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domingo, 30 de agosto de 2026

(97) Fernando Pessoa - Livro de Desassossego (Prefácio)



 Café do Desassossego, em Setúbal (Foto Victor Nogueira - 2020 04 19 Canon 179_04 IMG_1061)


A frase «Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto...» é o célebre início do Prefácio do Livro do Desassossego , com referência ao heterônimo Bernardo Soares.
  • Inspiração literária: O escritor descreve sobre lojas de tabernas tradicionais em Lisboa onde se encontravam sossego, refeições económicas e tipos curiosos que inspiraram a criação da sua obra.
  • Localização real: Não se refere a um único restaurante comercial com esse nome exato, mas sim a um cenário típico da Lisboa antiga que o autor frequentava.
 * Fernando Pessoa (Bernardo Soares)

L. do D. (Prefácio)

Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que, sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem--se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida.

O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, em um período da minha vida, a ser frequente em uma sobreloja dessas. Sucedia que, quando calhava jantar pelas sete horas, quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fernando Pessoa - "Sê plural como o universo!"

* Fernando Pessoa



2021 07 15 Foto Victor Nogueira - Café do Desassossego, em Setúbal (2020 04 19 Canon 179_04 IMG_1061)


2017 06 07 foto victor nogueira . Setúbal - Café do Desassossego na Travessa da Anunciada (Bairro do Troino)

«A frase "Sê plural como o universo!" capta a própria essência de Fernando Pessoa, mas a resposta sobre qual é o seu "texto completo" costuma surpreender os leitores: não existe um poema ou um ensaio longo estruturado onde ela esteja inserida.

Trata-se de uma anotação isolada, um aforismo (frase curta que encerra um pensamento) que Pessoa registou de forma imperativa numa folha de papel solta.

Onde foi publicada?

Como grande parte da obra de Fernando Pessoa não foi publicada enquanto ele era vivo, este fragmento ficou guardado na sua famosa arca de manuscritos (o seu espólio).

A frase veio a público pela primeira vez em 1966, no livro "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação". Esta obra reuniu dezenas de textos e notas onde o próprio Pessoa tentava analisar e explicar psicologicamente a sua necessidade de se fragmentar e de criar os heterónimos (como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro).

Nos arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal, este fragmento textual está catalogado sob a referência específica BNP/E3, 20-68r. Ele surge ali, sozinho, como um lema de vida ou uma instrução que o poeta deu a si mesmo.

O significado por trás da frase

Embora curta, a frase resume perfeitamente o conceito da heteronímia e o projeto literário de Pessoa. Para ele:

  • O universo não é uma coisa só; é feito de multiplicidade, de contradições, de planetas, estrelas e perspetivas diferentes.

  • Um homem com uma mente desperta não se pode limitar a ter uma única profissão, uma única personalidade ou uma única opinião.

Ao escrever "Sê plural como o universo!", Pessoa justificava a criação dos seus outros "eus". Se o universo é infinito e múltiplo, o poeta também tinha o direito — e o dever — de o ser.?  (Google Gemini)

fernando pessoa - AUTOPSICOGRAFIA

Fernando Pessoa


2017 02 27 foto victor nogueira - Mural em Setúbal - 1985 - comemorativo do 50º aniversário da morte de Fernando Pessoa. Autopsicografia. O poeta é um fingidor.


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


2020 02 25 foto victor nogueira -  'máscaras' em Setúbal e mural alusivo ao 150º  aniversario do nascimento do poeta Fernando Pessoa


terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Nuno Costa Santos - A Mãe Açoriana de Fernando Pessoa



Opinião

* Nuno Costa Santos

Escritor e argumentista

Quando comento com alguém que a mãe de Fernando Pessoa era açoriana abre-se, com frequência, uma expressão de espanto. Não é facto divulgado – nem dentro, nem fora do arquipélago. Alguns dados recolhidos aqui e ali por investigadores. A mãe do poeta, Maria Madalena Pinheiro Nogueira, filha do terceirense Luís António Nogueira e da jorgense Dona Magdalena Amália Xavier Pinheiro, nasceu em Angra do Heroísmo, no ano de 1861, e, em 1865, foi viver para Portugal continental, aquando da nomeação do seu pai, juiz-conselheiro, jurisconsulto, director-geral do Ministério do Reino, para Secretário-Geral do Governo Civil do Porto.

