni­pu­lação de opi­niões, seja de forma subtil, seja de forma gros­seira. Foi o que acon­teceu no pas­sado sá­bado (já tinha acon­te­cido antes), com os cinco ca­nais de te­le­visão a exi­birem du­rante toda a tarde ima­gens das lutas pela ha­bi­tação que de­cor­riam em Por­tugal e, ao mesmo tempo, ima­gens a partir de Paris, par­ti­cu­lar­mente as que en­vol­viam con­fron­tação e a acção da po­lícia.

A mis­tura destas duas re­a­li­dades bas­tante dis­tintas no mesmo ecrã é tudo menos ino­cente. Visou trans­mitir uma ideia de caos e con­fronto que ob­jec­ti­va­mente não se tem ve­ri­fi­cado nas lutas pelo di­reito à ha­bi­tação em Por­tugal. À falta de me­lhor, os ca­nais de te­le­visão de­ci­diram im­portar ima­gens de França para fa­bricar uma re­a­li­dade pa­ra­lela.

A dis­puta pelas au­di­ên­cias – apa­ren­te­mente ex­ci­tadas pela vi­o­lência – é uma ex­pli­cação de­ma­siado curta para esta bi­zarria. Na ver­dade, há um evi­dente pro­pó­sito po­lí­tico por de­trás destas ima­gens. Desde logo, pre­parar o ter­reno junto da opi­nião pú­blica para in­ter­ven­ções da po­lícia des­pro­por­ci­o­nadas como as que acon­te­ceram na ma­dru­gada de sá­bado no Rossio, e já antes ti­nham acon­te­cido no Porto. Mas so­bre­tudo, des­viar as aten­ções dos pro­blemas da ha­bi­tação e da ne­ces­sária res­posta que o Go­verno se re­cusa a dar, para uma abor­dagem de cariz re­ac­ci­o­nário ques­ti­o­nando o di­reito de ma­ni­fes­tação e ou­tras li­ber­dades de­mo­crá­ticas que o povo con­quistou com Abril. É para aí que o go­verno PSD/​CDS, que o Chega e a IL, querem ar­rastar a dis­cussão. Uma ar­ma­dilha que também in­te­ressa ao grande ca­pital, à banca, aos fundos imo­bi­liá­rios que estão a lu­crar mi­lhões com a crise no acesso à ha­bi­tação.

Avante n.º 2761 (29/10/2026)

Ricardo Araújo Pereira - Os perigosos cabeças-rachada


Cartoon Luís Fazenda - O perigosos cabeças-rachada 



* Ricardo Araújo Pereira

A crise da habitação é tão grave que até no debate sobre habitação falta habitação

A constituição garante o direito de manifestação. Sim, mas há uma lei de 1974 que proíbe as manifestações de continuarem depois da meia-noite e meia. Sim, mas essa lei é provavelmente inconstitucional. Sim, mas nunca foi contestada antes. Sim, mas tem sido ignorada pelas autoridades dezenas de vezes em protestos anteriores, nos quais os manifestantes não foram intimados a desmobilizar apesar de se manterem no espaço público durante a noite. Sim, mas essas eram manifestações de pessoas dignas como bombeiros, polícias e chefes de cozinha, ao passo que nesta os manifestantes não têm profissão definida, além de que alguns usam brincos onde Deus não quis que brincos fossem usados. Sim, mas os protestos têm sido pacíficos, incluindo iniciativas tão perigosas como bordados colectivos, ioga e danças. Sim, mas eu vi uma entrevista a um manifestante em que ele dizia que o objectivo era destruir o sistema. Sim, mas era um no meio dos milhares que se manifestam dormindo em conchinha, além de que esse discurso de destruição do sistema é muito parecido com o de certos partidos sobre cujos dirigentes a polícia não carrega à bastonada, mostrando assim que considera menos ameaçadores os cabeças-rapadas do que os cabeças-rachadas. Sim, mas a polícia actuou para repor a ordem. Sim, mas não havia desordem, tanto que um manifestante que começou uma pichagem sobre o primeiro-ministro numa estátua foi vaiado e forçado a parar pelos outros manifestantes. Sim, mas os manifestantes instalam tendas nas praças sem o licenciamento próprio. Sim, mas as tendas não são verdadeiramente tendas, são símbolos de um protesto que além disso é justo, dado que parece ser consensual que a situação da habitação é insustentável. Sim, mas não se pode dizer que nada esteja a ser feito, até porque no parlamento foi convocado um debate de urgência sobre habitação. Sim, mas nesse debate de urgência discutiu-se sobretudo a legitimidade do debate de urgência, uma vez que o regimento autoriza apenas um debate de urgência por quinzena, e havia discordâncias profundas acerca do significado da palavra quinzena. Sim, mas os jovens também não parecem muito dispostos a fazer os sacrifícios que os nossos pais e avós fizeram para ter habitação. Sim, mas fazendo as contas ao valor do salário médio e da renda média em Portugal não sobra muito dinheiro para comer, pelo que o que se pede aos jovens é de facto um sacrifício, mas não no sentido de abnegação e sim de imolação, como na frase “o cordeiro foi oferecido em sacrifício ao senhorio”.


 
A crise da habitação é tão grave que até no debate sobre habitação falta habitação.

Expresso 29 Outubro 2026

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Manuel Brito - AGITADORES PROFISSIONAIS. QUEM SÃO E QUEM LHES PAGA?




* Manuel Brito

A propósito das recentes manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, vários responsáveis políticos e comentadores têm recorrido com insistência à expressão «agitadores profissionais» para explicar os momentos de tensão e os confrontos com as forças policiais. Quase sempre, a expressão vem acompanhada de um rótulo: seriam elementos da esquerda radical.

A fórmula merece alguma consideração. Se são profissionais, quem os contrata? Quem lhes paga, e para quem trabalham? Que provas existem de uma atuação organizada? Ou bastará colar-lhes uma etiqueta ideológica para que a suspeita passe a valer como certeza?

Esta associação não é inocente nas suas consequências. Ao atribuir sistematicamente os incidentes a alegados agitadores de esquerda, desvia-se a atenção do que leva milhares de pessoas à rua: rendas incomportáveis, despejos, jovens e famílias empurrados para fora das cidades. Ao mesmo tempo, lança-se a dúvida sobre movimentos legítimos de contestação, e a participação cívica passa a ser tratada como atividade suspeita.

A história conhece bem outra figura: o «agent provocateur», infiltrado em movimentos políticos e sociais para instigar a violência, provocar confrontos ou justificar respostas repressivas. 

