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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bruno Amaral de Carvalho - De mãos dadas contra a fúria do vento

Clima

Quando as primeiras pessoas saíram de casa na manhã do dia 28 de janeiro, viram aquilo que poderia ter sido o retrato de uma cidade num país em guerra ou de um terramoto. Depois da fúria do vento amainar na Marinha Grande, já com a luz do dia, encontraram, por todo o lado, chapas torcidas, sinais de trânsito arrancados pela tempestade, fábricas destruídas, telhados levantados, enormes árvores atravessadas em rotundas e avenidas, janelas partidas, viaturas esmagadas por muros que ruíram.

Bruno Amaral de Carvalho Fevereiro 2, 2026

Sem eletricidade, água ou forma de comunicar com o exterior, na manhã a seguir à tempestade, a estupefação e o medo deu lugar à necessidade de enfrentar a realidade. Houve quem decidisse fazer de polícia sinaleiro para ordenar o trânsito numa cidade sem semáforos, outros começaram a recolher entulho e a providenciar formas de dar um tecto aos desalojados.

Nessa manhã, bem cedo, o jovem operário vidreiro Carlos Teixeira com outros seus camaradas do PCP decidiram abrir o Centro de Trabalho à população. “Começou com um quilo de arroz e um fogão de campismo”, descreve. Pouco a pouco, começou a chegar cada vez mais gente a querer ajudar ou a precisar de ajuda. Foi a primeira organização da cidade a arregaçar as mangas e a pôr as mãos ao trabalho. 

Quatro dias depois, a sede do PCP, naquele que foi historicamente um dos seus bastiões, é um corrupio de mulheres e homens que trazem lonas, roupa, alimentos, água, colchões, fogões e bilhas de gás. É também dali que saem brigadas para distribuir comida à população e grupos de enxadas, pás e motosserras ao ombro. Quase a paredes meias com a igreja fechada, dezenas de veículos estacionam como podem em frente ao enorme edifício vermelho com ajuda vinda de lugares tão insuspeitos como o Alto Minho. Em cima de um tapume das obras, aparece uma faixa, acabada de pintar, com a foice e o martelo cruzados, que diz “só o povo salva o povo”.

João Norte, responsável do PCP na Marinha Grande, explica que muitos dos voluntários que chegam às instalações da autarquia para ajudar, acabam por ser mandados embora porque não lhes conseguem arranjar trabalho. “Temos muita gente que chega aqui e que não é comunista. Querem apoiar a população e sabem que estamos organizados com esse objetivo”, afirma. “Tentámos arranjar motosserras junto da câmara municipal e disseram que não tinham dinheiro, aconteceu o mesmo na junta de freguesia. Uns operários conseguiram trazer-nos umas motosserras e só ontem já conseguimos ter cerca de 20 equipas, cada uma com cinco pessoas, a desbloquear estradas, jardins e escolas”.

Contudo, não tem ilusões, o que o PCP está a fazer é dar uma “resposta imediata”, tentando “minimizar as necessidades da população”. Os comunistas não têm meios suficientes para enfrentar uma situação desta dimensão e considera que é importante que o governo dê respostas. “Os meios são insuficientes. Não temos uma resposta nem do governo, nem da E-redes, sobre a reposição da energia elétrica. É preciso um reforço no terreno, é preciso um reforço nas autarquias”, sublinha.

Neste esforço comum coordenado pelos comunistas, vê como essencial “o impacto na comunidade”, lembrando que há muita gente que se sente isolada. Aqui não há só o conforto da comida quente, mas também palavras de desabafo. E gera-se uma onda de solidariedade. Há gente que diz: aqui está o PCP, como sempre”.

Enquanto decorre a entrevista, chega um casal de indianos que carrega produtos alimentares e garrafões de água. Satveer Kaur e Harmandeep Singh vivem na Marinha Grande desde 2015 e têm um supermercado ali ao lado. Dizem que é seu dever estar ao lado da comunidade num momento tão difícil. Algo envergonhados, explicam que não estão a fazer isto para serem entrevistados. Carlos Teixeira recorda que no primeiro dia, quando não era possível pagar com multibanco alguém disse a Satveer e Harmandeep que tinham de ter cuidado porque depois podiam ficar com dinheiro em falta. “Eles disseram que isso não importava, que o importante agora era ajudar”.

Lar de infância em emergência
Para além da cerca de uma centena de desalojados que estão no estádio municipal e em tendas do exército, há centenas de pessoas com problemas graves em casa. Se uns ficaram sem nada, outros têm as paredes e os tectos cheios de infiltrações. Podem ser muitas centenas neste momento em toda a cidade. Os problemas são muitos. A presidente da Junta de Freguesia da Marinha Grande, Isabel Freitas, eleita pela CDU, confessa que ela própria não tem eletricidade e água em casa. “Tenho ido tomar banho à casa do meu filho em Pataias”, conta. Com a responsabilidade da proteção civil na freguesia, teve como prioridade garantir a ajuda aos utentes dos lares, sobretudo aqueles que dependem de aparelhos alimentados por energia elétrica, e proceder ao cuidado das crianças em situação de acolhimento institucional num centro ali perto que viu um dos seus tectos de pladur desabar durante a noite.

Estas meninas e meninos vão ser transferidos para uma creche e estão alojados temporariamente no centro dos escoteiros, onde a associação Teatro do Botão está responsável pela animação e o PCP pelas refeições. Fora da creche, futura casa destas crianças, dezenas de voluntários desdobram-se em esforços para transportar todo o recheio da instituição carregando sofás, fogões, máquinas de lavar a roupa e outro tipo de mobiliário. 

“Vem lá a carrinha do PCP”
A carrinha é branca e traz uma placa de madeira na sua traseira atada com duas cordas onde se pode ler “apoio PCP”. Com um amplificador, a voz de Maria Loureiro chega às casas das freguesias mais afastadas do centro da Marinha Grande. Depois de ouvir o altifalante preso ao tejadilho da viatura, uma idosa abre a porta e vem pedir comida. Vários voluntários ajudam-na a carregar alguns garrafões de água. Aqui não há eletricidade e as torneiras estão secas. De porta em porta, os comunistas vão perguntando o que faz falta e prometem regressar se necessário. Maria Loureiro explica que esta ajuda é essencial para romper o isolamento, para saberem que alguém se preocupa com elas. A dirigente comunista local, acrescenta ainda que trazerem comida quente para gente que há vários dias só tem comido enlatados é essencial.

Aos solavancos, as rodas da pesada carrinha branca atravessam cabos elétricos e outros detritos numa paisagem onde reinam centenas de pinheiros decepados. Aquele que é descrito como o eucalipto mais antigo da Europa foi arrancado pela raiz cujo diâmetro tem cerca de quatro metros.

