quinta-feira, 31 de maio de 2018

Subsídio para uma lógica social da Eutanásia

“Os avanços do conhecimento nas ciências naturais, sociais e humanas, não se limitou a dar-nos mais anos de vida. Deu-nos também a capacidade de os usufruir física, emocional e racionalmente. Mas, infelizmente, nem sempre estes anos adicionais de vida são acompanhados da qualidade desejada.
O que acontece quando alguém tem a consciência clara de que a perda de auto-estima, de dignidade e de independência, para além do sofrimento físico e psicológico que o esperam, se irão acentuar nas semanas ou meses de vida de que possa ainda vir a usufruir? Se, para uns, a resposta óbvia são os cuidados paliativos, para outros, o desejo e a possibilidade de pôr fim rapidamente a essa situação, é também muito clara. A Democracia permite formas diferentes de olhar e valorizar a vida.”
29-05-2018 – Debate Parlamentar | Morte medicamente assistida
Alexandre Quintanilha, deputado, Físico e antigo Professor do ICBAS.
***
Senhor Professor Alexandre Quintanilha, vou contar-lhe uma história que acabei de inventar.
O Antunes é empregado de mesa num das centenas de restaurantes que abriram recentemente no Porto, financiados com a mão limpa (de luva branca) de fundos de investimento que ninguém conhece, e onde gente fina vai provar iguarias gourmet descongeladas em micro-ondas. Por 50 ou 60 euros saem de lá a arrotar a crisântemos.

Esse Antunes – não o outro – tem um contrato de trabalho com uma empresa de negreiros e ganha 650 euros por mês. Mais gorjeta. Tem 3 filhos, todos em idade escolar. A senhora sua esposa está pelo fundo de desemprego e bebe vinho tinto de pacote.

Certo dia, chegado a casa pelas três da manhã, exausto das doze horas [o patrão só lhe paga oito] que passou a servir alemães, franceses e italianos, o Antunes deu por si deitado na cama, de barriga para o ar, observando cuidadosamente uma grande teia de aranha na parede do quarto, junto ao tecto. Começou, veja lá, a pensar no futuro dos filhos.
Pensou assim:
“Os avanços do conhecimento nas ciências naturais, sociais e humanas, não se limitou a dar-nos mais anos de vida. Deu-nos também a capacidade de os usufruir física, emocional e racionalmente. Mas, infelizmente, nem sempre estes anos adicionais de vida são acompanhados da qualidade desejada. E isto aplica-se, não apenas aos anos adicionais, mas aos outros, aos normais, aos que fazem parte da remuneração base paga em Tempo pelo grande arquitecto disto tudo. Tenho 35 anos, uma licenciatura, e sirvo à mesa. Não sou deputado nem professor universitário. Que qualidade de vida, que futuro, posso oferecer aos meus filhos? Ser criado de turistas estrangeiros? Trabalhar num call center ou numa caixa de supermercado do senhor Azevedo? Fazer inquéritos pelas portas? O que acontece quando alguém tem a consciência clara de que a perda de auto-estima, de dignidade e de independência, para além do sofrimento físico e psicológico que o esperam, se irão acentuar nas semanas, nos meses, ou nos anos de vida de que possa ainda vir a usufruir?”
Em vez de se levantar da cama e produzir uma tragédia, colocando um fim ilusoriamente definitivo à miséria e ao sofrimento que o esperam e que há várias gerações o perseguem – o seu pai foi coveiro e o seu avô paralítico desde os 15 anos, depois de um mergulho mal calculado no rio – o Antunes adormeceu.
Amanhã era outro dia.
https://aventar.eu/2018/05/31/subsidio-para-uma-logica-social-da-eutanasia/

Bruno Vieira Amaral - 50 anos de “O Delfim”:



  1. Primeiro esboço
  2. Primeiro romance, grande prémio
  3. A angústia do escritor no momento do penalty
  4. O nascimento de um livro
  5. O rigor dentro da vertigem
  6. Serafim, Pacheco e Saramago: o outro lado da crítica
  7. O Voo do Delfim
Primeiro esboço
Em Outubro de 1961, José Cardoso Pires, na altura a viver com a família numa pitoresca casa de campo em Belas, trabalhava há vários anos num romance sem chegar a uma versão definitiva que o satisfizesse. Título já existia, pelo menos desde 1959. Numa carta enviada ao intelectual angolano Mário Pinto de Andrade, na altura exilado em Paris, Cardoso Pires garantia-lhe que, assim que o acabasse de rever, lhe faria chegar um exemplar de O Hóspede de Job, o seu muito aguardado primeiro romance. Mas Pinto de Andrade e os restantes leitores ainda teriam de esperar mais quatro anos para que o livro visse a luz do dia.

O livro começara a ser escrito em Março de 1953, pouco antes da morte do irmão mais novo de José Cardoso Pires num acidente de aviação, e a sua publicação, com o título de “Hóspede da Mais Negra Providência”, chegou a ser anunciada para esse ano. Entretanto, oito anos tinham passado. É verdade que, nesse intervalo de tempo, o escritor não esteve inactivo. A novela O Anjo Ancorado tinha saído em 1958, aclamada pela crítica e pelo público. Cardoso Pires tinha dirigido a revista “Almanaque” e, em 1960, com a peça O Render dos Heróis, que seria levada à cena cinco anos depois pelo Teatro Moderno de Lisboa, estreara-se como dramaturgo.

