Setúbal Rua General Daniel de Sousa, 136 - Mural Bocage (Foto victor nogueira, editada pelo Gemini)
Este mural, com a sua estética e enquadramento urbano, faz o contraste entre a tradição e a subversão pela modernidade, tendo como elo de ligação a '(re)vivência', não reverencial, da(s) memória(s), mesmo que Ary mantenha a norma sonetística.
* Ary dos Santos
(1937 ( 1984)
Meu sacana de versos! Meu vadio.
Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.
E é raro o poeta que entre nós faz escola.
Mastigam ruminando o desafio.
São uns merdosos que nos pedem esmola.
Aos vinte anos cheiram a bafio
têm joanetes culturais na tola.
Que diria Camões nosso padrinho
ou o Primo Fernando que acarinho
como Pessoa viva à cabeceira?
O que me vale é que não estou sozinho
ainda se encontram alguns pés de linho
crescendo não sei como na estrumeira!
A folha manuscrita aqui reproduzida é a única existente do original de A Bandeira Comunista de José Carlos Ary dos Santos.
Um dos mais conhecidos poemas de Ary e seguramente dos mais queridos dos militantes do PCP, A Bandeira foi escrito em condições que merecem ser recordadas.
Na segunda-feira, 11 de Agosto de 1975 o Centro de Trabalho do PCP em Braga foi destruído e incendiado após um ataque comandado por um grupo operacional do ELP, como mais tarde veio a ser revelado por numerosas investigações e directamente reconhecido por alguns dos membros do comando directamente envolvidos.
O «Avante!» enviara no fim de semana anterior para Braga um seu colaborador fotógrafo, uma vez que corriam insistentes boatos de incidentes em Braga na segunda-feira por (como sucedeu em diversos outros actos terroristas) ser dia de feira. Tendo resolvido pernoitar no Porto, o repórter chegou a Braga a meio da manhã verificando então que os provocadores haviam já desencadeado as agressões e que o Centro de Trabalho (onde se encontravam numerosos militantes) estava já cercado.
Apedrejamentos e tentativas de fogo posto sucederam-se ao longo do dia, tendo – de forma equívoca nunca inteiramente esclarecida – os defensores do Centro acabado por ser retirados por uma força militar que deixou o edifício entregue aos fascistas que completamente o destruíram e incendiaram.
Tomado pelos provocadores como um repórter que lhes era favorável, o fotógrafo do «Avante!» pôde assim obter ao longo do dia as mais extraordinárias imagens da violência fascista à solta, muitas das quais foram publicadas na edição seguinte do «Avante!», a 14 de Agosto.
Para essa mesma quinta-feira, a Direcção da Organização Regional de Lisboa convocara para o hoje Pavilhão Carlos Lopes um comício de solidariedade com os camaradas das organizações atingidas pelo terrorismo e de exigência de medidas de salvaguarda da ordem democrática.
Na redacção do «Avante!» decidimos montar num dos átrios do Pavilhão uma exposição com ampliações das fotos de Braga, de que só uma pequena parte havia sido publicada no jornal. Feitas as ampliações, colocou-se o problema das legendas – que acabou a ser um duplo problema...
A questão era que as imagens tinham uma força tal que qualquer palavra, qualquer frase parecia estar ali a mais. Contudo...
Lembrámo-nos então, telefonou-se ao Zé Carlos para a Espiral, agência de publicidade onde trabalhava, e dissemos-lhe do problema: «Não serias capaz de fazer aí qualquer coisa, uns versos com força, isto não há legendas que resolvam isto...». «Esperem lá um bocado que eu já ligo.»
Meia hora depois o telefone tocava e ouvia-se o vozeirão do outro lado: «Então vejam lá se esta coisa serve.»
Era A Bandeira Comunista. Copiada ao telefone, dactilografada e ampliada, iniciou nessa noite de luta um caminho que não findou jamais.
