A Anthropic recusou permitir o uso
da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão
humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá
consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo
será tecnológico
12 março 2026
Enquanto o mundo acompanha a
guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais
profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA),
criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas
e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proibição de vigilância em massa
dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão
humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de
esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar
guerras.
A resposta da Administração foi
declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma
designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem,
como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que
nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a
Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é
a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a
guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo
Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado
pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi
com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no
Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento
que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.
Ninguém compra um tanque e aceita
que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump.
Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com
consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic,
que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são
na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A
Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar
imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a
contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada
norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra
que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir
conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos.
Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.
Roberto Schmidt/Getty Images
As leis, os regulamentos e as
salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não
controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e
ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos
construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos.
Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para
não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um
contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do
concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta
insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio
nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas
mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização
de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis
acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.
Já sabemos que chegue para
perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade
impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas
levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento social. Temo
que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade
existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o
seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não
formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e
aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as
escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas
mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A
diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um
suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido,
deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma
construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será
tecnológico. E ele aí está.
LIVROS SOBRE O
IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER
DOS ESTADOS-UNIDOS
- livros
sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria
dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os
disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...
* Alfredo Barroso
2026 02 26
HISTÓRIA E
LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO
OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL
Para não ser
apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de
leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra
cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra
Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade.
Ei-las:
«DER BRAND.
DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS
BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que
assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra
Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e
localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e
crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas
incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para
sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.
Até à
publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma
narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas.
O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra
sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos
planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.
Com base em
numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas,
o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população
refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão
do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de
incomensurável riqueza.
JÖRG FRIEDERICH
(nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes
de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries
de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi
galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus
trabalhos.
«LUFTKRIEG UND
LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através
deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os
bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses
da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura
alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que
falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald
preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação
total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.
«Da destruição
como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada
por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita
por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de
várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno»
(1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).
(Edição
portuguesa da TEOREMA)
«HIROSHIMA»,
por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do
jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela
primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John
Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão
integral.
Quando a bomba
atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de
Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do
departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a
conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de
um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A
senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha.
O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem
cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra
de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor
da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de
um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.
«A bomba
atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os
sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando
tantas outras pereceram».
Ao mesmo tempo
que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o
outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal
dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades
japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade
japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido
equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e
Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as
figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego
militar da energia atómica.
(Edição
portuguesa da ANTÍGONA)
«CHAIN OF
COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE
TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande
jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe
de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade
Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib,
no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente
colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do
poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de
neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do
relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração
directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação
‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram
escapar Ossama Bin Laden…
Vale a pena
salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh
foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um
mentiroso».
Este livro
lê-se como um antídoto à desinformação.
SEYMOUR M.
HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante
quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se
sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele
que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por
tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou
muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New
Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado
com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).
«DIRTY WARS,
THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por
JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma
Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o
efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais,
lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto
por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017),
com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.
Nesta
impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill
foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command
(JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa
Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o
qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando
pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra
às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e
mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma
América deveras sanguinária.
JEREMY SCAHILL
é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana
‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado
mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo
‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill
fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as
informações reveladas por Edward Snowden.
Este seu livro
foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da
América pela “Publishers Weekly”.
Campo
d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)
Assim como a Ku Klux Klan (KKK) não foi uma
aberração marginal na história dos EUA, nem um mero desdobramento da loucura
racista, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) não é uma aberração
motivada por questões de segurança, uma patologia trumpista. Ambos derivam da
mesma matriz: a violência estatal fascista — racializada — como técnica para
lidar com as contradições de classe do capitalismo americano.
Portanto, associar a Ku Klux Klan à polícia anti-imigração
contemporânea não é anacrônico nem provocativo.
