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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Jonathan Cook - Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre


US President Donald Trump and Ukraine's President Volodymyr Zelensky meet in the Oval Office of the White House in Washington, DC on 28 February, 2025 (AFP)

 

Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre
por Jonathan Cook, MEE.

Se há uma coisa pela qual podemos agradecer ao Presidente dos EUA, Donald Trump, é esta: ele eliminou de forma decisiva a noção ridícula, há muito cultivada pelos media ocidentais, de que os EUA são um bom polícia global que impõe uma "ordem baseada em regras". Washington é melhor entendido como o chefe de um império de gangsters, com 800 bases militares em todo o mundo. Desde o fim da Guerra Fria, tem procurado agressivamente o "domínio global de espetro total", como define a doutrina do Pentágono educadamente.

Ou se presta fidelidade ao Don ou se é atirado ao rio. Na sexta-feira passada [28fev2025], o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky foi presenteado com um par de botas de betão de marca na Casa Branca. A novidade foi que tudo aconteceu em frente ao corpo de imprensa ocidental, na Sala Oval, e não numa sala das traseiras, fora das vistas. Foi ótimo para a televisão, disse Trump.

Os especialistas apressaram-se a tranquilizar-nos, dizendo que a cena de gritos foi uma espécie de número estranho de Trump. Como se a inospitalidade para com os líderes de Estado e o desrespeito para com os países que lideram fossem exclusivos desta administração. Veja-se apenas o exemplo do Iraque. A administração de Bill Clinton achou que "valia a pena" - como disse a sua secretária de Estado, Madeleine Albright, de forma infame - matar cerca de meio milhão de crianças iraquianas, impondo sanções draconianas durante a década de 1990. Sob o comando do sucessor de Clinton, George W Bush, os EUA desencadearam uma guerra ilegal em 2003, com base em argumentos totalmente falsos, que matou cerca de meio milhão de iraquianos, de acordo com as estimativas pós-guerra, e deixou quatro milhões de desalojados.

Aqueles que se preocupam com o facto de a Casa Branca humilhar publicamente Zelensky talvez devessem guardar a sua preocupação para as centenas de milhar de homens, na sua maioria ucranianos e russos, mortos ou feridos numa guerra totalmente desnecessária - uma guerra que, como veremos, Washington planeou cuidadosamente através da NATO nas duas décadas anteriores.

Capanga Zelensky

Todas essas baixas serviram o mesmo objetivo que no Iraque: lembrar ao mundo quem é que manda. Só que o público ocidental não compreende isto porque vive dentro de uma bolha de desinformação, criada para ele pelos media ocidentais.

Henry Kissinger, o antigo diretor da política externa dos EUA, afirmou: "Pode ser perigoso ser inimigo da América, mas ser amigo da América é fatal." Zelensky acabou de descobrir isso da maneira mais difícil. Os impérios de gangsters são tão inconstantes como os gangsters que conhecemos dos filmes de Hollywood. Durante a anterior administração de Joe Biden, Zelensky tinha sido recrutado como um capanga para fazer as vontades de Washington à porta de Moscovo. O pano de fundo - aquele que os media ocidentais mantiveram em grande parte fora de vista - é que, após o colapso da União Soviética, os EUA rasgaram tratados cruciais para tranquilizar a Rússia quanto às boas intenções da NATO. Do ponto de vista de Moscovo, e tendo em conta o historial de Washington, o guarda-chuva de segurança europeu da NATO deve ter parecido mais uma preparação para uma emboscada.

Embora Trump esteja agora empenhado em reescrever a história e apresentar-se como pacificador, ele foi fundamental para a escalada de tensões que levou à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Em 2019, ele retirou-se unilateralmente do Tratado de 1987 sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio. Isso abriu a porta para que os EUA lançassem um potencial primeiro ataque contra a Rússia, usando mísseis estacionados nas proximidades dos membros da NATO, Roménia e Polónia. Também enviou armas anti-tanque Javelin para a Ucrânia, uma medida evitada pelo seu antecessor, Barack Obama, por recear que fosse vista como uma provocação.

A NATO prometeu repetidamente trazer a Ucrânia para o seu seio, apesar dos avisos da Rússia de que esse passo era visto como uma ameaça existencial, de que Moscovo não podia permitir que Washington colocasse mísseis na sua fronteira, tal como os EUA não aceitaram os mísseis soviéticos estacionados em Cuba no início da década de 1960. Washington avançou na mesma, chegando mesmo a apoiar um golpe ao estilo da revolução colorida em 2014 contra o governo eleito em Kiev, cujo crime foi ser demasiado simpático a Moscovo.

Com o país em crise, Zelensky foi eleito pelos ucranianos como candidato da paz, para pôr fim a uma guerra civil brutal - desencadeada por esse golpe - entre forças anti-russas e "nacionalistas" no oeste do país e populações de etnia russa no leste. O Presidente ucraniano quebrou rapidamente essa promessa.

Trump acusou Zelensky de ser um "ditador". Mas se o é, é apenas porque Washington assim o quis, ignorando a vontade da maioria dos ucranianos.

