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quinta-feira, 13 de abril de 2023

José Pacheco Pereira - Um “pide” moderno

*  José Pacheco Pereira 

1 de Abril de 2023,  

As mais poderosas forças do mundo, boas, semiboas, más e muito más, vão todas no mesmo sentido e sem controlo.

PBX DR

Este é um artigo inútil. Nada do que aqui está, seja o que escrevi, seja o que “acontece” no que escrevi, muda alguma coisa. Se não achasse que é minimizar uma das figuras mais criativas da literatura, Dom Quixote de la Mancha, o Cavaleiro da Triste Figura, podia usar a classificação comum de “quixotesco”. Mais: não só não muda nada, como vai ser cada vez pior. As mais poderosas forças do mundo, boas, semiboas, más e muito más, vão todas no mesmo sentido e sem controlo. O controlo é do domínio da pura ficção. Quem quer usá-las usa e infelizmente há muita gente a querer usá-las, a começar por aqueles que deviam ter consciência dos seus riscos. Há pouca coisa realmente mais apocalíptica nos dias de hoje do que isto. O que é “isto”?

Imaginemos um “pide” moderno, e há muitos “pides” modernos. Senta-se para o trabalho diante de um conjunto de ecrãs, ligados a várias bases de dados, usando quer programas comuns e motores de busca vulgares, quer especializados. Qualquer serviço pidesco pode hoje comprar, num mercado mais especializado, programas e motores de busca usados por polícias e ladrões, serviços de informação nacionais e internacionais, que procuram não só na superfície da Rede mas também na sua parte “negra”. Eu já os vi a funcionar e garanto-vos que nem imaginam o que encontram, dados e contexto.

O “pide” moderno é jovem, como os últimos recrutamentos da PIDE em vésperas do 25 de Abril, e nem sequer precisa de ser um nerd nem um hacker, mas apenas de saber usar os seus instrumentos, que tem diante dos olhos. A maior parte do que recolhe é legal, qualquer um o pode fazer, mas alguma parte está na fronteira do abuso e outra é mesmo ilegal. Se houvesse uma suspeita fundamentada de crime, podia ser autorizado, por um juiz, o acesso aos metadados ou a escutas, mas eu estou a falar da vigilância sobre as pessoas comuns e não sobre criminosos.

O “pide” moderno começa a registar os meus dados. Sai de casa – horas. Ele sabe onde moro e pode contar o tempo entre a saída e o próximo sinal recebido por causa do pequeno-almoço, a factura. A factura está cheia de informação que o Estado, através do fisco, se arroga de ter: na factura bastava o valor global, mas está muita outra coisa. Está o que comi e bebi, está se tomei o pequeno-almoço sozinho ou acompanhado.

Depois passo por um multibanco, e levanto dinheiro e faço pagamentos. Durante o dia todo, os cartões de crédito registam um rasto de acções que, acompanhado pelas facturas, já permitem saber muitas coisas. Quando Monica Lewinsky comprou uns livros para dar a Clinton, um deles, Vox, de Nicholson Baker, uma ficção em que há uma relação de “sexo telefónico”, isso interessou ao procurador que perseguia Clinton. A livraria recusou-se, e bem, em mais um acto quixotesco, a dizer que títulos de livros tinham sido comprados. Eu podia, como faço quase todos os dias, também ir a uma livraria, e mesmo sem comprar o Vox (que já tenho e li) alguns títulos podem sobressaltar o “pide”, que não é muito de livros, mas pode ir ver os resumos à Rede – por exemplo, o Agente Secreto, de Conrad, levantou-lhe as sobrancelhas tratadas, quando foi a um destes barbeiros tão modernos como o “pide”. Ou uns fanzines anarquistas com títulos bombásticos ou o Mapa ou a Batalha, já para não falar no Avante!. Ele aí ganha o dia, para colmatar a falta de material das redes sociais, em si mesmo uma falta suspeita, de quem não tem Facebook, nem Instagram, nem qualquer outro fluxo de fotografias de almoços, pequenas e grandes fúrias, boatos e calúnias, nem sequer frases crípticas como “que farei quando tudo arde”, suspeita de incendiário que cita um tipo com nome nas ruas Sá de Miranda. Será que ele pensa incendiar alguma coisa na Rua Sá de Miranda? Embaixada, escritório, loja? O “pide” procura na Rede o que é que há na Rua Sá de Miranda de Lisboa, Porto, Coimbra. Que trabalheira, tanta Rua Sá de Miranda. Ou será uma escola secundária, ou será uma pessoa?

Depois, vêm os dados do almoço e do jantar, o que comeu, com quantas pessoas comeu. Uma é suspeito, duas é ainda mais suspeito, três começa a conspiração. A seguir chegam os dados da farmácia e, mais importante ainda, da Via Verde. Onde entrou e onde saiu, quanto tempo demorou. Parou numa área de serviço para ter um encontro, ou para entregar sub-repticiamente um pacote? Acede-se então às câmaras de vigilância. Saiu no Porto, será que a Rua Sá de Miranda onde “tudo arde” é no Porto? Bom, há ali umas instalações universitárias, e perto está o Jardim da Arca de Água e, como ele comprou o Ambientalista Céptico, será que vai envenenar os patos? O “pide” toma nota para posterior investigação. E por aí adiante.

