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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Presidenciais 2026 - Entrevista a André Ventura

Ventura assume que falhar segunda volta das eleições presidenciais "é mau e é uma derrota"

Líder do Chega assume que, para 18 de janeiro, objetivo é "ganhar" ou garantir passagem à segunda volta. "Não há como mascarar a realidade se isso [não passar à segunda volta] acontecer", assume.

* Agência Lusa, Texto

O candidato presidencial André Ventura admite que não passar a uma segunda volta das eleições de janeiro será uma derrota e que, se lá chegar, será uma batalha difícil, porque estarão “todos contra” si.

“Eu estou a levar esta eleição em duas etapas. Há uma meta que é o dia 18 [de janeiro], nessa meta nós queremos vencer ou passar à segunda volta das eleições. Portanto, isto significa ou primeiro ou segundo lugar, e acho que estamos bem encaminhados para isso”, afirmou.

Em entrevista à agência Lusa no âmbito das eleições presidenciais de 18 de janeiro, o candidato a Belém admitiu que, se não conseguir cumprir o objetivo de passar a uma eventual segunda volta, “é mau e é uma derrota”.

“Se não estiver [na segunda volta], é sinal de que o Chega e eu próprio não atingimos nesta eleição o objetivo. Não há como mascarar a realidade se isso acontecer, porque é praticamente impossível ter um valor próximo das legislativas e não ir à segunda volta”, disse, referindo que “não atingir um valor próximo significaria que houve um voto de não acompanhamento por parte do eleitorado”.

“É uma derrota, só em partidos estalinistas ou leninistas é que as derrotas se tornam vitórias. Há momentos que são de derrota e há momentos que são menos bons na vida política. Saber assumi-lo é também um ato de grandeza democrática”, sustentou André Ventura.

O candidato a Presidente da República e líder do Chega indicou que o partido “continuará o seu caminho” e ele próprio fará “a avaliação que tiver que fazer disso”.

“Saberei ler os sinais que o eleitorado transmitir, mas evidentemente que se não for à segunda volta não foi um resultado positivo. Mas estou mesmo convencido que isso não vai acontecer, estou mesmo convencido que vamos ter uma segunda volta e que eu estarei nessa segunda volta”, salientou.

Ventura considerou que essa será a “batalha mais difícil, talvez da [sua] vida toda”, porque acredita que “se vão juntar todos” contra si, que “o sistema todo vai se juntar contra a candidatura”.

“Eu acredito que seja possível ganhá-la, mas vai ser uma luta muito difícil para mim e para o país”, admitiu.

“Seja quem for o adversário, mesmo que o adversário fosse, ou venha a ser, António José Seguro, tenho praticamente a certeza de que o PSD vai recomendar o voto em António José Seguro, porque sabe que eu sou uma ameaça ao ‘statu quo’ e uma ameaça ao domínio das instituições por estes dois partidos”, disse, antecipando que pode acontecer o mesmo com Gouveia e Melo ou até António Filipe.

O candidato mostrou-se também curioso sobre o que fará o PS caso venha a disputar uma segunda volta com Luís Marques Mendes: “Não que eu queira o apoio do PS, o mais distante disso possível, mas é curioso verificar se o PS vai entrar na segunda volta dizendo para se votar em Marques Mendes”.

André Ventura disse também não ter um adversário preferencial para a segunda volta, mas está convencido de que será Henrique Gouveia e Melo, e assumiu-se como “o adversário mais difícil na primeira volta”, mas “o mais fácil” de derrotar numa segunda.

Ventura dissolve Parlamento se houver “suspeita de corrupção grave” envolvendo primeiro-ministro

O candidato presidencial André Ventura dissolvia o parlamento e convocava eleições antecipadas perante um caso de “suspeita de corrupção grave” sem explicação convincente, envolvendo um primeiro-ministro, mesmo que o Governo fosse suportado por uma maioria absoluta.

“Para ser o mais claro e não estar aqui com reservas mentais, se um primeiro-ministro, por muita estabilidade que tivesse, inclusive se tivesse uma maioria absoluta, for suspeito de corrupção, não conseguir explicar essas suspeitas, e a informação que for dada ao Presidente da República é de que estas suspeitas são sérias, fundamentadas, fundadas e com indícios fortes, então eu acho que, nesse caso, com uma suspeita de corrupção grave, nós devemos dissolver a Assembleia da República e chamar o país a votos”, afirma o candidato a Belém em entrevista à agência Lusa.

Ventura admite que, perante novas eleições, o país poderia renovar a confiança no mesmo primeiro-ministro, criando “um drama institucional para um Presidente da República”.

“Eu tenho um perfil ativo, enérgico, e é assim que eu espero ser até ao final da minha vida. E, portanto, se tivesse que agir num caso de corrupção, agiria. Mas serei o mais ponderado possível para garantir que não lanço o país na instabilidade”, assegura.

O também líder do Chega refere-se a um cenário abstrato, apesar de o seu ponto de partida ser o caso da antiga empresa do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que este passou aos filhos depois de uma polémica mediática que levou o Ministério Público a abrir um inquérito preliminar ainda sem resultado conhecido.

André Ventura considera que, no caso Spinumviva, acima de tudo “tem faltado a este primeiro-ministro” explicações.

“O caso Spinumviva tem características graves devido às suspeitas, não estou a dizer que elas são reais ou não, mas às suspeitas, enfim, de recebimento do indivíduo de dinheiro, etc. Isso é grave. Se eu fosse Presidente da República e o processo vier a desenvolver-se nos termos em que venha a desenvolver-se e o Ministério Público entender que deve avançar para um inquérito, o que significa que o primeiro-ministro será constituído arguido, acho que era importante, e é o que eu direi ao primeiro-ministro, que dê explicações não só em sede de justiça, mas também ao país”, precisou, acrescentando: “Eu avaliarei a sustentabilidade dessas declarações do ponto de vista da sua razoabilidade e da credibilidade que elas mereçam”.

“Não sou eu o juiz, evidentemente, mas é o Presidente da República, em funções naquele momento, que tem que dar uma palavra ou de confiança ou de entender que as instituições estão em causa e que não deve continuar”, sustenta.

“Eu tenho muitas críticas ao primeiro-ministro atual, mas consigo ter uma conversa com o primeiro-ministro. Acho que conseguiria dizer ao primeiro-ministro ‘isto são suspeitas graves, o que o primeiro-ministro tem que fazer é explicá-las e dar uma explicação sobre elas’ e exigir-lhe que fizesse isso”, acrescenta.

Ventura considera que “seria possível” levar o primeiro-ministro e evitar “um cenário de deterioração permanente”.

Caso se chegasse “a um ponto, enfim, que o primeiro-ministro fosse, tal como outros atores políticos, acusado, aí até há trâmites legais que são próprios, mas se as suspeitas fossem condensadas, evidentes e notórias, então eu acho que nem era preciso dizer ao primeiro-ministro para sair, eu acho que sairia pelo seu próprio pé”.

“Se eu for Presidente da República, espero que nunca aconteça e também não vejo nenhum motivo para isso, e houvesse uma acusação contra mim de corrupção, de desvio de dinheiro público, de enriquecimento ilícito, eu próprio, chegando ao momento de ver que havia coisas fundadas e reais, não tinha outra forma senão ir-me embora e sair”, conclui André Ventura.

Durante a entrevista, o candidato questionou a forma de nomeações para as instituições do Estado e empresas públicas, que considerou deverem ser repensadas, inclusivamente o caso do procurador-geral da República, apesar da consideração que disse ter para com o atual titular, Amadeu Guerra.

“Mas quando temos um sistema que nomeia o procurador-geral da República e é este procurador-geral da República, depois, que vai investigar quem o nomeou, é sempre um sistema frágil e é sempre um sistema que gera dúvidas de independência e de imparcialidade”, sustenta, alegando que o mesmo se passa com os titulares dos tribunais superiores e do Tribunal Constitucional.

“Faz sentido que o tribunal que controla os partidos políticos, e eu agora estou à vontade porque até somos o segundo maior partido, podíamos ter interesse em manter isto como está, derive destes próprios partidos políticos. Não seria de pensar isto como um todo, do ponto de vista de garantir a independência e a imparcialidade destas pessoas? Poderia ser o Presidente?”, questiona, concluindo: “Acho que temos que repensar um sistema que dê garantias de menor interferência política.

Ventura quer revisão constitucional para tornar Presidente um “ator político decisivo”

André Ventura defende uma revisão constitucional que reforce os poderes do Presidente da República, transformando-o num “ator político decisivo”, e promete “conduzir o país politicamente” a partir do Palácio Belém, designadamente com propostas concretas para a Justiça.

“A Constituição tem que consagrar um presidente que tem que ser mais do que um moderador. O presidente tem que ser um ator político decisivo, porque tem uma legitimidade política decisiva” que lhe advém de ser eleito diretamente com mais de 50% dos votos, justifica André Ventura, em entrevista à agência Lusa no âmbito da campanha para as eleições de 18 de janeiro.

O também líder do Chega considera que, no sistema atual, o “poder real” do Presidente da República “é o poder de veto, o poder de promulgar ou não promulgar, e esse poder, se não for utilizado, ou se não tiver capacidade e extensão de ser utilizado, nos casos mais dramáticos da vida nacional, acaba por ter pouca expressão”, tornando o chefe de Estado numa “espécie só de reduto de influência”.

