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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

António Santos - Se isto é uma democracia


* António Santos

Ch­rista Gail Pike tinha 18 anos quando matou uma co­lega. Nunca o negou. Foi há 31 anos e não es­ta­remos a jus­ti­ficar nada se dis­sermos que Ch­rista era uma miúda sem fa­mília, ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada desde os 12 anos, o que não a salvou do abuso se­xual, da po­breza e do aban­dono. Ex­plicar não é jus­ti­ficar, mas há coisas in­jus­ti­fi­cá­veis que também são inex­pli­cá­veis, como o Es­tado do Ten­nessee, nos EUA, mu­nido dos meios in­fi­nitos do país mais rico do mundo e ape­tre­chado de todo o co­nhe­ci­mento dis­po­nível na hu­ma­ni­dade, ter-se de­di­cado a tor­turar Ch­rista Pike du­rante três horas, ten­tando as­sas­siná-la com o me­lhor cock­tail de ve­nenos in­ven­tados pelos me­lhores ci­en­tistas e ad­mi­nis­trado pelos me­lhores mé­dicos (sim, mé­dicos) para, no final, ad­mitir, esse mesmo Es­tado, que fa­lhou no in­tuito de matar uma mu­lher atada a uma cama.

Um mês vol­vido sobre o crime do re­gime, foram di­vul­gados os por­me­nores da ten­ta­tiva de exe­cução de Ch­rista. A equipa mé­dica de­morou quase 50 mi­nutos até en­con­trar uma veia. Es­pe­taram-lhe nos dois braços, pode ler-se no re­la­tório mé­dico, um total de dez agu­lhas. Quando o pen­to­bar­bital co­meçou fi­nal­mente a correr-lhe no sangue, Ch­rista co­meçou a gritar de dores, de­bateu-se vi­o­len­ta­mente contra as cor­reias que a pren­diam, chorou muito, urinou, de­fecou e re­petiu muitas vezes «o meu braço vai ex­plodir», mas também vo­mitou, en­gasgou-se e co­meçou a su­focar, só não morreu. Então, já pas­sadas duas horas de tor­tura, os mé­dicos deram-lhe uma se­gunda in­jecção de ve­neno, que pro­duziu todos os efeitos an­te­ri­ores e ou­tros novos, como for­marem-se-lhe grandes bolbos na pele, san­grar pelos olhos, nariz e boca e ficar com todo o corpo tão in­chado que os mé­dicos cor­reram as cor­tinas para que não se visse mais o es­pec­tá­culo. O ad­vo­gado, que até aqui havia as­sis­tido a tudo, ga­rante que pon­de­raram dar-lhe uma ter­ceira in­jecção, mas os seus pro­testos sur­tiram algum efeito, porque a equipa mé­dica terá te­mido que uma ter­ceira ten­ta­tiva fosse ju­di­ci­al­mente con­si­de­rada «pu­nição cruel ou in­vulgar». Quando chegou a um hos­pital, onde havia mé­dicos dos que salvam e não dos que matam, che­garam a de­clará-la em morte ce­re­bral, mas, em de­safio à sen­tença do Es­tado do Ten­nessee, Ch­rista acordou. Esta se­mana, trans­mitiu ao seu ad­vo­gado estas pa­la­vras: «Ainda não houve um mo­mento desde aquela noite em que não tenha es­tado com dores. Todo o meu corpo dói. Ainda me custa falar. Estou to­tal­mente so­zinha.» Ch­rista Pike, que passou 29 anos se­guidos iso­lada no con­fi­na­mento da so­li­tária, outra forma de tor­tura, foi tor­tu­rada com duas in­jec­ções de ve­neno. Agora, o Es­tado do Ten­nessee pre­para-se para tentar matá-la pela ter­ceira vez.

O que fa­lhou nesta his­tória? Os quí­micos? Os mé­dicos? As ins­ti­tui­ções que há 40 anos não sou­beram pro­teger uma cri­ança aban­do­nada? Um re­gime em que os can­di­datos a go­ver­nador fazem cam­panha com a pro­messa de exe­cutar esta mu­lher? Um sis­tema que dis­cute se se de­veria ou não trans­mitir em di­recto as exe­cu­ções que faz o Es­tado como forma de en­tre­te­ni­mento? Uma so­ci­e­dade que cria as­sas­sinos no vi­veiro da vi­o­lência para de­pois os as­sas­sinar da forma mais cruel pos­sível? Em 2025 exe­cu­taram-se 47 pes­soas nos EUA: o nú­mero mais alto desde 2009. Este ano já vão 33.

Primo Levi per­gun­tava-se, desde Aus­chwitz, «se isto é um homem» e todos sa­bemos o que é «isto». Po­demos per­guntar, com a mesma ur­gência, se isto é uma de­mo­cracia.

Avante n.º 2762 (5/11/2026)

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Daniel Oliveira - A barbárie de novo, agora em direto

* Daniel Oliveira

Após a execução falhada de Christa Pike, o Tennessee tenta melhorar as condições de execução, repetindo a ilusão do homicídio "humano" num estado que confunde justiça com vingança. Nos EUA, o apoio público à pena de morte caiu para níveis mínimos em meio século, mas o poder político aumentou o número de execuções. O ódio chegou ao poder e até pensa transmitir um fuzilamento. Nesta matéria, os EUA continuam a ser o farol da barbárie

Sónia Sapage - Uma execução em directo é um retrocesso civilizacional

 * Sónia Sapage

“Eu apoio totalmente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem”, escreve o republicano Austin Scott nas redes sociais. “A América é melhor do que isso.”

Há uma semana, o Pentágono anunciou que irá transmitir em directo (streaming), no dia 3 de Dezembro, às 13h, a execução por fuzilamento de um militar condenado a pena de morte pelo massacre de Fort Hood, no Texas, do qual resultaram 13 mortos e 32 feridos, em 2009.

Nidal Malik Hasan, major e psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, especialista em stress pós-traumático, tinha 39 anos quando concretizou o ataque. Durante o julgamento, declarou-se culpado e assumiu a sua adesão aos ideais da jihad (guerra santa). “Eu estava no lado errado, mas mudei de campo”, justificou.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Filipe Diniz - Num mesmo dia [11 de Setembro]

* Filipe Diniz´

Desde que existe um dia cha­mado 11 de Se­tembro ha­verá mi­lhares de mi­lhões de acon­te­ci­mentos su­ce­didos nele. Por exemplo o nas­ci­mento de Felix Dzer­zinsky, em 1877. Mas há coin­ci­dên­cias que lhe pa­recem dar uma sina es­pe­cial.

