quinta-feira, 27 de julho de 2017

As catequistas e os frades (Crónica)

Por Carlos Esperança - julho 27, 2017

A Ti Ricardina e a sua sobrinha Aurora eras as duas únicas catequistas da aldeia. Apesar de analfabetas tinham alvará para ensinar a doutrina da única religião verdadeira. Eram celibatárias e devotadas à propagação da fé. Sabiam de cor e lecionavam as orações e os castigos que o seu Deus reservava aos pecadores.

O pároco exercia o múnus em Casal de Cinza, Carpinteiro e Vila Garcia, mas residia na primeira paróquia, a que dispunha de “casa do padre”. Só aos domingos e Dias Santos de Guarda ia pontualmente a Vila Garcia dizer a santa missa e, em outros dias, quando necessário, para levar o viático a um moribundo, celebrar missas de corpo presente ou fazer funerais. Confissões avulsas, batizados e casamentos eram ocorrências dominicais.

Só ia ao sábado para desobrigas coletivas, com outro padre e hora marcada, para aliviar os pecados e aviar os pecadores que esperavam o perdão, após confissão bem feita, reza do ato de contrição e absolvição, que exigia ainda o cumprimento da penitência. E, logo que as confissões terminassem, seguia com o outro padre para nova paróquia.

No que me diz respeito, deviam ser leves os pecados porque a penitência que lhes cabia não excedia uns padre-nossos e poucas ave-marias, sinal de que eram leves as penas que o catálogo pio lhes atribuía, tal a brandura do cúmulo jurídico canónico.

Anualmente, o padre vinha ‘perguntar a doutrina’. Não me recordo de reprovações, mas alguns titubeavam na salve-rainha e outros hesitavam no credo, enquanto ele, absorto, refletia talvez no martírio do seu Deus ou na impureza dos pensamentos que o afligiam. A catequese ensinava que há pecados por pensamentos, não só por palavras e obras, e as obras não as conheciam ainda as crianças que nós éramos.

As catequistas esforçavam-se na preparação da eucaristia e esmeraram-se para o crisma com que o Sr. D. Domingos iria confirmar a apropriação eclesiástica com a falangeta do polegar direito a desenhar cruzes de óleo santo na testa dos sacramentados.

Eram então obrigatórias, para os cristãos, a missa dominical e, pelo menos uma vez por ano, pela Páscoa da Ressurreição, a desobriga e a comunhão. Mandava a prudência que os funcionários públicos cedessem os filhos à liturgia, para não poderem ser apodados de hereges, maçons, comunistas ou judeus, por ordem crescente de perigo profissional.

O cumprimento dessas obrigações não exonerava os crentes do terço, no mês de maio, o mês de Maria, das genuflexões na passagem à porta da igreja, em dias de Exposição do Santíssimo, ou da novena ‘ad petendam pluviam’, quando a canícula fustigava o renovo e o pároco decidia.

Procissões, jejuns e adoração da Cruz, na Sexta-feira Santa, e rezas à Sagrada Família, que viajava pela povoação e ficava 24 horas em cada casa, alumiada com a candeia de azeite, eram alimentos das almas e a obrigação pia da aldeia onde não chegara ainda a telefonia, a luz elétrica, o telefone, o saneamento ou outros malefícios urbanos.

Apesar da devoção, do zelo do pároco e da dedicação das catequistas, todos os anos ia à aldeia um frade a predicar. De sandálias, capuz e túnica de burel, cingida por uma corda cujas pontas baloiçavam, parecia ter-se soltado da argola onde o tivessem preso. Ia sem farnel e comia em casa de paroquianos, dormindo num cabanal, sobre palha, com manta emprestada, como prevenia o padre na missa anterior ao seu aparecimento.

Ainda ignoro a ordem dos frades que rumavam à paróquia, e ignorava então que o clero regular, à semelhança do reino animal, se dividia em ordens, classes, géneros e famílias. A chegada antecipava a desobriga anual e a sua prédica fazia chorar pessoas apiedadas das almas do Purgatório cuja duração da pena dependia das missas, orações e esmolas caídas nas caixas que lhes eram reservadas. Afligia os vivos com defuntos condenados por pecados veniais com que se finaram. O que diferenciava o Inferno do Purgatório era a barbaridade das penas e a eternidade, um padecimento irrevogável que interditava o Paraíso às almas caídas no primeiro.

Lembro-me dessas pregações sobre os horrores a que os pecadores seriam condenados se expirassem em pecado mortal; do fogo do Inferno; do azeite fervente; dos gritos de pavor das almas que o Demo frigia, em delírio, no caldeirão onde as mergulhava com o garfo de três dentes; do cheiro a enxofre; do eterno e inapelável sofrimento.