Aos 25 anos, casou-se com Joaquim de Seabra Pessoa, que conciliava o ofício de funcionário do Ministério da Justiça com a vocação de crítico de música. Do casal nasceram dois filhos, Fernando e Jorge, que morreu menos de cinco meses após a morte do pai, por tuberculose. Maria Madalena veio a casar-se uma segunda vez, desta feita por procuração, com o comandante João Miguel dos Santos Rosa. Um mês depois, seguiu para Durban, cidade na qual o marido se tornou cônsul de Portugal, levando consigo Fernando. O casal teve cinco filhos, dois dos quais morreram na infância.

No ano de 1911, Madalena e João Rosa, devido a novas funções do marido, mudaram-se para Pretória. Depois da morte deste, em Outubro de 1919, Madalena voltou com os filhos para Lisboa, numa altura em que se encontrava relativamente debilitada por causa de uma trombose cerebral que sofreu em 1915. Na capital portuguesa, viveu primeiro com os filhos Fernando e Henriqueta na Rua Coelho da Rocha, 16, (a actual Casa Fernando Pessoa) e depois, até à sua morte, em 1925, com Henriqueta e o seu marido.

Richard Zenith, autor de “Pessoa. Uma Biografia”, obra de mais mil páginas, enquanto convidado de uma edição recente do Arquipélago de Escritores, aludiu à importância da mãe na vida criativa do filho. Em entrevista, dada no âmbito do encontro, a Rui Pedro Paiva, no Público, declarou que Pessoa terá começado a imitar o comportamento da mãe, uma mulher letrada, versada em alemão, inglês e francês, que lia e escrevia versos. A primeira quadra de Pessoa, escrita aos sete anos, foi dedicada justamente à mãe, numa altura em que esta ponderou a possibilidade de deixar Fernando ao cuidado de familiares, antes de seguir para a África do Sul. Dividia-se, essa quadra, nos seguintes versos: “Eis-me aqui em Portugal/      Nas terras onde eu nasci./ Por muito que goste delas,/   Ainda gosto mais de ti”.

Sigamos a pista familiar de Pessoa, ajudados, entre outros documentos, por uma investigação feita por Andreia Fernandes, lembrando que os Açores foram para este filho de uma açoriana um dos raros destinos por ele visitados. A estadia, ocorrida entre 7 e 16 de Maio de 1902, aconteceu numa altura em que veio com a mãe, o padrasto e os irmãos, de férias para Portugal, tendo ficado alojado na casa angrense da tia Anica, do tio João e dos primos Mário e Maria. Terá sido importante em termos pessoais para o poeta por ter permitido fortalecer os laços familiares com uma parte da família com a qual, já em Lisboa, teve uma convivência essencial.

No plano criativo também ganhou importância. Foi, durantes esses dias, resguardado em casa por causa de um persistente mau tempo, que, aos treze anos, o autor de “Mensagem” inventou a sua primeira personalidade literária: o Dr. Pancrácio. Além de ter escrito um poema alegadamente inspirado na morte da irmã, “Quando Ela Passa”, assinado com esse nome, criou, com o primo, três números de A Palavra, um jornal humorístico-satírico. Entre os conteúdos, encontrava-se a história ficcional de um naufrágio ocorrido à conta de um ciclone. E notícias divertidas sobre ocorrências domésticas como o hábito de se levantar tarde “da Sr.ª D. Maria Nogueira”. (Não se pode compreender Pessoa sem perceber o seu sentido de humor).

Já regressado a Lisboa, Pessoa publicou um poema com a assinatura Eduardo Lança, referindo que o texto foi escrito na Ilha Terceira. Lança foi a primeira “figura” pessoana para a qual o autor inventou uma biografa – nasceu no Brasil em 1875 e mudou-se em adulto para Portugal.

Junto de quem não conhece esse dado biográfico sobre a ascendência açoriana de Fernando Pessoa, costumo acrescentar outro, também relacionado com literatura, maternidade e Açores. A mãe de outro génio literário mundial, outro cultor maior da língua portuguesa, Machado de Assis, também era açoriana. A mãe de Fernando Pessoa era uma açoriana da ilha Terceira. A mãe de Machado de Assis era uma açoriana da ilha de São Miguel. Agrada-me que os Açores estejam ligados a importantes capítulos da cultura mundial por via materna. Fantasio com um encontro entre as duas mães, Maria Madalena Pinheiro Nogueira e Maria Leopoldina Machado da Câmara. Com uma conversa entre duas Marias sobre as pequenas sumidades, uma de nome Fernando, outra de nome Joaquim, que transportaram organicamente e a quem, para felicidade pessoal e contentamento do mundo, deram, um dia, origem.