Ary dos Santos | "As Portas que Abril Abriu" (1975)
Nota do Gabinete de Imprensa do PCP
27 Maio 2026
O Partido Comunista Português evoca, sob o lema “Poeta da Revolução”, os 90 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos, nascido a 7 de Dezembro de 1936 em Lisboa.
Poeta da Revolução, Ary dos Santos colocou o seu imenso talento ao serviço dos ideais de justiça, liberdade e progresso social que sempre nortearam a sua criação artística e a sua intervenção política.
Os seus poemas, traduzindo uma notável criatividade e sensibilidade humanas, acompanharam o caminho e a história da resistência ao fascismo e da Revolução de Abril, de que ele é, incontestavelmente, poeta.
Ary dos Santos começou a escrever poesia muito novo e em 1953, com apenas 14 anos, é publicado pela família, contra a sua vontade, o seu primeiro livro Asas.
Em 1954 é reconhecida a qualidade da sua escrita com a escolha de alguns dos seus poemas para a Antologia do Prémio Almeida Garret.
Da sua vasta obra publicada constam títulos como A Liturgia do Sangue (1963), Tempo da Lenda das Amendoeiras (1964), Adereços, Endereços (1965), Insofrimento in sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1970), Resumo (1972), As Portas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1978), 20 Anos de Poesia (1983) e VIII Sonetos (1984).
A par da criação literária, desde 1958 trabalhou na área da publicidade onde se destacou pela criatividade nos slogans publicitários.
Foi um dos grandes declamadores do século XX da sua própria obra e da de outros autores portugueses, como Luís de Camões (com Eunice Muñoz), com uma discografia que inclui Ary por si próprio (1970), Cantigas de Amigos (com Natália Correia e Amália Rodrigues), Bandeira Comunista (1977), Ary por Ary (1979) e Ary 80 (1980).
Ary dos Santos contribuiu ainda decisivamente para a inovação da canção e da música ligeira com a escrita de mais de 600 poemas, de onde constam A Desfolhada, Tourada, Cavalo à Solta, Menina, entre tantas outras que ganharam vida na voz de nomes incontornáveis da música portuguesa como Carlos Mendes, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira ou Tonicha.
Teve importante ligação ao Fado. Escreveu para grandes nomes da história do fado, nomeadamente, entre outros, Amália Rodrigues (Meu amor, meu amor; Alfama), Beatriz da Conceição (Meu Corpo), Carlos do Carmo (Um homem na Cidade; O homem das castanhas; Os putos), José Manuel Osório (Desespero; Fado do Miradouro) ou Maria Armanda (Mãe solteira; Fado mulher).
A vigorosa actividade e o rasgo criativo e a profundidade política do gesto criador em Ary são inseparáveis. Para a história ficou o episódio da criação de A Bandeira Comunista, esboçada e ditada ao telefone, em Agosto de 1975, para o comício de solidariedade com as organizações atacadas pelos movimentos contrarevolucionários. Este episódio, um dos muitos e que pontuaram a vida do poeta e militante do PCP desde 1969, ilustra o lugar que ocupou a unidade indissolúvel entre a criação e a luta política na sua obra.
Um imponente e intemporal património artístico que, sem abdicar da singularidade das circunstâncias da sua redacção, se tornou parte irrenunciável do nosso legado cultural e de luta. Os seus poemas são uma parte grande do património colectivo do povo e dos comunistas portugueses. Dizê-los e cantá-los, hoje, significa prosseguir esse combate pelos ideais e conquistas de Abril.
O Partido Comunista Português, o seu Partido, comemorará os 90 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos com um programa de iniciativas a decorrer até Maio de 2027, que será apresentado no dia 2 de Julho, em Alfama, e do qual se destaca a presença na 50.ª edição da Festa do Avante, a realização de uma exposição, novas edições da sua obra, um concerto em Lisboa, abordagens temáticas da sua vida e obra.