A mais vermelha das linhas vermelhas

A função de Zelensky era fazer um jogo da galinha com Moscovo. O pressuposto era que os EUA ganhariam qualquer que fosse o resultado. Ou o bluff do Presidente russo, Vladimir Putin, seria desfeito. A Ucrânia seria acolhida na NATO, tornando-se a mais avançada das bases avançadas da aliança contra a Rússia, permitindo que mísseis balísticos com armas nucleares ficassem estacionados a minutos de Moscovo. Ou então Putin iria finalmente concretizar as suas ameaças de anos de invasão do seu vizinho para impedir que a NATO ultrapassasse a mais vermelha das linhas vermelhas que ele tinha estabelecido sobre a Ucrânia.

Washington poderia então alegar "auto-defesa" em nome da Ucrânia, e ridiculamente simular receio perante o público ocidental de que Putin estaria a seguir a Polónia, a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha. Foram estes os pretextos para armar Kiev ao máximo, em vez de procurar um acordo de paz rápido. E assim começou uma guerra de atrito por procuração contra a Rússia, utilizando homens ucranianos como carne para canhão. O objetivo era desgastar a Rússia militar e economicamente, e provocar o derrube de Putin.

Zelensky fez exatamente o que lhe foi pedido. Quando, no início, pareceu vacilar e considerou assinar um acordo de paz com Moscovo, o primeiro-ministro britânico da altura, Boris Johnson, foi despachado com uma mensagem de Washington: continuem a lutar. Este é o mesmo Boris Johnson que agora admite, sem qualquer problema, que o Ocidente está a travar uma "guerra por procuração" contra a Rússia. Os seus comentários não geraram qualquer polémica. O que é muito estranho, uma vez que os críticos que chamaram a atenção para este facto óbvio há três anos foram imediatamente denunciados por espalharem "desinformação sobre Putin" e "pontos de discussão" do Kremlin.

Pela sua obediência, Zelensky foi festejado como um herói, o defensor da Europa contra o imperialismo russo. Todas as suas "exigências" - exigências que tiveram origem em Washington - foram satisfeitas. A Ucrânia recebeu pelo menos 250 mil milhões de dólares em armas, tanques, jatos de combate, treino para as suas tropas, informações ocidentais sobre a Rússia e outras formas de ajuda. Entretanto, centenas de milhares de homens ucranianos e russos pagaram com as suas vidas - tal como as famílias que deixaram para trás.

Etiqueta da máfia

Agora o velho Don em Washington foi-se embora. O novo Don decidiu que Zelensky foi um fracasso caro. A Rússia não está ferida de morte. Está mais forte do que nunca. É hora de uma nova estratégia. Zelensky, imaginando ainda ser o capanga favorito de Washington, chegou à Sala Oval apenas para receber uma dura lição de etiqueta mafiosa.

Trump está a interpretar a sua punhalada nas costas como um "acordo de paz". E, em certo sentido, é-o. Com razão, Trump concluiu que a Rússia ganhou - a menos que o Ocidente esteja pronto para travar a Terceira Guerra Mundial e arriscar uma potencial guerra nuclear. Trump enfrentou a realidade da situação, mesmo que Zelensky e a Europa ainda estejam a lutar para o fazer.

Mas o seu plano para a Ucrânia é, na verdade, apenas uma variação do seu outro plano de paz - o de Gaza. Ali, quer limpar etnicamente a população palestiniana e, sobre os corpos dos muitos milhares de crianças mortas no enclave, construir a "Riviera do Médio Oriente" - ou "Trump Gaza", como lhe chamam num vídeo surrealista que partilhou nas redes sociais. Da mesma forma, Trump vê agora a Ucrânia não como um campo de batalha militar, mas como um campo económico onde, através de acordos inteligentes, pode obter riquezas para si e para os seus amigos bilionários.

Ele apontou uma arma à cabeça de Zelensky e da Europa. Façam um acordo com a Rússia para acabar com a guerra, ou estão por vossa conta contra uma potência militar muito superior. Vejam se os europeus podem ajudar-vos sem um fornecimento de armas de Washington.

Não surpreende que Zelensky, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron se tenham reunido no fim de semana para encontrar um acordo que apaziguasse Trump. Tudo o que Starmer revelou até agora é que o plano vai "parar os combates". Isso é positivo. Mas os combates podiam ter sido travados, e deviam ter sido travados, há três anos.

Dinheiro, não paz

É profundamente insensato deixarmo-nos embalar pelo tribalismo - o mesmo tribalismo que as elites ocidentais procuram cultivar entre os seus públicos para que continuemos a tratar os assuntos internacionais como se fossem um jogo de futebol de alto risco. Ninguém aqui se comportou, ou está a comportar-se, de forma honrada.

O cessar-fogo na Ucrânia não é uma questão de paz. É uma questão de dinheiro, tal como foi a guerra anterior. Como todas as guerras são, em última análise. Um cessar-fogo aceitável para Trump, bem como para Putin, envolverá uma divisão dos bens da Ucrânia. Os minerais de terras raras, a terra e a produção agrícola serão a verdadeira moeda de troca do acordo. Zelensky compreende agora este facto. Ele sabe que ele e o povo da Ucrânia foram enganados. É o que tende a acontecer quando nos aconchegamos à máfia. Se alguém duvida da insinceridade de Washington em relação à Ucrânia, que olhe para a Palestina para ficar esclarecido.