Há muitos, muitos anos, por este cemitério de pinheiros atravessava um comboio de lata que carregava consigo a madeira que alimentava o fogo dos homens que criavam vidro. Desde meninos, ainda descalços, nas condições mais extremas, tornavam-se vidreiros ou empalhadeiras. Durante as longas décadas do fascismo, e já antes, praticamente desde que nasciam, ensinavam-lhes que o Estado servia os mesmos que os sujeitava à miséria e à pobreza.

Pela estrada, também entre pinheiros, foram conduzidos para Lisboa, em 1934, vários operários agrilhoados para mais tarde estrearem o campo de concentração do Tarrafal depois de terem tomado o poder na cidade durante uma greve geral contra o fascismo, no episódio que ficou conhecido como o Soviete da Marinha Grande. 

Cerca de 60 anos depois, os operários vidreiros serraram pinheiros e atravessaram-nos nas entradas da cidade para impedir a chegada da polícia de choque que tinha ordens do governo de Cavaco Silva para reprimir a luta dos trabalhadores vidreiros contra o encerramento da empresa Manuel Pereira Roldão.

Em 2017, a população procurou sem êxito combater os incêndios que destruíram boa parte do pinhal, numa tragédia que ficou marcada a fogo na fisionomia do concelho. Oito anos e meio depois dos incêndios, a fúria do vento deixou milhares de árvores decepadas a perder de vista.

Cada cidade pulsa ao ritmo de quem a vive. Cada geração lega à seguinte o seu próprio passado que um dia foi presente e é neste encontro que se diluem as cicatrizes e os traumas, que tantas vezes forjam identidades. É impossível entender a Marinha Grande sem olhar para a sua história comum e para as suas formas coletivas de organização: com um poderoso movimento associativo, foi assim que os marinhenses enfrentaram todas as adversidades.

https://vozoperario.pt/jornal/2026/02/02/de-maos-dadas-contra-a-furia-do-vento/? 

sábado, 19 de outubro de 2024

Bruno Amaral de Carvalho - Beirute, capital da resistência




Bruno Amaral de Carvalho [*]
 
Uma cidade é feita de muitas contradições, das suas luzes e sombras, dos seus cheiros e sons e, sobretudo, das histórias de quem nela vive. Das costureiras aos artesãos, dos taxistas às cozinheiras. O Líbano é, hoje como no passado, um lugar assediado pelas bombas israelitas, onde mulheres e homens enfrentam a invasão com a dignidade de quem entende estar do lado certo da história. Beirute, uma vez mais, é a capital da resistência.

Esta mulher que está sentada no chão, de negro da cabeça aos pés, na marginal de Beirute, não tem praticamente nada. Não tem nome porque não se quer identificar nem que se lhe mostre o rosto. Um chapéu de sol, um colchão individual de espuma e a roupa que tem no corpo foi tudo o que conseguiu trazer na noite em que Israel começou a bombardear o seu bairro, nos subúrbios a sul de Beirute. Já passou uma semana desde que fugiu de casa com a família. A princípio, lavavam-se num dos muitos hoteis e condomínios de luxo com vista para o Mediterrâneo. Agora, nem isso podem fazer, diz, porque os proprietários se fartaram. Como esta família, há milhares de famílias por todas as partes. No areal da praia, no passeio marítimo, nos separadores e rotundas, em jardins, escolas, em varandas de casas sobrelotadas.

O governo libanês afirma que há, neste momento, um milhão de refugiados, números nunca vistos num país que já foi invadido por Israel quatro vezes, que viveu uma guerra civil e que tinha, até há bem pouco tempo, no seu território, cerca de dois milhões de refugiados palestinianos e sírios. Milhares de libaneses fogem agora para a Síria e para o Iraque. Os ricos fogem de iate para Chipre, numa prova irrefutável de que, como sempre, as tragédias são vividas de forma diferente consoante a classe social a que se pertence. Contudo, Beirute não esquece os seus e, por todo o lado, em cada esquina, é possível ver quem descarregue colchões, garrafões de água e outro tipo de víveres essenciais. E em vários pontos da cidade, organizações políticas recorrem à força para rebentar as portas fechadas de hotéis e edifícios desabitados para abrigar os refugiados, como aconteceu no bairro de Hamra, numa das primeiras madrugadas a seguir aos primeiros bombardeamentos. Num ato de revolta, gritando contra Israel, cerca de meia centena de jovens arrancaram o portão de um prédio vazio e a seguir conduziram várias famílias para o seu interior.

Dahieh, o coração da resistência

Esta mulher que está sentada no chão sem praticamente nada não é de um bairro qualquer. É de Dahieh, e Dahieh é uma espécie de nome maldito para Israel. Todas as noites, sem exceção, a população que vive no bastião do Hezbollah é castigada por apoiar a resistência. Foi aqui que no dia 27 de setembro a aviação israelita lançou 80 bombas com quase uma tonelada de explosivos sobre o quartel-general da organização xiita para matar Hassan Nasrallah e outras figuras importantes. De lágrimas nos olhos, diz ainda não acreditar que morreu. “Precisamos do Hezbollah para nos defender”. Durante quase um dia, o país parou em suspenso. Apoiantes e inimigos, todos esperavam saber da sorte de Nasrallah. Por volta das 14 horas do dia seguinte, gritos e lágrimas tomaram conta das ruas. E mulheres vestidas de negro como esta choraram a morte do seu herói.

O histórico secretário-geral do Hezbollah negociava uma trégua quando foi assassinado por Israel, o mesmo que acontecera ao líder do Hamas, Ismail Haniyeh, no Irão. Então, os Estados Unidos haviam prometido a Teerão que Telavive aceitaria o cessar-fogo se não respondesse ao atentado. Com a cumplicidade dos Estados Unidos, não só isso não aconteceu, como Israel estendeu a sua guerra ao Líbano e intensificou os ataques na Síria e no Iémen.

Caminhar pelo bairro de Dahieh é percorrer ruas completamente destruídas, ver automóveis esmagados e crateras onde antes havia prédios. É um cenário desolador. Sobre uma montanha de destroços, alguém pôs o retrato de Hassan Nasrallah. “Fuck Israel, we will win!”, gritam vários jovens quando se apercebem de que há jornalistas na zona. À Voz do Operário, um militante do Hezbollah que aceita falar sob anonimato recorda o papel do até agora líder da organização. “Era enorme. Tiveram de usar uma tonelada de explosivos para o matar. Prevaleceremos e venceremos”, afirma.

Há, neste momento, por parte de Israel, uma campanha de assassinatos de dirigentes das principais organizações da resistência libanesa e palestiniana. No bairro de Kola, em Beirute, a aviação israelita destruiu três andares de um prédio para matar três destacados militantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina, a histórica organização comunista que combate ao lado do Hamas e outras forças da resistência contra as forças de Israel em Gaza e na Cisjordânia.

