Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
(98) 'Scotch Drink' e 'O cão engarrafado'
quarta-feira, 15 de abril de 2026
José Cid - Tenho a Força de Mil Homens
Tenho a Força de Mil Homens
Autor: José Cid
Tenho a Força de Mil Homens
Autor: José Cid
Todo o mundo há-de ouvir
Todo o mundo há-de sentir
Tenho a força de mil homens
Para o que há-de vir
Tudo o que eu sofri
Tudo o que eu chorei
Ninguém sabe, ninguém viu
Mas eu sei que não errei
Vou gritar ao vento
Vou gritar ao mar
Que o amor é um momento
Que não pode acabar
Todo o mundo há-de ouvir
Todo o mundo há-de sentir
Tenho a força de mil homens
Para o que há-de vir
Nas noites de solidão
Nas horas de amargura
Eu sinto no coração
Uma força que perdura
E quando o sol brilhar
E a paz nos envolver
Nós vamos todos cantar
E o medo vai morrer
Todo o mundo há-de ouvir
Todo o mundo há-de sentir
Tenho a força de mil homens
Para o que há-de vir
Nota: A frase final que referiste anteriormente ("Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos") foi um aditamento pessoal feito pelo próprio José Cid num vídeo viral gravado durante o confinamento de 2020, adaptando a sua música ao contexto da pandemia. Não faz parte da letra original da canção de 1989. Embora a canção seja um clássico da sua carreira, o texto ganhou uma nova vida e um significado emocional profundo durante a pandemia de COVID-19, em 2020. (Google Gemini)
segunda-feira, 4 de março de 2024
Tiago Tavares - 15 expressões saídas da publicidade que usamos vezes sem conta
sábado, 17 de fevereiro de 2024
José Pacheco Pereira - A São na campanha do PS
* José Pacheco Pereira
17 de Fevereiro de 2024
Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos
eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.
Por que raio quer ele mais a São? Não sei, mas
duvido que haja muitas razões benévolas para isso, e as perversas ficam para as
redes sociais. Repito o plebeísmo, que é sempre apropriado para estas coisas
enquanto não for proibido. Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo no seu
primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que ficaram mais
estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de
certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira, que é, junto com a
inércia, a grande força motora do novo acordo ortográfico, em bom rigor, a
única. Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos
eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.
Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo
no seu primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que
ficaram mais estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de
certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira
O Acordo Ortográfico de 1990, pomposamente assinado pela maioria dos países de
língua portuguesa, foi um dos maiores desastres diplomáticos dos últimos anos,
com países como Angola e Moçambique a continuarem na mesma e todos os outros
com diferentes graus de implementação. E, mesmo no Brasil, cada um escreve como
quer, o que é aliás um dos factores do dinamismo do português do Brasil, fruto
da pujança da sociedade brasileira, para o bem e para o mal.
Os resultados do Acordo foram separar
ainda mais, uns dos outros, os países cuja língua oficial é o português e,
dentro de cada um, haver na prática duas ortografias, como se vê neste jornal.
Mesmo quando todos os passos legais para a sua implementação foram dados, quem
escreve português bem, recusa o Acordo. E mais: considera uma questão de
princípio escrever com a ortografia antiga, o que torna muito mais radical a
divisão. Basta comparar os jornais dos vários países da CPLP para perceber
isso, já para não falar de Portugal. Só que em Portugal deu-se um passo, cuja
legalidade é contestada, de obrigar instituições, escolas e outras dependências
do Estado a usar esse abastardamento da língua portuguesa que é o Acordo de
1990. E isso trouxe, como aliás a decisão de fazer o Acordo, muitos interesses
económicos em jogo, que só se têm reforçado e hoje são um lóbi poderoso.
Apesar de uma enorme contestação, por
que razão não se volta a escrever o português que tem a riqueza da memória da
língua? A razão principal é que os nossos governantes, do PSD ao PS, estão-se
literalmente nas tintas para o que é importante na nossa identidade cultural,
mesmo quando se mostram muito indignados com a bandeirinha vermelha e verde,
cuja história também desconhecem, ou se esquecem de colocar no orçamento as
verbas para comemorar o Camões.