No início da sua presidência, Trump tentou concretizar aquilo a que chamou o "acordo de paz do século", cuja peça central era a anexação de grande parte da Cisjordânia ocupada. A esperança era que os Estados do Golfo acabassem por financiar um programa de incentivo - a cenoura para o pau de Israel - para encorajar os palestinianos a fazer uma nova vida numa gigantesca zona industrial construída para o efeito no Sinai, junto a Gaza. Esse plano ainda está a fervilhar nos bastidores. No fim de semana, Israel recebeu luz verde de Washington para reavivar a sua fome genocida da população de Gaza, depois de Israel se ter recusado a negociar a segunda fase do acordo de cessar-fogo original. A administração Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, estão agora a fazer passar a sua própria má fé por "rejeição" do Hamas.

Eles e a câmara de eco que são os media ocidentais estão a culpar o grupo palestiniano por se recusar a ser enganado numa "extensão" do que nunca passou de um falso cessar-fogo - o fogo de Israel nunca cessou. Israel quer todos os reféns de volta, sem ter de sair de Gaza, para que o Hamas não tenha qualquer influência para impedir Israel de reativar o genocídio total.

O povo de Gaza continua a ser alimentado no moinho de carne da máfia de Washington, tal como o povo ucraniano tem sido. Trump quer tirá-los do caminho para poder desenvolver um parque de diversões mediterrânico para os ricos, pago com o dinheiro do petróleo do Golfo e com as reservas de gás natural, até agora inexploradas, ao largo da costa de Gaza. Ao contrário dos seus antecessores, Trump não finge que a Ucrânia e Gaza são mais do que bens imobiliários geoestratégicos para Washington.

O grande abalo

A extorsão de Zelensky não surgiu do nada. Trump e os seus funcionários tinham-na assinalado com bastante antecedência. Há duas semanas, o correspondente industrial do jornal britânico Daily Telegraph escreveu um artigo intitulado "Eis porque Trump quer fazer da Ucrânia uma colónia económica dos EUA". A equipa de Trump acredita que a Ucrânia pode ter minerais de terras raras debaixo do solo no valor de cerca de 15 biliões de dólares - um tesouro que será fundamental para o desenvolvimento da próxima geração de tecnologia. Na sua opinião, o controlo da exploração e extração desses minerais será tão importante como o controlo das reservas de petróleo do Médio Oriente foi há mais de um século.

E o mais importante de tudo é que os EUA querem que a China, o seu principal rival económico - se não mesmo militar - seja excluída da pilhagem. A China detém atualmente o monopólio efetivo de muitos destes minerais críticos. Ou, como diz o Telegraph, os "minerais da Ucrânia oferecem uma promessa tentadora: a possibilidade de os EUA quebrarem a sua dependência dos fornecimentos chineses de minerais críticos que são utilizados em tudo, desde turbinas eólicas a iPhones e caças furtivos". Um rascunho do plano visto pelo Telegraph, nas suas palavras, "equivaleria à colonização económica da Ucrânia pelos EUA, com perpetuidade legal". Washington quer ter preferência em todos os depósitos no país.

No seu confronto na Sala Oval, Trump reiterou este objetivo: "Por isso, vamos utilizá-los [os minerais de terras raras da Ucrânia], tirá-los e utilizá-los para todas as coisas que fazemos, incluindo a IA, as armas e as forças armadas. E isso vai realmente satisfazer as nossas necessidades". Tudo isto significa que Trump tem um grande incentivo para que a guerra termine o mais rapidamente possível e para que o avanço territorial da Rússia seja travado. Quanto mais território Moscovo conquistar, menos território restará para os EUA pilharem.

Auto-sabotagem

A batalha contra a China por causa dos minerais de terras raras também não é uma inovação de Trump - e acrescenta uma camada adicional de contexto para explicar por que razão Washington e a NATO têm estado tão empenhados, nas últimas duas décadas, em afastar a Ucrânia da Rússia.

No verão passado, uma comissão restrita do Congresso sobre a concorrência com a China anunciou a formação de um grupo de trabalho para contrariar o "domínio de minerais críticos" de Pequim.

O presidente da comissão, John Moolenaar, observou que a atual dependência dos EUA em relação à China para estes minerais "tornar-se-ia rapidamente uma vulnerabilidade existencial no caso de um conflito". Outro membro da comissão, Rob Wittman, observou: "O domínio das cadeias de abastecimento mundiais de minerais críticos e de elementos de terras raras é a próxima fase da competição entre grandes potências".

O que Trump parece apreciar é o facto de a guerra por procuração da NATO contra a Rússia na Ucrânia ter, por defeito, levado Moscovo a aproximar-se ainda mais de Pequim. Tem sido uma auto-sabotagem em grande escala. Juntos, a China e a Rússia são um adversário formidável, que está no centro do crescente grupo Brics - composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Têm procurado expandir a sua aliança, acrescentando potências emergentes, para se tornarem um contrapeso à agenda global intimidatória de Washington e da NATO.