“Se queremos levar a sério o cargo de presidente e justificar o salário que lhe pagamos, e o que gastamos com a presidência da República, então o presidente também tem que ter poderes concretos e reais”, sustenta.

Ventura entende que o presidente “não deve estar a ser um bloqueio, nem uma marioneta, nem uma muleta do Governo”, mas “deve ter os poderes mais especificados do ponto de vista do controlo, do escrutínio, da fiscalização” para que se saiba claramente “em que águas se move”, alegando que “isso hoje não é absolutamente claro”.

A partir de Belém, o também líder do Chega admite que não pode fazer propostas de revisão da lei fundamental, mas pode influenciá-lo.

“Se for Presidente da República, não terei o poder de fazer leis no parlamento, isso é uma evidência. Mas estou convencido de que não há nenhuma outra figura com tanta legitimidade e capacidade de influenciar o parlamento, até num processo de revisão constitucional, como o Presidente da República”, advogou.

Entre críticas a Marques Mendes e a “conversas de chacha” de Marcelo Rebelo de Sousa, André Ventura defende que seria importante eleger, pela primeira vez, um chefe de Estado “fora deste sistema partidário PS-PSD”, que nos 50 anos de vida democrática tem feito pactos na Saúde, Finanças, banca, “em tudo o que é setor público ou com influência pública”. Seria “uma garantia de independência e de luta contra o sistema”.

Mais do que romper com o sistema, o deputado e líder do Chega considera que “talvez a independência aqui até seja mais relevante”, aproveitando para atacar o seu adversário e ex-líder do PSD, Luís Marques Mendes, por “estar sempre a falar de independência”, mas ser “a linha direta, o apoio de Luís Montenegro, que é primeiro-ministro”.

“Ora, os portugueses gostam e querem um presidente que fiscalize a ação do governo, não um presidente que seja ou um pau-mandado, ou alguém condicionado pelo governo”, argumenta, acrescentando: “se é um presidente que tem conluio com o governo, isso não é bom para a democracia, é mau. E por isso eu percebo esta ansiedade [de Marques Mendes], automaticamente, em tentar desligar-se do Governo agora”.

Do mesmo modo, pretende combater a ideia de que o presidente é “uma espécie de senador reformado”.

“Eu não vou ser o Presidente da união fácil, de palavra certa e barata, confortável em todos os momentos. Nós não podemos tapar as clivagens, a polarização, os problemas com conversa de atleta”, disse.

Ventura promete travar uma batalha para convencer a opinião pública de que não é “nem uma jarra de enfeitar”, nem que irá estar “a dizer aquelas coisas banais, politicamente corretas”.

“Se votarem em mim no dia 18 de janeiro, vai haver uma mudança no estilo de Presidente da República”, assegura.

A partir de Belém, terá como prioridades a Justiça, as comunidades e os jovens, não se limitando a alertar que são precisas reformas, mas indicando ele próprio um caminho.

“Quero dar um sinal à reforma da justiça que ela tem que ser feita. E tem que ser feita em que sentido? Temos que garantir o fim destas penas suspensas que existem para muitos crimes, garantindo que as pessoas ficam presas em casos de abusos sexuais de menores, violência doméstica, que é um flagelo que temos em Portugal, o chamado crime contra o património, considerado às vezes pequeno crime, mas que é esse pequeno crime que vai gerando a insegurança nas pessoas”, aponta.

Segundo o candidato, todos os presidentes defendem reformas da Justiça, mas nunca dizem qual. “Eu ao menos digo qual é. É limitar recursos, porque nós temos recursos que nunca mais acabam, e temos que garantir que a pessoa tem direitos e que têm direito a uma justiça que funcione, imparcial, mas não pode ter direito a fazer mil recursos garantindo que as decisões nunca são efetivadas”, concretiza, numa alusão implícita ao processo Marquês.

“Acho que é preciso uma reforma da justiça e o presidente tem que ser o principal protagonista dela do ponto de vista político”, sublinha.

Segundo André Ventura, isso “não é governar, é conduzir o país politicamente”. “Eu estaria a ser um mau presidente e defraudaria completamente as expectativas das pessoas se lhes desse uma entrevista um dia ou dois depois de ser eleito Presidente da República e a minha conversa passasse a ser que temos que agregar vontades, temos que nos juntar todos, pensar a justiça a médio prazo e a longo prazo”, argumenta.

No decorrer da entrevista, quando abordava questões relacionadas com o processo Marquês, que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, Ventura reitera críticas à imprensa portuguesa, sem apontar casos concretos, sobretudo ao que chamou o ativismo de muitos jornalistas.

“E acho que também os jornalistas, em grande parte, não são bons. E acho que temos um ativismo muito grande no jornalismo, é a minha opinião. Mas eu seria o último a condicionar a liberdade da imprensa. Mais, digo-lhe outra coisa. Podia ser o órgão de comunicação, não é o caso da Lusa, mas podia ser o órgão de comunicação que eu menos gostasse, eu tudo faria para garantir que ele não é nem censurado, nem silenciado, nem ameaçado com questões económicas ou de natureza societária”, disse.

https://observador.pt/2025/11/30/ventura-assume-que-falhar-segunda-volta-das-eleicoes-presidenciais-e-mau-e-e-uma-derrota/

sábado, 29 de novembro de 2025

25 de Novembro: entrevista a Vasco Louerenço

"Os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro"

Tiago Palma

25 nov,2025

ENTREVISTA A VASCO LOURENÇO || Foi um dos homens que ajudaram a travar a insubordinação de 1975 e que, meio século depois, recusa vê-la promovida a “segundo 25 de Abril”, que também fez. Vasco Lourenço regressa ao dia em que os paraquedistas ocuparam bases, os comandos subiram à Ajuda e a extrema-direita sonhou com um novo 28 de Maio — para explicar porque é que, na sua leitura, quem hoje celebra o 25 de Novembro está, afinal, a comemorar a própria derrota


Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro continua a ser um dia em disputa: a direita política tenta elevá-lo a feriado, a esquerda desconfia de qualquer tentativa de o colocar ao lado do 25 de Abril e, pelo meio, sobrevivem memórias de soldados, paraquedistas, comandos, reuniões em Belém e plenários intermináveis em quartéis à volta de Lisboa.

Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril e rosto do chamado Grupo dos Nove — os vencedores de então, em novembro de 1975 —, lembra esse dia como quem fala de uma ferida que não chegou a romper o corpo todo mas deixou cicatriz. “No essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, da forma como aconteceu, nós tivemos a perceção de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E respondemos como se fosse um golpe.” Meio século depois, o coronel é taxativo numa linha que o aproxima de muitos dos “derrotados”: “Equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de Abril". 

Para se perceber o que está em causa é preciso voltar a 1975, ao tempo do PREC, das greves em cadeia, dos parlamentos cercados, das ocupações de terras no Alentejo, dos atentados bombistas da extrema-direita e de uma revolução que ainda não sabia bem onde parar. Nas ruas pesavam o PCP e a extrema-esquerda, nas sombras operavam redes terroristas como o MDLP, nos bastidores moviam-se as embaixadas em plena Guerra Fria e, dentro das Forças Armadas, o MFA (Movimento das Forças Armadas) estava rachado entre quem queria prolongar o ímpeto revolucionário e quem defendia a entrega da democracia aos partidos.

O 25 de Novembro nasce dessa divisão: para uns, um golpe falhado; para outros, uma “clarificação de poderes” entre fações militares. Para quase todos, o episódio que fecha o ciclo revolucionário e estabiliza o sistema saído de Abril.

É neste contexto dividido, outrora divido, que entra a voz de Vasco Lourenço, hoje com 83 anos e para quem o 25 de Novembro começa na crise dos paraquedistas: uma decisão “criminosa” do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que extingue a força paraquedista, deita milhares de militares no limbo e desencadeia uma cadeia de desconfianças, equívocos e manobras partidárias que acaba com bases ocupadas, oficiais presos e quartéis sob cerco.

Otelo Saraiva de Carvalho, na versão de Vasco Lourenço, não estava a preparar um golpe comunista — estava a tentar proteger os seus homens, é traído no caminho e apanhado no olho do furacão. Do outro lado, o Grupo dos Nove, com Eanes à cabeça, reage a uma insubordinação que interpreta como golpe iminente. Entre uns e outros há ainda os “falcões” da direita militar e civil, “que queriam sangue, queriam um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura” e que chegaram a pressionar para bombardear unidades militares pelo ar. “Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil”, considera Vasco Lourenço.

Por isso, quando hoje se fala sobre vencedores e vencidos, o coronel devolve a resposta para fora dos rótulos fáceis. A extrema-esquerda sai do “comboio” institucional, o PCP perde peso mas mantém-se no sistema, a extrema-direita não consegue ilegalizar comunistas nem transformar o contragolpe em contrarrevolução e fica com uma derrota que tenta reescrever meio século depois. “Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam”, diz Vasco Lourenco. O que sobra, na sua síntese, é outra coisa: “O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril”. O programa do MFA cumpre-se, a Constituição é aprovada, a democracia consolida-se — e é precisamente essa memória que está outra vez em disputa num tempo em que, nas palavras de Vasco Lourenço, “os netos e sobrinhos dos ‘falcões’” regressam ao Parlamento, reivindicam o 25 de Novembro e tentam fazer dele um aríete contra o próprio espírito de Abril.