12.01.2025
https://diariodalagoa.pt/a-mae-acoriana-de-fernando-pessoa/

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Ricardo Reis - [Quando, Lídia, Vier o Nosso Outono]

* Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa)

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

Odes de Ricardo Reis – Fernando Pessoa. 

Fernando Pessoa - [Não quero rosas, desde que haja rosas]

* Fernando Pessoa

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...

7-1-1935
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa.

sábado, 15 de junho de 2024

Carlos Coutinho - NOTÍCIAS da peste




* Carlos Coutinho

    NOTÍCIAS da peste: a Assembleia da República vai passar a assinalar anualmente o dia 25 de novembro de 1975, à semelhança do que acontece com o 25 de Abril. 

Para tanto bastaram os votos do PSD, do Chega e da Iniciativa Liberal. Desta vez, o PS ainda votou contra, acompanhado pelo Bloco, PCP e Livre, assim se impedindo a criação de um novo feriado nacional proposta pelo Chega.

Já o mesmo não aconteceu na deliberação seguidamente acontecida, quando os deputados alegadamente socialistas votaram em sintonia com toda a direita e extrema-direita a inclusão pelo Parlamento, por proposta da IL, a inclusão dos 50 anos do 25 de novembro no programa do cinquentenário do 25 de Abril. 

No caso do feriado nacional, só o Chega e o CDS-PP votaram favoravelmente. 

A IL absteve-se, porque também há patrões intermitentemente liberais e cordiais, mas nem todos selvagens, segundo o incontrolável Darwin. E, como é da sabedoria das vítimas ainda vivas, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”.

Até Almada Negreiros, depois de ter sido o ilustrador do mantra salazarista do mantra “Deus, Pátria, Família e Autoridade”, já tinha avisado: 

“O povo completo será aquele que terá reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses: só vos faltam as qualidades.” 

O que levou Jorge Sousa Braga a confessar, entre dois acessos de tosse: “Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do império, mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado.”

Aliás, Fernando Pessoa já tinha lamentado: “Pertenço a um género de portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho. A morte é certa.“


2024 06 14

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896



Imagens por VN  
Almada Negreiros. 1933. “Voto na Nova Constituição”. (90cm X 116cm). Cartaz impresso com litografia no Lith. de Portugal usando três cores. BNP.

"Deus, Pátria, Família" - este,  editado em 1938, integra uma série de sete cartazes intitulados “A Lição de Salazar”, distribuídos por todas as escolas primárias do país, como forma de celebração dos dez anos de governo do Estado Novo.. A escola era, assim, palco não só para a inculação dos valores do Estado Novo, como também para glorificar a obra feita até então pelo ditador. O principal objetivo destes, era demonstrar a superioridade de um Estado forte e autoritário sobre os regimes demoliberais.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Fernando Pessoa e Oliveira Salazar


Cartoon - Fernando Pessoa visto por Rita Ravasco


* Fernando Pessoa

 Sim, sou situacionista. Mas vamos lá a uma coisa…
 

Há três maneiras de ser situacionista, isto é, de ser partidário de qualquer situação política. A primeira é a conformidade por doutrina; a segunda a conformidade por aceitação; a terceira a conformidade por não-oposição. Deixo de parte uma das mais vulgares — a conformidade por vantagem —, porque não é disso que se trata, pelo menos em mim.

A conformidade por doutrina quer dizer que o partidário está de acordo com o programa político da situação a que adere. A conformidade por aceitação quer dizer que o partidário, sem que adira ao todo ou a parte desse programa, confia todavia na situação e se abstém de pôr pontos doutrinários. A conformidade por indiferença vale por adesão por só não ser hostilização.

Sou situacionista por aceitação. Não discuto problemas políticos, constituições ou programas. Confio instintiva mas não irracionalmente, no General Carmona e no Professor Salazar.

Confio no General Carmona porque tem a mais segura mão de timoneiro que há muitos anos temos tido. Desde quando, no período agudo da Ditadura, apoiou a acção defensiva e patriótica do General Vicente de Freitas, até quando, havendo já calma para pensar, deu apoio à acção coordenadora do Prof[essor] Salazar, o Presidente da República tem-se mantido numa atitude que é rara em qualquer caso, e raríssima em política — a maleabilidade dentro da dignidade. É um aristocrata da adaptação.