O PCP vai comemorar os 90 anos de José Carlos Ary dos Santos, sublinhando o intelectual destacado, o militante de convicções inabaláveis, a qualidade e a actualidade da sua obra poética de grande sensibilidade humana, a superior apreensão da vivência do mundo envolvente, a intensidade política e identificação profunda com os anseios e as aspirações dos trabalhadores e do povo.
Permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade”
Reivindicamos a alegria. Reivindicamos as canções de liberdade. Reivindicamos a música ordenadora do universo. Reivindicamos as mãos dadas dos amantes. Reivindicamos o sabor descoberto de todas as coisas. Reivindicamos as pontes tranquilas. Reivindicamos a invenção das cidades habitáveis. Reivindicamos a palavra, o poema, o livro. Reivindicamos a festa. Reivindicamos esta arma. (Mário Castrim)
Quando Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Carlos Paredes e Fernando Alvim, José Barata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Amparo, Ary dos Santos, entre outros, subiram ao palco do Coliseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as canções que ali levaram tinham ecoado pelas colectividades de cultura e recreio, nos encontros da oposição democrática, nas reuniões antifascistas que eram acampamento, piquenique e homenagem.
Naquela noite de quase-Abril, cinco mil antifascistas e uma dúzia de pides, uns cantando e aplaudindo, os outros tomando notas, assistiam à ante-estreia de Grândola, Vila Morena nos caminhos da História, no mesmo tabuado em que Ary dos Santos declamava “aqui ninguém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.
Vozes mais antigas seriam, porém, iniciadoras deste canto que quis ser arma libertadora. No Outono de 1945, Fernando Lopes-Graça juntou na casa de aldeia de João José Cochofel, perto de Coimbra, os também poetas Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira, dando início à escrita de um projecto inspirado nos cancioneiros revolucionários históricos da Revolução Francesa e da Revolução de Outubro. Marchas, Danças e Canções seria o primeiro cancioneiro político da luta antifascista portuguesa, a que seguiriam oito cadernos mais, que Lopes-Graça intitularia Canções Heróicas, Dramáticas, Bucólicas e Outras.
As Heróicas seriam inicialmente divulgadas pelo Coro do Grupo Dramático Lisbonense, constituído no seio do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Em 1946, após uma apresentação pública na Biblioteca da Incrível Almadense, a censura proibiu o repertório. Tarde demais, porém – as Heróicas viviam já nas vozes de grupos formais e informais, juntas e afinadas na luta contra o fascismo. Tanto, que não haverá memória de lugar conspirativo, das salas do associativismo popular às celas das prisões, onde não tenha havido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.
O século XX das lutas anticoloniais, antifascistas e anti-imperialistas viria a ser o momento da expansão geral da música de combate pela liberdade e pela construção do socialismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Violeta Parra, Mikis Theodorakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Silvestre Revueltas, Chostakovitch e Carlos Paredes, entre tantos outros, a música assumiu opção de classe à escala universal, independentemente da natureza dos palcos e do vocabulário próprio de cada género musical.
Em Portugal, o século passado é também o lugar da descoberta da música popular das comunidades rurais, condutora de sinais civilizacionais que também são os da consciência social (“Ó minha mãe dos trabalhos / Para quem trabalho eu / Trabalho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jornada é companheira da Canção da Vindima, em José Afonso o Cantar Alentejano (em homenagem a Catarina Eufémia) divide intenções com Milho Verde e, no canto de Adriano Correia de Oliveira, Tejo Que Levas As Águas ombreia com ‘Inda Eu Era Pequenino.
Chegados aqui, constata-se que o cantar que (também) abriu caminho à Liberdade que em cada Abril se celebra, não perdeu actualidade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à habitação, à saúde e à educação, democratas de todas as idades entoam o velho refrão de Liberdade – palavra de ordem intemporal da exigência de um tempo de justiça. E cantam Os Vampiros denunciando o saque, o Acordai chamando para a luta, o Hino de Caxias cerrando fileiras. E acolhem cantos emergentes, que são mornas e dizeres de hip hop, somando-se ao cantar histórico nas lutas dos movimentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas acções do movimento sindical, nas iniciativas pela paz, nas acções de solidariedade com a Palestina e com Cuba.