Em França, têm circulado vídeos de manifestações em que pessoas à paisana são identificadas como agentes policiais. Isso não prova, por si só, que atuassem como provocadores. Mas recorda uma evidência: apurar quem está por trás de um incidente exige investigação rigorosa, não conclusões apressadas.

O mais preocupante é a facilidade com que uma acusação sem provas, repetida por responsáveis políticos e amplificada pela comunicação social, ganha a aparência de facto indiscutível. A repetição de uma suspeita não a transforma em verdade. E a orientação ideológica de alguém não constitui prova de qualquer comportamento ilícito.

Que fique claro: quem pratica atos violentos deve responder por eles, sejam quais forem as suas convicções políticas ou funções profissionais. Isso vale tanto para manifestantes como para quem tem o dever de garantir a ordem pública. Mas a responsabilidade de quem acusa também não pode ser ignorada. Quem lança suspeitas a partir de uma posição de poder deve apresentar factos ou retirá-las.

Numa democracia, o direito de manifestação, consagrado na Constituição, não pode ficar refém de insinuações, preconceitos ideológicos ou acusações por demonstrar.

Antes de procurar «agitadores profissionais» entre os manifestantes, seria mais útil investigar os factos e ouvir com seriedade aquilo que os cidadãos estão a reivindicar.

Fcebook 2026 Outubro 27 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Manuel Brito - A MANOBRA DE DIVERSÃO E A LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO




* Manuel Brito 

O Governo atravessa um período de evidente desgaste. As sondagens revelam dificuldades, a perceção pública sobre a competência de vários ministros degrada-se e acumulam-se episódios que fragilizam a credibilidade de quem governa. Do primeiro-ministro ao ministro da Administração Interna, não faltam polémicas e suspeitas que exigem esclarecimentos políticos e, quando se justifique, judiciais.
Perante este cenário, nada é mais conveniente do que uma boa manobra de diversão: mudar de assunto e transformar um problema político numa questão de ordem pública.
Foi o que se viu no Porto e em Lisboa. No Porto, uma carga policial de madrugada sobre jovens acampados pacificamente pelo direito à habitação deixou dezenas de feridos. Dias depois, em Lisboa e novamente no Porto, as acampadas foram desmanteladas, com dezenas de detidos no Rossio. Que ameaça representavam estes jovens? Que perigo concreto justificava tamanha demonstração de força?
A justificação invocada foi o Decreto-Lei n.º 406/74, segundo o qual as manifestações não podem prolongar-se para além das 00h30. Trata-se de um diploma de 1974, anterior à própria Constituição. O artigo 45.º da Constituição garante o direito de manifestação pacífica sem necessidade de autorização, e qualquer restrição tem de respeitar os princípios da necessidade, adequação e proporcionalidade. A liberdade não se mede pelo relógio.
Há, porém, um pormenor revelador. Bombeiros, polícias e outros grupos profissionais têm feito manifestações com claros indícios de alteração da ordem pública. Em 2013, milhares de polícias derrubaram as barreiras de segurança e subiram a escadaria da Assembleia da República, perante um Corpo de Intervenção que se limitou a recuar. Mais recentemente, os bombeiros sapadores ocuparam durante horas a mesma escadaria, rebentaram petardos e queimaram pneus. Mais tarde, voltaram a romper um cordão policial junto à sede do Governo. Em nenhum destes casos houve cargas policiais nem dezenas de detidos. Ninguém se lembrou de exibir o decreto de 1974 nem de tratar aqueles profissionais como ameaça.
Não defendo, obviamente, que se carregue sobre polícias ou bombeiros. Defendo que a lei seja igual para todos. Quando o rigor se aplica apenas a jovens que contestam a política de habitação, deixa de ser rigor e passa a ser escolha política.
A autoridade do Estado não se mede pela facilidade com que dispersa cidadãos, mas pela inteligência, prudência e imparcialidade com que protege os seus direitos. O que deveria preocupar o Governo não é a presença de jovens na rua, mas as razões que os levam a protestar.
Confundir contestação com desordem é sinal de fraqueza política, não de autoridade democrática. A democracia exige governantes capazes de ouvir, e não apenas polícias preparados para intervir.
(Foto de Fernando Ricardo)

Facebook 2026 Outubro 26

Ana Sá Lopes - Está em causa o normal funcionamento da democracia

* Ana Sá Lopes
   
Luís Neves já era um destroço, mas um destroço com o poder de mandar a polícia de choque para a rua pode rebentar com o regime. Está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas.   

Não me lembro de ter tido tanto medo como na madrugada deste domingo, 25 de Outubro. O meu filho estava no Rossio, em Lisboa, quando a polícia de choque avançou sobre os manifestantes pacíficos em luta pelo direito à habitação.   

Estava o meu filho, os filhos das minhas amigas e os filhos de tanta gente que se juntaram a uma manifestação legítima, igual a tantas outras acampadas e vigílias que já aconteceram no país sem que a polícia de choque, com os seus bastões e cães, se atirasse aos manifestantes.   

terça-feira, 20 de outubro de 2026

José Pacheco Pereira - O VERBO DO ÓDIO

 * José Pacheco Pereira

A melhor maneira de perceber o modo como pensam (embora chamar pensar seja um exagero) os homens e mulheres que hoje empurram a extrema-direita em Portugal são as redes sociais e os comentários não moderados. Respondo já a quem diz que o mesmo se passa do outro lado do espectro político – não é verdade, porque há uma enorme diferença de proporção. Há, de facto, mecanismos se afiguram parecidos, insultos, argumentos ad hominem, agressividade verbal, mas, para cada 100 de extrema-direita, há um da extrema-esquerda, e isso permite caracterizar este fenómeno como sendo um revelador significativo do populismo radical da direita.

domingo, 10 de março de 2024

António Guerreiro – As sondagens: modo de usar

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

* António Guerreiro

 7 de Março de 2024 

 

A política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Um dos slogans inventados no Maio de 68, às vezes recordado como uma peça de arqueologia revolucionária, como muitos outros surgidos nesse tempo, desdenhava alegremente do acto essencial da afirmação da democracia: “Élections, piège à cons”. Traduzido em português nunca funcionaria porque perde a rima e o ritmo prosódico: “Eleições, armadilha para imbecis”.

 

Actualmente, não existe no espectro político nenhum extremo que ouse pôr em causa o formalismo democrático do voto. “Porquê votar?” não é pergunta que hoje se faça publicamente e com um alcance político programático. Em contrapartida, tem aumentado incessantemente os que se interrogam – “Em quem votar?” – até ao momento de colocar a cruz no boletim e os que, incapazes de decidir, engrossam as fileiras dos abstencionistas.