(No Arquivo Ephemera não nos ensaiamos nada
para colocar o episódio do Velho do Restelo em painéis pelas cidades com estes
versos em negrito
"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!”
para envergonhar a São…)
A memória de uma língua, que muitas
vezes se traduz na ortografia – e não me venham com o “pharmacia”, que é outra
coisa –, faz parte da sua riqueza, nunca impediu ninguém que fale português no
Brasil, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde ou na Guiné, de ler Camões,
Vieira, Camilo, Eça de Queirós ou Pessoa. Aliás, são mais lidos no Brasil do
que cá. O que atenta contra essa capacidade de ler é outra coisa, é o ataque à
leitura em papel, é a progressiva desaparição dos livros nas escolas, como se
os ecrãs os substituíssem, é a desaparição da herança cultural das histórias da
mitologia clássica ou da Bíblia, que são indispensáveis para ler, por exemplo, Os
Maias, que é suposto ser lido nas escolas e que eu duvido muito se possa
ler sem essas histórias, e, por fim, a progressiva limitação do vocabulário
circulante, que empobrece a capacidade de expressão, logo, o poder de quem fala
ou escreve.
Quando o Ministério Público está a espatifar o
sistema político e a democracia, entre a intencionalidade e a
irresponsabilidade, quando a campanha eleitoral foge de tudo o que é importante
cá dentro e lá fora, quando Trump apela à invasão russa da Europa, quando a
traição à Ucrânia e aos palestinianos mostra a nossa cobardia e vergonha,
quando Putin assassina na cadeia o seu principal opositor, porque é que a São é
relevante? Porque a diferença entre a São e a Acção tem que ver connosco, com a
nossa identidade, com a nossa língua, com a nossa cultura, com a nossa
capacidade de falar bem, logo, de pensar bem, logo, de sermos mais fortes. E
vamos muito precisar de ser mais fortes nos tempos que aí vêm.
O autor é colunista do PÚBLICO
https://www.publico.pt/2024/02/17/opiniao/opiniao/sao-campanha-ps-2080597
quarta-feira, 24 de janeiro de 2024
Bárbara Reis - Um anúncio fez rir e pôs pessoas a ler notícias
sábado, 12 de agosto de 2023
António Guerreiro . Deus ex Media
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
11 de Agosto de 2023 (Público)
A relação entre
os media e a religião, ou antes, entre os media e
o catolicismo romano, é um ângulo de análise imperativo para perceber o
acontecimento da Jornada
Mundial da Juventude. Ali, até os confessionários foram concebidos e
“instalados” (no sentido em que se fala de uma instalação artística) para serem
telegénicos e resultarem numa “bela” exibição fotográfica e televisiva: eis o
eloquente emblema da negociação entre o público e o privado, em que o primeiro
goza de grandes vantagens. Esta mediatização, de preferência sob a forma da
televisualização, é um fenómeno aceite e promovido nas cerimónias cristãs, mas
não é uma prática judaica nem islâmica.
O filósofo
Jacques Derrida dedicou a este assunto uma longa intervenção, num colóquio em
Paris, em 1997, que teve por título “Surtout pas de journalistes!” (“Sobretudo
nada de jornalistas!). Tal injunção, imagina Derrida recorrendo a uma óbvia
anacronia, teria sido aquela que Deus, do Velho Testamento, inculcou
tacitamente em Abraão, quando o mandou subir ao monte onde deveria sacrificar
Isaac, o seu único filho. Para designar o fenómeno fundamentalmente cristão da
mundialização televisiva da religião, Derrida engendra um neologismo que evoca
a sede romana: “mundialatinização”. No entanto, esta “mundialatinização” está
sempre ligada, na sua produção, a fenómenos nacionais. Isso tornou-se muito
óbvio na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. Derrida sugere até que o tão
famoso “regresso do religioso” tem de ser avaliado e compreendido em função
destas manifestações eminentemente mediáticas.
Como não podia
deixar de ser, há um preço a pagar por isto, que a televisão, sobretudo, cobra
com juros altíssimos. Consistem esses custos no triunfo do Kitsch.
