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domingo, 5 de janeiro de 2025

Miguel Esteves Cardoso - A Festa do «Avante!» chateia…

* Miguel Esteves Cardoso


 A Festa do «Avante!» é a maior iniciativa político-cultural do país. Ela é, como se sabe, o resultado do trabalho voluntário de milhares e milhares de militantes e simpatizantes comunistas. A forma como é tratada pela comunicação social dominante é um exemplo, dos mais evidentes, do silenciamento a é submetida nos jornais, revistas, rádios e televisões, toda a actividade do PCP. Uma actividade que, sublinhe-se, é maior do que a soma das actividades de todos os restantes partidos.

Quando não é o silêncio é a inverdade. Dizem-se muitas mentiras acerca da Festa do «Avante!»: que é irrelevante; que é um anacronismo; que é decadente; que é um grande negócio disfarçado de festa; que já perdeu o conteúdo político; que hoje é só comes e bebes.

As festas do «Avante!», por muito que custe aos anticomunistas reconhecê-lo, são magníficas. É espantoso ver o que se alcança com um bocadinho de colaboração. Não só no sentido verdadeiro, de trabalhar com os outros, como no nobre, que é trabalhar de graça. Mas não basta trabalhar: também é preciso querer mudar o mundo. E querer só por si, não chega. É preciso ter a certeza que se vai mudá-lo. Por isso o conceito do PCP de «colectivo partidário» parece provocar indisposições a muito comentador de serviço.

Porque os comunistas não se limitam a acreditar que a história lhes dará razão: acreditam que são a razão da própria história. É por isso que não podem parar; que aguentam todas as derrotas e todos os revezes; que são dotados de uma avassaladora e paradoxalmente energética paciência; porque acreditam que são a última barreira entre a civilização e a selvajaria.

Por isso sobre a construção da Festa cai um silêncio ensurdecedor.

Não há psicologias de multidões para ninguém: são mais que muitos, mas cada um está na sua. Isto é muito importante. Ninguém ali está a ser levado ou foi trazido ou está só por estar. Nada é forçado. Não há chamarizes nem compulsões. Vale tudo até o aborrecimento. Ou seja: é o contrário do que se pensa quando se pensa num comício ou numa festa obrigatória. Muito menos comunista. Todos os portugueses haviam de ir de cinco em cinco anos a uma Festa do «Avante!», só para enxotar estereótipos e baralhar ideias. Por isso, a Festa é um «perigo» que há que exterminar.

Assim se chega a outro preconceito conveniente. Dava jeito que a festa do PCP fosse partidária, sectária e ideologicamente estrangeirada. Na verdade, não podia ser mais portuguesa e saudavelmente nacionalista. Sem a orientação e o financiamento de Moscovo, o PCP deveria ter também fenecido e finado. Mas não: ei-lo. Grande chatice.

A teimosia comunista é culturalmente valiosa porque é a nossa própria cultura que é teimosa. A diferença às modas e às tendências dos comunistas não é uma atitude: é um dos resultados daquela persistência dos nossos hábitos. Não é uma defesa ideológica: é uma prática que reforça e eterniza só por ser praticada.

Enquanto os outros partidos puxam dos bolsos para oferecer concertos de borla, a que assistem apenas familiares e transeuntes, a Festa do «Avante!» enche-se de entusiásticos pagadores de bilhetes.

E porquê? Porque é a festa de todos eles. Eles não só querem lá estar como gostam de lá estar. Não há a distinção entre «nós» dirigentes e «eles» militantes, que impera nos outros partidos. Há um tu-cá-tu-lá quase de festa de finalistas. Por isso, ao Programa da Festa, anunciado em conferências de imprensa, são concedidas meia dúzia de linhas ou de segundos.

Ser-se comunista é uma coisa inteira e não se pode estar a partir aos bocados. A força dos comunistas não é o sonho nem a saudade: é o dia-a- dia; é o trabalho; é o ir fazendo; e resistindo, nas festas como nas lutas. Por isso a dimensão e o êxito da Festa chateiam. Põem em causa as desculpas correntes da apatia.

2006.09.03

In jornal "Público" - Edição de 3 de Setembro de 2010

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Miguel Esteves Cardoso - Ler às pilhas é o melhor

* Miguel Esteves Cardoso

Ler em pilhas é a melhor maneira de ler. As pilhas não podem ter mais de 8 livros cada uma, para não dificultar muito a extracção. Isto sabendo que apetece sempre mais ler o livro que está por baixo.

16 de Outubro de 2024

Não consigo entrar num estúdio de rádio sem pensar em livros. Aquela mesa oval, enorme, vazia, limpíssima, com um buraco no meio, dá-me vontade de ler.

Imagino-me no buraco, em cima de uma cadeira com rodas, a circular por dentro da mesa, cheia de pilhas e mais pilhas de livros novinhos em folha, todos a competir pela minha atenção


É assim que está a minha sala de estar neste momento, com pilhas de livros por toda a parte, mas sempre à mão dos sofás onde me sento.


Ainda não foram arrumados – o que, em língua livreira, significa esquecidos, sepultados, comprimidos uns contra os outros para nunca mais poderem dançar.

 
Ler em pilhas é a melhor maneira de ler. As pilhas não podem ter mais de oito livros cada uma, para não dificultar muito a extracção. Isto sabendo que apetece sempre mais ler o livro que está por baixo deles todos.


Mas é espantosa a quantidade de pilhas que se pode ter à volta de um sofá – sobretudo com a cumplicidade de umas mesinhas e de uns jornais velhos dobrados, para não serem contaminadas pelo chão.

Na leitura – se é que quer mesmo competir com a Internet – o que conta é o acesso. Isso de uma pessoa levantar-se estraga tudo. Quem consulta paga multa. E então quando não se encontra o raio do livro e é preciso percorrer as prateleiras com o mandado de busca nas mãos vazias.