 

Os “indecisos” tornaram-se uma categoria decisiva. Por isso é que as sondagens, outrora tão fiáveis, se tornaram um deficiente instrumento de medição do resultado final. Podemos pressentir que se deu um fenómeno de inversão ou de reversibilidade: as sondagens, que dantes calculavam com precisão as intenções de voto sem interferir nelas de maneira significativa, tornaram-se um elemento que determina, em última instância, a escolha do eleitor. O eleitor informado toma as sondagens para calcular o sentido do seu voto.

 

Evidentemente, isso deu-se à medida que se multiplicaram as sondagens pré-eleitorais e que os cidadãos aprenderam a lê-las e a avaliá-las na sua dimensão performativa, isto é, enquanto acção pragmática. Mas tal aconteceu porque aumentou o voto estratégico que oscila em função das configurações da paisagem eleitoral, das posições dos partidos nos rankings. Isto significa que as sondagens, através deste processo de retroacção, entram ilegitimamente no jogo eleitoral? Se elas, afinal, são um instrumento do cálculo do eleitor e não a sua instrumentalização, então não devemos tirar essa conclusão. O problema está noutro lado: na modalidade do discurso político que engendrou este cidadão-termostato cuja acção é profundamente uma reacção.

 

Vivemos colectivamente (refiro-me ao espaço público mediático), durante estas últimas semanas, sob o primado da política dos políticos e da política dos media. A cena política, em momentos como este, transforma-se numa arena onde cada um exibe uma virtual potência de decisão em todos os domínios da sociedade. Sabemos, no entanto, que tanta vontade e preparação para fazer mil e uma coisas não passa de tagarelice por várias razões: porque quem chega ao poder governamental tem de se conformar com uma fraca soberania, só pode agir respeitando os poderes formais e informais das instituições europeias, das contingências internacionais do mundo globalizado (as guerras, as crises económicas, os ditames da grande finança mundial, etc.); porque a classe política, por mais que tenha a seu cargo a acção administrativa e gestionária, não consegue realizar o que propõe nos seus discursos porque se confronta com o condicionamento dos poderes burocráticos.


Há uma regra que não devemos esquecer: a política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Este discurso funciona sob o signo da infantilização. Por todo o lado a política é vista como uma vulgata para crianças retardadas. E as campanhas eleitorais não são mais do que um simulacro. Mas talvez esta seja uma condição benévola: muito pior seria que não se cumprissem os protocolos para salvar as aparências que asseguram, apesar de tudo, alguma estabilidade do sistema.

 

Seria, no entanto, muito interessante saber em que acreditam verdadeiramente os protagonistas políticos, quando já estão fora do jogo eleitoral. Ao contrário do que se passa noutros domínios de actividade, este é um campo onde raramente se pratica o metadiscurso, o desdobramento reflexivo: há um pathos de primeiro grau que sobrevive e se torna duro como pedra em quem ocupou cargos políticos de relevo. Entre nós, Cavaco Silva ilustra com uma rara intensidade expressiva esta persistência do discurso naïf de primeiro grau.

 

Livro de Recitações

“Travar a crise climática não está na mesa de voto

Slogan do movimento máximo

 

Entre as várias razões que tornam inadequado e até contraproducente alguns aspectos do discurso e da acção destes “activistas” (tratarei de analisar em breve esse discurso) está o uso da expressão “crise climática”.

 

É certo que ela chega até nós mediada por muitas instâncias e entrou na linguagem corrente. Mas quem assumiu a missão – louvável e grandiosa – de alertar a opinião pública para este problema e levar os poderes políticos e económicos a agir de modo a interromper uma desastrosa corrida tem de começar por rejeitar a linguagem que neste campo é acriticamente usada e transmitida: a metáfora da “crise”, que até na política e na economia tem muitas vezes um objectivo de ocultação, revela-se pouco certeira para designar as alterações climáticas. As crises são momentos breves no curso das sociedades, correspondem a situações temporárias em que se dá uma perturbação do que antes dela era a normalidade.

 


A saída de uma crise implica, em maior ou menor grau, uma metamorfose. Ora, aquilo que é designado como “crise climática” afecta o receptáculo de todas as nossas actividades, não é uma “crise” particular e localizada.

 

 E, ainda mais importante, a temporalidade dos acontecimentos ambientais não tem nada que ver com a temporalidade das perturbações sociais e políticas que a palavra “crise” designa: trata-se de uma temporalidade que se situa numa escala geológica. 

  

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Carmo Afonso - Estragaram-se duas sopas de tomate

* Carmo Afonso

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva.

Ainda pensei que fossem Campbell, as sopas de tomate usadas pelas duas ativistas climáticas, na sexta-feira, no National Gallery em Londres. Poderia ser um ataque da Arte Pop a Van Gogh. Mas não; eram Heinz. O vídeo ficou viral em minutos. Milhares de pessoas expuseram a sua revolta e indignação perante a tentativa de destruição da pintura, “Girassóis”, avaliada em 86 milhões de euros (montante que ouvimos repetidamente).

As ativistas foram duramente criticadas pela sua ação e não sabemos ao certo se sabiam que o quadro estava protegido ou se pretenderam de facto fazer estragos. Ações semelhantes visaram outras obras de arte e é sabido que todos os activistas estavam cientes de que estavam protegidas e que pretendiam apenas chamar a atenção para a causa climática. Há uma forte possibilidade de também ter sido o caso aqui.

“O que vale mais, a arte ou a vida?”

Esta foi a pergunta formulada pelo movimento a que pertencem e que deveria ser respondida. Na visão do Just Stop Oil, as pessoas valorizam mais a arte e foi isso que as duas activistas tentaram demonstrar. Nesse aspecto, a ação foi um sucesso absoluto. Se tivessem atacado uma pessoa, em vez de um quadro de Van Gogh, esse ataque não teria tanta repercussão.

Têm dúvidas?

Em abril deste ano um ativista climático imolou-se em frente ao Supremo Tribunal, em Washington, e morreu. Chamava-se Wynn Bruce, tinha 50 anos e protestava contra a destruição do planeta. A notícia não mereceu destaque. Talvez poucos se lembrem, ou sequer saibam, que aconteceu. Claro que obras de arte são mais valorizadas que vidas humanas.

Mas não era esse o sentido da pergunta das ativistas. Falavam da vida no planeta e na vida das pessoas na globalidade e era o seu valor que comparavam com o da arte. Mas, também neste sentido, têm razão. A ameaça de dano de uma obra de arte tem mais impacto do que a perspectiva de abismo que os cientistas apontam como sendo a direção que seguimos.
i-video

Activistas do Just Stop Oil atiraram sopa aos Girassóis de Van Gogh e depois colaram-se à parede. A pintura não sofreu estragos. REUTERS,JOANA GONÇALVES

Podemos dizer que danificar uma obra de arte, ou mesmo simular esse dano, não é a forma adequada para fazer passar a mensagem da emergência climática. O que é certo é que ainda ninguém descobriu qual é a fórmula certa para nos sensibilizar para o problema.