Ainda em 1960, publicou um ensaio que ficaria na história da literatura portuguesa. Cartilha do Marialva, estudo sobre o machismo distintamente lusitano e, acima de tudo, sobre o provincianismo estrutural do país -– permitindo assim ao autor atacar de uma só vez o salazarismo e o provincianismo, que via como indissociáveis -– marcou uma geração, inscreveu o tipo social do marialva no imaginário colectivo e tornou a expressão de uso corrente. A obra recuperou Cavaleiro de Oliveira e D. Luís da Cunha, mas foi da obra do escritor francês Roger Vailland que bebeu a principal influência. Em 1958, Cardoso Pires tinha escrito o prefácio da edição portuguesa de Drôle de Jeu, com tradução de Hélder Macedo, e foi ele a sugerir o engenhoso título de Cabra Cega, sugestão aprovada “entusiasticamente” pelo tradutor. A longa introdução à obra de Vailland serviu de moldura para as teses posteriormente desenvolvidas na Cartilha, publicada, tal como o livro do escritor francês, pela Ulisseia, de Joaquim Figueiredo Magalhães, numa edição de luxo, limitada a 250 exemplares, que valeu ao autor a acusação de ser “um escritor para milionários”.

A recepção positiva ao ensaio e as suas ondas de choque no meio literário não foram suficientes para aliviar a pressão sobre o escritor. Pelo contrário, aumentaram a expectativa quanto ao romance. Era preciso um romance. “O” romance. Então, no mês de Outubro de  1961, ainda sem a versão definitiva d’O Hóspede, e na ressaca dessa aventura irrepetível que tinha sido a “Almanaque”, Cardoso Pires escreveu um esboço de 40 páginas de um outro livro: estava criado o embrião de O Delfim. Mas ainda faltavam sete anos para que o romance chegasse às mãos dos leitores. Cardoso Pires, para quem não ter pressa era a sua maior virtude, era escritor de partos prolongados e árduos.
Primeiro romance, grande prémio
Em Março de 1963, a imprensa anunciava que Cardoso Pires celebrara contrato com a editora Arcádia para publicação de um livro de contos e de um romance, O Hóspede de Job, que teria, em simultâneo, edição italiana. À terceira versão saiu finalmente o tão aguardado romance, livro com laivos neorrealistas e que, num certo sentido, parece menos moderno que O Anjo Ancorado. Mesmo assim, em 1964, foi galardoado com o mais importante prémio literário do país, o Camilo Castelo Branco, da Sociedade Portuguesa de Escritores, que nos anos anteriores havia distinguido autores como José Rodrigues Miguéis, Vergílio Ferreira e Maria Judite de Carvalho. O júri, do qual faziam parte Coimbra Martins, Jacinto Prado Coelho, Óscar Lopes e João Gaspar Simões, tomou a decisão por maioria.

Já com uma sólida reputação no meio literário e reconhecido pelo grande público, Cardoso Pires via consagrada a sua obra e reforçado o seu estatuto de grande estrela mediática daquela geração de escritores, exposição alimentada pelo génio comercial de Figueiredo de Magalhães e que desgostava alguns escritores, como o poeta José Gomes Ferreira, que registou no seu diário:

“Para celebrar a 2ª edição de A Cartilha do Marialva, o homem da publicidade da Ulisseia dependurou na barraca da Feira do Livro uma bela foto do Cardoso Pires a fazer festinhas pensativas no dorso dum gato curvo e familiar… Nostalgia de não haver forma de um tigre caber na fotografia de um escritor português!”

Cardoso Pires não saía das revistas. Em Junho de 1964, a jornalista Edite Soeiro entrevistou-o para a “Eva”, revista destinada ao público feminino e da qual ele tinha sido redactor no final da década de 40, tendo publicado aí um dos seus contos preferidos, “Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros”. Segundo a jornalista, o escritor era “um homem afável, simpático, preciso, respirando coragem viril.” Acima de tudo, não criava barreiras, não falava do alto da sua torre de marfim, embora explicasse o porquê da atitude descontraída com um certo compliquês: “O facto da actividade do escritor exigir dele uma feição extremamente pessoal de interpretar a existência, não justifica certo aparato exótico de que se rodeiam alguns artistas de província. Andar fardado de escritor é tão ridículo como andar fardado de político ou de beatnik”, dizia Cardoso Pires, satisfeito com a sua informalidade.


.Cardoso Pires não era insensível, às críticas, pelo menos não a todas. Quando Histórias de Amor, o seu segundo livro, foi publicado em 1952, para logo depois ser apreendido pela PIDE, o crítico Mário Dionísio, o homem a quem ele levara em 1947 o manuscrito do seu primeiro livro, apontou aquela que era, a seu ver, a lacuna mais evidente na escrita de Cardoso Pires: “O que lhe falta é certamente, e apenas, um contacto mais estreito com os escritores da nossa Europa"

Falava também sobre o ecletismo das suas preferências musicais –- Ella Fitzgerald, Charlie Parker, Gerry Mulligan, Vivaldi, Mozart, Bartók, António Carlos Jobim, Baden Powell –- e sobre os seus hábitos de escrita –- escrevia em casa, com canetas que escrevessem fino por causa da letra miudinha, sempre com tabaco inglês à mão e garrafas de leite que, nas entrevistas, eram trocadas pelos copos de whisky.

Numa reportagem para a “Flama”, também após a atribuição do prémio, o jornalista Ricardo de Saavedra mostrava a intimidade do escritor, que entretanto regressara a Lisboa, para a casa na Rua São João de Brito que seria a sua morada até ao fim: falava da criada que o tinha recebido à porta, das obras de arte na sala, do retrato do escritor feito pelo grande amigo Júlio Pomar, dos desenhos de Portinari e Querubim Lapa, dos livros no escritório, incluindo uma valiosa edição de 1690 dos Sermões de Padre António Vieira e obras que iam desde clássicos como Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto e Cavaleiro de Oliveira aos mestres como Raul Brandão e Aquilino, passando pelos contemporâneos, quer portugueses –- como Carlos de Oliveira e Manuel da Fonseca –- quer estrangeiros, como Durrell, Nabokov, Calvino e Günter Grass.
A angústia do escritor no momento do penalty
No geral, as críticas ao Hóspede de Job foram bastante positivas, embora houvesse alguns reparos mesmo de quem tinha elogiado a obra, como foi o caso de Álvaro Salema, que, numa crítica publicada no “Diário de Lisboa”, dizia não ser possível afirmar “que a expectativa tivesse sido satisfeita: nem esta narrativa vigorosamente realizada, de lances magistrais e desbravadores, é verdadeiramente um romance; nem se apresenta nela a experiência mais actualizada de José Cardoso Pires, na totalidade dos seus recursos de escritor, salvo na depurada e firme construção formal.”