11 de Se­tembro 1941, EUA: é ini­ciada a cons­trução do Pen­tá­gono, e ao mesmo tempo o ame­ri­cano sim­pa­ti­zante nazi Charles Lind­bergh (que Hi­tler con­de­co­rara) acusa «a Grã-Bre­tanha, os ju­deus e a ad­mi­nis­tração Ro­o­se­velt» de cons­pi­rarem para a guerra com a Ale­manha;

11 de Se­tembro 1973, Chile: um golpe fas­cista ins­pi­rado e apoiado pelos EUA der­ruba o go­verno da Uni­dade Po­pular. As­sas­sina Sal­vador Al­lende e de­zenas de mi­lhares de ou­tros civis e mi­li­tares, no golpe e no de­curso de uma bár­bara di­ta­dura que dura 27 anos. Com traços po­lí­ticos, eco­nó­micos e so­ciais que per­sistem;

11 de Se­tembro de 1982, Lí­bano: forças in­ter­na­ci­o­nais que ga­ran­tiam a se­gu­rança de re­fu­gi­ados pa­les­ti­ni­anos aban­donam Bei­rute. Cinco dias de­pois mi­lhares são mas­sa­crados nos campos de re­fu­gi­ados de Sabra e Sha­tila;

11 de Se­tembro de 2001, EUA: um aten­tado des­trói as Torres Gé­meas em Nova Iorque, e dois aviões caem em ou­tros lo­cais. Dias de­pois o “Le Monde” es­creve em ri­dí­culo edi­to­rial: «somos todos ame­ri­canos» (no “Pú­blico”, 12 e 13.9.26, duas almas igual­mente gé­meas re­cordam-no sau­do­sa­mente). Será por essa per­tença que os média do­mi­nantes deram tantas horas de es­pe­cial atenção ao acon­te­ci­mento. Que, antes de mais, serviu para de­sen­ca­dear a “guerra ao terror” com que os EUA vêm in­cen­di­ando o pla­neta (a des­truição da Ju­gos­lávia não passa de um an­te­ce­dente, que quem não per­tença aos que “são todos ame­ri­canos” per­cebe).

Houve a vis­tosa si­mu­lação de duas “torres gé­meas” feita com drones lu­mi­nosos. Esta si­mu­lação não in­cluía uma ter­ceira torre, que também ruiu em­bora não ti­vesse sido atin­gida por ne­nhum avião. O que con­tinua a sus­citar per­ple­xi­dade. Ha­verá ainda coisas desse dia var­ridas de­baixo do ta­pete?

2026 09 24

https://www.avante.pt/pt/2756/opiniao/185160/Num-mesmo-dia.htm

sábado, 8 de agosto de 2026

Entrevista a Augusto Santos Silva (2026)


Nota prévia - Essa extensa entrevista é um espelho do chorrilho de mistificações e de contradições que percorrem o labirinto dos defensores do capitalismo, essencialmente autofágico e predador, sem remissão (Victor Nogueira)

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Augusto Santos Silva: "Trump está num estado que considero quase demencial. Temos hoje a maior potência do mundo nas mãos de corruptos, ineptos e moralmente desqualificados"

Tiago Palma

30 jul, 2026

ENTREVISTA || A guerra no Irão confirmou, para Augusto Santos Silva, que o principal problema do Ocidente já não está apenas em Moscovo, Teerão ou Pequim: está também em Washington. O antigo presidente da Assembleia da República e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa acusa Donald Trump de agir sem qualquer racionalidade estratégica e de estar a “destruir as bases morais da nossa defesa militar”, enquanto a Europa responde com apaziguamento e submissão. Nesta entrevista, classifica a ofensiva contra o Irão como uma agressão ilegal, sem absolver Teerão da resposta militar, contesta a meta dos 5% do PIB para a defesa, critica a posição portuguesa sobre a Base das Lajes e denuncia a “conduta miserável” da Europa perante a Palestina

A guerra começou “com três fanáticos”, mas, quatro meses depois, Augusto Santos Silva já não os vê no mesmo lugar. Donald Trump, sustenta, “deixou de dirigir a guerra e passou a ser dirigido por ela”, mudando de objetivos “como quem muda de camisa” e conduzindo os Estados Unidos “para um atoleiro” sem saída política. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Manuel Loff - A “ameaça” comunista

* Manuel Loff

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

 Na véspera da comemoração dos 250 anos da Revolução Americana, Trump decidiu retomar a velha máxima macarthista de que “o comunismo é a maior ameaça ao nosso país, incluindo as duas guerras mundiais, Pearl Harbor ou até o 11 de setembro” (CNN. 3.7.2026). Tal como quando, nos anos 50, McCarthy tinha organizado a campanha mais agressiva da história dos EUA contra esquerda norte-americana, não é simplesmente no contexto do momento (início da Guerra Fria, o avanço dos novos “socialistas democráticos” que ganham hoje apoio popular) que há que interpretar o regresso do anticomunismo como discurso agregador. O que McCarthy então e Trump hoje fazem é reproduzir as mesmas teses com que o fascismo da sua época clássica descreveu o comunismo, “o maior problema humano de todos os tempos”, como dizia Salazar.

 Para a historiadora Ruth Ben-Ghiat, “a nova linha [trumpista] consiste em associar os comunistas a todos os crimes, a todas as infrações” para “criar uma sensação de ameaça comunista para justificar a repressão. É o velho manual utilizado em golpes de Estado e tomadas de poder pelos fascistas.” Para os fascistas dos anos 30 e 40, para quem era de moda a tese de que o marxismo era "o filho mais velho do liberalismo", barrar o caminho do comunismo passava por prescindir dos sistemas liberais e impor novas fórmulas autoritárias.​

 As direitas retomam o anticomunismo como discurso mobilizador sempre e quando a resistência social que se lhes opõe o justifica. A hegemonia das classes historicamente dominantes nas Américas sustentou-se sempre sobre uma violência simultaneamente classista e racial, o que faz com que todos os projetos políticos alternativos, desde a radicalidade da Revolução Cubana, até às muitas variantes da “onda rosa” dos governos Lula, Chávez, Kirchner, Morales, sejam descritos com tons apocalípticos.

 Num recente relatório do Departamento de Estado, Cuba é descrita como a “capital do comunismo do século XXI", capaz de criar “uma infraestrutura revolucionária concebida para virar a América contra si própria”. Por mais que os últimos processos eleitorais na América Latina (Chile, Colômbia, Peru) confirmem uma dramática viragem fascizante, em sintonia com as direitas cubanas e venezuelanas no exílio, Trump tem com que se preocupar. Uma sondagem divulgada em março revelou que o apoio ao socialismo está a crescer, com 38% dos inquiridos (incluídos a grande maioria dos votantes democratas, jovens e afro-americanos) a favor de que os EUA “se afastem do capitalismo”.

Em setembro de 2025, a Gallup detetara já que 66% dos eleitores democratas preferiam o socialismo ao capitalismo. Surpresa? Talvez não: as mesmas sondagens davam resultados semelhantes a meio do primeiro mandato de Trump, o que significa que o triunfo político dos Musks deste mundo favorece alguma consciência crítica do capitalismo – da mesma forma que o genocídio que os israelitas praticam impunemente na Palestina ou o desvario belicista a que assistimos nos últimos anos está a exigir voltar a discutir o que é o imperialismo e o belicismo como lógicas de governo mundial.