O ser humano lida bem com o número oito. É só uma meia dúzia mais dois: o ideal para uma pilha temática. O segredo é saber fazer as pilhas, segundo os autores, ou as urgências, ou os apetecimentos mais frequentes.

Depois, há a disposição das pilhas: a pilha mais perto de si tem de ser um pódio – e todos os dias tem de ser reavaliada, para ver quem merece lá ficar.


Em cada pilha, o livro de cima é o único que tem o direito de mostrar a capa. Tem de ser muito bem escolhido, porque é esse – a preguiça é tramada – em que mais vezes irá pegar.

Claro que as pilhas são temporárias. São umas férias de Verão, antes de ir para o Inverno das estantes.

Colunista

https://www.publico.pt/2024/10/16/opiniao

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Miguel Esteves Cardoso - Só encomendando

 * Miguel Esteves Cardoso

OPINIÃO

Obrigaram-me a pensar no futuro, como um Arthur C. Clarke de trazer por casa. É triste, mas, como todas as coisas tristes, um dia havemos de nos convencer que sempre foi assim.

A coisa que mais me custou quando vim morar para a Província foi ter de encomendar tudo. Tinha-se acabado a espontaneidade. Tinha-se acabado o apetecimento. Tinha-se acabado o “logo se vê”.

Agora, se quero um jornal ou um queijinho, se acho que me vai apetecer um iogurte grego ou um cabrito, tenho de encomendar. Se não encomendar, já se sabe. Parece que têm prazer em informar-me: “Já foi tudo.”

Obrigaram-me a pensar no futuro, como um Arthur C. Clarke de trazer por casa, exilado numa praia deslumbrante do Sri Lanka, mas sem nada para ler, porque se tinha esquecido de reservar o Sunday Times – apesar de só chegar à quarta-feira.

Obrigaram-me a adivinhar-me, como se eu fosse um autómato: no sábado, vai-me apetecer um pão de centeio. Que remédio: do pão de centeio já não me livro. Mesmo que leve um mês para ir buscá-lo, ele está lá à minha espera, guloso pela cobrança.

Lisboa passou a ser uma miragem: lá, os modernos só decidem o que querem à última hora. “É o Le Monde, um pastel de nata vegano e um carioca de lima, se fizer favor”, dizem à meia-noite, no bar da Cinemateca, antes de voltar a entrar para a Retrospectiva de Jim Jarmusch.

Mas agora parece que Lisboa também aderiu à província: também é preciso encomendar tudo. Sexta-feira às 5 da manhã reservei uma mesa num restaurante lisboeta onde nunca tinha ido. Graças ao Street View da Google descobri logo onde ficava, podendo planear uma voltinha pre-prandial pela vizinhança. Depois reservei e paguei um lugar para estacionar, das 12h às 16h, ali perto, no Bairro Alto. E pude percorrer o trajecto com os olhos, para saber quanto teria de andar. Se não soubesse lá chegar, o Waze indicar-me-ia o caminho.

Tudo isto sem me levantar do sofá, sem ter de falar com ninguém (até porque estava tudo a dormir), graças ao milagre da Internet. E a espontaneidade? Ficou para a escolha de sobremesas. É triste, mas, como todas as coisas tristes, um dia havemos de nos convencer que sempre foi assim.

18 de Janeiro de 2024

Colunista

https://www.publico.pt/2024/01/18/opiniao/opiniao/so-encomendando-2077173

sábado, 2 de dezembro de 2023

Miguel Esteves Cardoso - R.I.P. Henry Kissinger

 CRÓNICA

Kissinger era um intelectual judeu inteligentíssimo com uma pronúncia esquisita, com acesso privilegiado ao poder do império mais poderoso do mundo: o americano. What’s not to like?

* Miguel Esteves Cardoso
30 de Novembro de 2023 

Uma coisa é certa: ainda é cedo para ver a vida de Henry Kissinger como uma comédia. Mas é uma comédia, uma comédia tão antiga como a própria comédia: a história do homem inteligentíssimo rodeado por burros e ignorantes.

Kissinger era inteligentíssimo e entrava em cada problema como se fosse o primeiro, para ser maior o prazer de tentar discuti-lo — e até talvez, quem sabe, resolvê-lo.


Despia-se do que sabia e achava, para poder ver a questão do nada, como alguém a pôr uma venda nos olhos para descobrir a arquitectura interior da própria casa, que conhece de ginjeira e da qual está farta.

A única vez em que as coisas correram bem a Kissinger foi quando pôde conspirar com dois outros homens inteligentíssimos: Nixon e Mao. Mas Nixon era um bêbado paranóico e preconceituoso, com um complexo de inferioridade ainda mais potente do que os próprios Estados Unidos da América. E Mao era pior ainda: era um comunista.

A comédia vem do poder da inteligência contra a teimosia humana de continuar a ser como se é: não é nenhum. A comédia – mais do que negra – está na quantidade de vezes que o inteligentíssimo Kissinger teve de recorrer à força bruta: quase todas.


Kissinger era um académico, uma pessoa que estava bem com outros académicos. Mas, de repente, viu-se no meio de políticos e militares, quase todos broncos, venais e teimosos, que desconfiam tanto das grandes inteligências como dos judeus e das pessoas com pronúncias esquisitas.

Kissinger era um intelectual judeu inteligentíssimo com uma pronúncia esquisita, com acesso privilegiado ao poder do império mais poderoso do mundo: o americano.

Como dizem os americanos, what's not to like?

Kissinger era, acima de tudo, um imperialista. Fez tudo para favorecer os Estados Unidos da América. Foi um patriota americano.

Mas foi um patriota desgostoso, sempre desiludido pela estupidez, pela esperteza saloia e pela arrogância injustificável dos seus fellow americans.