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva. Não vale a pena ir aos exemplos. Sabemos todos que o nosso comodismo egoísta e de curto alcance prevalece sobre a disciplina e o bom senso.

As ativistas tinham mesmo razão. As reações que desencadearam demonstraram-no amplamente. Não queremos ouvir o que têm para dizer e até pode dar-se o caso de serem sacos de vento, como tantos que há por aí, mas não é essa a razão para não as queremos ouvir. Fomos os clássicos velhos de espírito: sentimos muita estima pelo quadro de Van Gogh, que ainda por cima é tão valioso, mas muito pouco pelo próprio planeta. Reagimos em barda, e como cães de Pavlov, à imagem da sopa de tomate derramada na pintura, mas somos incapazes de – mesmo depois de saber que está intacta – perder uns minutos a pensar sobre o que aquelas duas raparigas queriam dizer.

Há outro aspecto importante aqui: é que ninguém gosta de fazer figura de parvo. E estas ativistas também provocaram isso. A generalidade das pessoas que partilharam o vídeo, e que manifestaram as suas críticas à ação das duas jovens, não sabia de todo que o quadro estava protegido. Todos se precipitaram a elaborar relambórios sobre a perda inestimável, a importância da arte e a gravidade do crime. Para nada. A obra estava protegida, como costumam todas estar. As pessoas podem perdoar muitas coisas, mas não que as ponham a fazer figuras destas. Também por isso, as jovens não caíram nas boas graças da opinião pública.

Um ato, que parecia ser radical, foi uma partida. Radical foi Van Gogh quando cortou a própria orelha, radical foi Wynn Bruce e radical é o que a comunidade científica nos diz sobre o futuro da humanidade e do planeta.

As ativistas foram detidas, mas, vamos lá ver, não é que tenham tentado fugir. Pelo contrário, colaram-se à cena do crime. Nem aí se pode encontrar a sua derrota. Ter-lhes-á corrido tudo de feição.

Estragaram-se duas sopas de tomate e as pessoas ficaram muito zangadas. O ativismo climático não marcou pontos junto da opinião pública. Se o objectivo fosse esse, teria falhado. Mas a obra está a salvo, as pessoas zangadas é que não.

Advogada
  17 de Outubro de 2022
https://www.publico.pt/2022/10/17/opiniao/opiniao/estragaramse-duas-sopas-tomate-2024262

domingo, 6 de dezembro de 2020

Ferreira Fernandes - O caso vulgar na tenda à porta de São Bento

  Ferreira Fernandes
OPINIÃO

“Já conhece o conceito do nosso restaurante?”, devia ter perguntado o empregado de mesa ao cliente Chicão, quando ele entrou na tenda.

6 de Dezembro de 2020, 7:20

No sopé da Assembleia da República montou-se uma tenda de aparentes pacatos insurretos. Nesta República que ainda não tem meio século, já ali houve pedreiros a sequestrar deputados, corporações insultando governos e até polícias ameaçaram galgar pela escadaria. Desta vez eram cozinheiros do movimento Sobreviver a Pão e Água, e com a barriga em greve de fome – bendito povo em que até os cozinheiros parecem ter dedo para as palavras. Parecem, mas será assim?

“Já conhece o conceito do nosso restaurante?”, devia ter perguntado o empregado de mesa ao cliente Francisco Rodrigues dos Santos, o Chicão, quando ele entrou na tenda. Mas não havia empregado nem mesa, só a tenda. Sem a pergunta e sem reserva, o Chicão sentiu-se perdido. Para dizer a verdade, os cozinheiros também estavam perdidos, mas eles davam a impressão de não o sentir nem saber.

Para dizer outras verdades, os cozinheiros eram meia dúzia de famosos donos de restaurantes, com a presunção de serem os únicos a servir um drama nacional. De bom até então só tinham o título do tal menu sugestivo “A Pão e Água”, o que era mau. Chamava a atenção como uma boa tabuleta numa casa de maus repastos. A quantas falências já isso levou!

A tenda apresentava o cenário comum das insurreições. Havia a confusão igualitária das revoluções que ainda não foram avante. Os insurretos anónimos estavam por ali espalhados. Havia ainda o sublinhar do sacrifício, os cozinheiros derramavam-se pelas cadeiras, exaustos como o Remexido na serra algarvia, sem estratégia.

O cliente Chicão entrou e logo se revelou tenrinho. Pediu licença, sentou-se, juntou as palmas das mãos e meteu-as entre as pernas – não é alegoria, é a descrição factual (vejam o vídeo  https://www.youtube.com/watch?v=aNnylaqvCrA&feature=emb_title). Depois, lembrando-se que afinal de contas era líder de um partido antigo, ali ao lado representado na casa da democracia, disse: “O CDS…”

Logo da turba dos cozinheiros emergiu um mais igual que os outros, Ljubomir Stanisic, o cozinheiro a ferver: “Querido, posso pedir-te um favor? Se voltares a falar de partido, vou ter de pedir para saíres...” Disse-o em tom de banho-maria, é certo. Mas violento como um populista que foi acampar para a entrada da casa dos políticos, para falar com eles, e quis aboli-los, antes de falar com eles.


Ljubomir Stanisic, à esquerda, e Francisco Rodrigues dos Santos, à direita DR

Uma gentil chefe de sala levou Chicão para o empedrado da rua. Ser expulso de um dos restaurantes caros dos cozinheiros ali em luta já seria uma humilhação. De uma tendinha, então…

Talvez tudo pudesse explicar-se pela falta de pundonor de Chicão, um caso infeliz de tipo com alguma grimpa, mas sem mais. Ainda o outro dia, discursava ele no Funchal e foi filmado catatónico só por causa de ligeiro tremor de grau 5,3 da Escala de Richter. Calado e esbugalhado.

A história desta semana também podia contar-se como ironia com pitada cultural. O comunista alemão Bertolt Brecht, que passou a vida a dar ânimo aos proletários de todo o mundo, fez um poema em que convocou Alexandre da Macedónia, o Filipe da Armada Invencível, o Frederico II da Prússia e outros grandes vultos da História. E, a seguir a cada nome sonante, Brecht punha uma perguntinha que desenterrava os ausentes que há em cada arco de triunfo e na memória de cada feito. Por exemplo: “O jovem Alexandre conquistou as Índias./ Sozinho?”.