Embora a Ku Klux Klan e o ICE difiram em seu status legal
(uma clandestina, ilegal e terrorista, a outra institucional, legal e também
terrorista), convergem em sua função histórica: produzir um inimigo
interno racializado para disciplinar todo o proletariado nacional .
Incluindo, e especialmente, o proletariado branco, transformado em um auxiliar
ideológico de sua própria opressão.
Como lembrete, a Ku Klux Klan
surgiu em um momento específico da história dos Estados Unidos, após a Guerra
Civil ( 1861-1865), que terminou com a abolição legal da escravatura.
A Ku Klux Klan constituiu uma das formas mais violentas e explícitas
da contrarrevolução social desencadeada após a abolição da escravatura. A KKK
surgiu como uma força armada clandestina, incumbida de restaurar, por meio do
terror, o que a lei acabara de destruir. Organização terrorista supremacista
branca, a KKK estabeleceu-se como um instrumento para a manutenção de uma ordem
social fascista, inseparável da dinâmica de poder econômico e político inerente
ao capitalismo americano, concebida para impedir qualquer reorganização do
proletariado em bases não raciais.
A Ku Klux Klan não apenas odeia; ela organiza o ódio .
O racismo que promove não é uma paixão espontânea, mas uma ideologia política
concebida para dividir a classe trabalhadora. Ao incitar trabalhadores brancos
pobres contra trabalhadores negros, a Klan desvia a raiva social de seu alvo
real (a burguesia proprietária) e a canaliza para um inimigo imaginário,
essencializado e desumanizado.
Desde a sua origem, a KKK atuou como uma força policial
auxiliar informal, encarregada de fazer o que o Estado hesitava ou se recusava
a assumir abertamente: aterrorizar, expulsar simbolicamente ou mesmo
fisicamente uma população negra que se tornara legalmente cidadã, mas
socialmente indesejável.
A Ku Klux Klan impôs sua vontade por meio de táticas de
intimidação em massa: patrulhas, vigilância, punições, linchamentos e execuções
sumárias. Controlava a circulação, intimidava pessoas negras e impunha o medo
como norma social. Em outras palavras, exercia uma função de policiamento
racial, à margem da lei, mas tolerada (ou até mesmo apoiada) pelas autoridades
locais.
Na verdade, a supremacia branca funciona como um ópio
político, uma compensação simbólica oferecida aos brancos explorados:
desprovidos de poder econômico, eles recebem uma superioridade racial fictícia,
concebida para neutralizar qualquer consciência de classe. A Ku Klux Klan é,
nesse aspecto, uma organização profundamente burguesa em sua função, mesmo
quando recruta membros da classe trabalhadora.
Ao contrário da crença popular, a Ku Klux Klan nem sempre
operou nas sombras. A partir da década de 1920, tornou-se uma força de massa,
infiltrando-se no aparato estatal e controlando governadores, juízes e membros
do parlamento. A violência racial deixou então de ser marginal; tornou-se
governamental.
Nas últimas décadas, a Ku Klux Klan pode ter perdido seus
capuzes e cruzes em chamas, mas o racismo estrutural que ajudou a estabelecer
permanece, reciclado em formas legalmente aceitáveis, controladas pela mídia e
politicamente vantajosas.
Pior ainda. Hoje, renasce sob o
uniforme do ICE , a agência federal americana vinculada ao
Departamento de Segurança Interna (DHS), criada em 2003 após o 11 de setembro,
como parte da mudança do Estado americano para uma abordagem focada na
segurança. Sob a administração Trump, o ICE passou por uma transformação
repressiva mortal. Deixou de ser um simples órgão administrativo e tornou-se o
braço armado de um projeto político xenófobo e antissocial, uma milícia
estatal, uma força repressiva especializada que opera contra uma população
designada como inerentemente suspeita. O ICE foi transformado em um instrumento
espetacular de soberania punitiva. Não se trata apenas de punir, mas de tornar
isso realidade. A violência se torna uma mensagem dirigida à população
americana subjugada: o Estado pode destruir vocês, expulsá-los, apagá-los.