A questão é simples: se houver uma deriva autoritária (e em muitos aspectos estas tecnologias “empurram” para essas derivas), o “pide” moderno não precisa de qualquer lei especial, só acesso. O “pide” lastima-se mentalmente pelo facto de os humanos ainda não terem chips como os cães e passa em revista os mil e um argumentos de eficácia que justificariam os chips. O problema é que os cidadãos comuns também cedem ao comodismo e à facilidade de andarem com a ficha médica e o número fiscal metido no corpo.

Os cidadãos comuns também cedem ao comodismo e à facilidade de andarem com a ficha médica e o número fiscal metido no corpo

Como nos defendemos? Deixando de lado, ir para uma zona sem rede, não usar multibanco nem telefone, não ter conta bancária, etc., etc., e mesmo assim tudo imperfeito, não há defesa possível. Este é o mundo onde nascemos e onde vamos morrer, e nesta matéria é mau, muito mau, destruiu duzentos anos de luta pela privacidade, pela individualidade e por direitos dos cidadãos face ao Estado. Pode tudo ser mitigado, mas de forma pouco eficaz.

O “pide” anotou: atenção, ele está denunciar os nossos métodos, e vai à ficha electrónica e classifica-o como “libertário tecnológico”, partidário do general Ludd, ou um seguidor do Unabomber. Perigoso.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2023/04/01/opiniao/opiniao/pide-moderno-2044611


sábado, 1 de fevereiro de 2020

Konstantinos Kaváfis - À Espera dos Bárbaros - 2 versões em português

* Konstantinos Kaváfis

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
tradução de José Paulo Paes
Konstantinos Kaváfis (1863-1933)

https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/8220-a-espera-dos-barbaros-8221-8211-o-poema/

É que os bárbaros hoje vão chegar!

- Mas porque reina no Senado tanta apatia?
Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
Que leis hão-de fazer os senadores?
Os bárbaros que vêm, que as façam eles.

- Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador,
e se sentou na magna porta da cidade à espera,
oficial, no trono, co'a coroa na cabeça?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
O nosso imperador espera receber
o chefe. E certamente preparou
um pergaminho para lhe dar, onde
inscreveu vários títulos e nomes.

- Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores
trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?
E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,
e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,
por que razão empunham hoje bastões preciosos
com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
E tais coisas os deixam deslumbrados.

- Porque é que os grandes oradores como é seu costume
não vêm soltar os seus discursos, mostrar o seu verbo?

É que os bárbaros hoje vão chegar
e aborrecem arengas, belas frases.

- Porque de súbito se instala tal inquietude
tal comoção (mas como os rostos ficaram tão graves)
e num repente se esvaziam as ruas, as praças,
e toda a gente volta a casa pensativa?

Caiu a noite, os bárbaros não vêm.
E chegaram pessoas da fronteira
e disseram que bárbaros não há.

Agora que será de nós sem esses bárbaros?
Essa gente talvez fosse uma solução.

Tradução de Manuel Resende.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Konstantinos Kaváfis - ÍTACA

*  Konstantinos Kaváfis  

ÍTACA


Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.  

(Trad. José Paulo Paes) 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

ÍTACA 

Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colérico Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os suscitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto.
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito - nas muitas cidades -
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.


(Trad. Haroldo de Campos)


Postado por Salomão Rovedo às 16:36 

http://salomaorovedo.blogspot.pt/2014/10/homero-odisseia.html



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Rainer Maria Rilke - Deus, que será de ti... (Was wirst du tun,Gott...)

(duas traduções e o original)

Deus, que será de ti...

Deus, que será de ti, quando eu morrer? 
Eu sou teu cântaro (e se me romper?) 
A tua água (e se me corromper?) 
Sou teu agasalho, sou teu afazer. 
Vai comigo o significado teu. 

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus, 
que com quentes palavras te acolhia. 
Perdem teus pés exaustos as macias 
sandálias: também elas eram eu. 

De ti desprende-se o teu longo manto. 
O teu olhar, que a minha face, quente 
coxim acolhe, virá entrementes, 
virá procurar-me longamente 
e deitar-se depois, ao sol poente, 
entre pedras estranhas, nalgum canto. 

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


trad. José Paulo Paes

- Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.


Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)


Was wirst du tun,Gott...

Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel läßt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.



RILKE, Rainer Maria. "De O livro das horas". Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
trad. José Paulo Paes
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 09:39 
http://voarforadaasa.blogspot.pt/2016/08/deus-que-sera-de-ti-rainer-maria-rilke.html

sábado, 10 de outubro de 2015

Konstantinos Kaváfis - À ESPERA DOS BÁRBAROS

SÁBADO, 10 DE OUTUBRO DE 2015

À ESPERA DOS BÁRBAROS

À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos na ágora reunidos?
   
         É que os bárbaros chegam  hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam  mais?

          É que os bárbaros chegam  hoje.
          Que leis hão de fazer os senadores?
          Os bárbaros que chegam  as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

            É que os bárbaros chegam  hoje.
            O nosso imperador contar saudar
            o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
            um pergaminho  no qual estão escritos
            muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam  togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?

              É que os bárbaros chegam  hoje,
              tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

               É que os bárbaros chegam  hoje
               e aborrecem a rengas, eloquências.
 
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade  nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam  para casa preocupados?
       
                 Porque é já noite, os bárbaros não vêm
                 e gente recém-chegada das fronteiras
                 diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.


Konstantinos Kaváfis
trad. José Paulo Paes
Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2015/10/a-espera-dos-barbaros.html