Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 5 de novembro de 2026
António Santos - Se isto é uma democracia
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Daniel Oliveira - A barbárie de novo, agora em direto
* Daniel Oliveira
Após a execução falhada de
Christa Pike, o Tennessee tenta melhorar as condições de execução, repetindo a
ilusão do homicídio "humano" num estado que confunde justiça com
vingança. Nos EUA, o apoio público à pena de morte caiu para níveis mínimos em
meio século, mas o poder político aumentou o número de execuções. O ódio chegou
ao poder e até pensa transmitir um fuzilamento. Nesta matéria, os EUA continuam
a ser o farol da barbárie
Sónia Sapage - Uma execução em directo é um retrocesso civilizacional
“Eu apoio totalmente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem”, escreve o republicano Austin Scott nas redes sociais. “A América é melhor do que isso.”
Há uma semana, o Pentágono anunciou que irá transmitir em directo (streaming), no dia 3 de Dezembro, às 13h, a execução por fuzilamento de um militar condenado a pena de morte pelo massacre de Fort Hood, no Texas, do qual resultaram 13 mortos e 32 feridos, em 2009.
Nidal Malik Hasan, major e psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, especialista em stress pós-traumático, tinha 39 anos quando concretizou o ataque. Durante o julgamento, declarou-se culpado e assumiu a sua adesão aos ideais da jihad (guerra santa). “Eu estava no lado errado, mas mudei de campo”, justificou.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Filipe Diniz - Num mesmo dia [11 de Setembro]
sábado, 8 de agosto de 2026
Entrevista a Augusto Santos Silva (2026)
Nota prévia - Essa extensa entrevista é um espelho do chorrilho de mistificações e de contradições que percorrem o labirinto dos defensores do capitalismo, essencialmente autofágico e predador, sem remissão (Victor Nogueira)
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Augusto Santos Silva:
"Trump está num estado que considero quase demencial. Temos hoje a maior
potência do mundo nas mãos de corruptos, ineptos e moralmente
desqualificados"
30 jul, 2026
ENTREVISTA || A guerra no Irão
confirmou, para Augusto Santos Silva, que o principal problema do Ocidente já
não está apenas em Moscovo, Teerão ou Pequim: está também em Washington. O
antigo presidente da Assembleia da República e ex-ministro dos Negócios
Estrangeiros e da Defesa acusa Donald Trump de agir sem qualquer racionalidade
estratégica e de estar a “destruir as bases morais da nossa defesa militar”,
enquanto a Europa responde com apaziguamento e submissão. Nesta entrevista,
classifica a ofensiva contra o Irão como uma agressão ilegal, sem absolver
Teerão da resposta militar, contesta a meta dos 5% do PIB para a defesa,
critica a posição portuguesa sobre a Base das Lajes e denuncia a “conduta
miserável” da Europa perante a Palestina
A guerra começou “com três
fanáticos”, mas, quatro meses depois, Augusto Santos Silva já não os vê no
mesmo lugar. Donald Trump, sustenta, “deixou de dirigir a guerra e passou a ser
dirigido por ela”, mudando de objetivos “como quem muda de camisa” e conduzindo
os Estados Unidos “para um atoleiro” sem saída política.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Manuel Loff - A “ameaça” comunista
* Manuel Loff
Desengane-se
quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte
de futuro.
Na véspera da comemoração dos 250 anos da
Revolução Americana, Trump decidiu retomar a velha máxima macarthista de que “o
comunismo é a maior ameaça ao nosso país, incluindo as duas guerras mundiais,
Pearl Harbor ou até o 11 de setembro” (CNN. 3.7.2026). Tal como quando, nos
anos 50, McCarthy tinha organizado a campanha mais agressiva da história dos
EUA contra esquerda norte-americana, não é simplesmente no contexto do momento
(início da Guerra Fria, o avanço dos novos “socialistas democráticos” que ganham
hoje apoio popular) que há que interpretar o regresso do anticomunismo como
discurso agregador. O que McCarthy então e Trump hoje fazem é reproduzir as
mesmas teses com que o fascismo da sua época clássica descreveu o comunismo, “o
maior problema humano de todos os tempos”, como dizia Salazar.
