Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Bruno Amaral de Carvalho - De mãos dadas contra a fúria do vento
sábado, 19 de outubro de 2024
Bruno Amaral de Carvalho - Beirute, capital da resistência
sábado, 11 de maio de 2024
Viriato Soromenho-Marques - A batalha pela verdade factual
* Viriato Soromenho-Marques
(Diário de Notícias 11 maio 2024)
Quando em 1968 as forças do Vietname
do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet,
contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.
Lembro-me, vivamente, de como, apesar
da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens
ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro
comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver
as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do
recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um
exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo,
os poderes que contam - o dinheiro e o seu braço político - aprenderam a
prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a
exuberância nua dos factos.
Sem o poder da imprensa livre, a
Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu
mandato.
Pouco antes da Ofensiva do Tet, a
filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio
intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma
incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela
que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e
do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de
profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a
objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos,
ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o
artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para
ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.
Os factos suscitam opiniões e
interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos
factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas
testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir
várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas
nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4
de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.
A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.
https://www.dn.pt/6555146601/a-batalha-pela-verdade-factual/
sexta-feira, 10 de maio de 2024
Bruno Carvalho: «Há situações em que não podemos ser meros espectadores»
Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.
Em menos de um mês, A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, do jornalista Bruno Amaral de Carvalho, já está a preparar a terceira edição. O AbrilAbril conversou com o autor sobre a sua experiência numa guerra fora dos holofotes.
A um mundo de distância (e, para nós,
o Donbass está mesmo num outro mundo), torna-se difícil acreditar que no meio
daquela massa anónima existam mesmo pessoas. Que por ali andem criaturas
dotadas com as suas próprias vontades, gostos, idiossincrasias engraçadas (para
os outros). Que sejam, no fundo, como nós.
No Donbass estão os outros. Não lhes
sabemos os nomes, não lhes é conhecida opinião ou vontade. Limitam-se a ser.
Uns tantos mil que sobrevivem numa pequena cidade devastada por prolongadas
batalhas, outros tantas centenas a combater em batalhões separatistas. Uma,
duas, três, dez crianças que morrem na leva diária de bombardeamentos contra
populações que vivem em terras com nomes que tão dificilmente sabemos
pronunciar.
Este apagamento, de entre os vários
motivos que levaram as redacções ocidentais a recusar-se a cobrir o que se
passava no Donbass durante «o maior acontecimento geopolítico do pós-guerra
fria», será talvez o mais flagrantemente antideontológico. Sem jornalismo e com
a censura de órgãos de comunicação social «do outro lado», aquela gente é
reduzida a coisa nenhuma. Não existem. Sem semblante de humanidade, é fácil
odiarmos os nossos “inimigos” (ou pior: “os maus”).
Longe da vista, longe do coração.
Em A Guerra a Leste: 8 Meses no
Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que
o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como
sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e,
acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.
Conhecemo-los agora pelo nome: Luís
Castañeda, colombiano, que veio estudar para Donetsk nos anos 80 e nunca mais
voltou. Ekaterina, de Odessa, que em 2014 presenciou o massacre na casa
sindical da cidade. Alexander, de 59 anos, antigo mineiro que sabe, hoje,
distinguir artilharia pelo som. A família de Dima, que com a mulher e os quatro
filhos viveu mais de um mês numa cave em Mariupol ou o soldado benfiquista que,
em terras lusas, trabalhou na construção civil e hoje vigia estradas.
O Donbass está condenado a ser um
«lugar errado»?
O que define um «lugar errado» não é a sua geografia. É o seu enquadramento
político no contexto mundial. Há não muito tempo, o chefe da diplomacia
europeia, Josep Borrell, dizia que a Europa é um jardim e, em contraposição, o
resto do mundo uma selva. Imediatamente, veio-me à memória as imagens de seres
humanos, africanos, expostos numa feira belga em 1958 como se fossem animais
num jardim zoológico.