E dos humanos em geral.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2023/11/30/opiniao/cronica/rip-henry-kissinger-2072089


terça-feira, 5 de setembro de 2023

Miguel Esteves Cardoso - Nomes da nossa Terra

|* Miguel Esteves Cardoso

"Um dos mais notáveis documentos da nossa cultura é o Dicionário Corográfico de Portugal, de A.C. Amaral Frazão. Contém cerca de 1000 nomes de lugares, aldeias, vilas e cidades portuguesas. Ao ler os nomes de alguns sítios, (...) compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses.

Imagine-se o impacto de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina, de onde é?", e a menina dizia: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).

É evidente que, na nossa cultura, existe o trauma de «terra». Ninguém é do Porto ou de Lisboa. Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer rir.

Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como originário de Filha Boa (Torres Vedras). Verá que não é bem atendido.

Há terras com nomes que parecem títulos de livros de Eugénio de Andrade, como Ferido de Água (concelho de Paredes). Há saldos de todas as espécies. Toda a gente conhece o Vale das Pegas (Albufeira) e a Venda das Raparigas (Alcobaça), mas há lugares mais especializados como a Venda da Luísa (Condeixa-a-Nova) e ainda lugares lamrntavelmente racistas, como seja a infame Venda dos Pretos, em Leiria. Com nomes destes, nunca iremos a lado nenhum.

Não há limites. Há um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima. Começo assim para não começar a falar logo em Picha, vergonha eterna da freguesia e concelho de Pedrógão Grande. Picha tem as casas mais baratas do país, só porque os potenciais residentes são incapazes de enfrentar uma morada tão rasca. Não é um nome que torne distinto um cartão de visita.

Se fosse um caso isolado, passaria, mas infelizmente não é. De facto, para além de Picha, Portugal conta igualmente com dois lugarejos denominados Venda da Gaita. Uma fica em Almoster e outra em Tomar.

Recomecemos a nossa viagem pela nossa terra. Que dizer de um país onde é possível ir de Cabeça Perdida (em Portimão) para a Cornalheira (em Meda)?

Devia haver uma Comissão para a Decência Onomástica, que tratasse nomes como Casal do Gorta Rabos (Alcobaça), Mal Lavado (Odemira), Casal da Porcaria (Leiria) e Ripanço (Proença-a-Nova).

Qual o construtor civil que se sente tentado a empreender a construção de novos fogos em lugares chamados São Paio da Farinha Podre (Penacova), Casal do Esborrachado (Almeirim), Triste Feia (Leiria), Parola (Mafra) ou Farta-Vacas (Lagos)?

No capítulo da ciência, há nomes que fazem sorrir. Mesmo assim, para quem mora neles, devem ser muito maçadores. Há em Chaves um Raio-X e, como se não bastasse, um Entroncamento do Raio-X. Em Alcobaça, em contrapartida, há uma (mais portuguesa) Engenhoca. Continua com Telégrafo (em Tomar) e Arquitecto (em Mafra). Em Grândola, há uma Aldeia do Futuro. Em que outro país europeu é possível sair um dia de automóvel e fazer o trajecto Raio-X, Engenhoca, Telégrafo, Arquitecto, Aldeia do Futuro??!!

Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Agua à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do Bogadouro (Amarante), depois de ter parado para fazer um chi-chi em Alçáperna (Lousã). E basta! " 

in Os Meus Problemas

domingo, 7 de maio de 2023

Miguel Esteves Cardoso - O tom mestre-escola



CRÓNICA

O comentador português típico não é mais do que um detector de defeitos alheios. É essa a sua colheita principal.


* Miguel Esteves Cardoso
7 de Maio de 2023, 

O comentador português típico, que são quase todos, não é mais do que um detector de defeitos alheios. É essa a sua colheita principal.

É o que faz a seguir que é interessante, à maneira de quem compõe uma espiga com bolotas e flores do Lidl.

É na maneira como aproveitam os defeitos alheios que está a magia.

Aquilo que ele faz é ralhar connosco. Ralha connosco por causa dos nossos defeitos. Ralha porque são feios. Ralha porque não se encontram nos povos superiores. E ralha porque não mostramos interesse nenhum em abandoná-los. Nem tão-pouco parecemos ansiosos para trocar esses defeitos pacóvios e atrasados por defeitos mais elegantes e fáceis de perdoar.

O ralhar do comentador vem em parte dos antigos padres de aldeia, no tempo em que o temor a Deus acagaçava de verdade. Os defeitos de agora são transplantações integrais dos pecados de antigamente: é só trocar os nomes e avançar como sempre se avançou.

O pior é que, para se perdoar um pecado/defeito, é preciso reconhecer que se pecou e, crucialmente, mostrar arrependimento.

Ora, os portugueses reconhecem os defeitos na boa, mas vêem-se aflitos para se arrepender, porque lhes acham graça: eles são mesmo assim e não há nada a fazer.

A origem do ralhete é pastoral, mas a versão actual é de mestre-escola. É o mestre-escola — uns de aldeia, outros de cidade — que ralha com os portugueses, apontando-lhes os defeitos e apresentando-lhes as soluções, colhidas de uma vida de estudo e ponderação, filosófica mas benigna.

O tom mestre-escola é adoptado pelos comentadores porque os visados — nós, os portugueses teimosamente defeituosos que recebemos os ensinamentos com o ar trocista dos ruminantes — são vistos e tratados como crianças. E alunos, claro.

Porquê? Porque as crianças são moldáveis, podem aprender, podem entrar na linha: nunca se sabe.

O objectivo é nobre: ficarmos perfeitos, iguaizinhos ao nosso mestre-escola.