O poema chama-se Perguntas de um Operário Letrado e os dois versos que aqui me interessam são: “César venceu os gauleses./ Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?” Tungas! Os de baixo, sempre esquecidos…


Então, o incidente da tenda de São Bento, esta semana, quando um jovem líder político foi varrido da História e um cozinheiro elevado, não simplesmente a chef, mas a chefe, a porta-voz do drama de uma profissão inteira, podia ser invocado como suprema ironia. Podíamos imaginar o Brecht vingado, a levantar-se de punho erguido no pequeno cemitério de Berlim onde jaz… Mas essa versão é falsa e eu venho aqui apresentar melhor interpretação.

Em Saint-Denis, berço dos antigos reis franceses e arredores vermelhos de Paris, transformou-se um convento no museu de Paul Éluard, o maior poeta surrealista. Mais ou menos pela mesma altura (década de 1930, anos de todos os populismos) em que o alemão Brecht celebrou milhares de ajudantes de Júlio César na Gália, também o francês Éluard escreveu a frase: “É preciso retirar a César tudo o que não lhe pertence”.


Paul Éluard

Acontece, e isso não é incompatível (talvez só um pouco surreal), nesse museu, antigo convento, há uma reprodução do quadro de Rubens “O Imposto devido a César”, com Jesus ensinando o bíblico “dar a César o que é de César”. No que ficamos? No retirar (de Éluard), ou no pagar (de Jesus)?

Aproveitando o facto de o quadro estar por estes dias a ser restaurado em Saint-Denis, volto ao assunto desta crónica, a restauração que está nas ruas da amargura por cá (e também em Saint-Denis e Manhattan e Londres…, mas não nos dispersemos). E volto com a lição de Brecht e de Éluard, ambos certeiros sobre a necessidade de desnudar a injusta acumulação de fama e de proveito dos poderosos.

E junto essa lição à de Rubens e de Jesus que acautelam o que está estabelecido, porque os homens devem ser mudança mas também continuidade. Justiça e prudência, eis duas das ambições que mais nos fizeram avançar – e quanto mais fortes são quando se juntam!

Sobretudo volto a uma lição comum do quarteto que, receio, não foi tida em devida conta. Os quatro respeitaram as palavras, pintaram-nas bem. Sabemos o que qualquer deles – Brecht, Éluard, Rubens e Jesus – dizia ou pintava. E o que cada um queria dizer.


 O Imposto devido a César, de Rubens

O grave na história da tenda no sopé da Assembleia da República é o abandalhamento da palavra e a difusão desse nada. Porque não tendo a palavra clara, o populismo exprime-se na plenitude do seu nada ter para dizer. É Trump a tuítar com maiúsculas “GANHEI E À GRANDE” um totoloto que ele não jogou e a lista da Santa Casa desmente. É, à porta do Parlamento, mandar-se um político calar a sua condição de político.

Eu sei que apesar da manifesta fraqueza dos populistas com a palavra, há quem diga que eles ganham força com as palavras que os atacam. Pois eu digo: gentes de pouca fé na palavra. Ou têm é preguiça.

Jornalista

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Daniel Oliveira - Rodrigues dos Santos vs Ljubomir: da vergonha alheia ao insulto à democracia

OPINIÃO -  Rodrigues dos Santos vs Ljubomir: da vergonha alheia ao insulto à democracia -  03.12.2020 às 8h51  -  DANIEL OLIVEIRA

Ljubomir Stanisic dirigiu-se nestes termos a Francisco Rodrigues dos Santos: “Se voltares a falar de um partido, vou ter de te pedir para saíres. Não há partidos, querido. Votámos na Assembleia, é nossa. Já não conseguimos ouvir falar de partidos, é que ninguém está a apoiar-nos. Eu nem sei de que partido tu és.” O líder do CDS, que disse estar ali como cidadão, assentiu de cabeça baixa. Depois da vergonha alheia, senti-me ofendido. Quem quer ser ouvido, ouve. Quem quer ser respeitado, respeita. Mesmo quando tem pela frente um político que baixa a cabeça. Um político nunca deve ter vergonha de ser político. Se o for com orgulho, engrandece-o

Antes de avançar neste texto, quero dizer três coisas: que compreendo a situação dramática que vive toda a restauração; que simpatizo com parte das suas reivindicações e considero outras impossíveis de responder pelo Estado; e que compreendo que o Governo decida não receber nove empresários, mas apenas organizações que representam o sector. Sei que está na moda a inorganicidade, excelente para todo o tipo de oportunidades e oportunismos, mas um governo não pode negociar com dez milhões de pessoas. É também por isso que a sociedade civil se organiza em associações e sindicatos. Abrir este precedente seria alimentar uma farsa.

Vários políticos, do Chega ao Bloco de Esquerda, têm aparecido nos protestos da restauração. Não acho que isso seja uma forma de aproveitamento político. Faz parte da relação que os partidos mantêm com a sociedade. Claro que é preciso saber fazê-lo. Um líder partidário com experiência política fá-lo com as devidas cautelas, tentando saber previamente como será recebida a sua presença. Para não insultar os que protestam com ela e para não ser insultado de volta. Sobretudo se leva com ele a comunicação social.

No último feriado, Francisco Rodrigues dos Santos foi visitar os empresários da restauração que estão em greve de fome em frente ao Parlamento. Para além de ter atribuído a Agustina Bessa-Luís um poema de Sophia de Mello Breyner – o risco do citador compulsivo que não é leitor compulsivo é o de tropeçar na fraude que alimenta –, o líder do CDS participou num dos momentos mais constrangedores em que alguma vez um líder partidário se viu envolvido.

De fato e gravata num feriado, com outros dirigentes do CDS e a comunicação social atrás, explicou que não estava ali como líder partidário, mas como cidadão. Uma mentira tão óbvia que só poderia correr mal. Depois, sentado com os empresários, criticou o “emplastro” (André Ventura) que se tentou colar à manifestação. A reação não foi boa: “estás a falar como um político”, disse o chef e empresário Ljubomir Stanisic, como se lançasse um insulto. Como há de falar um político? Francisco Rodrigues dos Santos não percebeu logo que aquilo só lhe podia correr mal. E continuou, como cidadão, a falar das propostas do CDS. Até que Ljubomir se dirigiu a ele nestes termos: “Se voltares a falar de um partido vou ter de te pedir para saíres. Não há partidos, querido. Estamos aqui humanamente. Acredita, por favor, respeita-nos como cidadãos. Votámos na Assembleia, é nossa. Já não conseguimos ouvir falar de partidos, é que ninguém está a apoiar-nos. Eu nem sei de que partido tu és.” A tudo isto, o líder do CDS assentiu, obedientemente, de cabeça baixa.