Juntam-se, no rumor do nosso tempo, timbres e sotaques diversos, mas o estribilho geral permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade" q”e, cantando “junta a tua à nossa voz”, marca encontro com o futuro.
Fadista faleceu aos 81 anos, no primeiro dia de 2021, no hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de aí ter entrado com um aneurisma na aorta. Na morte do cantor a quem o fado deve parte do seu renascimento pós-25 de Abril, a memória de um longa entrevista, em parte inédita, onde ele revisitou o seu percurso e fez as “pazes” com Amália
“Está a falar com um homem que, apesar de lhe terem feito muito mal aos sonhos, quer ir para debaixo da terra nem que seja com dois por cento dos sonhos que teve. Vi coisas muito boas e belas na minha vida. Coisas absolutamente superiores”.
Domingo, 3 de março de 2019.
Um amigo comum, Ribeiro Cardoso, estaciona o carro defronte do restaurante Cataplana da Gina, em Campo de Ourique. É noite, pouco passa das 21 horas. A porta do lado do copiloto abre-se, lenta, e Carlos do Carmo, então com 79 anos, levanta-se e sai devagar, amparando-se no automóvel e no meu braço, esforço que parece hercúleo. Está debilitado, mas bem-disposto. E pronto para uma noite de boa conversa, sem a ditadura do relógio.
Combinara-se jantar num local afetivo.
Durante semanas, eu insistira na importância de falarmos, pois sem o testemunho dele, o meu livro sobre as relações clandestinas de Amália Rodrigues com a oposição à ditadura e a forma como lidou com a revolução ficaria manco. Ao que sei, não precisou de ponderar muito: era mais a saúde que o preocupava e lhe retirava ânimo para conversas que se adivinhavam longas.
Durante quase duas horas falámos de tudo: do seu percurso artístico e pessoal, das amizades e inimizades dele, de ditadura e liberdade, de política e dos políticos que admira (citou alguns), do “irmão” José Carlos Ary dos Santos, de escritores e poesia. Eu crescera a ouvi-lo e disse-lhe que levaria para uma ilha deserta Um Homem na Cidade, um dos discos da minha vida. Comoveu-se.
Mas Amália Rodrigues era o tema principal. E a ele não lhe era fácil admitir a relação turbulenta, as ciumeiras mútuas, as invejas que se atravessaram na relação entre os dois. Não era o seu tema preferido, surpreenderia que o fosse. O mesmo diria Amália, certamente. Mas, admitiu, “não guardo memória de raivas”. Naquela noite, Carlos do Carmo fez contas a essa parte da vida. E as “pazes” com a mulher que, tal como ele, nunca deixou que o fado fosse atirado para o caixote do lixo da História. “Acho injusto dizer que ela foi a cantora do regime. O regime é que foi suficientemente esperto para aproveitar a voz do século. Essa justiça tem de ser feita porque ela era uma voz excecional. Também tenho uma dívida para com ela: quem foi que começou a divulgar o fado lá fora? Eu fui a seguir, depois apareceu esta geração. Quem é que abriu a porta? Essa dívida eu tenho”, reconheceu, concluindo. “A morte da Amália foi, em termos de reconhecimento, a coisa mais significativa que vi na vida. Nunca vi nada igual. Ela foi a maior voz do século XX. As circunstâncias e a inteligência dela resultaram nesse animal feroz e foi extraordinário esta mulher ter existido no fado”.
Resgatadas a essa noite, aqui ficam algumas das últimas memórias de Carlos do Carmo, em parte inéditas.