Mas o problema — sempre esquecido — é que já somos adultos.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2023/05/07/opiniao/cronica/tom-mestreescola-2048714

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Miguel Esteves Cardoso - Um café no Primeiro de Maio


* Miguel Esteves Cardoso 

OPINIÃO

O trabalho está quase todo escondido, para não perturbar a doçura do nosso prazer

1 de Maio de 2023


Não há prazer sem trabalho. O prazer é seu. O trabalho é dos outros.

Hoje é dia do trabalhador e o mínimo que pode fazer quem trabalha é pensar naqueles que trabalham mais e por menos dinheiro do que nós.

Não há prazer sem trabalho. O prazer é seu. O trabalho é dos outros.

O mínimo que se pode fazer é pensar que se está a trocar o nosso trabalho, na forma do dinheiro que pagamos por um serviço, pelo trabalho dos outros.

Mas quantos minutos de trabalho lhe custou esse café? E quantos minutos tem de trabalhar o empregado que lhe serviu esse café para ganhar a mesma quantia?


Quando bebemos um café no dia 1 de Maio, a primeira coisa que procuramos saber é "o que é que está aberto?" Ou, por outras palavras, "quem é que está a trabalhar? Quem é que não teve direito a feriado, neste dia do trabalhador?"

Os feriados foram uma conquista sindical. Os fins-de-semana foram uma conquista sindical. As semanas de 40 horas foram uma conquista sindical. E digo conquista no sentido mais medieval: muitas pessoas morreram, muitas pessoas levaram pancada, muitas pessoas passaram fome, muitas pessoas morreram desiludidas e fracassadas para poder conquistar essas horas e esses dias, que hoje encaramos como se fossem tão naturais como o nascer e o pôr-do-sol.

Quando bebemos um café no 1 de Maio, o mínimo que podemos fazer é perguntar "quem apanhou este café? Quanto receberam por esse trabalho? Em que país foi? Que protecção têm os trabalhadores nesse país? Há trabalho infantil? Do preço que paguei pelo café, quanto é que receberam as pessoas que apanharam, lavaram, secaram e transportaram o café?

O problema é que o trabalho está quase todo escondido, para não perturbar a doçura do nosso prazer com o amargo da culpa: o lucro do café é quase todo dos países sem café que importam o café por tuta-e-meia.

O trabalho atrás do nosso prazer é repetitivo e chato, mal pago e mal-agradecido.


O mínimo que podemos fazer é pensar nisso.

E reconhecê-lo.


Colunista


https://www.publico.pt/2023/05/01/opiniao/opiniao/cafe-maio-2047979

sábado, 10 de dezembro de 2022

Miguel Esteves Cardoso - Recomendar é difícil

* Miguel Esteves Cardoso

30 de Novembro de 2022, 0:05

Estão sempre a perguntar-me se há alguma série realmente boa para ver e eu digo sempre a mesma: Ethos. São oito episódios de 50 minutos e pronto, num mundo ideal não seria preciso dizer mais.

Mas as pessoas são pessoas e, em vez de ir ver à Internet, continuam a falar como se estivéssemos no século XX: “Isso é o quê? Onde é que se pode ver isso? Qual é a história?”

Não gosto nada da maneira como nos transformam em vendedores, obrigando-nos a apresentar as recomendações como se estivéssemos a tentar roubar-lhes tempo de vida, e como se lucrássemos com isso.

A recomendação deveria bastar. O preço que se paga já é muito elevado: se a pessoa não gostar da série, ou do livro, ou do filme, nunca mais nos liga nenhuma e, de facto, aí, sim, amaldiçoa o tempo que perdeu com aquela porcaria. Mas não nos largam. Na verdade, pedem-nos pormenores triviais, não para serem aliciados, mas para serem repelidos: “Vai dizendo, até chegar à coisa que me vai afastar.”

O realizador está vivo? Que idade é que ele tem? Aqui as respostas são boas: sim, 45 anos. Não é a preto e branco, pois não? Não. Quando é que foi feito? Em 2020. Não me digas que foi durante a pandemia! Não, foi antes, podes estar descansado. Onde é que está? Está na Netflix. Aqui começa o descalabro. Na Netflix? Uma série boa na Netflix? Tens a certeza?

Tratam-me como se eu estivesse a tentar vender-lhes a Netflix. É como recomendar um filme que esteja no São Jorge e ser atacado por estar a defender o comércio da Avenida da Liberdade.

Não é uma série americana, pois não? Não. É turca. Turca?! Turca?! Sim, turca. O que é que tem? Nada, nada. Mas não vão ver. E se eu dissesse que a série foi recomendada por Orhan Pamuk? Aí, já a coisa melhora. Mas fica sempre a suspeita que Pamuk é amigo do realizador de Ethos, Berkun Oya.

Porque na Turquia, tal como em todos os países que não conhecemos, por muito grandes que sejam, toda a gente se conhece e ninguém faz nada por acaso.

Ninguém se safa.

Colunista

https://www.publico.pt/2022/11/30/opiniao/opiniao/recomendar-dificil-2029632

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Miguel Esteves Cardoso - Setúbal é que é

CRÓNICA

* Miguel Esteves Cardoso

Estou a apaixonar-me por Setúbal há sessenta anos – mas só nos últimos 30 é que a coisa se agravou. Quando ia com os meus pais, a paixão por Setúbal não era minha – era deles. Mas alguma coisa se infiltrou pelos meus olhos meninos, durante aqueles almoços ao ar livre, quando me estavam a ensinar a comer peixe.

Só nos últimos dias, graças a circunstâncias felizes que me levaram a Setúbal várias vezes, é que me dei conta que era amor e que já não havia nada a fazer. Para mim, é uma revolução apaixonar-me agora por Setúbal quando eu já tinha o coração configurado.

Até aqui, tenho vivido alegremente no meu triângulo das Bermudas: os três sítios que amo, onde me sinto à vontade para andar de bermudas, de pernas ao léu: Lisboa, Cascais e Sintra.