É conhecida uma frase do gramático Pierre Fontanier (1765-1844), no seu tratado
sobre as figuras do discurso, sobre os tropos, onde ele diz, ecoando uma
afirmação de Boileau, que se produzem mais figuras de estilo, num só dia, no
mercado parisiense de Les Halles, do que em toda a Eneida. Do
acontecimento religioso da semana passada podemos dizer o mesmo: produziu-se
mais Kitsch, em Lisboa, durante uma semana, do que em décadas de
produção literária e artística.
O Kitsch monumental
esteve bem patente nos palcos-altares e em toda a parafernália para ser
tele-vista. Quem conhece os gostos e os instrumentos do Kitsch ideológico,
encontrava ali material para frutuosas comparações. Mas se quisermos analisar o
acontecimento quanto ao fluxo de Kitsch produzido, temos de ir
além da concepção tradicional que vê esse conceito por um prisma meramente
estético que usamos para identificar os objectos de uma arte de massa,
estereotipada, de “mau gosto”. Devemos uma noção de Kitsch muito
mais alargada, que não se fica pelas propriedades formais de certos objectos,
ao escritor vienense Hermann
Broch, que foi ao ponto de elaborar filosoficamente o que seria o Kitsch como
“modo de vida”, abrindo assim essa noção ao registo mais vasto da atitude existencial
e a um tipo de actividades e experiências humanas. Aquela emoção estética a que
assistimos, a satisfação emocionada com que cada imagem, cada testemunho, cada
relato, cada comentário, cada citação, diziam uma única coisa, “vejam como é
belo e emocionante!”, é um gesto que consiste em olhar-se ao espelho do
embelezamento, fazendo surgir imediatamente a mentira do Kitsch.
Este “vejam
como é belo!” ou “vejam como nos satisfazemos de emoção pela emoção que nós
próprios produzimos” é uma ilustração perfeita do modo como Broch definiu
o Kitsch: a subversão da ética pelo efeito estético. Não é o
acontecimento em si que é Kitsch, não estou a sugerir que um
acontecimento religioso como aquele que teve lugar em Lisboa tem, em primeiro
lugar, um vínculo necessário com o Kitsch.
Kitsch é
a sua encenação, o modo como ele é produzido e reproduzido pelos media,
isto é, o discurso e as imagens de segundo grau que ele engendra e que, muito
embora fazendo parte da lógica da mediatização cristã, muito facilmente vão para
além dos seus próprios fins. Há momentos em que o Kitsch se
pode tornar uma coisa nauseabunda e é difícil imaginar que a própria hierarquia
da Igreja não o reconheça e não se sinta incomodada por ela. A vida Kitscht
visa fazer coincidir a esfera do ideal com a esfera da realidade, aquilo a que
Broch chamou “a ligação entre o céu e a terra”. Momentos desses, sobretudo nas
televisões, fluíram ao longo da semana numa torrente imparável. Foi um dilúvio.
Livro de
recitações
“Cada um
fala a sua língua, mas entendemo-nos todos porque é a linguagem do amor”
In Expresso online, 3/08/2023
Tomo, um pouco
ao acaso, este título de uma breve reportagem do Expresso onde
se citam as declarações de um “peregrino” a uma jornalista. Kundera, que seguiu
a lição de Hermann Broch, para a analisar o “Kitsch ideológico”
dos regimes totalitários, concluindo que no mundo idealizado do Kitsch “a merda não
existe”, deu este exemplo: uma criança a correr feliz atrás de uma bola num
prado florido não tem em si nada de Kitsch. O Kitsch nasce
a partir do momento em que alguém diz ou representa assim esse acontecimento:
“Vejam como é belo uma criança a correr atrás de uma bola num prado florido!”.
Este redobramento, que visa relatar uma verdade emocionante, através do
embelezamento, da mentira da linguagem emocional estereotipada e portanto
induzida, é aquele que podemos ver neste título (a não ser que ele tenha um
sentido irónico), que é apenas uma gota no vasto oceano do Kitsch produzido
ao longo de uma semana pela
https://www.publico.pt/2023/08/11/culturaipsilon/cronica/deus-ex-media-2059609
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