Confio no Prof[essor] Salazar por um motivo primário e dois motivos secundários. O motivo primário é aquele de ter as duas notáveis qualidades que ordinariamente falecem no português: a clareza firme da inteligência, a firmeza clara da vontade. Dos motivos secundários, o primeiro é o que tenho notado de realmente feito e que antes se não fazia — tudo isso que vai desde os navios e as estradas até tentar dar a um país sem ideal nacional pelo menos o pedido de que pense em tê-lo. O segundo desses motivos é o acréscimo do nosso prestígio no Estrangeiro. Conheço a sua realidade por informações directas, e não por citações de jornais, susceptíveis sempre de suspeitas reais, factícias ou fictícias. E, neste esquema de adesão translata, é de meu dever dizer que junto ao nome do Prof[essor] Salazar o do Prof[essor] Armindo Monteiro.

Disse que confio porque confio. Não vou mais longe. Se me perguntarem se compreendo a obra financeira do Prof[essor] Salazar, digo que não, porque nada sei de finanças. Confio. Se os seus opositores me disserem que por estas e aquelas razões, essa obra é má, digo, com igual fundamento, que não sei. Confio.

Dito isto, compreendamo-nos melhor. Além do situacionista que sou, sou um individualista absoluto, um homem livre e um liberal. E isto faz que tenha uma perfeita tolerância pelas ideias dos outros, que seja incapaz de considerar um crime o pensar outro do modo que não penso.

Por isso, esta confiança, que tenho no Prof[essor] Salazar, me não impõe a mais pequena sombra de aversão a, por exemplo, o Prof[essor] Afonso Costa. Timbro em afirmar por ele a minha absoluta consideração. Esse homem foi o único que cumpriu integralmente, no Governo Provisório, o que prometera na propaganda. Prometeu a Lei do Divórcio: fê-la. Prometeu a Lei da Família: fê-la. Prometeu a Lei da Separação: fê-la. Se as fez bem ou mal, do ponto de vista jurídico, não sei, porque não sou jurista. Sei que prometeu e cumpriu. Não sou, evidentemente seu correligionário, mas não consigo ser seu inimigo. Nego-lhe o meu apoio; não posso negar-lhe o meu respeito. Sigo o preceito do Prof[essor] Salazar: política de verdade.

E neste critério, e com os fundamentos de que for capaz, continuarei, sempre que Deus quiser, a defender a Maçonaria.

1928
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.  - 217.

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ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

António de Oliveira Salazar.

Três nomes em sequência regular...

António é António.

Oliveira é uma árvore.

Salazar é só apelido.

Até aí está bem.

O que não faz sentido

É o sentido que tudo isto tem.

......

Este senhor Salazar

É feito de sal e azar.

Se um dia chove,

A água dissolve

O sal,

E sob o céu

Pica só azar, é natural.

Oh, c'os diabos!

Parece que já choveu...

......

Coitadinho

do tiraninho!

Não bebe vinho.

Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade

E a liberdade.

E com tal agrado

Que já começam

A escassear no mercado.

Coitadinho

Do tiraninho!

O meu vizinho

Está na Guiné

E o meu padrinho

No Limoeiro

Aqui ao pé.

Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é

Certo e certeiro

Que isto consola

E nos dá fé.

Que o coitadinho

Do tiraninho

Não bebe vinho,

Nem até

Café.

s.d.

Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. 

 - p. 349.

1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 . inc? CF. lello - fotoc



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Salazar - Um cadáver emotivo,

Salazar


Um cadáver emotivo, artificialmente galvanizado por uma propaganda...

Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística d'essa gente.


Soma, e não segue.

1932?

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 221.

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O Prof. Salazar é muito mais inteligente e muito mais culto,

O Prof. Salazar é muito mais inteligente e muito mais culto, ainda que a sua inteligência seja monocórdica e a sua cultura unilateral. Tem uma inteligência do tipo científico, mas sem ser céptica; tem uma cultura do tipo humanístico, mas sem ser literária. Isto lhe dá aquela unidade psíquica de onde resulta a sua formidável disciplina e energia; isto, ao mesmo tempo, o desumaniza.

s.d.

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 220.

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O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias…

O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias da inteligência e da vontade. É o tipo do perfeito executor da ordem de quem tenha as primárias.


O chefe do Governo tem uma inteligência lúcida e precisa; não tem uma inteligência criadora ou dominadora. Tem uma vontade firme e concentrada, não a tem irradiante e segura. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma. Tudo quanto faz se ressente d'essa penumbra dos Reis malogrados.


Quando muito, na escala da governação pública, poderia ser o mordomo do país.


Faltam-lhe os contactos com todas as vidas — com a vida da inteligência, que vive de ser vária e, entre os conflitos das doutrinas, não sabe decidir-se; com a vida da emoção, que vive de ser impulsiva e incerta; com a vida da (...)