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

2026 07 28 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo

*  Miguel Sousa Tavares

1.  Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A América que é grande


Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma his­tória de opressão, guerra e de­si­gual­dades. Nas úl­timas muitas dé­cadas, a prin­cipal po­tência im­pe­ri­a­lista do mundo re­pre­sentou, como ainda re­pre­senta, o grande ad­ver­sário das forças da paz, da de­mo­cracia e do pro­gresso so­cial. Mas, se­jamos justos, também ali há – sempre houve! – quem tenha to­mado par­tido pelos que todos os dias lutam pela so­bre­vi­vência e a dig­ni­dade, por quem menos tem, pelos povos opri­midos e agre­didos.

Era norte-ame­ri­cano o cam­peão de boxe Muhammad Ali, que se re­cusou a matar os seus “ir­mãos” vi­et­na­mitas, pois par­ti­lhavam um ini­migo comum – e foi por isso cas­ti­gado e im­pe­dido de de­fender o tí­tulo mun­dial. Como também o era o cantor Paul Ro­beson, que con­fessou ter sido na União So­vié­tica a pri­meira vez que não se sentiu ví­tima de ra­cismo e co­locou a sua mag­ní­fica voz ao ser­viço da paz e dos di­reitos dos povos (a sua in­ter­pre­tação das can­ções da Guerra Civil de Es­panha, num Con­gresso Mun­dial da Paz, emo­ciona).

Eram na­tu­rais dos EUA os mem­bros do Ba­ta­lhão Abraham Lin­coln, que atra­ves­saram o Atlân­tico para in­te­grar as Bri­gadas In­ter­na­ci­o­nais que tra­varam ao lado dos re­pu­bli­canos es­pa­nhóis uma ba­talha de­ci­siva contra o fas­cismo – e muitos por lá fi­caram, mortos. Nas­cido em Oklahoma, Woody Guthrie exaltou os de­ser­dados da Grande De­pressão e cantou um país que de­veria ser para todos, em­pu­nhando a sua gui­tarra – essa má­quina que, avi­sava, “mata fas­cistas”. É também pro­fun­da­mente norte-ame­ri­cano Tom Joad, o per­so­nagem de “As Vi­nhas da Ira”, obra-prima de Stein­beck, que ins­pirou cada luta pelo pão e pela jus­tiça num país di­la­ce­rado pela de­si­gual­dade so­cial e ra­cial.

Era norte-ame­ri­cano o jor­na­lista John Reed, que como ne­nhum outro re­latou ao mundo as epo­peias re­vo­lu­ci­o­ná­rias do Mé­xico in­sur­recto e da Rússia bol­che­vique, com a qual se man­teve so­li­dário até ao fim pre­coce da sua vida, pe­rante a in­vasão de 14 po­tên­cias es­tran­geiras, entre as quais os EUA. Tal como o eram Har­riet Tubman e Fre­de­rick Dou­glass, an­tigos es­cravos que de­di­caram as suas vidas a com­bater a es­cra­va­tura e a apoiar os que não ti­veram as mesmas pos­si­bi­li­dades de eman­ci­pação.

Outro norte-ame­ri­cano, o ve­te­rano da Guerra Civil Henry Reeve, vi­ajou para Cuba para com­bater ao lado dos pa­tri­otas que no sé­culo XIX lu­tavam contra o do­mínio es­pa­nhol, luta essa que via como uma ex­tensão da sua pró­pria, contra a es­cra­va­tura (de origem ir­lan­desa, opunha-se também ao co­lo­ni­a­lismo). Nas fi­leiras do exér­cito re­belde cu­bano, Henry Reeve atingiu o posto de Bri­ga­deiro-Ge­neral antes de morrer em com­bate. Mais de um sé­culo pas­sado, a Re­vo­lução cu­bana honrou o herói in­ter­na­ci­o­na­lista dando o seu nome ao Con­tin­gente Mé­dico In­ter­na­ci­onal es­pe­ci­a­li­zado em si­tu­a­ções de emer­gência na­tural e sa­ni­tária.

Esta Amé­rica sim, é grande!

Avante n.º 2748 (30/07/2026)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?

* Daniel Oliveira

"A shining city upon a hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos sobre o maior mito político do século XX

"City upon a hill." A expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar. Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para isso.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra

» Daniel Oliveira

Trump chegou ao mesmo sítio onde estava antes da guerra. O Irão sairá com 24 mil milhões desbloqueados, petróleo a fluir, urânio em casa com a promessa que sempre fez, um plano de reconstrução e controlo claro do Estreito de Ormuz. E Trump não tem apoio interno, aliados externos e argumentos para recomeçar a guerra daqui a dois meses. Israel tentou sabotar, não conseguiu e está mais isolado do que em qualquer momento desde a sua fundaçãov

Olhemos para o que parece estar em cima da mesa para ser assinado sexta-feira em Genebra. O Irão congela o programa nuclear no estado atual, mas o urânio altamente enriquecido fica no seu território e mantem-se a promessa genérica de não desenvolver a arma nuclear, que sempre existiu e muito provavelmente terá menos garantias do que Obama tinha conseguido e que Trump rasgou. Os EUA libertam 24 mil milhões de dólares em ativos iranianos bloqueados. Levantam as sanções ao petróleo. Comprometem-se a um plano de reconstrução. O programa de mísseis balísticos não parece estar na agenda. O financiamento ao Hezbollah e aos Houthis também não. E, depois destes meses, fica claro o controlo iraniano do Estreito de Ormuz. Um país que perde uma guerra não sai com estas condições.

sábado, 23 de maio de 2026

António Santos - Eleições intercalares nos EUA: a trafulhice é a lei

* António Santos

À me­dida que se apro­ximam as elei­ções in­ter­ca­lares de No­vembro nos EUA, a ad­mi­nis­tração Trump, que co­lec­ciona re­cordes his­tó­ricos de im­po­pu­la­ri­dade, não poupa es­forços para ga­rantir an­te­ci­pa­da­mente a vi­tória elei­toral, mesmo que ela ocorra na se­cre­taria, ou no sé­culo XIX. No mês pas­sado, uma mai­oria de juízes ultra-re­ac­ci­o­ná­rios do su­premo tri­bunal feriu com gra­vi­dade a Lei do Di­reito ao Voto que, em 1965, es­ta­be­leceu o fim da dis­cri­mi­nação elei­toral dos ne­gros. Apro­vei­tando-se da am­bi­gui­dade ine­rente ao con­ceito de “raça”, o su­premo es­can­carou a porta ao ra­cismo nas pró­ximas elei­ções.