A paixão por Setúbal rouba-me essa piada barata e introduz a figura do quadrilátero. É mais quadrada, mas quero lá saber: Lisboa, Cascais, Sintra e Setúbal.

Não é só Setúbal, a cidade e a gente, a maneira de conviver e a graça, a honestidade e o civismo. É também tudo o que Setúbal tem à volta. Para além da Arrábida e de Tróia – como se fosse preciso mais – há tantas praias e aldeias, tantas paisagens e surpresas, que o único problema para um andarilho é nunca mais parar quieto e não poder assim ver a mesma beleza mais de uma vez.

A vantagem de pertencer ao quadrilátero é que não é nenhum bico-de-obra saltar de aresta para aresta: de Setúbal a Cascais ou Sintra são dois ou três pulinhos, com a vantagem imensa do primeiro pulinho ser Lisboa.

Depois, há a pequena questão dos almoços e jantares. Em Lisboa, Cascais e Sintra é cada vez mais difícil – e caro – comer bem. Mas em Setúbal é preciso muito azar e muita dedicação para comer mal. Pelo menos por enquanto, não é?

8 de Julho de 2021, 6:05

https://www.publico.pt/2021/07/08/opiniao/cronica/setubal-1969516


sábado, 6 de março de 2021

Miguel Esteves Cardoso - Vivam os comunistas!

Miguel Esteves Cardoso 

CRÓNICA 

O PCP conseguiu o que fez – e está agora a fazer – porque trabalhou para ajudar quem precisava – e continua a precisar – de ajuda. De nenhum outro partido português se pode dizer isto.

A primeira coisa a dizer ao Partido Comunista Português não é parabéns: é obrigado. O ser humano é ingrato e a variante portuguesa é conhecida por ter horror à gratidão (e ao elogio) em todas as formas, mas gostava que os mais ingratos dessem uma vista de olhos pelas coisas que o PCP defende e fizesse uma lista daquelas com as quais não concorda.

Note-se que muitas das coisas valiosas pelas quais se bate o PCP nós já temos (o SNS, a Constituição, a escola pública). Note-se também que o PCP contribuiu muito para que as tivéssemos – algumas delas, importantíssimas, por ter sido o primeiro a defendê-las.


Quando penso nos comunistas portugueses penso em seriedade e honestidade, penso em patriotismo e, sobretudo, penso na defesa dos portugueses mais indefesos: os mais pobres, os mais fracos, os mais injustiçados, os que mais precisam de quem lute e fale por eles.

Penso também em coragem e teimosia: a coragem de ir contra o que cai bem, de ir contra as modas, de ir contra o conforto da elite política, de ir contra o que aconselham as sondagens de opinião.

Acho espantoso que se elogie o trabalho do PCP onde quer que o tenham deixado trabalhar – elegendo-o para as autarquias, por exemplo –, mas que se queira atenuar esse elogio com um mero reconhecimento da sua “capacidade organizativa” ou mobilizadora ou sabe-se lá o quê. E depois há a versão ainda mais depreciativa de lhes dar os parabéns só por ter durado cem anos.

O PCP conseguiu o que fez – o que já fez e está agora a fazer, repito – porque trabalhou, com afinco, lealdade, sacrifício e sentido de missão, para ajudar quem precisava – e continua a precisar – de ajuda.

De nenhum outro partido português se pode dizer isto.

Que dure mais cem anos, para bem de todos nós.

Colunista
6 de Março de 2021, 0:05

https://www.publico.pt/2021/03/06/opiniao/cronica/vivam-comunistas-1953286

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Miguel Esteves Cardoso - Visitas de livros

 * Miguel Esteves Cardoso   
 
Com este serviço de livros à porta podemos viver um bocadinho com os livros
 
Só estive alguns minutos a provocar o catálogo de livros da Rede BLX das Bibliotecas de Lisboa e fiquei logo cheio de vontade de ler oito ou nove livros, alguns deles esgotados e difíceis de encontrar. Não vou dizer quais são porque ainda posso ser tentado a ir levantá-los.

Eu disse “ir levantá-los”? Desculpem, eu queria dizer “pedir para mos virem trazer a casa”. E quanto é que me vai custar a brincadeira? Que tal nada? Nada está bem para si?


Não, não está a sonhar. E não é só em Lisboa. Escolhem-se os livros em casa e é a casa que os vão levar. Se um dos livros não agrada, passa-se logo para o outro. Como não investimos dinheiro naquele livro, não há culpabilidade que nos leve a demorarmos mais tempo com ele do que nos apetece.

É bom abandonar um livro que não nos está a trazer nada porque assim pode-se saltar imediatamente para outro livro.

O que interessa é provar. Depois, há livros que valem por um capítulo e outros que ganham em ser lidos pela rama e até há livros que são só para folhear.

Numa livraria podem-se provar dezenas de livros mas (felizmente) há inibições que nos impedem de passar mais tempo com os livros apetecidos nas mãos.

Com este serviço de livros à porta podemos viver um bocadinho com os livros, partilhá-los com quem vive connosco, formar opiniões, tirar apontamentos, até fotografar uma página ou outra.

É o êxito destas maravilhosas iniciativas que, como diz Miguel Azevedo da Biblioteca Municipal da Maia, aquece a alma.

As pessoas em casa podem ter muita coisa para ver e ler mas, mesmo em casas com muitos livros, faltam sempre livros novos, porque não há nada como pegar num livro, sentarmo-nos com ele e abri-lo pela primeira vez.

As pessoas gostam de ler. Mas faltam-lhes livros. 