A herança colonial europeia está viva
nas relações do Ocidente com os países do chamado Sul Global e não espanta que
haja uma aproximação cada vez maior desses Estados com potências como a China,
a Rússia, o Irão ou o Brasil. Quando alguém não nos trata como iguais,
procuramos quem nos trate com dignidade e respeito. Nesse sentido, a imprensa
hegemónica, alinhada com o poder, define quais são os lugares e quem são os
líderes errados. Os talibans já foram os bons e agora são os maus. O Donbass
continuará a ser um lugar «errado» enquanto não estiver debaixo do controlo de
Kiev ou de qualquer outro aliado dos Estados Unidos e da União Europeia.
N’A Guerra a Leste, vários cidadãos das repúblicas de Donetsk e Lugansk (assim
como a refugiados de diversas partes da Ucrânia) assumem uma posição
separatista e, noutros casos, favorável à intervenção russa. É uma oportunidade
de ver uma perspectiva praticamente inédita no panorama mediático europeu.
Também havia, no Donbass, quem defendesse o outro lado? Seja a posição
ucraniana ou simplesmente contra a adesão à Federação Russa?
Evidentemente, há gente que defende a
manutenção do Donbass na Ucrânia ou a independência dessas repúblicas. Contudo,
parecem-me opções minoritárias. Há também quem recorde com nostalgia a União
Soviética. Antes da guerra, talvez houvesse espaço para um modelo confederal
como tem a Suíça ou para um modelo de regiões com uma autonomia alargada. Os
Acordos de Minsk previam essa possibilidade e eu acrescentava que podia ter
sido adoptada uma solução como aquela encontrada no âmbito do Acordo de Dayton
que criou duas entidades territoriais dentro da Bósnia, uma para a comunidade
bósnia e outra para a comunidade sérvia.
Julgo que as opções eram muitas se
houvesse vontade política dos actores em confronto, mas queria sublinhar a
importância de se ouvir o que as populações têm a dizer. Não há nada mais
democrático do que resolver este conflito auscultando-as e tomando decisões que
respeitem essas escolhas.
O que aconteceu aos comunistas desta
região? Apontas como, na última vez em que participaram em eleições (2013,
foram banidos a seguir a 2014), tiveram cerca de 30% dos votos em algumas zonas
do Donbass
Os comunistas eram uma força
imprescindível desde o fim da União Soviética no Leste da Ucrânia. Sobretudo
porque transportavam consigo essa herança histórica. Com a sublevação das
regiões do Donbass em 2014, os comunistas foram importantes no processo de
criação das autoproclamadas repúblicas.
Contudo, o contexto de guerra e a
influência de Moscovo favoreceram a existência de governos quase de unidade
nacional com um papel diminuído das forças comunistas. Mantêm a sua intervenção
política num ambiente muito complexo, onde a maioria dos homens se encontra a
combater. Lembro-me de estar em Donetsk no 1.º de Maio de 2022 e de haver uma
manifestação, organizada pelo Partido Comunista, composta por mulheres e homens
sem idade para participarem na guerra. Nas últimas eleições presidenciais, como
aconteceu em praticamente toda a Rússia, os candidatos apoiados por Vladimir
Putin arrasaram, incluindo no Donbass. Há muitas explicações para este facto.
Uma delas é que ninguém quer mudar de presidente a meio de uma guerra e a outra
é que há de facto muita gente que defende a intervenção russa no Donbass.
O apoio à intervenção da Rússia pode
ser entendida como um apoio ao regime de Putin ou é um caso de interesses
confluentes? Os separatistas garantem a independência e os grandes poderes
económicos russos ganham acesso àquela que era a região mais industrializada da
Ucrânia
Recordemos que os comunistas russos
já tiveram diversos choques com as autoridades russas. Para além das questões
económicas, houve militantes comunistas detidos em manifestações. A forma de
regime também é questionada no sentido em que os comunistas russos, aos quais
se juntaram os comunistas de Donetsk e Lugansk, defendem um regresso ao modelo
soviético.
Há, certamente, contradições entre as
forças que apoiam a intervenção militar e diferentes visões sobre como o
conflito deve ser resolvido. Independentemente de estarmos de acordo ou não, a
questão central apresentada pelos comunistas russos é a da necessidade de
derrota do fascismo na Ucrânia e, naturalmente, a ilegalização dos comunistas
ucranianos, e agora de praticamente toda a oposição, tem peso nessa análise.