Em causa está, por exemplo, o “Ger­ry­man­de­ring” – a prá­tica de al­terar os mapas dos cír­culos elei­to­rais para ga­rantir mais eleitos. Os Re­pu­bli­canos não in­ven­taram a per­versa arma do “Ger­ry­man­de­ring”, tão an­tiga como a de­mo­cracia bur­guesa, e os De­mo­cratas também a dis­param sempre que o alvo lhes é con­ve­ni­ente. O que aqui há de novo é que, por um lado, o “Ger­ry­man­de­ring” volta a ser no­va­mente usado para ga­rantir que os votos dos ne­gros não contam e que, por outro lado, à me­dida que Trump con­so­lida o do­mínio sobre o apa­relho ju­di­cial, o Par­tido De­mo­crata tem cada vez mais di­fi­cul­dade a ri­postar na mesma moeda. Esta se­mana, por exemplo, o prin­cipal dis­trito elei­toral negro de Memphis, no Ten­nessee, foi dis­sol­vido e dis­tri­buído por três dis­tritos de mai­oria branca e con­ser­va­dora. No Mis­sis­sipi, na Loui­siana e na Vir­ginia, os mapas elei­to­rais também estão a ser re­de­se­nhados no mesmo sen­tido. Con­tra­ri­a­mente, esta se­mana, o Par­tido De­mo­crata viu chum­badas pelos tri­bu­nais quatro ten­ta­tivas de al­terar os mapas a seu favor.

Nos EUA, as elei­ções acon­tecem em dias la­bo­rais (as in­ter­ca­lares, por exemplo, serão numa terça-feira) e só em 21 dos 50 Es­tados os pa­trões são le­gal­mente obri­gados a per­mitir que os tra­ba­lha­dores vão votar sem perda de ven­ci­mento, o que só por si já é ex­tre­ma­mente di­fícil ga­rantir e fis­ca­lizar. Nou­tros sete Es­tados, os tra­ba­lha­dores até podem parar de tra­ba­lhar para irem votar, mas perdem o dia de sa­lário, um con­vite a que os tra­ba­lha­dores mais po­bres não votem. Para pi­orar tudo, a ge­o­grafia dos EUA faz com que votar exija fre­quen­te­mente de­mo­radas e cus­tosas vi­a­gens de carro. Sem sur­presas, a taxa de par­ti­ci­pação dos mais ricos já é ac­tu­al­mente o dobro da dos mais po­bres, que até aqui se de­fen­diam vo­tando por cor­res­pon­dência.

Para tornar o voto dos tra­ba­lha­dores ainda mais di­fícil, Trump quer agora li­mitar quase por com­pleto o voto por cor­reio: deu or­dens ile­gais aos cor­reios pú­blicos para não en­tre­garem cartas com bo­le­tins de voto, ex­cep­tu­ando as dos “elei­tores pré-apro­vados” – por ele, claro está. No mesmo sen­tido, apre­sentou no con­gresso a Lei SAVE, que con­si­derou aliás «pri­o­ri­dade nú­mero um» e que, se avançar, tor­nará obri­ga­tória a apre­sen­tação do pas­sa­porte ou do bo­letim de nas­ci­mento para poder votar, ex­cluindo 21 mi­lhões de elei­tores que nunca ti­veram estes do­cu­mentos. Steve Bannon, ex-con­se­lheiro de Trump, foi mais longe e su­geriu mo­bi­lizar para as mesas de voto o ICE; a in­fame po­lícia mi­gra­tória, para ater­ro­rizar quem tenha ar de imi­grante.

 Avante n.º 2737 (14/05/2026)

https://www.avante.pt/pt/2737//183689
https://www.odiario.info/eleicoes-intercalares-nos-eua-a-trafulhice/

António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA

* António Santos

1. Os Es­tados Unidos têm a maior po­pu­lação pri­si­onal do mundo, com­pondo menos de 5% da hu­ma­ni­dade e mais de 25% da hu­ma­ni­dade presa. Em cada 100 ame­ri­canos um está preso.A subir em flecha desde os anos 80, a sur­real taxa de en­car­ce­ra­mento dos EUA é um ne­gócio e um ins­tru­mento de con­trolo so­cial: à me­dida que o ne­gócio das pri­sões pri­vadas alastra, uma nova ca­te­goria de mi­li­o­ná­rios con­so­lida o seu poder po­lí­tico. Os donos destes cár­ceres são também donos dos es­cravos que tra­ba­lham em fá­bricas dentro da prisão por sa­lá­rios in­fe­ri­ores a 50 cên­timos por hora. Uma mão-de-obra tão com­pe­ti­tiva que muitos mu­ni­cí­pios hoje so­bre­vivem fi­nan­cei­ra­mente das suas pri­sões ca­ma­rá­rias e graças a leis que vul­ga­rizam sen­tenças até 15 anos de prisão por crimes como roubar pas­tilha elás­tica. Os alvos destas leis são in­va­ri­a­vel­mente os mais po­bres, mas so­bre­tudo os ne­gros, que re­pre­sen­tando apenas 13% da po­pu­lação ame­ri­cana, com­põem 40% da po­pu­lação pri­si­onal do país.

2. 22% das cri­anças ame­ri­canas vivem abaixo do li­miar da po­breza.Cal­cula-se que cerca de 16 mi­lhões de cri­anças ame­ri­canas vivam sem «se­gu­rança ali­mentar», ou seja, em fa­mí­lias sem ca­pa­ci­dade eco­nó­mica para sa­tis­fazer os re­qui­sitos nu­tri­ci­o­nais mí­nimos de uma dieta sau­dável. As es­ta­tís­ticas provam que estas cri­anças têm pi­ores re­sul­tados es­co­lares, aceitam pi­ores em­pregos, não fre­quentam a uni­ver­si­dade e têm uma maior pro­ba­bi­li­dade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2014 os EUA in­va­diram ou bom­bar­de­aram 151 países.
São mais os países do mundo em que os EUA já in­ter­vi­eram mi­li­tar­mente do que aqueles em que ainda não o fi­zeram. Nú­meros con­ser­va­dores apontam para mais de oito mi­lhões de mortes cau­sadas pelas guerras im­pe­riais dos EUA só no sé­culo XX. E por de­trás desta lista es­condem-se cen­tenas de ou­tras ope­ra­ções se­cretas, golpes de es­tado e pa­tro­cí­nios a di­ta­dores e grupos ter­ro­ristas. Se­gundo Obama, lau­reado do Nobel da Paz, os EUA têm neste mo­mento mais de 70 ope­ra­ções mi­li­tares se­cretas a de­correr em vá­rios países do mundo. O mesmo pre­si­dente criou o maior or­ça­mento mi­litar de qual­quer país do mundo desde a Se­gunda Guerra Mun­dial, ba­tendo de longe Ge­orge W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE sem di­reito a qual­quer tipo de sub­sídio de ma­ter­ni­dade.
Em­bora estes nú­meros va­riem de acordo com o Es­tado e de­pendam dos con­tratos re­di­gidos pela em­presa, é prá­tica cor­rente que as mu­lheres ame­ri­canas não te­nham di­reito a ne­nhum dia pago antes nem de­pois de dar à luz. Em muitos casos, não existe se­quer a pos­si­bi­li­dade de tirar baixa sem ven­ci­mento. Quase todos os países do mundo con­tem­plam entre 12 e 50 se­manas pagas em li­cença de ma­ter­ni­dade. Os Es­tados Unidos fazem com­pa­nhia à Papua Nova Guiné e à Su­a­zi­lândia com zero se­manas.