Colunista
21 de Fevereiro de 2021, 6:34

https://www.publico.pt/2021/02/21/opiniao/cronica/visitas-livros-1951501

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Miguel Esteves Cardoso - O canal proibido

* Miguel Esteves Cardoso

CRÓNICA - 11 de Agosto de 2020, 0:15

Um dos grandes segredos da gastronomia portuguesa é o canal horeca. Sabe o que é o canal horeca? Eu também não.


Isto do distanciamento tem prejudicado o acesso a uma das minhas fontes principais: as conversas noutras mesas.

Infelizmente, as pessoas passaram a falar ainda mais alto, para que as palavras delas galgassem os metros de separação com a sonoridade intacta.

Só assim pude descobrir um dos grandes segredos da gastronomia portuguesa:  o canal horeca. Sabe o que é o canal horeca? Eu também não. Nem sabia que se escrevia com agá. Para ser sincero, nem sequer sabia que eram duas palavras. Pensava que era só uma: Canalóréca, com maiúscula e tudo.

“É tudo melhor no Canalóréca”, dizia um senhor rotundo mas curto com um cachecol de poliéster ao pescoço.

As coisas mais banais – os pacotinhos de manteiga, o açúcar amarelo, o chouriço, as moedas de chocolate – eram melhores no Canalóréca. Muitas delas estavam determinantemente vedadas aos cidadãos vulgares. Só se vendiam no Canalóréca e boa sorte a quem as procurasse para ter em casa, há há há.

Seria um bairro de Veneza? Uma loja do Canal Caveira? Um canal de Aveiro? Uma armazém sueco que se escreve Kanalorekkà?

Perante a descrença do desanimado interlocutor, o Mister Cash Call insistia: “É melhor porque é para profissionais, estás a ver? Tu, no Canalóréca, não te vendem nada...”

“Ópá, no Canalóréca vêm trazer-te tudo. Nunca mais tens de ir a uma loja. Nem à Makro sequer. Os gajos trazem-te as coisas e ainda por cima é ao preço da chuva.”

Ainda não fui investigar o canal horeca e o mundo fabuloso em que ele desagua – mas já faltou mais.

Desafio quem quer que seja a penetrá-lo.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Miguel Esteves Cardoso - Morreu o passôbem

* Miguel Esteves Cardoso

OPINIÃO

Rezo para que o passôbem nunca mais volte. Mal por mal, preferia andar sempre de chapéu.

27 de Julho de 2020, 6:46

O passôbem está condenado a juntar-se ao minuete. Um dia não muito distante só os especialistas saberão que uma dessas coisas é uma dança do século XVI e a outra um hábito estranho de apertar a mão de outra pessoa para cumprimentá-la.

Diz-se que começou para se mostrar que estava ocupada a mão da espada, tranquilizando o interlocutor que não seria imediatamente decapitado. Esta explicação, pelo menos para canhotos como eu, cai em saco roto.

Em plena pandemia um livreiro desconhecido veio a correr para mim, abanando a mão direita no meio de uma feira e proclamando que “queria apertar a mão do homem que tinha escrito O Cabo das Tormentas”.

Quando recusei, ofendeu-se. “Olha este! Olha este armado em bom, que não quer apertar a mão à gente!

Ainda tentei explicar que eu não tinha escrito qualquer livro chamado O Cabo das Tormentas mas ele ainda se picou mais: “Mas escreveu outros tantos, olha porra!

Também a palavra “perdigoto” se perdeu, tendo-se transformado na temida “gotícula”.

Por outro lado, finalmente faz sentido a expressão “bater a bota com a perdigota”. Bater a bota é morrer, a perdigota pode matar e é mau sinal quando estão sincronizadas.

Tremo de pensar que há culturas em que os homens cospem para as palmas das mãos antes de uma tarefa árdua - antes, por assim dizer, de deitar mãos à obra.

Se tivéssemos o azar de interrompê-los, ofereciam-nos a mão estendida, procurando o calor e a cumplicidade dum passôbem.

Rezo para que o passôbem nunca mais volte. Mal por mal, preferia andar sempre de chapéu.

Colunista

domingo, 17 de setembro de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Retro-wifi vintage


CRÓNICA

16 de setembro de 2017, 7:05

Portugal está cheio de estabelecimentos arcaicos que ainda têm wifi. Chegam turistas para tirar selfies junto ao cartaz vintage em que patuscamente se indica a password, que é de sempre afectuosa, como ilovelisbon.

Abrem-se portáteis lado a lado e começa-se a jogar ao queixume paralelo. Em vez de falar do tempo fala-se no acesso. Está lento. Não, está é muita gente a bombar. Só naquela mesa está uma turma de 16 adolescentes holandeses, todos entediados, com os narizes enfiados nos telemóveis e os dedinhos a coçar os ecrãs, mudando os bonecos.

Agora bloqueou. Ó não! Liga e desliga. Estás a fazer algum download? Não, és maluco. Tenta fechar algumas páginas. Não estou a conseguir. Espera aí... Faz um speedtest. Não dá. Para fazer um speedtest é preciso um mínimo de speed. Ha ha: o som do riso fingido que é próprio de quem está a mexer em computadores num lugar público.

Agora acelerou. Bem... agora está melhor. Consegues ver um vídeo no YouTube? Sim. Não. Está às voltinhas. Ganda lata. Lembras-te quando nos queriam fazer acreditar que o buffering tinha acabado, que era uma relíquia do século XX? Mentira. Diz que está loading mas não está a carregar porra nenhuma. Tem paciência. Pode mesmo estar a carregar. Está bem, vou esperar um bocadinho. E então? Está na mesma! Continua a loadar? Claro que não, está a bufferingar à grande.

Vou queixar-me ao TripAdvisor: o wifi é péssimo. Não estou a conseguir. Espera aí, achas que é de propósito? Estes sacanas, pá...pensam em tudo!

https://www.publico.pt/2017/09/16/opiniao/noticia/retrowifi-vintage-1785567

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bob Dylan é o Nobel da Literatura 2016:







 


"Ele pode ser lido e deve ser lido"


AO MINUTO:
 Houve "grande unanimidade” entre o júri, disse a secretária permanente da Academia Sueca.