Com ameaças, advertia para o perigo do adiamento do batismo dos filhos, as mães eram sempre as responsáveis, apesar da obediência que deviam aos maridos, e o Limbo era o destino dos não batizados, com enterro na parte não benzida do cemitério. Era um local de tédio, triste e silencioso, de eterna melancolia, sem Deus nem Diabo.

Quando o papa Bento 16 aboliu o Limbo, por pudor ou sumiço da certidão do registo predial, lembrei-me da estupefação da menina Aurora quando perguntei como cabiam lá tantas almas. O Limbo era o destino de todos os finados sem batismo, a única terapia do pecado original, e havia imensos mortos antes de João Batista testar o batismo em Jesus, seu primo pelo lado da mãe, no rio Jordão. Disse que era mistério, a explicação habitual para todas as dúvidas, vinda de quem só tinha certezas.

Durante alguns anos julguei os frades mais horrendos do que o clero secular, sem pensar que era igual a farinha de que eram feitos e comuns os dogmas, antes de recusar a fé que me ensinaram e de me libertar do medo, cura que leva já seis décadas, sem recidiva.

Assim, depois de cumprido o ciclo biológico, vedadas a ascensão ao Paraíso e a descida ao Inferno, garanti a defunção no planeta em que nasci. 


https://ponteeuropa.blogspot.pt/2017/07/as-catequistas-e-os-frades-cronica.html

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eugénio de Andrade - Os Amigos

Eugénio de Andrade


Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.


Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

terça-feira, 18 de julho de 2017

Corto Maltese, 50 anos depois

. . .


Francisco Louçã

18 de Julho de 2017, 08:24

Por


Corto Maltese, 50 anos depois

P
arece que Mitterrand, perguntado sobre que personagens o impressionavam ou o seduziam, apontava para Corto Maltese. Matreirice, seria uma imitação mais elegante, mas escassamente menos narcísica, de um De Gaulle que afirmava que só temia a concorrência da popularidade de Tintin. Cada um vinha do seu tempo e, se ambos sobreviveram com um “perfume de lenda”, como escreve Umberto Eco sobre Corto, o facto é que foi Hugo Pratt quem marcou a imaginação que trespassa as fronteiras do espaço e da imaginação. Por isso, Corto Maltese é o herói moderno que sobrevive à sua contemporaneidade.

Talvez as pistas sobre este marinheiro maltês, filho de uma cigana de Sevilha e de outro marinheiro perdido, que nasceria em 1887 e cresceria no bairro judeu de Córdoba, ou seja, sem pátria, assistindo depois às guerras inaugurais do novo século, estejam por aí espalhadas: Italo Calvino participara na preparação de um guião de um filme, “Tikoyo e o tubarão” (1962, Folao Quilici), sobre uma criança que fala com o seu amigo tubarão, e horizontes oníricos desse tipo foram sendo explorados por muitos autores (veja-se a “Balada” ou “Mu”); e, evidentemente, a literatura de viagens aventurosas, de Rimbaud a Jack London, povoara a juventude de Hugo Pratt. Pratt, aliás, cresceu na Etiópia, viveu em Buenos Aires e Veneza, e sobretudo, percorreu as fábulas em que se mistura com Corto, a que dá forma no dia 10 de julho de 1967, com “A Balada do Mar Salgado” – fez agora cinquenta anos.
O maravilhamento de algumas figuras cimeiras da literatura com a banda desenhada, mesmo que a vissem como género menor, também não é de hoje e não se inventou certamente com Pratt. Steinbeck, que não era modesto, adivinhava provocatoriamente um Nobel para Al Capp, pela força do seu Li’l Abner, a representação encantatória do mundo rural norte-americano (e de uma simplicidade desarmante que levava a água ao seu moinho). Umberto Eco dedicou-se aos Peanuts e a Charlie Brown num livro, “Apocalípticos e Integrados” (edição portuguesa na Relógio d’Água), em que descreve os enquadramentos de cinema na tira do desenho.
Pode-se perguntar então de onde vem o ciúme ou a curiosidade que escritores de mérito têm da banda desenhada. No caso do sucesso de Pratt, percebe-se de onde vem essa sensação: é que Corto Maltese é mesmo um romance em forma de apresentação gráfica. Aliás, Pratt explora decididamente esse vínculo e pisca o olho à literatura clássica: Pandora lê Melville, Slutter lê Rilke e Shelley, Corto cita Conrad e a “Utopia” de More e, ao atravessar as mitologias (célticas, etiópicas, caribenhas, argentinas, venezianas, o vodoo ou o que lhe apetece), ao escolher com que se cruza (Butch Cassidy, o Barão Vermelho, Tiro Fixo, mas também Hemingway, Hesse, Joyce), vive aventuras que transcendem os limites do tempo. Nenhum romance pode pedir mais, se os traços são marcados, se as personagens vivem a sua vida, se nos surpreende, então é a melhor literatura. É certo que, sendo desenho, deciframos melhor nessas páginas alguma coisa do autor (Eco conta que a sua filha pequena, apresentada a Pratt, disse que ele era Corto), e portanto a mentira da literatura é vivida à nossa vista.
Mas Pratt morreu há vinte anos. Corto, que é mais teimoso, continua agora com o desenho dos espanhóis Juan Diaz Canales (Blacksad) e Rubén Pellejero, em “Sob o Sol da Meia Noite”, já editado em Portugal (Arte de Autor, 2017), anunciando-se um segundo livro desta dupla, “Equatoria”. Discutir-se-á se outro escritor pode continuar “Os Maias” ou “A Guerra e Paz” e dir-se-á que não pode. Mas, neste atrevimento, Corto cruza-se com Jack London, encontra rebeldes irlandeses, sonha com Rasputine, destrói uma rede de tráfico de mulheres, percorre o Yucon – e nós imaginamos o resto e aceitamos a aventura.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/18/corto-maltese-50-anos-depois/