Essa espetacularização da violência aproxima o ICE das
milícias fascistas históricas, cuja função não era apenas repressiva, mas
também simbólica: produzir um clima de terror como forma de dissuasão. Sob o
governo Trump, a violência se torna uma linguagem política dirigida a toda a
população americana oprimida.
Com o ICE, a figura do inimigo não é mais simplesmente a
pessoa negra libertada, mas também o imigrante (principalmente latino)
construído como invasor, potencial criminoso, parasita econômico (sic)
Os métodos do ICE são agora conhecidos mundialmente, sendo
notícia todos os dias: batidas policiais ao amanhecer, muitas vezes sem mandado judicial claro; prisões
arbitrárias, baseadas em perfilamento racial; separação de famílias, inclusive
de crianças pequenas; centros de detenção semelhantes a prisões extrajudiciais;
assassinatos de manifestantes.
Assim como a Ku Klux Klan, o ICE não se limita a aplicar a
lei: cria um clima de terror com o objetivo de disciplinar toda a população
americana. O terror se torna um instrumento de governo.
A diferença essencial entre a Ku Klux Klan e o ICE,
portanto, não é moral, mas legal. A Klan agia fora da lei; o ICE age dentro da
lei. Mas essa legalização não rompe com a função histórica da violência racial:
ela a normaliza.
O imigrante não é o alvo final: ele é a figura
experimental.
Onde a Ku Klux Klan queimava cruzes para marcar uma
fronteira racial intransponível, o ICE ergue muros, campos e bancos de dados
biométricos. Em ambos os contextos, cumprem a mesma função de classe. Em ambos
os casos, a racialização serve para dividir as classes dominadas. A KKK impedia
alianças entre trabalhadores negros e brancos pobres no Sul pós-escravidão. Sob
Trump, o ICE desvia a raiva social de trabalhadores precários para imigrantes,
acusados de roubar empregos, sobrecarregar os serviços públicos e
"ameaçar a identidade nacional".
A Ku Klux Klan e o ICE não são produto de uma aberração
coletiva macabra nem da patologia individual de Trump. São produto de uma
sociedade americana repleta de antagonismos de classe permanentes e
irreconciliáveis.
A Ku Klux Klan e o ICE de Trump não são idênticos, mas estão
historicamente relacionados. Um personifica a violência racial crua de um
Estado em reconstrução após uma longa e sangrenta guerra civil. O outro, a
violência administrativa de um Estado capitalista em declínio, ameaçado por uma
guerra civil. A transição da Klan para o ICE representa menos uma ruptura do
que um refinamento dos instrumentos de dominação e repressão. Quando o terror
muda de uniforme, mas mantém seu alvo, o problema não é o excesso, mas a
própria estrutura do poder americano, que está se tornando cada vez mais
fascista.
Como o capitalismo americano está em crise sistêmica, ele
exige uma população superexplorada, marginalizada, móvel e aterrorizada. Para
alcançar esse objetivo, o Estado cria o aparato apropriado: a milícia do ICE.
Na verdade, o ICE não combate a imigração. Ele administra a
ilegalidade para manter o proletariado americano em estado de medo perpétuo. O
imigrante não é o alvo final. Ele é o sujeito experimental. O objetivo
principal do ICE não é controlar estrangeiros. Ele serve para testar,
normalizar e expandir técnicas de dominação e repressão aplicáveis a toda a
classe trabalhadora americana.
A imigração é um pretexto conveniente, um laboratório para a
repressão. A derrocada rumo ao fascismo sempre começa com a criminalização do
segmento vulnerável do proletariado: o imigrante. Nesse caso, nos Estados
Unidos, o imigrante constitui um campo de testes ideal. O que é imposto aos
imigrantes hoje — ou seja, detenção administrativa, suspensão de garantias
legais, vigilância constante e terror doméstico — poderia ser estendido amanhã
a todo o proletariado americano.