A violência do ataque atirou varandas de ferro para o outro lado da rua. Ali, num descampado debaixo de um viaduto, centenas de documentos, livros e cartazes jaziam inertes como prova de fogo. Um documento de saudação à libertação de Lula da Silva da prisão, um cartaz com Fidel Castro a discursar em Havana e o retrato de Lénine eram alguns dos objetos que se podiam encontrar no local. No dia seguinte ao ataque, milhares de palestinianos e libaneses acompanharam o funeral que percorreu os vários campos de refugiados.

Israel ataca hospitais e centros de saúde

O Hospital Rafik Hariri fica ao lado do campo de refugiados palestinianos Mar Elias e demasiado perto de Dahieh. É o maior centro hospitalar de Beirute, com espaço para 550 pacientes. Todos os dias chegam aqui mulheres e homens vítimas das bombas de Israel. Neste momento, 80% da capacidade ocupada corresponde a feridos de guerra. “Até ao momento, temos reduzido ao máximo casos que podem ser adiados. Queremos todas as camas para as vítimas da guerra”, explica Jihad Sade, o diretor hospitalar, no seu gabinete. Com a experiência de quem já viveu várias invasões israelitas, descreve os trabalhadores que dirige como muito preparados para tratar o tipo de feridas mais comuns neste cenário de conflito.

Com o número de mortes provocadas por Israel desde 8 de outubro de 2023 a chegar aos 2 mil, incluindo 127 crianças, Jihad Sade diz que é imprevisível o comportamento de Telavive em relação aos equipamentos de saúde. Em Bachoura, um bairro central de Beirute, Israel atacou um centro de saúde durante a noite e matou nove profissionais de saúde. Como em Gaza, as forças israelitas não têm linhas vermelhas e ao fecho desta edição tinham morto já 73 destes trabalhadores em diferentes partes do país.

De acordo com este médico, a guerra vai acabar quando houver respeito entre todos. “Dêem direitos [aos palestinianos]. A força é temporária e o conflito não vai acabar se não respeitarem os direitos [dos palestinianos].

07/Outubro/2024

[*] Jornalista.

O original encontra-se em vozoperario.pt/jornal/2024/10/07/beirute-capital-da-resistencia/

sábado, 11 de maio de 2024

Viriato Soromenho-Marques - A batalha pela verdade factual

* Viriato Soromenho-Marques 

(Diário de Notícias 11 maio 2024)

Quando em 1968 as forças do Vietname do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet, contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.

Lembro-me, vivamente, de como, apesar da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo, os poderes que contam - o dinheiro e o seu braço político - aprenderam a prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a exuberância nua dos factos.

Sem o poder da imprensa livre, a Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu mandato.

Pouco antes da Ofensiva do Tet, a filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos, ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.

Os factos suscitam opiniões e interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4 de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.

A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.

https://www.dn.pt/6555146601/a-batalha-pela-verdade-factual/


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Bruno Carvalho: «Há situações em que não podemos ser meros espectadores»



 * João Manso Pinheiro    

 08.May.24    

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Em menos de um mês, A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, do jornalista Bruno Amaral de Carvalho, já está a preparar a terceira edição. O AbrilAbril conversou com o autor sobre a sua experiência numa guerra fora dos holofotes.

A um mundo de distância (e, para nós, o Donbass está mesmo num outro mundo), torna-se difícil acreditar que no meio daquela massa anónima existam mesmo pessoas. Que por ali andem criaturas dotadas com as suas próprias vontades, gostos, idiossincrasias engraçadas (para os outros). Que sejam, no fundo, como nós.

No Donbass estão os outros. Não lhes sabemos os nomes, não lhes é conhecida opinião ou vontade. Limitam-se a ser. Uns tantos mil que sobrevivem numa pequena cidade devastada por prolongadas batalhas, outros tantas centenas a combater em batalhões separatistas. Uma, duas, três, dez crianças que morrem na leva diária de bombardeamentos contra populações que vivem em terras com nomes que tão dificilmente sabemos pronunciar.

Este apagamento, de entre os vários motivos que levaram as redacções ocidentais a recusar-se a cobrir o que se passava no Donbass durante «o maior acontecimento geopolítico do pós-guerra fria», será talvez o mais flagrantemente antideontológico. Sem jornalismo e com a censura de órgãos de comunicação social «do outro lado», aquela gente é reduzida a coisa nenhuma. Não existem. Sem semblante de humanidade, é fácil odiarmos os nossos “inimigos” (ou pior: “os maus”).
Longe da vista, longe do coração.

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Conhecemo-los agora pelo nome: Luís Castañeda, colombiano, que veio estudar para Donetsk nos anos 80 e nunca mais voltou. Ekaterina, de Odessa, que em 2014 presenciou o massacre na casa sindical da cidade. Alexander, de 59 anos, antigo mineiro que sabe, hoje, distinguir artilharia pelo som. A família de Dima, que com a mulher e os quatro filhos viveu mais de um mês numa cave em Mariupol ou o soldado benfiquista que, em terras lusas, trabalhou na construção civil e hoje vigia estradas.

O Donbass está condenado a ser um «lugar errado»?


O que define um «lugar errado» não é a sua geografia. É o seu enquadramento político no contexto mundial. Há não muito tempo, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, dizia que a Europa é um jardim e, em contraposição, o resto do mundo uma selva. Imediatamente, veio-me à memória as imagens de seres humanos, africanos, expostos numa feira belga em 1958 como se fossem animais num jardim zoológico.

A herança colonial europeia está viva nas relações do Ocidente com os países do chamado Sul Global e não espanta que haja uma aproximação cada vez maior desses Estados com potências como a China, a Rússia, o Irão ou o Brasil. Quando alguém não nos trata como iguais, procuramos quem nos trate com dignidade e respeito. Nesse sentido, a imprensa hegemónica, alinhada com o poder, define quais são os lugares e quem são os líderes errados. Os talibans já foram os bons e agora são os maus. O Donbass continuará a ser um lugar «errado» enquanto não estiver debaixo do controlo de Kiev ou de qualquer outro aliado dos Estados Unidos e da União Europeia.

N’A Guerra a Leste, vários cidadãos das repúblicas de Donetsk e Lugansk (assim como a refugiados de diversas partes da Ucrânia) assumem uma posição separatista e, noutros casos, favorável à intervenção russa. É uma oportunidade de ver uma perspectiva praticamente inédita no panorama mediático europeu. Também havia, no Donbass, quem defendesse o outro lado? Seja a posição ucraniana ou simplesmente contra a adesão à Federação Russa?

Evidentemente, há gente que defende a manutenção do Donbass na Ucrânia ou a independência dessas repúblicas. Contudo, parecem-me opções minoritárias. Há também quem recorde com nostalgia a União Soviética. Antes da guerra, talvez houvesse espaço para um modelo confederal como tem a Suíça ou para um modelo de regiões com uma autonomia alargada. Os Acordos de Minsk previam essa possibilidade e eu acrescentava que podia ter sido adoptada uma solução como aquela encontrada no âmbito do Acordo de Dayton que criou duas entidades territoriais dentro da Bósnia, uma para a comunidade bósnia e outra para a comunidade sérvia.