5. 125 ame­ri­canos morrem todos os dias por não po­derem pagar o acesso à saúde.
Quem não tiver se­guro de saúde (como 50 mi­lhões de ame­ri­canos não têm) tem boas ra­zões para re­cear mais a am­bu­lância do que o ino­cente ataque car­díaco. Com vi­a­gens de am­bu­lância a cus­tarem em média 500 euros, a es­tadia num hos­pital pú­blico mais de 200 euros por noite e a mai­oria das ope­ra­ções ci­rúr­gicas si­tu­adas nas de­zenas de mi­lhares, é bom que se possa pagar um se­guro de saúde pri­vado.

6. Os EUA foram fun­dados sobre o ge­no­cídio de 10 mi­lhões de na­tivos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mu­lheres em re­servas ín­dias foram es­te­ri­li­zadas contra sua von­tade pelo go­verno.
Es­queça a his­tória do Dia de Acção de Graças, com ín­dios e co­lonos a par­ti­lhar pa­ca­ta­mente um peru. A his­tória dos EUA co­meça no pro­grama de er­ra­di­cação dos ín­dios: du­rante dois sé­culos, os na­tivos foram per­se­guidos e as­sas­si­nados, des­po­jados de tudo e em­pur­rados para mi­nús­culas re­servas de terras in­fér­teis, em li­xeiras nu­cle­ares e sobre solos con­ta­mi­nados. Em pleno sé­culo XX, os EUA pu­seram em marcha um plano de es­te­ri­li­zação for­çada das mu­lheres na­tivas, pe­dindo-lhes para as­si­narem for­mu­lá­rios es­critos num língua que não com­pre­en­diam, ame­a­çando-as com o corte de sub­sí­dios ou, sim­ples­mente, cor­tando-lhes o acesso à saúde.

7. Todos os imi­grantes são obri­gados a jurar não serem co­mu­nistas para po­derem viver nos EUA.
Para além de ter que jurar que não é um agente se­creto nem um cri­mi­noso de guerra nazi, vão-lhe per­guntar se é ou al­guma vez foi membro do «Par­tido Co­mu­nista», ou se de­fende in­te­lec­tu­al­mente al­guma or­ga­ni­zação con­si­de­rada «ter­ro­rista». Se res­ponder que sim a qual­quer destas per­guntas, pode ser-lhe ne­gado o di­reito de viver e tra­ba­lhar nos EUA por «prova de fraco ca­rácter moral».

8. O preço médio de uma li­cen­ci­a­tura numa uni­ver­si­dade pú­blica é 80 000 dó­lares.
O En­sino Su­pe­rior é uma au­tên­tica mina de ouro para os ban­queiros. Vir­tu­al­mente todos os es­tu­dantes têm dí­vidas as­tro­nó­micas que, acres­cidas de juros, le­varão em média 15 anos a pagar. Du­rante esse pe­ríodo, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dí­vidas, sendo amiúde for­çados a con­trair novos em­prés­timos para pagar os an­tigos. Entre 1999 e 2014, a dí­vida total dos es­tu­dantes es­tado-uni­denses as­cendeu a 1.5 tri­liões de dó­lares, su­bindo uns as­sus­ta­dores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 ame­ri­canos, há nove armas de fogo.
Não é de es­pantar que os EUA levem o pri­meiro lugar na lista dos países com a maior co­lecção de armas. O que sur­pre­ende é a com­pa­ração com o resto do mundo: no resto do pla­neta há uma arma para cada 10 pes­soas. Nos Es­tados Unidos, nove para cada 10. Nos EUA po­demos en­con­trar 5% de toda a hu­ma­ni­dade e 30% de todas as armas, qual­quer coisa como 275 mi­lhões.

10. São mais os ame­ri­canos que acre­ditam no Diabo do que aqueles que acre­ditam em Darwin.
A mai­oria dos ame­ri­canos são cép­ticos, pelo menos no que toca à te­oria da evo­lução, em que apenas 40% da po­pu­lação acre­dita. Já a exis­tência de Sa­tanás e do in­ferno soa per­fei­ta­mente plau­sível a mais de 60% dos ame­ri­canos. Esta ra­di­ca­li­dade re­li­giosa ex­plica as «con­versas diá­rias» do ex-pre­si­dente Bush com Deus e mesmo as ines­go­tá­veis di­a­tribes sobre a na­tu­reza te­o­ló­gica da fé de Obama.

Avante n.º 2105 (3/04/2014)
https://www.avante.pt/pt/2105//129683

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais

*  Daniel Oliveira

A Anthropic recusou permitir o uso da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo será tecnológico

12 março 2026  

Enquanto o mundo acompanha a guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA), criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proi­bição de vigilância em massa dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar guerras.

A resposta da Administração foi declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem, como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.

Ninguém compra um tanque e aceita que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump. Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic, que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos. Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.

Roberto Schmidt/Getty Images

As leis, os regulamentos e as salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos. Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.

Já sabemos que chegue para perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento so­cial. Temo que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido, deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será tecnológico. E ele aí está.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-12-a-gestapo-e-a-stasi-globais-1bcaf1a4

terça-feira, 3 de março de 2026

Michael Hudson - Da negociação à detonação



– O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história.
– Podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial.
– O ataque dos EUA pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado.
– Momento propício para a transferir a sede da ONU para fora dos próprios Estados Unidos.
– Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

Michael Hudson [*]

Na última sexta-feira, o mediador das negociações nucleares entre os EUA e o Irão em Omã, o ministro das Relações Exteriores daquele país, Badr Albusaidi, desmascarou a pretensão enganosa do presidente Trump de ameaçar uma guerra com o Irão. Porquê? Porque este país havia recusado as suas exigências de desistir do que ele alegava ser a sua própria bomba atómica. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã explicou no programa Face the Nation da CBS que a equipa iraniana concordou em não acumular urânio enriquecido e ofereceu "uma verificação completa e abrangente pela AIEA". Esta nova concessão foi um "avanço nunca antes alcançado. E acho que, se conseguirmos aproveitar isso e construir sobre essa base, acho que um acordo está ao nosso alcance“ para alcançar ”um acordo de que o Irão nunca, jamais terá material nuclear que possa ser usado para fabricar uma bomba. Acho que isso é uma grande conquista".

Salientando que este avanço "foi muito ignorado pelos meios de comunicação social", ele enfatizou que exigir "zero armazenamento" foi muito além do que havia sido negociado durante o governo do presidente Obama, porque "se não se pode armazenar material enriquecido, não há como realmente criar uma bomba".