Lembra-se daquele dia, do 25 de Novembro de 1975?

Perfeitamente. Coincidentemente, foi o dia em que eu mudei para a casa onde ainda hoje vivo. [Risos] Eu vivia numa casa no Estoril, aluguei essa casa nova e fui viver para lá, para a casa onde ainda hoje vivo. Mas o dia foi de tal maneira intenso que, em Belém [no Palácio de Belém], a certa altura, eu disse qualquer coisa como 'epá, lá se vai a minha mudança de casa'. E houve alguém que respondeu 'pá, a gente vai ajudar-te'. Não foi preciso. A minha mulher ficou encarregada da mudança e desenrascou-se. Portanto, de facto, é um dia marcante, um dia muito marcante. Um dia que recordo intensamente, que vivi por dentro e que foi fundamental para a construção do 25 de Abril.

 

Se tivesse de explicar hoje à maioria da população — que já não tem tão presente o que foi o 25 de Novembro — diria que foi uma tentativa de golpe de Estado? Ou sobretudo uma insubordinação militar que ganhou dimensão e que o coronel e outros camaradas conseguiram travar? O que é que foi, exatamente, o 25 de Novembro?

Se me coloca a questão assim, eu diria que, no essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, face à forma como foi feita e à perceção que nós tivemos, do lado em que estávamos, a sensação era a de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E, portanto, nós respondemos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. Felizmente, resolveu-se — faço sempre questão de o sublinhar — mais politicamente do que militarmente, ainda que a existência da força militar tivesse uma importância fundamental. Agora, o objetivo de quem tomou a iniciativa e deu início às ações no 25 de Novembro, na minha leitura, não era o de fazer um golpe de Estado. Era o de alterar a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução [órgão político-militar criado após o 25 de Abril]. Mas a forma como tudo se fez — quando prenderam comandantes de unidades e, inclusivamente, um membro do Conselho da Revolução, que era o general Freire, da Força Aérea —, para nós aquilo era um golpe militar. É como digo: depois dos jogos é fácil acertar no Totobola, antes dos jogos é que é difícil. Portanto, quando olhámos para o que tínhamos pela frente, vimos uma tentativa de golpe de Estado. Hoje, analisando com o recuo do tempo, chego à conclusão de que não houve tentativa de golpe de Estado nenhuma.

 

Este episódio é marcante também porque, a seguir ao 25 de Novembro, vem a consolidação do 25 de Abril. Mas, como em quase todos os momentos da História, há vencedores e vencidos — não sei se “derrotados” é uma palavra demasiado dura. O Vasco Lourenço fez parte dos vencedores, unanimemente considerados vencedores, o Grupo dos Nove [ala moderada do MFA], de onde saem figuras que depois marcam a democracia portuguesa, como o general Ramalho Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é um dos vencidos? O coronel já disse que Otelo, mais do que derrotado, foi traído. Porquê?

Vamos lá ver. O Otelo estava numa onda de extremismo também, de radicalização. Ele é confrontado com a decisão do Conselho da Revolução em ser substituído no comando da Região Militar de Lisboa por mim. Porque ele acumulava as duas funções: o COPCON [Comando Operacional do Continente, força militar criada após o 25 de Abril] e a Região Militar de Lisboa. E é substituído apenas no comando da Região Militar de Lisboa. Mas há uma ação que eu considero - apesar de ser feita, teoricamente, do 'nosso' lado - criminosa: a ação do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o general Morais e Silva, que era do meu curso na Academia Militar. Ele extingue a Força Paraquedista, deixa os paraquedistas entregues a cinco oficiais e aos sargentos e leva para Cortegaça [base da Força Aérea na zona de Ovar] 123 oficiais. E, ao mesmo tempo, extingue por despacho a Força Paraquedista. Não tinha poder para o fazer — tinha de ser o Conselho da Revolução —, mas o que é facto é que o fez e começou a pôr as coisas em marcha nesse sentido. Os paraquedistas ficaram aflitos, muitos deles com o espectro do desemprego. Eram cerca de 1500 a 2000, eu já não sei dizer exatamente quantos eram, mas era muita gente. O comandante dos paraquedistas vai pedir ao Otelo proteção, para ver se se encontrava uma solução para eles não serem dissolvidos. E o Otelo prometeu que ia fazer isso e faz, de facto, uma proposta ao Conselho da Revolução, ao Presidente da República e ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que era o general Costa Gomes, no sentido de a Força Paraquedista, em vez de ser extinta, ser atribuída ao COPCON.

 

Uma solução pacífica, portanto.

Sim, era uma solução relativamente pacífica. Tinha a oposição do Morais e Silva e dos seus apaniguados, mas a generalidade do Conselho da Revolução, a começar no Presidente da República — e comigo incluído —, concordava com isso. Só que se levanta um problema que vem complicar tudo. O COPCON não tinha autonomia administrativa. Não tinha meios para assegurar salários, subsistência, alimentação, etc.. E então qual era a solução possível? Os paraquedistas eram colocados na Região Militar de Lisboa e a Região Militar de Lisboa atribuía-os, operacionalmente, ao COPCON. Mas era a Região Militar de Lisboa que ficava com eles administrativamente. E isso era pacífico. Só que, entretanto, o que estava na ordem do dia era a substituição do Otelo no comando da Região Militar de Lisboa por mim e essa questão foi posta de lado, 'depois tratamos disso'.

 

Mas a tensão foi aumentando.

A questão é que o PCP, nessa luta de provocações permanentes de um lado e do outro - e de querer ganhar peso no Conselho da Revolução, de alterar a correlação de forças -, convence os paraquedistas. O PCP tinha uma estrutura clandestina forte dentro dos sargentos paraquedistas - e não só -, mas neste caso específico dos paraquedistas - de que, se o Vasco Lourenço for nomeado para comandar a Região Militar de Lisboa, ele não vai aceitar essa solução. E vocês ficam tramados, ficam mesmo dissolvidos. O que era falso. O que era falso! E isso leva os paraquedistas a revoltarem-se. A certa altura, convencem o Otelo de que os paraquedistas precisam de mandar equipas de informação, de esclarecimento, às unidades da Força Aérea para defenderem a 'justa luta', como se dizia, contra o chefe do Estado-Maior da Força Aérea. E o Otelo dá-lhes luz verde para isso, para irem fazer sessões de esclarecimento. Inclusivamente, quando lhes dá luz verde, comenta com dois oficiais, dois capitães da Força Aérea que estão com ele, 'oxalá isto não seja o motivo para os ‘Nove’ nos caírem em cima, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar para eu não me meter em aventuras dessas, porque, se nós tentarmos algum golpe, ele tem condições para nos cair em cima, para nos responder, portanto vão lá fazer as sessões de esclarecimento mas façam de maneira que isso não dê essa justificação'.

 

Só que transformaram as sessões de esclarecimento em ocupações, não é? Na Base Aérea de Tancos, na Base Aérea de Monte Real, na Base Aérea do Montijo. E no Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Quatro...

O problema foi esse: elas transformaram-se noutra coisa. E nós, a partir daí, reagimos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. O Otelo, ao mesmo tempo que diz 'pronto, vão lá fazer os esclarecimentos', vai para casa. Portanto, ele nunca sabe da transformação em ações de força. Vai para casa e, portanto, os paraquedistas — que vão convencidos de que vão fazer sessões de esclarecimento e que não têm noção da manobra interna dos agentes que planeiam isto — ficam convencidos de que o Otelo os abandonou e que os traiu. Quando, no fim, o Otelo é que é traído por quem transforma a ida de equipas de esclarecimento em equipas de ação de força.

 

Ali bem perto do Palácio de Belém, onde muitos de vocês foram chamados pelo Presidente da República, cá mais em cima, na Calçada da Ajuda, acabam por morrer três pessoas: o tenente José Coimbra e o furriel Joaquim Pires, dos Comandos, e o aspirante miliciano José Bagagem. Normalmente fala-se pouco das vítimas destes episódios. Porque é que a violência escalou ali e acabou por não escalar noutros sítios?

Porque, entretanto, as unidades que se sublevaram, que tomaram algumas ações, recuaram todas e todas aceitaram ficar à ordem do Costa Gomes. Todas. Menos a unidade de Lanceiros 2 [Regimento de Lanceiros 2, unidade de cavalaria do Exército], da Polícia Militar. Essa unidade não está metida em golpe nenhum. Eles não perceberam o que é que se estava a passar. E, como a unidade era, enfim, uma balbúrdia — como eu dizia —, ninguém comandava ninguém, eram plenários atrás de plenários, eles não obedeceram à ordem que eu lhes transmiti pelo telefone — ao Campos Andrade, que era o comandante — para se apresentarem em Belém. Era só atravessar a Calçada e apresentarem-se em Belém, ao Costa Gomes. Eles não o fizeram e permitiram que os 'falcões', que estavam a querer sangue, conseguissem sangue.

 

Quando fala de “falcões” está a falar da extrema-direita?

Sim. Porque nós tínhamos depois duas frentes. Tínhamos a frente contra a esquerda, que se resolveu politicamente, como eu disse, e tínhamos, debaixo do nosso chapéu-de-chuva, aparentemente ligados umbilicalmente ao Grupo dos Nove, um grupo que queria sangue, queria um novo 28 de Maio [golpe militar que levou à ditadura em 1926]. E tentou, por exemplo, fazer bombardear, pela Força Aérea, três unidades. E o Eanes [então comandante operacional] conseguiu evitar.