Dos comunistas do Donbass com quem
contactaste, qual era a posição deles em relação à Rússia de Putin
(abstraindo-nos, um pouco, sobre toda a questão da invasão militar)
Vladimir Putin defende uma economia
de mercado com alguma intervenção do Estado. Os comunistas defendem uma
economia planificada. Há também visões distintas sobre como se deve organizar a
sociedade.
Contudo, recordo que o presidente
russo habilmente soube recuperar e valorizar a memória do passado soviético,
sobretudo na preservação dos símbolos e dos monumentos, abdicando de confrontar
uma história que é querida para uma parte substancial da população. Depois do
desastre dos anos 90, com uma economia em colapso e com um presidente que
abdicou da sua soberania, os russos parecem apostar na estabilidade económica e
na preservação das suas fronteiras.
Dizes, a certo ponto, que não
pertences a lado nenhum. É um contraste grande com a realidade no Donbass, onde
tanto a população como alguns dos combatentes internacionais estão imersos numa
luta de morte pelo direito a pertencer ao seu lugar
Mesmo que permaneça essa sensação de
não pertencer a lado nenhum e ao mesmo tempo ser de todo o lado, ter um lugar
donde se é também é um direito. Respeito muito a luta dos povos pela sua
independência e autodeterminação e muitos desses combatentes estrangeiros
acabaram por encontrar naquela luta e naquela terra o seu espaço. Foram
recebidos de braços abertos por quem combatia e acabaram por obter a
nacionalidade por parte das autoridades separatistas. Faz lembrar o título do
enorme livro do jornalista Joseph North, Nenhum Homem é Estrangeiro [No Men Are
Strangers, de 1958]
A luta que se trava no Donbass está
muito longe de ser meramente uma disputa de territórios. Como mencionas n’A
Guerra a Leste, há um confronto grande em termos de toponímia: Bakhmut mudou de
nome para Artyomovsk em 1924, homenageando o revolucionário bolchevique Fyodor
Sergeyev (Artyom). Voltou a mudar com a leis de descomunização de Poroshenko,
em 2016. A recente conquista da cidade ditou a recuperação do nome soviético:
Artyomovsk. No terreno, o confronto é muito ideológico?
Eu não diria que isso é sempre
visível mas está presente. As tropas russas classificam o inimigo de fascista e
essa é uma escolha que revela uma opção ideológica. Uma das consignas mais
comuns no Donbass, mesmo que praticamente todos só saibam falar apenas russo, é
«no pasarán», repetindo aquilo que aprenderam dos combatentes estrangeiros
inspirados na guerra civil de Espanha.
Há bandeiras imperiais russas,
bandeiras nacionalistas, bandeiras soviéticas, bandeiras religiosas. Do outro
lado, nas minhas visitas às posições conquistadas às forças ucranianas
encontrei simbologia neonazi em bandeiras, em murais, em autocolantes, também
propaganda nacionalista. Há batalhões neonazis a combater pela Ucrânia que
envergam todo o tipo de parafernália fascista. Aqui incluo estrangeiros,
incluindo portugueses. Mas há ainda, sobretudo nas zonas mais mineiras e
industriais, o culto do trabalho e do operariado, herança soviética.
Foi morto (poucos dias antes desta
entrevista), o norte-americano «Texas», de Austin, nos EUA (que se juntou, após
2014, ao lado separatista) alegadamente por militares russos. Referes os
encontros que tiveste com ele nesses oito meses. No final do livro destacas
ainda a morte, em combate, do colombiano Alexis Castillo. O que estas pessoas
procuraram no Donbass?
Tanto um como outro decidiram partir
para o Donbass para combater o fascismo. As ondas do impacto do massacre de
Odessa, na Casa dos Sindicatos, onde meia centena de manifestantes anti-Maidan
morreu queimada, baleada e espancada, chegaram a todo o mundo.
O Alexis juntou-se às milícias separatistas inspirado pelas Brigadas Internacionais compostas por antifascistas de todo o mundo que combateram o franquismo nas trincheiras de Espanha em 1936. Foi contra a vontade do Partido Comunista dos Povos de Espanha, no qual militava na época. Aderiu posteriormente ao Partido Comunista de Donetsk.