O aiatolá Ali Khamenei — que já havia emitido uma fatwa contra tal ato e repetido essa posição ano após ano — convocou os líderes xiitas e o chefe militar do Irão para discutir a ratificação do acordo de cessar o controle do urânio enriquecido, a fim de evitar uma guerra.

Mas tal capitulação era precisamente o que nem os Estados Unidos nem Israel podiam aceitar. Uma resolução pacífica teria impedido o plano de longo prazo dos EUA de consolidar e militarizar o seu controlo sobre o petróleo do Médio Oriente, o seu transporte e o investimento das suas receitas de exportação de petróleo, e de usar Israel e a Al Qaeda/ISIS como seus exércitos clientes para impedir que os países produtores de petróleo independentes agissem em seus próprios interesses soberanos.

A inteligência israelense aparentemente alertou as forças armadas dos EUA, sugerindo que a reunião no complexo do aiatolá oferecia uma grande oportunidade para decapitar todos os principais tomadores de decisão. Isto seguiu o conselho do manual militar dos EUA de que matar um líder político que os EUA consideram antidemocrático libertará os sonhos populares de mudança de regime. Essa era a esperança do bombardeamento da residência de campo do presidente Putin no mês passado, e estava em linha com a recente tentativa dos EUA de mobilizar a oposição popular para a revolução no Irão.

O ataque conjunto dos EUA e israelenses deixa claro que não havia nada que o Irão pudesse ter concedido que tivesse dissuadido a longa campanha dos EUA para controlar o petróleo do Médio Oriente, juntamente com o uso de Israel e dos exércitos clientes do ISIS/Al Qaeda a fim de impedir que nações soberanas da região emergissem e assumissem o controlo das suas reservas de petróleo. Esse controlo continua a ser um braço essencial da política externa dos EUA. É a chave para a capacidade dos EUA de prejudicar outras economias, negando-lhes acesso à energia se não aderirem à política externa dos EUA. Essa insistência em bloquear o acesso do mundo a fontes de energia que não estejam sob o controlo americano é a razão pela qual os EUA atacaram a Venezuela, a Síria, o Iraque, a Líbia e a Rússia.

O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história. O objetivo era impedir a intenção do Irão de avançar para a paz, antes que os seus líderes pudessem refutar a falsa alegação de Trump de que o Irão se recusara a desistir do seu desejo de obter a sua própria bomba atómica.

Seria interessante saber quantos dos colaboradores de Trump apostaram alto em que os preços do petróleo iriam disparar quando os mercados abrissem na segunda-feira de manhã.

Na semana passada, os mercados subestimaram enormemente o risco de fechar o Golfo do Petróleo. As empresas petrolíferas americanas vão lucrar muito. A China e outros importadores de petróleo vão sofrer. Os especuladores financeiros americanos também vão lucrar muito, porque a sua produção de petróleo é interna. Este facto pode até ter desempenhado um papel na decisão dos EUA de acabar com o acesso mundial ao petróleo do Médio Oriente por um período que promete ser longo.

A perturbação comercial e financeira será, de facto, tão mundial que penso que podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial. Para a maior parte do mundo, a crise financeira iminente (para não falar da indignação moral) definirá a próxima década de reestruturação política e económica internacional.

Os países europeus, asiáticos e do Sul Global não conseguirão obter petróleo, exceto a preços que tornarão muitas indústrias não rentáveis e muitos orçamentos familiares inviáveis. O aumento dos preços do petróleo também tornará impossível para os países do Sul Global pagar as suas dívidas em dólares vencidas aos detentores de títulos ocidentais, bancos e ao FMI.

Os países só poderão evitar a imposição de austeridade interna, desvalorização da moeda e inflação se reconhecerem que o ataque dos EUA (apoiado pela Grã-Bretanha e pela Arábia Saudita, com a aquiescência ambígua da Turquia) pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado. Se isso não for reconhecido, a aquiescência continuará até se tornar insustentável em qualquer caso.

Se esta é a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial, é, em muitos aspetos, uma batalha final para decidir o que foi a Segunda Guerra Mundial. Será que o direito internacional entrará em colapso como resultado da relutância de um número suficiente de países em proteger as regras do direito civilizado que sustentam os princípios da soberania nacional livre de interferência estrangeira e coerção, desde a Paz de Westfália de 1648 até à Carta das Nações Unidas? E no que diz respeito às guerras que inevitavelmente serão travadas, elas pouparão civis e não beligerantes, ou serão como o ataque da Ucrânia à sua população de língua russa nas províncias orientais, o genocídio de Israel contra a etnia palestina, a limpeza religiosa wahabi das populações árabes não sunitas, ou mesmo as populações iraniana, cubana e outras sob ataque patrocinado pelos EUA?

Será que as Nações Unidas podem ser salvas sem se libertarem a si próprias e aos seus países membros do controlo dos EUA? Um teste decisivo inicial para saber onde as alianças se estão a formar será quais os países que se juntarão à ação legal para declarar Donald Trump e o seu gabinete criminosos de guerra. É necessário algo mais do que o atual TPI, dados os ataques pessoais do governo dos EUA aos juízes do TPI que consideraram Netanyahu culpado.

O que é necessário é um julgamento à escala de Nuremberga contra a política militar ocidental que tem procurado mergulhar o mundo inteiro no caos político e económico se este não se submeter à ordem unipolar dos EUA. Se outros países não criarem uma alternativa à ofensiva dos EUA, Europa, Japão e Wahabi, sofrerão o que o secretário de Estado dos EUA, Rubio, chamou (em seu recente discurso em Munique) de ressurgimento da história ocidental de conquista [com o abandono] dos princípios básicos do direito internacional e da equidade.

Uma alternativa requer a reestruturação das Nações Unidas para acabar com a capacidade dos EUA de bloquear resoluções da maioria. Tendo em conta que o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização poderá estar falida em agosto e ter de fechar a sua sede em Nova Iorque, este é um momento propício para a transferir para fora dos próprios Estados Unidos. Os EUA proibiram Francesca Albanese de entrar no país devido ao seu relatório que descreve o genocídio israelense em Gaza. Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

02/Março/2026

https://resistir.info/m_hudson/detonacao_02mar26.html

Dani,el Vaz de Carvalho -Assim estalou a guerra

3 de março de 2026

"Negociámos com os Estados Unidos duas vezes nos últimos 12 meses, e em ambos os casos, eles atacaram-nos no meio da negociação - disse o MNE do Irão. E assim estalou a guerra. Como terminará?Desde há mais de 30 anos que Israel afirma que o Irão está "a semanas" de ter uma arma nuclear. Quando se trata da intoxicação da opinião pública, não conta o facto de Ali Khamenei ter assumido através de uma fatwa (regra baseada na lei islâmica) o compromisso do Irão de não construir uma bomba nuclear.