O Hóspede de Job, apesar de todos os méritos, ainda não era o grande romance que o talento inequívoco de Cardoso Pires prometia. Já O Anjo Ancorado tinha sido recebido com uma espécie de euforia reticente, patente na crítica de João Gaspar Simões, um dos primeiros a chamar a atenção para o talento de Cardoso Pires logo em 1949, que continuava à espera da obra que o consagrasse definitivamente “como um dos maiores ficcionistas da sua geração.”

Cardoso Pires não era insensível, às críticas, pelo menos não a todas. Quando Histórias de Amor, o seu segundo livro, foi publicado em 1952, para logo depois ser apreendido pela PIDE, o crítico Mário Dionísio, o homem a quem ele levara em 1947 o manuscrito do seu primeiro livro, apontou aquela que era, a seu ver, a lacuna mais evidente na escrita de Cardoso Pires:

“O que lhe falta é certamente, e apenas, um contacto mais estreito com os escritores da nossa Europa, um convívio mais permanente com os nossos autores portugueses, a convicção de que o figurino americano –- por mais que justamente admiremos os seus escritores e que reconheçamos ter neles aprendido muito, como figurino não nos convém. […] Um escritor com as possibilidades reveladas por Cardoso Pires deve tomar este pedido [desenvolver um gosto tanto quanto possível português, desamericanizar-se], não como uma impertinência, mas como uma tarefa a cumprir, como um objectivo a alcançar, como um dever.”

O certo é que, a partir daí, Cardoso Pires explorou essa via, procurou uma forma de expressão portuguesa, mas que não se confundisse com a retórica do neorrealismo e o que considerava ser o “ruralismo” intrínseco à prosa da generalidade dos escritores de então.

A esse novo estilo, que haveria de desembocar n’O Delfim, Cardoso Pires não chegou sem dificuldades e angústia. A segurança formal patente nos seus livros era feita de persistência, de muito trabalho e rigor, mas também de dúvidas, de hesitações e de insegurança. As personagens, resultado de muitas colagens, de múltiplas fontes, eram construídas ao pormenor. Os lugares físicos tinham direito a uma atenção semelhante, dos nomes aos mapas que ele próprio fazia questão de desenhar.

Vítor Silva Tavares, com quem dirigiu o suplemento & etc. do “Jornal do Fundão” e depois o suplemento literário do “Diário de Lisboa”, contou que raramente falavam sobre os seus livros, mas que, certa vez, ao visitá-lo, reparou numa espécie de organigrama com cores pendurado na parede do escritório. Era o esquema para O Delfim: “O esquema marcava os vários tempos que se vão entrecruzar, os vários personagens, os pontos de não sei quê. Estivemos a falar ao fim e ao cabo de geometria.” Geometria, matemática, jogos de certezas para exorcizar o grande temor de Cardoso Pires, o de publicar um livro fraco.

Após anos de dolorosa gestação, o romance de Cardoso Pires foi apresentado numa cerimónia mundana e espaventosa, em tudo oposta ao regime monástico, de silêncio, solidão e sofrimento, em que o livro tinha sido composto.

Em Agosto de 1967, José Gomes Ferreira encontrou-o no café Bocage. O poeta de cabeleira épica disse-lhe que estava toda a gente à espera d’O Delfim. A beber um conhaque, um Cardoso Pires acabrunhado confessou-lhe que não queria “reaparecer com um livro fraco.” Já tinha feito quatro versões, mas ainda sentia que era preciso reescrevê-lo. Até as mudanças físicas eram notórias, e não só por causa da barba que Cardoso Pires entretanto deixara crescer. A escritora e amiga Maria Teresa Horta, numa entrevista que lhe fez para o jornal “A Capital”, semanas antes da publicação d’O Delfim, falava na “cicatriz do cansaço”, num “certo desencanto, uma certa tristeza que não lhe conhecia antes.” Era a factura física do talento, do perfeccionismo e da insegurança.
O nascimento de um livro
“Na madrugada de 12 de Maio de 1966, Tomás Manuel da Palma Bravo, engenheiro sivicultor [sic], ao regressar a casa encontra a mulher afogada na lagoa da sua propriedade… O fulcro do novo romance de José Cardoso Pires é este. Ele põe-nos em presença de um tema inesperado e de um novo herói que, entregue aos seus demónios interiores, procura fugir ao tempo cavalgando um potente “Jaguar”. Romance há anos aguardado, O Delfim ultrapassa os convencionais limites da narração e surpreende pelas propostas da nova lógica narrativa que contém”, rezava o anúncio da Moraes Editores publicado em vários órgãos de imprensa, num esforço para transformar o livro num sucesso editorial e que passou também por um lançamento de grande escala, um verdadeiro happening para os padrões da Lisboa de então.

Após anos de dolorosa gestação, o romance de Cardoso Pires foi apresentado numa cerimónia mundana e espaventosa, em tudo oposta ao regime monástico, de silêncio, solidão e sofrimento, em que o livro tinha sido composto. Publicado agora pela editora de Alçada Baptista e Pedro Tamen, e onde também tinha responsabilidades editoriais, Cardoso Pires continuava com a lição de Figueiredo de Magalhães bem presente: os livros são para se vender. Eram obras de arte durante o processo de escrita e, a partir daí, produtos comerciais.

Nas notícias sobre a festa de lançamento não havia nenhuma sugestão do caminho árduo percorrido pelo autor para chegar até ali. Era tudo glamour. Convidados, foram mais de uma centena, entre os quais os companheiros de escrita Alexandre O’Neill, Carlos de Oliveira, Maria Teresa Horta e Alves Redol (sem a icónica boina), os jornalistas Afonso Praça, Edite Soeiro, Baptista-Bastos e Maria João Avillez, os pintores João Abel Manta e Sá Nogueira, os homens da rádio Luís Filipe Costa e João Mendes Martins, o banqueiro Cupertino de Miranda, o grande cronista brasileiro Otto Lara Resende, na altura adido cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa, o músico José Cid e os actores Raul Solnado, Fernando Gusmão, Carmen Dolores e Rui (ainda não era Ruy) de Carvalho, estes três últimos que tinham levado à cena a peça O Render Dos Heróis três anos antes.