domingo, 9 de julho de 2017

Alexandre O’Neill - Minuciosa formiga

* Alexandre O’Neill


Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.


"Formiga Bossa Nova" - do álbum "Adriana Partimpim" de Adriana Calcanhotto. 
Música original de Alain Oulman, adaptada do poema de Alexandre O'Neill "Velha fábula em bossa nova", originalmente cantada por Amália Rodrigues.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Mário Henrique Leiria - Rifão quotidiano

Mário Henrique Leiria 



MÁRIO VIEGAS diz “Uma nêspera que fica deitada”. 
Adaptado de Mário Henrique Leiria, Novos contos do gin tonic, 1974


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece


Mário Henrique Leiria, Novos Contos do Gin, 1978, p. 31


______________________
(1) Rifão: ditado popular, provérbio.

domingo, 2 de julho de 2017

José Fanha - BALANÇO PROVISÓRIO

* José Fanha


Estamos mais gordos mais magros
talvez mais denso
ou mais pesado o nosso olhar
temos pressa de ternura
angústias de vez em quando
e umas contas de telefone atrasadas
para pagar.

Temos falta de cabelo
três ou quatro cicatrizes
sofremos de inquietação.
Muitas vezes nos disseram
como é rápido o deslize
mesmo assim nunca deixámos
de dar corda ao coração.

Daqueles que já partiram
guardamos silêncio e nome
e uma improvável mistura
de amargura e rebeldia
nas palavras desordeiras
que dizem redizem cantam
relembrando dia a dia
como é feita de azinheiras
a capital da alegria.

Muitas ondas já morreram
outras tantas vão nascer
muitos rios já se cansaram de correr até á foz
águas claras que se foram
outras águas se turvaram
e agora restamos nós.

Somos muitos somos poucos
calmamente radicais
sabemos vozes antigas
trazemos a lua ao peito
amamos sempre demais.

Neste caminho tomado
fomos traídos trocados
vendidos ao deus dará.
Nem por isso desistimos
e assim nos vamos achando
perdidos de andar às voltas
nas voltas que a vida dá.

Somos uns bichos teimosos
peixes loucos aves rindo
plantas poetas palhaços
e portanto resumindo
somos mais do que nos querem
estamos vivos
somos lindos.


Ferreira Fernandes - Eu apagava

* Ferreira Fernandes

 Um amigo, bom e experimentado repórter, disse-me, um dia: "Nunca estendas o microfone a um futebolista que sai do campo para ser substituído." Como raramente estendi um microfone e todos os jogos que vi foram quase sempre sentado, ora em bancada ora em sofá, percebi que o velho jornalista estava a debitar um conselho geral. Ele ainda me disse: "Depois de se andar a correr 70 minutos o cérebro está demasiado oxigenado, ou de menos..." Aquela dúvida entre duas situações opostas - vinda dele, que mais depressa dissertaria com exatidão sobre isquemia cerebral, e assim - confirmou-me que só aparentemente estávamos a falar de as substituições no futebol serem vividas com a cabeça a não funcionar como deve ser... O meu amigo falava duma lei universal para quem pergunta com a vontade de ouvir uma resposta autêntica.

Autêntica, isto é, dada por alguém sabendo o que está a dizer e em condições de saber que, depois de dita para um jornalista, a resposta ganha asas e atinge ouvidos mal-intencionados que eu sei lá. Erra o leitor que pensa que esta minha crónica é sobre assuntos de jornalismo, normas e conselhos para uma corporação. Também é, mas o sujeito da crónica é o abusado pelo jornalista. O indivíduo a quem se aponta um microfone, sem ser prevenido de que aquilo dispara.