 

E aí seria um banho de sangue.

Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil. Se isso começasse, tínhamos a guerra civil à porta.

 

Mas voltemos às mortes na Ajuda.

Foram três minutos.

 

Três minutos?

Se, três minutos antes, o Campos Andrade me tivesse dito 'pronto, vamos aí entregar-nos', não havia nenhuma morte. Mas, quando ele me disse isso, a força dos Comandos já tinha avançado. Tinham combinado, comigo e com o Eanes, que a partir das oito da noite estavam autorizados a avançar com uma força. Mas a força já tinha avançado e, depois, por razões e por formas que eu não explico — não quero entrar em pormenores —, houve transmissões do Eanes para o Jaime Neves [comandante do Regimento de Comandos] que não funcionaram em determinada altura, mas afinal funcionaram muito bem. O que é facto é que não foi possível evitar esse confronto. E o confronto dá-se, morrem — não se sabe bem como — três militares. A ideia que há é que os dois comandos são mortos por atiradores que estavam em Cavalaria 7 [Regimento de Cavalaria 7, unidade estacionada junto a Belém], que era a unidade que estava do lado da Presidência, mesmo ao lado da Presidência. Portanto, daí, os esquerdistas atiram sobre eles. E também há a ideia de que terão sido atiradores civis, que estavam nos prédios ali, que atiraram sobre eles. É uma das dúvidas que ficam: quem é que atirou? Porque não foi a Polícia Militar que atirou contra os Comandos para matar os dois comandos. E há uma bala perdida que mata um oficial de Administração Militar que estava dentro do Regimento de Polícia Militar. Porque aquilo era, de facto, uma balbúrdia, todos os dias ia para lá gente que não pertencia à unidade.

 

Era um aspirante miliciano que pertencia a Queluz.

Sim, sim. Há três mortos, portanto. E depois nós conseguimos — como eu digo, o tal milagre funcionou —... As comunicações do Eanes com o Jaime Neves funcionaram e eu, por telefone, com o Campos Andrade, e o Eanes com o Jaime Neves, conseguimos parar o fogo de um lado e do outro. E pronto, houve essa situação.

 

E, quando a Ajuda cai, quando Lanceiros 2 cai, caiu a tentativa de insubordinação, de “golpe”? Era o último reduto?

Não. A tentativa de insubordinação já tinha caído. Como eu digo, Lanceiros não estava em qualquer tentativa sequer de insubordinação; estavam naquela de 'nós obedecemos ao Presidente da República'. Então, se obedecem ao Presidente da República, apresentem-se aqui. A ordem do Presidente da República — e fui eu que a transmiti ao Campos Andrade — era essa: apresentem-se aqui. E eu estou, desde a meia-noite até às oito e tal da manhã, a chatear o Campos Andrade. E ele é sempre 'mais um plenário, mais um plenário', porque aquilo era uma balbúrdia, ninguém decidia. E pronto, não obedeceram e deram origem a isso.

O coronel Vasco Lourenço tentou, ao longo do tempo, trazer clareza sobre o que foi o 25 de Novembro. Tal como Ramalho Eanes e outras figuras que o viveram por dentro também o fizeram. Mas a verdade é que o 25 de Novembro, 50 anos passados, parece hoje ainda mais politizado. Parece haver uma ala política, no Parlamento, mais à direita do que à esquerda, que tenta transformar o 25 de Novembro em algo talvez maior do que aquilo que ele foi. Ou seja, é importante na consolidação da democracia, mas não é equiparável ao 25 de Abril. É assim?

O que é que se passou? Passou-se, como eu lhe disse, que os 'falcões' — foi assim que eu os designei e continuo a designar — queriam sangue e queriam avançar para um regime de supressão de liberdades. Por exemplo, queriam ilegalizar o PCP, queriam claramente um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura. Isso é confirmado, inclusivamente, no ano passado numa entrevista que o Pacheco de Amorim [deputado do Chega, antigo quadro do MDLP, movimento bombista de extrema-direita] deu e em que revela que, no dia 29, tem uma conversa telefónica com o Jaime Neves e que o Jaime Neves lhe diz 'conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo aquilo que queríamos mas conseguimos alguma coisa'. Portanto, a extrema-direita queria mais disto, do 25 de Novembro. Mas a imagem que sai dali, a principal imagem, é que os grandes derrotados são o Partido Comunista e a extrema-esquerda. A extrema-esquerda, de facto, é totalmente derrotada, naquela altura sai do “comboio”, sai do processo institucional. O PCP é um vencido aparente mas não deixa de ser também um vencedor, porque se mantém no sistema, não é ilegalizado, mantém-se no Governo, inclusivamente, mantém-se na Assembleia Constituinte [assembleia eleita em 1975 para redigir a Constituição] e a Constituição é aprovada. Mas a imagem que muita gente tentou transmitir é a de que o 25 de Novembro se tinha limitado a correr com o PCP e com a extrema-esquerda.

 

Não é totalmente verdade.

Em parte é. Parou as tentativas do PCP de radicalização. Isso é verdade. Mas só isso. E isso foi o que ficou. Mas, ao mesmo tempo, o que é facto é que parou também a tentativa da extrema-direita, dos 'falcões', de radicalização. Depois, é evidente que a situação política foi derrapando, ou deslizando, lentamente para a direita. Estamos na situação em que estamos hoje. E, então, o que a extrema-direita quer é dizer agora que eles foram os vencedores do 25 de Novembro. Não foram. Eles foram vencidos! Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam. E, portanto, o que eu digo — eu, como um dos militares que estiveram envolvidos e que todos os anos, no 25 de Novembro, assumem essa condição — é que o 25 de Novembro foi o que faltou ao 5 de Outubro [de 1910, aquando da proclamação da República] para que não houvesse o 28 de Maio. O 25 de Novembro é aquilo que consegue fazer com que o 25 de Abril seja cumprido no seu essencial. No sentido de 'refundar' tudo: tudo continuou, é aprovada a Constituição, como estava previsto, e entrámos num regime democrático. Mas eles hoje parecem esquecer e querem apresentar-se como vencedores. A narrativa que querem impor é 'a única coisa que se fez no 25 de Novembro foi parar a esquerda'. Não é verdade. E eu pergunto: mas vocês querem comemorar o quê? A vossa derrota? Vocês foram derrotados. E depois há situações absolutamente fantoches, como a nomeação de uma comissão para fazer comemorações que já estão a ser feitas, organizadas pelas comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril. Epá, é isso que eu contesto. Porque acho que, de facto, o 25 de Novembro deve ser assinalado, mas o 25 de Novembro tem a particularidade de ser o último acontecimento em que se tentou, claramente, derrubar o 25 de Abril. As outras duas tentativas foram, claramente, da direita: o 28 de Setembro [de 1974, uma crise política em torno de uma manifestação da “maioria silenciosa” convocada por António de Spínola] e o 11 de Março [de 1975, a tentativa de golpe chefiada por Spínola também]. O 25 de Novembro é a última e, aparentemente, quem ataca é só a esquerda, mas a extrema-direita também atacou — e também foi vencida. Não se deu tanto por isso mas aconteceu.

 

Coronel Vasco Lourenço, uma pergunta muito simples. Toda a gente o conhece como um Capitão de Abril, uma figura fundamental da nossa democracia em 1974 e depois em 1975. Para si, quando alguém diz “o 25 de Novembro é igual ao 25 de Abril e tem de ser equiparado” — quando pedem feriado para este dia, por exemplo —, essa posição faz sentido?

Acho que é uma injúria ao 25 de Abril. Mas repare: o problema é que esses que dizem isso, logo no dia 25 de Abril de 1974 começaram a conspirar contra o 25 de Abril. E nós tivemos várias fases de conspiração desses contra o 25 de Abril. Em termos concretos, as fases principais foram o 28 de Setembro e o 11 de Março. O 25 de Novembro acaba com determinada bagunça, acaba com muita confusão, acaba com as tentativas de implantação, no terreno, de um 'poder popular', de uma 'democracia popular', acaba com aqueles que, também no terreno, queriam que aqui se instalasse um regime tipo socialismo ortodoxo. Mas acaba também com a ideia de que os setores à direita podem atingir os seus objetivos.

 

O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril, é isso?

Sim, é o 25 de Abril que sai reforçado. O programa que o MFA tinha apresentado a 25 de Abril é cumprido, há finalmente condições para isso. Agora, as democracias são isto: há sempre deslizes, a coisa vai deslizando e continua a deslizar hoje. Eu lembro-me de uma frase que se dizia na altura, quando a situação estava a deslizar, 'nós fomos capazes de fazer frente ao Vasco Gonçalves [general e primeiro-ministro entre 1974 e 1975, figura da ala esquerda do MFA, associado ao “gonçalvismo” e politicamente próximo do PCP] em determinada situação e agora não estamos a ser capazes de fazer frente a este deslizar suave para a direita?' Mas a democracia é isto. Hoje chegamos a um ponto em que há, formalmente, democracia — ainda se vota —, mas está no poder gente que parece querer soluções não democráticas, apesar de lá ter chegado democraticamente.

 

São os netos dos “falcões”?