O objetivo de generalizar e normalizar a Iniciativa de
Cooperação Econômica (ICE) é incutir disciplina por meio do exemplo. A função
central da ICE não é a deportação, mas sim a demonstração. A mensagem é
simples: os direitos não são universais; são condicionais e revogáveis.
Assim, até mesmo o trabalhador americano precisa entender
que seus direitos podem ser suspensos, redefinidos ou revogados. O ICE
desempenha um papel estratégico: dividir a classe trabalhadora americana. Essa
divisão visa impedir qualquer consciência de classe unificada. Um proletariado
americano dividido é um proletariado que pode ser forçado à servidão e
explorado à vontade. E, sobretudo, neste período de marcha forçada rumo a uma
guerra generalizada, pode ser transformado em bucha de canhão.
A violência do ICE é deliberadamente pública, tornada
visível, filmada e transmitida.
Deliberadamente teatral, para enviar uma mensagem clara a
todo o proletariado americano, o principal alvo do terror. Assim, o verdadeiro
alvo é o proletariado americano como um todo, incitado a se acostumar com o
medo, com o terror de Estado, com o excepcionalismo, com a repressão sangrenta
e com a revogabilidade permanente de seus direitos.
O ICE não se dirige contra estrangeiros . Dirige-se
contra toda a população americana, considerada supérflua pelo capitalismo. O
imigrante é o primeiro. Ele não será o último . O ICE não defende as
fronteiras dos Estados Unidos. Defende fronteiras de classe.
O ICE não é uma exceção. É uma vanguarda repressiva.
O que hoje é reservado aos imigrantes será aplicado aos
desempregados, sindicalistas radicais, populações empobrecidas, manifestantes
políticos, dissidentes, antimilitaristas e ativistas revolucionários.
Historicamente, as milícias surgem quando o Estado precisa
recorrer à violência que não consegue justificar ideologicamente. No caso da
América capitalista, essa violência é reintegrada ao Estado. A Ku Klux Klan
realizava o trabalho sujo da perseguição racial à margem da lei. O ICE (Serviço
de Imigração e Alfândega dos EUA) faz isso dentro da lei, pago e recompensado
pelo Estado fascista. Sob o governo Trump, a milícia não usa balaclavas brancas
nem braçadeiras paramilitares: ela ostenta um distintivo federal, tem orçamento
público e age em nome da lei. É justamente isso que a torna mais
formidável: o terror tornou-se sancionado pelo Estado.
A impunidade do ICE não é um
escândalo para o estado pirata americano.
Trata-se de uma necessidade operacional para o capital
americano em declínio, apesar de seu poder hegemônico. Um aparato concebido
para aterrorizar uma população não pode ser submetido a um controle genuíno. O
controle destruiria sua eficácia repressiva. O governo Trump sabe disso.
Portanto, orquestra a opacidade, a proteção institucional e a
irresponsabilidade criminosa.
Diante do Estado burguês fascista que governa pelo terror e
pelo assassinato legalizado, a alternativa para o proletariado americano se
apresenta agora de forma inequívoca: ou suportar a generalização da repressão
mortal ou iniciar uma ruptura revolucionária por meio da luta anticapitalista
radical. Não há uma terceira via.
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias.
As eleições presidenciais, ultrapassada a primeira volta, com algumas notas que merecem referência, entre os candidatos do consenso neoliberal – como o classificou certeiramente António Filipe, ainda que esse consenso seja variável e tenha vários matizes –, a segunda volta entre um candidato pouco entusiasmante, coleccionador de banalidades atérmicas ditas consensuais e um outro que é um demagogo manipulador sem escrúpulos, provocou um sobressalto entre barões assinalados de vários quadrantes políticos, que porém não demoveu partidos políticos como o PSD, CDS, IL de se entricheirarem numa neutralidade entre os dois candidatos, apesar de um ser manifestamente contra a democracia como está inscrita na Constituição, no que é acolitado pela IL, com o objectivo indisfarçado de a rever para recuperar os três salazares, o estado de sítio do salazarismo-fascista actualizado aos ventos da história.