O objetivo traçado também há mais de 30 anos é o império dominar o Médio Oriente, perante isto, não contam as vidas dos palestinos nem dos países recalcitrantes a serem submetidos. A questão pôs-se agora com maior acuidade dada a multipolaridade estabelecida. O plano global anti multipolaridade impunha fazer cair o Irão, enfraquecer a Rússia e a China, desarticular o Sul Global e dominar as fontes energéticas.

Que o principal oponente de uma bomba nuclear iraniana tenha sido morto num ataque direcionado, faz parte do esquema. Gente que clama por direitos humanos e direito internacional, refere extasiado o que não passou de um cobarde assassinato no decorrer de negociações. 

Na manhã de sábado, reuniram em Teerão os principais membros da liderança iraniana para avaliarem o andamento das negociações e cedências feitas. Os EUA bombardearam a reunião, matando altos funcionários e o líder supremo Ali Khamenei, provando que as suas negociações são simplesmente uma arma dos objetivos de domínio.

Os grandes media têm por missão a formatação das mentes dentro do padrão estabelecido. Assim, o que quer que o império realize é à partida aceitável e mesmo que existam algumas reticências vêm acompanhadas de um "mas" justificativo

Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão fazem simplesmente parte do plano para remodelar o Médio Oriente a seu contento. Para submeter o Irão duas opções foram consideradas: o esquema venezuelano e o esquema sírio. O esquema venezuelano, supunha que eliminando o dirigente máximo e seus próximos o que restasse iria pedir a continuação das "negociações", por assim dizer de "baraço ao pescoço". Falhou.

A opção síria, implica um guerra civil de separatismo e focos de insurgência, como se viu antes, organizados pela CIA e Mossad, baseada na sedução por modelos ocidentais. Os focos de insurgência foram desmantelados, o separatismo agressivo só surgirá se as forças armadas iranianas forem decisivamente enfraquecidas. Resta uma terceira hipótese que Rubio disse que "para já" não se coloca: é a opção Afeganistão. Sem comentários...

Ora estas opções estratégicas dos EUA, encontram um Irão preparado para elas. Afirma o MNE do Irão: "Tivemos duas décadas para estudar as derrotas do exército dos EUA no nosso leste e oeste imediatos", referindo-se ao Afeganistão e ao Iraque. "Incorporámos lições em conformidade. Os bombardeamentos na nossa capital não têm impacto na nossa capacidade de conduzir guerra. A Defesa Mosaica descentralizada permite-nos decidir quando - e como - a guerra terminará".

A Defesa Mosaica é a abordagem de guerra assimétrica do IRGC para combater forças inimigas superiores. Inclui a delegação de autoridade de decisão significativa a comandantes locais (31 unidades autónomas), permitindo que as operações continuem mesmo que o comando central tenha sido decapitado. As táticas estabelecidas incluem a utilização da geografia do Irão (montanhas, desertos, mares), guerrilha, ataques surpresa e ações para perturbar as linhas de abastecimento inimigas. Cada unidade regional é praticamente autónoma com tudo o que é necessário para a guerra moderna, mísseis, drones, barcos de ataque rápido, baterias de defesa costeira, para a Marinha do IRGC. Defesa aérea integrada descentralizada permite a baterias individuais funcionarem como centros de defesa aérea locais. Note-se que o Irão tem uma superfície 1,648 milhões de km2 praticamente o dobro da França e Alemanha juntas e 93 milhões de habitantes.

Outros princípio da Defesa em Mosaico: silêncio de rádio e comunicações, para neutralizar as capacidades de guerra eletrónica dos EUA. Implantação de milícias voluntárias Basij (mais de 450 efetivos) para segurança interna, além de guerrilha de na retaguarda inimiga e defesa em profundidade no caso de uma incursão inimiga por terra.

Os media israelitas afirmam que Trump atacou o Irão para tentar suavizá-los para as negociações. Na véspera da agressão os estrategas militares dos EUA alegadamente esperavam um cenário de "pequena guerra decisiva", no qual os bombardeamentos seriam rapidamente seguidos por negociações de paz. De acordo com um relatório israelita, o planeamento dos EUA na véspera do ataque - ou pelo menos o que Nethanyau convenceu Trump - era para uma "operação de 4-5 dias" que "traria um Irão enfraquecido de volta à mesa de negociações".

Agora muitos começam a perceber que atacar o Irão foi uma "aposta excessiva" e que sem tropas no terreno as esperanças de mudança de regime não são possíveis.

O Irão resiste aos bombardeamentos e retalia não menos violentamente, os petroleiros estão parados no Golfo, há baixas dos EUA nas bases, grande aumento dos preços da energia, risco dos EUA e Israel ficarem sem intercetores à medida que o Irão intensifica os ataques e dos navios - mesmo porta-aviões - serem atingidos.

Publicada por Daniel Vaz de Carvalho à(s) terça-feira, março 03, 2026 

https://foicebook.blogspot.com/2026/03/assim-estalou-guerra.html#more

domingo, 1 de março de 2026

Ricky - Estamos mesmo fingindo que o atentado a bomba da turma de Epstein ...

Nexo anti-imperialista

Estamos mesmo fingindo que o atentado a bomba da turma de Epstein em uma escola para meninas iranianas conta como libertação das mulheres?

01 de março de 2026

Uma guerra ilegal para desviar a atenção da pedofilia está sendo vendida como "libertação" por setores da mídia, num colapso total da ética jornalística. O Washington Post publicou um artigo de opinião de Reza Pahlavi, autoproclamado "Príncipe Herdeiro" do Irã, declarando que "a hora da sua liberdade está próxima". Parece que ninguém no Post se lembrou de perguntar aos iranianos se eles gostariam de um Príncipe Herdeiro, e eu aqui pensando que isso era sobre democracia.

A Operação Fúria Épica já se tornou um desastre humanitário, ceifando centenas de vidas inocentes e arriscando uma guerra regional de maior escala. O Príncipe Palhaço do Crime deve estar se deliciando com as paisagens urbanas em chamas por todo o Oriente Médio, cortesia da classe de Epstein. Provavelmente não haverá vencedores, mas enquanto Pahlavi continuar reinando sobre os escombros...

Os israelenses estão escondendo a dimensão da destruição e mal mencionando as mortes de civis, mas as evidências sugerem que o número de vítimas é muito maior do que o admitido . De alguma forma, Israel subestimou novamente a capacidade de retaliação do Irã. É difícil ter compaixão pelos israelenses encolhidos em bunkers quando essa situação é inteiramente autoinfligida. O que quer que estejam sofrendo agora é mil vezes menor do que já infligiram a outros.

Se ao menos a mídia tivesse abordado o assunto dessa forma, em vez de retratar israelenses e americanos como vítimas. O New York Times publicou uma matéria sobre as dificuldades enfrentadas pelos israelenses que se refugiaram em abrigos antiaéreos, como se os palestinos não tivessem passado mais de dois anos caminhando pelo país com barracas. Uma jornalista da MSNBC se expôs ao ridículo ao perguntar ao ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi: “Como o senhor justifica atacar bases militares americanas?”. Sua resposta foi simples: “Porque vocês estão nos atacando”.