Mas um acordo com Putin sobre a Ucrânia daria a Washington a oportunidade de construir uma nova arquitetura de segurança na Europa - mais útil para os EUA - que colocasse a Rússia dentro da tenda e não fora dela. Isso deixaria a China isolada - um objetivo de longa data do Pentágono. E também deixaria a Europa menos central para a projeção do poder dos EUA, razão pela qual os líderes europeus - liderados por Keir Starmer - têm parecido e soado tão nervosos nas últimas semanas.

O perigo é que a "pacificação" de Trump na Ucrânia se torne simplesmente um prelúdio para o desenvolvimento de uma guerra contra a China, usando Taiwan como pretexto, da mesma forma que a Ucrânia foi usada contra a Rússia. Como Moolenaar sugeriu, o controlo dos EUA sobre minerais críticos - na Ucrânia e noutros locais - garantiria que os EUA deixariam de ser vulneráveis, no caso de uma guerra com a China, a perder o acesso aos minerais de que necessitariam para continuar a guerra. Isso libertaria a mão de Washington.

Trump pode estar a comportar-se de uma forma ordinária. Mas o império de gangsters que ele agora dirige está a liderar a mesma extorso global de sempre.

Posted by OLima at quarta-feira, março 05, 2025 

https://onda7.blogspot.com/2025/03/leituras-marginais_01749339301.htm
https://www.middleeasteye.net/opinion/trump-vulgar-us-global-shakedown-same-one-everl

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Miguel Cardina - Os estrategas do cinismo

* Miguel Cardina

 «As televisões estão cheias de estrategas do cinismo. Compreendem quem se indigna com o que se passa em Gaza, mas acham que é preciso “prudência” (adoram esta palavra). Referem o direito internacional, mas concluem que quem manda, pode mesmo. Acham que tudo é “complexo” (também adoram esta), mas têm muito pouca consideração pelos sinuosos trajetos da história.   


Num passado muito recente, os estrategas do cinismo contestavam a utilização do termo "genocídio", porque uma coisa é dizimar um povo e outra é *querer* dizimar um povo. Ontem ouvimo-los de novo: "a flotilha não é humanitária porque não vai resolver o problema da fome em Gaza", disse o cínico moderado. "Tudo aquilo é simbólico", determinou o cínico literal. "Pior: é um frete ao Hamas!", vociferou o cínico radical. "Ou uma estratégia para arranjar um emprego futuro", escreveu o cínico empreendedor. "É preciso não ver o mundo a preto e branco e contemplar toda a sua intrigante palete de cinzentos", afirmou o cínico ponderado.

Ontem de manhã, Luís Montenegro vestiu a pele de cínico retórico. Temendo que a palavra “missão” lhe queimasse o sorriso sibilino, falou de uma – breve pausa dramática – “intervenção”, de uma – outra micro-pausa dramática – “iniciativa”. À noite, o ministro Rangel assumiu a pose do cínico dissimulado: foi às televisões dizer que os serviços consultares estão a seguir o assunto com proximidade, polemizou com Mariana Mortágua, falou da democracia em Israel e afirmou que a flotilha “optou” por chegar na véspera do feriado religioso do Yom Kippur. Só lhe faltou mesmo dizer que os atrasos a que a flotilha foi sujeita, com ataques de drones e avarias várias, foram autoinfligidos e que toda a operação não passa, no fundo, de uma disfarçada ação antissemita.

Na Grécia Antiga, os velhos cínicos desprezavam a opinião pública, as convenções e o poder. O mundo dá voltas e as palavras mudam de significado. Hoje, os estrategas do cinismo são os apóstolos do poder realmente existente e a voz gourmetizada de muito do que se escreve nas redes sociais. Se agora o vemos melhor, devemo-lo também à ação corajosa de quem integra a flotilha humanitária. Gente que combate a resignação e a hipocrisia e que merece, por isso, toda a nossa mobilização para exigirmos a sua libertação imediata e todo o nosso empenho - mesmo em pequeníssima escala - para que se pare o genocídio e se ajude a concretizar o velho sonho de uma Palestina livre.»   

Miguel Cardina no Facebook
https://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2025/10/os-estrategas-do-cinismo.htm 

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alexandra Lucas Coelho - Gaza voltou a casa, estropiada, épica. A Europa perdeu a II Guerra em Gaza





* Alexandra Lucas Coelho

Dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas.» Para um “ocidente” em plena miséria moral, nem gente serão. Tal como para Trump são empecilhos a remover de vez, para construir uma “nova riviera” sobre os seus cadáveres. Mas o heroísmo palestiniano não será vencido, nem a solidariedade dos povos do mundo o abandonará.


1. Precisamos de ir à Bíblia, ao que só imaginamos ou nos assombra, para dar conta do que aconteceu esta segunda-feira, 27 de Janeiro de 2025, em directo nos nossos ecrãs, na nossa mão. Um povo —os palestinianos — a caminhar ao longo do Mediterrâneo, naquela faixa litorânea que todos os antigos povos do Mediterrâneo percorreram, e está na Bíblia com o nome que tem até hoje: Gaza. Não era mais uma réplica do Êxodo. Nem do êxodo mítico de Israel, nem do êxodo que vimos com os nossos olhos em Outubro de 2023, quando esse mesmo povo— os palestinianos — foram forçados por Israel a deixar o Norte de Gaza com crianças, bebés, grávidas, velhos, doentes, estropiados, incluindo o meu amigo W, como contei no primeiro texto a seguir ao 7 de Outubro. Um êxodo que retomou a Nakba (Catástrofe) de 1948, desdobrando-se em deslocações sucessivas nos últimos 15 meses e meio.