O «Texas» tinha uma trajectória diferente. Talvez procurasse também a redenção
pessoal. Esteve preso por posse de drogas, tinha servido no exército
norte-americano. Depois contou-me que tinha encontrado o seu lugar. Era uma
personagem muito peculiar. Houve outros tantos que caíram em combate. E na
minha última viagem conheci um combatente brasileiro, que ascendeu a capitão do
exército russo, de alcunha «MacGyver».
«Num jardim, em frente a uma escola,
há várias sepulturas improvisadas. Numa das covas abertas, a espera de um
cadáver, há uma placa: este lugar já está reservado». Há uma geração inteira de
jovens e crianças que só conheceram a guerra, que dura já há 10 anos. Reparaste
nalgum impacto desta realidade na juventude?
Quem tem agora 20 anos, tinha 10
quando a guerra começou. E se tem 20 anos, a não ser que esteja a estudar, está
a combater na linha da frente. É uma absoluta falta de perspectiva de vida.
Conheço muitos que optaram por partir
para a Rússia e começar a vida num lugar onde há alguma esperança. As aulas são
à distância há cerca de dois anos, os órfãos foram transferidos para
territórios seguros dentro da Rússia, as brincadeiras na rua são sempre
limitadas.
Vi corpos de crianças em pedaços,
famílias desfeitas. Da última vez, um só bombardeamento ucraniano atingiu uma
casa no bairro de Petrovsky onde morreram três irmãos pequenos. A mãe já tinha
perdido o marido na guerra e agora perdeu todos os filhos numa única noite.
Ficou sem casa. É este o grau de barbárie.
Acompanhaste, primeiro, a destruição
e, meses depois, o início do processo de reconstrução de Mariupol. Na tua
primeira visita, quando chegaste perto de Azovstal, presenciaste o enterro de
civis nos canteiros da cidade. Foi a tua experiência mais violenta nos oito
meses no Donbass?
Foi a experiência mais intensa porque
foram dias seguidos de combates comigo nas ruas a absorver tudo o que via.
Nunca tinha estado num cenário deste tipo. Havia mortos enterrados em qualquer
lado mas também havia mortos nas ruas, nas praias, dentro de edifícios. Depois
acompanhei a trasladação de muitos desses cadáveres para cemitérios nos
arredores. Mas diria que um dos dias mais duros foi em Donetsk quando um
bombardeamento das forças ucranianas provocou a morte de mais de uma dezena de
civis numa praça movimentada da cidade.
Ainda em Mariupol, relatas o momento em que mandaste uma mensagem a uma familiar de uma senhora na cidade, avisando-a de que a mesma estava viva. Estamos um pouco habituados, no Ocidente, a pensar nos jornalistas como fotógrafos da National Geographic, que não devem intervir com os sujeitos que observam.
«As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética
mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.»
Naturalmente, a guerra não pode ser
um jardim zoológico. Há situações em que não podemos ser meros espectadores. E
esta era uma delas. Fiz bem mais do que isso. Com outro camarada jornalista,
salvámos a perna de uma mulher vítima de uma mina anti-terrestre colocada pelas
forças ucranianas fazendo-lhe um garrote. Trata-se do mais elementar dever de
ajudar o próximo em situações de desastre. Com isso não estava a tomar partido
de ninguém ou a ajudar alguma das forças militares. Estava tão somente a ajudar
civis.
«Éramos um pouco piratas». A certa
altura, acabas por imprimir uns papeis a dizer PRESS e colas no material em
segunda-mão que encontras. Este jornalismo improvisado, sem meios e agarrando
as oportunidades à medida que vão surgindo (como fazes várias vezes ao longo
dos teus oito meses de trabalho) consegue ir mais longe do que o jornalismo
tradicional, que estaciona os repórteres em hotéis longe da frente?
Trata-se mais de vontade do que de
capacidade. De facto, um jornalista de uma grande estação televisiva de um país
como os Estados Unidos pode viajar num carro blindado com seguranças privados e
toda uma equipa que o assessora na produção das reportagens. Mas, ainda assim,
não havia nenhum daquele lado.