Houve vinho tinto e pastéis de bacalhau para todos. Alçada Baptista saudou os convidados e anunciou a publicação exclusiva das obras de Cardoso Pires que se iniciava com O Delfim. Só que a Moraes, onde o director enterrou uma fortuna, não teria uma vida longa. Fernando Gusmão e Rui de Carvalho leram trechos do romance. Este confessou que não o tinha lido todo e que, por isso, não conseguira “integrar-se no espírito da obra.” A leitura angustiou o actor e, também, o autor, que, ainda assim, conseguiu retirar daí algo positivo. Afinal, a dificuldade na leitura significava uma ruptura com o estilo anterior, o anúncio de uma nova fase, a reinvenção da sua prosa: “Fiquei com a convicção de que é uma prosa estritamente literária e que quando os críticos dizem que tenho uma prosa com muita oratoridade [sic] se verifica neste livro não ser assim. Repare que é muito difícil ler isto. Há toques de humor muito subtis que estão mais no clima da prosa do que propriamente na sua expressão oral”, disse ao “Diário de Lisboa”.

O processo de desamericanização da sua escrita, nos temas e no estilo, estava completo. Os diálogos ágeis e as pinceladas bruscas que davam uma impressão de urgência e vivacidade aos contos dos seus dois primeiros livros e, em certa medida, ao Anjo Ancorado e ao Hóspede, eram aqui substituídos pelas descrições atmosféricas, divagações eruditas, jogos meta-literários e, pela primeira vez, pela narração na primeira pessoa. Maria Teresa Horta questionou o autor sobre as possíveis consequências de uma mudança tão evidente. Não tinha ele medo de chocar os leitores com “um estilo tão inesperado”? Foi a oportunidade para expressar uma ideia antiga e que haveria de repetir muitas vezes, em várias entrevistas –- quem corre atrás dos leitores acaba a levar pedradas:

“A verdade é que quem corre atrás do público nunca se encontra com ele. Não sei se estás de acordo, mas um livro é a trajectória de uma voz pessoal, uma trajectória que vem de outro lado qualquer que não é o do leitor mas que se choca com a dele. Para ser livro tem de contar com a experiência do leitor e com a capacidade que ele também tem de criar lendo. E isto só se consegue se houver personalidade de parte a parte, troca empenhada. Um debate, em certa medida.”

Os leitores aceitaram o repto para o debate: durante quinze semanas, O Delfim ocupou o top de vendas, tornando-se no maior sucesso editorial daquele ano.
O rigor dentro da vertigem
A resposta da crítica e do público não se deveu apenas à máquina de promoção editorial e à notoriedade do autor. O Delfim era o culminar dessa trajectória que se vinha a consolidar desde O Anjo Ancorado. Mário Dionísio, melhor do que ninguém, estava capacitado para a avaliar. A 3 de Julho de 1968, publicou uma extensa recensão n’”A Capital”, onde enumerou os aspectos de continuidade e de novidade do romance no contexto da obra de JCP: libertação total das influências que tinham ameaçado asfixiar os seus primeiros livros (“o ter-se libertado totalmente de certas influências estranhas, nomeadamente americanas, que inicialmente embaraçavam o encontro da sua voz autêntica”); a exploração das construções meta-literárias, que já vinham das notas de rodapé a O Anjo Ancorado (notas que tanto irritaram Gaspar Simões), mas que aqui assumiam uma dimensão completamente nova com a “simulação da realidade” nos livros tão bem inventados que dir-se-iam verdadeiros; a filiação definitiva numa tradição que vinha de Camilo, passava por Aquilino e também alcançava contemporâneos como Carlos de Oliveira (o lado lúdico das notas de rodapé era de Camilo que vinha.

As influências de Cardoso Pires não eram tanto as literárias, como as musicais e as cinematográficas. Numa entrevista vinte anos depois da publicação d’O Delfim, ao “Semanário”, Cardoso Pires diria que o que o interessava mais no cinema era a montagem.

Em Sobre o Lado Esquerdo, de Carlos de Oliveira, Cardoso Pires detectou uma “afinidade inesperada”. A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, era um modelo para O Delfim e para a linhagem dos Palma Bravo, como notou Natália Nunes, num ensaio de Abril de 1970: “A obra de Aquilino que provavelmente mais teria influenciado Cardoso Pires, que teria sido para este como que uma ordinatrix, julgo ser A Casa Grande Romarigães. Desconfio até que o Abade Agostinho Saraiva, autor da ‘Monografia do Termo Gafeira’ pode corresponder a uma transposição da pessoa de escritor do próprio Aquilino Ribeiro, que este seria, na visão crítica de Cardoso Pires, o ‘zelador de antiquitates lusitanae, instalado na sua prosa cuidada’”); e os cortes no plano narrativo (“outra novidade há, e decisiva, que consiste na substituição do estilo sobretudo linear de narração pela adesão a modernos processos de corte, retrocesso, saltos no tempo e no espaço (transição do capítulo III para o IV) assimilados tão de dentro  que, em muitos casos, o leitor menos atento talvez não dê por eles.”)

Neste último aspecto, as influências de Cardoso Pires não eram tanto as literárias, como as musicais e as cinematográficas. Numa entrevista vinte anos depois da publicação d’O Delfim, ao “Semanário”, Cardoso Pires diria que o que o interessava mais no cinema era a montagem. Em várias ocasiões referiu a influência dos filmes de Antonioni, do “Chelsea Girls”, de Warhol, e do filme de Alain Resnais, “O Último Ano em Marienbad”, cujo argumento era do Papa do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, o que poderá explicar a associação de Cardoso Pires por alguns críticos a esse movimento, visto que nenhuma outra característica justifica.