O Chefe do Governo não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis?


A alma humana é irredutível a um sistema de deve e haver. É-o, acentuadamente, a alma portuguesa.


Às vezes aproxima-se do povo, de onde saiu. E traz-lhe uma ternura de guarda-livros em férias, que sente que preferiria afinal estar no escritório.


É sempre e em tudo um contabilista, mas só um contabilista. Quando vê que o país sofre, troca as rubricas e abre novas contas. Quando sente que o país se queixa, faz um estorno. A conta fica certa.


O Prof. Salazar é um contabilista. A profissão é eminentemente necessária e digna. Não é, porém, profissão que tenha implícitas directivas. Um país tem que governar-se com contabilidade, não pode governar-se por contabilidade.


Assistimos à cesarização de um contabilista.

s.d.

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 222.

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POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO

Tens o olhar misterioso

Com um jeito nevoento,

Indeciso, duvidoso,

Minha Marta Francisca,

Meu amor, meu orçamento!

A tua face de rosa

Tem o colorido esquivo

De uma nota oficiosa.

Quem dera ter-te em meus braços,

Ó meu saldo positivo!

E o teu cabelo — não choro

Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro

Amor, pomba, estrada, porta,

Sindicato nacional!

Não sei por que me desprezas.

Fita-me mais um instante,

Lindo corte nas despesas,

Adorada abolição

Da dívida flutuante!

Com que madrigais mostrar-te

Este amor que é chama viva?

Ouve, escuta: vou chamar-te

Assembleia Nacional

Câmara Corporativa.

Como te amo, como, como,

Meu Acto Colonial!

De amor já quase não como,

Meu Estatuto de Trabalho,

Meu Banco de Portugal!

Meu crédito no estrangeiro!

Meu encaixe — ouro adorado!

Serei sempre o teu romeiro...

Pousa a cabeça em meu ombro,

Ó meu Conselho de Estado!

Ó minha corporativa,

Minha lei de Estado Novo,

Não me sejas mais esquiva!

Meu coração quer guarida

Ó linda Casa do Povo!

União Nacional querida,

Teus olhos enchem de mágoa

A sombra da minha vida

Que passa como uma esquadra

Sobre a energia da água.

Que aristocrático ri,

O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis! —

Meu activo plebiscito,

Nunca desceste a eleições!

Por isso nunca me escolhes

E a minha esperança é vã.

Nem sequer por dó me acolhes,

Minha imprevidente linda

Civilização cristã!

Bem sei: por estes meus modos

Nunca me podes amar.

Olha, desculpa-mas todas.

Estou seguindo as directrizes

Do professor Salazar.

9-9-1935

Fernando Pessoa - O Último Ano. (Catálogo da Exposição Comemorativa do Cinquentenário da Morte de Fernando Pessoa, organizada e coordenada por Teresa Sobral Cunha e João Rui de Sousa.) Lisboa: Biblioteca Nacional, 1985.

  - .

N. do A.: «o demoliberalismo maçónico-comunista»



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[Carta ao Presidente da República - b]

Quer isto dizer, Senhor Presidente, que uma nação haja sempre de ser governada por chefes acentuadamente tais, que não haja período em que possam estar no poder os inteligentes sem aura e os patriotas sem prestígio? Não o quer dizer. O que porém quer dizer é que esse prestígio de chefe, desnecessário muitas vezes num governo de época normal, é indispensável num governo de época anormal, imprescindível num governo de autoridade. O que porém quer dizer é que o Prof[essor] Salazar, não tendo tal prestígio, nem maneira de o ter, se deixou investir da aparência d'ele. É a sua túnica de Nessus[.J


Ninguém pode legitimamente culpar o actual Presidente do Conselho de não ter qualidades que não tem; pode legitimamente fazer-se de, não tendo tais qualidades, pretender tê-las e ter-se colocado em situação de, não podendo tê-las, ser todavia necessário que as tenha.


Culpa-se o Prof[essor] Salazar d'isto: de ser incompetente para o cargo que assumiu.

1935

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 229.


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[Carta ao Presidente da República - d]

Destinado assim naturalmente por Deus para executor de ideias de outrem, visto que as não tem próprias, de secretário de prestígio alheio, porque o não pode conquistar seu, o Prof[essor] Salazar quis alçar-se, ou deixou que o quisessem alçar, a um pedestal onde mal se acomoda, a um trono onde não sabe como sentar-se. Não conseguiram os titãs, e eram titãs, escalar o Olimpo; como o conseguirão os anões, condenados, para que possam parecer grandes, ao desequilíbrio constante das andas que lhes ataram às pernas?