Julgo que as opções eram muitas se houvesse vontade política dos actores em confronto, mas queria sublinhar a importância de se ouvir o que as populações têm a dizer. Não há nada mais democrático do que resolver este conflito auscultando-as e tomando decisões que respeitem essas escolhas.

O que aconteceu aos comunistas desta região? Apontas como, na última vez em que participaram em eleições (2013, foram banidos a seguir a 2014), tiveram cerca de 30% dos votos em algumas zonas do Donbass

Os comunistas eram uma força imprescindível desde o fim da União Soviética no Leste da Ucrânia. Sobretudo porque transportavam consigo essa herança histórica. Com a sublevação das regiões do Donbass em 2014, os comunistas foram importantes no processo de criação das autoproclamadas repúblicas.

Contudo, o contexto de guerra e a influência de Moscovo favoreceram a existência de governos quase de unidade nacional com um papel diminuído das forças comunistas. Mantêm a sua intervenção política num ambiente muito complexo, onde a maioria dos homens se encontra a combater. Lembro-me de estar em Donetsk no 1.º de Maio de 2022 e de haver uma manifestação, organizada pelo Partido Comunista, composta por mulheres e homens sem idade para participarem na guerra. Nas últimas eleições presidenciais, como aconteceu em praticamente toda a Rússia, os candidatos apoiados por Vladimir Putin arrasaram, incluindo no Donbass. Há muitas explicações para este facto. Uma delas é que ninguém quer mudar de presidente a meio de uma guerra e a outra é que há de facto muita gente que defende a intervenção russa no Donbass.

O apoio à intervenção da Rússia pode ser entendida como um apoio ao regime de Putin ou é um caso de interesses confluentes? Os separatistas garantem a independência e os grandes poderes económicos russos ganham acesso àquela que era a região mais industrializada da Ucrânia

Recordemos que os comunistas russos já tiveram diversos choques com as autoridades russas. Para além das questões económicas, houve militantes comunistas detidos em manifestações. A forma de regime também é questionada no sentido em que os comunistas russos, aos quais se juntaram os comunistas de Donetsk e Lugansk, defendem um regresso ao modelo soviético.

Há, certamente, contradições entre as forças que apoiam a intervenção militar e diferentes visões sobre como o conflito deve ser resolvido. Independentemente de estarmos de acordo ou não, a questão central apresentada pelos comunistas russos é a da necessidade de derrota do fascismo na Ucrânia e, naturalmente, a ilegalização dos comunistas ucranianos, e agora de praticamente toda a oposição, tem peso nessa análise.

Dos comunistas do Donbass com quem contactaste, qual era a posição deles em relação à Rússia de Putin (abstraindo-nos, um pouco, sobre toda a questão da invasão militar)

Vladimir Putin defende uma economia de mercado com alguma intervenção do Estado. Os comunistas defendem uma economia planificada. Há também visões distintas sobre como se deve organizar a sociedade.

Contudo, recordo que o presidente russo habilmente soube recuperar e valorizar a memória do passado soviético, sobretudo na preservação dos símbolos e dos monumentos, abdicando de confrontar uma história que é querida para uma parte substancial da população. Depois do desastre dos anos 90, com uma economia em colapso e com um presidente que abdicou da sua soberania, os russos parecem apostar na estabilidade económica e na preservação das suas fronteiras.

Dizes, a certo ponto, que não pertences a lado nenhum. É um contraste grande com a realidade no Donbass, onde tanto a população como alguns dos combatentes internacionais estão imersos numa luta de morte pelo direito a pertencer ao seu lugar

Mesmo que permaneça essa sensação de não pertencer a lado nenhum e ao mesmo tempo ser de todo o lado, ter um lugar donde se é também é um direito. Respeito muito a luta dos povos pela sua independência e autodeterminação e muitos desses combatentes estrangeiros acabaram por encontrar naquela luta e naquela terra o seu espaço. Foram recebidos de braços abertos por quem combatia e acabaram por obter a nacionalidade por parte das autoridades separatistas. Faz lembrar o título do enorme livro do jornalista Joseph North, Nenhum Homem é Estrangeiro [No Men Are Strangers, de 1958]

A luta que se trava no Donbass está muito longe de ser meramente uma disputa de territórios. Como mencionas n’A Guerra a Leste, há um confronto grande em termos de toponímia: Bakhmut mudou de nome para Artyomovsk em 1924, homenageando o revolucionário bolchevique Fyodor Sergeyev (Artyom). Voltou a mudar com a leis de descomunização de Poroshenko, em 2016. A recente conquista da cidade ditou a recuperação do nome soviético: Artyomovsk. No terreno, o confronto é muito ideológico?

Eu não diria que isso é sempre visível mas está presente. As tropas russas classificam o inimigo de fascista e essa é uma escolha que revela uma opção ideológica. Uma das consignas mais comuns no Donbass, mesmo que praticamente todos só saibam falar apenas russo, é «no pasarán», repetindo aquilo que aprenderam dos combatentes estrangeiros inspirados na guerra civil de Espanha.

Há bandeiras imperiais russas, bandeiras nacionalistas, bandeiras soviéticas, bandeiras religiosas. Do outro lado, nas minhas visitas às posições conquistadas às forças ucranianas encontrei simbologia neonazi em bandeiras, em murais, em autocolantes, também propaganda nacionalista. Há batalhões neonazis a combater pela Ucrânia que envergam todo o tipo de parafernália fascista. Aqui incluo estrangeiros, incluindo portugueses. Mas há ainda, sobretudo nas zonas mais mineiras e industriais, o culto do trabalho e do operariado, herança soviética.

Foi morto (poucos dias antes desta entrevista), o norte-americano «Texas», de Austin, nos EUA (que se juntou, após 2014, ao lado separatista) alegadamente por militares russos. Referes os encontros que tiveste com ele nesses oito meses. No final do livro destacas ainda a morte, em combate, do colombiano Alexis Castillo. O que estas pessoas procuraram no Donbass?

Tanto um como outro decidiram partir para o Donbass para combater o fascismo. As ondas do impacto do massacre de Odessa, na Casa dos Sindicatos, onde meia centena de manifestantes anti-Maidan morreu queimada, baleada e espancada, chegaram a todo o mundo.

O Alexis juntou-se às milícias separatistas inspirado pelas Brigadas Internacionais compostas por antifascistas de todo o mundo que combateram o franquismo nas trincheiras de Espanha em 1936. Foi contra a vontade do Partido Comunista dos Povos de Espanha, no qual militava na época. Aderiu posteriormente ao Partido Comunista de Donetsk.