Porém, a maior influência viria da música. Era com recurso à música que explicava a inflexão estílistica. A concepção do tempo impunha “o recorte da prosa, o andamento, como na música. Forma e ritmo, isto é, marcação de tempo, são duas condições determinantes inseparáveis. […] Ornette Coleman e o free jazz são um exemplo cimeiro, a lição de uma das maneiras de criar. Tocar ad libitum… Escrever ad libitum, ou seja, sem tempo marcado. Quando ouço isto penso na maravilha que é o rigor dentro da vertigem”, disse na entrevista a Maria Teresa Horta.

Quanto à continuidade, Mário Dionísio, como outros críticos da época, sublinhou que O Delfim era uma espécie de prolongamento da Cartilha por meios ficcionais, sob a égide de Roger Vailland: “A crítica do marialva e da sociedade que o produz e alimenta continua, agora de dentro, no plano da criação.”

Mas também encontrava indícios d’O Delfim em O Anjo Ancorado. Para ele, o narrador de O Delfim era o protagonista de O Anjo Ancorado, dez anos depois. Prova evidente da ligação entre os dois livros é a frase que surge logo no início do Anjo para caracterizar João, o protagonista: “Este ar de terra-a-terra é fácil de perceber-se nalguns infantes da lavoura que gastam a maior parte da vida nas grandes capitais. Nesses, as falas provincianas e o tom com que se dirigem aos criados são coisas cultivadas, uma espécie de marca de estirpe para os diferenciar do resto dos mortais que não têm terras nem passado para lá da cidade.” A descrição assentaria que nem uma luva ao engenheiro, o delfim, Tomás da Palma Bravo.

No “Jornal de Notícias”, Serafim Ferreira também notava que O Delfim era o regresso, “por outro caminho (ou talvez pelo mesmo)”, ao tema do Anjo Ancorado, o que nos parece ser apenas válido para aquela descrição visto que o tema da novela –- um olhar de relance sobre a chamada geração de 45, geração que, com o fim da guerra, esperava o fim da ditadura, mas que, perante o reforço da repressão e a manutenção do estado de coisas, se refugiou num diletantismo moral, se acomodou ao conforto permitido pela classe a que pertencia e, desde então, viveu umas tréguas amargas e inofensivas com o regime –- não é o mesmo de O Delfim, ainda que sobre ambos os livros pairem o odor pútrido de uma sociedade pantanosa e os miasmas da estagnação, numa fase incipiente em O Anjo Ancorado, com o seu quê de revolta e de impaciência, e numa fase já de podridão absoluta – a “agonia de um Portugal tradicionalista” –, n’O Delfim. Foi como se Cardoso Pires, após ter constatado o fracasso da geração de 45 (a sua geração, note-se) e de o ter examinado, tivesse preferido o estudo da sociedade, do mundo e do tempo que o produziram e que permaneciam em vigor, mas já não vigorosos. Houve quem dissesse que, nesse processo de aproximação, o próprio Cardoso Pires –- o escritor burguês malgré lui –- se enamorara do marialvismo.
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Serafim, Pacheco e Saramago: o outro lado da crítica
A recepção crítica ao Delfim foi bastante entusiástica. Óscar Lopes afirmou que nenhum ficcionista português contemporâneo escrevia melhor que Cardoso Pires. Ainda mais hiperbólico, Alexandre Pinheiro Torres disse que o livro talvez condensasse “tudo o que de positivo a nossa ficção inventou desde que existe”. O próprio Mário Dionísio, apesar de algumas cautelas, arriscou o veredicto após uma segunda leitura: obra-prima.

Para alguns, estes entusiasmos eram fruto de alguma turvação do raciocínio ou do mais cristalino amiguismo. Foi o caso de Serafim Ferreira que, no “Jornal de Notícias”, não criticou apenas os outros críticos, mas também lançou farpas à máquina que promovera o “lançamento editorial inteligente, bem comandado”. Para o crítico, que fazia parte de uma facção lusa de cultores do nouveau roman, não estava em causa a qualidade da escrita de Cardoso Pires, “que em muitos aspectos nos agrada e satisfaz”, mas o que lhe parecia ser um pastiche sofrível de autores, esses sim, verdadeiramente originais, como Laclos, Hemingway e o bom Vailland, “disfarçad[o] numa couraça de extracção nacional, portuguesa, pseudo-erudita, que se fundamenta numa falsa monografia da Gafeira”.

O Delfim ainda não era “o” romance e, para Serafim, nem se poderia esperar que Cardoso Pires o viesse a escrever algum dia: “Escritor fragmentado, que com dificuldade encadeia os capítulos uns nos outros, Cardoso Pires não conseguiu, quanto a nós, estruturar ainda um verdadeiro romance; existem páginas e páginas onde apenas se vislumbra um discorrer desnecessário à natural narração da história, enchem-se páginas e páginas com descrições que não importam, que somente perturbam o fio narrativo do livro, como se isso fosse mero propósito do autor.” Não havia recurso possível para a sentença: Cardoso Pires estava “longe de ser um “grande” escritor, mesmo à nossa escala portuguesa.”

Embora tivesse estabelecido uma certa reputação como crítico, o seu nome era absolutamente secundário no panorama literário em Portugal. Talvez por isso, José Saramago –- assim se chamava o crítico -– desferiu um violento ataque ao livro de Cardoso Pires e à posição deste enquanto intelectual comprometido, pondo em causa a sinceridade das suas propaladas convicções.

Serafim Ferreira não foi o único a embirrar com as lateralizações “desnecessárias” do Delfim. Gaspar Simões, como se disse, já tinha desgostado das notas de rodapé do Anjo por cortarem a magia da leitura de ficção, por atrapalharem a naturalidade narrativa a que aludia o crítico do JN. Também Fernando Namora, em carta datada de 4 de Julho de 1968 enviada a Cardoso Pires, louvava a depuração, a segurança, o rigor e a modernidade, mas apresentava uma objecção:


“Algumas vezes, senti (como explicar?) que o ritmo era prejudicado por certas especulações marginais, que, apesar de prenderem sempre pela sua agudeza e interesse, nos conduzem a um confronto com o escritor ágil de livros anteriores”.