Era uma vez o fado
Eu fiz a escola primária, o liceu Passos Manuel e morava no Bairro da Bica. O pai, felizmente, mandou-me para um dos maiores colégios do mundo, na Suíça. Imagine o que acontece quando se encontra num local onde as pessoas dizem o que pensam e os jornais escrevem o que querem. Quando voltei, estava estupefacto. Mas não tive tempo de assimilar. O meu pai morreu em 1962, eu tinha 21 anos, a minha mãe não ia poder gerir O Faia, era a estrela da casa. Demos sequência à casa de fados, estive lá 20 anos, com muito sucesso. Quando foi o 25 de Abril, não fiz nenhuma censura, mas fui chamando artista por artista, e dizendo: “Isto é muito pobrezinho, não deves cantar”.
Fado perseguido I
A memória operária do fado era conhecida de muito poucas pessoas a seguir ao 25 de Abril. Eu tive sorte por causa do meu pai. Ele tinha sido livreiro e tinha livros sobre fado. Vouu agora gravar um fado, de um homem chamado João Black, fadista anarcossindicalista, que, em conjunto com o Avelino de Sousa, ia até ao Alentejo cantar o fado como quem vai organizar uma missa, isto nos anos 30.
Depois isto foi amolecendo. A censura fez uma parte e o medo fez a outra. Não se podia cantar um fado sem ser visto pela censura. Isso limitou muito as pessoas. Era quase um hino à pobreza. Mesmo nessa altura, nunca fui muito ligado a esse fado. E quando comecei a cantar fui-me socorrendo do reportório que havia na altura. Um dia tive uma surpresa magnífica. Canto um fado chamado Por morrer uma Andorinha e um dos velhos presos comunistas disse-me que era uma espécie de hino entre eles.
Fado perseguido II
Não é invenção dizer que o fado foi perseguido a seguir ao 25 de Abril, a vários níveis. Mas eu sou a última pessoa que deve falar disso, pois não fui perseguido. Tinha uma casa de fados [O Faia]. que era uma espécie de mostrador e as pessoas iam ali e eu não lhes perguntava se eram de esquerda ou se eram de direita. Procurei sempre manter um certo equilíbrio porque era uma casa comercial.
Cantar era sonhar
Se há alguém que não se deve queixar sou eu. Seria ingrato se o fizesse. Toda a minha vida artística é feita de coisas boas, de processos e desafios. Chamaram-me sempre maluco, cada disco era uma loucura, mas é assim que eu gosto. O meu reportório é o de um gajo maluco. O 25 de Abril teve muita importância na minha cabeça porque arejou muito, contribuiu muito para o ato de sonhar. E cantar era um ato de sonhar.
Um Homem na Cidade
É óbvio que, ao fazer Um Homem na Cidade, a coisa estalou. E fazíamos coisas interessantes com o Ary, com o Martinho da Assunção, coisas diferentes, que tinham a ver com a vida, a paixão real pelo fado, não uma paixão passageira, que só quem gosta muito de fado pode entender. O Ary tinha um grande respeito pelas pessoas mais velhas, uma certa ternura, e deixou “n” fados a “n” fadistas mais velhos nas casas de fado onde esteve. E as pessoas cantavam isso tranquilamente. Ele tinha esse culto. Nós conjugávamos muito bem essa maneira de sentir o fado. Sem elitismos. O que nós estávamos a respirar era liberdade.
Ary dos Santos I
O pai do [primeiro-ministro] António Costa detestava fado, mas o António disse-me que, graças ao Um Homem na Cidade, passou a gostar de fado. Aconteceu a muitas pessoas. Havia liberdade. Quando a gente pensa no que o Ary escreveu na Nova Feira da Ladra: “Na nossa feira da ladra já não há ladrões no escuro”. Isto é muito à frente. Ele está a falar de liberdade. Muitas vezes tinha de o travar, ele queria disparar para canções de intervenção. E eu dizia: “Zé Carlos, calma, eu sou um fadista. Não sou um cantor de intervenção. Há uma forma de intervir no fado, mas não assim”. E ele, que se intitulava “tia velha” e nos chamava “sobrinhas”, dizia: “Ah, a sobrinha está a ficar muito reacionária”. Lidar com o feitio dele, que não era fácil, mas foi maravilhoso.