O que se deu agora foi o contra-êxodo. Meio milhão de palestinianos dentro de carros, carrinhas, carroças mas sobretudo apeados. Eram eles mesmos, com os seus corpos, a Faixa de Gaza — ou a nossa mais épica Faixa Humana —, caminhando de volta a casa, quilómetros. E levavam a chave ao pescoço, levavam lenços, bandeiras, tambores, pandeiretas. Cantavam de alegria, beijavam o chão. Agradeciam ter vivido para voltar. Muitos não tinham água nem comida, nem pernas para muito. Nem pernas, alguns. Infinitamente mais estropiados do que há 15 meses e meio. Todos viveram um holocausto, ficaram órfãos de alguém, e sabiam que voltavam para a ruína, da própria casa ou do que havia em volta. Mas uma mulher dizia: a nossa alegria é mais importante do que a casa. E uma menina que perdera o pai: hoje é o dia mais importante da história do mundo. E aquele futebolista que nasceu para ser pai: é o mais belo regresso a casa. Vi, no último ano, pelo Instagram, as filhas dele crescerem dentro da tenda. A mais nova a gatinhar, depois a andar, de repente dois dentes. Sempre a rir, incrivelmente a rir. Até ao dia em que o pai desencantou uns dinossauros pequeninos, e ela chorou aterrorizada porque nunca vira um boneco. Então ali estava ela, radiante às cavalitas do pai, a subir a Faixa de Gaza a pé, entre trincheiras e arame farpado. E Bisan Owda, que aos vinte e tal anos atravessou um genocídio a falar connosco, a levantar os humanos do chão porque víamos Gaza com ela, e porque a víamos a ela, Bisan disse: eu estava a sobreviver para este momento. Ela cruzara o Corredor de Netzarim com que Israel dividira o Sul e o Norte, matando quem se aproximasse. Cruzara de sul para norte com meio milhão de pessoas. Que talvez amanhã não possam dizer: ainda estou viva. Mas hoje podem, dizem, abrem a porta da ruína, montam uma tenda onde era a casa, respondem a Trump. Não serão “limpos”.

2. Egipto e Jordânia não querem dois milhões de palestinianos. Nem um milhão, nem nenhum. Trump garante que os dobra, aos egípcios, aos jordanos (“Vão fazê-lo.”). Não sabemos até onde isto pode ir, mas nos últimos dias Steve Witkoff — o magnata do imobiliário que Trump transformou em negociador tipo máfia (assina o cessar-fogo, para teu bem) — já foi à Arábia Saudita, a Israel e a normalização está aí a apitar. Trump vai receber Netanyahu, e mandou-lhe as bombas de destruição máxima que Biden embargara para não dar estrilho, enquanto continuava a mandar outras. Trump é a própria patente do estrilho para os próximos quatro anos. O seu novo embaixador em Israel diz que não há palestinianos, nem ocupação. A sua nova embaixadora na ONU diz que Israel tem direito bíblico à Cisjordânia.

E, a propósito de Cisjordânia, enquanto15 reféns já foram libertados em Gaza (incluindo cinco soldadas israelitas), felizmente muito mais saudáveis do que o mundo imaginava, Israel aproveitou para arrasar o campo de refugiados de Jenin. Não sem uma ajuda miserável da Autoridade Palestiniana. Milhares de desalojados. Mas além de Jenin, as forças de Israel têm atacado outras partes da Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Enquanto os colonos tratam de muitas outras, incendiando aldeias, casas, carros. Tudo isto desde o cessar-fogo. Que também vigora no Líbano, que também é bombardeado. Ao mesmo tempo, dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas. Aquela organização que Israel ia extinguir mas tem exibido milhares de homens armados a cada libertação de reféns. Quem conhece a Palestina sabe que o Hamas não vai ser extinto à bomba. Só é possível esvaziá-lo: se a Palestina for livre. Familiares de reféns israelitas imploram, entretanto, a Trump e ao Governo de Israel que a guerra não recomece até ao último refém ser libertado. Como se em Gaza os únicos humanos fossem os reféns. Famílias israelitas amorosas dos seus (e dos restantes israelitas), bravas lutadoras pelos seus (e pelos restantes israelitas). Israel é um país dividido, convulso. Mas destes 15 meses e meio emergiu uma grande maioria, mais clara do que nunca: a dos que não vêem, ou não querem ver, os palestinianos. Desumanizaram-nos. Viram que Israel pode fazer o que quer, matar com inteligência artificial, negar as evidências de genocídio, torturar nas cadeias, colonizar mais, anexar e safar-se sem sanções. E nos próximos quatro anos Israel tem Trump. Está em velocidade de cruzeiro na alienação.