Mas houve duas críticas em particular que, por razões diferentes, entraram para a história. Em Outubro de 1968, no número 1476 da “Seara Nova”, saiu uma recensão assinada por um crítico que publicara o seu único romance havia mais de vinte anos, trabalhava na Editora Estúdios Cor e fazia traduções. Naquela altura, destacava-se em Lisboa pela boina à Che Guevara, a bolsa à tiracolo e pela relação que mantinha com a escritora e colunista Isabel da Nóbrega, ex-mulher do crítico João Gaspar Simões. Embora tivesse estabelecido uma certa reputação como crítico, o seu nome era absolutamente secundário no panorama literário em Portugal. Talvez por isso, José Saramago –- assim se chamava o crítico -– desferiu um violento ataque ao livro de Cardoso Pires e à posição deste enquanto intelectual comprometido, pondo em causa a sinceridade das suas propaladas convicções.

Saramago acusava Cardoso Pires de uma certa ambiguidade moral, de não condenar abertamente o marialvismo, representado no livro pelo Engenheiro Tomás Palma Bravo: “Intromete-se constantemente (pelo menos assim nos parece) uma certa tinta de simpatia, um odor de saudade dos bons tempos antigos, como se em Cardoso Pires lutassem, qual de baixo, qual de cima, a sua opção de intelectual e a sua íntima natureza, numa complicada relação de amor-ódio, responsável pela ambiguidade patente na sua obra.”

Anos depois, quando já ocupava o trono da literatura portuguesa, o futuro Nobel penitenciou-se: “Apesar da minha inexperiência, e tanto quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre O Delfim do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…” Cherchez la femme, diriam alguns que acompanharam o caso de perto.

No entanto, ainda mais contundente que a crítica de Saramago foi a que Luiz Pacheco, amigo de Cardoso Pires dos tempos de liceu, no Camões, publicou no jornal “Notícias”, de Luanda, a 4 de Janeiro de 1969. Os dois tinham-se iniciado quase ao mesmo tempo nas lides literárias, em jornais e numa revista do Instituto Francês, a “Afinidades”, onde faziam crítica e onde Cardoso Pires publicou, em 1946, um dos seus primeiros contos, “A Esta Hora”, que não voltou a ser editado. Pacheco deu explicações aos irmãos mais novos de Cardoso Pires e, segundo contou muitos anos depois, até teria estado noivo da irmã do escritor, Maria de Lurdes. Com o tempo, afastaram-se. Pacheco tornou-se paulatinamente no maldito oficial enquanto Cardoso Pires, sempre profissional, ascendia ao cargo oficioso de “integrado marginal”, como o próprio se definia. Apesar disso, mantiveram algum contacto, geralmente quando Pacheco precisava de dinheiro. Por todas estas razões, Cardoso Pires terá ficado desgostoso, embora não propriamente surpreendido, ao ler a crítica.

Desde a primeira linha, Pacheco deu-lhe um tom chocarreiro e maldoso, condição de maldito oblige, mas não gratuito. Tal como Saramago e Serafim Ferreira, Luiz Pacheco censurava Cardoso Pires por poupar o protagonista ao seu látego moral. Se não havia chicotadas é porque havia enlevo:

“Com efeito, a figura do Engenheiro (o marialva típico) nunca resulta caricata. É aquela que mais se aproxima do leitor, que mais cuidados parece ter merecido a Cardoso Pires. Diríamos, aqui e ali, que o autor (sem bem a consciência disso) se identifica com ela… pelo menos no-la consegue transmitir com um sopro, um calor de humanidade que as outras (pobres títeres!) estão longe de possuir.” [trailer do filme “O Delfim”, de Fernando Lopes:]

E, ao contrário de outros críticos que sublinharam a continuidade e a coerência d’O Delfim no contexto da sua produção mais recente, na opinião do autor de Comunidade o facto de o livro ser a corporização romanesca das teses da Cartilha não merecia elogios. Pelo contrário, fazia daquele um romance programático porque dependia do quadro ideológico de uma referência exterior, neste caso, de um livro do mesmo autor. Além disso, Pacheco não tinha em grande conta, para usar um eufemismo, o Cardoso Pires ensaísta. Para justificar a sua opinião, aduzia como prova a Cartilha, as colaborações esporádicas com a revista “Vértice” e um malfadado prefácio a Histórias de Amor, omanimente criticado, unanimidade a que nem escapou o próprio autor que, mais tarde, confessou que as palavras não lhe tinham chegado para tantas ideias. De facto, o prefácio era extraordinariamente confuso e até retirava força aos contos do volume, alguns entre o que de melhor Cardoso Pires escreveu. Por essa razão o editor Nelson de Matos não o incluiu numa edição do livro publicada em 2008.
O Voo do Delfim
Algumas destas críticas foram rebatidas por Natália Nunes, quer numa recensão de Abril de 1969, intitulada “O Delfim: uma personagem marialva?”, quer no já referido ensaio de 1970, “Delfim e Serafim.” No entanto, o romance já voava sozinho, muito para lá do alcance das críticas paroquiais. Em Janeiro de 1970, o “Times Literary Supplement” dedicava um quarto de página ao livro, antes sequer de haver tradução inglesa. Era a primeira vez que a publicação destacava um autor português vivo, como noticiaram com orgulho pátrio alguns periódicos da época.

Nesse ano, o livro foi traduzido em Espanha, numa edição da Seix-Barral, e em França, na Gallimard, com tradução de Robert Quemserat, tendo sido considerado um dos livros do ano. Em 1971, foi lançado no Brasil, pela Editora Civilização Brasileira, e obteve um sucesso assinalável junto da crítica e do público, para o que contribuiu a presença do escritor nos lançamentos no Rio e em São Paulo, como se lia numa coluna social no “Correio da Manhã”:
“Há quem tenha ido ontem ao lançamento de O Delfim, porque estava interessado no livro, mas há quem tenha ido também porque estava muito interessado no charme de José Cardoso Pires, escritor.”