A primeira coisa a dizer sobre isto é óbvia: não é “emplastro” quem quer, é quem sabe. O líder do CDS achou que podia fingir que era um simples cidadão e participou numa cena humilhante. A segunda tem a ver com a primeira: um político nunca deve ter vergonha de ser político. Nunca vai a um acontecimento político como cidadão. Ser político, se o for com orgulho, não o diminui, engrandece-o. Assumir a menoridade da política é ceder.

Depois de ver o vídeo captado por um canal de televisão, fui matutando na vergonha alheia. E cresceu em mim, depois da pena, um sentimento profundo de ofensa. Pela forma como o líder de um dos partidos que fundou a democracia baixou os olhos perante alguém que o tratava condescendente por “querido” e ameaçava mandá-lo embora se ele voltasse a falar do partido que dirige. Como se liderar um partido fosse uma coisa suja. E, no entanto, ao contrário de Ljubomir, Francisco Rodrigues dos Santos foi escolhido por alguém para liderar alguma coisa.

Fui ouvir de novo aquelas frases absurdas Ljubomir Stanisic. Estava em frente a um Parlamento, onde a representação dos cidadãos se faz por via dos partidos, mas não queria ouvir falar de partidos. Quer que os políticos o ouçam, mas quer que não sejam políticos quando falam. Diz que ninguém faz nada por eles mas recusa-se a ouvir o que um líder de um partido acha que deve ser feito por eles. Quer ser reconhecido como representante de um protesto mas não quer saber que partido representa a pessoa que está à sua frente. Subitamente, e Deus saberá como isso é uma impossibilidade, senti-me no lugar daquele político trapalhão. Aquele empresário, que diz que fomos “nós” (e isto inclui-me a mim, por isso falava em meu nome) “votámos na Assembleia”, despreza de forma ostensiva aqueles que nós todos (e não apenas eles) elegemos. Mesmo não sendo deputado, Francisco Rodrigues dos Santos lidera um partido com deputados. Ljubomir pode nem querer saber quem é aquela pessoa. E, não primando pela boa educação e respeito pelos outros, pode tratá-lo como se fosse um badameco. Mas não pode fazê-lo em nosso nome, os que “votámos nesta Assembleia”. Isso eu não admito.

O problema destes movimentos inorgânicos não é valerem menos do que a ação organizada de trabalhadores, empresários ou qualquer outra coisa. É, sem qualquer forma de eleição, escrutínio ou representatividade, julgarem que valem mais. Nada disto reduz a minha solidariedade com os dramas que se vive na restauração e com algumas das suas exigências. Mas sempre que, no meio deles, aparece alguém que insulta a democracia, eu próprio me sinto insultado. Quem quer ser ouvido, ouve. Quem quer ser respeitado, respeita. Mesmo quando tem pela frente um político que não se dá ao respeito e baixa a cabeça em vez de se levantar e sair. Políticos que acham que servem para ser sacos de pancada estão destinados a ser saco de pancada. Mas fazem mal à democracia.


terça-feira, 5 de maio de 2020

José Diogo Quintela - A desconfina flor


* José Diogo Quintela

Bizarramente os meus compatriotas optaram por fazer fila em cabeleireiros e barbearias em vez de se dirigirem, como eu, à sede da CGTP. Um processo de filiação que vale bem mais que um corte de cabelo
05 mai 2020, 00:1025

Como todos os portugueses que passaram as últimas semanas em quarentena, saí ontem de manhã preparado para enfrentar as bichas à porta do sítio onde toda a gente queria ir depois de quase dois meses de confinamento.

Bizarramente, ao chegar lá, não tinha ninguém à frente. Os meus compatriotas optaram por fazer fila em cabeleireiros e barbearias, em vez de se dirigirem, como eu, à sede da CGTP. Um processo de filiação que vale muito mais que um corte de cabelo. A trunfa espera bem mais dois ou três dias, eu já estou treinado a não olhar para espelhos. Mesmo importante é não perder os benefícios de pertencer à Intersindical. Nunca se sabe se não volta o Estado de Emergência. Prefiro ser um guedelhudo e passear por onde me apetece, do que um penteadinho que tem de cumprir escrupulosamente todas as regras do isolamento social.

Obviamente, o segundo local onde me dirigi foi ao médico. Depois de 52 dias em casa com uma mulher, 4 crianças e um cão, fui a um o otorrinolaringologista. Neste momento, estou surdo e não consigo falar sem ser aos berros. Sinto-me como um idoso que é capataz numa serração. Que opera dentro de um Hércules C-130. Onde estão a tocar os Moonspell. Com a Dulce Pontes como convidada especial.

O curioso é que, cá em casa, não notámos que estávamos a gritar muito uns com os outros. Só nos apercebemos no dia em que a polícia veio avisar que não podíamos fazer uma festa àquela hora da noite, quando eu só estava a embalar o meu filho com uma canção e umas palmadinhas na fralda.

(Por falar no bebé, tenho pena que, apesar do que a Ministra da Saúde disse, a Igreja mantenha o plano de festejar o 13 de Maio sem peregrinos, por causa do coronavírus – ou seja, desta feita, em vez de trazer pessoas a Fátima, um ser invisível afasta pessoas de Fátima. É que gostava de lá ir prestar homenagem. Nesta quarentena, desenvolvi uma admiração especial por Nossa Senhora. Também ela criou um filho que não tinha crianças com quem brincar. Maria, por causa de Herodes, que mandou matar todos os bebés até dois anos. Eu, por causa desta quarentena que tirou o miúdo da creche e me obriga a passar as 24 horas do dia com ele.

Não aconselho, aturar um pirralho que não tem amiguinhos da sua idade com quem se entreter. É que o meu filho está mesmo a imitar Jesus. Julga que eu sou Deus, porque parece achar que a minha paciência é infinita. E, de certa forma, também transforma água em vinho: desde que fiquei confinado com ele, é raro não estar com um copo de tinto na mão).

Apesar dos gritos, não se julgue que a quarentena foi um mau período familiar. Pelo contrário. Acho que tanto tempo juntos, ainda mais do que o costume, fortaleceu as relações entre todos. Especialmente, devo dizer com surpresa, a minha relação conjugal. Sinto que saímos deste período com um casamento ainda mais sólido. Na adversidade, conseguimos desenvolver uma cumplicidade que está ao alcance de poucos casais. No início, foi difícil. Qualquer coisa que um de nós dizia servia para iniciar uma discussão.