Quem diz futebolista, diz peixeira. Mais abaixo, publico um discurso recente de uma mulher para jornalista, testemunho dado com cara e nome. Não são imagens como as do ex-ministro Miguel Macedo, exposto durante um interrogatório judicial, falando para uma câmara que ele pensava ao serviço da lei mas acabando por fornecer um esgoto. Essas imagens, a do ex-ministro, são fruto de duas anormalidades: a irresponsabilidade judicial e a canalhice de jornalistas. Essas, embora tão feias, de certo modo tranquilizam-nos, porque são anomalias, desvios. Mas, o outro, o discurso com que a peixeira foi apanhada na curva, é mais grave. Porque foi publicado e transmitido, em televisão e site de jornal, sem intenção de a ferir e sem se enganar a senhora com manhas. Coisa aparentemente e, quase de certeza, com vontade de ser limpa. Tanto que poderia ter sido publicada e transmitida por qualquer outro jornal português e televisão. Neste meu jornal também. E é esse o ponto: banalizou-se não nos interrogarmos sobre o que estamos a falar quando estamos a falar.

A comerciante e a sua carrinha de distribuição de peixe e fruta passaram pela estrada N-236 naquele dia em que houve ali tantas mortes. Dias depois, sempre a trabalhar, voltou ao local e falou para a câmara e para os microfones. A situação não configura o exemplo do futebolista apanhado com os bofes de fora, com mais ou menos oxigénio no cérebro. Mas, eu já o disse, aquele exemplo do meu amigo não era só para a vizinhança das quatro linhas do relvado. A senhora testemunha de forma emocionada, soluça por vezes. Não, ela não estava a falar de postas de pescada, mas de coisa sua, funda. E disse o que não devia.

Ela disse, cara filmada, nome na legenda, com a carrinha que há de continuar a parar entre os seus amigos e clientes, narrando como conduziu na estrada entre o fumo e o fogo. Disse: "Foi então quando entrei naquela fúria. A partir daí foi tudo quanto eu encontrava pela frente para me tentar salvar. Lembro-me de bater em vários carros a arder [palavras embargadas, soluço], não sei se os acabei de matar. Mas se os acabei de matar peço... peço desculpa porque ali era salve-se quem pudesse."

O vídeo, no jornal onde foi publicado, puxou para título o discurso direto, entre aspas, assim: "Se os acabei de matar peço desculpa, mas ali era o salve-se quem puder!" É quase exatamente o que a senhora disse, com uma emenda talvez gramaticalmente melhor. Em vez de "ali era salve-se quem pudesse", que ela disse, escreveu-se "ali era o salve-se quem puder." Interessante o cuidado na formulação gramatical quando se negligenciou, ou pior, deu-se demasiada atenção - até se chamou para título - ao que foi dito.

A senhora disse o que quis dizer, certamente sem ter sido coagida e sem ter sido endrominada para o dizer. Não é esse o ponto. E falou dias depois do acontecimento, sem estar no calor da ação, é certo. Mas não falava só para as amigas e clientes, algumas que até sabem quanto ela foi valente e podiam recolher-lhe as palavras, mesmo as perigosas, com a sabedoria que se reserva à conversa entre próximos.

Não, ela não falava para os seus. Ela estava a falar a um microfone e uma câmara - para um palavrão, multimedia - que serviriam de extraordinário altifalante ao que ela dizia. Sobretudo o indizível. A mulher que falava estava ciente dessa dimensão? E das traduções todas que as suas palavras teriam? E das palavras que mais especialmente seriam escolhidas pelos ouvidos estranhos (e para título, pelos jornalistas)? Saberia ela que com os aparelhos que lhe puseram à frente, às palavras o vento não leva, duram mesmo depois de se esquecerem os acontecimentos que as motivaram?

Enfim, a senhora interrogou-se com a prudência devida? Sabia de tudo, como todas as nuances com que seria ouvida, do que estava a falar quando estava a falar? Duvido. Mas os jornalistas sabiam. Todos, na cadeia que levou da recolha das palavras até à publicação e difusão, sabiam do extraordinário testemunho que aquilo era.

E, sabendo, deviam, vou dizer uma iconoclastia para o negócio: deviam apagar. Eu apagava as  Palavras da senhora. O meu critério é simples: se fosse um dos meus a dizer aquilo, eu apagava.


http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/eu-apagava-8602192.html

sábado, 1 de julho de 2017

Miguel Hernández - Soledades me quita, cárcel me arranca…

* Miguel Hernández


NO te asomes
a la ventana,
que no hay nada en esta casa.
Asómate a mi alma.
No te asomes
al cementerio,
que no hay nada entre estos huesos.
Asómate a mi cuerpo.

(De ‘Cancionero y romancero de  ausencias’. 1938-1941)