O «Texas» tinha uma trajectória diferente. Talvez procurasse também a redenção pessoal. Esteve preso por posse de drogas, tinha servido no exército norte-americano. Depois contou-me que tinha encontrado o seu lugar. Era uma personagem muito peculiar. Houve outros tantos que caíram em combate. E na minha última viagem conheci um combatente brasileiro, que ascendeu a capitão do exército russo, de alcunha «MacGyver».

«Num jardim, em frente a uma escola, há várias sepulturas improvisadas. Numa das covas abertas, a espera de um cadáver, há uma placa: este lugar já está reservado». Há uma geração inteira de jovens e crianças que só conheceram a guerra, que dura já há 10 anos. Reparaste nalgum impacto desta realidade na juventude?

Quem tem agora 20 anos, tinha 10 quando a guerra começou. E se tem 20 anos, a não ser que esteja a estudar, está a combater na linha da frente. É uma absoluta falta de perspectiva de vida.

Conheço muitos que optaram por partir para a Rússia e começar a vida num lugar onde há alguma esperança. As aulas são à distância há cerca de dois anos, os órfãos foram transferidos para territórios seguros dentro da Rússia, as brincadeiras na rua são sempre limitadas.

Vi corpos de crianças em pedaços, famílias desfeitas. Da última vez, um só bombardeamento ucraniano atingiu uma casa no bairro de Petrovsky onde morreram três irmãos pequenos. A mãe já tinha perdido o marido na guerra e agora perdeu todos os filhos numa única noite. Ficou sem casa. É este o grau de barbárie.

Acompanhaste, primeiro, a destruição e, meses depois, o início do processo de reconstrução de Mariupol. Na tua primeira visita, quando chegaste perto de Azovstal, presenciaste o enterro de civis nos canteiros da cidade. Foi a tua experiência mais violenta nos oito meses no Donbass?

Foi a experiência mais intensa porque foram dias seguidos de combates comigo nas ruas a absorver tudo o que via. Nunca tinha estado num cenário deste tipo. Havia mortos enterrados em qualquer lado mas também havia mortos nas ruas, nas praias, dentro de edifícios. Depois acompanhei a trasladação de muitos desses cadáveres para cemitérios nos arredores. Mas diria que um dos dias mais duros foi em Donetsk quando um bombardeamento das forças ucranianas provocou a morte de mais de uma dezena de civis numa praça movimentada da cidade.

Ainda em Mariupol, relatas o momento em que mandaste uma mensagem a uma familiar de uma senhora na cidade, avisando-a de que a mesma estava viva. Estamos um pouco habituados, no Ocidente, a pensar nos jornalistas como fotógrafos da National Geographic, que não devem intervir com os sujeitos que observam.


«As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.»

Naturalmente, a guerra não pode ser um jardim zoológico. Há situações em que não podemos ser meros espectadores. E esta era uma delas. Fiz bem mais do que isso. Com outro camarada jornalista, salvámos a perna de uma mulher vítima de uma mina anti-terrestre colocada pelas forças ucranianas fazendo-lhe um garrote. Trata-se do mais elementar dever de ajudar o próximo em situações de desastre. Com isso não estava a tomar partido de ninguém ou a ajudar alguma das forças militares. Estava tão somente a ajudar civis.

«Éramos um pouco piratas». A certa altura, acabas por imprimir uns papeis a dizer PRESS e colas no material em segunda-mão que encontras. Este jornalismo improvisado, sem meios e agarrando as oportunidades à medida que vão surgindo (como fazes várias vezes ao longo dos teus oito meses de trabalho) consegue ir mais longe do que o jornalismo tradicional, que estaciona os repórteres em hotéis longe da frente?

Trata-se mais de vontade do que de capacidade. De facto, um jornalista de uma grande estação televisiva de um país como os Estados Unidos pode viajar num carro blindado com seguranças privados e toda uma equipa que o assessora na produção das reportagens. Mas, ainda assim, não havia nenhum daquele lado.

Com os nossos parcos recursos, apesar de haver naturalmente dinheiro envolvido porque não é barato arranjar um condutor, e é justo que assim seja porque aquela gente está a arriscar-se como nós, procurávamos estar onde estavam os acontecimentos. Éramos muito atrevidos, digamos assim. As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.

Foi essa qualidade do Donbass, de lugar pária, que atraiu este «jornalista outsider»? Habituado a estar no outro lado, nos bairros de Caracas, em áreas controladas pelas FARC, juntos dos independentistas bascos e agora nas regiões separatistas da Ucrânia

Sem dúvida. Eu gosto de dar voz a quem não tem voz.

Oito meses no Donbass depois, ainda acreditas que «o Jornalismo deve servir para fazer do mundo um lugar melhor»?

Independentemente do estado actual do jornalismo, continuo a acreditar que deve servir para fazer do mundo um lugar melhor. Para morder os pés dos poderosos e denunciar injustiças. Para dar aos cidadãos toda a informação que precisam para construir as suas opiniões e posições em absoluta liberdade.

Fonte: https://www.odiario.info/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que/

https://www.abrilabril.pt/cultura/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que-nao-podemos-ser-meros-espectadores

domingo, 4 de dezembro de 2022

Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»

INTERNACIONAL|JORNALISMO


Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»

AbrilAbril

POR JOÃO MANSO PINHEIRO 4 DE DEZEMBRO DE 2022

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De regresso do Donbass, onde trabalhou nos últimos meses, Bruno Carvalho falou ao AbrilAbril sobre o papel do jornalista em situação de guerra, os perigos a que se sujeitou e a ausência de pluralidade na comunicação social.


Numa cena do documentário Salvador, Itália (2018), Nanni Moretti entrevista um torturador chileno, preso pelos crimes cometidos durante a ditadura de Pinochet. Sendo confrontado pelo torcionário pela forma tendenciosa como estaria a conduzir a conversa, Moretti, embora dê todo o espaço para o torturador afirmar tudo o que lhe interessa, esclarece rapidamente: Ele, o realizador, o homem, não é imparcial.

 Nanni Morreti não renunciou à parcialidade.

Foi o ponto de partida para a conversa com Bruno Amaral de Carvalho, jornalista que passou seis dos últimos nove meses na região do Donbass, a cobrir os efeitos devastadores da guerra na Ucrânia nestas populações, martirizadas por oito longos anos de guerra civil, bombardeamentos e milhares de vítimas. 

Das fornalhas de Azovstal, em Mariupol, aos massacrados bairros de Donetsk, das movimentações relâmpago das tropas ucranianas e russas na região de Luhansk aos referendos promovidos pelas autoridades pró-russas nas quatro províncias anexadas, Bruno Carvalho não foi apenas o único jornalista português a acompanhar, de perto, a guerra no Donbass. Foi um de poucos jornalistas europeus que se recusou a ceder ao unanimismo prevalente nas redacções.

Um jornalista tem de abdicar das suas convicções para cumprir correctamente as suas funções? O código deontológico exige um trabalho independente, mas nunca imparcial ou que atente contra a consciência do jornalista...