Nessa altura, o escritor também já tinha voado. Logo em 1969, tinha partido para Londres, para leccionar Literatura Portuguesa no King’s College. A 18 de Maio de 1971, deu uma conferência sobre o processo de escrita de O Delfim, que originou um ensaio posteriormente incluído no livro E Agora, José? Cardoso Pires também escreveu um guião para uma produção cinematográfica que não avançou. O Delfim só chegaria ao grande ecrã em 2002, já após a morte de Cardoso Pires, num filme do amigo Fernando Lopes, com argumento de Vasco Pulido Valente.

Hoje, cinquenta anos após a publicação, o livro, esse, continua a pairar sobre nós, menos  esquecido do que alguns pensam, como retrato lúcido do estertor de uma sociedade com sonhos apodrecidos de um lado e privilégios moribundos do outro.

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Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor de “As Primeiras Coisas”, vencedor do prémio José Saramago em 2015, e de “Hoje estarás comigo no paraíso”

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O PCP e a eutanásia

INTERVENÇÃO DE ANTÓNIO FILIPE NA ASSEMBLEIA DE REPÚBLICA

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O debate para que hoje somos convocados nesta Assembleia não se resume a um dilema da consciência individual de cada um perante as circunstâncias da sua própria morte. Não. O que hoje aqui está em discussão é uma opção de política legislativa do Estado, de extrema complexidade e com profundas implicações sociais.
A opção legislativa sobre a eutanásia não pode ser apresentada como uma matéria de opção ou reserva individual, assente na autonomia da vontade que é reconhecida a cada indivíduo.
O princípio constitucional da inviolabilidade da vida humana implica, sejam quais forem as circunstâncias, um dever do Estado e da sociedade para com a defesa da vida e da dignidade da pessoa humana.
O que aqui somos chamados a discutir são as circunstâncias em que o legislador deve reconhecer aos cidadãos o direito a requerer a antecipação do fim da sua vida, que procedimentos devem ser adoptados para que o Estado deva deferir ou indeferir esse requerimento e qual será o modo da sua execução em caso de deferimento.
Ninguém vive nem morre sozinho. As situações que possam levar um cidadão a pedir a antecipação da sua própria morte são inseparáveis das condições em que lhe é dado viver os últimos tempos de vida. Que alguém pretenda antecipar o fim da sua vida porque não tem garantidos os cuidados necessários para um fim de vida sem sofrimento, ou porque lhe são recusados os meios materiais para que tenha um final de vida em condições de dignidade, ou porque não lhe é garantido o necessário apoio na falta de apoio familiar, só merece compreensão, solidariedade e apoio para que tenha uma verdadeira alternativa.
Mas que o mesmo Estado que não garante aos seus cidadãos as condições para um fim de vida digno, lhes garanta condições para pôr termo à vida em nome da dignidade, isso sim, é, para o PCP, inaceitável.
O PCP recusa por isso a ideia de que este seja um debate sobre a dignidade da vida ou da morte. A dignidade da vida não se assegura com a consagração legal do direito à antecipação da morte.
A vida humana não é digna apenas enquanto pode ser vivida no uso pleno das capacidades e faculdades físicas e mentais e a sociedade deve assegurar condições para uma vida digna em todas as fases do percurso humano. O PCP recusa por isso a ideia de que uma pessoa “com lesão definitiva ou doença incurável” ou “em sofrimento extremo” seja afectada por tal circunstância na dignidade da sua vida.
Não há nesta posição do PCP qualquer insensibilidade perante o sofrimento humano.
O PCP continuará a lutar para a concretização, no plano político e legislativo, de medidas que respondam às necessidades plenas dos utentes do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente no reforço de investimento sério nos cuidados paliativos, incluindo domiciliários; na garantia do direito de cada um a recusar submeter-se a determinados tratamentos; na garantia de a prática médica não prolongar artificialmente a vida; no desenvolvimento, aperfeiçoamento e direito de acesso de todos à utilização dos recursos que a ciência pode disponibilizar, de forma a garantir a cada um, até ao limite da vida, a dignidade devida a cada ser humano.
A oposição do PCP à eutanásia radica na ideia de que o dever indeclinável do Estado é mobilizar os avanços técnicos e científicos para assegurar o aumento da esperança de vida e não para a encurtar.
A ciência já hoje dispõe de recursos que, se utilizados e acessíveis, permitem diminuir ou eliminar o sofrimento físico e psicológico. Cada cidadão dispõe já hoje de instrumentos jurídicos como o “testamento vital” para fazer valer a sua decisão individual quanto a atos clínicos que pretenda, ou não, receber. A prática médica garante o não prolongamento artificial da vida, respeitando a morte como processo natural e recusando o seu protelamento através da obstinação terapêutica.
Perante os problemas do sofrimento humano, da doença, da deficiência ou da incapacidade, a solução não é a de desresponsabilizar a sociedade promovendo a morte antecipada das pessoas nessas circunstâncias, mas sim a do progresso social no sentido de assegurar condições para uma vida digna, mobilizando todos os meios e capacidades sociais, a ciência e a tecnologia para debelar o sofrimento e a doença e assegurar a inclusão social e o apoio familiar.
O que se impõe é que o avanço e progresso civilizacionais e o aumento da esperança de vida decorrente da evolução científica sejam convocados para garantir uma vida com condições materiais dignas em todas as suas fases.
Dirão os proponentes das iniciativas em debate, que a possibilidade da morte antecipada que propõem em nada obsta ao investimento em cuidados paliativos. Mas o que ninguém poderá negar, se as iniciativas forem aprovadas, é que o mesmo Estado que não garante condições para eliminar o sofrimento em vida passa a garantir condições para o eliminar pela morte.