Com os nossos parcos recursos, apesar
de haver naturalmente dinheiro envolvido porque não é barato arranjar um
condutor, e é justo que assim seja porque aquela gente está a arriscar-se como
nós, procurávamos estar onde estavam os acontecimentos. Éramos muito atrevidos,
digamos assim. As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em
qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo
possível estavam lá.
Foi essa qualidade do Donbass, de
lugar pária, que atraiu este «jornalista outsider»? Habituado a estar no outro
lado, nos bairros de Caracas, em áreas controladas pelas FARC, juntos dos
independentistas bascos e agora nas regiões separatistas da Ucrânia
Sem dúvida. Eu gosto de dar voz a
quem não tem voz.
Oito meses no Donbass depois, ainda
acreditas que «o Jornalismo deve servir para fazer do mundo um lugar melhor»?
Independentemente do estado actual do
jornalismo, continuo a acreditar que deve servir para fazer do mundo um lugar
melhor. Para morder os pés dos poderosos e denunciar injustiças. Para dar aos
cidadãos toda a informação que precisam para construir as suas opiniões e
posições em absoluta liberdade.
Fonte: https://www.odiario.info/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que/
domingo, 4 de dezembro de 2022
Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»
Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por
esconder as suas convicções»
AbrilAbril
POR JOÃO MANSO PINHEIRO 4 DE DEZEMBRO DE 2022
De regresso do Donbass, onde trabalhou nos últimos
meses, Bruno Carvalho falou ao AbrilAbril sobre
o papel do jornalista em situação de guerra, os perigos a que se
sujeitou e a ausência de pluralidade na comunicação social.
Numa cena do documentário Salvador, Itália (2018),
Nanni Moretti entrevista um torturador chileno, preso pelos crimes cometidos
durante a ditadura de Pinochet. Sendo confrontado pelo torcionário pela forma
tendenciosa como estaria a conduzir a conversa, Moretti, embora dê todo o
espaço para o torturador afirmar tudo o que lhe interessa, esclarece
rapidamente: Ele, o realizador, o homem, não é imparcial.
Nanni Morreti não renunciou à parcialidade.
Foi o ponto de partida para a conversa com Bruno Amaral de
Carvalho, jornalista que passou seis dos últimos nove meses na região do
Donbass, a cobrir os efeitos devastadores da guerra na Ucrânia nestas
populações, martirizadas por oito longos anos de guerra civil, bombardeamentos
e milhares de vítimas.
Das fornalhas de Azovstal, em Mariupol, aos massacrados
bairros de Donetsk, das movimentações relâmpago das tropas ucranianas e russas
na região de Luhansk aos referendos promovidos pelas autoridades pró-russas nas
quatro províncias anexadas, Bruno Carvalho não foi apenas o único jornalista
português a acompanhar, de perto, a guerra no Donbass. Foi um de poucos
jornalistas europeus que se recusou a ceder ao unanimismo prevalente nas
redacções.
Um jornalista tem de abdicar das suas convicções para cumprir
correctamente as suas funções? O código deontológico exige um trabalho
independente, mas nunca imparcial ou que atente contra a consciência do
jornalista...
Todas as pessoas têm convicções, incluindo os jornalistas. Eu
prefiro o Joe Strummer ao Sid Vicious, gosto mais de García Márquez do que de
Vargas Llosa, sou mais Maradona do que Pelé, prefiro Gillo Pontecorvo a Steven
Spielberg. Cada um de nós traz um mundo dentro de si.
Resistência
antifascista em Donbass
Nenhum jornalista é mais independente ou imparcial por
esconder as suas convicções. Por isso é que há um conjunto de ferramentas
jornalísticas para contornarmos o mais possível a influência das nossas
escolhas no nosso trabalho. Até porque há outros factores no jornalismo que
também têm influência nas nossas abordagens aos acontecimentos. Por exemplo, a
linha editorial, que depende muito das convicções e dos interesses de quem
financia os meios de informação.