Como vivemos um tempo dominado pelas máquinas mediáticas difundidas e controladas pelas oligarquias que favorecem as direitas, o seu avanço transnacional conquista cada vez mais espaço e relevância, por todo o mundo e por esta nossa periferia. Nesse ambiente, em linguagem modernaça nesse ecossistema, multiplicam-se os debates entre os candidatos mas o que mais se sobreleva são os comentadores que nas suas inúmeras chalras procuram um vencedor e um perdedor, em que a argumentação política de cada um dos intervenientes, muitas vezes intencionalmente condicionada a favor de um dos contendores pelos moderadores, é atirada para segundo plano, numa simulação de que se está a discutir política quando de facto o que se promove é a despolitização afundada no destaque concedido à capacidade argumentativa mesmo que utilize as mais evidentes mentiras, meias verdades, manipulações factuais, todo o arsenal sobretudo de políticos dispostos a os usarem sem pejo. A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.
A persistência desta situação amplifica-se com uma inusitada surgência de politólogos, cientistas (?) políticos, investigadores (?) de comunicação política e afins que florescem entre as hordas dos encartados, há sempre um a cada esquina. Uma dessas personagens consegue entrever, no último debate entre os dois candidatos frente a frente na segunda volta «que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro (…) provavelmente, estas duas figuras vão encontrar-se no futuro e trabalhar juntas mas em circunstâncias diferentes – e, muito provavelmente, com Seguro como Presidente da República e talvez ainda com Ventura como primeiro-ministro. De facto, vemos que há essa noção ali implícita». De facto o confronto foi temperado, até por via dos hibernados moderadores, mas apesar da baixa temperatura e do mal-estar da democracia que está a degenerar, que se está a auto-corroer pelos vírus fascistas, pelos autoritarismos que saem debaixo dos tapetes, que entram pelas suas frinchas, o que para esta não sei quê politóloga configura uma normalidade futura, ainda que não seja expectável no imediato que o Chega alcance uma maioria, ou uma maioria numa qualquer espúria coligação, que coloque André Ventura em primeiro-ministro.
A banalização dos tiques fascizantes do Chega, também até mais da IL, essa pela via das etiquetas de boas maneiras e tiques corporativos, transparece como uma evidência nos copiosos grupos de falantes com acento fixo ou variável nos meios de comunicação social, em que uma boa parte são professores(as) universitários(as) com vários doutoramentos e pós-graduações, como actualmente é costumeiro e vezeiro nas misérias académicas, sobretudo nas áreas das ciências humanas, que proliferam nas universidades por todo o mundo e arredores onde nos situamos, em que é dominante a esterilidade do pensamento político reduzido a uma quase paródia, como tem sido exposto pelo que subsiste de pensadores sólidos da elite democrática e progressista como Georges Steiner, Noam Chomsky, Russell Jacoby, Edward Bernays, Domenico Losurdo, Edward W. Said, Sheldon S. Wolin, Zachary Karabell, Chris Hedge, Julien Benda ou István Mészaros.1
«A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.»
Outra das reacções a uma segunda volta das presidenciais entre António José Seguro e André Ventura, foi a da rejeição do segundo, com até declarado apoio ao primeiro, por muitos independentes mas também, como já se referiu, por muitos dos barões assinalados dos partidos que declararam neutralidade. Houve quem embandeirasse em arco e muito fogo de artifício, afirmando mesmo um habitual escriba de um jornal dito de referência, queira o que queira isso dizer ou não, que também é presença assídua nos ecrãs televisivos onde tartamudeia lugares comuns como se fossem detalhadas cerebralizações, proclamando que chegamos ao tempo em que a direita deixou de ser «fascista», acrescentando quase orgasticamente que «a direita democrática, ou a área "não-socialista", dá uma bofetada com luva branca à esquerda panfletária que a continua a olhar como "fascista". Quando, e se, a qualidade da democracia voltar a estar em causa, sabemos que há portugueses de bem a dar a cara para os defender». É a leitura mais mediocremente simplista em que subjaz uma básica conjectura direitolas.