[Risos] Sim, sim. Sim. São os netos e são os sobrinhos. O Nuno Melo [líder do CDS-PP e atual ministro da Defesa] acho que é sobrinho de um cónego, o cónego Melo [Eduardo Melo Peixoto, padre bracarense ligado à mobilização anticomunista no Minho e frequentemente associado às redes bombistas de extrema-direita ELP/MDLP], que foi um 'falcão' civil mas foi um 'falcão'. Aliás, nos 30 anos do 25 de Abril, deu uma entrevista em que disse que estava preparado um golpe deles para o dia 30 de novembro e, portanto, o 25 de Novembro antecipou-se [risos]. Mas nós temos o Pacheco de Amorim, que foi um dos dirigentes do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, rede terrorista/bombista de extrema-direita responsável por centenas de atentados no PREC]. Portanto, não são só os netos e os sobrinhos, há alguns próprios 'falcões' que estão no terreno, no poder, e estão a tentar…

 

Insubordinar-se.

Insubordinar-se. E alcançar aquilo que não conseguiram alcançar na altura. Os 'falcões' e os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro. Acham agora que há condições para isso, pronto. No que me diz respeito, faço-lhes frente.

 

https://cnnportugal.iol.pt/25-de-novembro/vasco-lourenco/os-sobrinhos-dos-falcoes-da-extrema-direita-acham-que-podem-alcancar-agora-o-que-nao-conseguiram-alcancar-no-25-de-novembro/20251125/69247264d34e3caad84ba133? 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

A verdade da mentira - entrevista com Ricardo Noronha

 O 25 de Novembro que não nos contam: censura, saneamentos e prisões

A entrevista com Ricardo Noronha, investigador do Instituto de História Contemporânea e autor de um livro acabado de sair sobre o 25 de Novembro discorre sobre um dos episódios mais controversos da história recente de Portugal. Durante décadas, a narrativa dominante apresentou esse dia como a derrota de uma tentativa de golpe da esquerda “radical” contra as forças “moderadas”. No entanto, são vários os factos que mostram que estava em marcha um plano para acabar com a revolução.

VOZ DO OPERARIO

Memória

O 25 de Novembro que não nos contam: censura, saneamentos e prisões

Continua a ser um dos episódios mais controversos da história recente de Portugal. Durante décadas, a narrativa dominante apresentou esse dia como a derrota de uma tentativa de golpe da esquerda “radical” contra as forças “moderadas”. No entanto, são vários os factos que mostram que estava em marcha um plano para acabar com a revolução. Com a revolução de Abril, houve manifestações de júbilo nas ruas, imprensa finalmente livre e libertação de presos. Novembro trouxe o controlo militar, o regresso da censura e o saneamento de jornalistas e a prisão de militares. Para compreender melhor as dinâmicas e os interesses em jogo nesse momento decisivo, conversámos com Ricardo Noronha, doutorado em História pela Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto de História Contemporânea (NOVA FCSH), que acaba de lançar um livro dedicado ao tema.

Porquê este livro?

O cinquentenário faz com que haja, obviamente, uma profusão de discursos sobre o que aconteceu no 25 de Novembro e, sobretudo, um grande investimento sobre a carga simbólica da data. E, nesse processo, sei que vai haver mais atenção, mais interesse e curiosidade sobre o que aconteceu e abre-se espaço para um trabalho historiográfico poder ter mais público do que de outra maneira teria. E, portanto, há uma intervenção historiográfica, com base em conhecimento acumulado ao longo dos anos, de várias perspectivas, vários testemunhos, vários relatos, e, simultaneamente, a identificação de um momento político, que corresponde à tentativa, sobretudo por parte da direita em Portugal, de se apropriar da carga simbólica desta data e projetar sobre ela um significado que está completamente ao arrepio daquilo que aconteceu.

Entende, portanto, que a direita está a instrumentalizar o 25 de Novembro?

Sempre houve uma instrumentalização política do 25 de Novembro. Logo no dia a seguir, no dia 26 de novembro, já há uma série de discursos e um conjunto de narrativas para oferecer à data uma carga simbólica, sobretudo em torno da noção de liberdade e totalitarismo, ou radicalismo e moderação. E, durante muito tempo, a linha divisória, se quisermos, que se traçava a partir da invocação da data, traçava a esquerda. No fundo, de um lado, a extrema-esquerda, o Partido Comunista Português e as pessoas que se reviam, de alguma maneira, nessa área, e depois todas as pessoas que se posicionam, de grosso modo, mais próximo do PS, do Documento dos 9, e que alinhavam com o 25 de Novembro. A direita até estava relativamente distante disto, porque olhava, com razão, na verdade, para o que aconteceu naquela data como um confronto, fundamentalmente, entre estas duas sensibilidades, nas quais a direita militar, que seria basicamente os heróis que esta direita hoje em dia invoca, teria desempenhado um papel relativamente secundário.

Com a passagem do tempo, a figura do Jaime Neves veio emergir com uma importância que não tinha tido inicialmente. Ramalho Eanes e Melo Antunes eram os grandes protagonistas. E isso permitiu também à direita criar ali um conjunto de referências simbólicas em torno do 25 de Novembro.

O que foi afinal o 25 de Novembro?

Foram várias coisas. Eu acho que em primeiro lugar, e foi daí que eu quis começar, uma sublevação de uma unidade militar em específico, que são os paraquedistas. Tinham sido utilizados no 11 de Março pelos spinolistas como ponta de lança do seu ataque contra a esquerda militar. Tinham sido manipulados e manobrados com informações de que havia guerrilheiros latino-americanos e grupos armados de extrema esquerda dentro do quartel a preparar uma grande operação de assassinato de centenas de pessoas de direita. E depois, quando perceberam que na verdade tinham sido ali apanhados no meio de um enredo que não controlavam, acabaram por parar de disparar. A 7 de novembro, e aqui é que é o momento crucial desta cronologia, o Conselho da Revolução decide destruir o emissor da Rádio Renascença, que estava ocupada pela Comissão de Trabalhadores. Havia ali um conflito com o Patriarcado de Lisboa, que era o proprietário da rádio — e o governo de Vasco Gonçalves, na verdade, já tinha decidido devolver a rádio aos seus proprietários com a oposição de Otelo —, e houve ali uma série de movimentações. O sexto governo provisório de Pinheiro de Azevedo, um governo já mais conservador, mais virado à direita, tinha basicamente chegado à conclusão que não era possível retomar as instalações sem que houvesse confrontos. Sem saberem, os paraquedistas foram usados pelo Conselho da Revolução para destruir, à bomba, o emissor da Rádio Renascença. Isto provoca uma enorme revolta entre os paraquedistas, sobretudo entre os praças e os sargentos, que vão dinamizar um processo de contestação dentro do corpo de paraquedistas, e sobretudo na base de Tancos, que vai levar ao afastamento de 123 oficiais. O chefe de Estado-Maior da Força Aérea decide dissolver a unidade e em resposta os paraquedistas primeiro colocam-se sob o comando do comandante do Copecon, Otelo Saraiva de Carvalho, que aceita ficar com a autoridade e depois os sargentos organizam a unidade. Mesmo sem os oficiais, os paraquedistas continuam a ser uma tropa de excelência, uma força especial, altamente preparada. E é isso que acontece na madrugada do dia 25 de novembro.

Portanto, não estamos a falar de uma tentativa de golpe para tomar o poder. É apenas um protesto dentro das próprias forças armadas.

Neste caso concreto, nessa madrugada, este protesto, se é que podemos chamá-lo assim, nunca teve o objetivo de executar um golpe. Basta olhar para o desenrolar das operações para, acho eu, encontrar uma resposta a essa pergunta. Depois de tomadas várias bases, os revoltosos ficam na expectativa e começam a emitir comunicados com as suas reivindicações. E quais são as suas reivindicações? Bom, que se bloqueie qualquer processo de dissolução dos paraquedistas, o afastamento imediato do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, que é responsabilizado pelo que aconteceu na Rádio Renascença e por toda a escalada, no fundo, de confrontação com os paraquedistas, a substituição dos representantes da Força Aérea no Conselho da Revolução e o cancelamento do afastamento do Otelo Saraiva de Carvalho da região militar de Lisboa. E é aí, neste último ponto, que o protesto dos paraquedistas extravasa o âmbito do seu próprio conflito.

Podemos, portanto, afirmar que já havia um plano em marcha para um golpe contra-revolucionário e que estas circunstâncias foram utilizadas para executar esse plano?

Eu acho que houve várias movimentações nesse dia de diferentes facções politico-militares, cada uma com a sua agenda própria, de um lado e de outro. Do lado dos sublevados, o que se nota é um grande grau de improvisação e de reação a uma situação de fato. Do lado das forças da ordem, vamos chamá-las assim, há um plano longamente amadurecido, uma avaliação muito cautelosa da constituição de forças, uma preparação logística. Há uma frase antiga que diz que os amadores discutem tática, os profissionais discutem logística. Todos os meios aéreos estavam em Cortegaça, com gasolina, com mísseis e as munições, tudo preparado para sair, os comandos estavam também equipados para sair, enquanto que do lado dos revoltosos, tirando os paraquedistas, que de facto fazem aquilo com muita eficiência, todos os outros estão simplesmente a correr atrás da situação. E portanto, desse ponto de vista, nota-se claramente que a preparação está toda de um lado, quase toda de um lado.