Eu nunca escondi as minhas convicções porque sou um cidadão
consciente dos seus direitos e disposto a exercê-los também como forma de os
defender. Os jornalistas não têm menos direitos do que o resto da população.
Felizmente, tive um grande jornalista como professor que
dizia aos seus alunos que o primeiro objectivo de quem trabalha na imprensa
deve ser a ambição de mudar o mundo. Nesse sentido, o Oscar Mascarenhas
valorizava os alunos que tinham uma vida cívica activa, fosse em teatros,
associações desportivas, humanitárias ou políticas. Vivemos num mundo que nos
quer impôr a não política. Ou seja, a ideia de que a política deve ser
exclusiva dos que exercem cargos políticos e a democracia quer-se fechada nas
instituições, com cidadãos cada vez menos activos e incómodos.
Faz-me confusão que haja quem ache que os jornalistas devem
abdicar dessa intervenção enquanto cidadãos na vida colectiva. Sobretudo quando
houve vários jornalistas que o fizeram. Recordo o caso do Mário Mesquita, do
Alfredo Maia, da Carla Castelo e de tantos outros. A Comissão da Carteira
estabelece algumas incompatibilidades, não apenas no exercício da actividade
política, e apenas cargos a tempo inteiro são incompatíveis com o jornalismo.
Acabaste por te tornar mais notório do que muitas
das tuas reportagens. Não é uma posição desconfortável para um jornalista,
que supostamente não devia ser notícia?
Isso aconteceu, sobretudo, quando diferentes figuras me
atacaram, como a ex-candidata presidencial Ana Gomes, a jornalista Fernanda
Câncio, o secretário de Estado João Galamba, a escritora Inês Pedrosa, entre
outros. O Correio da Manhã fez eco dessas acusações, assim
como a revista Visão. Admito também que, para alguns
jornalistas, o facto de eu ser um outsider os tenha deixado
desconfortáveis. De repente, alguém que nunca esteve nos principais meios
portugueses publicava reportagens no Público e na CNN.
Devido a esses ataques, o Público, com o qual
tinha um compromisso verbal, apenas me comprou uma reportagem. Essas pessoas
tentaram desacreditar-me e eu não podia ficar calado. Houve acusações,
colando-me à ideia de eu que era putinista ou pró-russo, que num contexto de
guerra são perigosas. Imagina que eu era capturado pelas forças ucranianas e
que esses soldados compravam essas acusações contra mim.
Ainda assim, recebi muitas mensagens de solidariedade de
muita gente, incluindo jornalistas, mas o Sindicato dos Jornalistas evitou
defender-me. Houve vários jornalistas com muitos anos de experiência que me
disseram que nunca viram nada assim.
Naturalmente, tive de assumir publicamente a minha própria
defesa, assumindo um destaque que nunca me foi confortável, quando a única
coisa que queria era dedicar-me, de forma plena, ao meu trabalho no
Donbass.
Porque é que achas que, num estado de
direito democrático, com uma imprensa livre e plural, as
redacções tenham tomado a opção consciente de rejeitar qualquer
investigação a um dos lados de uma guerra na zona do Donbass?
Repara, ao longo de todos estes meses foram vários os
jornalistas portugueses e estrangeiros que me contactaram para os ajudar a
entrar no Donbass. Eles queriam. Em vários desses casos, as direcções de
informação não os deixaram ir. Portanto, há, desde logo, uma intencionalidade
em cobrir apenas um lado da guerra, o que deixa a descoberto a excepcionalidade
da CNN. Até agora, nas últimas décadas, estes meios sempre tiveram
repórteres no lado do invasor. O problema é que agora o invasor não se chama
Estados Unidos da América.
Agora, nunca me verão dizer que não deve haver jornalistas no
lado controlado pela Ucrânia. Essa é a grande diferença.
Hoje, jornalistas como Kapucinsky, Hemingway ou Robert Fisk
são vistos como exemplos. O primeiro escreveu um grande livro sobre o trabalho
que fez quando acompanhava a guerra civil em Angola, no lado controlado pelo
MPLA, o segundo esteve no lado republicano da guerra civil espanhola e o
terceiro fez uma entrevista ao Bin Laden. Entrámos num nível tal de controlo
editorial e político, onde encaixo a proibição de canais russos na Europa, que
são vários os meios que rasgaram de forma aberta e pública as antigas
declarações de amor à objectividade e imparcialidade.