1935

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 231.


Pesquisa por ‘salazar’:  in Arquivo Pessoa  http://arquivopessoa.net/ 

Cartoon in https://industriacriativa.pt/projeto/3171/fernando-pessoa

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Carlos Coutinho - Pois é…

* Carlos Coutinho


   PESSOA já tinha vivido na pele de todos os seus heterónimos quando o argentino Borges, com ascendência lusitana, escreveu em “Lamento de Heráclito”: 

   “Eu que tantos homens tenho sido, (tradução minha), não fui nunca / aquele em cujo abraço desfalecia Matilde Urbach.” 

   É certo que Fernando Pessoa achava que “a morte é a curva da estrada. / Morrer é só não ser visto”, porém, quando isto escreveu, Jorge Luís Borges ainda não era cego e lia toneladas de livros em Buenos Aires, além de muito apreciar os faquistas portenhos.

   Até um erudito emigrante açoriano, que dá aulas nos EUA, de seu nome Teotónio Onésimo Almeida, “reconhece a dificuldade de em Pessoa se encontrar um núcleo duro ou básico no seu pensamento, embora isso não seja de todo impossível. Por exemplo, tenhamos em consideração que os heterónimos não são assim tão antagónicos em matéria de ética. Não há radicalização de nenhum deles: nenhum heterónimo pessoano se revela marxista, nem muçulmano, nem revolucionário de esquerda, nem verde, nem católico, nem nazi, nem sequer protestante.” (in revista “Ler”, 2023, Pessoa e Nietzsche – Um confronto na modernidade).

   Diga-se, de passagem, que estes versos de Jorge Luís Borges – foram modificados em edições posteriores, trocando-se “abraço” por “amor”, já que, no dizer do autor, ficavam muito sibilantes – tendo aparecido numa seleção intitulada “Museu” e apocrifamente atribuída a Gaspar Camerarius. Especificamente, no fragmento VII, 16 de “Deliciae Poetarum Borussiae”. 
 
   Enquanto alguns especulavam com que o nome de Matilde Urbach resultava de uma certa paixão secreta do jovem Borges, outros intuíram conotações menos pessoais ou mais filosóficas – embora o título do poema remeta para “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, e o patronímico Urbach provenha, talvez, de um étimo protogermânico impronunciável que deu origem ao germânico medieval Bach (arroio, ribeira), propiciando uma cifrada interpretação.  

   Mas a verdade sobre Matilde Urbach continuou mistério, até que um texto de Bonilla, integrado em “A Arte do Yo-Yo”, respiga uma suposta investigação em torno desse “nome inabordável”. 

   Por sua vez, outro escritor argentino, Bioy Casares, declarou: “Creio que era uma personagem de um romance cuja leitura Borges me confessou.” 

   E o formidável escritor espanhol Javier Marías, recém-falecido, nos remete para o romance “Man With Four Lives”, do ignoto norte-americano William Joyce Cowen, que tinha sido referido por Borges na época em que colaborava na revista “El Hogar”.

   Como quer que seja, a verdade é que outra grande escritora, Marguerite Yourcenar, de origem belga e cedo migrada para os EUA, escreveu “En Pelerin et en Étranger”:

   “Face à história, qualquer homem minimamente consciente das constantes mudanças e da complexidade quase infinita das coisas sente-se, a pouco e pouco, tomado pela sensação do horrível e do absurdo. Nenhuma delas se altera em breve, e sem que primeira ou a segunda dessas noções enfraqueça, junta-se-lhes uma outra, a de que uma vasta impostura, na qual, ativos ou passivos, todos participamos.”

   Pois é…

2024 01 3 0

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/posts/pfbid02fPyvMiy9ggC1WkLJMXNUbBiDb4z8BbnjJfAojLJrCP79rd91UmZEsXPmhYKnsnVSl

domingo, 21 de janeiro de 2024

Carlos Coutinho - Cadáveres adiados

* Carlos Coutinho

2024 01 20

FARIA hoje 470 anos um infeliz rei misógino e sedento de glória que se chamava Sebastião e, ao contrário do que Fernando Pessoa escreveu 400 anos mais tarde, foi um cadáver adiado por pouco mais de uma década, mas nunca procriou.

No torvelinho da lendas e mitos que entram na nossa história, teremos ficado com a memória embotada, a pontos de nem repararmos no belo erro do poeta da “Mensagem”?