O que será a «esquerda panfletária»? Não devemos errar muito, pelo andar da carruagem da figura, que, sem muita coragem para o nomear, se esteja a referir ao PCP, o qual chama fascista ao que é fascista, reaccionário ao que é reaccionário, direita ao que é direita, extrema-direita ao que é extrema-direita, não se deixa enrodilhar no linguajar pós-moderno dos populismos, das democracias iliberais, mas sempre soube e assim o demonstrou ao longo da sua longa história de luta pela democracia e pelas amplas liberdades, distinguir mesmo entre os reaccionários e os de direita não os metendo indistintamente no mesmo saco. O que ele não entende – é o problema da escassez das tão celebradas por Poirot celulazinhas cinzentas –, porque atesta de forma parvóide a morte do fascismo. Escasseia-lhe entendimento para perceber os avisos de Umberto Eco que explicava que o fascismo não é um sistema fechado, é um fenómeno psicológico e cultural — o «Ur-Fascismo» – que pode ressurgir sob novas roupagens, mesmo em tempos de democracia, e que quando voltar fascismo não dirá «eu sou o fascismo», dirá «eu sou a liberdade». Tal como não ouviu um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, 1997, com uma frase premonitória, de uma implacável lucidez: «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas».
Os neo-fascistas dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras, castanhas, azuis, verdes, mesmo quando exibem motoserras não tiram as gravatas, dispensam o arregaçar as mangas, mantêm intactos os seus sinistros objectivos, a tipologia dos seus financiadores destacados capitalistas, muitos deles com negócios obscuros, alguns sob a alçada da justiça, apesar de bem se saber que o direito é sempre o direito dos mais fortes à liberdade. Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.
A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha de óleo do filisteísmo, do farisaísmo, das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, a mais completa submissão aos poderes que se dizem querer subverter, com o truque de se apresentarem como anti-sistema, quando são os mais radicais defensores do sistema para que este se torne ainda mais presente e activo em atendimento das especulações do grande capital. Sistema mais ou menos brutal conforme as circunstâncias. Decretar a morte do fascismo é cegar-se voluntariamente, na realidade é pago para isso, perante a desmesurada presença do gauleiter do Chega na comunicação social escrita, televisiva, radiofónica, para sustentar a sua tese de que «o que está em jogo, nisso têm razão os apologistas de Ventura, não é uma ameaça do fascismo (...) Nada em André Ventura ou no Chega se conjuga para impor um programa totalitário com milícias de camisa negra ou castanha a marchar no compasso das coreografia marciais. No que não têm razão é negarem que André Ventura e o seu programa são apenas uma manifestação normal da democracia». Aqui entronca uma questão de fundo que é perante o risco de Ventura se eleger Presidente da República concluir que «a direita democrática esteve à altura das suas responsabilidades num momento crítico da democracia.» Mais uma simplificação, em boa verdade não se lhe pode exigir mais. O momento é crítico para a democracia tal como António Guerreiro, numa das suas crónicas no Ypsilon, sublinhou: « o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).
A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário». Quando por cá se permite a construção de um partido que é declaradamente contra a Constituição, que reiteradamente não cumpre decisões do Tribunal Constitucional, há que questionar este súbito despertar democrático.
«Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.»
Coloque-se uma hipótese: se em vez de André Ventura o adversário de António José Seguro fosse Cotrim Figueiredo, o repúdio desses barões assinalados seria o mesmo? No entanto tanto Ventura como Cotrim pugnam por uma profunda revisão constitucional, chegaram mesmo a propor um pacto com esse objectivo, que aplainasse a democracia tal como está instituída, preconizando formas mais autoritárias. Ambos são favoráveis à privatização do que ainda resta por privatizar e nisso Cotrim até é mais vocal. Os direitos sociais, económicos e políticos são para Ventura esmurrar e Cotrim motoserrar. Cotrim poderia eventualmente ter contra ele um alegado e não provado caso de assédio sexual, que no Portugal coutada do macho ibérico, como um ilustre juiz despachou num julgamento de violação de duas jovens estrangeiras que estavam a pedi-las, qualquer mulher só por ser mulher está sempre a pedi-las, não lhe deveria desgastar substancialmente os apoios. Se fosse Cotrim em vez de Ventura haveria algum similar sobressalto democrático? Cotrim que, não passando à segunda volta, também não se demarcou de extrema-direita, preferindo avisar sobre os riscos de se ter um presumível perigoso socialista em Belém.