Sob a acusação de ser um espião russo, prenderam um
jornalista basco na Polónia [Pablo González, colaborador frequente do Público espanhol
e ao serviço do La Sexta TV, está preso há mais de 9 meses,
sem julgamento] quando cobria a crise dos refugiados e ninguém parece
demasiado preocupado com isso. Voltámos à guerra fria e ao maccarthismo.
Como analisas a cobertura da guerra feita pelos orgãos
noticiosos portugueses? Notas algum contraste em relação a outros meios mainstream europeus?
Não. Em geral, seguem a mesma linha. Há excepções, contudo.
Por exemplo, três canais italianos, incluindo a RAI, tiveram
repórteres no lado controlado pelos russos. A Grécia também. De resto, há uma
informação muito uniforme, o que não deixa de ser curioso.
Durante muitos anos justificava-se essa uniformidade porque a
maioria dos meios não queria gastar dinheiro a enviar jornalistas para
determinados cenários de guerra. Então, todos compravam as mesmas reportagens
das principais agências. Agora, houve uma aposta muito grande em enviar
repórteres mas a abordagem é praticamente igual em todo o lado. Algo que falta
muito e, parece-me intencional, é a ausência de contexto.
O objectivo é claro: que não haja uma leitura histórica do
conflito.
As populações de Donetsk, Mariupol, estranhavam a tua
presença? Em certo momento eras dos únicos jornalistas a trabalhar na
região. Com tão pouca presença mediática europeia, não estranhavam um
português? Estavam satisfeitas por alguém as ouvir?
Houve um momento em que era o único repórter a trabalhar para
meios ocidentais em todo o lado controlado pelos russos. Não olho para isso
como um feito mas como uma tragédia. É a morte do jornalismo.
Naturalmente, havia muita surpresa e também desconfiança. Afinal
de contas, eu venho de um país cujos impostos são usados também para financiar
as armas que matam civis em Donetsk. No Hospital de Traumatologia da cidade,
houve vários pacientes que se recusaram a falar comigo por isso mesmo, por ser
um jornalista de um país da NATO. Numa reportagem num mercado, houve uma idosa
que gritou comigo e outro repórter acusando-nos de sermos responsáveis pelo que
lhes estava a acontecer. Mas aconteceu em muitas ocasiões o contrário,
entendendo o nosso trabalho, agradecendo e até encorajando.
Em Mariupol, a situação era tão desesperante que nos pediam
ajuda para comunicarmos com familiares a viver no estrangeiro. Ali, até de
enfermeiros fizemos para salvar a vida a uma idosa que apanhou com os
fragmentos de uma mina anti-pessoal. Evitar quase sempre trabalhar em excursões
organizadas pelas forças russas tornava o trabalho mais livre mas também mais
perigoso. Foi um trabalho que exigiu muito tacto e sensibilidade com os civis,
também com os militares, mas creio que a avaliação geral é positiva.
Já trabalhaste noutros cenários de guerra e conflito. Todos
os conflitos são diferentes, mas há alguma características no Donbass que
destaques?
Estive, em 2017, num acampamento das FARC, na Colômbia, num
momento prévio à entrega de armas mas já durante o processo de paz. Havia uma
tensão natural e prosseguiam os assassinatos de líderes sociais. Contudo, era
um contexto totalmente diferente. No ano seguinte, visitei o Donbass e foi o
meu primeiro contacto com a guerra civil que havia começado em 2014. Aí já ouvi
alguns bombardeamentos, mas esporádicos. Apesar da violação constante dos
Acordos de Minsk, havia já um conflito de baixa intensidade.
O que acontece hoje é de uma dimensão totalmente diferente.
Caem cerca de cem projécteis todos os dias em Donetsk. Em média, há mais de um
morto por dia na cidade. Mais de 2 100 feridos desde Fevereiro. E estamos
a falar de uma cidade que não está em disputa, não tem combates terrestres, não
tem homens a combater no seu interior. Mariupol, sim, estava em disputa e foi,
de facto, um inferno. Havia mortos por todas as partes.