Depois, nas diferentes agendas políticas, o Grupo dos Nove, o que pretende é clarificar de uma vez por todas a situação no plano político-militar, ou seja, deixar de haver contestação à hierarquia e a hierarquia ser aquilo que eles definirão. Vasco de Lourenço passa a ser governador da região militar de Lisboa, Otelo é afastado, os oficiais da esquerda militar perdem as posições de comando, tirando na Armada, mas há uma nova correlação de forças absolutamente inequívoca sobre quem é que manda nos militares. Portanto, daqui para a frente, qualquer nova manifestação, qualquer protesto radical, no fundo, transgressivo, vai ter uma resposta musculada.

Os Nove não querem reverter as nacionalizações. Por isso é que logo no dia 26 o Melo Antunes vem dizer que o PCP é fundamental para a construção do socialismo, que estão agora criadas as condições para a via democrática para o socialismo. Costa Gomes diz isto, o Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro, diz isto. Sem a esquerda militar, o Grupo dos Nove passa a estar isolado e a direita militar começa a vir acima. “Ainda não estamos satisfeitos”, diz Jaime Neves. Qual é a agenda? Para além de reverter boa parte das conquistas da revolução, mão dura, ilegalizar o PCP, isso parece claro, ilegalizar ou pelo menos dar um grande chimbalau aos sindicatos, à intersindical, à extrema-esquerda, tudo o que está à esquerda do PS é para levar e não é para levar pouco.

Outro dos mitos é falar-se do 25 de Novembro como a data que inaugura a democratização do país e rutura com modelos “totalitários”, mas a partir desse dia desencadeia-se um processo de saneamentos contra militares e jornalistas, entre outros.

Houve cento e tal jornalistas que foram saneados de muitos órgãos de comunicação social. Acho que essa é a grande questão. Passou a haver controlo sobre a narrativa, sobre os aparelhos ideológicos. Eu acho curioso que se projete sobre o 25 de Novembro a data de início da democracia porque nós olhamos para o 25 de Abril e o que vemos é centenas de pessoas na rua, milhares de pessoas a fazer a festa, os profissionais da comunicação social, os jornais todos a sair, “este número não foi visado pela censura”, temos horas e horas e horas de filmagem, montes de relatos, etc. O que é que temos no 25 de Novembro? Primeiro o estado de emergência e depois o estado de sítio. O estado de sítio permite aos militares ter controlo sobre tudo.

E o que é este controlo sobre tudo? Não há jornais. Os primeiros jornais saíram já em dezembro. Durante mais de uma semana, a única fonte de informação legal são os comunicados da Presidência da República e do Estado-Maior das Forças Armadas. Há o total controle sobre a informação. Não pode haver manifestações, não pode haver ajuntamentos, reuniões políticas só com autorização militar, na prática não há. Há o total controle sobre a narrativa. E, no meio disto tudo, saneamentos. O Diário de Notícias só voltou já na última semana de dezembro. E que tipo de saneamento é? É o saneamento à esquerda, evidentemente. Eu acho curioso que se celebre como verdadeira data da instituição da democracia uma semana de estado de sítio em que há censura. Já depois, em janeiro, há dezenas de militares presos em Custóias, completamente incomunicáveis, não podem falar com ninguém, não há advogado, não há nada. Estão a ser submetidos a interrogatórios. O relatório oficial do 25 de Novembro é feito por uma organização que tem acesso a estes prisioneiros sem qualquer tipo de advogado presente e que os submete a constantes interrogatórios. Militares que passam fome, militares de Abril, a quem nós de facto devemos a nossa liberdade, são privados da liberdade, sujeitos a condições humilhantes, degradantes.

Também há o mito de que o 25 de Novembro veio acabar com a violência.

As redes bombistas de extrema direita continuaram ativas, sim. E só não continuaram mais ativas porque a Polícia Judiciária do Porto, muitas vezes em clara e manifesta oposição ao governador da região militar do norte e às autoridades civis e militares, investigou e, à altura, prendeu uma série de operacionais, e quando o fez, esses operacionais do MDLP, do ELP, bombistas, assassinos, terroristas, colocaram bombas em vários sítios, colocaram bombas à porta do Centro de Trabalho Vitória, colocaram bombas na Embaixada de Cuba, provocando, aliás, duas mortes. Em casa de um operário sindicalista, ali no norte, onde morreu a sua mulher, o atentado aconteceu a mando de um industrial. Essa rede bombista atua com total impunidade, ao longo da segunda metade de 75 e de boa parte de 76, grosso modo até o outono de 76.

Houve envolvimento estrangeiro no 25 de Novembro?

Aparentemente não. Houve uma promessa dos britânicos, isso Mário Soares confirmou, de que o primeiro-ministro James Callaghan prometeu apoio tanto de informações através do MI5 como gasolina, armamento, munições, dinheiro. Houve, claro, bastante dinheiro a circular, seguramente, através dos sindicatos controlados pela CIA, das fundações da social-democracia alemã, e algum desse dinheiro deve ter chegado também a militares. Sabemos que Carlucci [embaixador norte-americano] estava muito bem informado. Há uma série de documentos, telegramas enviados pela Embaixada para o Departamento de Estado, alguns dos quais estão compilados num volume publicado, mas nem tudo lá foi parar. Logo no início de setembro, mandou um telegrama para Washington a dizer que o Grupo dos Nove estava a preparar um golpe militar: caso não ganhem em Tancos, vão avançar militarmente a partir do norte. O que sabemos é que, de facto, Carlucci estava muito bem informado. Há 34 telegramas enviados por Carlucci entre 25 e 26 de Novembro, todos chamados Situation Report, todos intitulados Paratrooper Mutiny. Ele nunca se refere ao que acontece como um golpe. Nunca. E está sempre a sublinhar que o PCP parece não estar envolvido. Aparentemente, são só os paraquedistas. Depois começa a dizer que, de facto, as outras unidades estão mobilizadas, mas não os vê sair. Portanto, não parece haver um assalto ao poder, não parece haver um golpe.

https://vozoperario.pt/jornal/2025/11/10/o-25-de-novembro-que-nao-nos-contam-censura-saneamentos-e-prisoes/

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Entrevista de Sérgio Lavrov ao Corriere della Sera


Sergey Lavrov [*]

Corriere della Sera.

Pergunta: Foi noticiado que a próxima reunião de Vladimir Putin com Donald Trump em Budapeste não se verificou porque até mesmo o governo dos EUA percebeu que vocês não estão prontos para negociações sobre a Ucrânia. O que deu errado após a cimeira de Anchorage, que inspirou esperança para o lançamento de um processo de paz genuíno? Por que a Rússia continua aderindo às exigências que Vladimir Putin apresentou em junho de 2024 e em quais questões poderia haver um compromisso?

Sergey Lavrov: Os entendimentos alcançados em Anchorage foram um marco importante na busca por uma paz duradoura na Ucrânia, superando as consequências do violento golpe de Estado anticonstitucional em Kiev, organizado pelo governo Obama em fevereiro de 2014. Os entendimentos baseiam-se na realidade existente e estão intimamente ligados às condições para uma resolução justa e duradoura da crise ucraniana, propostas pelo presidente Putin em junho de 2024. Tanto quanto sabemos, essas condições foram ouvidas e recebidas, inclusive publicamente, pela administração Trump – principalmente a condição de que é inaceitável arrastar a Ucrânia para a NATO para criar ameaças militares estratégicas à Rússia diretamente nas suas fronteiras. Washington também admitiu abertamente que não poderá ignorar a questão territorial após os referendos nas cinco regiões históricas da Rússia, cujos residentes escolheram inequivocamente a autodeterminação, afastando-se do regime de Kiev que os rotulou de "sub-humanos", "criaturas" e "terroristas", e optaram pela reunificação com a Rússia.

O conceito americano que, por instrução do presidente dos EUA, o seu enviado especial Steve Witkoff levou a Moscovo na semana anterior à cimeira do Alasca também foi construído em torno das questões de segurança e realidade territorial. O presidente Putin disse a Donald Trump em Anchorage que concordámos em usar este conceito como base, ao mesmo tempo que propusemos um passo específico que abre caminho para a sua implementação prática.

O líder dos EUA disse que deveria consultar os seus aliados; no entanto, após a reunião com os mesmos verificada em Washington no dia seguinte, não recebemos qualquer reação à nossa resposta positiva às propostas que Steve Witkoff apresentou a Moscovo antes do Alasca. Nenhuma reação foi comunicada durante a minha reunião com o secretário de Estado Marco Rubio em setembro, em Nova Iorque, quando lhe lembrei que ainda estávamos à espera dela. Para ajudar os nossos colegas americanos a decidirem sobre o seu próprio conceito, apresentámos os entendimentos do Alasca num documento informal e entregámo-lo a Washington. Vários dias depois, a pedido de Trump, ele e Vladimir Putin tiveram uma conversa telefónica e chegaram a um acordo preliminar para se encontrarem em Budapeste após preparativos minuciosos para esta cimeira. Não havia dúvida de que iriam discutir os entendimentos de Anchorage. Passados alguns dias, falei com Marco Rubio ao telefone. Washington descreveu a conversa como construtiva (foi realmente construtiva e útil) e anunciou que, após essa conversa telefónica, não era necessária uma reunião presencial entre o secretário de Estado e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo para preparar a reunião de alto nível. Quem e como apresentou relatórios secretos ao líder americano, após os quais ele adiou ou cancelou a cimeira de Budapeste, eu não sei. Mas descrevi a cronologia geral com base estritamente nos factos pelos quais sou responsável. Não vou assumir a responsabilidade por notícias falsas sobre a falta de preparação da Rússia para as negociações ou sobre a sabotagem dos resultados da reunião de Anchorage. Por favor, fale com o Financial Times que, tanto quanto sei, plantou esta versão enganosa do que aconteceu, distorcendo a sequência dos acontecimentos, para culpar Moscovo e desviar Donald Trump do caminho que ele sugeriu – um caminho para uma paz duradoura e estável, em vez do cessar-fogo imediato para o qual os mestres europeus de Zelensky o estão a puxar, devido à sua obsessiva intenção de obter um descanso e injetar mais armas no regime nazi para continuar a guerra contra a Rússia. Se até a BBC produziu um vídeo falso que mostrava Trump a pedir o assalto ao Capitólio, o Financial Times é capaz de algo semelhante. Na Rússia, dizemos:   "eles não teriam escrúpulos em contar uma mentira". Ainda estamos prontos para realizar outra cimeira Rússia-EUA em Budapeste, se ela for genuinamente baseada nos resultados bem elaborados da cimeira do Alasca. A data ainda não foi definida. Os contactos entre a Rússia e os EUA continuam.