Mas qualquer judeu consciente, em Israel ou no mundo, sabe que os últimos 15 meses e meio marcam a história dos judeus para sempre. O Estado de Israel fortaleceu-se contra a vergonha de os judeus não terem resistido quando eram perseguidos (ou, pior, terem colaborado). Mas há a vergonha em curso, de se continuar a fortalecer à custa de ser o mais forte, enquanto destrói outro povo.

3. Essa é uma das razões por que a Europa perdeu, simbolicamente, a Segunda Guerra em Gaza. Perdeu-a por ter deixado Israel fazer tudo o que fez desde 7 de Outubro, e por ter colaborado no genocídio mesmo. A Europa que foi gerando o Estado de Israel, pelo anti-semitismo de séculos, pelo sionismo desde o fim do século XIX e enfim pela sua culpa no Holocausto, é a mesma Europa que perdeu a guerra nas ruínas de Gaza. Como se a Segunda Guerra nunca tivesse acabado até agora.

Pensei nisto há dias, ao ouvir poemas de Primo Levi no lançamento da tradução portuguesa (A Uma Hora Incerta, Edições do Saguão). Primo Levi é aquele sobrevivente de Auschwitz que a maioria hoje no poder em Israel vê (ou ignora) como se ele não tivesse continuado a pensar. Mas ele continuou por mais de 20 anos, o bastante para ter dito coisas que hoje seriam chaves para Israel ver o seu próprio buraco, se fosse capaz.

Os 80 anos da libertação de Auschwitz celebraram-se justamente na segunda-feira em que meio milhão de palestinianos voltavam a casa —mas não para a liberdade. Os polacos estenderam a passadeira a Netanyahu, mas ele não esteve para isso (além de que tinha um julgamento). E o que seria preciso dizer nesse dia em relação a Gaza não foi dito pela Europa, mais uma vez.

Salvam-se as excepções do costume. Como a Espanha, que anunciou 50 milhões extras para a UNRWA, essa agência criada depois da Segunda Guerra para assistir os palestinianos que o mundo abandonara. Ontem Alemanha, França, Reino Unido fizeram uma declaração de apoio à UNRWA, banida por Israel desde quinta-feira, e apelando a Israel para que isso nãose concretize. Com que pressões? Que sanções?

Pior só a última declaração de Rangel, a dizer que Portugal se mantém na sua posição “tradicional” dos dois Estados, mas não é oportuno reconhecer a Palestina. Para o poço sem fim da vergonha. O contrário da coragem palestiniana.

Fonte: “Público”, 1.02.2025 
https://www.odiario.info/gaza-voltou-a-casa-estropiada-epica/

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Chris Hedges - O caminho ocidental do genocídio

 

* Chris Hedges

Gaza é um deserto com  50 milhões de toneladas  de entulho e detritos. Ratos e cães  vasculham  as ruínas e as fétidas poças de esgotos brutos. O fedor pútrido e a contaminação de cadáveres em decomposição elevam-se debaixo das montanhas de betão partido. Não há  água limpa. Pouca comida. Uma grave escassez de serviços médicos e quase nenhum abrigo habitável. Os palestinianos correm o risco de morrer devido a munições não detonadas, deixadas para trás após mais de 15 meses de ataques aéreos, barragens de artilharia, ataques de mísseis e explosões de tanques, bem como uma variedade de substâncias tóxicas, incluindo poças de esgotos brutos e  amianto.

A hepatite A, provocada pela ingestão de água contaminada, é  galopante , assim como as doenças respiratórias,  a sarna, a subnutrição, a fome e as náuseas e vómitos generalizados provocados pela ingestão de alimentos rançosos. Os vulneráveis, incluindo crianças e idosos, juntamente com os doentes, enfrentam uma sentença de morte. Foram deslocadas cerca de 1,9 milhões de pessoas  , o que representa 90% da população. Vivem em tendas improvisadas, acampados no meio de lajes de betão ou ao ar livre. Muitos foram obrigados a mudar-se mais de uma dúzia de vezes. Nove em cada dez casas foram  destruídas ou danificadas . Blocos de apartamentos, escolas, hospitais, padarias, mesquitas, universidades — Israel  fez explodir  a Universidade Israa, na Cidade de Gaza, numa demolição controlada — cemitérios, lojas e escritórios foram  destruídos. A taxa de desemprego é de 80% e o produto interno bruto foi reduzido em quase 85%, de acordo com um relatório de outubro de 2024  emitido  pela Organização Internacional do Trabalho.

A proibição por parte de Israel   da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente — que  estima  que a limpeza de Gaza dos escombros deixados para trás demore 15 anos — garante que os palestinianos em Gaza nunca terão acesso a mantimentos humanitários básicos, alimentação adequada e serviços.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento  estima  que custará entre 40 mil milhões e 50 mil milhões de dólares para reconstruir Gaza e levará, se os fundos forem disponibilizados, até 2040. Seria o maior esforço de reconstrução pós-guerra desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Israel, abastecido com milhares de milhões de dólares em armas dos EUA, Alemanha, Itália e Reino Unido, criou este inferno. Pretende mantê-lo. Gaza permanecerá cercada. Após uma explosão inicial de entregas de ajuda no início do cessar-fogo, Israel  reduziu mais uma vez severamente  a assistência enviada por camião. A infra-estrutura de Gaza não será restabelecida. Os seus serviços básicos, incluindo estações de tratamento de água, electricidade e redes de esgotos, não serão reparados. As suas estradas, pontes e quintas destruídas não serão reconstruídas. Os palestinianos desesperados serão forçados a escolher entre viver como moradores de cavernas, acampados no meio de pedaços irregulares de betão, morrendo de doenças, fome, bombas e balas, ou exílio permanente. Estas são as únicas opções que Israel oferece.