Confirme-se, então:

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

Sebastião I de Portugal e Algarves, que encabeçou uma cruzada para Alcácer Quibir no dia 4 de agosto de 1578 e foi tema de lendas e narrativas, apelidado como "o Desejado", “o Encoberto” e "o Adormecido", ascendeu ao trono muito jovem, com apenas 3 anos, após a morte de seu avô, o Rei D. João III, sendo por isso, instaurada em Lisboa uma regência durante a sua menoridade, primeiro pela sua avó, a Rainha Catarina da Áustria e, depois, pelo seu tio-avô o cardeal D. Henrique, o filho de rei que foi o primeiro grande chefe da Inquisição em Portugal.

Muitas foram as hipóteses geradas pela morte do tresloucado Sebastiãozinho, considerando algumas que o efeminado rei cruzado não morreu durante a batalha de Alcácer Quibir, visto haver sido raptado, pouco depois do desembarque e levado para essa cidade mourisca e providencial.

O que é certo é que ele começou a governar com apenas 17 anos e logo se lançou na sua aventura africana, assim fornecendo a diversos tipos de portugueses a inebriante e salvífica crença de que haveria de regressar à pátria numa manhã de nevoeiro como a que tenho neste momento à beira-Tejo.

Mas lendas, crenças e mistificações patrioteiras é o que mais abunda nos programas escolares de antigamente e mesmo na cabeça de muitos professores em exercício.

A própria cidade de Lisboa ainda é geralmente apregoada como uma conquista do fogoso príncipe vimaranense filho da Tareja condessa portucalense, depois de uma conversa tida algures com um Cristo enorme rodeado de anjos, num dos vários Ouriques que havia a norte e a sul do Tejo.

É pena que assim continuemos, já que algo idêntico se passa com a velhíssima cidade de Lisboa, sendo certo que até nas universidades e academias é geral a ignorância sobre a criação fenícia da Alis Ubo (Enseada Amena), topónimo que calcorreou um milenar percurso fonético até estanciar com a designação atual.

Só que teve de passar pelo nome romano de Felicitas Julia Olisipo, pelo árabe Al-ashbuna e pelo Lyxbone, como aparece na carta intitulada “De repugnatione lyxbonensi”, assinada pelo erudito cruzado britânico Osberno, um eclesiástico amante de lanças e espadas, e se encontra no acervo na Universidade de Cambridge, tal como outra, mais sucinta, subscrita por Arnulfo, também cruzado no cerco, conquista e saque de Lisboa.

Em 1147, quando os predadores, a caminho de novas rapinas, seguiram para oriente, entregaram a Afonso Henriques, o catolicíssimo rei minhoto, filho de uma autoproclamada rainha e neto de um conde francês, uma urbe formidavelmente evoluída com cerca de 20 mil residentes.

Muitos lhe chamavam então qualquer coisa parecida com Lisboa, designação que frequentes vezes aparece nos documentos na forma abreviada de Lx.

Felizmente, é já vasta e muito saudável a historiografia atual em que me foi possível escabichar a matéria deste meu descontraído apontamento.

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domingo, 3 de abril de 2022

Fernando Pessoa - Anti-Gazetilha

* Fernando Pessoa

 

José Afonso - "No comboio descendente" do disco "Eu vou ser como a toupeira" (1972)

No comboio descendente
Vinha tudo á gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada —
No comboio descendente
De Queluz á Cruz Quebrada…

No comboio descendente
Vinham todos á janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes tréla —
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela…

No comboio descendente
Mas que grande reinação:
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não —
No comboio descendente
De Palmela a Portimão…

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

 


Manuela Vieira da Silva

O namoro de Fernando Pessoa e Ofélia. Belíssimo trabalho de Victor Barroso Nogueira!

«Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas...» Se fosse hoje com messenger e outras facilidades, como seria entre eles? Histórias de amor que não se repetem nem a poesia será a mesma. .
 
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Uma delícia conhecer a ofélia ! Um encanto ... de pessoa e para mim ! Vale a pena ler até ao fim
🙂
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CARTA XLI
Ex.ma Senhora D. Ofélia Queirós:
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.a considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) que V. Ex.a está proibida de:

(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.a a pegar na imagem mental, que acaso tenha formada do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
Cumprimenta V. Ex.a
Álvaro de Campos
eng. Naval
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carta de Ofélia Queiroz a Álvaro Campos
Ex.mo Senhor Engenheiro Álvaro de Campos
Permita-me que discorde por completo com a primeira parte da sua carta, porque, nem posso consentir que Vª Exª trate o Ex.mo Sr. Fernando Pessoa, pessoa que muito prezo, por abjecto e miserável indivíduo nem compreendo que, sendo seu particular e querido amigo o possa tratar tão desprimosamente. Como vê estamos sempre em completa desarmonia, nem podia deixar de ser, pedindo-lhe por especial fineza, que não volte a escrever-me. Quanto às observações que me faz, como foram ditadas pelo Sr. Fernando Pessoa, farei quanto em mim caiba por lhe ser agradável. Agradeço o conselho que me dá, mas já que me puxa pela língua, deixe-me dizer-lhe que quem eu de boa vontade há muito tempo teria, não deitado na pia, mas debaixo dum comboio, era Vª Exª. Esperando não o tornar a ler, subscreve-se com respeito a 26-09-1929
Ofélia Queiroz
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CARTA 59
Meu querido amor
Que triste ideia teve em encarregar o Sr Engenheiro Álvaro de Campos de escrever-me? Ele afinal não é seu amigo, trata-o tão mal! E não sendo seu amigo também o não é meu, e não sendo meu amigo eu também não sou amiga dele, portanto não gosto dele, detesto-o pronto. Peço-lhe meu querido Fernandinho que não volte a encarregá-lo de me escrever, e que por fineza lhe entregue a minha carta, que por não saber a sua direcção junto à sua. Ele afinal só pretende desacreditá-lo, mas eu não o poupo, e decerto não me escreverá mais.
Agora outra coisa: Gosto tanto que me telefone à noite! Já que nos não podemos ver, ao menos sempre é mais agradável falar assim um pouco mais intimamente. Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas... Que grande me vai parecer a noite de hoje e parte do dia de amanhã. Quase que fazia oito dias sem o ver. O Fernandinho não lhe custa estar tantos dias sem ver a sua Ofelinha? Gosta muito dela, gosta[,] amor? Então seu maroto, eu na minha carta d'hoje mostrava um princípio de afeição? Só princípio? E acho-me eu exigente mas ainda bem que também o é, entender-nos-emos assim melhor, porque sentimos da mesma forma, não é Fernandinho? Mas não me disse se lhe agrado para sua mulherzinha. Se lhe agrado Fernandinho? Se lhe agrado, e agradando-me o meu querido amor tanto para maridinho (parecia-me um sonho eu um dia vir a tratá-lo assim) não retardemos uma felicidade tão grande e tão desejada, pelo menos da minha parte. Mas estou convencida que Fernandinho, também há-de gostar muito de ter um dia o seu lar, com uma mulherzinha muito ao seu gosto e que torne o lar alegre e o Fernandinho feliz. Diga-me, não são estes os seus desejos? A não ser que não seja eu a mulherzinha (porque eu não chego a ser mulher) muito a seu gosto...
A mim encanta-me só a ideia de o vir a ser, de viver consigo uma vida inteira, sempre muito amigos e carinhosos! Mas não receberei de boa vontade na nossa casinha o tal Senhor Engenheiro, isso não. Sobre o assunto do meu encontro, escreveria muito, mas receio maçá-lo. Só lhe digo que tenho ânsia de ser sua esposa, e o Fernandinho, não tem, de ser meu esposo? Se gostar tanto de mim como eu de si, tem a mesma.
É isto que me tira o sono! Fica agora sabendo?
Adeus, meu amor, eu não lhe roubo mais tempo com as minhas cartas sempre tão mal redigidas, mas o Fernandinho já me conhece, em deixando escrito o que sinto é o principal, não é? Góta de mim? Góta munto? Góte chim?
Manda-lhe muitos beijinhos a sempre muito sua
Ofélia
26-9-929
Cartas De Amor
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Caixa Postal 147
(Acróstico de Fernando Pessoa dedicado a OPHÉLIA)
Onde é que a maldade mora
Poucos sabem onde é
Há maneira de o saber
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente não a entender
Nota: Relato da Exma Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz.
Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o e pô-lo em cima da minha secretária.
Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetezinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu confesso, também lhe achava uma certa graça…
Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Ó, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até do último extremo, acredita!»
Fiquei pertubadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me apaixonadamente, como louco.
Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:
Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.
Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.
Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhes dou também.
Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação,
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.
Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.
Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma núvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.
Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920.
Assim começámos o «namoro».
Confira a primeira carta de Fernando Pessoa para Ophélia Queiroz, clique aqui.
Carta - 01/03/1920
Ophéliazinha:
Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m’o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.
Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».
Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh’a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d’isto tudo sou eu.
Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…
Ahi fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.
01/03/1920
Fernando Pessoa