Pergunta: As unidades das Forças Armadas russas controlam atualmente menos território do que em 2022, várias semanas após o início do que você chama de operação militar especial. Se estão realmente a prevalecer, por que não podem desferir um golpe decisivo? Poderia também explicar por que não está divulgando as perdas oficiais?

Sergey Lavrov: A operação militar especial não é uma guerra por territórios, mas uma operação para salvar a vida de milhões de pessoas que vivem nesses territórios há séculos e que a junta de Kiev procura erradicar – legalmente, proibindo a sua história, língua e cultura, e fisicamente, utilizando armas ocidentais. Outro objetivo importante da operação militar especial é garantir a segurança da Rússia e minar os planos da NATO e da UE de criar um Estado fantoche hostil nas nossas fronteiras ocidentais que, por lei e na realidade, se baseia na ideologia nazista. Não é a primeira vez que detemos agressores fascistas e nazistas. Isso aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial e acontecerá novamente.

Ao contrário dos ocidentais, que exterminaram bairros inteiros, estamos a poupar pessoas – tanto civis como militares. As nossas forças armadas estão a agir de forma extremamente responsável e a realizar ataques de alta precisão exclusivamente contra alvos militares e infraestruturas associadas de transporte e energia.

Não é costume divulgar as baixas no campo de batalha. Só posso dizer que, este ano, a Rússia repatriou mais de 9000 corpos de militares ucranianos. Recebemos 143 corpos dos nossos combatentes da Ucrânia. Podem tirar as vossas próprias conclusões.

Pergunta: A sua aparição na cimeira de Anchorage com uma camisola com a inscrição "URSS" levantou muitas questões. Alguns consideraram isso uma confirmação da sua ambição de recriar, se possível, o antigo espaço soviético (Ucrânia, Moldávia, Geórgia, países bálticos), se não restaurar a URSS. Foi uma mensagem codificada ou apenas uma piada?

Sergey Lavrov: Tenho orgulho do meu país, onde nasci e cresci, recebi uma educação decente, comecei e continuei a minha carreira diplomática. Como é sabido, a Rússia é a sucessora da URSS e, em geral, o nosso país e a nossa civilização remontam a mil anos. O Novgorod Veche surgiu muito antes de o Ocidente começar a brincar à democracia. A propósito, também tenho uma t-shirt com o brasão nacional do Império Russo, mas isso não significa que queiramos restaurá-lo. Um dos nossos maiores trunfos, do qual nos orgulhamos com razão, é a continuidade do desenvolvimento e fortalecimento do nosso Estado ao longo da sua grande história de união e consolidação do povo russo e de todos os outros povos do país. O presidente Putin destacou recentemente isso nas suas observações sobre o Dia da Unidade Nacional. Portanto, por favor, não procurem quaisquer sinais políticos nisto. Talvez o sentimento de patriotismo e lealdade à pátria esteja a desaparecer no Ocidente, mas para nós faz parte do nosso código genético.

Pergunta: Se um dos objetivos da operação militar especial era devolver a Ucrânia à influência russa – como pode parecer com base na sua exigência de poder determinar o número dos seus armamentos – não acha que o atual conflito armado, seja qual for o resultado, confere a Kiev um papel e uma identidade internacionais muito específicos, cada vez mais distantes de Moscovo?

Sergey Lavrov: Os objetivos da operação militar especial foram determinados pelo presidente Putin em 2022 e continuam relevantes até hoje. Não se trata de esferas de influência, mas do regresso da Ucrânia a um estatuto neutro, não alinhado e não nuclear, e da observância rigorosa dos direitos humanos e de todos os direitos das minorias russas e outras minorias nacionais — foi assim que estas obrigações foram estipuladas pela Declaração de Independência da Ucrânia de 1990 e na sua Constituição, e foi precisamente tendo em conta estas obrigações declaradas que a Rússia reconheceu a independência do Estado ucraniano. Procuramos e alcançaremos o regresso da Ucrânia às origens saudáveis e estáveis da sua soberania, o que implica que a Ucrânia deixará de oferecer subservientemente o seu território à NATO para desenvolvimento militar (bem como à União Europeia, que se está a transformar rapidamente num bloco militar de natureza igualmente agressiva), eliminará a ideologia nazi proibida em Nuremberga e devolverá todos os seus direitos aos russos, húngaros e outras minorias nacionais. É revelador que, enquanto arrastam o regime de Kiev para a UE, as elites de Bruxelas permaneçam em silêncio sobre a discriminação ultrajante das "etnias não indígenas" (como Kiev chama com desdém aos russos que vivem na Ucrânia há séculos) e elogiem a junta de Zelensky por defender os "valores europeus". Esta é apenas mais uma prova de que o nazismo está ressurgindo na Europa. É algo a se pensar, especialmente depois que a Alemanha e a Itália, juntamente com o Japão, começaram recentemente a votar contra a resolução anual da Assembleia Geral sobre a inaceitabilidade da glorificação do nazismo.

Os governos ocidentais não escondem o facto de que, na realidade, estão travando uma guerra indireta contra a Rússia através da Ucrânia e que essa guerra não terminará mesmo “após a crise atual”. O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, as burocratas de Bruxelas Ursula von der Leyen e Kaja Kallas e o enviado especial do presidente dos EUA para a Ucrânia, Keith Kellogg, falaram sobre isso em várias ocasiões. É evidente que a determinação da Rússia em proteger-se das ameaças criadas pelo Ocidente usando o regime sob seu controle é legítima e razoável.

Pergunta: Os EUA também fornecem armas à Ucrânia, e recentemente houve uma discussão sobre a possibilidade de entregar mísseis de cruzeiro Tomahawk a Kiev. Por que tem opiniões e avaliações diferentes sobre a política dos EUA e da Europa?

Sergey Lavrov: A maioria das capitais europeias atualmente compõe o núcleo da chamada "coligação dos dispostos", cujo único desejo é manter as hostilidades na Ucrânia pelo maior tempo possível. Aparentemente, não têm outra forma de distrair os seus eleitores dos problemas socioeconómicos internos que se deterioram rapidamente. Patrocinam o regime terrorista em Kiev com o dinheiro dos contribuintes europeus e fornecem armas que são utilizadas como parte de um esforço consistente para matar civis nas regiões russas e ucranianos que tentam fugir da guerra e dos capangas nazis. Eles minam quaisquer esforços de paz e recusam-se a ter contactos diretos com Moscovo; impõem cada vez mais sanções que têm um efeito bumerangue nas suas economias; estão a preparar abertamente a Europa para uma nova grande guerra contra a Rússia e estão a tentar convencer Washington a rejeitar um acordo honesto e justo.

O seu principal objetivo é comprometer a posição da atual administração dos EUA, que desde o início defendeu o diálogo, analisou a posição da Rússia e mostrou vontade de buscar uma paz duradoura. Donald Trump afirmou repetidamente em público que uma das razões para a ação da Rússia foi a expansão da NATO e o avanço da infraestrutura da aliança até às fronteiras do nosso país. É contra isso que o presidente Putin e a Rússia vêm alertando há vinte anos. Esperamos que o bom senso prevaleça em Washington, que mantenha a sua posição de princípio e se abstenha de ações que possam levar o conflito a um novo nível de escalada.

Tendo tudo isso em vista, não faz diferença para as nossas forças armadas se as armas vêm da Europa ou dos EUA, elas destroem imediatamente todos os alvos militares.

Pergunta: Foi o senhor quem pressionou o botão "reinício" ("reset") junto com Hillary Clinton, mesmo que os eventos tenham tomado um rumo diferente. As relações com a Europa podem ser reiniciadas? A segurança comum pode servir como plataforma para melhorar as relações atuais?

Sergey Lavrov: O confronto que surgiu da política irrefletida e mal concebida das elites europeias não é uma escolha da Rússia. A situação atual não atende aos interesses do nosso povo. Gostaríamos que os governos europeus, a maioria dos quais segue uma agenda anti-Rússia fanática, compreendessem o quão desastrosa é essa política. A Europa já travou guerras [contra nós] sob as bandeiras de Napoleão e, no século passado, também sob as bandeiras e cores nazis de Hitler. Alguns líderes europeus têm uma memória muito curta. Quando essa obsessão russofóbica — não consigo encontrar uma expressão melhor para isso — desaparecer, estaremos abertos a contactos, prontos para ouvir se os nossos antigos parceiros pretendem continuar a fazer negócios connosco. E então decidiremos se há perspetivas para construir laços justos e honestos.