Israel está convencido, provavelmente correctamente, de que, eventualmente, a vida na faixa costeira se tornará tão onerosa e difícil, tanto mais que Israel encontra desculpas para violar o cessar-fogo e retomar os ataques armados à população palestiniana, que um êxodo em massa será inevitável. Mesmo com o cessar-fogo em vigor, o governo  recusou-se a permitir a entrada de imprensa estrangeira em Gaza, uma proibição criada para prejudicar a cobertura do terrível sofrimento e morte.

A segunda fase do genocídio de Israel e a expansão do “Grande Israel” — que  inclui  a tomada de mais território sírio nas Colinas de Golã (bem como apelos à expansão para Damasco), sul do Líbano,  Gaza  e a Cisjordânia ocupada — está a ser consolidada no local. As organizações israelitas, incluindo a organização de extrema-direita Nachala, realizaram  conferências  para preparar a colonização judaica de Gaza assim que os palestinianos forem sujeitos a uma limpeza étnica. As colónias exclusivamente judaicas existiram em Gaza durante 38 anos, até serem desmanteladas em 2005.

Washington e os seus aliados na Europa não fazem nada para impedir o massacre transmitido em directo. Não farão nada para impedir que os palestinianos de Gaza sofram com a fome e as doenças e o seu eventual despovoamento. São parceiros neste  genocídio. Permanecerão parceiros até que o genocídio chegue ao seu terrível fim.

Mas o genocídio em Gaza é apenas o início. O mundo está a desmoronar-se sob o ataque da crise climática, que está a desencadear migrações em massa, Estados falhados e incêndios florestais catastróficos, furacões, tempestades, inundações e secas. À medida que a estabilidade global se desfaz, a máquina aterradora de violência industrial, que está a dizimar os palestinianos, tornar-se-á omnipresente. Estes ataques serão cometidos, como em Gaza, em nome do progresso, da civilização ocidental e das nossas supostas “virtudes” para esmagar as aspirações daqueles, principalmente pessoas pobres de cor, que foram desumanizadas e rejeitadas como animais humanos.

A aniquilação de Gaza por Israel marca a morte de uma ordem global orientada por leis e regras acordadas internacionalmente, frequentemente violadas pelos EUA nas suas guerras imperiais no Vietname, Iraque e Afeganistão, mas que foi pelo menos reconhecida como uma visão utópica. Os EUA e os seus aliados ocidentais não só fornecem o armamento para sustentar o genocídio, como também obstruem a reivindicação da maioria das nações pela adesão ao direito humanitário.

A mensagem que isto passa é clara:  você e as regras que pensava que o poderiam proteger não importam. Temos tudo. Se tentar tirá-lo de nós, nós matamo-lo .

Os drones militarizados, os helicópteros de combate, os muros e barreiras, os postos de controlo, os rolos de arame farpado, as torres de vigia, os centros de detenção, as deportações, a brutalidade e a tortura, a recusa de vistos de entrada , a existência de apartheid que advém da situação de indocumentado, a perda de direitos individuais e a vigilância electrónica.

Israel, que como Ronen Bergman observa em “Rise and Kill First” “assassinou mais pessoas do que qualquer outro país no mundo ocidental”, usa o Holocausto Nazi para santificar a sua vitimização hereditária e justificar o seu estado colonial de povoamento, o apartheid, as campanhas de assassinato em massa e versão sionista do  Lebensraum.

Primo Levi, que sobreviveu a Auschwitz, viu a Shoah, por esta razão, como “uma fonte inesgotável de mal” que “é perpetrada como ódio nos sobreviventes e surge de mil maneiras, contra a vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação.”

O genocídio e o extermínio em massa não são domínio exclusivo da Alemanha fascista. Adolf Hitler, como escreve Aimé Césaire em “Discurso sobre o colonialismo”, só pareceu excepcionalmente cruel porque presidiu “à humilhação do homem branco”. Mas os nazis, escreve, tinham simplesmente aplicado “procedimentos colonialistas que até então tinham sido reservados exclusivamente aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos negros de África”.

O massacre alemão dos  Herero e Namaqua, o  genocídio arménio, a  fome de Bengala  de 1943 — o então Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill desvalorizou levianamente as mortes de três milhões de hindus na fome,  chamando-lhes “um povo bestial com uma religião bestial ” — juntamente com o lançamento de bombas nucleares sobre alvos civis de Hiroshima e Nagasaki, ilustram algo fundamental sobre a “civilização ocidental”. Como Hannah Arendt entendeu, o anti-semitismo por si só não levou à Shoah. Era necessário o potencial genocida inato do estado burocrático moderno.

“Na América”, disse o poeta Langston Huges, “os negros não precisam de ouvir o que é o fascismo em acção. Nós sabemos. As suas teorias de supremacia nórdica e supressão económica são realidades para nós há muito tempo.”