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias. O que os perturba e assusta é a eventualidade de, num jantar num qualquer Palácio da Ajuda, abancar um Presidente da República que se desbrague em discursos carregados de impropérios, que confunda os talheres de carne com os de peixe, não distinga copos de vinho tinto dos de vinho branco, que no limite até limpe os beiços com a gravata. Por detrás do pano de fundo deste vasto bater de tambores, da direita à esquerda, com declarados apoios a Seguro, os partidos políticos em que se inscrevem o façam entricheirando-se numa neutralidade oportunista, não vá o diabo tecê-las e muitas dessas tessituras até se encontram.
Uma última e muito reveladora observação é o silêncio desses partidos e personalidades sobre a Operação Irmandade da PJ que investigou o grupo neo-nazi 1143, a qual não lhes provocou grande indignação pública, tal como nem timidamente invectivaram o candidato presidencial Ventura que acaba por considerar essa bandidagem seus eleitores, apoiantes, mesmo companheiros de estrada, como foi evidente na sua última entrevista na RTP. O que se poderá concluir? É que o muito festejado e celebrado consenso entre direitas e esquerdas em torno da escolha que está em causa está muito mais ancorado entre a má educação de um candidato e a boa educação do outro do que na defesa da democracia tal como a vivemos, com todos os défices acumulados em anos de governos PS, PSD, CDS. Um candidato à direita, com os mesmos princípios e objectivos, mas mais palatável que Ventura, não produziria esta sucessão de declarações, o que de algum modo implode a pulsão democrática que tanto excita essa turbamulta de comentadores e jornalistas. Há que enfatizar que, depois de anos e anos a perorar sobre o desaparecimento de direitas e esquerdas, agora lembram-se que essa diferenciação sempre existe e está para durar, a que se adicionam todos os outros que, quando declaram não ser de direita nem esquerda, são obviamente de direita.
Merece ainda destaque as intranquilidades dos intelectuais orgânicos na hipótese de André Ventura ter o apoio de um em cada quatro portugueses depois de se ter comemorado os 50 anos do 25 de Abril, interrogando-se mesmo onde é que se terá falhado! Não sabem? Há muito para lembrar-lhes, sem colocar qualquer dúvida sobre o seu empenho democrático, principalmente porque nestes 50 anos ocuparam lugares importantes nas instituições democráticas e foram dos que mais presença assídua tiveram nos meios de comunicação social. É bom auxiliarmos a sua memória.
▪️1.Refiram-se, entre outros, Russell Jacoby, The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe, Basic Books, 1987; Edward Bernays, Propaganda, Comment Manipuler l'Opinion en Democratie, La Découverte, 2007; Zachary Karabell, What's College For? The Strugle to Define the American Higher Education, Basic Books, 1998; Edward W. Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996; Noam Chomsky, Mudar o Mundo, Bertrand, 2014; Domenico Losurdo, Critique de l’apolitisme. La leçon de Hegel d’hier à nos jours, Delga 2014; Frank Furedi, Where are the Intellectuals Gone? Cofronting 21th century Philistinism, Continuum, 2004; Sheldon S. Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, Princeton University Press, 2008; István Mészáros, A teoria da alienação em Marx, Boitempo, 2016, Chis Hedges, La Mort de l'Élite Progressiste, Lux Futur Proche, 2012.