Para a historiadora Ruth Ben-Ghiat, “a nova
linha [trumpista] consiste em associar os comunistas a todos os crimes, a todas
as infrações” para “criar uma sensação de ameaça comunista para justificar a
repressão. É o velho manual utilizado em golpes de Estado e tomadas de poder
pelos fascistas.” Para os fascistas dos anos 30 e 40, para quem era de moda a
tese de que o marxismo era "o filho mais velho do liberalismo",
barrar o caminho do comunismo passava por prescindir dos sistemas liberais e
impor novas fórmulas autoritárias.
As direitas retomam o anticomunismo como
discurso mobilizador sempre e quando a resistência social que se lhes opõe o
justifica. A hegemonia das classes historicamente dominantes nas Américas
sustentou-se sempre sobre uma violência simultaneamente classista e racial, o
que faz com que todos os projetos políticos alternativos, desde a radicalidade
da Revolução Cubana, até às muitas variantes da “onda rosa” dos governos Lula,
Chávez, Kirchner, Morales, sejam descritos com tons apocalípticos.
Num recente relatório do Departamento de
Estado, Cuba é descrita como a “capital do comunismo do século XXI", capaz
de criar “uma infraestrutura revolucionária concebida para virar a América
contra si própria”. Por mais que os últimos processos eleitorais na América
Latina (Chile, Colômbia, Peru) confirmem uma dramática viragem fascizante, em
sintonia com as direitas cubanas e venezuelanas no exílio, Trump tem com que se
preocupar. Uma sondagem divulgada em março revelou que o apoio ao socialismo
está a crescer, com 38% dos inquiridos (incluídos a grande maioria dos votantes
democratas, jovens e afro-americanos) a favor de que os EUA “se afastem do
capitalismo”.
Em setembro de
2025, a Gallup detetara já que 66% dos eleitores democratas preferiam o
socialismo ao capitalismo. Surpresa? Talvez não: as mesmas sondagens davam
resultados semelhantes a meio do primeiro mandato de Trump, o que significa que
o triunfo político dos Musks deste mundo favorece alguma consciência crítica do
capitalismo – da mesma forma que o genocídio que os israelitas praticam
impunemente na Palestina ou o desvario belicista a que assistimos nos últimos
anos está a exigir voltar a discutir o que é o imperialismo e o belicismo como
lógicas de governo mundial.
Desengane-se
quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte
de futuro.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo
quinta-feira, 30 de julho de 2026
A América que é grande
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?
* Daniel Oliveira
"A shining city upon a
hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os
visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo
acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas
tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos
sobre o maior mito político do século XX
"City upon a hill." A
expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop
usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan
ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os
Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar.
Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com
uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para
isso.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra
sábado, 23 de maio de 2026
António Santos - Eleições intercalares nos EUA: a trafulhice é a lei
António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA
sábado, 14 de março de 2026
Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais
* Daniel Oliveira
A Anthropic recusou permitir o uso
da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão
humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá
consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo
será tecnológico
12 março 2026
Enquanto o mundo acompanha a
guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais
profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA),
criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas
e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proibição de vigilância em massa
dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão
humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de
esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar
guerras.
A resposta da Administração foi
declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma
designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem,
como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que
nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a
Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é
a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a
guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo
Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado
pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi
com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no
Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento
que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.
Ninguém compra um tanque e aceita
que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump.
Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com
consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic,
que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são
na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A
Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar
imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a
contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada
norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra
que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir
conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos.
Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.
Roberto Schmidt/Getty Images
As leis, os regulamentos e as
salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não
controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e
ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos
construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos.
Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para
não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um
contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do
concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta
insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio
nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas
mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização
de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis
acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.
Já sabemos que chegue para
perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade
impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas
levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento social. Temo
que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade
existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o
seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não
formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e
aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as
escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas
mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A
diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um
suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido,
deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma
construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será
tecnológico. E ele aí está.