OPINIÃO

Bob Nobel, nem menos

Dylan inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.
Bob Dylan merece o Prémio Nobel da Literatura. Bob Dylan escreve ensaios, ficção e poesia há mais de meio século. Inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.
Desde que Christopher Ricks defendeu Dylan como um grande autor da literatura mundial que há outros críticos académicos que se divertem a fazer pouco de Ricks. Mas a verdade é que Ricks foi o primeiro a ter a coragem de reconhecer o génio de Bob Dylan.
Dantes toda a literatura se dividia em categoriazinhas de merda – canções, contos, ensaios, reportagens, ficções, peças teatrais, poesia. O júri do Nobel tem feito o enorme favor de voltar a confundir tudo. No ano passado deu o prémio à jornalista Svetlana Alexievich, uma grande escritora que utiliza as entrevistas como matéria-prima para construir textos empolgantes sobre a condição humana.
Está fora de moda falar na eternidade, mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais.
A obra de Dylan – que é caoticamente desigual, havendo coisas terríveis ao lado de obras-primas – é uma gloriosa colecção de todas as tradições literárias da humanidade, desde os trovadores aos cantores de blues, desde os contos de fada às orações.
Finalmente temos um Nobel à altura de Dylan.

  https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/bob-nobel-nem-menos-1747246

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

miguel esteves cardoso - Grandes livros


OPINIÃO

MIGUEL ESTEVES CARDOSO 05/09/2016 - 00:10

Um dos maiores prazeres grátis da internet são os livros que passaram para o domínio público.

Um dos maiores prazeres grátis da internet são os livros que passaram para o domínio público. Tenho usado o manybooks.net para descarregar preciosidades cómicas como Some Experiences of an Irish R.M. de Edith Somerville e Violet Florence Martin. Usavam o pseudónimo Somerville and Ross mas encontrará o livro sob o pseudónimo da segunda autora: Martin Ross. O Further Experiences of na Irish R.M. está no archive.org.
Para saber como se pensava num tempo pré-narcisista, em que era preciso pedirmos desculpa para falarmos de nós próprios, é escusado tentar resistir ao encanto de From A College Window de A.C.Benson. Os contos de cais de W.W.Jacobs (Many CargoesNight Watches) também são bons para picar.
Todas estas sugestões devo-as a George Lyttelton. Os seis volumes da cortrespondência dele com Rupert Hart-Davis, que vão de 1955 até ao ano da morte de Lyttelton em 1962, são os livros mais divertidos, reaccionários e literariamente gulosos e bisbilhoteiros que já li. Foram publicados pela John Murray.
Comprei-os todos em segunda mão por cerca de 20 euros e considero que foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida. Gastei dois lápis inteiros a sublinhá-los e anotá-los, tal é a frequência de citações bem achadas e opiniões chocantes – e chocantemente bem escritas.
Já me esqueci quem foi o escritor que me alertou para esta obra-prima. Talvez fosse um americano. Faz parte do vai-e-vem literário esta ingratidão. Só me resta passar a dívida ao próximo. Aqui vai.
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/grandes-livros-1743162?frm=opi

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Miguel Esteves Cardoso - O ninho dos preconceitos

OPINIÃO


Este ano vou conhecer, se tudo correr bem, um borracho como deve ser.
Uma pomba fez um ninho na única varanda da nossa casa. Passa muito tempo em cima do ovo que lá pôs. Sabe que estamos a olhar para ela. Se calhar importa-se mas não leva a mal. Só não gostou quando abrimos as janelas. Levantou vôo e foi vigiar-nos, com  ódio condicional, para o telhado da igreja.
Nunca mais abrimos aquelas janelas. Mas, no minuto em que ela deixou o ovo sozinho, pudemos apreciar a arquitectura do ninho. Era muitíssimo boa. Fazia lembrar o que Álvaro Siza fez, aqui há uns verões, na Serpentine Gallery em Hyde Park.
Era um bonito e inteligente sizeiro, feito a partir dos caules das flores com que enfeitam a igreja de Almoçageme. Os pombos de Almoçageme, que voam em bando para obrigar o sol a pôr-se, são muito bem recebidos pela população. Alegram-nos e encantam-nos. É a mágica Maria que trata deles.  
Nunca vi pombos mais felizes. É uma medida correcta da maneira como os tratamos que a mesma pessoa que disse que eram "bons para comer" também nos ordenou a não "tirar o ovo dali".
A razão que ela deu encheu-nos de ternura: "vai ver como vai gostar de ver os borrachinhos".
Uma das grandes vergonhas da minha geração (embora eu próprio nunca tenha nem compreendido nem aceitado a designação) foi ter achado que tinha graça chamar "borrachinhos" aos seres humanos sexualmente desejáveis.
Este ano vou conhecer, se tudo correr bem, um borracho como deve ser. Os pombos têm uma vida sexual que dura todo o ano. Só falta o bebé.
https://www.publico.pt/sociedade/noticia/o-ninho-dos-preconceitos-1731516

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - O Raio da Conjugação

OPINIÃO

O raio da conjugação

A conjugação do verbo dá a ideia que estão sempre a trabalhar para a nossa satisfação.