Todas as pessoas têm convicções, incluindo os jornalistas. Eu prefiro o Joe Strummer ao Sid Vicious, gosto mais de García Márquez do que de Vargas Llosa, sou mais Maradona do que Pelé, prefiro Gillo Pontecorvo a Steven Spielberg. Cada um de nós traz um mundo dentro de si.


Resistência antifascista em Donbass

 

Nenhum jornalista é mais independente ou imparcial por esconder as suas convicções. Por isso é que há um conjunto de ferramentas jornalísticas para contornarmos o mais possível a influência das nossas escolhas no nosso trabalho. Até porque há outros factores no jornalismo que também têm influência nas nossas abordagens aos acontecimentos. Por exemplo, a linha editorial, que depende muito das convicções e dos interesses de quem financia os meios de informação.

Eu nunca escondi as minhas convicções porque sou um cidadão consciente dos seus direitos e disposto a exercê-los também como forma de os defender. Os jornalistas não têm menos direitos do que o resto da população.

Felizmente, tive um grande jornalista como professor que dizia aos seus alunos que o primeiro objectivo de quem trabalha na imprensa deve ser a ambição de mudar o mundo. Nesse sentido, o Oscar Mascarenhas valorizava os alunos que tinham uma vida cívica activa, fosse em teatros, associações desportivas, humanitárias ou políticas. Vivemos num mundo que nos quer impôr a não política. Ou seja, a ideia de que a política deve ser exclusiva dos que exercem cargos políticos e a democracia quer-se fechada nas instituições, com cidadãos cada vez menos activos e incómodos.

Faz-me confusão que haja quem ache que os jornalistas devem abdicar dessa intervenção enquanto cidadãos na vida colectiva. Sobretudo quando houve vários jornalistas que o fizeram. Recordo o caso do Mário Mesquita, do Alfredo Maia, da Carla Castelo e de tantos outros. A Comissão da Carteira estabelece algumas incompatibilidades, não apenas no exercício da actividade política, e apenas cargos a tempo inteiro são incompatíveis com o jornalismo.

Acabaste por te tornar mais notório do que muitas das tuas reportagens. Não é uma posição desconfortável para um jornalista, que supostamente não devia ser notícia?

Isso aconteceu, sobretudo, quando diferentes figuras me atacaram, como a ex-candidata presidencial Ana Gomes, a jornalista Fernanda Câncio, o secretário de Estado João Galamba, a escritora Inês Pedrosa, entre outros. O Correio da Manhã fez eco dessas acusações, assim como a revista Visão. Admito também que, para alguns jornalistas, o facto de eu ser um outsider os tenha deixado desconfortáveis. De repente, alguém que nunca esteve nos principais meios portugueses publicava reportagens no Público e na CNN.

Devido a esses ataques, o Público, com o qual tinha um compromisso verbal, apenas me comprou uma reportagem. Essas pessoas tentaram desacreditar-me e eu não podia ficar calado. Houve acusações, colando-me à ideia de eu que era putinista ou pró-russo, que num contexto de guerra são perigosas. Imagina que eu era capturado pelas forças ucranianas e que esses soldados compravam essas acusações contra mim.

Ainda assim, recebi muitas mensagens de solidariedade de muita gente, incluindo jornalistas, mas o Sindicato dos Jornalistas evitou defender-me. Houve vários jornalistas com muitos anos de experiência que me disseram que nunca viram nada assim.

Naturalmente, tive de assumir publicamente a minha própria defesa, assumindo um destaque que nunca me foi confortável, quando a única coisa que queria era dedicar-me, de forma plena, ao meu trabalho no Donbass.

Porque é que achas que, num estado de direito democrático, com uma imprensa livre e plural, as redacções tenham tomado a opção consciente de rejeitar qualquer investigação a um dos lados de uma guerra na zona do Donbass?

Repara, ao longo de todos estes meses foram vários os jornalistas portugueses e estrangeiros que me contactaram para os ajudar a entrar no Donbass. Eles queriam. Em vários desses casos, as direcções de informação não os deixaram ir. Portanto, há, desde logo, uma intencionalidade em cobrir apenas um lado da guerra, o que deixa a descoberto a excepcionalidade da CNN. Até agora, nas últimas décadas, estes meios sempre tiveram repórteres no lado do invasor. O problema é que agora o invasor não se chama Estados Unidos da América.

 

Agora, nunca me verão dizer que não deve haver jornalistas no lado controlado pela Ucrânia. Essa é a grande diferença. 

Hoje, jornalistas como Kapucinsky, Hemingway ou Robert Fisk são vistos como exemplos. O primeiro escreveu um grande livro sobre o trabalho que fez quando acompanhava a guerra civil em Angola, no lado controlado pelo MPLA, o segundo esteve no lado republicano da guerra civil espanhola e o terceiro fez uma entrevista ao Bin Laden. Entrámos num nível tal de controlo editorial e político, onde encaixo a proibição de canais russos na Europa, que são vários os meios que rasgaram de forma aberta e pública as antigas declarações de amor à objectividade e imparcialidade.

Sob a acusação de ser um espião russo, prenderam um jornalista basco na Polónia [Pablo González, colaborador frequente do Público espanhol e ao serviço do La Sexta TV, está preso há mais de 9 meses, sem julgamento] quando cobria a crise dos refugiados e ninguém parece demasiado preocupado com isso. Voltámos à guerra fria e ao maccarthismo.

Como analisas a cobertura da guerra feita pelos orgãos noticiosos portugueses? Notas algum contraste em relação a outros meios mainstream europeus?

Não. Em geral, seguem a mesma linha. Há excepções, contudo. Por exemplo, três canais italianos, incluindo a RAI, tiveram repórteres no lado controlado pelos russos. A Grécia também. De resto, há uma informação muito uniforme, o que não deixa de ser curioso.

Durante muitos anos justificava-se essa uniformidade porque a maioria dos meios não queria gastar dinheiro a enviar jornalistas para determinados cenários de guerra. Então, todos compravam as mesmas reportagens das principais agências. Agora, houve uma aposta muito grande em enviar repórteres mas a abordagem é praticamente igual em todo o lado. Algo que falta muito e, parece-me intencional, é a ausência de contexto.

O objectivo é claro: que não haja uma leitura histórica do conflito.

As populações de Donetsk, Mariupol, estranhavam a tua presença? Em certo momento eras dos únicos jornalistas a trabalhar na região. Com tão pouca presença mediática europeia, não estranhavam um português? Estavam satisfeitas por alguém as ouvir? 

Houve um momento em que era o único repórter a trabalhar para meios ocidentais em todo o lado controlado pelos russos. Não olho para isso como um feito mas como uma tragédia. É a morte do jornalismo.