Ary dos Santos II
O testamento dele foi feito a conversar com a minha mulher, todos os dias. E fazendo perguntas: “Judite, o que achas se eu fizer isto e aquilo?”. Ele deixou tudo o que era material, eletrodomésticos, tudo, à empregada açoriana. Deixou toda a roupa ao PCP. A gente chegava à Soeiro Pereira Gomes e havia gajos vestidos de alpaca…E no final, ele tinha quatro ou cinco pratas da avó e deixou cada uma destinada a cada amigo. Nós temos um açucareiro. Com o dinheiro que tinha, perguntou à Judite se achava bem comprar uma peça de ouro para um companheiro de quem ele gostou muito. Tudo feito com elevação e dignidade.
Fernando Lopes Graça
Para mim, não foi complicado defender o fado. Se eu cantava nas festas e nos comícios do PCP, estava completamente à vontade. Era muito claro para as pessoas que não pretendia nenhum cargo, nenhuma benesse. Portanto, sentia-me à vontade. O que me transtornava em relação ao fado era a ignorância das pessoas. E resolvi isso com o Fernando Lopes Graça. Ele era genial, mas era o “líder” de quem estava contra. Um dia estamos na embaixada da Bulgária, ele já estava bem bebido e queria ir para a Rua da Misericórdia para o coro de não sei quê… Fazia parte do seu trabalho. Ofereci-me para lhe dar boleia, ele entrou no meu carro e no caminho diz-me assim: “Você quem é?”. E eu: “Sou o Carlos do Carmo, o fadista”. E ele: “Oh, está do nosso lado, já não é mau”. Isso encetou uma relação e começamos a discutir. E tive a ajuda de um amigo precioso que foi o José Cardoso Pires. Que também era amigo dele e frequentador do fado, da boémia, do Faia, um gajo inesquecível. O Zé pegou no Lopes Graça e levou-o a uma sessão de fados da pesada – Fado Corrido, Fado Menor, Fado Mouraria – e o Lopes Graça saiu de lá fascinado. “Mas isto é que é o fado?”, perguntou ele. O Zé Cardoso Pires disse que sim. “Ah, mas isto é bom”. E pronto, arrumou-se isso. Sempre que estávamos juntos era uma coisa encantadora. “Então maestro, já está convertido?”. E ele: “Ó homem, às vezes a gente engana-se sem querer”.
Também silenciado
Antes do 25 de Abril cantava fado, mas não o choradinho, a lamechice, o estímulo da pobreza e da pequenez. Senti o peso do carimbo comunista depois, isso sim. Estive cinco anos sem cantar na RTP. Foi a altura em que comecei a cantar no estrangeiro. Se me perguntar se me lembro das pessoas que me fizeram isso, lembro-me. A algumas delas até lhes falo muito bem. Mas coitadas, fazem dó.
Foi o Daniel Proença de Carvalho que me resgatou para a RTP. Telefonou para minha casa e disse: “Ó Carlos, isto é uma vergonha, você não vem aqui cantar há não sei quantos anos”. Convidou-me, pôs-me a falar com a Maria Elisa e fizemos um programa.
Álvaro Cunhal I
Tenho os desenhos da prisão do Álvaro Cunhal dedicados por ele aos meus quatro netos. Quando assinou o primeiro, para o Sebastião, disse: “Você está a arranjar-me aqui um petisco… É que depois vêm os outros netos e eu não posso deixá-los para trás”. Então eu ia à sede do PCP perguntava se ele estava, se me podia receber, levava o desenho, e ele assinava.
Álvaro Cunhal II
Já não lhe sei dizer quantas vezes estive doente. E numa das vezes estive no Hospital Santa Maria, muito mal. O Álvaro Cunhal ligava todos os dias para a minha mulher, Judite. E uma das vezes disse: “Não é preciso dizer nada porque tenho lá gente amiga e sei como é que ele está”.