Os esforços do Ocidente desacreditaram e desmantelaram totalmente o sistema de segurança euro-atlântico na sua forma pré-2022. A este respeito, o presidente Putin apresentou uma iniciativa para criar uma nova arquitetura de segurança igualitária e indivisível na Eurásia. Está aberta a todas as nações do continente, incluindo a sua parte europeia, mas exige um comportamento educado, desprovido de arrogância neocolonial, com base na igualdade, no respeito mútuo e no equilíbrio de interesses.

Pergunta: O conflito armado na Ucrânia e o subsequente isolamento internacional da Rússia podem ter tornado impossível para si agir de forma mais eficaz noutras áreas de crise, como o Médio Oriente. Será isso mesmo?

Sergey Lavrov: Se o "Ocidente histórico" decidiu isolar-se de alguém, isso é chamado de auto-isolamento. No entanto, as fileiras lá não são sólidas, de qualquer forma — este ano, Vladimir Putin teve reuniões com líderes dos Estados Unidos, Hungria, Eslováquia e Sérvia. Claramente, o mundo de hoje não pode ser reduzido à minoria ocidental. Essa é uma era que já passou, desde que surgiu a multipolaridade. As nossas relações com as nações do Sul Global e do Leste Global — que representam 85% da população mundial — continuam a progredir. Em setembro, o presidente russo fez uma visita de Estado à China. Só nos últimos meses, Vladimir Putin participou nas cimeiras da SCO, BRICS, CIS e Rússia-Ásia Central, enquanto as nossas delegações governamentais de alto nível participaram nas cimeiras da APEC e da ASEAN e estão agora a preparar-se para a cimeira do G20. Cimeiras e reuniões ministeriais nos formatos Rússia-África e Rússia-Conselho de Cooperação do Golfo são realizadas regularmente. Os países da Maioria Global são guiados por seus interesses nacionais fundamentais e não por instruções de suas antigas potências coloniais.

Os nossos amigos árabes apreciam a participação construtiva da Rússia na resolução de conflitos regionais no Médio Oriente. As discussões em curso na ONU sobre o problema da Palestina confirmam que as capacidades de todos os atores externos influentes devem ser reunidas, caso contrário, nada de duradouro resultará, exceto cerimónias coloridas. Também partilhamos posições próximas ou convergentes com os nossos amigos do Médio Oriente, o que facilita a nossa interação na ONU e noutras plataformas multilaterais.

Pergunta: Não acha que, na nova ordem mundial multipolar que promove e apoia, a Rússia se tornou mais dependente da China em termos económicos e militares, o que criou um desequilíbrio na sua aliança histórica com Pequim?

Sergey Lavrov: Não "promovemos" uma ordem mundial multipolar, pois a sua emergência resulta de um processo objetivo. Em vez de conquista, escravidão, subjugação ou exploração, que foi como as potências coloniais construíram a sua ordem e levaram ao capitalismo, este processo implica cooperação, levando em consideração os interesses uns dos outros e garantindo uma divisão inteligente do trabalho com base nas vantagens competitivas comparativas dos países participantes e das estruturas de integração.

Quanto às relações entre a Rússia e a China, não se trata de uma aliança no sentido tradicional da palavra, mas sim de uma forma eficaz e avançada de interação. A nossa cooperação não implica a criação de blocos e não tem como alvo nenhum país terceiro. É bastante comum que as alianças da era da Guerra Fria consistam naqueles que lideram e naqueles que são liderados, mas estas categorias são irrelevantes no nosso caso. Portanto, especular sobre qualquer tipo de desequilíbrio seria inadequado.

Moscovo e Pequim construíram as suas relações em pé de igualdade e tornaram-nas autossuficientes. Fizeram-no com base na confiança e no apoio mútuos, que têm as suas raízes em muitos séculos de relações de vizinhança. A Rússia reafirma o seu compromisso inabalável com o princípio da não interferência nos assuntos internos.

A cooperação entre a Rússia e a China em matéria de comércio, investimento e tecnologia beneficiou ambos os países e promove um crescimento económico estável e sustentável, melhorando simultaneamente o bem-estar dos nossos povos. Quanto às estreitas relações entre as forças armadas, estas garantem que nos complementamos mutuamente, permitindo aos nossos países afirmar os seus interesses nacionais em termos de segurança global e estabilidade estratégica, ao mesmo tempo que combatem eficazmente os desafios e ameaças convencionais e novos.

Pergunta: A Itália carrega o rótulo de país hostil, como o senhor afirmou várias vezes, inclusive em novembro de 2024. O senhor fez questão de destacar isso. No entanto, nos últimos meses, o governo italiano tem demonstrado solidariedade com o governo dos EUA, mesmo no que diz respeito à Ucrânia, enquanto Vladimir Putin usou a palavra parceiro para se referir aos Estados Unidos, mesmo que não tenha chegado a chamá-los de aliados. Considerando a nomeação de um novo embaixador em Moscovo, há razões para acreditar que Roma está a procurar algum tipo de reaproximação. Como avaliaria o nível das nossas relações bilaterais?

Sergey Lavrov: Para a Rússia, não existem nações ou povos hostis, mas existem países com governos hostis. E, como este é o caso de Roma, as relações entre a Rússia e a Itália estão a passar pela crise mais grave da história do pós-guerra. Não fomos nós que demos início a isso. A facilidade e rapidez com que a Itália se juntou àqueles que apostaram em infligir o que chamaram de derrota estratégica à Rússia, e o facto de as ações da Itália serem contrárias aos seus interesses nacionais, realmente nos surpreenderam. Até agora, não vimos nenhuma ação significativa para mudar essa abordagem agressiva. Roma persiste em dar o seu apoio total aos neonazis em Kiev. O seu esforço resoluto para romper todos os laços culturais e contactos da sociedade civil é igualmente desconcertante. As autoridades italianas têm cancelado apresentações de destacados maestros de orquestra e cantores de ópera russos e recusam-se a autorizar o Diálogo de Verona sobre a cooperação eurasiana há vários anos, apesar de este ter sido criado em Itália. Os italianos têm a reputação de serem amantes da arte e abertos à promoção de laços entre os povos, mas estas ações parecem bastante estranhas para eles.

Ao mesmo tempo, há muitas pessoas na Itália que procuram descobrir o que causou a tragédia ucraniana. Por exemplo, Eliseo Bertolasi, um proeminente ativista civil italiano, apresentou provas documentais da forma como as autoridades em Kiev têm violado o direito internacional no seu livro O conflito na Ucrânia através dos olhos de um jornalista italiano. Gostaria de recomendar que lessem este livro. Na verdade, encontrar a verdade sobre a Ucrânia na Europa está a ser uma tarefa hercúlea nos dias de hoje.

Os povos da Rússia e da Itália têm tudo a ganhar com uma cooperação igualitária e mutuamente benéfica entre os nossos dois países. Se Roma estiver pronta para avançar no sentido de restaurar o diálogo com base na confiança mútua e levando em consideração os interesses de cada um, deve enviar-nos um sinal, pois estamos sempre prontos para ouvir o que têm a dizer, incluindo o vosso embaixador.

13/Novembro/2025
Ver também:
Pontos chave censurados pelo jornal italiano.
[*] Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa

A versão em inglês encontra-se em www.mid.ru/en/foreign_policy/news/2058998

https://resistir.info/russia/entrev_censurada_13nov25.html

 A entrevista que o Corriere della Sera não quis publicar na íntegra

! !️ Pontos-chave das respostas de Sergey Lavrov, que o jornal italiano censurou.

🔻 O Ocidente tem medo de um diálogo honesto e de pontos de vista alternativos. A recusa em publicar a entrevista na íntegra sem cortes é um exemplo claro de censura e degradação da mídia ocidental.

🔻 A Rússia está pronta para negociações sobre a Ucrânia, mas apenas considerando a situação real no terreno e nossos interesses fundamentais de segurança. Não discutiremos propostas que ignorem essas realidades.

🔻 A crise na Ucrânia foi provocada pela política de longo prazo do Ocidente de minar a Ucrânia e arrastá-la para a OTAN, contrariando suas promessas e nossa segurança.

🔻 A chamada "ordem baseada em regras" promovida pelo Ocidente é um conceito projetado para substituir o direito internacional universal. É usado para justificar quaisquer ações ilegais que beneficiem os EUA e seus aliados.

🔻 A Rússia superou com sucesso a pressão das sanções. Nossa economia não está apenas sobrevivendo, está demonstrando crescimento sustentável e fortalecendo sua soberania.

🔻 O futuro das relações internacionais está na formação de uma ordem mundial mais justa e policêntrica, não ditada a partir de um único centro.

https://t.me/rocknrollgeopolitics/16977

Leia a entrevista completa no site do MFA Rússia: https://mid.ru/en/foreign_policy/news/2058998/




Corriere della Sera
– Este jornal italiano recusou-se a publicá-la sem cortes
– A parte russa ainda tentou uma solução conciliatória: publicá-la na íntegra pelo menos no sítio web do jornal, proposta recusada pelo Corriere
– A entrevista, por escrito, fora solicitada pelo próprio Corriere