– O que vai ser o jantar?
– “O que vai ser o jantar?”, não é?
– Sim, qual é o problema?
– Podias perfeitamente ter perguntado “o que é o jantar?”, mas tinhas de enfatizar que é no futuro, não é? “O que vai ser”. Vai ser, porque esta preguiçosa ainda não fez nada. Se calhar nem vai fazer, a calona.
– Mas interessa a forma como eu conjugo?
– Ah! “Eu com jugo”! Lá está o menino a fazer-se de vítima. Tem uma canga pendurada, é?
– Não foi nada disso que eu disse.
– Fui eu que ouvi mal. Sou surda, querem ver?
– Não és nada surda.
– Então sou mentirosa. É isso?

Depressa percebemos que assim não íamos durar muito. E, ao longo das semanas, evoluímos. Deixámos de discutir por qualquer coisa que alguém dissesse. Começámos a entendermo-nos, já sabíamos o que o outro estava a pensar. De maneira que passámos a discutir quando ninguém dizia nada.

– O que foi isto?
– Eu não disse nada.
– Não disseste, mas a tua barriga fez barulho. Aí, a roncar de fome, como quem pergunta “o que é que vai ser o jantar?” “O que vai ser”, não é?

sábado, 16 de novembro de 2019

JPP - Ó homem, os cajados são para suportar o corpo na idade e nas inclinações das serras!



* José Pacheco Pereira

OPINIÃO

É nestas alturas que eu tenho muitas saudades de Mário Soares, porque estou a vê-lo sair do carro sem hesitação e dirigir-se aos manifestantes.
16 de Novembro de 2019, 6:03

Um secretário de Estado, responsável por uma história pouco esclarecida a propósito das concessões mineiras do lítio, foi a um dos locais onde é suposto ir haver as ditas minas. Foi a Boticas, e escolheu muito mal a terra, por razões que adiante se verão.

Chegou lá e havia um ajuntamento hostil à sua espera. O homem encolheu-se e voltou para trás. Chamou a GNR e voltou lá de novo, pensando certamente que a protecção dos guardas metia medo aos habitantes de Boticas. Não meteu medo nenhum, e ele nem saiu do carro, encolheu-se de novo, retirou-se, para depois fazer a habitual acusação de que estavam lá pessoas de Montalegre, que convinha dizer-lhe que é um pouco mais acima.

É nestas alturas que eu tenho muitas saudades de Mário Soares, porque estou a vê-lo sair do carro sem hesitação e dirigir-se aos manifestantes. Posso falar à vontade, porque já me aconteceu coisa semelhante e posso dizer-vos que, após um momento tenso, o PSD que estava “proibido”, por umas milícias justiceiras de entrar numa terra de Aveiro, entrou solitário e acabou por ganhar as eleições. Está na imprensa da época. Mas, pelos vistos, a escola de Soares está em desuso.

Eu conheço bem Boticas, onde dei aulas, naquela diáspora que os professores tinham que fazer. E foi um daqueles tempos que nunca esquecem. Aprendi muito sobre a natureza, a mesma natureza que as minas agora ameaçam. Aluguei uma casa na aldeia de Pinho, e lembro-me de que tinha havido um grande incêndio entre Boticas e Pinho, estando tudo enegrecido. Aprendi como o negro “comia” a luz dos faróis. Aprendi também o que era ter uma nuvem no andar térreo, onde havia a arrecadação da lenha, e o primeiro andar da habitação de onde, na varanda, se via um sol luminoso e quilómetros de serra. Descia-se e era nevoeiro cerrado, meia dúzia de metros abaixo. E o frio que fazia brilhar uma paisagem imaculada, que ia do Barroso até Vidago, onde começava outro mundo.

Havia também outra natureza que se aprendia. Uma vez, o então chefe de secretaria da escola, que era retornado, perguntou-se se eu não tinha medo de morar sozinho numa casa isolada na montanha. Eu disse-lhe que não, não era zona de lobos, e que a minha única preocupação eram cães vadios, e à beira da cama tinha uma caçadeira, por isso estava confortável. “Não, não era disso. Eu queria saber se não tinha medo do Diabo”. E depois contou-me que uma vez o Diabo lhe tinha puxado os cobertores da cama. Bom, com o Diabo não havia muito a fazer. E havia os meus jovens alunos que vinham das aldeias da serra com uma espécie de pistola de madeira e fulminantes para assustar os lobos e que pediam autorização para escrever na “coroa” da página. E um padre que parecia saído de um livro de Aquilino, com quem almoçava num restaurante sobre o qual Ferreira de Castro tinha escrito, e que me dizia que quando as mulheres lhe pediam para as abençoar a elas e aos bois, lhes dizia “vade retro mulieribus”, e elas ficavam muito contentes. Não me esqueço do que devo a Boticas e, num irrelevante agradecimento, ajudei a recuperar alguns elementos para a monografia da terra.

A beleza de Boticas não era resultado de uma opção, mas da pobreza e da interioridade. Não havia fábricas, o mais parecido era a empresa das águas de Carvalhelhos e, nas aldeias à volta, havia a economia de subsistência do Barroso e do Larouco, algum comércio de gado, e de produtos florestais. Também não me esqueço do que me disse um homem da terra “não sei como o senhor doutor gosta disto, são só serras e árvores”.

Por isso, assustei-me com a história do lítio, não sem alguma dúvida sobre como os homens e as mulheres de Boticas iam receber a possibilidade de não ser “só serras e árvores”. Nestes anos, todos Boticas estragou-se alguma coisa mas pouco. A sua população tem muito serviços essenciais, melhorou a sua condição e diminuiu o isolamento das aldeias da montanha. Mas de Montalegre até ao Douro, vários ecossistemas foram destruídos, desde as cumeadas cheias de eólicas, até aos vales dos rios desaparecidos debaixo das barragens e, com eles, as velhas linhas férreas herdeiras do Fontes Pereira de Melo.

O secretário de Estado, que não saiu de dentro do carro ao ver uns cajados, trazia consigo um dilema que não é fácil de resolver, uma promessa de empregos, de dinamismo económico local, com o preço da destruição do meio ambiente disfarçado de juras sobre a inexistência de impacto ambiental. O que os meus amigos transmontanos sabem de ciência certa, é que em todos os sítios onde houve essas promessas, nem houve emprego estável, nem desenvolvimento para as terras, mas situações de destruição irreversível do valor ecológico, turístico, cultural das suas terras. E sabem também que alguém lucrou muito, chegou lá, sugou tudo de valor, e depois deixou os estragos.

Colunista

sábado, 1 de maio de 2010

Um feliz 1º de Maio - Carmen

1/Mai 11:28
Carrmen diz:
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COM UM ABRAÇO E OS MEUS VOTOS DE UM FELIZ DIA 1º DE MAIO!