Naturalmente, havia muita surpresa e também desconfiança. Afinal de contas, eu venho de um país cujos impostos são usados também para financiar as armas que matam civis em Donetsk. No Hospital de Traumatologia da cidade, houve vários pacientes que se recusaram a falar comigo por isso mesmo, por ser um jornalista de um país da NATO. Numa reportagem num mercado, houve uma idosa que gritou comigo e outro repórter acusando-nos de sermos responsáveis pelo que lhes estava a acontecer. Mas aconteceu em muitas ocasiões o contrário, entendendo o nosso trabalho, agradecendo e até encorajando.

Em Mariupol, a situação era tão desesperante que nos pediam ajuda para comunicarmos com familiares a viver no estrangeiro. Ali, até de enfermeiros fizemos para salvar a vida a uma idosa que apanhou com os fragmentos de uma mina anti-pessoal. Evitar quase sempre trabalhar em excursões organizadas pelas forças russas tornava o trabalho mais livre mas também mais perigoso. Foi um trabalho que exigiu muito tacto e sensibilidade com os civis, também com os militares, mas creio que a avaliação geral é positiva.

Já trabalhaste noutros cenários de guerra e conflito. Todos os conflitos são diferentes, mas há alguma características no Donbass que destaques?

Estive, em 2017, num acampamento das FARC, na Colômbia, num momento prévio à entrega de armas mas já durante o processo de paz. Havia uma tensão natural e prosseguiam os assassinatos de líderes sociais. Contudo, era um contexto totalmente diferente. No ano seguinte, visitei o Donbass e foi o meu primeiro contacto com a guerra civil que havia começado em 2014. Aí já ouvi alguns bombardeamentos, mas esporádicos. Apesar da violação constante dos Acordos de Minsk, havia já um conflito de baixa intensidade.

 

O que acontece hoje é de uma dimensão totalmente diferente. Caem cerca de cem projécteis todos os dias em Donetsk. Em média, há mais de um morto por dia na cidade. Mais de 2 100 feridos desde Fevereiro. E estamos a falar de uma cidade que não está em disputa, não tem combates terrestres, não tem homens a combater no seu interior. Mariupol, sim, estava em disputa e foi, de facto, um inferno. Havia mortos por todas as partes. 

Parece-me que é um erro dizer que esta guerra é apenas entre a Rússia e a Ucrânia. Há milhares de combatentes estrangeiros do lado ucraniano, armas ocidentais, estrategas militares ocidentais a assessorar operações, quando não a comandar, Kiev tem o apoio da inteligência dos satélites ocidentais, etc... Do outro lado, há combatentes das diversas realidades nacionais da Federação Russa, há os soldados do Donbass a combater desde 2014, assim como os cidadãos mobilizados desse mesmo território, há o grupo Wagner... Ou seja, há uma complexa teia diversa de afinidades e contradições.

Do ponto de vista mais geral, esta guerra representa um momento histórico de grande significado porque põe frente a frente duas realidades geopolíticas que se vinham confrontando de forma económica, política e também militar, mesmo que de forma indirecta, sobretudo no Médio Oriente, em que o Ocidente vê o seu poder questionado. É ingénuo acreditar que a guerra vai acabar sem que Washington ou Moscovo tenham uma palavra a dizer. A implicação do Ocidente é, hoje, tão óbvia que isso tem um preço nas nossas economias. 

Como vês a situação actual do Donbass? Depois da realização de referendos sem particular credibilidade, com enormes migrações internas, milhões de pessoas a abandonar a região, é expectável uma estabilização da situação?

A credibilidade dos processos eleitorais há muito que é algo secundário no contexto internacional. Há uma avaliação subjectiva em função dos interesses de cada país. O Kosovo tornou-se independente sem referendo, Juan Guaidó foi reconhecido presidente por muitos países sem qualquer eleição. Isso parece-me particularmente grave. À luz do que vi, de facto, não foram referendos que cumprissem aquilo que consideramos serem processos democráticos, embora não me pareça haver grandes dúvidas sobre a vontade daquela gente.

Basta ver o histórico eleitoral desde 1991 até 2014. Há um padrão praticamente inalterado de vitórias de forças pró-russas e comunistas. Toda a gente que entrevistei me disse que pouco lhe importava o não reconhecimento dos referendos por parte do Ocidente, uma vez que o Ocidente pouco se importou com a situação destas pessoas nos últimos oito anos. Parece-me que teria sido um passo para a paz se a Ucrânia e a Rússia aceitassem a realização de referendos com todas as garantias dando a palavra às populações com observadores dos dois lados. Não me parece que haja espaço para isso quando Kiev não cumpriu sequer os Acordos de Minsk em que estava previsto dar autonomia a estes territórios.

A Ucrânia não vai aceitar nunca a anexação do Donbass e das restantes regiões, incluindo a Crimeia, e, nesse sentido, a única perspectiva de estabilização virá com o fim da guerra que dependerá mais de Washington do que de Kiev. Sozinha, a Ucrânia não tem condições de manter esta dinâmica militar.

As populações do Donbass fazem ideia da dimensão do apoio à figura de Zelensky na União Europeia? Nos meios de comunicação, institucionais, nas redes sociais...

Sim, há essa noção. Para eles, o inimigo não é apenas Zelensky. São também os Estados Unidos e a União Europeia. E até a ONU é uma instituição questionada, sobretudo Guterres, acusando-o de declarações parciais. Há uma visão da Europa, não isenta de preconceitos, em que somos vistos como individualistas, demasiado apegados ao dinheiro e ao consumo, pouco dados aos valores da família e da comunidade, pouco solidários e, naturalmente, somos considerados fantoches dos norte-americanos. Mas também sabem que há gente que protesta, que não está de acordo com determinadas políticas e que se mobiliza contra a guerra.

O que me parece grave é que os líderes europeus fazem tudo para meter gasolina na fogueira como foi o caso de Josep Borrell, dizendo que a Europa era um jardim e o resto do mundo uma selva. Isto significa reforçar, no resto do mundo, o antagonismo ao eurocentrismo e a esta ideia de que a Europa é um oásis civilizacional no meio dos selvagens. 

https://www.abrilabril.pt/internacional/bruno-carvalho-nenhum-jornalista-e-mais-imparcial-por-esconder-suas-conviccoes


sábado, 2 de abril de 2022

Bruno Amaral de Carvalho - Os pássaros não cantam em Lugansk


REPORTAGEM -  Os pássaros não cantam em Lugansk, por Bruno Amaral de Carvalho
(texto e fotos) em Lugansk (Donbass)  31 de Março de 2022

Na Ucrânia, prosseguem os combates no Donbass pelo controlo territorial desta região mineira. Há oito anos debaixo de fogo, as forças separatistas apoiadas pela Rússia tentam avançar na autoproclamada República Popular de Lugansk ante a resistência ucraniana.