Parece-me que é um erro dizer que esta guerra é apenas entre
a Rússia e a Ucrânia. Há milhares de combatentes estrangeiros do lado
ucraniano, armas ocidentais, estrategas militares ocidentais a assessorar
operações, quando não a comandar, Kiev tem o apoio da inteligência dos
satélites ocidentais, etc... Do outro lado, há combatentes das diversas
realidades nacionais da Federação Russa, há os soldados do Donbass a combater
desde 2014, assim como os cidadãos mobilizados desse mesmo território, há o
grupo Wagner... Ou seja, há uma complexa teia diversa de afinidades e
contradições.
Do ponto de vista mais geral, esta guerra representa um
momento histórico de grande significado porque põe frente a frente duas
realidades geopolíticas que se vinham confrontando de forma económica, política
e também militar, mesmo que de forma indirecta, sobretudo no Médio Oriente, em
que o Ocidente vê o seu poder questionado. É ingénuo acreditar que a guerra vai
acabar sem que Washington ou Moscovo tenham uma palavra a dizer. A implicação
do Ocidente é, hoje, tão óbvia que isso tem um preço nas nossas economias.
Como vês a situação actual do Donbass? Depois da realização
de referendos sem particular credibilidade, com enormes migrações internas,
milhões de pessoas a abandonar a região, é expectável uma estabilização da
situação?
A credibilidade dos processos eleitorais há muito que é algo
secundário no contexto internacional. Há uma avaliação subjectiva em função dos
interesses de cada país. O Kosovo tornou-se independente sem referendo, Juan
Guaidó foi reconhecido presidente por muitos países sem qualquer eleição. Isso
parece-me particularmente grave. À luz do que vi, de facto, não foram
referendos que cumprissem aquilo que consideramos serem processos democráticos,
embora não me pareça haver grandes dúvidas sobre a vontade daquela gente.
Basta ver o histórico eleitoral desde 1991 até 2014. Há um
padrão praticamente inalterado de vitórias de forças pró-russas e comunistas.
Toda a gente que entrevistei me disse que pouco lhe importava o não
reconhecimento dos referendos por parte do Ocidente, uma vez que o Ocidente pouco
se importou com a situação destas pessoas nos últimos oito anos. Parece-me que
teria sido um passo para a paz se a Ucrânia e a Rússia aceitassem a realização
de referendos com todas as garantias dando a palavra às populações com
observadores dos dois lados. Não me parece que haja espaço para isso quando
Kiev não cumpriu sequer os Acordos de Minsk em que estava previsto dar
autonomia a estes territórios.
A Ucrânia não vai aceitar nunca a anexação do Donbass e das
restantes regiões, incluindo a Crimeia, e, nesse sentido, a única perspectiva
de estabilização virá com o fim da guerra que dependerá mais de Washington do
que de Kiev. Sozinha, a Ucrânia não tem condições de manter esta dinâmica
militar.
As populações do Donbass fazem ideia da dimensão do apoio à
figura de Zelensky na União Europeia? Nos meios de comunicação, institucionais,
nas redes sociais...
Sim, há essa noção. Para eles, o inimigo não é apenas
Zelensky. São também os Estados Unidos e a União Europeia. E até a ONU é uma
instituição questionada, sobretudo Guterres, acusando-o de declarações
parciais. Há uma visão da Europa, não isenta de preconceitos, em que somos
vistos como individualistas, demasiado apegados ao dinheiro e ao consumo, pouco
dados aos valores da família e da comunidade, pouco solidários e, naturalmente,
somos considerados fantoches dos norte-americanos. Mas também sabem que há
gente que protesta, que não está de acordo com determinadas políticas e que se
mobiliza contra a guerra.
O que me parece grave é que os líderes europeus fazem tudo
para meter gasolina na fogueira como foi o caso de Josep Borrell,
dizendo que a Europa era um jardim e o resto do mundo uma selva.
Isto significa reforçar, no resto do mundo, o antagonismo ao
eurocentrismo e a esta ideia de que a Europa é um oásis civilizacional no
meio dos selvagens.