Amália e o PCP
A Amália dava dinheiro para as famílias dos presos políticos do PCP que estavam em dificuldades, pois os chefes de família estavam presos. Isto é um facto. Sei isso através do meu querido amigo Rogério Paulo, que era quem ia buscar o dinheiro a casa dela. O Rogério gostava de fado, dava-se muito bem com ela e ela sabia que ele era comunista. Ele contou-me isto com a maior naturalidade, não queria que eu soubesse das coisas por outros. Mas só soube depois do 25 de Abril.
PCP
Não se cospe na sopa. Não tenho razões para criticar alguém que tenha sido do PCP e hoje não seja. As pessoas fazem as suas opções, as suas escolhas. Assiste-me é o direito de intimamente ficar triste se a pessoa passa a falar a linguagem oposta. Eu sinto-me à vontade, fiz as campanhas, ia para Aveiro, Fafe, etc. Curiosamente, o tempo mostrou que os mais sectários foram aqueles que mais me dececionaram. Mas não faço qualquer julgamento. Se eu pertencesse ao PCP, diria algo mais, mas digo apenas que me entristece. Pessoas que eram de grande voluntarismo e, afinal…
Fado património
Sabe quanto tempo demorou a preparar a candidatura do fado? Seis anos e meio. Foi de tal ordem e de tal rigor que quando foi apresentada deram-na como exemplo de como se deve apresentar uma candidatura. Foi automaticamente aceite. E isto não parou, continua-se à procura. O Museu do Fado é uma máquina de busca, de interesse, de envolvimento. Ali trabalha-se a sério. Se quiser saber a cor das cuecas do Alfredo Marceneiro, em 1932, sabe.
Os sonhos e o Fim
Está a falar com um homem que, apesar de lhe terem feito muito mal aos sonhos, quer ir para debaixo da terra nem que seja com dois por cento dos sonhos que teve. Vi coisas muito boas e belas na minha vida. Coisas absolutamente superiores.
Não importa sol ou sombra camarotes ou barreiras toureamos ombro a ombro as feras.
Ninguém nos leva ao engano toureamos mano a mano só nos podem causar dano espera.
Entram guizos chocas e capotes e mantilhas pretas entram espadas chifres e derrotes e alguns poetas entram bravos cravos e dichotes porque tudo o mais são tretas.
Entram vacas depois dos forcados que não pegam nada. Soam brados e olés dos nabos que não pagam nada e só ficam os peões de brega cuja profissão não pega.
Com bandarilhas de esperança afugentamos a fera estamos na praça da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça e fazermos da tristeza graça.
Entram velhas doidas e turistas entram excursões entram benefícios e cronistas entram aldrabões entram marialvas e coristas entram galifões de crista.
Entram cavaleiros à garupa do seu heroísmo entra aquela música maluca do passodoblismo entra a aficionada e a caduca mais o snobismo e cismo...
Entram empresários moralistas entram frustrações entram antiquários e fadistas e contradições e entra muito dólar muita gente que dá lucro as milhões. E diz o inteligente que acabaram as canções.
José Carlos Ary dos Santos, As Palavras das Cantigas
(organização, coordenação e notas de Ruben de Carvalho).
A canção tem uma letra que foi claramente entendida em Portugal como uma metáfora em que se comparava a tourada ao decrépito regime ditatorial do Estado Novo, a canção é uma crítica à sociedade portuguesa daquele tempo:
Entram velhas doidas e turistas entram excursões entram benefícios e cronistas entram aldrabões entram marialvas e coristas entram galifões de crista.
Na letra faz-se uma crítica ao snobismo e hipocrisia da sociedade:
Entram cavaleiros à garupa do seu heroísmo entra aquela música maluca do passodoblismo entra a aficionada e a caduca mais o snobismo e cismo...
Critica-se as contradições existentes na sociedade e os lucros de alguns:
Entram empresários moralistas entram frustrações entram antiquários e fadistas e contradições e entra muito dólar muita gente que dá lucro as milhões.