▪️ www.abrilabril.pt
«Golconda», de Rene Magritte, 1953Créditos/ The Menil Collection, Houston
Há dias acabei um artigo com um poema de Fernando Pessoa (heterónimo Alberto Caeiro) . Hoje começo este com outro poema, no caso de Eduardo Alves da Costa, um poeta brasileiro não muito conhecido, texto que é erroneamente muitas vezes atribuído a Maiakovsky, talvez por causa de seu título:
NO CAMINHO, COM MAIAKOVSKI
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
Vem isto a propósito de como Mark Rutte decidiu entregar parte da Groenlândia aos EUA, concedendo-lhes o direito de instalar por lá as bases militares que entendessem e possuindo DE FACTO os territórios onde tais bases vierem a ser construídas.
Naturalmente, na versão de Donald Trump além dos locais onde tais bases venham a ser instaladas, os EUA possuiriam também todo o direito de explorar os recursos energéticos e minerais da grande ilha. Estamos portanto na fase em que os ladrões do poema de Maiakovsky já pisaram as flores.
Deve Mark Rutte ficar preocupado? Foi ele foi o cão que não ladrou quando a primeira flor foi roubada. Ele será a próxima vítima? Talvez não, dependendo de quem seja o seu dono.
De qualquer forma, está a esgotar-se o tempo da Dinamarca e seus supostos aliados europeus dizerem alguma coisa, antes que suas vozes lhes sejam arrancadas das gargantas
Pouco depois da
primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum
público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador
ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer
ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que
dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um
deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações
“inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era
a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo
descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de
Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.
Esses dois
aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As
Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de
conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras
imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se
ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam,
dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois,
fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.
Na minha
opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados
Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das
políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a
militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra
a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O
ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é
um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução
gera guerras globais.
O que obscurece
essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a
invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina
Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo.
Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos,
declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e
tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da
Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também
interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e
noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de
Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano
dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem
como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.
Essa versão
autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que
querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa
original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre
alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais.
Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a
história e para a dinâmica do imperialismo.
História.
No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de
Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as
guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria
pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na
Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente.
Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de
curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica
regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras
limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas
hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra
mundial.
Por quê? Por
que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em
vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções
visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da
Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África,
a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as
maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos.
Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de
Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam
Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo
principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China
(e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.
Dinâmica. Deixando
de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque
à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival
obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo
polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial
bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto,
mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva
“guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa
polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América
Latina, África e Ásia Oriental.
Mas isso não é
tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais
essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar
tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em
1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o
regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se
apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os
imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para
garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais
monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até
então era considerado o quintal da Europa.
Qual é a moral
da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais
não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por
desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os
povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do
capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas
industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas
a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as
suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando
viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria
viabilidade), vão armadas até aos dentes.
Comentadores
liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine
sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem
ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios
podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses
períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os
problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam
– problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas
pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria
guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia
a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império
em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.
O facto de a
guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em
massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não
altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações
Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos
inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um
prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que
qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser
capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de
deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto
Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um
tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta.
Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma
guerra global iminente.
O
intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa
guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não
apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de
liberais do establishment, centristas de ambos os partidos,
especialistas em política externa e pela grande mídia.
Devotados ao
dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e
Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump,
exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes,
age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New
York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser
ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo
venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um
novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz”
colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de
ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores
da “liderança mundial” dos EUA.
Sejam
anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros
corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da
sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a
má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado
e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes.
Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e
conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de
Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de
intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.
Enquanto isso,
os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender
o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do
ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar
a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso
despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a
violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.
Para citar a
faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A
Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.
O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.
Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão,não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.
Diversos altosfuncionários presos por crimes de guerra, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.
Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.
A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.
Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.
Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.
Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.
Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.
Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.
Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.
Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.
Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, o Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.
O Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.
A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.
Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.
O Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.
Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.
No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.
Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.
Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.
Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:
“Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto nazi. Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”
Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:
“Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.
“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.
É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.
E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.
Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.
Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.
Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.
E por lá estão.
E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”, poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::
“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.
Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicos, industriais, juízes, ministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).
Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”
Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:
“o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).