Dominamos o globo não por causa das nossas virtudes superiores, mas porque somos os assassinos mais eficientes do planeta. Os milhões de vítimas de projectos imperiais racistas em países como o México, a China, a Índia,  o Congo,  o Quénia e o Vietname são surdos às alegações insensatas dos judeus de que a sua vitimização é única. O mesmo acontece com os negros, os pardos e os nativos americanos. Também sofreram holocaustos, mas estes holocaustos continuam a ser minimizados ou não reconhecidos pelos seus perpetradores ocidentais.

“Estes acontecimentos que ocorreram na memória viva minaram o pressuposto básico tanto das tradições religiosas como do Iluminismo secular: que os seres humanos têm uma natureza fundamentalmente ‘moral’”, escreve Pankaj Mishra no seu livro “O Mundo Depois de Gaza”. “A suspeita corrosiva de que não é assim é agora generalizada. Muitas outras pessoas testemunharam de perto a morte e a mutilação, sob regimes de insensibilidade, timidez e censura; reconhecem com choque que tudo é possível, recordar atrocidades passadas não é garantia contra repeti-las no presente, e os fundamentos do direito internacional e da moralidade não são de todo seguros.”

O massacre em massa é tão essencial ao imperialismo ocidental como a Shoah. São alimentados pela mesma doença da supremacia branca e pela convicção de que um mundo melhor se constrói sobre a subjugação e erradicação das raças “inferiores”.

Israel personifica o Estado etnonacionalista que a extrema-direita dos EUA e da Europa sonha criar para si, um Estado que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas jurídicas, diplomáticas e éticas. Israel é admirado por estes protofascistas, incluindo os nacionalistas cristãos, porque virou as costas ao direito humanitário para usar força letal indiscriminada para “limpar” a sua sociedade daqueles que são condenados como contaminantes humanos.

Israel e os seus aliados ocidentais, viu James Baldwin, estão a caminhar para a “terrível probabilidade” de que as nações dominantes “lutando para manter o que roubaram aos seus cativos, e incapazes de olhar para o seu espelho, irão precipitar um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo nunca viu.”

O que falta não é o conhecimento — a nossa perfídia e a de Israel fazem parte do registo histórico — mas a coragem de nomear as nossas trevas e de nos arrependermos. Esta cegueira deliberada e amnésia histórica, esta recusa em sermos responsáveis perante o Estado de direito, esta crença de que temos o direito de usar a violência industrial para exercer a nossa vontade marca o início, e não o fim, das campanhas de matança em massa do Norte Global.

2 de fevereiro de 2025

Imagem de destque: Explore Gaza – por Mr. Fish

FONTE https://scheerpost-com.translate.goog/2025/02/02/chris-hedges-the-western-way-of-genocide/?  

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/02/o-caminho-ocidental-do-genocidio.html 


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Eduardo Galeano - "Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?"

Eduardo Galeano [*]

Para se justificar, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que essa carnificina de Gaza, que, segundo seus autores, pretende acabar com os terroristas, logrará multiplicá-los. Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito de eleger seus governantes. Quando votam em quem não se deve votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma ratoeira sem saída desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições de 2006. Algo parecido ocorreu em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições em El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com nenhuma pontaria sobre as terras que haviam sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E, ao desespero, ao ponto mesmo da loucura suicida, é a mãe de todas as bravatas a que nega o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto as muito eficazes guerras de extermínio estão negando, há anos, o direito de existência da Palestina. Já resta pouca Palestina. Israel a está apagando do mapa.

Os colonos invadem e, atrás deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser uma guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel traga outro pedaço da Palestina e os almoços seguem. O devoramento justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu e pelo pânico que geram os palestinos que observam.

Israel é um país que jamais cumpre as recomendações e as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que zomba das leis internacionais. É também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros. Quem lhes deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com a qual Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não pode bombardear impunemente o País Basco para acabar com o ETA nem o governo britânico pode arrasar a Irlanda para liquidar com o IRA. Por acaso a tragédia do holocausto implica uma licença de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência imperialista que mais manda e que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não mata por erro. Mata para causar horror. Às vítimas civis, chamam de danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são crianças. E somam-se aos milhares os multilados, vítimas da tecnologia de despedaçamento humano que a indústria militar está ensaiando exitosamente nesta operação de limpeza étnica.

E, como sempre, sempre o mesmo em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa, adverte o outro bombardeio, a cargo dos meios de manipulação de massa, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a crer que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel ou que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada comunidade internacional existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e belicistas? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos se atribuem quando fazem teatro? Ante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial vem à luz uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.

Ante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E, como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza como de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus sempre foi um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. Eles estão pagando, com sangue, uma conta alheia.

(Este artigo é dedicado a meus amigos judeus, assassinados pelas ditaduras militares latino-americanas que Israel assessorou)

2012

[*] Escritor, 1940-2015, pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Galeano. Algumas das suas obras podem ser descarregadas em https://resistir.info/livros/livros.html

A tradução encontra-se em

www.novacultura.info/post/2023/11/03/galeano-quem-deu-a-israel-o-direito-de-negar-todos-os-direitos

Este artigo encontra-se em resistir.info