Na letra faz-se uma alusão à chamada Primavera marcelista, uma pretensa mudança efetuada no governo de Marcelo Caetano (mudavam os nomes, por exemplo, censura passou a ter o nome de "exame prévio", mas na prática pouco mudava):
estamos na praça da Primavera.
Não se percebeu como é que a censura vigente na época, não conseguiu entender a mensagem transmitida pela letra que era uma crítica mordaz/sátira ao regime.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tourada_(canção)
A contestação ao Estado Novo e o 25 de Abril foram os momentos mais marcantes no que diz respeito à música de intervenção. Temas como "Grândola Vila Morena", de Zeca Afonso ou a "Tourada" de Fernando Tordo, tornaram-se intemporais e fizeram história.
Canções de resistência ou canções de protesto, consideradas após a revolução de Abril de 1974 como canções de intervenção são constituídas por poemas e músicas de denúncia de um presente de repressão e surgem como luta por um mundo melhor. Sem finalidade comercial, recorrendo, com frequência, à balada , possuem uma mensagem universalista, livre de qualquer constrangimento social.
A canção de intervenção tem um valor pedagógico notável, na forma como alerta o povo para as prepotências existentes, que constrangem o seu dia-a-dia. Não raro, a verdadeira mensagem era "camuflada" nos seus versos para poder passar pelo crivo da censura.
Em 1973, mais uma vez ganhou o Festival RTP da Canção com “Tourada”, uma das letras mais polêmicas entre as que ganharam o grande prêmio em toda a história do Festival. Na verdade, entre as concorrentes deste ano contavam-se quatro canções de autoria de Ary dos Santos.
É preciso abrir aqui um parêntesis na trajetória de Ary dos Santos para comentar-se que embora ele tivesse encontrado vários intérpretes para seus poemas, nenhum deles – nem mesmo Amália Rodrigues – foi tão importante para sua obra como poeta como o foi Carlos do Carmo. Entre as inúmeras colaborações entre os dois destaca-se, sobretudo, “Estrela da Tarde”, uma das mais belas composições de toda a música portuguesa.
Carlos do Carmo define assim Ary dos Santos (Ary dos Santos: O Homem, o poeta, o publicitário: fotobiografia, Alberto Bemfeita, Lisboa, Caminho, 2003. p. 81): “... insubstituível, não me refiro só ao aspeto afetivo, à amizade, refiro-me igualmente ao lado profissional. Tenho a convicção de que, num momento muito particular da nossa história (Abril de 74) – sendo um momento de libertação, tem cicatrizes ainda hoje difíceis de avaliar dada a sua proximidade, e que envolvem inúmeras contradições de sentimentos, ódios, paixões, encantos e desencantos – Zé Carlos fez com que a canção portuguesa simples, a canção do quotidiano, que poderão chamar de ligeira, nunca mais fosse a mesma desde que resolveu escrever para ela. ... Tenho vindo a constatar que algumas das pessoas que escrevem para canções, têm talento, mas estão muito aquém do que ele escrevia.
… Dizia que era poeta e nada percebia de música, mas de facto ele era um músico excelente, pela capacidade que tinha de entender a harmonia das palavras nas canções.” E ainda: “O Zé Carlos e o Fernando Tordo formavam uma dupla perfeita. … Esses casamentos são raros, só acontecem a espaços. Por exemplo, no Brasil houve duplas assim: a do Vinícius de Morais com o Tom Jobim ... O Zé Carlos tinha um outro dom importante. Na Lisboa dele, para além do figurino arquitetónico da cidade, estava sempre associado o elemento humano.
As figuras de Lisboa, que ele sabia descrever espetacularmente, devia-se à sua grande capacidade de observação. Ele era o que nós vulgarmente chamamos de umaesponja. Absorvia tudo o que o cercava.
... Outra das suas facetas por que sempre tive enorme apreço era o lado frontal. A frontalidade com que assumia a sua homossexualidade: sem tabus nem esquemas. Assumida numa época muito difícil, de grandes transformações sociais na vida portuguesa. Foi uma atitude de coragem que o dignifica e que não é para qualquer homem.”