O projecto de sociedade que o PCP defende baseia-se numa concepção profundamente humanista, que não desiste da vida, que luta por condições de vida dignas para todos e que exige políticas que as assegurem desde logo pelas condições materiais necessárias na vida, no trabalho e na sociedade.
Ao contrário do que aconteceu em 1998 e em 2007 com a luta pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez, a despenalização da eutanásia não viria resolver nenhum dos graves problemas sociais que afectam a sociedade portuguesa.
No caso da IVG, havia mulheres condenadas por ter abortado. Havia julgamentos em curso e humilhações públicas. Havia milhares de mulheres que punham a vida em risco por ter de recorrer ao aborto clandestino. Havia um flagelo social que era preciso resolver e o PCP lutou para que a Assembleia da República assumisse a responsabilidade de legislar sem estar dependente da incerteza de consultas referendárias, sempre em defesa da vida e da dignidade das mulheres.
Nada parecido com isso está agora em causa. A morte antecipada nem sequer constava dos programas eleitorais apresentados em 2015, e ao invés, o que constitui um grave problema social que deve ser resolvido, é o da capacitação do SNS para dar resposta às necessidades de cuidados de saúde da população, incluindo ao nível dos cuidados paliativos, e o da criação de condições de apoio social que garantam condições de vida dignas a todos os cidadãos. Essa sim, deve ser a principal preocupação do legislador.
Os projectos que hoje aqui foram apresentados, assumem como preocupação, rodear a decisão sobre a morte antecipada de diversas cautelas processuais, de modo a evitar a acusação de que a legislação proposta poderia dar lugar a uma “rampa deslizante”, em que a eutanásia seria aplicada a casos não expressamente previstos pelo legislador.
Acreditamos que a intenção dos proponentes seja a de evitar essa “rampa deslizante”, mas isso não nos permite ignorar que nos poucos países europeus onde a eutanásia é permitida, e que são a excepção e não a regra, essa “rampa deslizante” é um facto indesmentível, e não se compadece com cautelas impostas pelo legislador.
Na Holanda, onde as cautelas da lei são muitas - o doente devia estar consciente, num sofrimento insuportável e sem perspetivas ou esperanças de melhoras – a eutanásia já representava, em 2016, 4% dos óbitos do país (6091 casos, incluindo 32 pessoas com demências e 60 pessoas com problemas psiquiátricos) e passou a ser aplicada também a doentes inconscientes desde que um médico considere que estão em sofrimento extremo. Na Suiça, pelo simples facto de na legislação o incitamento e assistência ao suicídio só ser punido se for motivado por “motivos egoístas”, instalou-se um verdadeiro negócio internacional da morte antecipada, de intenções supostamente benévolas e de tipo associativo, através de instituições designadas “dignitas” e “exit” que a troco de elevadas quantias se encarregam de ajudar ao suicídio. Os critérios são supostamente rigorosos: o doente tem de ter discernimento e manifestar a sua vontade consciente e livremente, o seu pedido tem de ser sério e reiterado, a sua doença tem de se revelar incurável, o sofrimento físico ou psíquico que o atinja tem de ser intolerável e o prognóstico do desfecho da doença tem de ser a morte ou, pelo menos, uma incapacidade grave. Tudo parece muito rigoroso, mas a natureza do capitalismo encarrega-se de tornar tudo muito mais fácil.
Poder-se-á dizer que nenhum dos textos hoje aqui apresentados permitiria supor que em Portugal acontecessem situações como essas. Mas a legislação da Suiça ou da Holanda também não. O legislador limitou-se a abrir cautelosamente a porta. Alguém mais se encarregou de a arrombar.
Não se trata, da nossa parte, de instaurar processos de intenções quanto aos resultados a que conduziria a aprovação da legislação que nos é proposta.
Trata-se apenas de não ter a ingenuidade de pensar que soluções legislativas iguais possam produzir inevitavelmente resultados diferentes.
Para o PCP, a eutanásia não é um sinal de progresso mas um passo no sentido do retrocesso civilizacional, com profundas implicações sociais, comportamentais e éticas.
Num quadro em que o valor da vida humana surge relativizado com frequência em função de critérios de utilidade social, de interesses económicos, de responsabilidades e encargos familiares ou de gastos públicos, a legalização da morte antecipada acrescentaria uma nova dimensão de problemas que não é possível ignorar.
Desde logo, introduziria um relevante problema social resultante da pressão do encaminhamento para a morte antecipada de todos aqueles a quem a sociedade recusa a resposta e o apoio numa situação de especial fragilidade ou necessidade.
O PCP decidiu votar contra todos os projectos que visem a legalização da eutanásia.
Não se trata de uma decisão tomada de ânimo leve. Respeitamos opiniões diversas baseadas em situações e sentimentos de particular sensibilidade.
Não ignoramos incompreensões e diferenças de opinião de pessoas que muito respeitamos e com que continuamos a contar nas muitas lutas que travamos todos os dias pela dignidade da pessoa humana e pela efectivação dos direitos fundamentais do nosso povo.

Mas a decisão do PCP é assumida com a convicção de traduzir um projecto político de transformação e progresso social e uma concepção humanista da vida.
A posição do PCP de recusa da eutanásia não radica em considerações morais ou religiosas. Radica na consideração de que o que deve prevalecer nas opções do legislador é o valor intrínseco da vida e não a valoração da vida humana em função da sua utilidade, de interesses económicos, ou de discutíveis padrões de dignidade social.
É a posição de quem identifica na acção do ser humano e na sua intervenção social o elemento transformador da realidade social e o elemento decisivo para os avanços científicos e tecnológicos que permitiram ao longo da história prolongar a esperança de vida e melhorar os indicadores de saúde e que, no sentido do progresso social, hão-de permitir debelar o sofrimento e a doença e assegurar condições de vida dignas a todos os cidadãos, em todas as fases da vida.
Disse.

http://www.pcp.pt/dignidade-da-vida-nao-se-assegura-com-consagracao-legal-do-direito-antecipacao-da-morte