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Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.

(Karl Marx)
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sábado, 19 de abril de 2008

1º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador: o que fazer?

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por Augusto César Petta*

''A todos que saíram às ruas,
De corpo-máquina cansado,
A todos que imploram feriado
As costas que a terra extenua
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário - este é meu maio!
Sou camponês - este é o meu mês!
Sou ferro - eis o maio que quero!
Sou terra - o maio é minha era!''

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(Meu Maio, Vladimir Maiakovski)



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Chicago, maio de 1886
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Em 1886, a cidade de Chicago, um dos principais pólos industriais dos Estados Unidos, foi palco de importantes manifestações operárias. No dia 1º de maio, iniciou-se uma greve por melhores salários e condições de trabalho, tendo como bandeira prioritária a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias.Os jornais a serviço das classes dominantes, imediatamente se manifestaram afirmando que os líderes operários eram cafajestes, preguiçosos e canalhas. No dia 3 de maio a greve ainda continuava e na frente de uma das fábricas, a polícia matou seis operários, deixando 50 feridos e centenas de presos. No dia 4, houve uma grande manifestação de protesto e os manifestantes foram atacados por 180 policiais, que ocasionaram a morte de centenas de pessoas. Foi decretado ''Estado de Sítio'' e a proibição de sair às ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas e residências de operários foram invadidas e saqueadas.Os principais líderes do movimento grevista foram condenados à morte na forca. Spies, Parsons, Engel e Fisher foram executados no dia 11 de novembro de 1886, enquanto que Lingg, também condenado, suicidou-se.


Em 1891, no 2* Congresso da Segunda Internacional, realizado em Bruxelas, foi aprovada a resolução histórica de estabelecer 1º de maio, como üm ''dia de festa dos trabalhadores de todos os países, durante o qual os trabalhadores devem manifestar os objetivos comuns de suas reivindicações, bem como sua solidariedade''.


No Brasil, as comemorações do 1º de maio, também estiveram relacionadas à luta por melhores salários e pela redução da jornada. A primeira manifestação registrada ocorreu em Santos, em 1895. A data foi consolidada, quando um decreto presidencial estabeleceu o 1º de maio como feriado nacional, em 1925. A efeméride ganhou status de ''dia oficial'', quando Getúlio Vargas era Presidente da República. Ele aproveitou o dia para anunciar, em anos diferentes - fruto de intensas lutas dos trabalhadores - , os reajustes de salários mínimos e a redução da jornada.


Em 2008, no dia 1º de maio, várias manifestações, em todos os Estados, serão realizadas, coordenadas pelas Centrais Sindicais - inclusive pela Central Dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - CTB. As reivindicações prioritárias dos trabalhadores serão explicitadas publicamente, fazendo com que o 1º de maio seja um dia de luta.São elas:


* Redução da jornada de trabalho sem reduçào de salário
* Reforma agrária
* Ratificaçào da convençào 158 da oit, que impede demissão imotivada.
* Ratificaçào da convençào 151 da oit, que trata da negociação dos servidores públicos
* Fim do fator previdenciário


No dia 1º de maio, os dirigentes sindicais, ao mesmo tempo que lutam para que a sociedade seja mais justa precisam conscientizar os trabalhadores para que estes entendam que todos os direitos que temos hoje, mesmo que precários, são decorrência da luta desenvolvida pelos próprios trabalhadores em épocas diferentes e nos vários países. Muitos líderes perderam a vida e a eles devemos prestar nossas homenagens, inclusive aos ''Mártires de Chicago''.


O que os dirigentes sindicais devem fazer?


Atividade principal: mobilizar a diretoria da entidade e a categoria em geral, para estar presente nas manifestações de 1º de maio, isto é nos atos, passeatas, panfletagens e outros tipos de atividades desenvolvidas pelas várias entidades conjuntamente.


Na semana que antecede 1º de maio, e no próprio dia, a CTB estará empenhada em colher assinaturas pela redução da jornada de 44 para 40 horas, reforçando o projeto de lei dos atuais senadores Paulo Paim (PT-RS) e Inácio Arruda (PCdoB-CE).


Conceição Aparecida Fornasari, professora da Unimep, diretora do Sindicato dos Professores de Campinas e Região e da direção do PCdoB de Santa Bárbara do Oeste apresenta algumas sugestões do que as entidades sindicais poderão realizar, além de participarem das manifestações acima descritas:


1. Leitura de textos, poemas e projeção de filmes específicos com o objetivo de suscitar o debate sobre o Dia Internacional dos Trabalhadores, sua lutas e vitórias.


Sugestões de filmes:


Eles não usam black tie; Braços cruzados, Mäquinas paradas; Linha de Montagem; ABC da Greve; Os Peões; Segunda-Feira ao Sol; Tempos Modernos; Classe Operária vai ao Paraíso; Os Libertários; Germinal; Pão e Flores; Outubro; Terra e Liberdade; As Margaridas; A Luta pela Terra; Expedito em busca de outros Nortes; Morte e Vida Severina; O Canto da Terra; Terra para Rose; Patativa do Assaré o Poeta do Povo.


Sugestão de textos


Alguns autores importantes para a compreensão das lutas operárias e do sindicalismo, entre outros: Altamiro Borges e Antonio Augusto de Queiroz; Augusto César Buonicore; João Batista Lemos; João Guilherme Vargas Netto; José Carlos Ruy; Osvaldo Bertolino; Sergio Barroso; Umberto Martins (todos esses, colunistas do Vermelho); Armando Boito Júnior; Giovanni Alves; Marcio Pochmann.


Sugestões de endereços eletrônicos:


www.cttb.org.br
www.vermelho.org.br
www.dieese.org.br
www.diap.org.br
www.mtb.gov.br
www.oit.org.br


2. Poderá também ser realizado um fórum de debates com temas específicos sobre a situaçào específica da mulher trabalhadora, do trabalho infantil, do trabalho escravo.


As manifestações e demais atividades relativas ao 1º de maio serão base para o dia nacional de luta e paralisações - 28 de maio, cujas bandeiras principais serão redução da jornada e ratificação das convenções 151 e 158 da oit.


Desejo a todos os leitores um bom 1º de maio com muita luta, manifestações, atividades e homenagens a todos que contribuíram para que os trabalhadores conquistassem direitos e caminhassem rumo a uma sociedade justa e democrática.




*Augusto César Petta, é diretor do Sindicato dos Professores de Campinas e Região, do Centro de Estudos Sindicais e membro da Comissão Sindical Nacional do PCdoB.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho -
18 DE ABRIL DE 2008 - 20h47
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