A língua portuguesa, tal como todas as outras línguas (que triste é viver com um problema que é geral!), está cada vez mais suja e mais incapaz de se limpar.
Recuemos ao século XIX. Ramalho Ortigão entra numa livraria de Lisboa e pergunta se já chegou um livro inglês. O livreiro salta milagrosamente para o século XXI e, em vez de dizer que ainda não chegou ou que nunca ouviu falar dele diz que “estamos à espera dele a qualquer momento. Só nos falta saber o momento exacto da chegada”.
Passemos a Janeiro de 2016. Há seis horas que paguei uma conta que já deveria ter pago. Por não ter pago cortaram-me o pio.
Acho bem. Quem se porta mal merece ser castigado. Só que quando telefono para a “entidade” – o nome teológico dos nossos tudo-menos-metafísicos fornecedores – recebo sempre a mesma “mensagem”: “Estamos a processar o seu pedido”.
A conjugação do verbo dá a ideia que estão sempre a trabalhar para a nossa satisfação. Deveriam dizer – o que seria bem aceite – que “ainda não tivemos tempo de voltarmos a ligá-lo à nossa rede”. Mas não. Nunca podem usar a negativa. Têm sempre de fingir que estão permanentemente ocupados a tentar dar-nos prazer.
E nós continuamos, permanentemente, sem receber esse prazer. Depois de meia hora à espera que alguém nos atenda o telefonema ouvimos, de minuto a minuto, “o seu telefonema encontra-se em fila de espera”. Que bom para ele encontrar-se numa fila. Nós – os ouvintes destas lengalengas – que nos lixemos.
https://www.publico.pt/sociedade/noticia/o-raio-da-conjugacao-1721558?frm=opi

sábado, 21 de novembro de 2015

Miguel Esteves Cardoso - como brincar e escrever sem ter trabalho



O GATO DAS BOTAS

Textos automáticos produzidos sem dor num telemóvel perto de si: como brincar e escrever sem ter trabalho

A primeira parte da minha adolescência foi passada sob a influência gloriosamente alegre e nefasta do surrealismo. A escrita automática, tal como a escrita indecifrável e os cadáveres esquisitos, eram maneiras de começar a escrever sem grandes problemas.

Depois de anos a lutar contra os editores de texto que adivinham (sempre mal) as palavras que vamos escrever, decidi ceder. Usando o QuickType do iOS 9 no iPhone (ou qualquer outro previsor de texto), descobri que é facílimo escrever prosa automática, simultaneamente pretensiosa e enganadora, sem um único pensamento original ou rasgo de imaginação.

As regras do jogo são simples: escreve-se uma palavra qualquer capaz de começar uma frase e, a partir daí, tem de se escolher uma das propostas que surgem. A única intervenção permitida é pôr pontos finais e começar outra frase. Não podia ser mais preguiçosa, divertida, surpreendente e automática esta brincadeira.

Eis alguns exemplos cuidadosamente escolhidos. Nenhum texto sofreu a mais pequena modificação.

O nome da pessoa
Fugiu de casa para alugar um filme sobre os outros. Eu não sei o que é a primeira vez na vida real de cada um.É uma questão que eu não vou deixar.
Eu sei disso porque não tenho nada a ver com a pessoa que eu tenho que parar de ser.
Não tenho mais orgulho do que a minha mãe.
Não tenho mais orgulho e preconceito e discriminação em geral.
Eu sei o nome da pessoa com quem nasceu primeiro o ovo.
Um amor para o dia inteiro
É um amor para o dia inteiro.
É um amor para o que eu vou deixar.
É um amor que eu não sei se é.
É um amor de verdade.
É um amor para os outros.
É um amor para o que é a primeira coisa.
É uma coisa que não é um amor.
Não é um amor que eu vou deixar de ter.
É o mais rápido possível e que a vida de uma pessoa muito especial do júri popular em que eu vou ter de me arrumar umas horas depois do almoço comemorativo, que não tem a ver com outra mulher de verdade.

O cérebro comido
Comeu-te o dia inteiro e não é um dos melhores filmes de terror.
É o que é um dos meus sonhos de amor que não é o mais rápido que a minha opinião sobre canibais.

Declaração de direitos
Não sei o que é um bom lugar para se ter uma ideia. É um dossier de um ano que eu não sei onde está.
É uma questão de tempo para se sentir falta do teu lado. Não tenho nada contra a corrupção e abuso do poder.
Eu sei que não se trata de um dos meus sonhos de consumo cantar o hino nacional da serra eléctrica no Twitter.
É uma coisa muito séria e o pior é que o tempo de verdade é um dos maiores.
É uma das minhas edições da revista da associação nacional dos bispos e pastores.
E a gente não tem a sua vida.
Não tenho nada a ver com o seu nome na lista dos melhores.
É uma das minhas amigas, que o governo federal em São João da vida é assim mesmo. Não tenho mais de mil milhões de euros por dia e a sua opinião sobre o assunto é muito mais do que eu não ser suspensa por igualdade de direitos humanos.

Coisas por saber
É uma questão que se faz com a sua voz da América e eu sou a única coisa que não é um amor para recordar.
Não sei o que é uma coisa muito importante.
Eu não tenho nada a ver com o tempo.
É o que eu tenho.
Eu não sei se o mundo é esse que ninguém sabe.
É um bom lugar para se ter um dia.
Eu não vou deixar o tempo que não tem nada de bom e o que é a primeira coisa que me ama.

Como hei-de viver
Viverei sem o teu pai e mãe. É uma questão de opinião pública para debater com os outros. Não tenho nada contra a parede da minha casa. É um amor que não se pode ver. Eu publiquei uma nova versão de estúdio da banda de reggae e toda a minha cara de um vídeo que mostra o quanto eu te amo.

Claro que as palavras propostas não são inteiramente aleatórias: dependem do que cada um costuma escrever. É isso que torna os textos — tal como acontecia com os surrealistas — embaraçosamente pessoais.

Quase como se tivessem sido escritos como deve ser....

http://lifestyle.publico.pt/artigos/355472_textos-automaticos-produzidos-sem-dor-num-telemovel-perto-de-si-como-brincar-e-escrever-sem-ter-trab