O jornalismo ocidental tornou-se uma piada. Ele simplesmente oferece diferentes versões de propaganda, adaptadas aos nossos preconceitos, enquanto nos conduz a uma versão "woke" ou "anti-woke" do imperialismo.

Eis o contexto adequado para esta guerra: os ataques ilegais deste império violaram a soberania do Irã e destruíram famílias, enquanto seu luto é reembalado como libertação. Os autoproclamados salvadores das mulheres iranianas acabaram de bombardear uma escola para meninas, para vocês terem uma ideia. Nada do que a classe de Epstein diz deve ser levado a sério.

A afirmação de Trump sobre o Irã estar construindo armas nucleares que poderiam atingir os EUA é um absurdo desprezível. Seus próprios assessores não conseguem manter uma versão coerente dos fatos — alguns dizem que as instalações nucleares foram "destruídas" em 2025, enquanto outros gritam que o ataque nuclear é iminente. Não pode ser as duas coisas.

As mesmas vozes que clamavam contra a brutalidade iraniana para justificar a mudança de regime agora estão transformando as cidades iranianas em Gaza. Não se trata de uma operação de precisão, mas sim de um bombardeio indiscriminado que ultrapassou todos os limites. Nada ilustra melhor essa depravação do que o ataque à escola primária feminina Shajareh Tayyebeh. Três mísseis disparados contra um único prédio escolar não é um erro. Pelo menos 148 inocentes foram mortos no ataque e 95 ficaram feridos — a maioria meninas de 7 a 12 anos.

Imagens mostram equipes de resgate retirando mochilas e livros escolares dos destroços: os sonhos de uma geração destruídos por ocidentais que odeiam o hijab. Em nome dessas meninas, posso dizer: que se dane a sua libertação?

Isso não foi dano colateral, foi um crime de guerra flagrante. De acordo com as Convenções de Genebra e a Carta da ONU, ataques contra infraestrutura civil são proibidos. Autoridades iranianas denunciaram o ataque como um "crime atroz", enquanto os militares dos EUA disseram que estavam "investigando" as denúncias. É uma questão de tempo até que o exército de Epstein se inocente.

Esta guerra não começou porque o Irã se recusou a fazer concessões; começou porque estava pronto para aceitar um acordo nuclear. As negociações em Genebra e Omã, no início de fevereiro, estavam fadadas ao fracasso devido às crescentes exigências para que o Irã desmantelasse seu programa de mísseis e rompesse relações com seus aliados.

Já vimos essa estratégia antes: os EUA e Israel atacam durante as negociações e culpam o outro lado porque um acordo é a última coisa de que o Projeto do Grande Israel precisa. Tel Aviv decidiu que a guerra era sua última chance de enfraquecer seu maior rival antes que o desenvolvimento de mísseis e drones do Irã estabelecesse uma dissuasão real.

Não vamos esquecer que o Irã não invade outro país há séculos. Todos sabemos que Israel tem uma arma com balas em formato de kompromat apontadas para a cabeça de Trump. Ele concordou em sacrificar seus próprios homens e mulheres para se salvar. Que sujeito.

A vitória parece improvável para ambos os lados e o custo da guerra será enorme. As forças americanas e israelenses lançaram quase 900 ataques aéreos em todo o Irã, visando instalações militares, prédios governamentais e complexos de lideranças. Explosões abalaram Teerã, Tabriz e províncias do sul. Imagens de satélite mostram fumaça subindo de instalações importantes, mas o Irã está revidando com força . Foto após foto mostra bases americanas reduzidas a escombros. Uma base de radar que custou US$ 1,1 bilhão foi destruída no Catar — os americanos sem plano de saúde arcarão com os custos.

Toda essa destruição levanta a questão de se as baixas americanas estão sendo ocultadas. Até o momento, os relatos mencionam pelo menos três militares americanos mortos e outros feridos nos primeiros dias, mas esse número parece muito baixo. Meu palpite é que o número real de mortos provocaria a fúria do público americano.

Centenas de iranianos morreram nas primeiras doze horas, entre eles altos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e — o mais chocante — o aiatolá Ali Khamenei . Ao contrário de Netanyahu, que embarcou em um avião, Khamenei permaneceu com seu povo até o fim. Chame-o do que quiser, mas essa é a diferença entre um líder nativo e um colonizador.

O presidente dos EUA, cujo nome consta mais de um milhão de vezes nos arquivos de Epstein, vangloriou-se no Truth Social por ter assassinado um chefe de Estado — seu mais recente crime de guerra. O pedófilo, que está cometendo o crime de agressão supremo, chamou o aiatolá Khamenei de "uma das pessoas mais perversas da história". A ironia acaba de morrer.

Os EUA assassinaram o líder que emitiu uma fatwa proibindo armas nucleares, logo depois de o próprio Trump ter rompido o acordo nuclear. Talvez se o aiatolá tivesse demonstrado "respeito pelos direitos das mulheres" viajando até a ilha de Epstein, ele ainda estaria vivo. Parece que seu verdadeiro crime foi trilhar um caminho independente para seu povo em vez de se juntar à rede comprometida.

Se você pensa que o Irã vai simplesmente se render, pense novamente. O Irã promete ataques "sem precedentes", potencialmente usando aliados como o Hezbollah ou os Houthis para uma guerra assimétrica. Seus mísseis hipersônicos Fattah-2 teriam sido usados ​​pela primeira vez, sinalizando o desafio tecnológico do Irã. Imagens nas redes sociais mostraram explosões em Tel Aviv e um importante clérigo xiita emitiu uma fatwa prometendo "golpes terríveis". Embora eu não tenha certeza se o Irã pode vencer esta guerra, certamente pode causar danos enormes.

O número de vítimas aumenta nos países do Golfo, aeroportos estão fechados e turistas estão retidos, incluindo celebridades ocidentais que publicam vídeos das explosões nas redes sociais. A economia dos Emirados Árabes Unidos, baseada no turismo e nos investimentos, depende da estabilidade e agora pode sofrer um duro golpe. Uma coisa que o império sabe fazer é prejudicar seus aliados.

As consequências da Guerra Epstein são devastadoras, com milhares de mortos e feridos, como as meninas de Minab cujos futuros foram roubados num instante. O fluxo de refugiados pode aumentar drasticamente e será interessante observar os defensores da guerra exigindo que eles voltem para casa. Economicamente, as remessas de petróleo pelo Estreito de Ormuz foram interrompidas , o que representa um risco de crise financeira global. Independentemente de outras nações serem arrastadas para um conflito maior, todos nós sentiremos o impacto. Se o seu custo de vida aumentar, culpe a classe de Epstein. Se a convocação para o serviço militar chegar, revolte-se.

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