Uma antiga igreja ortodoxa aparece no caminho e o motorista benze-se. Depois, acelera. "Bistra, bistra", diz entredentes. "Fast, fast", repete em inglês. O ambientador, pendurado no espelho retrovisor, dança ao ritmo das crateras no asfalto. Em vez do típico pinho perfumado, há a fotografia de Vladimir Putin. No pára-brisas, um “Z” branco a fita adesiva.

O homem que tem o Presidente russo como ídolo chama-se Konstantin e explica que estamos demasiado perto da linha da frente. O “inimigo” está à espreita e pode haver snipers. A poucos quilómetros de Trehizbenka, na autoproclamada República Popular de Lugansk, o carro vai abrandando à medida que as lagartas de vários tanques com a marca “Z” se cruzam no caminho. Sente-se a proximidade das forças ucranianas enquanto se sucedem os postos de controlo. Uma ponte destruída e um autocarro carbonizado são postais de uma guerra que começou em 2014 e que nunca deixou de fazer vítimas. Segundo as Nações Unidas, cerca de três mil civis morreram no conflito que dura há oito anos.

Trehizbenka, sob controlo da Ucrânia desde 2014, passou para as mãos das autoridades separatistas de Lugansk. À entrada desta localidade de cerca de três mil habitantes, vários militares aceitam mostrar as trincheiras e as casas de civis usadas pelo exército ucraniano para proteger as suas posições.

Em frente à primeira casa, pé ante pé, pedem que não toquemos em nada porque há lugares que não foram devidamente verificados e pode haver minas por desactivar. São spetnaz, jovens soldados das forças especiais de Lugansk, e afirmam que este lugar estava ocupado por combatentes do movimento neonazi Pravii Sektor.

Há livros espalhados pelo chão, comida podre na cozinha ao lado de uma garrafa vazia de Jagermeister, cartazes nas paredes e um autocolante de uma emissora militar ucraniana. Numa divisão, junto ao corredor, uma caixa militar com explosivos. O episódio repete-se num pequeno barracão no exterior com centenas de granadas de morteiro, detonadores, um blusão do exército ucraniano e uma bandeira vermelha e preta do Exército Insurgente Ucraniano, liderado por Stepan Bandera, que colaborou com as forças nazis na Segunda Guerra Mundial.

Durante a visita, aparece uma idosa que prefere não responder a perguntas. Os soldados alegam que tem medo que regressem “os fascistas” e fica gorada a primeira entrevista a um civil na localidade.

De súbito, soam ao longe explosões de granadas de morteiro numa cadência que iria durar praticamente toda a visita enquanto um militar revela que foi descoberto ali perto o cadáver de um soldado ucraniano. Junto a uma trincheira, pouco resta de um corpo putrefacto com várias semanas dentro de um uniforme ucraniano desfeito. Vítima do esquecimento, é provável que tenha sido também vítima da matilha de cães esfaimados que povoam Trehizbenka. Quem seria este soldado? Ninguém sabe dizer.

É só na saída da aldeia que encontramos duas civis dispostas a falar sem terem sido escolhidas pelos soldados desta região separatista. Vera Alekseevna, uma das moradoras, acusa militares ucranianos de a terem sequestrado e ameaçado. “Foi o Batalhão Aidar. Diziam que me queriam cortar em pedaços e eu não sabia porquê. Ocuparam casas e terrenos da população. Há meses que não temos gás e electricidade. Imagine o que significa isso no Inverno”, denuncia. Por sua vez, Alexandra Fedorovna mostra alívio pela chegada das forças separatistas. Questionadas sobre as vítimas civis das bombas russas fora de Donbass, lamentam “a morte de qualquer civil”, mas aplaudem a intervenção de Moscovo.

Refugiado em Lugansk
Pela noite, o recolher obrigatório marca o compasso e são poucos os candeeiros acesos. É uma cidade fantasma. Quando amanhece, caem os primeiros mísseis Tochka-U nos arredores de Lugansk. Mesmo assim, as principais avenidas respiram vida e os comércios abrem na capital da autoproclamada República Popular de Lugansk. É uma cidade habituada à guerra desde 2014. Foi nesse ano que Alexei Albu abandonou Odessa rumo a esta região mineira.

Membro do partido da esquerda ucraniana Borotba, estava dentro da Casa dos Sindicatos em Odessa, em 2014, no dia em que centenas de apoiantes dos protestos que levaram à queda do governo de Viktor Yanukovich cercaram a improvisada sede dos que consideravam ser um golpe de Estado e pegaram fogo ao edifício com pelo menos uma centena de pessoas dentro. Alexei Albu escapou das chamas, mas não do ódio. Sentado num café de Lugansk, descreve como o espancaram e aponta para uma cicatriz na cabeça. Nesse dia, morreram 48 pessoas, muitas delas queimadas.

“Poucos dias depois, recebi a informação de uma fonte dentro dos corpos policiais de que o meu nome estava numa lista de pessoas a serem presas”, recorda. Deputado regional no Conselho Regional de Odessa como Alexei, Viacheslav Markin acabou assassinado pouco depois dos acontecimentos na cidade costeira no Mar Negro. Foi então que decidiu fugir para a zona controlada pelos rebeldes em Lugansk.

Hoje, com 36 anos, e apesar das divisões internas no Borotba, mantém-se no partido e apoia a intervenção russa. Quando vê a morte de civis, vítimas de ataques russos, afirma que sente dor, mas ele diz que sabe “quem é o culpado”. Acusa os batalhões de extrema-direita, como o Aidar ou Azov. Na óptica de Alexei, estes grupos “não querem combater em campo aberto” e “escondem-se entre a população em zonas residenciais”.

Oito anos de bombas
A poucos quilómetros da linha da frente, em Donbass, a presidente do município de Kirovsk, Viktoria Ivanovna Sergueeva, mostra uma das casas bombardeadas pelas forças ucranianas numa aldeia dos arredores na última semana. Depois de alguns quilómetros de tanques, carros blindados e camiões, um caminho de terra batida conduz a uma pequena povoação com habitações térreas. É diante desta casa destruída que denuncia o que diz ter sido um ataque das forças ucranianas.

“O bombardeamento aconteceu ao fim do dia quando a família que aqui vivia se preparava para dormir. Felizmente, não morreu ninguém”, afirma. Ao mesmo tempo que responde à pergunta com a ajuda de um intérprete, ouvem-se disparos de morteiros e rockets seguidos de rajadas de metralhadora. Imperturbável, não interrompe a resposta e prossegue o raciocínio como se a guerra fosse parte da sua vida desde sempre.

Numa aldeia com tanto campo à volta, o que mais nos perturba é a ausência de pássaros. Como se a sua falta na paisagem nos alertasse para a ameaça da guerra como os canários mostravam pela sua prostração o perigo das minas.

Serviço especial para o PÚBLICO

https://www.publico.pt/2022/03/31/mundo/reportagem/passaros-nao-cantam-lugansk-2000819